O Vendedor de Sonhos: O Chamado
Comecei, então, a dar um pouco da…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
assim o fizemos.
Comecei, então, a dar um pouco da minha energia para os outros sem pedir nada em troca. Claro, sempre há interesses em tudo o que fazemos, mas, como o mestre dizia, há interesses legítimos que extrapolam o ganho financeiro, o reconhecimento público, tais como os que estão ligados ao prazer de contribuir para o bem-estar e a saúde do outro. Era um sistema de troca não previsto no capitalismo nem no socialismo. Era um mundo estranho à academia.
Comecei a entender que os egoístas vivem no calabouço das suas angústias, mas os que atuam na dor dos outros aliviam a própria dor. Não sei se me arrependerei de tomar esse caminho, não sei o que me aguarda, mas vender sonhos, ainda que tenha seus riscos, talvez seja um excelente ”negócio” no mercado da emoção. A angústia de meu companheiro era tão grande, que diminuiu, pelo menos por enquanto, a percepção que eu tinha da minha miséria psíquica e das inúmeras coisas não resolvidas em minha vida.
Imaginei o esforço tremendo que o vendedor de sonhos fizera para me resgatar. Não me pedira dinheiro, reconhecimento nem aplausos, mas recebeu muito, recebeu doses elevadas de prazer. Ficou tão feliz que dançou em público. Que ”mercado” fantástico! A única coisa que me pediu foi convidar-me para fazer o mesmo. Ajudar Bartolomeu era a minha primeira experiência de contribuir despretensiosamente para o benefício de alguém. Uma tarefa difícil para um intelectual egocêntrico. Foi uma batalha para interná-lo. Tivemos de convencer a equipe de plantão de que nosso amigo estava correndo risco de morrer. Não bastavam os escândalos aflitivos que ele dava. Os hospitais gerais estavam despreparados para lidar com acidentes da mente humana. Sabiam lidar com o corpo, mas desconheciam ou negavam o mundo intangível da psique. Eram uma casta de engessados. Quando conseguimos a internação, Bartolomeu estava menos agitado. Deram-lhe um sossega-leão e o levaram dormindo para o quarto.
Fomos visitá-lo à tarde. Bartolomeu estava bem melhor. Já
não tinha alucinações. Teve alta. Pediu que lhe contássemos tudo o que tinha acontecido e como nos havíamos conhecido. Sua memória estava turva. O mestre passou o bastão para mim. Tentei explicar o incompreensível. Quando iniciei minha fala, ele saiu de cena. Não gostava de ser exaltado.
Falei sobre o vendedor de sonhos, como o encontrara, como me ajudou, como me chamou, como o encontramos no sopé do edifício, a dança, a pergunta sobre o grande sonho, como o chamou, o viaduto, o terror noturno, enfim, tudo. Bartolomeu prestava muitíssima atenção e meneava a cabeça, balbuciando
”Hum!”. Tudo parecia tão irreal que eu me sentia um tolo explicando o que nem estava entendendo. O miserável era bemhumorado como o mestre. Tentando diminuir minha tensão, disse:
— Você não sabe o nome dele nem quem ele é. Hum! Cara, só
tomando umas para entender essa confusão. — Mas quando eu pensava que ele iria desistir do caminho, completou: — Eu sempre quis seguir alguém mais biruta do que eu.
Bom, comecei então a andar com os dois malucos. A experiência sociológica ganhava corpo. Só esperava não encontrar conhecidos nas ruas. Melhor que os professores e meus alunos pensassem que eu morrera ou mudara de país. Bartolomeu assoviava despreocupadamente. O mestre andava ao nosso lado com incontido júbilo. De repente, começou a cantar uma bela e instigante canção que ele mesmo havia composto, cuja letra retratava sua bandeira de vida. Tal canção se tornou pouco a pouco o tema central de nossa história.
Sou apenas um caminhante
Que perdeu o medo de se perder
Estou seguro de que sou imperfeito
Podem me chamar de louco
Podem zombar das minhas idéias
Não importa!
O que importa é que sou um caminhante
Que vende sonhos para os passantes
Não tenho bússola nem agenda
Não tenho nada, mas tenho tudo
Sou apenas um caminhante
A procura de mim mesmo.
Durante a caminhada para a nossa casa, ou melhor, para nosso viaduto, deparamo-nos com mais uma figura raríssima. Seu nome era Dimas de Melo, apelidado de ”Mão de Anjo”. Seu apelido deveria ser ”mão do Diabo”, mas apelido nem sempre é sinônimo. Nesse caso era um antônimo do seu comportamento. O sujeito era um velhaco. Tinha vinte e oito anos, cabelos loiros com franja, nariz comprido e achatado, traços orientais.
Mão de Anjo foi pego numa loja de departamentos roubando um DVD portátil. Já havia roubado inúmeras outras coisas, mais valiosas, e nunca tinha sido pego. Mas agora uma câmera o filmara com a boca na botija. Claro, o espertalhão tinha analisado todas as câmeras quando colocava o aparelho em sua larga bolsa, mas não percebeu que havia uma oculta. Foi preso.
