O Vendedor de Sonhos: O Chamado
Prestando atenção apenas na primeira parte da…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Prestando atenção apenas na primeira parte da pergunta, um cientista interpelou o mestre:
— Você é um leigo em inteligência artificial. Em poucos anos teremos máquinas que superarão o cérebro humano. Elas terão a programação da mente humana, com a vantagem de possuírem uma memória superior. Será a mais fantástica construção. Espere e verá!
O mestre aceitou o debate:
— Discordo! Os computadores estarão eternamente condenados ao sono da inconsciência. Nunca terão conflitos. Jamais se inquietarão com a procura de suas origens e de seu fim. Não produzirão filosofia nem religião. Serão sempre escravos de programas.
Fiquei pensando: ”Onde o mestre aprendeu essas informações? Como consegue discutir com segurança assuntos polêmicos?”. De outro lado, os engenheiros de computação e programadores que o ouviram ficaram embaraçados.
— Será que o sono da inconsciência jamais será despertado pela inteligência artificial? Será que os computadores jamais saberão que existem?
— Nossos conflitos denunciam nossa complexidade. Se não conseguimos ficar felizes por tê-los, pelo menos deveríamos admirá-los como frutos de nossa grandeza psíquica.
Olhei para alguns membros da família e percebi que não estavam entendendo nada. Bartolomeu, em especial, estava perdido. Mas engoli minha silenciosa língua; ele, pois, me surpreendeu dizendo-me baixinho.
— Superego, eu sempre fui uma pessoa maravilhosamente complexa, mas você é insuportavelmente certinho e chato. Bartolomeu sempre me socava o fígado em situações nas quais sabia muito bem que eu não podia lhe dar resposta. Queria golpeá-lo com minha cultura, mas tinha que cultivar o que nunca tive: paciência. Eu, que nunca fui religioso, pedi: ”Dai-me paciência para não perder as estribeiras com esse complicado personagem”.
Enquanto isso, o mestre, depois de criticar o ufanismo diante das máquinas, virou sua artilharia contra a internet.
— O sistema produziu a internet e os celulares, gerando uma revolução na comunicação e no acesso às informações jamais vista na história. As pessoas tornaram-se desinibidas diante de aparelhos, mas não perante faces concretas. Não dialogar com os outros é um ato tolerável, mas não dialogar consigo mesmo é um ato insuportável.
Agora eu entendia por que o mestre se isolava. Quando eu o via falando sozinho, achava estranhíssimo. Para mim, esse gesto sempre foi um sintoma de loucura, mas ele invertera o conceito, julgava-o um sintoma de sanidade. Nunca falei comigo mesmo, a não ser coisas prosaicas. Estava mais doente que alguns psicóticos; não foi à toa que cheguei ao ponto de me abandonar por completo.
As pessoas se ajuntavam cada vez mais, obrigando-o a elevar o tom de voz. Elas tinham vindo para a magnífica feira para ver as últimas novidades da informática e descobriram uma das últimas novidades do seu ”computador” cerebral. Bombeando mais lucidez para a mente da platéia, o mestre fez uma afirmação apoiada em números que eu desconhecia:
— Mais de quatro bilhões de asiáticos, europeus e americanos jamais tiveram um encontro com seu próprio ser. Silenciarão sua voz num pequeno espaço de um túmulo como estrangeiros que nunca encontraram sua verdadeira casa. As pessoas meditaram sobre essas palavras como se fossem uma oração. Nesse momento, nosso amigo Boquinha de Mel levantou as mãos. O clima filosófico exigia que ele continuasse com a boca fechada para não estragá-lo. Mas era mais dependente da sua língua do que do álcool. Perguntou:
— Chefinho, acho que estamos mais enrolados que esses caras.
— Por que, Bartolomeu? — perguntou pacientemente ao aluno especialista em interromper a aula no seu ápice.
— Porque nem endereço de casa temos. Moramos debaixo da ponte.
Muitos deram risadas. Logo ele percebeu o fora que dera. O
mestre não o repreendeu, também sorriu e admirou sua espontaneidade. Boquinha era uma criança hiperativa e peralta. Para o mestre, a liberdade cresce no terreno da espontaneidade. Muitos mataram sua espontaneidade nas escolas, igrejas, empresas, inclusive as pessoas da grande feira; são robôs admirando máquinas. Não falam o que pensam. Nesse instante, me interiorizei e percebi que não ficara para trás. Em nome da discrição, era formal, ponderado, recatado. Não me conhecia nem deixava os outros me conhecerem. Era um intelectual perito em dissimular que estava tudo bem. Era difícil admitir que o Boquinha tinha vantagens sobre mim.
Calmo, o mestre lhe disse:
— Sim, Bartolomeu. Não temos casa, mas procuramos a melhor delas. Lembre-se de nossa canção.
E mais uma vez assombrou seus ouvintes com sua excentricidade. Interrompeu o discurso e cantou sua canção, e ainda fez os gestos de um maestro. Nós o acompanhamos. Nas primeiras frases, eu estava engessado. Boquinha e Dimas se esbaldavam. Saímos dos altos montes da reflexão para tomar um banho relaxante na cachoeira do prazer.
Sou apenas um caminhante
Que perdeu o medo de se perder
Estou seguro de que sou imperfeito
Podem me chamar de louco
Podem zombar das minhas idéias
Não importa!
O que importa é que sou um caminhante
Que vende sonhos para os passantes
Não tenho bússola nem agenda
Não tenho nada, mas tenho tudo
Sou apenas um caminhante
À procura de mim mesmo
Ao nos ouvir cantar essa canção, alguns ouvintes ficaram completamente atordoados. Perguntavam: ”Que grupo é esse? De onde saiu? Quem é esse maestro? Será que é um palestrante de alguma corporação que está disfarçado para excitar a mente dos convidados?”. Outros se soltaram, entraram no ritmo e começaram a nos acompanhar; perderam o medo de se perder, perderam o medo de se soltar; descobriram, por alguns instantes, que não são pesquisadores, engenheiros ou empresários, são apenas caminhantes. E ainda outros saíram da platéia dizendo: ”Esse cara é louco varrido!”. Apesar das interpretações destoantes, era impossível ficar indiferente à irreverência do homem malvestido. Ele penetrava nos espaços mais íntimos da solidão.
Olhamos ao nosso redor e vimos algumas pessoas comovidas, em especial duas executivas muito bem-trajadas. Sentiam-se intensamente abandonadas, embora rodeadas de pessoas. Tinham sucesso profissional, mas eram infelizes. Todo o cenário mexia com meu imaginário.
Vendo as pessoas interiorizadas, o vendedor de idéias tocou em outro assunto. Perguntou algo aparentemente óbvio:
— A vida média é maior hoje ou no passado? Uma pessoa, tomando a frente, respondeu:
— Hoje, sem sombra de dúvida!
Mas o mestre, olhando para seus discípulos, em especial para mim, e depois para a massa que o ouvia, nos provocou indo contra a resposta:
— Não! Morremos mais cedo hoje que no passado! Muitos zombaram do mestre. Imaginei que dessa vez ele tinha metido os pés pelas mãos. Um cientista não se agüentou. Dando risadas, confrontou:
— Tolice! Qualquer péssimo estudante sabe que a vida média se expandiu com as novas medidas sanitárias e vacinas. O vendedor de sonhos não era tolo, sabia o que estava dizendo. Fixando-se nele, comentou:
— No tempo dos romanos, a vida média não passava dos quarenta anos. Na Idade Média, não passava dos quarenta e cinco. Hoje nos aproximamos dos oitenta, mas me refiro à vida média psíquica. Morremos psiquicamente mais cedo. Não parece que dormiram e acordaram com essa idade, senhores?
E, aumentando o tom de voz, afirmou:
— O sistema tem um lado boníssimo. Produziu vacinas, antibióticos, tratamento de água e esgotos, técnicas agrícolas, conservação de alimentos, gerando, assim, a expansão da vida média física. Todavia, o mesmo sistema que nos colocou ao ar livre retirou oxigênio com seus excessos. Entenderam?
Não entendemos, pelo menos não completamente. Muitas vezes ele era econômico nas palavras, falava quase por códigos. Não sabíamos o que queria dizer sobre os ”excessos” do sistema. Para iluminar nossa mente, mais uma vez fez o que sempre amava fazer. Contou uma história:
— O simpático bacteriologista escocês Alexander Fleming estava analisando uma temível bactéria em seu laboratório em 1928. Distraído como um bom cientista, e golpeado pelo excesso de atividades, esqueceu a porta aberta ao sair. Um fungo invadiu as placas de cultivo das bactérias, produzindo um bolor. Aquilo que parecia um desastre gerou uma notável descoberta: as bactérias morreram. A partir dessa descoberta, extraiu-se o primeiro antibiótico, a penicilina. Milhões de vidas foram salvas. Todavia, a penicilina passou a ser usada excessiva e indiscriminadamente. O
resultado? Agora, sim, desastroso. O uso excessivo de antibióticos tem produzido bactérias resistentes a eles e, portanto, perigosíssimas. A penicilina, que foi um dos maiores presentes da medicina para a humanidade, é hoje acusada de criar supermicróbios capazes de destruí-la ou afetá-la. Do mesmo modo, o sistema que expandiu a vida média física, por meio de seus excessos, está nos sepultando psiquicamente mais cedo do que nos tempos da varíola.
Fazendo uma pausa para respirar, completou sua história:
— Vivemos mais tempo fisicamente do que no passado, mas a percepção do tempo é muito mais rápida. Os meses correm, os anos voam. Muitos estão no ápice da juventude psíquica, mas olham para si e descobrem que têm setenta ou oitenta anos. Atualmente, oitenta anos são percebidos como vinte. Quais os excessos que os têm afetado? — indagou dos ouvintes.
Atordoados e honestos, os ouvintes olharam para a própria história e declararam aquilo que os asfixiava. Uns responderam:
— Excesso de compromissos. Outros:
— Excesso de informações. E ainda outros:
— Excesso de pressões sociais, competição, metas, cobranças, necessidade de nos atualizarmos.
Éramos a sociedade de excessos, até excesso de loucuras. Bartolomeu não ficou atrás. Felizmente deu uma nota dentro:
— Excesso de porre. — E como nunca deixava ninguém quieto, olhou para nós nos e disse: — Excesso de ego, de malandragem, de religiosidade.
Demos-lhe uns beliscões sutis.
As pessoas começaram a descobrir que os excessos tinham invadido nosso estilo de vida. Precisavam comprar sonhos. O
homem de lábios e olhos inchados queria vendê-los, pelo menos um pouco.
— O que fazer para reverter essa vida excêntrica, saturada de tensões? — perguntou, angustiado, um senhor de sessenta anos. O mestre foi lacônico e direto:
— Cortem os excessos, ainda que percam dinheiro e diminuam o status. Se não quiserem ser idosos reclamando uma juventude que já passou, têm de ter coragem para fazer cortes. Não há corte sem dor.
Eu fiquei pensando. Será que o mestre tinha tido coragem de fazer tais cortes na sua história ou era um daqueles teóricos que discorrem sobre o que não viveram? Pode uma pessoa sem experiência abrir a mente de outras pessoas? Ele me fez enxergar que o tempo voara para mim. Eu estava atolado até pescoço na lama dos excessos. Excesso de aulas, de preocupações, de pensamentos, de pessimismo, de reclamações, de dívidas. Eu criara ”superbactérias” que infectavam minha psique.
Além de falar dos cortes no estilo de vida, vendeu o famoso exercício da arte da observação, que semanalmente fazíamos. E
finalizou suas idéias dizendo:
— A vida se extingue rapidamente no parêntese do tempo. Vivê-la lenta e deslumbradamente é o grande desafio dos mortais. Essas palavras me fizeram recordar que no passado os dias corriam tão rápido que eu não percebia. Agora, com essa incomum família, os dias duravam. Vivíamos intensamente.
Após dizer tais palavras, começou a sentir vertigem. O
estresse pelo espancamento e o desgaste do discurso o haviam esgotado. Seguramo-lo para que não caísse. Salomão e Dimas o pegaram pelos braços e o conduziam para fora.
Saiu sob aplausos calorosos. Foi descansar debaixo do viaduto da Avenida Europa, a duzentos metros do local. Uma pessoa se aproximou dele e disse agressivamente:
— Nunca ouvi tanta loucura num só dia. Você é uma fraude!
Ficamos mordidos de raiva do sujeito. O mestre nos aquietou e reagiu:
— Torço para que minhas idéias sejam de um louco e as suas de um sábio. — E foi saindo.
As pessoas prestavam atenção no estranho homem enquanto ele saía. Comentavam: ”Será que não quer fundar uma nova sociedade?”. Abismadas, diziam entre si: ”Como reunirei forças para fazer os cortes necessários em meus excessos?”. Algumas queriam morar no campo, cultivar orquídeas, criar animais ou fazer uma segunda jornada na sociedade, mudar de emprego ou ser voluntárias em instituições filantrópicas, como hospitais de câncer ou de crianças, mas seus excessos adiavam seus projetos. Porém, dessa vez retornavam para casa pensativas. Não dormiam direito, entenderam que deveriam perder o medo de se perder. Pouco a pouco, descobri que o mestre não apenas era um vendedor de sonhos, mas uma fonte de insônia.
Enquanto saímos do templo da informática, mais um fato tocante aconteceu. Uma mulher bem-vestida, mesmo vendo o mestre conduzido para fora fragilizado, abordou-o. Dissemos a ela que não era o momento. Mas o mestre, esquecendo sua vertigem, lhe deu ouvidos. Deprimida, comentou:
— Minha adorável filha Joana, de seis anos, está com câncer. Os médicos disseram que provavelmente só terá mais três meses de vida. Meu mundo desabou. Queria morrer em seu lugar. Não consigo ficar em casa. Estou aqui porque, quando olho para ela, entro em desespero, e ela é tão especial que em alguns momentos tenta me consolar.
Ficamos comovidos e, mais uma vez, envergonhados com nossa sensibilidade. Emocionado, ele disse.
— Filha! Não tenho poder sobrenatural para ajudar a pequena Joana. Mas posso dizer que três meses mal vividos são como segundos, ao passo que três meses vividos na plenitude são como uma eternidade. Não enterre sua filha no túmulo do seu medo. Vá para casa, descubra-a e deixe-a descobri-la. Viva intensamente com ela, com o máximo de alegria, pelo tempo que ela tiver.
Ela partiu animada, sedenta de fazer de cada minuto um momento único. Não sabíamos se a sobrevida da pequena Joana aumentaria. Mas tínhamos a certeza de que em três meses elas poderiam destilar uma história mais rica e mais intensa do que nos trinta anos que a maioria dos pais viviam com seus filhos. Lembrei-me da minha história como pai. Tive vontade de sair correndo atrás do João Marcos e lhe pedir desculpas pelo meu superficialismo e intelectualismo.
O veneno do assédio social Enquanto levávamos nosso mestre para o Viaduto Europa, Bartolomeu se desgarrou do grupo. Um repórter queria fazer uma entrevista sobre nós e em especial queria especular sobre a identidade e as intenções do mestre. Vendo que durante o seu discurso Bartolomeu fez uma pergunta, chamou-o à parte e propôs-lhe uma entrevista. Ele ficou excitado, sem saber que estava entrando numa zona de perigo.
O jornalista foi direto nas perguntas:
— É verdade que o homem que ouvimos os chamou para o
seguirem, sem lhes prometer dinheiro e lhes dar o mínimo de segurança?
— Sim - respondeu com simplicidade.
— É verdade que vocês realmente moram debaixo de uma ponte?
— Não de uma — respondeu ele. — Moramos debaixo de muitas pontes e viadutos.
— Como assim? Quem são vocês? A quem vocês seguem?
Constrangido pela dificuldade de dar respostas precisas, sem pensar muito, Bartolomeu disse: — Nós? Nós somos um grupo de artistas.
— Artistas? São artistas plásticos, escultores, grupo teatral?
— indagou o jornalista, curioso, pensando se tratar de um grupo bizarro de artistas. Mas decepcionou-se.
Bem-humorado, o terrível Boquinha de Mel respondeu:
— Não. Somos artistas em complicar a vida. — E deu sua famosa gargalhada, que se ouvia a cinqüenta metros.
O jornalista se sentiu menosprezado. Mas meu amigo fora sincero e espontâneo. Em seguida, tentando explicar melhor seu pensamento, acrescentou:
— Durante toda a nossa história, complicamos a vida, mas agora estamos passando por um complicado processo de descomplicação. Não é fácil, mas chegaremos lá.
Boquinha de Mel estava entusiasmado, pois era a primeira entrevista que dava em sua vida. Sentia-se atraído — pelo menos um pouco — pelo veneno do assédio social.
— Mas quem é o líder do grupo? O que ele faz? — perguntou o entrevistador, curioso.
— Não sei quem ele é. Mas sei que ele vende sonhos — disse com ingenuidade.
— Vende sonhos, como assim? Esse sujeito não é uma pessoa perigosa? Não é um louco?
O discípulo olhou em derredor e, apontando para o ambiente, disse:
— Se ele é louco eu não sei, mas sei que ele diz que todos nós estamos num manicômio global. O chefinho quer mudar o mundo
— falou, dando uma dimensão fantasiosa às metas do mestre. Na realidade, o mestre queria estimular as pessoas a terem sede e fome de mudanças, pois somente elas seriam responsáveis por suas transformações.
Perplexo, o entrevistador indagou:
— O quê? Aquele maltrapilho diz que vivemos num hospício global? E deseja mudar o mundo? E vocês acreditam nisso?
— Não sei se ele vai mudar o mundo, mas está mudando o meu mundo — disse com sinceridade.
— Vocês são anarquistas?
Bartolomeu desconhecia o movimento anarquista. Não sabia que Pierre Joseph Proudhon, o inspirador desse movimento surgido no século XIX, defendia a tese da construção de uma nova sociedade, capaz de expandir a liberdade individual e libertar o trabalho da exploração do capitalismo industrial. Nessa nova ordem social, constituída pela organização dos trabalhadores, as pessoas tratariam com justiça seus pares e desenvolveriam seu potencial. Os anarquistas não reconheciam o governo vigente, suas leis e instituições. Viviam debaixo do seu próprio controle. Sem a tutela do Estado, o ser humano, pensavam os anarquistas, seria livre.
O mestre não compactuava com a idéia central dos anarquistas. Para ele, sem Constituição e sem instituições, o homem poderia cometer atrocidades, distorcer o direito dos outros, assassinar, extorquir, viver em função de si mesmo e mostrar uma selvageria sem precedente. Não queria também reeditar o movimento hippie, que surgira na esteira da guerra dos EUA com o Vietnã. A frustração da juventude com a guerra gerou o desapontamento com as instituições, e isso se tornou o embrião de um movimento de paz e amor, mas sem compromissos sociais. O projeto de vender sonhos do mestre, ao contrário, era saturado de compromissos com a sociedade, em especial com os direitos humanos, a liberdade e a saúde psíquica. Por isso, ele recomendava, para os que queriam segui-lo, que não deixassem suas atividades sociais. Apenas alguns, talvez os mais bizarros, eram chamados para o seu treinamento.
Bartolomeu não sabia que não éramos anarquistas. Embora não entendesse o conteúdo da pergunta, o bizarro discípulo cocou a cabeça e respondeu com singeleza filosófica:
— Olha, meu amigo, não sei se somos anarquistas. O que sei é que até há pouco tempo eu não sabia dizer quem eu era.
— E agora, sabe? — perguntou o entrevistador curioso. Mas nosso amigo deu um nó na mente dele.
— Agora? Sei menos ainda. Não sei quem sou nem o que sou, pois o que pensava que era não é o que sou. Estou me desintoxicando do que era para ser o que sou. Não compreendo ainda quem sou, mas estou à procura de mim. Tá entendendo?
— Não! — respondeu o repórter, saturado de dúvidas. Bartolomeu reagiu aliviado, dizendo:
— Ufa! Que maravilha! Pensei que só eu não entendia. Olha, meu amigo, só sei que vivia caindo todos os dias, mas agora estou reerguendo alguns. — E fitando os olhos do jornalista, fez-lhe um convite afetivo: — Você não quer fazer parte do grupo?
— Eu não! Isso é coisa de maluco — rebateu o outro categoricamente.
Percebendo a atitude ríspida do jornalista, ele rebateu, dessa vez sem ingenuidade:
— Ué, cara! Como sabe disso? Mas é tão bom ser maluco! E, irreverente, levantou-se e começou a andar e a cantar, com sua voz estridente e de braços abertos, um trecho de uma música do Raul Seixas de que gostava: ”Eu vou ficaaar, maluco beleza”. Saiu sem se despedir do repórter. E gritava: ”Ah! Eu adoro essa vida!”. Gingava os quadris e cantava: ”Eu vou ficaaar, maluco beleza”. Ficou fora de si.
O jornalista, antes da entrevista com Bartolomeu, já tinha desenhado a pauta e o conteúdo da reportagem. Só precisava confirmar alguns dados. O preconceito o controlara. Bartolomeu ficou tão eufórico com a primeira entrevista que perdeu a sobriedade. Resolveu comemorar. Foi para um bar e encheu a cara. Era a terceira recaída desde que fora chamado, só que as duas primeiras tinham sido brandas. Dessa vez ele entortou o cabo do guarda-chuva e ensopou-se. Ficou jogado na calçada. Notando a sua falta, ficamos preocupados. O mestre nos encorajou a ir atrás dele. Eu e meus amigos, sem paciência, falamos uns para os outros: ”De novo! Esse cara não tem jeito”. Depois de uma hora o achamos quase desmaiado. Nós o colocamos de pé, mas ele não se firmava. Percebemos que fazia um pouco de corpo mole, não queria andar. Pegamos seus braços um de cada lado, e o apoiamos. Dimas empurrava por detrás.
Bartolomeu, com a voz pastosa, reclamava de Dimas:
— Vai devagar, amigo... O pára-choque é frágil.
De vez em quando, soltava flatos sonoros e fétidos — pior que uma vaca velha. E ainda zombava de nós:
— Gente, perdoa o escapamento furado.
Dava vontade de lhe dar uns tabefes. Eu me questionava:
”Saí do mundo das idéias da academia para ouvir as idéias de um bêbado. É inacreditável”. Nunca amei o próximo a não ser que me desse retorno. Sem retorno, estava fora. Agora estava cuidando de alguém que, além de não me dar retorno, me fazia sair do sério e me tirava sarro. Chegando perto do viaduto, nos últimos trinta metros, tivemos que carregá-lo; realmente, ele não conseguia mais andar. O mais difícil era agüentar sua declaração de amor por nós num péssimo inglês:
--I love you, gente. I love you very much, much, much. Suados e fatigados, falamos em coro:
— Cala a boca, Bartolomeu! — Mas não adiantava. Pedir para ele se calar aguçava seu vício inveterado de ser prolixo. Falou umas dez vezes, durante o trajeto, que nos amava. Talvez estivesse sendo sincero, talvez sua afetividade fosse maior que a nossa. Logo que chegamos ao viaduto, o folgado tentou nos dar beijos de agradecimento. Não agüentamos. Soltamo-lo no chão, mas procuramos proteger sua cabeça. Descarado, ele olhou para nós e exagerou:
— My friends, é um privilégio vocês me tomarem nos braços. Impacientes, dissemos em tom firme ao mestre:
— Mande esse cara para os Alcoólatras Anônimos. — Mas sem ele faltava graça no grupo.
Dimas falou:
— Mande-o para... para... um hospital psi... psi..., de louco mesmo.
O Milagreiro disse:
— Mestre, quantas vezes teremos que suportá-lo?
Não queríamos ouvir a resposta, pois ele endossou as palavras de Bartolomeu:
— É um privilégio carregá-lo. .
Ouvindo as palavras do mestre, Bartolomeu, mesmo embriagado, sentiu-se prestigiado:
— Tão ouvindo o chefinho! Não sou pouca coisa, não! — falou quase incompreensivelmente, mas claro o suficiente para aumentar a temperatura de nossas emoções. Em seguida, o vendedor de sonhos adicionou:
— É melhor carregar do que ser carregado. É melhor suportar do que ser suportado.
E disse-me algo que mais uma vez colidiu frontalmente com meu ateísmo:
— O deus construído pelo homem, o deus religioso, é
implacável, intolerante, exclusivista, preconceituoso. Mas o Deus que se oculta nos bastidores do teatro da existência é generoso. Sua capacidade de perdoar não tem bom senso, nos estimula a carregar os que nos frustram tantas vezes quantas forem necessárias.
Enquanto o mestre falava, eu duvidava das suas palavras. Recordava minha análise sociológica dos textos das Antigas Escrituras, e me vinha à mente um deus rígido, agressivo, intolerante. ”Onde está esse Deus generoso? Onde está o Deus tolerante, se aceitava apenas o povo de Israel?”, perguntei-me. Como se estivesse lendo os meus pensamentos, ele disse:
— Esse Deus generoso foi declarado em prosa e verso na boca do Mestre dos Mestres. Foi declarado quando chamou Judas de amigo no ato da traição. Foi declarado quando Jesus tremia na cruz e clamava: ”Pai, perdoai-os porque eles não sabem o que fazem”. Ele protegeu os que o odiaram, amou seus inimigos, intercedeu afetivamente pelos seus torturadores.
Suas palavras penetraram nos becos da minha personalidade, expondo minha falta de generosidade. Eu nunca soubera perdoar. Nunca perdoara meu filho por usar drogas. Para mim, ele havia negado a minha excelente educação. Nunca perdoara minha esposa por ter me abandonado. Para mim, ela abandonara um dos melhores homens do mundo. Nunca perdoara meu pai por ter se matado. Para mim, ele cometera o maior crime em ter me deixado quando menino. Nunca perdoara meus colegas professores que me traíram quando haviam prometido seu apoio no departamento. Considerava-os um bando de covardes dominados pela inveja.
Ao caminhar com o mestre, tinha a oportunidade de perdoar e carregar um alcoólatra gozador, desatinado, irresponsável. Como fazer isso sem reclamar? Difícil, muito difícil para mim. Mas eu começava a amar esse zombeteiro. Bartolomeu tinha o que eu sempre quisera: autenticidade e auto-estima sólida. Sociologicamente falando, os irresponsáveis são mais felizes do que os responsáveis. O problema é que os irresponsáveis dependem dos responsáveis para serem carregados.
No dia seguinte, as conseqüências da entrevista de Bartolomeu vieram à tona. Estava estampada, na primeira página do famoso jornal, a foto do mestre com a seguinte manchete:
”Psicótico chama o sistema social de manicômio global”. O jornalista comentava que havia um maluco que dizia que a humanidade caminha pelas avenidas de um gigantesco manicômio global. Mas dessa vez — dizia o maluco — esse manicômio não era um lugar lúgubre, frio, fétido, escuro, como os hospitais psiquiátricos do passado, e sim um ambiente aprazível, colorido, iluminado e repleto de máquinas sofisticadas. Um lugar perfeito para cultivar nossas loucuras sem nos perturbarmos com elas. Ele fazia discursos em todos os lugares públicos, com o objetivo de mudar a mente das pessoas. Ninguém sabia suas origens, mas para ludibriar as pessoas ele se intitulava com um nome atraente, ”o Vendedor de Sonhos”.
A reportagem estampava fotos das pessoas magnetizadas por ele e dizia que o sujeito era doido varrido, mas carismático e instigante. Sua capacidade de sedução era grandiosa. Até
executivos caíam na sua armadilha. Uma corja de ingênuos sem cultura clássica o seguia. Ele comentava que não enfatizava milagres nem se julgava messiânico, mas, desde que o homem Jesus viveu na Judéia e na Galiléia, não se via um demente tão ousado querendo reproduzir seus passos.
Nada discorreu sobre as intrigantes idéias que o mestre proferia. Não falou sobre a necessidade vital do autodiálogo, o sono inconsciente a que os computadores estão eternamente condenados, os excessos do sistema que estão nos fazendo morrer mais cedo no território psíquico. Silenciou-se ante a redução drástica da vida média psicológica. Por fim, concluiu a matéria dizendo que seus seguidores eram um bando de anarquistas que colocavam em risco a democracia e que poderiam desencadear atos terroristas.
A reportagem atirou nossa história no chão. A difamação foi contundente, não deixou pedra sobre pedra do nosso projeto. Ficamos profundamente cabisbaixos, desanimados. Não havia mais como continuar, pensei. Seria muito melhor chafurdar na lama do individualismo. Enquanto afundávamos no pântano dessa calúnia, mais uma vez o mestre entrou em cena e tentou apaziguar nossa mente. Parecia que havia sofrido tanto na vida, que essas coisas não o incomodavam.
— Lembre-se das andorinhas. Não temos vocação para ser mitos.
E tocando na raiz de nossa fragilidade, acrescentou:
— Jamais se esqueçam de que não é possível servir a dois senhores: ou vendemos sonhos ou nos preocupamos com nossa imagem social; ou somos fiéis à nossa consciência ou gravitamos na órbita do que os outros pensam e falam de nós.
E mais uma vez nos deu a opção de partir.
— Não se preocupem comigo. Vocês já deram muitas alegrias a mim e a muitos outros. Aprendi a amá-los e admirá-los do jeito que são. Não quero colocar em risco a vida de vocês. É melhor partirem.
Mas para onde iríamos? Não conseguíamos mais ser mortais
”normais”, servos do sistema anulados pela maçante rotina social, especialistas em reclamar da vida esperando a morte chegar. Havíamos nos tornado uma família incomum. O egoísmo do passado ainda estava vivo, mas paulatinamente dava lugar ao prazer em servir aos outros.
Optamos por ficar. Afinal de contas, se a pessoa mais difamada pela reportagem sentia-se livre, por que nós iríamos nos acorrentar? Durante o dia, sentimos que o tiro saía pela culatra. A reportagem, em vez de acabar com o movimento, colocou mais combustível nele. As pessoas não suportavam mais noticias sobre assassinatos, acidentes, estupros, furtos. Numa megalópole pautada pela mesmice, entediada pela escassez de fatos novos, o mestre se tornou um fenômeno social.
As pessoas tinham sede de novidade, ainda que fosse travestida de loucura. O vendedor de sonhos se tornou tal novidade, virou uma celebridade local, justamente o que ele mais temia. A partir daí, começou a ser seguido por paparazzi, profissionais de plantão em busca de notícias que, às vezes, difundem sensacionalismo.
Ao tomar ciência de que estava cada vez mais famoso, ele meneava a cabeça, insatisfeito. Alertava-nos, dizendo:
— Para criar um deus, basta uma dose de carisma e de liderança num ambiente de estresse social. Cuidado, o sistema dá, mas tira, em especial a nossa humanidade.
Eu entendia o que o mestre queria apontar. O povo mais culto da terra, o que mais havia conquistado prêmios Nobel no começo do século XX, entronizou Hitler num período de crise social. Os tempos de crise são tempos de mutação para o bem ou para o mal. Chamando-nos a atenção contra os riscos do poder, o mestre comentou:
— A maioria das pessoas está despreparada para assumir o poder. O poder faz despertar fantasmas que estão escondidos debaixo do manto da humildade: o fantasma do autoritarismo, do controle, da chantagem, da necessidade de aplausos. — E nos ensinou: — O poder nas mãos de um sábio o torna um aprendiz, mas mãos de um estulto o torna um ditador. Se um dia tiverem muito poder, que fantasmas sairão do calabouço do seu inconsciente? — nos indagou.
Sua pergunta nos incomodou. Quando assumi a chefia do departamento, alguns fantasmas saíram do meu calabouço psíquico e ganharam corpo. Tornei-me duro, inflexível, exigente. Entendi que não se conhece um ser humano pela doçura da voz, pela bondade dos gestos ou pela simplicidade das vestes, mas tão-somente quando se lhe dá poder e dinheiro.
O mestre discorria sobre esses complexos assuntos de um modo que me intrigava. Ele se vestia como um miserável, mas seu falar indicava que não era um professor que ensina algo distante da sua realidade. Parecia que havia tido muito poder. Mas que poder pode ter tido alguém tão pobre, sem conta bancária, sem casa nem documentos?
Alguns religiosos começaram a ter grande apreço por suas idéias, mas outros começaram a ficar preocupados com sua ascensão. Deus era propriedade deles. Eles eram teólogos, peritos em divindade. Um miserável que vivia à margem da sociedade e que morava debaixo de pontes não tinha gabarito para discorrer sobre ele. Alguns religiosos radicais se perguntavam: ”Não seria ele um profeta do mal? Não seria o anticristo que há séculos foi anunciado?”. O fato é que ele se tornou uma figura emblemática. Queria passar despercebido, mas era impossível esconder-se. Alguns começaram a lhe pedir autógrafos nas ruas e avenidas. Mas ele os fitava e os surpreendia:
— Como poderei dar autógrafo a alguém tão ou mais importante que eu? Precisaria de décadas para conhecê-lo um pouco, compreender alguns pilares da sua inteligência e desvendar alguns fenômenos que tecem sua construção de pensamentos. Eu é que me sinto honrado em conhecê-lo. Por favor, me dê você um autógrafo.
Eles deixavam sua presença pasmos e reflexivos. Alguns compravam o sonho de que não existem celebridades e nem anônimos, mas seres humanos complexos com funções sociais distintas.
A superioridade das mulheres
Nos dias que se seguiram, estávamos vivendo um céu de brigadeiro. Nenhuma tempestade no ar. Nenhum percalço social. Nenhuma rejeição. Desfrutávamos de prestígio, assédio e reconhecimento social. Nada mal para quem desafiava o poderoso sistema e morava em lugares inóspitos. Não imaginávamos o que viria pela frente.
Quando tudo transcorria em perfeita harmonia, mais uma vez o mestre nos assombrou. Convidou-nos para ir ao mais charmoso dos templos, o templo da moda, o mundo fashion. Estava havendo no lado sul da cidade um requintado desfile de renomados estilistas. O poderoso grupo Megasoft novamente estava representado pela sua cadeia mundial de roupas femininas, chamada La Femme, que administrava mais de dez grifes internacionais e tinha duas mil lojas em vinte países. Achamos bizarro o convite do mestre. Era um local inapropriado para vender sonhos. Afinal de contas, críamos que pelo menos nesse ambiente a auto-estima encontrara seu melhor meio de cultura. Pensávamos que a auto-imagem, o culto ao corpo e o prazer existencial existiam em outros guetos, mas não no gingado das passarelas.
”O que o mestre almeja num ambiente desses?”, pensávamos.
”Que reações teria? Que atitudes tomaria? A quem abordaria?”, continuávamos a refletir. Torcíamos para que ele fosse discreto, não causasse nenhuma turbulência, mas sabíamos que isso era quase impossível.
Entrar no evento já seria um problema. Afinal de contas, se não tínhamos conseguido entrar no templo da informática, como entraríamos no templo da moda? Nossos trajes eram pitorescos, estávamos fora do rigor da moda. Parecíamos um grupo de pessoas exóticas, antiquadas, notadas não pela graça, mas pela estranheza. Seríamos indubitavelmente rechaçados.
O mestre trajava nesse dia um blazer preto desbotado e remendado, que ganhara num brechó e cuja numeração era maior que a sua. Usava calça preta de corte mal definido e bolsos traseiros remendados com pano de cor azul. Vestia camisa verdemusgo” amassada e com algumas manchas de caneta esferográfica preta. Eu usava camiseta pólo e calça bege que ganhara de um caminhante que reencontrou seus sonhos. Todos estávamos desarrumados, mas as vestes do Bartolomeu eram as mais engraçadas, e, sob alguns ângulos, ridículas. Sua calça amarela estava quatro dedos acima do tornozelo. Uma viúva que morava próximo do Viaduto Europa a presenteara. Pertencera ao seu marido. Ele estava feliz com ela, pois vivia o ditado ”a cavalo dado não se olham os dentes”. A meia do lado esquerdo era azulmarinho e a do lado direito, azul-escura. A camiseta branca tinha dizeres eloqüentes, que retratavam com fidelidade a sua personalidade: ”Não me siga! Estou perdido”.
Ao penetrar no imenso hall do salão nobre dos desfiles de modas e observar atentamente as pessoas muito bem-trajadas, o mestre mexeu com nossa estrutura. Não fez discursos nem criticou o mundo fashion. Comentou com segurança:
— Estou pensando em chamar algumas mulheres para vender sonhos, o que acham?
O ninho dos homens abalou-se. Éramos um grupo extravagante, excêntrico, reconhecidamente esdrúxulo, mas nos acomodávamos. Havia diferenças, mas estávamos nos ajustando. Nossas discussões fora dos olhares do mestre eram ardentes, mas passíveis de superação. Agora, chamar mulheres para a nossa confraria parecia um exagero. Não daria certo.
Imediatamente ponderei.
— Mulheres, mestre? Acho que é uma má escolha.
— Por quê? — questionou-me.
Antes de eu responder, o Boquinha de Mel felizmente saiu em minha defesa:
— Elas não agüentarão o tranco. Como dormirão debaixo de pontes?
— Que banheiro usarão? Em que espelho se arrumarão? —
ponderou Salomão. Mas o mestre retrucou:
— Mas quem disse que elas necessitam deixar o próprio lar para nos seguir? Afinal de contas, cada ser humano deveria vender sonhos no ambiente em que se encontra, seja para si mesmo ou para os outros.
Dessa vez, suas palavras não nos aliviaram. Não admitíamos que uma mulher pudesse participar do grupo, ainda que parcialmente. Por mais que o mestre tivesse nos alertado, depois das batalhas, rejeições e enfrentamentos sociais, estávamos envenenados com certa dose de heroísmo. Sentíamo-nos revolucionários, protagonistas de uma experiência sociológica fantástica. Não queríamos dividir nossas glórias. Infectados pela discriminação, pensávamos que as mulheres diminuiriam nossa audácia.
— Segui-lo, mestre, é para... macho, e dos bons. De mais a mais, as mulheres falam demais e agem de menos — disse Mão de Anjo com convicção, quase sem gaguejar. Em seguida percebeu sua arrogância e tentou se desculpar. Havíamos nos apossado do mestre e de seu projeto. Queríamos dar a ele um colorido masculino.
Edson também não suportou a proposta do mestre. Usou seus conhecimentos sobre teologia para dissuadir-lhe as intenções.
— Mestre, Buda chamou aprendizes, Confúcio teve homens como seguidores, Jesus chamou discípulos. Como você quer chamar mulheres para segui-lo? Olhe para a história! Não vai dar certo.
Pela primeira vez, o grupo foi unânime em se derreter de elogios para o Milagreiro. Começamos a pensar que poderia trazer contribuições interessantes. Todavia, o vendedor de idéias perguntou contundentemente ao nosso teólogo:
— Quando o Mestre dos Mestres chamou seus discípulos, onde os colocou, no centro ou na periferia do seu plano?
— No centro. É claro — respondeu sem titubear.
— E as mulheres? — indagou, testando-o.
Edson pensou, refletiu, pôs as mãos na testa, pois sabia que poderia cair em contradição. E, depois de um prolongado momento analítico, respondeu com argúcia:
— Não posso dizer que na periferia, pois elas lhe davam suporte material, mas não estavam no centro do trabalho, pois não participaram ativamente do seu projeto.
Pensei comigo: ”Caramba! Achava que Edson tinha uma visão curta, mas mais uma vez mordi a língua”.
O mestre novamente olhou para ele e depois para todos nós.
— Errado — disse ele, e permaneceu em silêncio.
Por eu ter estudado como sociólogo os textos considerados sagrados, achava que Edson estava certo. Aguardava os argumentos do mestre, desconfiado de que dessa vez não nos convencesse.
— Elas sempre estiveram no centro do seu projeto. Em primeiro lugar, segundo as Escrituras, Deus não escolheu uma casta de fariseus, de sacerdotes ou de filósofos gregos para educar o Menino Jesus, mas uma mulher, uma adolescente não contaminada com o sistema masculino vigente.
Coçamos a cabeça diante da bomba.
— Em segundo lugar, a primeira pessoa a anunciá-lo na palestina foi uma mulher, a mulher samaritana. Ela viveu uma vida promíscua, teve muitos homens, mas as palavras dele saciaram sua sede interior. Determinada, reuniu seu povo e falou do homem que a comovera. — Após dizer essas palavras, ele parou para respirar e nos tirou o fôlego dizendo: — Uma prostituta foi mais nobre que os líderes religiosos do seu tempo.
Bartolomeu soltou uma frase que quebrou o tenso clima que pesava sobre os homens. Não sei onde encontrava tanta imaginação:
— Chefinho, sempre achei que as mulheres são mais inteligentes que os homens, o problema é que inventaram o cartão de crédito... — E caiu na risada. Dera a entender ironicamente que era ele que sustentava as mulheres que já tivera. Na realidade, elas o tinham sustentado.
O mestre, não contente com nossa masculinidade preconceituosa, investiu ainda mais. Perguntou novamente para o nosso teólogo de plantão:
— Diga-me, Edson. No momento mais importante da vida de Jesus, quando seu corpo tremia na cruz e seu coração claudicava, onde estavam os homens, no centro ou na periferia do seu plano?
Edson, sem cor, demorou a responder. E nós ficamos rubros. Diante do silêncio, o mestre reagiu:
— Seus discípulos eram heróis quando ele abalava o mundo, mas foram covardes quando o mundo desabava sobre ele: calaramse, fugiram, negaram, traíram. Mas mesmo assim, ele os amou. Os homens são mais tímidos do que as mulheres. Num ímpeto sociológico, retruquei-lhe:
— Mas eles não fazem guerras? Não empunham armas? Não
fazem revoluções?
Porém, a resposta veio sem titubear:
— Os fracos usam as armas; os fortes, o diálogo. — Em seguida, fez a pergunta que mais temíamos:
— Onde estavam as mulheres quando ele morria?
Sem muito entusiasmo, nós, que conhecíamos o texto, dissemos:
— Próximas da cruz.
— Mais que isso, estavam no epicentro do seu projeto. E
sabem por quê? Porque as mulheres são mais fortes, inteligentes, sensíveis, humanas, generosas, altruístas, solidárias, tolerantes, companheiras, fiéis, sensatas, do que os homens. Basta dizer que noventa por cento dos crimes violentos são cometidos por homens. Ficamos abalados com tantos adjetivos a favor delas. O
mestre não parecia feminista, nem parecia estar querendo atirar palavras ao ar tentando compensar milênios de discriminação contra as mulheres. Parecia estar convicto do que pensava. Para ele, o sistema que controlava a humanidade foi concebido nas entranhas da mente masculina, embora seus criadores não imaginassem que um dia se tornariam vítimas da sua própria criatura. As mulheres precisavam entrar em cena e, com sua graça e coragem, vender sonhos, muitos sonhos. O templo da moda, um sorriso no caos
Depois de mostrar que o mais culto dos discípulos de Jesus, Judas, o traiu, o mais forte deles, Pedro, o negou, e o resto do bando, à exceção do João, debandou — enfim, depois de demonstrar a fragilidade masculina e a grandeza feminina, revelou por que estava no templo da moda. Começou tecendo algumas informações conhecidas nos meios sociológicos, mas desconhecidas de alguns dos membros que o tinham seguido. Disse que no passado o sistema masculino considerara as mulheres uma classe inferior, amordaçara-as, queimara-as, apedrejara-as. Com o tempo, elas se libertaram, resgataram parcialmente seus direitos. Fez uma pausa nas suas idéias e citou o número ”um”. Fiquei inquieto com a citação numérica no meio do diálogo. Já havia visto esse filme.
O mestre comentou que as mulheres começaram a votar, brilhar no mundo acadêmico, crescer no mundo corporativo, ocupar espaços nos mais diversos territórios sociais; as mulheres tornaram-se cada vez mais ousadas. Com eficiência, começaram a mudar algumas áreas vitais da sociedade, a introduzir tolerância, solidariedade, companheirismo, afeto e romantismo. Mas o sistema não as perdoou pela audácia.
Preparou para elas a mais cafajeste e sorrateira das armadilhas. Em vez de exaltar sua inteligência e notória sensibilidade, começou a exaltar o corpo da mulher como nunca na história. Usou-o exaustivamente para vender produtos e serviços. Aparentemente elas sentiram-se bem-aventuradas. Parecia que as sociedades modernas estavam querendo compensar milênios de rejeição. Ingênuo pensamento. O mestre fez uma pausa para respirar.
Fitando o imenso e colorido templo da moda, ele ficou indignado e em voz alta começou a convidar as pessoas para falar sobre a última moda. Nada poderia ser tão estranho para alguém com suas vestes. Mas, como o mundo fashion é versátil, pensaram que representássemos um estilista rebelde às convenções. Ficamos inibidos em ver pessoas tão bem-vestidas começarem a nos rodear. Algumas delas o identificaram.
Rapidamente, ele começou a discorrer sobre suas polêmicas idéias:
— Quando as mulheres se sentiam no trono do sistema masculino, o mundo da moda as aprisionou no mais grave e sutil estereótipo! — E citou o número ”dois”, profundamente triste. Eu não sabia aonde o semeador de idéias queria chegar. Sabia que os estereótipos são um problema sociológico. O
estereótipo do louco, do drogado, do político corrupto, do socialista, do burguês, do judeu, do terrorista, do homossexual. Usamos os estereótipos como um padrão torpe para tachar as pessoas com determinados comportamentos. Não avaliamos o conteúdo psíquico delas: se possuem determinados gestos, imediatamente as aprisionamos na masmorra do estereótipo, classificando-as como viciadas em drogas, corruptas, doentes mentais. Os estereótipos reduzem a dimensão humana.
Mas o que o mundo belíssimo da moda tem a ver com os estereótipos? As mulheres eram livres para vestir o que quisessem, comprar as roupas que bem entendessem e ter o corpo que desejassem. Eu não entendia por que tamanha preocupação do mestre. Entretanto, à medida que ele expunha seu pensamento, fiquei impressionado.
O estereótipo do belo, no mundo da moda, começou a ser formado pela exceção genética. Que desastre! Que injustiça!
Bartolomeu estava boiando até esse momento.
— Chefinho, é caro esse estereótipo? — perguntou, pensando que era um tipo de roupa. O mestre disse-lhe:
— As implicações são caríssimas. — E explicou: - Para maximizar as vendas e gerar uma atração fatal entre as mulheres, o mundo fashion começou a usar o corpo de jovens completamente fora do padrão comum como protótipo de beleza. Uma entre dez mil jovens de corpo magérrimo e fácies, quadris, nariz, busto e pescoço estritamente bem-torneados tornou-se ao longo dos anos o estereótipo do belo. Que conseqüências no inconsciente coletivo!
As pessoas se aglomeravam cada vez mais. Depois de uma breve pausa, ele continuou:
— A exceção genética virou a regra. As crianças transportaram as bonecas Barbies com seu corpo impecável para o teatro da vida, e as adolescentes transformaram as modelos em um padrão de beleza inalcançável. Esse processo gerou, em centenas de milhões de mulheres, uma busca compulsiva do estereótipo, como se fosse uma droga. Elas, que sempre foram mais generosas e solidárias que os homens, se tornaram, sem perceber, carrascas de si mesmas. Até as chinesas e japonesas estão mutilando sua anatomia para se aproximar da beleza das modelos ocidentais. Sabiam disso?
Eu não tinha essa informação, mas como ele a tinha? Como pode alguém completamente fora de moda estar tão informado sobre ela? De repente, ele interrompeu meus pensamentos citando, consternado, o número ”três”.
E continuou dizendo que tal modelo penetrara como uma bomba silenciosa no inconsciente coletivo, implodindo a autoimagem, causando um terrorismo contra a auto-estima, algo jamais visto na história. No passado, os estereótipos não tinham graves conseqüências coletivas porque ainda não éramos uma aldeia global. Quando as mulheres pensavam que estavam voando livremente, o sistema tosou-lhes as asas com a ”síndrome da Barbie”.
Um estilista o interpelou tensamente:
— Isso é folclore. Discordo de suas idéias.
— Gostaria que fosse. Quem dera minhas idéias fossem tolas.
— E citou o número quatro.
Nesse momento, uma jovem perguntou, incomodada:
— Por que cita números enquanto fala?
O mestre olhou para mim e fez quinze segundos de silêncio. Parecia que estava sendo arrebatado para os recantos da sociedade e penetrado como um raio no âmago de muitas famílias que estavam perdendo seus filhas e filhos. Com os olhos embebidos em lágrimas, retornou dessa viagem e disse a todos:
— Lúcia, uma jovem tímida, mas versátil, criativa, excelente aluna, está com 34 quilos, embora tenha 1,66 metro de altura. Seus ossos saltam sob a pele, formando uma imagem repulsiva, mas ela se recusa a comer com medo de engordar. Márcia, uma jovem sorridente, extrovertida, uma menina encantadora, está com 35 quilos e tem 1,60 metro de altura. Sua face cadavérica leva seus pais e amigos ao ápice do desespero, mas ela do mesmo modo se recusa a se alimentar. Bernadete está com 43 quilos e mede 1,70 metro de altura. Gostava de conversar com todo mundo, mas se isolou do namorado, dos amigos e do bate-papo na internet. Rafaela pesa 48 quilos e mede 1,83 metro. Jogava vôlei, gostava de ir à praia e correr sobre a areia, mas agora está morrendo de inanição.
Fez mais uma pausa, olhou atentamente a platéia e disse:
— Durante minha fala, quatro jovens desenvolveram anorexia nervosa. Algumas superam seus transtornos, outras o perpetuam. E se vocês perguntarem a elas por que não comem, ouvirão:
”Porque estamos obesas”. Bilhões de células suplicam que se alimentem, mas elas não têm compaixão do seu corpo, que não tem força para fazer exercícios físicos nem para andar. O
desespero para alcançar o estereótipo do belo fê-las adoecer profundamente e estancou o que jamais conseguimos estancar naturalmente: o instinto da fome.
E comentou que, se essas pessoas vivessem em tribos onde o estereótipo não tivesse um peso intenso, não adoeceriam. Mas vivem na sociedade moderna, que não apenas difunde a magreza insana, mas supervaloriza determinado tipo de olhos, pescoço, busto, quadris, o tamanho do nariz — enfim, um mundo que exclui e discrimina quem está fora do modelo. E o pior é que tudo isso é feito sutilmente. E enfatizou:
— Não nego que possa haver causas metabólicas para os transtornos alimentares, mas as causas sociais são inegáveis e indesculpáveis. Há cinqüenta milhões de pessoas com anorexia nervosa no mundo, um número que nos remete às proporções do número de mortos da Segunda Guerra Mundial.
De repente, o mestre perdeu a sobriedade, deixou o tom ameno e, como se fosse um psicótico, subiu em cima de uma poltrona que estava ao seu lado e bradou alto e bom som:
— O sistema social é astuto, grita quando precisa se calar e se cala quando precisa gritar. Nada contra as modelos e os inteligentes e criativos estilistas, mas o sistema se esqueceu de gritar que a beleza não pode ser padronizada.
Várias pessoas, inclusive modelos internacionais e estilistas famosos que passavam por ali, também eram atraídos pelo homem excêntrico que alardeava suas idéias. Já havia pessoas em diversas sociedades lutando contra essa discriminação, mas a luta era tímida perante a monstruosidade do sistema. O mestre nem sempre era dócil e paciente. Em algumas situações, mostrava um ar de irritação e inconformismo. Embriagado com o cálice da indignação, usou mais uma vez seu felino método socrático:
— Onde estão as gordinhas nos desfiles? Onde estão as jovens com quadris menos bem-torneados? Onde estão as mulheres de nariz saliente? Por que neste templo se escondem as jovens com culotes ou estrias? Não são elas seres humanos? Não são elas belas? Por que o mundo as ignora? Por que o que surgiu para promover o bem-estar, está destruindo a auto-estima das mulheres? Essa discriminação socialmente aceita não é um estupro da auto-estima? Não é tão violenta quanto a discriminação contra os negros?
Ao ouvir esse questionamento, eu começara a ter asco do sistema. Todavia, quando o mestre havia nos conduzido ao auge da reflexão, apareceu Bartolomeu para novamente quebrar o clima. Levantou as mãos e com a maior descaramento tentou referendar o mestre:
— Chefinho, concordo com você. Não discrimino as mulheres. Já namorei cada assombração!
A platéia não se conteve com sua irreverência. Mas nós estávamos apreensivos, tão aflitos que olhamos para o incontrolável discípulo e dissemos uma frase que havia se tornado parte do nosso patrimônio cultural:
— Finja que você é normal, Bartolomeu!
As pessoas ficaram embaraçadas com as idéias do mestre. Algumas, boquiabertas e encantadas, outras, odiando essas idéias até a última fibra do tecido que usavam. Os paparazzi começaram a tirar fotos e mais fotos. Estavam ansiosos para noticiar o escândalo do ano.
Após ouvir a platéia irromper em sorrisos pela frase do discípulo viciado em fazer perguntas e dar opiniões, o mestre diminui o tom de voz e fez alguns pedidos emocionados:
— Rogo aos inteligentes estilistas que amem as mulheres, todas elas, que invistam na saúde psíquica delas não utilizando apenas a exceção genética para expressar sua arte. Poderão perder dinheiro, mas terão ganhos insondáveis. Vendam o sonho de que toda mulher tem uma beleza única.
Algumas pessoas o aplaudiram, inclusive três modelos internacionais que estavam do meu lado direito. Mais tarde, ficamos sabendo que as modelos eram expostas a diversos transtornos psíquicos. Elas tinham dez vezes mais chances de ter anorexia do que a população em geral. O sistema as entronizava e, ao mesmo tempo, as encarcerava. Em pouco tempo, eram descartadas.
Três pessoas o vaiaram. Uma delas jogou uma garrafa plástica de água no seu rosto, abrindo-lhe o supercílio esquerdo, produzindo um evidente sangramento. Pegamos no seu braço e queríamos que interrompesse sua fala, mas ele não se intimidou. Limpando o sangue com um velho lenço, pediu silêncio e continuou. Pensei comigo: ”Há muitas pessoas que escondem o que pensam debaixo do manto da sua imagem social; eis que sigo um homem que é fiel a suas idéias”. Em seguida ele fez uma proposta que nos deixou arrepiados: