O Último Magnata

F. Scott Fitzgerald · Capítulo 2 de 2 · parte 1/6

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O Último Magnata

O Último Magnata

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

1

 

Embora nunca tenha aparecido na tela, eu cresci no cinema. Rodolfo Valentino esteve na festa do meu quinto aniversário — pelo menos foi o que me contaram. Só escrevo isso para indicar que, mesmo antes de me entender por gente, já estava a postos para ver girar as engrenagens.

Certa vez inventei de escrever um livro de memórias, A filha do produtor, mas aos dezoito anos nunca se vai muito longe numa empreitada dessas. Menos mal — ficaria sem graça como um velho artigo de Lolly Parsons. Meu pai trabalhava na indústria do cinema do mesmo jeito que outros pais labutavam na de algodão ou na de aço, e eu encarava isso com tranquilidade. Se me aborrecia, era com resignação, como um fantasma que aceita a casa assombrada para a qual foi designado. Tinha consciência do que as pessoas deviam pensar, mas me mantinha obstinadamente inabalada.

Algo fácil de falar, mas difícil de fazer as pessoas entenderem. Quando estudei em Bennington, alguns dos professores de literatura que fingiam indiferença a Hollywood e seus produtos na verdade os odiavam. E odiavam profundamente, como se aquilo fosse uma ameaça à sua existência. Ainda antes disso, no tempo em que estive num colégio de freiras, uma delas, pequenina e amável, me perguntou se eu não lhe arranjava um roteiro para ela “dar uma aula de escrita para cinema”, assim como já dera as de ensaio e conto. Consegui o roteiro para a freira, e acho que ela se debruçou sobre ele por um bom tempo, mas nunca o mencionou em sala e acabou por devolvê-lo para mim, com um ar de surpresa indignada, sem fazer nenhum comentário. É mais ou menos a reação que prevejo para esta história.

Pode-se passar incólume por Hollywood, como eu fiz, ou desprezá-la com o ódio que reservamos àquilo que não entendemos. Pode-se também entendê-la, mas apenas vagamente, e em flashes. Não chega a uma dúzia o número de homens que algum dia foram capazes de ter na cabeça a equação completa do cinema. E talvez tentar entender um desses homens é o mais próximo disso que uma mulher pode chegar.

O mundo visto de um avião, isso eu conhecia. Meu pai sempre nos embarcava num deles para as idas e vindas da escola e da faculdade. Depois que minha irmã morreu, eu, um pouco solene e melancólica, pensava nela a cada um desses trajetos, que passei a fazer sozinha, sendo ainda uma menina. Algumas vezes havia gente do cinema a bordo, e de vez em quando algum universitário bonitão — mas isso não era muito frequente durante a Depressão. Quase nunca conseguia dormir de verdade nos voos, e como poderia, com o pensamento em Eleanor e a sensação daquela fenda abrupta entre uma costa e outra? — era como me sentia pelo menos até que deixássemos para trás aqueles pequenos e solitários aeroportos do Tennessee.

Aquele voo estava tão turbulento que os passageiros logo se dividiram em dois grupos, aqueles que apagaram logo de saída e aqueles que não queriam, de jeito nenhum, adormecer. Dois desses últimos ocupavam as poltronas do outro lado do corredor, e tive quase certeza, pelos pedaços de conversa, que eram de Hollywood — um deles porque a aparência levava a crer nisso: judeu de meia-idade, falava com um nervosismo excitado ou então caía num silêncio angustiante, encolhido como se pronto a levantar de um salto; o outro era um sujeito pálido e atarracado, tipo comum de uns trinta anos, e que eu tinha certeza de já ter visto antes. Devia ter ido lá em casa alguma vez ou coisa do tipo. Mas talvez, naquela ocasião, eu fosse apenas uma menininha, de modo que não me ofendi por ele não ter me reconhecido.

A aeromoça — alta, bonita, uma morena radiante, tipo aparentemente muito apreciado — me perguntou se podia preparar meu lugar para que eu dormisse.

“… e, querida, você quer uma aspirina?” Ela se debruçou na lateral da poltrona, precariamente apoiada enquanto chacoalhava de um lado para o outro em meio à tempestade. “… ou um nembutal?”

“Não.”

“Estava tão ocupada com os outros que nem tive tempo de perguntar.” Ela sentou ao meu lado e afivelou o cinto de ambas. “Quer um chiclete?”

A pergunta me lembrou que eu precisava me livrar daquele que estava na minha boca, já sem gosto, havia horas. Embrulhei-o num pedaço de revista, que depositei no cinzeiro automático.

“Sempre sei que uma pessoa é educada”, disse a aeromoça, satisfeita, “quando embrulha o chiclete num papel antes de colocar no cinzeiro.”

Ali ficamos, durante um tempo, à meia-luz na cabine que balançava. Parecia um pouco o ambiente de um restaurante chique no tempo morto entre almoço e jantar. Íamos todos nos deixando ficar — e não era algo deliberado, pelo menos não exatamente. Acho que até mesmo a aeromoça tinha de estar o tempo todo lembrando a si mesma por que estava ali.

Conversamos sobre uma jovem atriz que eu conhecia e com quem ela estivera num voo para a Costa Oeste dois anos antes. Foi na pior época da Depressão, e a jovem atriz não tirava os olhos da janela, e olhava para fora de um jeito tão determinado que a aeromoça temeu que estivesse pensando em pular. Mas parece que o que temia não era a pobreza, e sim a revolução.

“Sei o que nós, minha mãe e eu, vamos fazer”, ela confidenciou à aeromoça. “Vamos nos refugiar no Parque Nacional de Yellowstone e lá vamos viver uma vida simples até essa coisa toda passar. Aí a gente volta. Eles não matam artistas… sabia disso?”

A história me agradou. Evocava um quadro bonito, com a atriz e sua mãe sendo alimentadas por ursos bonzinhos, que lhes traziam mel, e por corças dóceis que, fornecendo-lhes leite extra tirado de suas mamães, ficariam aconchegadas junto às duas para servir-lhes de travesseiros durante a noite. Eu, por minha vez, contei à aeromoça sobre o advogado e o diretor de cinema que, naqueles tempos brabos, apareceram certa noite para falar ao papai de seus planos. O advogado tinha um barco escondido no rio Sacramento para o caso de a revolta dos veteranos de guerra chegar a Washington, e navegaria rio acima por alguns meses para então voltar, “porque sempre precisam de advogados depois das revoltas, para resolver a parte legal”.

O tom do diretor era mais derrotista. Mantinha a postos um velho terno, camisa e sapatos — não chegou a dizer se eram próprios ou se os havia arranjado no estúdio — e com eles ia Desaparecer na Multidão. Lembro de papai ter dito: “Mas vão olhar as suas mãos! Vão saber que você não faz trabalho braçal há anos. E vão pedir sua carteira do sindicato”. E lembro de o diretor ter ficado com uma cara péssima, muito soturno enquanto comia sua sobremesa, e do quanto eles me soavam engraçados e patéticos.

“Seu pai é ator, srta. Brady?”, quis saber a aeromoça. “Tenho certeza de que já ouvi esse sobrenome.”

Quando o ouviram, ambos os homens nas poltronas do outro lado do corredor ergueram a vista. De soslaio — aquele olhar de Hollywood, que parece sempre lançado por sobre o ombro. Então o rapaz pálido e atarracado soltou o cinto de segurança, levantou e parou no corredor ao nosso lado.

“Você é Cecilia Brady?”, perguntou, ostensivo, como se eu estivesse escondendo aquilo dele. “Estava mesmo te reconhecendo. Sou Wylie White.”

Nem precisava ter dito — no mesmo momento, uma outra voz falou: “Toma cuidado onde pisa, Wylie!”, e um segundo homem passou rente a ele pelo corredor em direção à cabine de comando. Wylie White se sobressaltou e, um pouco atrasado, ainda gritou ao outro, desafiando: “Só aceito ordens do piloto.”

Reconheci o tipo de deboche tão comum entre os poderosos de Hollywood e seus satélites.

A aeromoça o repreendeu: “Não fale tão alto, por favor. Alguns passageiros estão dormindo.”

Percebi, então, que o passageiro do lado de lá do corredor, o judeu de meia-idade, também estava de pé e olhava, de um modo não tão lascivo, mas sem nenhum pudor, na direção do homem que acabara de passar. Ou melhor, para as costas deste, que fez um gesto lateral com a mão, uma espécie de aceno de despedida, e desapareceu da vista.

Perguntei à aeromoça: “Ele é o copiloto?”.

Ela estava desafivelando o cinto, prestes a me abandonar à mercê de Wylie White.

“Não. Aquele é o sr. Smith. Ele está viajando na cabine privativa, a ‘suíte nupcial’ — só que sozinho. O copiloto sempre usa farda.” Levantou-se: “Quero ver se descubro se vamos descer em Nashville”.

Wylie White ficou agitado.

“Por quê?”

“Tem uma tempestade se formando no vale do Mississippi.”

“Então vamos ter de ficar aqui a noite toda?”

“Se o tempo continuar desse jeito!”

Um súbito mergulho indicou que continuaria. Lançou Wylie White sobre o assento que ficava de frente para o meu, fez a aeromoça precipitar-se corredor abaixo na direção da cabine de comando e pôs o judeu sentado. Após exclamações de contrariedade com a afetação deliberada e serena dos viajantes contumazes, voltamos a nos acomodar. Seguiram-se apresentações.

“Srta. Brady — Sr. Schwartz”, disse Wylie White. “Ele também é um grande amigo do seu pai.”

O sr. Schwartz assentiu com a cabeça com tamanha veemência que era como se dissesse: “É verdade. Juro por Deus, é verdade!”.

Talvez algum dia na vida ele tivesse mesmo alardeado o fato — mas ali estava um homem a quem, obviamente, algo havia acontecido. Conhecê-lo era como encontrar um amigo que havia acabado de sair nocauteado de uma briga de socos ou de uma batida de carro. “O que aconteceu com você?”, perguntaríamos. E ele, dentes quebrados e lábio inchado, responderia algo ininteligível, sem conseguir nem mesmo relatar o acontecido.

O sr. Schwartz não tinha nenhuma característica física marcante; o exagerado nariz adunco e as olheiras oblíquas eram-lhe tão naturais quanto, no meu pai, a vermelhidão tipicamente irlandesa em torno das narinas arrebitadas.

“Nashville!”, bramiu Wylie White. “Significa que vamos para um hotel. E que só vamos chegar à costa amanhã à noite — isso se chegarmos. Meu Deus! Eu nasci em Nashville.”

“Imagino que queira fazer uma visita.”

“Jamais — saí de lá há quinze anos. Nunca mais quero ver aquela cidade.”

Mas veria — porque o avião, não havia dúvida, já ia descendo, descendo, descendo, como Alice no buraco do coelho. Com as mãos em concha contra a janela, avistei o borrão de luz da cidade ao longe, à esquerda. O aviso em verde — “Apertar os cintos — Não fumar” — estava aceso desde que adentráramos a tempestade.

“Você ouviu o que ele disse?”, falou o sr. Schwartz, rompendo um de seus cáusticos silêncios do outro lado do corredor.

“Ouvi o quê?”, perguntou Wylie.

“Como ele se apresenta agora”, disse Schwartz. “Sr. Smith!”

“E qual é o problema?”, retrucou Wylie.

“Ah, nenhum”, Schwartz se apressou em rebater. “Só achei engraçado. Smith.” Era o riso mais sem alegria que eu já ouvira: “Smith!”.

Na minha opinião, desde o tempo das estalagens, nada se compara aos aeroportos — nada pode ser mais solitário, mais sombriamente silencioso. Os velhos galpões de tijolos vermelhos eram erguidos bem ao lado das cidadezinhas que os nomeavam — ninguém desembarcava num lugar remoto como aquele se não morasse ali. Mas os aeroportos nos fazem viajar pela história, como se fossem oásis, ou entrepostos das grandes rotas de comércio. A visão dos passageiros, sozinhos ou aos pares, perambulando pela pista madrugada adentro costuma atrair pequenas multidões até altas horas. Os mais jovens admiram os aviões, e os mais velhos, com seus olhares atentos de incredulidade, observam os viajantes. A bordo de enormes aeronaves destinadas a travessias transcontinentais, éramos os ricos habitantes da costa, que por acaso desceram das nuvens naqueles confins da América. Talvez entre nós houvesse grandes aventuras encarnadas em estrelas de cinema. Mas isso era raro. E eu sempre desejava ardentemente que parecêssemos mais interessantes — o mesmo desejo fervoroso que havia nas grandes estreias, quando os fãs desaprovavam, desdenhosos, que alguém estivesse ali sem ser uma estrela.

Na descida, como ele me ofereceu o braço à saída do avião, Wylie e eu de repente nos tornamos íntimos. Dali em diante, ele me marcou em cima — e eu não liguei. Desde o momento em que pisamos no aeroporto ficou claro que, se era para ficarmos ali, então ficaríamos juntos. (Não foi como da vez em que perdi meu amado — da vez em que ele tocava piano com aquela garota, Reina, num pequeno chalé na Nova Inglaterra, perto de Bennington, e enfim me dei conta de que o amor não era recíproco. Guy Lombardo flutuava no ar, “Top Hat” e “Cheek to Cheek”, e ela ensinava a ele as melodias. As teclas baixando como folhas caídas, e ela, mãos espraiadas sobre as dele, mostrando como fazer soar um acorde só de pretas. Eu estava no primeiro ano da faculdade na época.) Quando adentramos o aeroporto, o sr. Schwartz estava conosco, mas parecia perdido numa espécie de sonho. O tempo todo que passamos junto ao balcão, buscando informações mais confiáveis, ficou olhando fixamente em direção à porta de saída para a pista de pouso, como se temesse que o avião fosse decolar e deixá-lo ali. Pedi licença por alguns minutos e perdi alguma coisa do que foi dito, e quando voltei ele e White estavam bem próximos, White falando e Schwartz parecendo ainda mais como que premido por um caminhão enorme que vinha em marcha a ré para cima dele. Não mirava mais a porta de saída para a pista. Peguei o final de uma observação de Wylie White: “… avisei pra você calar a boca. É o melhor que você faz.”

“Eu só disse que…”

Ele se interrompeu quando me aproximei, e perguntei se conseguiram alguma informação. Àquela altura, eram duas e meia da manhã.

“Não muito”, disse Wylie White. “Eles acham que só vamos poder retomar a viagem daqui a três horas, então o pessoal mais acomodado está indo para um hotel. Mas eu gostaria de levar vocês ao Hermitage, antiga casa de Andrew Jackson.”

“E a gente vai conseguir ver alguma coisa no escuro?”, quis saber Schwartz.

“Ora essa, mais duas horas e o sol já nasce.”

“Vão vocês dois”, disse Schwartz.

“Tá certo — você pega o ônibus para o hotel. Ainda não saiu — e ele está lá.” Sua voz denotava certo escárnio. “Talvez seja uma boa.”

“Não, vou com vocês”, falou Schwartz, ligeiro.

Pegamos um táxi num descampado escuro e deserto lá fora, e ele pareceu se animar. Para me animar também, bateu de leve no meu joelho.

“É melhor mesmo eu acompanhar vocês”, disse, “ficar de olho. Há muito tempo, quando eu andava montado na grana, tive uma filha — uma filha linda.”

Falava como se ela tivesse sido entregue a seus credores na qualidade de valioso patrimônio.

“Você vai ter outra”, assegurou-lhe Wylie. “Vai tê-la de volta. A roda se move, um giro a mais e você vai estar à altura do pai da Cecilia, não é, Cecilia?”

“Onde fica esse Hermitage?”, perguntou Schwartz, ansioso. “No meio do nada? Não vamos perder o avião?”

“Deixa disso”, disse Wylie. “A gente devia ter trazido também aquela comissária pra te fazer companhia. Você não gostou dela? Eu achei a moça uma gracinha.”

Percorremos um descampado claro e plano por um bom tempo, com a vista se resumindo a uma estrada e uma árvore ou outra e um barraco para então, subitamente, costearmos em curva um bosque. Eu podia sentir, mesmo no escuro, que as árvores daquele bosque eram verdes — bem diferentes do tom oliva empoeirado das da Califórnia. A certa altura, passamos por um preto conduzindo três vacas, que mugiram quando ele as tocou para a beira da estrada. Eram vacas de verdade, de ancas quentes, vivas, sedosas, e o preto aos poucos ganhava contornos reais na escuridão, seus grandes olhos escuros nos encarando bem perto do carro, e Wylie lhe deu uma moeda. O homem falou: “Obrigado — obrigado”, e lá ficou, as vacas mugindo uma vez mais à medida que nos afastávamos na noite.

Pensei na primeira ovelha que me lembro de ter visto — centenas delas, nosso carro adentrando o rebanho no terreno dos fundos do velho estúdio Laemmle. Os bichos não estavam felizes com aquele negócio de fazer filme, mas os homens que iam conosco no carro não paravam de dizer: “Maravilhoso!”

“Era o que você queria, Dick?”

“Não é uma maravilha?” E o homem chamado Dick continuava de pé no carro, como se fosse Cortez ou Balboa, vendo ondular o mar de lã cinzenta. Se eu sabia qual era o filme que faziam, há muito tempo já esqueci.

Tínhamos rodado por uma hora. Cruzamos um riacho por sobre uma velha e gemebunda ponte de ferro e tábuas. Agora havia galos que cantavam e sombras verde-azuladas toda vez que passávamos por uma casa rural.

“Falei pra vocês que logo ia amanhecer”, disse Wylie. “Nasci perto daqui — filho de família sulista pobre, quase indigente. A mansão da família hoje é usada como casinha de banheiro. Contávamos com quatro empregados — meu pai, minha mãe e minhas duas irmãs. Eu me recusei a seguir o mesmo caminho, então fui para Memphis começar minha carreira, que agora chegou a um beco sem saída.” Ele passou o braço em torno dos meus ombros: “Cecilia, casa comigo, e a gente divide a fortuna dos Brady?”.

Ele sabia bem como vencer resistências, de modo que encostei a cabeça em seu ombro.

“O que você faz, Cecilia? Estuda?”

“Na Bennington. Terceiro ano.”

“Ah, me perdoe. Eu devia saber, mas não cheguei a ter o privilégio de frequentar uma faculdade. Terceiro ano, é? — li na Esquire que a esta altura os estudantes já não têm muito o que aprender, Cecilia.”

“Por que as pessoas pensam que moças de faculdade…”

“Não se justifique — conhecimento é poder.”

“Só de ouvir você falar já daria pra saber que estávamos a caminho de Hollywood”, eu disse. “Um lugar sempre tão retrógrado, anos e anos atrasado.”

Ele se fingiu de chocado.

“Está me dizendo que as moças da Costa Leste não têm vida privada?”

“Aí que está. Elas têm vida privada. Você está me incomodando, chega pra lá.”

“Não dá. Posso acabar acordando o Schwartz, e acho que esta é a primeira vez que ele consegue dormir em semanas. Escute, Cecilia: uma vez tive um caso com a esposa de um produtor. Um romance muito curto. Quando acabou, ela foi categórica ao me dizer: ‘Nunca, jamais comente sobre isso, ou vai ser expulso de Hollywood. Meu marido é um homem muito mais importante do que você!’.”

Passei a gostar dele de novo, e naquele momento o táxi entrou numa longa alameda perfumada de madressilvas e narcisos, parando junto ao enorme maciço cinzento da casa de Andrew Jackson. O motorista se virou para nos dizer alguma coisa sobre ela, mas Wylie pediu que não falasse, apontando para Schwartz, e descemos do carro sem alarde.

“Não podem entrar na mansão a esta hora”, comentou educadamente o taxista.

Wylie e eu nos sentamos nos degraus junto a largas colunas.

“E esse sr. Schwartz?”, perguntei. “Quem é?”

“Dane-se o Schwartz. Foi diretor de um dos estúdios associados algum dia — First National? Paramount? United Artists? Agora está por baixo. Mas volta. Ninguém que não seja um bocó ou um bêbado consegue ser proscrito do cinema.”

“Você não gosta de Hollywood”, palpitei.

“Gosto, sim. Claro que gosto. Caramba! Isto não é assunto pra se conversar na escadaria da casa de Andrew Jackson — de madrugada.”

“Eu é que gosto de Hollywood”, insisti.

“Tá certo. É uma cidade assentada sobre o ouro, reino do alucinógeno. Quem disse isso? Eu mesmo. Um bom lugar para quem é casca-grossa, mas cheguei lá vindo de Savannah, Geórgia. No primeiro dia fui a uma festa no jardim de um cara. Ele apertou minha mão e me largou ali. Tinha de tudo naquele lugar — piscina, musgo verde comprado a dois dólares a polegada, lindas gatas bebendo e se divertindo… e ninguém falava comigo. Nem uma única alma. Abordei um monte de gente, mas nenhuma respondia. Uma hora, duas, a mesma coisa — então levantei de onde estava sentado e corri dali no trote de um cão, feito um louco. Só tive certeza de que ainda era uma pessoa com identidade própria quando voltei ao hotel e o atendente me entregou uma carta endereçada a mim, com meu nome nela.”

Naturalmente eu nunca havia experimentado algo assim, mas, relembrando as festas a que já fora, me dei conta de que coisas como aquela podiam mesmo acontecer. A gente não se aproxima de estranhos em Hollywood, a não ser que fique bem claro que seu machado ficou bem guardado em outro canto e que, haja o que houver, não descerá sobre nosso pescoço — em outras palavras, a não ser que se trate de uma celebridade. E mesmo assim é melhor ter cuidado.

“Você não deveria se importar com isso”, falei, muito satisfeita. “Essa falta de educação não é uma coisa direcionada a você — é só um reflexo da relação que essas pessoas estabeleceram com quem conheceram antes.”

“Uma menina tão linda… dizendo coisas tão sábias.”

Para os lados do sol nascente, o céu se perturbava um pouco, impaciente, e Wylie podia me enxergar com clareza — magra, traços bem-feitos, muito estilo, e uma inteligência que dava os primeiros sinais de vida. Eu me pergunto que figura fazia eu naquele amanhecer, cinco anos atrás. A cara meio amassada e pálida, imagino, mas na minha idade àquela altura, quando se tem a ilusão juvenil de que todas as aventuras são boas, só precisava tomar um banho e trocar de roupa para seguir em frente por horas.

Wylie me encarou com uma admiração realmente lisonjeira — e de repente não estávamos mais sozinhos. O sr. Schwartz entrou, sem jeito, naquela bela cena.

“Bati num trinco enorme de metal”, disse, apalpando o canto do olho.

Wylie se sobressaltou.

“Bem na hora, sr. Schwartz”, falou. “O tour acaba de começar. O lar do décimo presidente americano. O conquistador de Nova Orleans, opositor feroz do sistema bancário nacional, inventor do apadrinhamento.”

Schwartz me olhou como se encarasse um júri.

“O que você tem aí é um escritor”, disse. “Sabe tudo e ao mesmo tempo não sabe nada.”

“Como é que é?”, falou Wylie, indignado.

Meu primeiro palpite havia sido mesmo de que ele era um escritor. Apesar de eu gostar de escritores — porque, se a gente pergunta qualquer coisa a um escritor, geralmente recebe uma resposta —, ainda assim aquilo o diminuía um pouco aos meus olhos. Escritores não são exatamente pessoas. Ou, quando são bons no que fazem, um pouco que seja, se tornam várias pessoas se esforçando muito para ser uma só. São como os atores, patéticos, tentando não se olhar em espelhos, inclinando-se para trás para não fazer isso — só para no fim se verem refletidos nos lustres.

“Não são assim os escritores, Cecilia?”, inquiriu Schwartz. “Não sei o que dizer deles. Só sei que é verdade.”

Wylie olhava para ele, e lentamente sua indignação crescia. “Já ouvi essa história antes”, falou. “Escuta, Manny, eu tenho muito mais senso prático do que você em todos os sentidos! Passei horas sentado num escritório ouvindo um tipo místico pra lá e pra cá a regurgitar um besteirol que, em qualquer lugar que não fosse a Califórnia, seria suficiente pro cara ir parar num manicômio — e, no final, ainda o ouvi me dizer que era um sujeito muito prático, e eu um sonhador — e eu só pensando em sair dali e ir dar algum sentido ao que ele tinha dito.”

A cara do sr. Schwartz ganhou contornos os mais desfigurados. Um olho apontava para cima, mirando por entre os olmos muito altos. Levantou uma das mãos e, displicente, mordiscou a cutícula do indicador. Um passarinho voava em torno da chaminé da casa, e Schwartz seguiu-o com o olhar. O pássaro pousou no alto da chaminé feito um corvo, os olhos do sr. Schwartz ainda fixos nele enquanto dizia: “Não podemos entrar, e já está na hora de vocês dois voltarem para o avião”.

Ainda não era exatamente dia claro. O Hermitage parecia uma bela e enorme caixa branca, mas um pouco solitária e ainda vazia, depois de cem anos. Voltamos ao carro. Só depois de termos embarcado, diante da atitude surpreendente do sr. Schwartz, que fechou a porta do táxi e ficou do lado de fora, é que nos demos conta de que ele não pretendia ir conosco.

“Não vou continuar a viagem até a costa — decidi isso ao acordar. Então fico por aqui, e mais tarde o motorista pode vir me buscar.”

“Vai voltar para o Leste?”, disse Wylie, surpreso. “Só porque …”

“Resolvi”, falou Schwartz, sorriso débil no rosto. “Já fui um homem de decisão — você se surpreenderia.” Apalpou o bolso, o taxista já esquentando o motor. “Você poderia, por favor, entregar este bilhete ao sr. Smith?”

“Volto em duas horas?”, quis saber o motorista.

“Sim… claro. Vai ser uma satisfação dar uma olhada nas redondezas.”

Fiquei pensando nele o caminho todo de volta ao aeroporto — tentando enquadrá-lo àquela hora da madrugada naquela paisagem. Tinha saído de algum longínquo gueto para vir parar naquele tosco santuário. Manny Schwartz e Andrew Jackson — difícil acomodá-los na mesma frase. Era duvidoso que, passeando ali em volta, soubesse quem foi Andrew Jackson, mas, talvez tenha raciocinado, se haviam preservado sua casa, Andrew Jackson deve ter sido alguém importante e bondoso, compreensivo. Nos dois extremos da vida, o que um homem precisa é de algo que o sustente: um seio, um santuário. Um lugar para se encostar quando ninguém mais o queira, e ali meter uma bala na cabeça.

Nas vinte e quatro horas seguintes, claro, ainda não sabíamos do fato. Ao chegarmos ao aeroporto, informamos à tripulação que o sr. Schwartz não seguiria conosco e, com isso, esquecemos o assunto. A tempestade havia se afastado para o leste do Tennessee e desabado sobre as montanhas, e decolaríamos em menos de uma hora. Passageiros ainda sonolentos iam aparecendo, vindos do hotel, e cochilei algumas vezes sentada num daqueles instrumentos de tortura que eles chamam de sofás. Aos poucos, a ideia de uma viagem perigosa foi ressurgindo dos escombros de nosso fracasso: uma nova aeromoça, alta, bonita, morena e radiante, exatamente como a outra exceto pelo uniforme, listrado em vez de com estampa à francesa, passou por nós a passos enérgicos carregando uma maleta. Wylie permaneceu sentado ao meu lado enquanto esperávamos.

“Você entregou o bilhete ao sr. Smith?”, perguntei, meio dormindo.

“Sim.”

“Quem é esse sr. Smith? Acho que ele estragou a viagem do senhor Schwartz.”

“A culpa foi do Schwartz.”

“Tenho preconceito contra gente que passa por cima dos outros”, falei. “Meu pai tenta fazer isso em casa e digo pra ele reservar esse comportamento para quando está no estúdio.”

Eu me perguntei se estava sendo justa; palavras não valiam nada àquela hora da manhã. “E mesmo assim ele passou por cima de mim ao me mandar para Bennington, e sempre lhe serei grata por isso.”

“Que bela colisão seria”, disse Wylie, “se os dois rolos compressores, Brady e Smith, se encontrassem.”

“O sr. Smith é concorrente do papai?”

“Não exatamente. Acho que não. Mas, se fosse, sei em qual dos dois apostaria meu dinheiro.”

“No papai?”

“Temo que não.”

Era ainda muito cedo para uma demonstração de patriotismo familiar. O piloto estava no balcão de informações e balançou a cabeça enquanto observava, com o chefe do pessoal de bordo, um potencial passageiro que havia depositado um níquel no fonógrafo automático e, entregue ao álcool, recostava-se num banco tentando vencer o sono. A primeira música que escolhera, “Lost”, ressoou feito um trovão na sala, seguida, após breve intervalo, de outra escolha sua, “Gone”, igualmente dogmática e definitiva. O piloto balançou a cabeça, enfático, e foi até onde estava o passageiro.

“Acho que o senhor não vai poder embarcar desta vez, amigão.”

“Quê?”

O bêbado endireitou-se, com a aparência deplorável, embora ainda se vislumbrasse ali um homem atraente, e tive pena dele, apesar da música passionalmente mal escolhida.

“Volte para o hotel e durma um pouco. Tem outro avião saindo hoje à noite.”

“Só levanto daqui pra voar.”

“Não desta vez, amigão.”

De tão desapontado, o bêbado caiu do banco — e, mais alto que o fonógrafo, um anúncio no sistema de som nos chamou, as pessoas de bem, a sair dali. No corredor do avião, esbarrei em Monroe Stahr e caí por cima dele, ou o fiz de propósito. Ali estava um homem sobre o qual qualquer garota se atiraria, tivesse ou não um motivo para isso. Eu claramente não tinha, mas ele gostava de mim e se sentou na minha frente, na poltrona oposta, até o avião decolar.

“Vamos todos pedir nosso dinheiro de volta”, sugeriu. Seus olhos escuros me engoliam, e fiquei pensando em que aparência teriam se ele se apaixonasse. Era um olhar gentil, distanciado, e, embora quase sempre educadamente atento, denotava um pouco de superioridade. Não tinha culpa por enxergar tanto. O homem entrava e saía do papel de “um dos rapazes” com destreza — mas, no geral, diria que não era um deles. Mas sabia se calar, se recolher, ficar ouvindo. De onde estava (e, apesar de nem ser tão alto, parecia ver tudo de cima), ele observava as múltiplas circunstâncias de seu mundo feito um jovem pastor de rebanhos para quem o fato de ser noite ou dia nem sequer tinha importância. Nascera insone, sem talento para o repouso ou desejo de repousar.

Ficamos sentados num silêncio constrangido — eu o conhecia desde que se tornara sócio do papai, mais de uma década antes; na época, tinha sete anos e ele, vinte e dois. Wylie estava do outro lado do corredor, e eu não sabia se devia ou não apresentá-los, mas Sathr insistia em rodar um anel no dedo de maneira tão indiferente que me fez sentir-me jovem e invisível, e não pensei mais nas apresentações. Jamais ousava tirar os olhos dele ou olhar diretamente para ele, a menos que tivesse algo importante a dizer — e eu sabia que Stahr provocava essa mesma reação em muita gente.

“Vou te dar este anel, Cecilia”, ele disse.

“Desculpa. Nem reparei que eu estava …”

“Tenho mais um monte igual a este.”

Ele me entregou o anel, uma pepita de ouro com a letra S destacada em relevo. Eu estava pensando, pouco antes, no contraste esquisito daquele volume com seus dedos, que eram delicados e delgados como o resto do corpo, e com o rosto fino com as sobrancelhas arqueadas, o cabelo escuro encaracolado. Às vezes parecia bem-humorado, mas era um lutador — uma pessoa que o conhecera no passado e sabia da gangue de garotos que ele tivera no Bronx descreveu para mim a cena, Stahr sempre à frente do grupo, menino até bem frágil, dando uma ou outra ordem à boca pequena para os que vinham atrás.

Stahr fechou minha mão com o anel na palma, ficou de pé e se dirigiu a Wylie.

“Pode vir para a suíte nupcial”, falou. “Até mais, Cecilia.”

Antes que os dois se afastassem a ponto de não poder ouvi-los, escutei a pergunta de Wylie: “Você leu o bilhete do Schwartz?”. E Stahr: “Ainda não.”

Devo ser meio lenta, pois só então me dei conta de que Stahr era o sr. Smith.

Mais tarde, Wylie me contou o que havia no bilhete. Escrito à luz dos faróis do táxi, era quase ilegível.

Caro Monroe, você é o melhor dentre eles todos e sempre admirei sua mentalidade, então sei

que não adianta se voltar contra mim! Não devo prestar e não vou seguir nessa jornada, então deixa

eu te dizer de novo: cuidado! Eu sei.

Seu amigo Manny Stahr leu o bilhete duas vezes e levou a mão até a barba amanhecida que lhe

crescia no queixo.

“O cara está com os nervos em frangalhos”, falou. “Não há nada que se possa fazer — absolutamente nada. Sinto muito não ter atendido as expectativas — mas não gosto da ideia de um cara me abordar pra dizer que está fazendo aquilo por mim.”

“Talvez estivesse”, disse Wylie.

“Péssima estratégia.”

“Funcionaria comigo”, respondeu Wylie. “Sou fútil como uma mulher. Se alguém finge se interessar por mim, peço mais. Gosto de ser aconselhado.”

Stahr balançou a cabeça, repugnado. Wylie continuou bulindo com ele — era um dos únicos a quem tal privilégio era permitido.

“Você se rende a alguns tipos de bajulação”, falou. “Essa coisa de ‘pequeno Napoleão’.”

“Me embrulha o estômago”, disse Stahr, “mas não é tão ruim quanto um cara tentando ajudar.”

“Se você não gosta de conselhos, por que contratou a mim?”

“Questão de mercado”, falou Stahr. “Sou um comerciante. Quero comprar o que você tem na cabeça.”

“Você não é um comerciante”, retrucou Wylie. “Conheci um monte deles nos meus tempos de publicidade, e concordo com Charles Francis Adams.”

“O que ele disse?”

“Conheceu todos — Gould, Vanderbilt, Carnegie, Astor — e dizia que não fazia questão de encontrar nenhum deles no além. Bom … esse pessoal não melhorou em nada desde então, e é por isso que digo que você não é um comerciante.”

“Adams era um rabugento, provavelmente”, disse Stahr. “Queria ele mesmo ser patrão, mas não tinha tino ou, pior, caráter.”

“Tinha tutano”, falou Wylie, afiado e desagradável.

“Precisa mais do que isso. Vocês, escritores e artistas, se cansam e começam a confundir tudo, aí tem de vir alguém pra botar vocês na linha.” Ele deu de ombros. “Parecem tomar as coisas pelo lado pessoal, odiando e idolatrando as pessoas — sempre achando que pessoas são tão importantes — especialmente vocês mesmos. Parece que pedem pra ser descartados. Gosto das pessoas e gosto que elas gostem de mim, mas levo o coração no lugar onde Deus o colocou — do lado de dentro.”

Ele se interrompeu.

“O que foi que eu disse ao Schwartz no aeroporto? Você se lembra… exatamente?”

“Você falou: ‘O que quer que esteja querendo, a resposta é não!’.”. Stahr ficou em silêncio.

“O Schwartz estava derrubado”, disse Wylie, “mas fiz ele dar umas risadas. Levamos a filha do Billy Brady pra dar uma volta.”

Stahr chamou a aeromoça.

“Aquele piloto”, falou, “ele se importaria se eu fosse lá para a cabine por um tempo?”

“Isso não é permitido, sr. Smith.”

“Peça a ele que dê uma chegadinha aqui quando tiver um tempinho.”

Stahr passou a tarde toda lá na frente. Nesse tempo, flutuamos acima do deserto sem fim e dos planaltos tingidos de tinturas de muitas cores, feito a areia branca que pintávamos quando eu era criança. Depois, no final da tarde, foram os próprios picos das montanhas — o Serrote Congelado — que deslizaram sob nossos motores, já perto de casa.

Nos momentos em que não estava cochilando, eu ficava pensando que desejava me casar com Stahr, queria fazê-lo me amar. Ah, quanta presunção! O que tinha eu a oferecer? Mas não pensava assim naquele tempo. Eu tinha o orgulho das moças cuja fonte de poder são pensamentos sublimes tais como “sou tão boa quanto ela”. Para o que eu pretendia, era tão bela quanto as grandes beldades que, inevitavelmente, deviam chover sobre ele. Meu breve lampejo de interesse intelectual me tornava apta a brilhar como um ornamento em qualquer salão.

Hoje sei que isso era absurdo. Embora a formação de Stahr não fosse muito além de um curso noturno de estenografia, fazia muito que, à frente de todos, ele percorria os ermos descaminhos da percepção até paragens às quais poucos homens eram capazes de segui-lo. Mas eu, em minha presunção imprudente, alçava maliciosamente meus olhos verdes à altura dos olhos castanhos dele, as batidas jovens e atléticas do meu coração contra as dele, já um pouco desaceleradas pelos anos de excesso de trabalho. E planejei e maquinei e tramei — as mulheres é que sabem —, mas nunca deu em nada, conforme vocês verão. Até hoje gosto de pensar que, se ele fosse um rapaz pobre da minha idade, podia ter me dado bem, mas a verdade verdadeira é que eu não tinha nada a oferecer que ele já não possuísse; algumas das minhas mais românticas noções decerto haviam saído de filmes — Rua 42, por exemplo, era uma grande influência. É mais do que possível que alguns dos filmes que o próprio Stahr concebera tivessem delineado quem eu era.

De modo que era um caso perdido. Emocionalmente, ao menos, as pessoas não podem viver tão dependentes.

Mas daquela vez era diferente: o papai podia ajudar, a aeromoça podia ajudar. Ela talvez fosse à cabine e dissesse a Stahr: “Se é que alguma vez vi o amor, foi nos olhos daquela garota”.

O piloto quem sabe ajudasse: “Cara, você está cego? Por que não volta pra lá?”.

Wylie White podia ajudar — em vez de ficar parado no corredor olhando indecisamente para mim, perguntando-se se eu estava dormindo ou acordada.

“Senta”, falei. “Novidades? Onde estamos?”

“Em pleno ar.”

“Ah, então é isso. Senta.” Tentei me mostrar interessada, animada: “Sobre o que você está escrevendo?”.

“Que os céus venham em meu socorro: é sobre um Escoteiro — sobre O Escoteiro.”

“É ideia do Stahr?”

“Não sei — ele me falou pra dar uma olhada nessa coisa. É capaz de ter uns dez roteiristas trabalhando, mais adiantados ou mais atrasados do que eu, um sistema muito bem pensado por ele. Então quer dizer que você está apaixonada?”

“Claro que não”, indignei-me. “Eu o conheço desde criança.”

“Desesperadamente, hein? Bom, posso dar um jeito nisso pra você, e aí você usa toda a sua influência pra me ajudar. Quero uma unidade só pra mim.”

Fechei os olhos e deslizei devagar rumo ao sono. Acordei com a aeromoça me cobrindo com uma manta.

“Falta pouco”, ela disse.

Pela janela pude ver, à luz do pôr do sol lá fora, que estávamos em território mais verde.

“Acabei de ouvir uma coisa engraçada”, a aeromoça puxou conversa, “lá na cabine — aquele sr. Smith — ou sr. Stahr — não lembro de ter visto o nome dele alguma vez…”

“Nunca aparece nos filmes”, falei.

“Ah. Bem, ele estava perguntando aos pilotos uma porção de coisas sobre voar — enfim, está interessado mesmo nisso, você sabia?”

“Sabia.”

“Enfim, um dos pilotos me disse que podia apostar que em dez minutos ensinava o sr. Stahr a conduzir um voo solo. O homem tem uma mentalidade e tanto, foi o que ele me disse.”

Eu estava ficando impaciente.

“E o que tem de tão engraçado nisso?”

“Bem, um dos pilotos perguntou ao sr. Smith se gostava do ramo em que trabalha, e ele falou: ‘Claro. Claro que gosto. É bom ser o único doido normal num bando de doidos varridos’.”

A aeromoça dobrou o volume da risada — e eu estava a ponto de cuspir nela.

“Enfim, chamar aquele pessoal todo de bando de doidos. Enfim, doidos varridos.” Parou de rir, súbita e inesperadamente, e seu rosto assumiu um ar grave enquanto ela se punha de pé. “Bem, tenho de ir terminar de atender o pessoal.”

“Tchau.”

Stahr, era evidente, havia dado intimidade suficiente aos pilotos para lhes permitir que subissem um pouquinho ao patamar dele. Anos mais tarde, viajei com um desses mesmos comandantes, e ele me contou uma coisa que Stahr dissera.

Stahr olhava para as montanhas lá embaixo.

“Imagine que você é um chefe de ferrovia”, falou. “Você precisa mandar um trem pra algum lugar ali no meio. Bom, chega o relatório do seu fiscal de trilhos e você descobre um monte de falhas, três, quatro, uma dúzia delas, e nenhuma rota é melhor que a outra. Você tem de decidir… com base em quê? Não dá pra sair testando qual é o melhor caminho — é escolher um e ir por ele. É o que você acaba fazendo.”

O piloto achou que tinha perdido alguma coisa.

“E o que isso quer dizer?”

“Que a gente escolhe um caminho sem ter razão alguma — porque aquela montanha é rosa, ou porque o mapa é mais bonitinho. Entende?”

O piloto tomou aquilo como um conselho muito valioso. Mas duvidou que algum dia estaria em situação de aplicá-lo.

“O que eu queria saber”, ele me disse, pesaroso, “era como foi que ele chegou a se tornar o sr. Stahr.”

Acho que Stahr jamais poderia ter respondido à pergunta; o embrião ainda não tem o recurso da memória. Mas eu, sim, consigo responder em parte. Ainda muito jovem, com asas fortes, ele havia voado bem alto, de onde pôde ver. Lá de cima avistou todos os reinos com o tipo de olho com que se pode mirar diretamente o Sol. Batendo as asas tenazmente — freneticamente, afinal — e sem parar, permaneceu no ar por mais tempo do que a maioria de nós, e então, lembrando tudo que vira de como são as coisas daqueles píncaros, aos poucos se acomodara de volta à terra.

Motores desligados, nossos cinco sentidos começaram a se reajustar para o pouso. À frente e à esquerda, avistava-se a fileira de luzes da Base Naval de Long Beach, à direita, o borrão cintilante de Santa Monica. A lua da Califórnia apareceu, enorme e alaranjada, sobre o Pacífico. Fosse como fosse que eu me sentisse em relação a essas coisas — e elas me diziam que estava em casa, afinal de contas —, sei que o sentimento de Stahr devia ser muito maior. Aquelas eram as coisas que eu primeiro vira ao abrir os olhos para o mundo, como as ovelhas no terreno dos fundos do estúdio Laemmle; mas havia sido ali o lugar em que ele pousara de retorno à terra, depois daquele voo luminoso em que enxergou para onde íamos, e como éramos fazendo o que fazíamos, e quanto isso importava. Pode-se dizer que foi aí que um vento perigoso o apanhou, mas não penso assim. Prefiro achar que, numa “tomada panorâmica”, ele percebeu uma nova maneira de avaliar nossas esperanças espasmódicas e delicadas trapaças e mágoas incômodas, e que por escolha própria veio para estar conosco até o fim. Como o avião que descia no aeroporto de Glendale, adentrando a treva quente.

2

 

Eram nove horas de uma noite de julho, e alguns figurantes ainda se demoravam na lanchonete em frente ao estúdio — ao estacionar, pude vê-los debruçados sobre as máquinas de jogo. O “Velho” Johnny Swanson estava parado na esquina em seu traje meio caubói, o olhar perdido na lua. Algum dia fora um dos grandes do cinema, como agora Tom Mix ou Bill Hart — hoje, era triste falar com ele, de modo que me apressei a atravessar a rua e entrar pelo portão principal.

Um estúdio jamais é um ambiente totalmente quieto. Sempre tem alguma equipe de técnicos do turno da noite nos laboratórios e nas salas de dublagem, o pessoal da manutenção dando um pulo no refeitório. Mas os ruídos são todos diferentes — o som abafado de pneus, o tranquilo ronronar de um motor em giro inercial, o agudo nu de uma soprano num microfone no meio da noite. Virando uma esquina, topei com um homem em botas de borracha lavando um carro sob uma maravilhosa luz branca — uma fonte em meio às sombras mortas daquela indústria. Ao ver o sr. Marcus sendo amparado para entrar em seu carro em frente ao prédio da administração, diminuí o passo, pois ele demorava um bocado para dizer o que quer que fosse, até mesmo um boa-noite — e, enquanto esperava, me dei conta de que a soprano estava cantando sem parar, e repetidamente, Come, come, I love you only; lembro disso porque ela prosseguiu com o mesmo verso durante o terremoto. Faltavam ainda cinco minutos para começar.

Os escritórios do papai estavam localizados no prédio antigo, com suas sacadas compridas e corrimões de ferro cuja aparência era, incorrigivelmente, a de cordas bambas. Papai ficava no segundo piso, Stahr de um lado e o sr. Marcus do outro — naquela noite havia luzes acesas ao longo de toda a sequência de escritórios. Eu ia com um friozinho na barriga pela proximidade com Stahr, mas já controlava bem a sensação naquele momento — só o vira uma vez naquele mês desde que estava em casa.

Muita coisa havia de peculiar no escritório do papai, mas vou resumir. Do lado de fora, três secretárias com cara inescrutável, as quais, até onde minha memória alcançava, desde sempre estiveram ali, feito bruxas, Birdy Peters, Maude não-sei-de-quê e Rosemary Schmiel, a decana do trio — não sei se era esse o nome, mas debaixo da sua escrivaninha ficava o abre-te-sésamo que dava acesso à sala do trono do papai. Todas as três eram capitalistas ferrenhas, e Birdy tinha inventado a regra segundo a qual, se datilógrafas fossem vistas fazendo as refeições juntas mais de uma vez na semana, mereceriam advertência do alto escalão. Naquela época os estúdios temiam ser controlados pelas massas.

Entrei no escritório. Hoje em dia qualquer executivo tem imensas salas de visita, mas a do meu pai foi a primeira. Também foi a primeira a ter vidros espelhados nos janelões altos, e ouvi falar de um alçapão no assoalho que engoliria visitantes desagradáveis, lançando-os numa masmorra, mas acredito que fosse invenção. Havia um grande quadro de Will Rodgers exposto ostensivamente e destinado, acho, a sugerir um parentesco essencial entre papai e o são Francisco de Hollywood; havia uma foto autografada de Minna Davis, a falecida mulher de Stahr, e de outras celebridades do estúdio, além de grandes desenhos a giz meus e da mamãe. Naquela noite, os janelões estavam abertos, e a lua, enorme, em tons dourado e róseo e envolta em névoa, entrava inevitável por uma delas. Papai, Jacques La Borwitz e Rosemary Schmiel estavam ao fundo, reunidos em torno de uma grande mesa circular.

Que aparência tinha o papai? Não seria capaz de descrevê-lo, exceto daquela vez em que o encontrei em Nova York sem estar esperando; percebi então aquele homem corpulento de meia-idade, parecendo um pouco envergonhado de si mesmo, e desejei que saísse dali — e foi aí que vi que era o papai. Depois fiquei chocada com essa minha impressão. Papai consegue ser bem magnético — com seu queixo duro e seu sorriso de irlandês.

Quanto a Jacques La Borwitz, prefiro poupá-los. Digo apenas que era um produtor-assistente, tipo subalterno, e basta. Sempre me espantava pensando de onde Stahr desenterrava aqueles cadáveres mentais, ou por que se obrigava a suportar uns tipos assim — e, especialmente, como é que conseguia torná-los úteis de alguma forma —, algo que espantaria qualquer recém-chegado da Costa Leste que topasse com eles. Sem dúvida que Jacques La Borwitz tinha lá seu interesse, mas protozoários submicroscópicos ou um cão uivando por uma cadela e um osso também têm. Jacques La… meu Deus!

Pela expressão no rosto deles, soube com certeza que falavam de Stahr. Ele tinha dado uma ordem qualquer, ou proibido alguma coisa, ou desafiado o papai, ou arruinado um dos filmes de La Borwitz, ou feito algo catastrófico do tipo, e ali estavam eles, em protesto noturno, uma comunidade revoltada e impotente. Rosemary Schmiel, bloco de anotações em punho, parecia pronta a pôr no papel o abatimento dos três.

“Me mandaram te levar pra casa vivo ou morto”, falei para o papai. “Tem um monte de presentes de aniversário apodrecendo nos pacotes!”

“Aniversário!”, berrou Jacques, numa profusão de desculpas. “Quantos anos? Eu não sabia.”

“Quarenta e três”, respondeu papai, indubitável.

Era mais velho — quatro anos —, e Jacques sabia; vi que anotava aquilo para usar em alguma ocasião. Por estas bandas, cadernos de notas são carregados abertos. Pode-se ver o que é anotado sem que se precise de leitura labial, e Rosemary Schmiel, por emulação, marcou alguma coisa também no seu. Enquanto apagava uma anotação, a terra tremeu debaixo de nós.

Não sentimos o tremor em cheio, como em Long Beach, onde os pisos de cima das lojas foram lançados às ruas e hoteizinhos levados pelo mar — mas, por um minuto, nossas entranhas e as da Terra eram uma coisa só, como num pesadelo em que tentássemos religar nosso cordão umbilical e voltar ao útero da criação.

A foto da mamãe caiu da parede, revelando um pequeno cofre — Rosemary e eu nos enganchamos freneticamente uma à outra para uma estranha valsa, dançada aos gritos pela sala. Jacques desmaiou, ou ao menos desapareceu, enquanto o papai se agarrava à escrivaninha e berrava: “Você está bem?”. Pela janela, lá fora, a cantora chegou ao clímax de “I love you only”, parou por um momento e então, juro, começou de novo. Ou talvez tenham ligado o gravador para ela se ouvir.

Continuar: parte 2 de 6