Na delegacia, pediu para chamar um advogado. Antes de o delegado iniciar o inquérito policial, chamou seu advogado à parte e lhe disse que não tinha dinheiro para pagar a futura fiança. O
advogado lhe afirmou: ”Sem dinheiro, xadrez. Você ficará preso”. O
malandro, quando pressionado, não articulava direito as palavras, tinha uma leve gagueira. Argumentou: ”Agüenta as pontas... que... que... vou sair dessa sem pá... pagar nada. Só me segue...”. O
advogado ficou sem entender o que ele aprontaria. Ambos entraram na sala do impaciente e autoritário delegado. O delegado perguntou o nome do réu. Dimas, com ar de bobo, passou o dedo indicador direito próximo aos lábios com um assovio e em seguida deu três tapinhas na testa. O delegado bronqueou com ele e indagou-lhe novamente o nome. Ele repetiu o gesto.
— Você está brincando comigo, rapaz! Coloco-o em cana por desacato à autoridade.
Perguntou endereço e profissão, mas o Mão de Anjo, com a maior naturalidade do mundo, repetiu o mesmo ritual, passou o dedo próximos aos lábios assoviando e deu três tapas na testa. Queria passar a imagem de que era um psicótico, mentalmente incapaz, que não sabia onde estava, o que estava acontecendo, e não tinha noção do roubo que cometera. Foram dez perguntas insistentes sem respostas. O delegado xingou, bateu na mesa, ameaçou, mas nada. O sujeito era um artista, no pior sentido da palavra. O advogado curtia a astúcia do seu cliente.
— Não é possível! Esse sujeito é maluco! — gritou o delegado. O advogado tomou a frente e disse-lhe:
— Doutor, eu não disse que meu cliente era mentalmente incapaz porque o senhor não acreditaria em mim. O senhor está
vendo que ele não tem consciência dos seus atos.
Não querendo perder mais tempo, o delegado dispensou o salafrário. Lá fora o advogado cumprimentou o Mão de Anjo e elogiou sua malandrice.
— Você é terrível. Parabéns! Nunca vi um trapaceiro tão esperto. — E rapidamente cobrou seus honorários, pois tinha outros compromissos.
Mão de Anjo olhou bem na menina-dos-olhos do advogado e, com a maior naturalidade do mundo, passou as mãos na boca, assoviando, e bateu três vezes na testa. O advogado deu risada, mas disse que não tinha tempo para brincadeiras. Dimas repetiu o mesmo gesto. Nós estávamos do outro lado da calçada, observando a cena.
— Vamos acertar! — esbravejou o advogado.
Mão de Anjo repetiu mais uma vez o ritual. O advogado se irritou. Diante da irritação, Dimas reproduziu o mesmo comportamento. Nada dissuadia o malandro. O advogado o ameaçou de todas as formas. Ameaçou até de denunciá-lo novamente. Mas como podia fazê-lo? Ele afirmara ao delegado que seu cliente era um doente mental; se desmentisse isso poderia se complicar. Foi a primeira vez na história do direito que um espertalhão deu um tombo num delegado e num advogado de defesa em quinze minutos.
Após o advogado ir embora, bufando de raiva, Mão de Anjo disse para o alto:
— Mais um trouxa.
O mestre prestava atenção detalhadamente no vigarista. Eu não entendia direito seu interesse pelo velhaco. Mas pensei que talvez quisesse vender o sonho da honestidade para ele. Talvez quisesse lhe dar uma bronca, lhe passar um sermão. Talvez desejasse nos recomendar que não andássemos com um sujeito dessa estirpe, pois poderia estragar nosso projeto.
Ele atravessou a calçada e se aproximou do sujeito. Nós, apreensivos, o seguimos. Temíamos que o malandro estivesse armado. Dimas o notou e ficou intrigado com sua presença e com o olhar furtivo. Para nosso espanto, o mestre falou com uma voz segura:
— Você tem um sonho de ficar rico, e não se importa com os meios para atingi-lo.
Gostei do que ouvi, e achei ousada a introdução do mestre. Mas em seguida me abalou, e pirou até Bartolomeu, já sem vodca na cabeça. Ele disse para o Mão de Anjo:
— Os que furtam são péssimos administradores. Fogem da miséria, mas ela sempre os alcança.
O vigarista levou um susto. Não sabia aplicar o que furtava. Vivia na dureza. Detestava a miséria, suplicava que ela partisse, mas, como companheira fiel, ela insistia em ficar. Momentos depois, fez desabar o mundo do golpista:
— O pior esperto não é o que engana os outros, mas o que engana a si mesmo.
O vigarista deu dois passos para trás. Não era muito de pensar, mas o que ouviu tumultuou sua mente. Começou a se questionar: ”Será que sou o pior esperto? Sou especialista em ludibriar os outros, mas será que tenho enganado a mim mesmo?
Quem é esse sujeito que furta minha paz?”.
Em seguida o mestre provocou um terremoto no solo em que estávamos.
— Venha e siga-me, que eu o farei descobrir um tesouro, chamado conhecimento, muito mais valioso do que o ouro e a prata.
As suas idéias eram incisivas, determinantes, sedutoras. O
sujeito olhou de cima a baixo o homem que o perturbara, analisou suas vestes, viu seus bolsos vazios, deu uma fungada no nariz. Pensou no tal de tesouro do conhecimento e não entendeu nada. Truncando as palavras, indagou:
— O que... significa esse te... tesouro? Onde está essa... gra... grana? — replicou desconfiado.
Sem dar explicação, o mestre apenas comentou com segurança:
— Você saberá!
E saiu sem dar maiores explicações. O malandro nos seguiu. Seguiu-o inicialmente mais por curiosidade. Talvez pensasse que o mestre era um milionário excêntrico. O fato é que o vendedor de idéias era um pólo de atração fascinante, atraía em particular as peças raras da sociedade, ainda que elas inicialmente tivessem intenções escusas.
Bartolomeu, há muitos anos, quando tinha algum dinheiro, fizera tratamentos psicoterapêuticos, mas nenhum deles funcionara. Aliás, funcionara às avessas. Ele deixou malucos alguns dos seus terapeutas, pois tiveram que se tratar depois que começaram a atendê-lo. O sujeito era irremediável, mas esperto. Descobriu que o orgulho era minha especialidade. Quando fizemos a primeira caminhada em direção ao viaduto, após a dança no San Pablo, me apelidou de Superego, pois percebeu que eu era um poço de orgulho, tinha um ego doentiamente inflado. O ignorante usou errado o termo da teoria de Freud. Vendo o chamamento do trapaceiro, me chamou de lado e cochichou aos meus ouvidos:
— Superego, agüentar você é difícil, mas esse vigarista é
impossível.
— Vê se se enxerga, seu... — comecei a retrucar, mas, antes que proferisse meu xingamento, ponderei que ele poderia estar certo. O novo membro da família poderia ser um perigo. Jamais imaginei estar associado a um criminoso, um embusteiro. Tirei a forra dizendo baixinho para Bartolomeu:
— Suportar um alcoólatra pirado como você é complicado, mas esse malandro não dá. Estou fora!
Pensei em debandar pela segunda vez da experiência sociológica. Mas subitamente um filme passou novamente pela minha mente. Recordei que estava perdido e fui achado. Olhei para o calmo semblante do mestre e resolvi resistir um pouco mais. A curiosidade para ver no que ia dar essa experiência me animava. Certamente poderia ser tema de muitas teses.
O novo discípulo tinha voz mansa, mas era um perito em dar tombo nos outros e levar vantagem em tudo. Sabia ludibriar as pessoas, vender bilhetes de loteria falsamente premiados. Furtava cartão de crédito das mulheres, batia carteira de senhoras idosas depois de ajudá-las gentilmente a atravessar as ruas. O problema é
que todo esperto tem excesso de autoconfiança. Achava que nunca cairia numa armadilha, até que encontrou alguém mais esperto do que ele. Não sabia que ao andar com o mestre entraria na maior emboscada da sua vida.
Sentamos numa praça para descansar. O mestre sugeriu que eu e Bartolomeu explicássemos o projeto para o Dimas. Tarefa difícil. O sujeito parecia que tinha baixa escolaridade. Mas era um bom momento para excluí-lo do grupo. Bartolomeu dava um tom superlativo a tudo que acontecera.
— Cara, o chefinho é um gemo. Acho que ele é de outro mundo. Ele hipnotiza as pessoas. Ele nos chamou para incendiar a humanidade com sonhos.
Bartolomeu, bêbado, tinha alucinações com monstros; sóbrio, tinha delírios de grandeza. Mas infelizmente Dimas gostava de ouvi-lo, falavam a mesma linguagem. Os desajustados sabem se comunicar. Caindo em mim, pensei: ”Sou um desajustado solitário. Levei uma vida pior que esses miseráveis”.
Sabia que toda explicação que estávamos dando a Dimas não o saciaria, pois estávamos tão confusos quanto ele. Mas para quem está no deserto, a alucinação do oásis é refrescante. Torci para que o salafrário desistisse, mas, infelizmente, ele não desanimou de seguir-nos. Assim, o bando de malucos se construía.
As pequenas andorinhas
Momentos depois, passamos por uma banca de revistas que estava na praça e vimos nossa foto estampada na primeira página de um grande jornal, com a seguinte manchete: ”Um pequeno bando de malucos agita o centro da cidade”. Meu mestre estava em primeiro plano; eu e Bartolomeu estávamos ao seu lado. Comprei o jornal com as poucas moedas que tinha no bolso.
Fiquei abalado, perplexo. Sabia que tinha dado um escândalo quando quisera morrer, mas esperava que ficasse soterrado, queria esquecer esse assunto, voltar à minha discrição de professor universitário. Agora estava na boca do povo. A reportagem descrevia minha tentativa de suicídio e meu estranho resgate por um estranho do qual ninguém sabia o nome.
Dimas e Bartolomeu viram um intelectual descontrolado e desconsolado ao ler o jornal. Estavam acostumados à difamação, eu não. Minha imagem social era meticulosamente preservada.
”Serei ridicularizado publicamente pelos meus opositores na universidade, virarei pasto na roda dos escarnecedores”, pensei comigo.
Fui um tolo; queria morrer sem chamar a atenção, mas fiz tudo errado. Tornei-me uma celebridade às avessas. Ferido, queria sair pegando todos os jornais e queimando. Queria protestar contra minha foto publicada sem autorização. Queria processar o jornalista por essa reportagem caluniosa. A matéria me diminuía, dizia que eu era um depressivo que procurava sensacionalismo. Também dizia que o psiquiatra que estava no topo do edifício classificara o homem que me resgatou como um psicótico perigoso, que poderia colocar em risco a sociedade. Eu não fora salvo por um herói. Vivera um filme de Hollywood ao contrário.
O mestre se sentou num banco ao lado, junto com seus outros seguidores. Respeitando minha dor, apenas me observava. Esperava que a temperatura da minha angústia diminuísse para intervir. Mas não diminuía. Minha mente fugia ao meu controle. Imaginei todos os meus colegas professores e alunos lendo a matéria. Eu era o chefe de um departamento de sociologia, e nunca abaixara a cabeça para nenhum professor ou aluno. Parecia imbatível, detestava mentes estúpidas, mas não olhava para minha estupidez. Sempre fora ótimo em cultivar inimigos e péssimo em fazer amigos.
”E agora, o que pensarão de mim? O que pensarão de um suicida salvo por um homem excêntrico? E, o que é pior, o que pensarão de um suicida que depois de resgatado dançou alegremente no meio da multidão desconhecida? Certamente dirão que fiquei maluco ao quadrado. Dirão que me pós-graduei em doidice.”
Era tudo o que Mario Vargas, Antônio Freitas e outros desafetos sonhavam, surrupiar a minha imagem. Sem perceber, acabei por vender o sonho que eles mais desejavam, o sonho de pisotear minha imagem. Abatido, concluí que estava acabado para o mundo acadêmico, estava terminado para a universidade. Nunca mais teria o mesmo silêncio quando tecesse crítica social nem o respeito quando debatesse idéias ou corrigisse alguém. O mal-estar da civilização penetrara as entranhas do meu cérebro.
Comecei a ter raiva do jornalista que fizera a matéria. Num ataque de cólera, pensei: ”Por que os jornalistas, na sua formação, não fazem um laboratório em que simulem a execração pública de seu nome? Talvez aprendessem a se colocar no lugar dos outros e investigassem muitos mais fatos antes de jogar no lixo o nome dos outros”.
Para o jornalista, era mais uma matéria, para mim era minha história, era tudo o que tenho e sou, ainda que fosse uma história doente, complicada, saturada de sobressaltos. Poucos minutos mudam uma história. Como retornar às minhas atividades? Se retornar, nunca mais serei o mesmo para os outros. Só tenho à
minha frente um homem que propôs um projeto revolucionário sem a mínima base de segurança intelectual, social, financeira. E, ainda por cima, chama para esse projeto pessoas que jamais passariam pelo filtro da minha inteligência, parceiros que eu jamais escolheria para fazer qualquer tarefa juntos.
Eu ficara muitos anos protegido na universidade; a primeira vez em que deixava a proteção dos meus notáveis títulos e me tornava um simples mortal, recebia bordoadas. Estava indignado. De repente, enquanto me atolava na lama da angústia, minha mente começou a se iluminar, e tive outro insight. Olhei de relance para o mestre e descobri que a vírgula que ele me vendera estava funcionando, embora segui-lo fosse um preço muito alto. Percebi que todo o corpo de idéias pessimistas causadas pela matéria tinha por trás algo muito positivo. Os vivos sentem frustrações, os mortos, não sei. Eu estava vivo. Quase me arrebentara saltando do topo do edifício. Devia estar festejando a vida, porém os conflitos alojados em meu inconsciente estavam combalidos, mas não mortos. Queria ser simples, viver suavemente, despreocupar-me com a paranóia da imagem social, mas era um ser humano pesado, rígido, controlado pela ansiedade.
Agora entendo por que o pai de um colega professor, um senhor de setenta anos, arrogante, agressivo, discriminador, que ficara seqüestrado por seis meses, não mudara de personalidade depois de seu longo seqüestro. Quando foi libertado, todos pensavam que se tornaria um homem dócil, generoso, altruísta, mas depois de resgatado ficou sendo mais intragável ainda. Meu autoritarismo sempre ficara escondido debaixo do manto da minha intelectualidade. Não foi extirpado nem depois do vendaval que me levou à idéia do suicídio. Angustiado, senti que essa história de vender sonhos não mudaria facilmente um sujeito egocêntrico como eu. Não é a dor que nos muda, como há milhares de anos pensamos, mas a utilização inteligente dessa dor que fazemos ao longo da vida. Percebi que se não a utilizasse, continuaria sendo um ser humano doente: um gigante na cultura e um menino na emoção.
Quando refletia sobre isso, senti a presença do mestre ao meu lado. Ele parecia ter entrado no torvelinho das minhas idéias. Sua face revelava preocupação. Parecia ler o invisível. Procurando apaziguar as águas da minha emoção, disse-me:
— Não tema a difamação exterior. Tema seus próprios pensamentos, pois somente eles podem penetrar em sua essência e destruí-la.
Fiquei pensativo, e ele continuou:
— Alguém pode rasgar-lhe a pele sem que você permita, mas jamais poderá invadir sua mente se você não permitir. Não se permita ser invadido. Somos o que somos. — Em seguida me desafiou mais do que poderia imaginar com estas palavras:
— O preço para vender sonhos é alto, mas você não é
obrigado a pagá-lo. Tem liberdade de partir.
Eu fora arrastado para uma encruzilhada. Tinha a oportunidade de virar as costas e ir para qualquer lugar do mundo. Eu, cair fora? Sempre fui teimoso, obstinado, lutei pelo que queria. Nesse momento, minha mente começou a ser invadida por um questionamento sobre o qual jamais havia refletido. Comecei a recordar o estudo sociológico que havia sobre as relações entre Jesus e seus discípulos, que muito influenciou a sociedade ocidental. Comecei a entender fenômenos psíquicos e sociais que nunca havia analisado.
Comecei a pensar no poder indecifrável das suas palavras e gestos do homem Jesus para convencer jovens judeus, na flor da idade, malucos por aventuras, com famílias nucleares organizadas e negócios estabelecidos, a abandonar tudo para segui-lo. Que loucura! Seguiram no escuro um homem sem poder político notório e sem identidade visível. Deixaram barcos, amigos, casas e o seguiram sem direção. Ele não lhes deu dinheiro, não lhes deu conforto, não lhes prometeu nem mesmo um reino terreno. Que experiência arriscada! Que conflitos! Que vexames! Que perturbações viveram!
Perderam tudo, por fim perderam o homem que os ensinou a amar crucificado numa trave de madeira. Morreu sem heroísmo, morreu em silêncio, encerrou seu fôlego amando, faleceu perdoando. Após sua morte, o grupo poderia ter se dissipado, mas uma força incompreensível os invadiu. Tornaram-se mais fortes depois do caos. Difundiram para o mundo a mensagem que tinham ouvido.
Deram as lágrimas, a saúde, seu tempo, enfim, tudo o que tinham para a humanidade. Amaram desconhecidos e se entregaram por eles. Sob a mensagem difundida por esses jovens toscos e sem cultura clássica, as sociedades européias e depois inúmeras outras nas Américas, na África e na Ásia foram construídas. As bases dos direitos humanos e dos valores sociais foram estabelecidas.
Séculos se passaram, e tudo se tornou comum. As igrejas se tornaram uma fonte excelente de conformismo. Na atualidade, centenas de milhões de pessoas comemoram confortavelmente em seus templos o Natal, a Paixão e outras datas, sem nunca terem imaginado o que é dormir ao relento, o que é receber a pecha de louco, qual o sabor de ter sua imagem social estilhaçada. Perderam a sensibilidade, não entenderam o estresse dramático que esses jovens viveram ao seguirem o enigmático Mestre dos Mestres. Vieram-me à mente as desconfortáveis camas de palha nas quais dormiam ao relento. Fiquei refletindo na angústia que sofreram ao tentar explicar o inexplicável para seus pais e amigos da Galiléia. Não poderiam falar que tinham aprendido a amar um homem, pois seriam apedrejados. Não poderiam dizer que estavam envolvidos num grande projeto, porque esse projeto não era palpável. Não podiam comentar que seguiam um homem poderoso, o Messias, pois ele amava o anonimato. Que coragem para chamar e que coragem para seguir o chamado!
Após essa reflexão, Bartolomeu me fez voltar como um raio para nossa realidade. Provocou-me. Não sei se me elogiou ou me ofendeu.
— Superego, se você for um banana e cair fora, vamos respeitá-lo. Mas você é importante no time.
Respirei profundamente. Pensei no homem que evitara meu suicídio e me levara a dormir debaixo do viaduto. Ele não é Cristo, não tem vocação messiânica. Não faz milagres. Não promete o reino dos céus, nem promete um reino terreno e sequer nos dá
segurança social. Não tem onde morar, é pobre, não tem carro, não possui plano de saúde. Mas nos magnetiza. Vive a arte da solidariedade, sonha em abrir a mente das pessoas, em combater o vírus do sistema, em confrontar o egocentrismo.
Não seria menos perigoso deixar a sociedade continuar sendo uma fábrica de loucura? Não seria melhor deixar as pessoas se lambuzarem com o individualismo, não seria mais confortável deixá-las serem mentes obtusas que não pensam nos mistérios da existência, mas nos superficiais mistérios dos produtos dos shoppings, dos computadores, da moda? Somos pequenos demais para fazer alguma coisa contra o poderoso sistema. Poderemos ser presos, feridos e mais caluniados ainda.
Enquanto o circo pegava fogo na minha mente, o mestre ainda estava no picadeiro realizando belíssimas performances. A paciência era sua virtude número um. Vendo-me aflito, chamou Boquinha de Mel e Mão de Anjo, e depois de um longo minuto de silêncio contou-nos uma parábola simples, quase ingênua, mas que tocou as entranhas dos meus medos:
— Certa vez houve uma inundação numa imensa floresta. O
choro das nuvens que deveriam promover a vida dessa vez anunciou a morte. Os grandes animais bateram em retirada fugindo do afogamento, deixando até os filhos para trás. Devastavam tudo o que estava à frente. Os animais menores seguiam seus rastros. De repente uma pequena andorinha, toda ensopada, apareceu na contramão procurando a quem salvar.
”As hienas viram a atitude da andorinha e ficaram admiradíssimas. Disseram: ’Você é louca! O que poderá fazer com um corpo tão frágil?’. Os abutres bradaram: ’Utópica! Veja se enxerga a sua pequenez!’. Por onde a frágil andorinha passava, era ridicularizada. Mas, atenta, procurava alguém que pudesse resgatar. Suas asas batiam fatigadas, quando viu um filhote de beija-flor debatendo-se na água, quase se entregando. Apesar de nunca ter aprendido a mergulhar, ela se atirou na água e com muito esforço pegou o diminuto pássaro pela asa esquerda. E
bateu em retirada, carregando o filhote no bico.
”Ao retornar, encontrou outras hienas, que não tardaram a declarar: ’Maluca! Está querendo ser heroína!’. Mas não parou; muito fatigada, só descansou após deixar o pequeno beija-flor em local seguro. Horas depois, encontrou as hienas embaixo de uma sombra. Fitando-as nos olhos, deu a sua resposta: ’Só me sinto digna das minhas asas se eu as utilizar para fazer os outros voarem’.”
No momento seguinte, após uma inspiração profunda e penetrante, o vendedor de sonhos disse a mim e a meus amigos:
— Há muitas hienas e abutres na sociedade. Não esperem muito dos grandes animais. Esperem deles, sim, incompreensões, rejeições, calúnias e necessidade doentia de poder. Não os chamo para serem grandes heróis, para terem seus feitos descritos nos anais da história, mas para serem pequenas andorinhas que sobrevoam anonimamente a sociedade amando desconhecidos e fazendo por eles o que está ao seu alcance. Sejam dignos das suas asas. É na insignificância que se conquistam os grandes significados, é na pequenez que se realizam os grandes atos. Essa história, ao mesmo tempo em que animou minha emoção, feriu meu intelecto. Pensei comigo: ”Tenho de admitir que agi como hiena e abutre em muitos momentos da minha vida; agora preciso aprender a agir como uma insignificante e brava andorinha”.
Os espaços mais manicômio social Os ”normais” levantavam sempre do mesmo jeito. Reclamavam da mesma maneira. Irritavam-se do mesmo modo. Xingavam com as mesmas palavras. Cumprimentavam os íntimos da mesma forma. Davam as mesmas respostas para os mesmos problemas. Expressavam o mesmo humor em casa e no trabalho. Tinham as mesmas reações diante das mesmas circunstâncias. Davam presentes nas mesmas datas. Enfim, tinham uma rotina estafante e previsível, que se tornava uma fonte excelente para a ansiedade, a angústia, o vazio, o enfado.
O sistema havia enfartado a imaginação das pessoas, corroera a sua criatividade. Elas raramente surpreendiam. Raramente davam presentes em dias inesperados. Raramente reagiam de modo distinto em situações tensas. Raramente libertavam o intelecto para enxergar os fenômenos sociais por outros ângulos. Eram prisioneiras e não sabiam.
Os pais ”normais”, quando iam corrigir ou aconselhar os filhos, eram interrompidos no meio do caminho. Os filhos não agüentavam mais os mesmos argumentos. Diziam: ”Eu já sei...”. E
já sabiam mesmo. Os ”normais” não sabiam encantar.
Não sabiam contar suas próprias experiências para estimular as idéias dos outros.
Sempre fui previsível ao me relacionar com meus alunos, e só
descobri isso quando comecei a andar com meu mestre. Dava aula no mesmo tom de voz. Fazia críticas e dava broncas da mesma maneira. Variava os verbos e substantivos, mas não a forma e o conteúdo. Os alunos estavam com o saco cheio de um professor que parecia mais uma múmia do Egito do que um ser humano versátil. Não agüentavam mais ouvir que seriam derrotados na vida se não estudassem.
O vendedor de idéias vendia continuamente o sonho do encantamento. Como pode alguém que não tem nada exteriormente cativar tanto? Como pode um homem sem teoria pedagógica bombear nossa imaginação? Andar com ele era um convite à inovação. Navegávamos sem destino traçado. Ele via por ângulos distintos situações ordinárias. Não sabíamos qual seria a resposta. Mas, no fundo, ele sabia muito bem o que queria e aonde queria chegar. Estava nos treinando a encontrar uma liberdade inimaginável. Cada dia era um canteiro de surpresas, umas agradabilíssimas, outras causticantes.
Na manhã seguinte, depois de um período de mitigação silenciosa das suas preocupações, o mestre se levantou, aspirou algumas vezes longamente o ar poluído do viaduto e agradeceu a Deus de um modo inusitado.
— Deus, você caminha nas reentrâncias do tempo, está
infinitamente distante e infinitamente próximo, mas sei que seus olhos me espreitam. Permita-me captar seus sentimentos. Obrigado por mais um show nessa surpreendente existência. Boca de Mel, que era vidrado em shows country, disse:
— Que show nós iremos ver, chefinho? — E expressou um entusiasmo matutino que raramente vivenciava.
O vendedor de sonhos reagiu, deslumbrado:
— Show? Cada dia é um show, cada dia um espetáculo. Só
não o descobre quem está mortalmente ferido pelo tédio. O drama e a comédia estão em nosso cérebro. Basta despertá-los. Bartolomeu precisava estar alcoolizado para libertar-se da sua angústia, para esvaziar-se do seu tédio. Agora tanto ele como eu e Dimas estávamos descobrindo um outro mundo, um outro palco. O mestre saiu, e começamos a seguir seus passos. Subimos uma ladeira. Andamos três quadras, viramos à direita, depois quatro quadras à esquerda. Entreolhávamo-nos, indagando uns aos outros, querendo descobrir para onde ele estaria indo. Depois de quarenta minutos de caminhada, Dimas, que ainda não havia ficado atônito o suficiente com as palavras do mestre, perguntou:
— Para onde vamos?
O mestre interrompeu os passos, fitou seus olhos e lhe disse:
— Os que vendem sonhos são como o vento: você ouve a sua voz, mas não sabe de onde ele vem e nem para onde vai. O
importante não é o mapa, mas a caminhada.
Dimas não entendeu quase nada, mas ficou pensativo, e começou a exercitar a mente enferrujada. E continuamos a caminhar. Quinze minutos depois, o mestre parou diante de uma aglomeração e foi em sua direção. Reduzimos os passos, e ele avançou uns seis metros à nossa frente. Dimas olhou para mim e disse, apreensivo:
— Esse lugar é uma fria. Não dá. Reagindo, confirmei:
— Concordo. Acho que o mestre não sabe onde está entrando. Era um velório. O único lugar onde desconhecidos não têm clima nem desejo de entrar. Mas o irreverente Boquinha de Mel, procurando manter a pose, me provocou, dizendo:
— Superego, desce do céu. Vamos pró velório.
Tive vontade de lhe dar um sopapo. Não sei se ele o bajulava ou se o seguia de coração. Mas como estávamos próximos do velório, um lugar de respeito, contive a ira. O ambiente estava saturado de dor. Havia uma multidão velando um homem morto por um câncer de rapidíssima evolução e que deixara um único filho de doze anos.
O espaço onde se velavam os mortos era pomposo, construído com vários arcos arredondados revestidos de mármore em arabescos e iluminado por lustres com dúzias de lâmpadas. Era um lugar fisicamente belo para conter tanta tristeza. O medo de um escândalo num lugar que primava pelo silêncio desacelerou ainda mais nossos passos. Distanciamo-nos do mestre. Estávamos a doze metros dele. Olhando para trás, ele percebeu nossa ansiedade, e aproximando-se dos seus tímidos discípulos indagou:
— Qual é o espaço mais sóbrio do grande manicômio social?
Serão os fóruns? Ou as redações dos jornais? Ou a tribuna dos políticos? As universidades?
Tentei tapar a bocarra do Boca de Mel, mas não deu tempo. Ele disse:
— Os botecos, chefinho. — Mas corrigiu em seguida: —
Brincadeira.
Como não sabíamos a resposta, o homem que seguíamos afirmou:
— São os velórios. São eles os espaços mais lúcidos da sociedade. Neles nos desarmamos, nos despimos das vaidades, retiramos a maquiagem. Nesse espaço, somos o que somos. Se assim não for, seremos mais doentes do que imaginamos. Para uma minoria, composta dos íntimos, o velório é uma fonte de desespero. Para uma maioria, composta dos mais distantes, uma fonte de reflexão. Para ambos, a verdade é crua: tombamos no silêncio de um túmulo não como doutores, intelectuais, líderes políticos, celebridades, mas como frágeis mortais.
Essas palavras me fizeram ver que era nos velórios que deixávamos de ser deuses e entrávamos em contato com nossa humanidade, deparávamos com nossas loucuras e enxergávamos nosso anti-heroísmo. Nos velórios, nós, os normais, fazíamos intuitivamente uma socioterapia.
Uns diziam: ”Coitado! Morreu tão novo!”. Esses se projetavam no falecido e começavam a ter um pouco de compaixão de si mesmos, e sentiam que deviam viver a vida com mais suavidade. Outros falavam: ”A vida é uma fonte de riscos. Basta estar vivo para morrer”. Esses viam a urgência de relaxar, diminuir o ritmo. Outros ainda comentavam: ”Lutou tanto e, quando ia desfrutar das suas conquistas, morreu!”. Esses descobriam que a vida passa como a sombra, que em vão se inquietavam e conquistavam fortunas, mas outros, que nem sempre as mereciam, é que se deleitavam nelas. Precisavam mudar seu insano estilo de vida. Os participantes dos velórios tentavam desesperadamente comprar sonhos, mas o rolo compressor do sistema os furtava em poucas horas ou dias. Tudo voltava ao ”normal”. Não entendiam que os sonhos só poderiam ter durabilidade e penetrabilidade se fossem tecidos como linho fino nos lugares secretos do intelecto. Eu, em particular, sempre me fixara na argila do continuísmo. A miséria dos outros era um filme, uma ficção que insistia em criar raízes em minha psique, mas esta não passava de um solo impermeável.
Após falar sobre o espaço sóbrio dos velórios, ele acrescentou:
— Não esperem contemplar flores onde as sementes não morreram. Não se inquietem, vamos. — E sorriu.
Para ele, essas palavras foram satisfatórias; para nós, diminuíram apenas dez graus na fervura da ansiedade em que nos encontrávamos. A morte é perturbadora, mas a vida também o é. A primeira extingue o fôlego humano, a segunda pode asfixiá-lo. O
que ele poderia falar num ambiente em que mortos e vivos silenciam a voz? O que poderia discorrer num terreno em que todos os discursos esfacelam seu impacto? O que poderia dizer num momento em que as pessoas não estão inclinadas a ouvir, apenas a beber o cálice da angústia diante da perda? Que palavras as aliviariam? Ainda mais vindas de um estranho.
Sabíamos que o mestre não se comportaria como mais um
número no meio da multidão. Esse era o problema. Sabíamos que não se calaria. E esse era um problema maior ainda.
Uma solene homenagem
Eu passei esse drama quando perdi minha mãe. Os pêsames não me aliviavam, nem, muito menos, os conselhos pré-fabricados. Todas as palavras de conforto apenas faziam ranhura nas barras de aço que me encarceravam. Teria preferido o silêncio dos abraços ou apenas algumas lágrimas que chorassem comigo.
O mestre foi pedindo espaço para a multidão. Nós seguíamos seus passos. À medida que nos aproximávamos do caixão, as pessoas pareciam sofrer mais. Até que vimos um homem jovem, de cerca de quarenta anos, cabelos pretos mas ralos, face emagrecida e sofrida, inerte no caixão.
A esposa estava inconsolável. Os parentes e amigos próximos estavam todos enxugando as próprias lágrimas. O filho estava desesperado. Eu me vi nele, senti mais do que meus companheiros a sua dor. Ele mal começara a vida, e começara perdendo muito. Eu mal entendia a vida e meu pai encerrava a dele, e minha mãe, posteriormente, fechara os olhos. Jantava com a solidão e dormia em meu mundo fechado, repleto de dúvidas que nunca foram respondidas. Deus não se importava comigo, pensava. Tive mágoas dele na adolescência. Por fim, na vida adulta, ele se tornou uma miragem, e tornei-me ateu. Devia estar brincando, mas me tornara um especialista em idéias pessimistas. Percebendo o vácuo na história desse jovem, não pude conter as lágrimas.
O mestre, ao ver o desespero do garoto, deu-lhe um abraço e perguntou o nome dele e de seu pai. Então, para nosso espanto, olhou para os presentes e, com sua voz grave, proferiu algumas palavras que lhes tirou o chão. Palavras que poderiam precipitar um tumulto.
— Por que vocês estão desesperados? O senhor Marco Aurélio não está morto.
Imediatamente eu, Bartolomeu e Dimas procuramos ficar um pouco mais distantes. Era recomendável não sermos reconhecidos como seus discípulos. As pessoas tiveram reações distintas diante da sua atitude ousada. Umas saíram das lágrimas para o deboche, se bem que contido. Deram risadas disfarçadas do maluco. Outras estavam imersas num clima de curiosidade. Pensavam tratar-se de um excêntrico líder espiritual, convidado para celebrar o funeral. Outros tiveram vontade de expulsá-lo da cena com elevada dose de raiva pela invasão de privacidade, pelo desrespeito aos sentimentos alheios. Dentre esses, alguns o pegaram pelos braços para tentar sufocar rapidamente o escândalo.
Mas o mestre não se perturbou. Começou a indagar com voz alta e firme:
— Não lhes peço que silenciem sua dor, mas que silenciem o desespero. Não espero que estanquem suas lágrimas, mas estanquem os altos níveis de angústia. A saudade nunca é
resolvida, mas o desespero deve ser aquietado, pois não honra quem partiu.
As pessoas soltaram seus braços e começaram a perceber que o homem de vestes estranhas e barba proeminente podia ser excêntrico, mas era inteligente. O filho do morto, Antônio, e a esposa, Sofia, fixaram-se nele.
Em seguida, com ar de serenidade difícil de definir, adicionou:
— Marco Aurélio viveu momentos incríveis, chorou, amou, se encantou, perdeu, conquistou. Vocês estão aqui tristes com sua ausência, mergulhados num sentimento de vácuo existencial, porque o estão deixando morrer no único lugar em que ele tem de continuar vivo. Dentro de vocês.
Vendo as pessoas mais interiorizadas, usou novamente seu penetrante método socrático: