O Vendedor de Sonhos: O Chamado
O bêbado colocou as mãos sobre a…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O bêbado colocou as mãos sobre a cabeça, logo se refez. Mesmo sem um raciocínio organizado, percebeu que fora indelicado. Pediu desculpas e os convidou para sentar. Então chorou por vinte segundos sem dizer o motivo. Os alcoólatras choram fácil.
Depois se apresentou. Disse que se chamava Lucas e contou que era um médico cirurgião falido. Havia cometido um erro médico que não comprometera a vida do paciente, mas o advogado desse paciente transformou seu erro numa aberração. Processou-o e, como não tinha seguro, levou tudo o que havia construído em vinte anos de carreira. Endividado, não conseguia pagar a prestação da casa, estava para ser despejado. Não conseguiu pagar as pesadas parcelas do novo carro, que estava com ordem de busca e apreensão.
— Não chore, amigo. Você pode morar debaixo de pontes —
disse Bartolomeu, angustiando mais ainda o moribundo.
Dimas entrou em ação. Para tentar consolar o médico, contou parte da sua história, uma história que Bartolomeu desconhecia. Disse que seu pai ficara preso vinte e cinco anos por assalto à mão armada. Em seguida sua mãe se envolveu com outro homem e abandonou a ele, de cinco anos, e à sua irmã, de dois. Foram para orfanatos separados. Ela foi adotada e nunca mais se viram. Dimas não foi adotado, pois ninguém queria adotar um menino de cinco anos de pele escura. Cresceu sem nada, sem pai, sem mãe, sem irmã, sem afeto, sem estudo, sem amigos.
Bartolomeu se condoeu do amigo e tentou consolá-lo:
— My friend, sempre pensei que você fosse um malandro, canalha, tapeador e vigarista sem causa. Não o conhecia, cara. Você é o mais normal dos malucos do grupo!
O doutor Lucas ficou emocionado com sua história. O efeito do álcool diminuiu um pouco devido ao interesse que a conversa lá
gerou. Ficaram amigos. Conversaram por três horas. Saíram abraçados e cantando ”O Lucas é um bom companheiro, o Lucas é
um bom companheiro”. Sentiram o prazer de uma amizade despretensiosa. Entenderam que viver fora do casulo tem seus inegáveis riscos, mas também seus irrefutáveis encantos. Foram dormir num quarto no fundo da casa do médico. A esposa tinha ouvido falar do movimento social dos ”sonhos”. Preparou-lhes um suculento espaguete ao molho de tomate. No dia seguinte, ela lhes agradeceu. Fazia seis meses que não via seu marido animado a enfrentar desafios.
Dimas e Bartolomeu continuaram a jornada. No final da tarde do segundo dia, encontraram outro alcoólatra em situação lastimável, agora debruçado sobre o balcão. Bartolomeu parecia conhecê-lo. Quando ele virou o rosto, confirmou. Era Barnabé, seu melhor amigo de bares e noitadas. Tinha um metro e setenta e cinco de altura, pesava cento e dez quilos. Era quase impossível não vê-lo bêbado e mastigando alguma coisa. O álcool ainda não conseguira tirar seu apetite. Seu apelido era ”Prefeito”, pois adorava fazer discursos, discutir política e dar soluções mágicas para os problemas sociais. Ele e Bartolomeu eram páreo duro no quesito ”a língua mais incontrolável”.
— Boquinha, você aqui? — gritou Barnabé quase que em código porque não conseguia pronunciar as palavras.
— Prefeito, que bom vê-lo! — E se abraçaram.
Dimas e Bartolomeu o levaram para uma praça a cinqüenta metros do local. Ficaram longas horas juntos até diminuir o efeito do álcool no cérebro do amigo. Após Barnabé ficar um pouco mais lúcido, disse ao Bartolomeu.
— Eu o vi nos jornais. Agora você é famoso. Está traficando bebidas. Não, não, desculpa, está dando uma de Papai Noel, distribuindo presentes de graça. Legal — falou, com a voz pastosa. E completou: — Hoje você é grã-fino. Não está mais no time dos boêmios.
Bartolomeu disse que era o mesmo, só mudara um pouco a maneira de encarar os fatos. E aproveitou que estava com amigos para contar um pouco da sua história, como o fez o dr. Lucas. Como Dimas, também fora para um orfanato na infância, mas por causas distintas.
— Meu pai morreu quando eu tinha sete anos, e o câncer vitimou minha mãe dois anos depois. Fui levado ao liceu, um orfanato na periferia da cidade. Fiquei lá até os dezesseis anos, e então fugi.
Dimas olhou para Bartolomeu, surpreso, e disse:
— Cara, não vai me dizer que você é o ”pé de ouro”. - Esse era o apelido que Bartolomeu tinha no orfanato, pois era um craque de futebol. Bartolomeu, impressionado, olhou para o Dimas e também o reconheceu. Eles tinham a impressão de que se conheciam, mas tinham sido amigos por pouco tempo. Ficaram juntos apenas um ano, e só agora, depois de vinte anos, se reencontravam.
— Que bom! A família está reunida de novo. Só eu é que não tenho ninguém - disse Barnabé; e teve uma vertigem, apoiando o queixo com os dois punhos sobre a mesa.
Bartolomeu estava condoído pelo amigo. Olhou para o relógio e viu que estavam atrasados para a reunião com o mestre. Pediu ao Dimas que fosse na frente. Queria conversar um pouco mais com Barnabé sobre a nova família.
Eu e a professora Jurema fomos conversar com alunos numa universidade do lado oposto da minha. Eu provocava a mente deles. Estimulava-os a desenvolver o método socrático, a construir projetos existenciais e a expandir o mundo das idéias. Jurema levantava a voz e os estimulava a se aproximar. Todos ficaram impressionados com a eloqüência da velhinha. Ela tinha mais vigor e mais ímpeto que eles. Estavam cansados, abatidos, desanimados.
De repente, quando menos esperava, encontrei alguns professores apontando para mim. Fiquei rubro. Eram colegas da minha universidade que estavam dando um curso justamente no local onde estávamos. Aproximaram-se dando risadas. Eu podia ler os lábios deles dizendo uns aos outros que o autoritário coordenador do curso de sociologia perdera o juízo.
A professora Jurema me disse:
— Enfrente-os. É o desafio de sair do casulo.
Aliás, esse era o preço que eu deveria pagar por ter sido pouco tolerante. Um professor que não se reciclava, que não ministrava boas aulas e que se sentia cobrado por mim não titubeou em dizer:
— Como está a vida de maluco?
Preferi dar meia-volta e tomar outro rumo. Mas a professora Jurema pegou nos meus braços para tentar acalmar meu ânimo. Controlei-me, fitei os olhos dele e respondi:
— Estou tentando entender a minha loucura. Quando me escondia atrás do intelectual, achava que era muito saudável, mas como hoje sou um caminhante em busca de mim mesmo, sei que sou mais doente do que imaginava.
Eles ficaram atônitos. Perceberam que eu ainda conservava meu rápido raciocínio, mas nunca me haviam visto reconhecer um erro, jamais me viram tendo gestos de humildade. Começaram a se desarmar.
Aproveitei para fazer aflorar o raciocínio, sem pretensões de que me entendessem:
— Quem vocês são na essência? Como está o seu prazer?
Têm tido tempo para relaxar? Têm investido em seus projetos pessoais ou os têm soterrado? Têm se comportado como gigantes intelectuais ilhados em sua brilhante cultura ou têm sido seres humanos sem fronteiras que sabem dividir suas dores? Conhecem a matemática da subtração nas relações sociais? Têm sido máquinas de ensinar ou têm sido agentes que formam pensadores?
Sentiram que o maluco que queria se suicidar estava melhor do que quando discutia com eles nas universidades. Um deles, Marco Antônio, professor de lógica do conhecimento aplicada à
sociologia, que era o mais culto de todos nós do departamento, mas cuja didática eu sempre criticara, me elogiou:
— Tenho acompanhado seus movimentos, Júlio, pelos jornais e pelos alunos. Estou deveras impressionado com sua coragem de fazer um corte em sua jornada para se reorganizar. Todo mundo, mais cedo ou mais tarde, deveria fazer tal corte no seu ativismo para se achar, repensar a sua história.
Falei sobre o projeto dos sonhos. Comentei que não era um projeto de motivação, de crescimento pessoal, de auto-ajuda, mas de formação de pensadores humanistas. Era um projeto para formar ”um ser humano sem fronteiras”.
Pensativo e admirado, o professor Marco Antônio relatou que estava entediado com o conformismo social e aborrecido com o pernicioso paradoxo do ”isolamento psíquico versus a massificação do consumo”. Pedi-lhe mais explicações sobre esse paradoxo, pois não estava entendendo a dimensão da sua idéia. Ele disse:
— Os seres humanos estão vivendo em ilhas em áreas que deveriam ser continentes, e em continentes em áreas que deveriam ser ilhas. Ou seja, deveriam ter participação mútua em áreas como diálogo, troca de experiências, superação de frustrações, e ser ilhas em áreas como paladar, estilo de vida, artes, cultura. Mas a comunicação televisiva, o fast food, a indústria da moda têm massificado nossos gostos e estilos. Perdemos a individualidade e cristalizamos o individualismo.
Pensei comigo: ”Esse professor tem um pensamento muito próximo do mestre”. Em seguida, ele comentou que depois que Marx lançou O capital, não se viam movimentos sociais novos, idealistas, utópicos, com propostas interessantes. E nos perguntou como poderia conhecer a experiência sociológica de ser um ser humano sem fronteiras. Fiquei feliz em informar-lhe.
Todas as duplas voltaram entusiasmadas. Tiveram atropelos imprevisíveis, mas vivenciaram feitos notáveis. Feitos que não expandiam a nossa conta bancária nem nosso status social, mas resgatavam nossas origens.
Algumas duplas trouxeram amigos e amigas que haviam feito pelo caminho. Mônica trouxe cinco amigas modelos. Estavam excitadas em desfilar nas passarelas que desconheciam. Eu e Jurema trouxemos dois professores e dois alunos. Dimas trouxe o dr. Lucas e a sua esposa. Salomão trouxe seu antigo psiquiatra, especialista em transtornos ansiosos, mas que vivia continuamente depressivo. Fora contagiado pela alegria do seu paciente. Queria tomar algumas doses desse antidepressivo social. Cada pessoa falava sem regras e controle. Todos contavam experiências singelas. Relatavam com euforia o prazer de terem penetrado nos recônditos da psique dos anônimos. Descobriam o prazer indecifrável de contribuir para a história dos outros. Relatavam o júbilo promovido pela solidariedade anônima. Havia ao todo trinta e oito pessoas ”estranhas” no grupo. Dentre essas, dois judeus ortodoxos e dois mulçumanos, fora os que já faziam parte do time. Subitamente, percebemos a ausência da pessoa mais vibrante, Bartolomeu. Pelas informações de Dimas, ele estava com seu amigo e em breve chegaria.
O ambiente era tão comovente que improvisamos naquele local a primeira das muitas festas do projeto. Nela, ricos e pobres, intelectuais e iletrados, cristãos, mulçumano, judeus, budistas e ascéticos comiam, dançavam, cruzavam seus mundos sem preconceitos, A regra era aquinhoar cada um com um pedaço do seu ser.
Nem em seus delírios filosóficos, Robespierre imaginou que os três pilares da Revolução Francesa, ”a liberdade, a fraternidade e a igualdade”, seriam vividos de maneira tão borbulhante por pessoas tão distintas. O mestre, vendo nossa alegria, disse-nos:
— Jamais seremos iguais em nossa essência, no tecido intrínseco de nossa personalidade, em nosso pensamento, modo de reagir, ver e interpretar os fenômenos da existência. O sonho da igualdade só cresce no terreno do respeito pelas diferenças. Mas nem todas as duplas tiveram êxito. Meu amigo Edson enfrentou uma situação complicada. Estava com ambos os olhos roxos. Parecia ter levado dois tombos ou duas bofetadas. Estávamos curiosos para saber os fatos. Ele nos contou que, depois do sucesso de ter contagiado as pessoas com seu altruísmo e afetividade, alguém o ofendera ostensivamente. Relatou:
— Um homem de uns cinqüenta anos me perguntou se eu
conhecia o Sermão da Montanha. Eu disse que sim. — Edson reteve a voz. Estava meio envergonhado. Tentando animá-lo, indaguei:
— Mas isso não é bom?
— Sim, mas o problema é que ele me pediu para recitar algumas palavras desse sermão, o que fiz com entusiasmo, pois conhecia de cor os textos. - Edson fez mais outra pausa. Começou a ficar vermelho. O seu silêncio suscitou a indagação de Dimas:
— Mas isso não é excelente?
— Sim, mas quando cheguei ao trecho em que devemos dar a outra face, ele me perguntou se eu acreditava nisso. Sem pestanejar, disse que sim. — E fez a terceira pausa. Estava constrangido. O mestre o ouvia atentamente. Diante do seu silêncio, Mônica questionou:
— Mas isso não é maravilhoso, Edson? - Edson diminuiu o tom de voz.
— Sim, quer dizer, não. Nesse momento ele abriu a palma da mão direita e me deu uma bofetada na face esquerda. Nunca senti tanta dor, nunca senti tanta raiva. Meus lábios tremiam, e eu queria esganar o sujeito. Mas agüentei.
O mestre estava apreensivo com seu heroísmo.
— Parabéns — reagiu a professora Jurema. — Esse é um verdadeiro milagre. Esse é um milagre da naturalidade. Mas nosso amigo estava com a roupa rasgada e a face arranhada.
— Qual é o motivo de o olho direito estar roxo também? —
perguntou Salomão.
Foi então que Edson explicou:
— Em seguida, ele me pediu a face direita. Eu não queria dar, mas quando me dei conta eleja tinha me esbofeteado. Quis agarrar o sujeito pelo pescoço, mas me lembrei de tudo o que vivemos juntos. Lembrei do dócil mestre de Nazaré e lembrei do projeto do vendedor de sonhos. Agüentei. Não sei como, mas agüentei. E ele zombava de mim. Tinha ouvido falar do nosso projeto e me chamava de vendedor de bobagens.
As pessoas aplaudiram sua atitude. Mas Edson pediu paciência para a platéia e disse que falhara. Como assim?
Finalmente ele explicou o incidente:
— Em seguida, ele me pediu novamente a face direita. Fiquei bufando de raiva. Sabia que Jesus pediu para dar a outra face, mas não para dar a mesma face duas vezes. Então olhei para o céu, pedi desculpas e o enchi de porrada. Como ele era mais forte do que eu, fui surrado também.
Não era o momento para darmos risadas, mas quem agüentou a cara do nosso amigo? O mestre estava com um sorriso contido. Não aprovava a violência, mas também não se agüentou. Em seguida nos deu uma lição inesquecível.
— Ser um ser humano sem fronteiras não é ser ingênuo nem colocar a vida em perigo desnecessariamente. Lembrem-se de que eu não os chamei para serem heróis. Não provoquem e muito menos enfrentem os ofensores. Dar a outra face não é sinônimo de fragilidade, mas de força. Não é sinônimo de estupidez, mas de lucidez.
Nesse momento deu-nos uma pausa para assimilarmos suas idéias. Em seguida continuou:
— Dar a outra face é um símbolo de maturidade e força interior. Não se refere à face física, mas à psíquica. Dar a outra face é procurar fazer o bem para quem nos decepciona, é ter elegância para elogiar quem nos difama, altruísmo para ser gentil com quem nos aborrece. É sair silenciosamente e sem estardalhaço da linha de fogo dos que nos agridem. Dar a outra face previne homicídios, traumas, cicatrizes impagáveis. Os fracos se vingam, os fortes se protegem.
Edson absorveu essas palavras como a terra seca. A partir desse episódio, deu uni salto emocional, lapidou sua sabedoria, alargou as fronteiras da sua mente. Contribuiu muito para o nosso movimento.
As palavras do mestre penetraram como um raio em todos nós. Foram tão impactantes que estimularam os judeus ortodoxos a abraçarem os mulçumanos que estavam presentes. Olhei para meu amigo, o professor Marco Antônio. Recordei-me também de que enchera de porrada meus inimigos na universidade.
Nunca aprendi que os que dão a outra face são muito mais felizes, mais tranqüilos e dormem muito melhor. . Jurema cochichou em meus ouvidos:
— Dei aulas por mais de trinta anos. Mas tenho de admitir que formei muitos alunos agressivos, irritadiços, vingativos, destituídos de solidariedade e sem nenhuma proteção.
Pensei comigo: ”Eu muito mais. Nos meios menos suspeitos, como as universidades, formamos alguns ditadores. Só lhes falta o poder”.
Enquanto eu ponderava essas coisas, o ambiente ficou tumultuado. Apareceu Bartolomeu com Barnabé. Os dois estavam completamente embriagados. Bartolomeu ficara tão eufórico com o reencontro de seu amigo que abriu a guarda. Foi tomar umas para comemorar e encheu a cara de vodca de novo.
Ambos estavam abraçados um ao outro. Trançavam as pernas ao caminhar e, para não caírem, apoiavam-se um no outro. Chegaram cantando uma canção de Nelson Gonçalves:
”Boemia, aqui me tens de regresso, e suplicando te
peço a minha nova inscrição. Voltei para rever os
amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria”.
Não bastasse a bebedeira, Bartolomeu olhou para a turma e disse com vibração a frase que mais gostava de proferir:
— Ah! Eu adoro essa vida.
E todos nós reagimos em coro:
— Fecha a boca, Bartolomeu. — E caímos na gargalhada. Mas ele não fechou. Quase caindo, teve a petulância de investir contra o projeto do mestre. Olhava para os convidados, e novamente ficou rubro. Disse que já conhecia essa bandeira.
— O seguinte, chefinho. Esse negócio do ser humano em fronteiras é antigo. Muito antigo, sabia? — Tentava estalar o dedo para mostrar essa antigüidade. E completou: — Os alcoólatras já
sabiam disso há muito, muito tempo mesmo. Nenhum alcoólatra é
maior que o outro. Todos eles se beijam, todos eles se abraçam, todos cantam juntos. Somos sem bandeira. Tá entendendo?
Observei lentamente o vendedor de idéias. Ele investia seu tempo em nos treinar. Tinha uma paciência de Jó, e agora, no auge do seu sonho, vinha uma frustração dessas. Ele caminhou em direção aos dois e os abraçou. E em tom de brincadeira disse:
— Algumas pessoas podem viver fora do casulo para sempre, outras de vez em quando precisam voltar para casa.
E, além de não estar decepcionado, confirmou a idéia do Boca de Mel. Incrível!
— De fato, os alcoólatras são seres humanos sem fronteiras, em especial se não forem agressivos. Por quê? Porque em determinados casos o efeito do álcool no cérebro bloqueia os arquivos da memória que contêm os preconceitos, o prejulgamento, as barreiras culturais, nacionais, sociais. Mas é
melhor e mais seguro fazer essa conquista sóbrio. Por meio da difícil arte de pensar e escolher.
E, não mostrando nenhum constrangimento, começou a dançar no meio de todos. Estava animadíssimo. Sabia que ninguém muda ninguém, a não ser a própria pessoa. Sabia mais do que todos nós que fora do casulo sempre há imprevisibilidades. Observando a fraterna atitude do mestre perante os ”alunos”
que fugiam completamente do padrão aceitável, me convenci de que a grandeza de um mestre está em ensinar os rebeldes e os que têm dificuldade em aprender, e não os notáveis da classe. Quantos crimes cometi! Nunca abracei um rebelde ou apostei num relapso. Chamei a professora Jurema de lado e disse-lhe:
— Sepultei alunos nos porões do sistema educacional. Jurema, olhando para o espelho da sua história, teve coragem de também confessar:
— Infelizmente, eu também. Em vez de incentivar a rebeldia criativa, a intuição, o raciocínio esquemático nas respostas, exigia precisão das informações. Formamos jovens estressados, tensos, com instinto de predadores, ansiosos para serem o número um, e não pacificadores, tolerantes, que se sintam dignos de ser o número nove ou dez.
Tínhamos a impressão de que depois dessa experiência saíamos da infância e entrávamos na meninice sociológica. A festa entrou madrugada adentro. Ficamos bêbados de alegria. Barnabé
foi chamado para entrar para o time dos sonhos. Bartolomeu e Barnabé se tornaram a dupla mais excêntrica, atrapalhada e perigosa daqueles ares. Tínhamos dúvidas se eles se regenerariam ou se nos deixariam mais birutas do que éramos. Mas não importa, pois também estou aprendendo a adorar essa vida. O vendedor de sonhos no templo financeiro
A fama do mestre crescia dia a dia, e começava também a resvalar na elite financeira. Os empresários e executivos tinham ouvido falar sobre esse homem incomum, e, como eram ávidos por novos métodos de liderança e novas formas de criatividade, fizeram chegar a mim um convite para que o mestre lhes desse uma conferência. Queriam conhecer a mente daquele que estava incendiando a sociedade.
Para mim, teórico do marxismo, essa elite só se interessava em primeiro lugar pelo dinheiro, em segundo lugar pela sua conta bancária e em terceiro, pelo seu capital. Quase respondi, impulsivamente, que o vendedor de idéias não aceitaria a solicitação, mas, para não atropelar sua decisão, fui comunicarlhe. Entretanto, me surpreendi. Depois de pensar no convite, o mestre disse que falaria com eles, mas num auditório que ele escolhesse. E me deu o endereço. Era um local de que eu jamais ouvira falar. Não sabia o tamanho do anfiteatro, se havia arcondicionado nem poltronas confortáveis. Só sabia que esse pessoal era exigente, estava acostumado ao máximo de conforto. Disseram-me que o público seria constituído de cerca de cem empresários e executivos, dos quais apenas cinco eram mulheres. Havia industriais, banqueiros, proprietários de grandes construtoras, donos de redes de supermercados, de cadeias de lojas e outros ramos. Representavam a maior parte da riqueza da grande megalópole e também do estado.
A elite financeira ficara excitada com a aceitação do convite, mas como sempre fui crítico desse povo, dei-lhes um banho de água fria. Disse que o homem que eles ouviriam era intrépido, capaz de fazer até socialistas como Lênin fungar. Minha espetada causou mal-estar nos participantes. E depois disso, fiz uma brincadeira realmente maldosa. Disse que o vendedor de sonhos poderia chamá-los de raça de víboras da sociedade capitalista, de casta de burgueses exploradores. Eles não gostaram da brincadeira. Ficaram muito apreensivos. Mas mesmo assim queriam garimpar as idéias desse fascinante homem.
Pegaram o endereço e definiram o horário da reunião. Alguns líderes acharam estranhos que desconhecessem o local, pois estavam acostumados a organizar eventos nos melhores lugares da cidade. Na noite do encontro, o mestre saiu na nossa frente. Parecia que fora meditar. ”Será que estava afinando sua artilharia?”, pensei. ”Será que estava pedindo ao seu Deus sabedoria para puxar o tapete da classe dominante? É sua oportunidade de ouro para quebrar a espinha dorsal da elite financeira”, continuei refletindo. Mal eu poderia prever o que aconteceria. Eu ficaria atônito, e eles, perplexos.
Como também não sabíamos o endereço, fomos pedindo informações. Estávamos próximo da numeração da rua, mas não encontrávamos o local do evento. O lugar era estranho, mal iluminado. Logo vimos um grupo de pessoas também perdido. Eram os empresários e executivos. Achavam que o endereço que eu dera estava errado. Mas afirmei que era esse o endereço que tinha. Contudo, pensei que eles poderiam ter razão. O mestre, por ser um desprivilegiado, poderia desconhecer os anfiteatros da cidade. Dera-nos informação errada.
Os líderes empresariais estavam decepcionados. Resolvemos seguir juntos na rua e procurar um pouco mais adiante. De repente, demos num grandioso e lúgubre cemitério. Era o famoso Cemitério da Recoleta. Perturbado, verificamos que o número batia com o que tínhamos. Pensei comigo: ”Se o mestre já tem fama de desvairado, agora ela se cristalizou na mente desse povo”. Provavelmente, ele deve estar do outro lado da cidade. Salomão disse:
— Eu enfrento os fantasmas na minha mente, mas detesto me aproximar de um cemitério, ainda mais à noite. Vamos embora. Sem muita segurança, segurei no seu braço. Pedi calma. Os participantes começavam a chegar com seus carros luxuosos e a se aglomerar. Todos estavam confusos. Pela primeira vez me rebaixei perante essa turma. Pedia freqüentemente desculpas pelo equívoco do endereço.
De repente, quando ameaçávamos ir embora, as portas do grande cemitério se abriram, rangendo as dobradiças. Imediatamente Boquinha de Mel abraçou Mão de Anjo e começou a tremer.
— Só entortado pela vodca eu entro nesse lugar.
Tão logo Bartolomeu fez essa observação, apareceu uma figura estranha, amedrontadora. Estava irreconhecível devido à
iluminação deficiente da entrada, se bem que no interior do cemitério a iluminação fosse melhor. O personagem fazia gestos para entrarmos. Era simplesmente o conferencista da noite, o mestre. Ficamos sem voz ao constatarmos que o endereço estava certo.
Todos nós, discípulos e empresários, começamos a nos mover lenta e apreensivamente para o singular anfiteatro. Cada um olhava sutilmente para o outro e devia pensar a mesma coisa: ”O
que estou fazendo aqui!”. Era a primeira vez que se tinha notícia de que uma conferência sobre criatividade e liderança ocorreria num cemitério. Era a primeira vez que se falaria sobre o pungente mundo dos vivos no palco dos ”mortos”.
Enquanto nos aproximávamos do local da sua fala, o mestre usava a voz grave e vibrante e saudava de forma excepcional os participantes:
— Bem-vindos os futuros personagens mais ricos do cemitério. Sintam-se em casa.
As pernas dos empresários bambearam. Estavam acostumados a grandes embates, a batalhas competitivas, a riscos fenomenais, mas não a esse desafio. Foram nocauteados no primeiro round por um anônimo. Eu não sabia o que falar nem como reagir, e as pessoas ao meu redor estavam igualmente atarantadas. O Cemitério da Recoleta é imponente. É um cemitério dos abastados. Seus mausoléus são suntuosos, verdadeiras obras de arte.
Vendo-nos introspectivos, o mestre continuou a deixar fluir suas idéias.
— Os notáveis homens e mulheres da sociedade aqui jazem. Sonhos, pesadelos, sentimentos secretos, emoções visíveis, golpes de ansiedade, momentos de raro prazer constituíram a vida de cada ser humano que aqui repousou. Suas histórias estão adormecidas. E raramente alguém se preocupa com elas, a não ser seus íntimos.
Não sabíamos aonde o mestre queria chegar, nem mesmo sabíamos se a conferência havia começado ou se haveria conferência. Só sabíamos que suas palavras nos conduziam a um passeio pela nossa própria história. O passado dos falecidos revelava as vielas do nosso futuro. Sua fala, que parecia instigadora do medo, começou a ter uma doçura inexplicável. Em seguida, ele fez um pedido a todos os participantes:
— Leiam durante dez minutos as amáveis mensagens afixadas na cabeceira dos mausoléus.
Eu nunca havia feito essa experiência sociológica. Apesar de a luminosidade não ser excelente, começamos a percorrer as ruas do cemitério e a ler as mensagens cravadas em metal, que celebravam a existência das pessoas que partiram. Quantas saudades! Quantas marcas! Quantas palavras carregadas de nobres significados! Algumas mensagens diziam: ”Ao meu gentil e dócil marido, com saudades da sua amada esposa. Que Deus o tenha em paz”; ”Ao querido papai — O tempo furtou sua presença, mas jamais furtará o amor que sentimos por você”; ”Papai, você é
inesquecível. Todos os dias o amarei”; ”Ao amigo insubstituível —
Obrigado por ter existido e ter participado de nossa vida”. Não sei o que aconteceu comigo ao ler essas placas, mas me envolvi numa atmosfera de afetividade. Comecei a relembrar as pessoas que perdera. Nunca escrevi uma placa para meu pai. Nem ao menos lhe agradeci por ter me dado a vida. O seu suicídio bloqueou meus sentimentos. Nem para minha valente mãe escrevi uma mensagem, a não ser aquela que trago silenciosamente na mente: ”Eu a amo. Obrigado por ter suportado minha rebeldia”. Olhei para o lado e vi todos os meus amigos e os empresários emocionados. Viajaram no tempo. Abriram as portas do inconsciente e depararam com a mais crua fragilidade. Eram homens que dirigiam empresas com milhares de pessoas, mas agora se sentiam simplesmente mortais.
Nesse momento, senti que o mestre criara propositadamente um clima. Tirara-lhes completamente a segurança, os mecanismos de defesa, a proteção do status financeiro, para torpedeá-los com suas palavras. Quando abriu a boca, perguntou algo que todo empresário detesta ouvir:
— Onde estão e quem são os proletários da atualidade?
Pensei comigo: ”Essas pessoas vão debandar. Embora estejam atordoadas pela viagem ao passado, não agüentarão o tranco das críticas do vendedor de idéias”. Ninguém respondeu nada. A resposta, que parecia óbvia, não era. Nesse momento, o mestre extraiu meu sangue sem injetar a agulha. Invertendo a teoria marxista, disse:
— Vocês são os proletários da atualidade, pelo menos uma casta importante deles.
Eu pensei: ”Que afirmação é essa? Será que ele não sabe quem é o público que está presente?”. Tive vontade de sair correndo porque parecia que o mestre não entendia nada do que estava falando, nem para quem estava falando. Mas em seguida ele me fez derrapar nas curvas dos meus pensamentos. E começou a explicar.
Disse que o filósofo Karl Marx (1818-1883) deixara sua terra natal e fora para Paris, onde conhecera Friedrich Engels (1820-1895). Os dois afinaram suas idéias, tornaram-se membros de grupos socialistas e iniciaram uma colaboração que durou a vida toda. Para eles, os fatores econômicos e tecnológicos, expressos pelo modo como os bens são produzidos e as riquezas distribuídas, seriam as forças que desenvolvem a história e alicerçam a política, a lei, a moral, a filosofia, enfim, toda a cultura. Marx acreditava que a história humana era governada pelas leis da ciência e rejeitava todas as interpretações religiosas da natureza e da história. Por meio dessas leis, as pessoas, em especial a classe trabalhadora, teriam liberdade de construir a própria história.
Mas comentou que essa tão sonhada liberdade não se materializara. Quando alguns socialistas tomaram o poder tornaram-se implacáveis, destruíram milhares de supostos opositores, silenciaram vozes, tolheram direitos, esmagaram, enfim, a liberdade que discursavam. A classe trabalhadora não construiu sua própria história, mas a história que a cúpula determinou. A antiga religião fora substituída pelo culto à
personalidade desses líderes.
— A revolução deles era externa - relatou, e adicionou: —
Diferentemente deles, meu sonho não é destruir o sistema político vigente para reconstruí-lo. Não creio em mudanças de fora para dentro. Creio numa mudança pacífica de dentro para fora, uma mudança na capacidade de pensar, se enxergar, criticar, interpretar os fenômenos sociais, e, em especial, na capacidade de resgatar o prazer. Meu sonho está dentro do ser humano. Após essa breve explanação, que revelava que ele sabia o que estava dizendo, começou a falar que, quando Marx lançou suas idéias, a classe dominante não distribuía renda, usava o poder político e financeiro para oprimir a classe trabalhadora. Uma pequena minoria vivia nababescamente diante da miséria de uma imensa maioria. A diferença de classes ainda existia, as injustiças sociais ainda não haviam sido erradicadas, mas no terceiro milênio o sistema, com o advento da globalização, gerara uma nova classe de pessoas exploradas.
— Vocês! — enfatizou novamente.
Ao ouvir sua afirmação, pensei outra vez: ”Mas não são eles os privilegiados? Não vivem no luxo e na mordomia? Como é
possível classificá-los como uma classe explorada, como os proletários deste milênio?”
Mas, para começar a fundamentar suas idéias, ele começou a jogar por terra um ditado popular que muitos de nós conhecíamos:
— Nos séculos passados, antes de o sistema se desenvolver, uma fortuna demorava três gerações para se acabar. Por isso, o velho ditado tinha fundamento: avô rico, filho nobre, neto pobre. Mas nos dias atuais raramente esse pensamento tem validade. Uma empresa sólida pode desaparecer em cinco anos. Uma indústria importante pode estar fora do mercado em pouco tempo. Enfim, a quantidade de anos de uma geração pode ser suficiente para destruir três, quatro, cinco ou mais fortunas.
Meu castelo de cartas começava a desmoronar. Os empresários, depois do susto inicial, ficaram pensativos e começaram a concordar com esse provocador misterioso.
— Para suas empresas sobreviverem, vocês têm de competir num processo sem fim. Para suas empresas não serem devoradas por concorrentes, têm de se redescobrir a cada ano, se superar a cada mês e se reinventar a cada semana.
E fez uma pergunta básica, cuja resposta todos erraram:
— O sistema esmaga as empresas que caem na insignificância ou na ineficiência?
Todos a uma só voz responderam que sim. Mas ele disse que não.
— Ele não esmaga as empresas. Esmaga seus líderes. Também nos disse que médicos, advogados, engenheiros, jornalistas e tanto outros profissionais estavam no mesmo processo de esmagamento. Os donos do dinheiro começaram a entender que não eram tão ricos como pensavam. Os proprietários do poder começaram a perceber que não eram tão fortes como imaginavam. Durante essa exposição inicial, algumas pessoas estavam ainda céticas. O mestre amava os céticos, pois podia pegá-los na astúcia das suas idéias. Para não deixar dúvidas, fez o diagnóstico e mostrou o resultado:
— Senhoras e senhores, o tempo da escravidão não foi extirpado das páginas da história, apenas mudou de forma. Vou lhes fazer algumas perguntas e lhes peço plena honestidade, transparência cristalina. Saibam que quem não é transparente tem uma dívida impagável com sua saúde psíquica. Respondam me: quem tem dores de cabeça?
As pessoas ficaram um pouco constrangidas, mas, um após o outro, começaram a levantar a mão. Verifiquei que quase todos levantaram a mão.
— Quem tem dores musculares? - Novamente a grande maioria levantou a mão, estava mais desinibida.
Depois ele começou a fazer inúmeras outras indagações:
— Quem acorda fatigado? Quem tem queda de cabelo? Quem sente que sua mente é agitada? Quem sofre por problemas que ainda não aconteceram? Quem tem a sensação de estar por um fio? Quem se irrita por pequenos problemas? Quem tem emoção flutuante — num momento é tranqüilo e noutro, quando contrariado, tem reações explosivas? Quem tem medo do futuro?
A maioria dos presentes nem se dava ao luxo de abaixar a mão. Tinha todos os sintomas. Eu não acreditava no que via. Esfregava os olhos com as duas mãos e me questionava: ”Não são eles a elite da sociedade? Como podem ter péssima qualidade de vida? Não são eles que tomam os melhores vinhos e champanhes?
Não freqüentam os melhores restaurantes? Por que então estão gravemente estressados?” Fiquei abalado.
Minha mente não parava de refletir sobre os fundamentos socialistas. Eles precisavam ser corrigidos. Os burgueses andavam com carros de luxo, mas estavam paralisados por suas tensões. Iam à casa de praia, mas suas emoções não surfavam nas ondas do prazer. Dormiam em colchões macios, mas faltava-lhes conforto psíquico, o sono não era agradável. Trajavam temos impecáveis, mas estavam quase nus, sem proteção contra suas tensões e preocupações.
”Que loucura!” pensei intimamente. ”Onde está a felicidade que o sistema prometeu para os que atingem o pódio do capitalismo? Onde está a tranqüilidade para aqueles que acumularam riquezas? Onde está o prêmio pela competência? Eles fazem seguro de casa, de vida, empresarial, previdenciário e até
seguro contra seqüestro, mas por que têm uma rica sintomatologia, que denuncia uma dramática insegurança?” O
sistema esmagava seus líderes.
Abalando alguns da teoria marxista
O questionamento do mestre no Cemitério da Recoleta colocou nossos neurônios em estado de choque. Eu atacara a elite empresarial durante anos e anos em sala de aula, mas precisava rever alguns conceitos. Comecei a entender que o sistema traía a todos, em especial aos que mais o alimentavam. Atingia inclusive as celebridades, não apenas pela invasão de privacidade e pela contração da sensibilidade, mas porque o sucesso era freqüentemente fugaz. Era muito fácil cair na insignificância. Em nome da competitividade, o sistema sugava-lhes até a última gota de energia cerebral. Eles gastavam mais energia que muitos braçais, viviam fadigados devido ao excesso de pensamentos. Eram vencedores, mas não levavam o prêmio, pelo menos não para o território psíquico.
Na produção industrial, em especial, o estresse se multiplicava, pois havia uma verdadeira guerra de preços baixos, distorcida por subsídios governamentais que contaminavam o valor dos produtos, capaz de desbancar empresas do outro lado do mundo. Acrescentavam-se a esse caldeirão as diferenças de impostos inseridas nos produtos e as diferenças salariais pagas pelos trabalhadores de cada país, bem como o fenômeno dumping (empresas que colocam seus preços abaixo dos custos de produção para conquistar o mercado). Sobreviver era uma arte infernal. A situação dos participantes não poderia ser pior. Trinta e cinco por cento deles tinham problemas cardíacos ou eram hipertensos. Quinze por cento tinham câncer, alguns dos quais não virariam o ano com vida. Trinta por cento tinham crises depressivas. Dez por cento tinham síndrome do pânico. Sessenta por cento tinham conflitos conjugais. Noventa e cinco por cento tinham três ou mais sintomas psíquicos ou psicossomáticos, sessenta e cinco por cento dos quais atingiam a incrível marca de dez sintomas.
A exploração dos proletários ainda existia em diversas nações. Mas nas sociedades desenvolvidas e nas emergentes, onde as leis trabalhistas eram justas e os direitos humanos respeitados, os grandes explorados eram os que tinham um trabalho intelectual intenso, como gerentes, diretores, empresários, profissionais liberais, professores, jornalistas.
O rolo compressor era tão avassalador que muitos executivos tinham a fleuma de levar seus problemas para casa e até para as suas férias. Os trabalhadores que tinham salários satisfatórios, mas sem posição de liderança ou gerenciamento nas empresas, tinham tempo para os amigos, para sentir o perfume dos alimentos, relaxar nos finais de semana, dormir e despertar sem ser asfixiados com preocupações. Enquanto para os líderes empresariais, essas experiências eram artigo de luxo. No bom sentido da palavra, ”os vassalos viviam pela primeira vez melhor que o feudo”.
Foi então que entendi com clareza por que o mestre insistia em dizer que o sucesso é mais difícil de trabalhar que o fracasso: o risco do sucesso é ser uma máquina de atividades. Marx e Engels se contorceriam no túmulo se soubessem que o desenvolvimento último do capitalismo atingiria o sonho do socialismo: seria o
”caos” da elite empresarial e o oásis dos trabalhadores. Embora houvesse exceções. O problema da classe trabalhadora era o consumismo, a compulsão pelo crédito e o gasto acima da renda. Excetuando esses fenômenos, o topo do capitalismo produziria o reino dos trabalhadores e a exploração mental de grande parte dos que exerciam posição de liderança.
O que era interessante é que nenhuma estatística abordava a nova casta de explorados. Parecia que eram fortes, autosuficientes, semideuses, não precisavam de apoio e muito menos de sonhos. Não eram seres humanos sem fronteiras, eram seres humanos entrincheirados. Excetuando alguns poucos cursos e consultas médicas esporádicas, quase nada se fazia por eles. Depois dessa abordagem, ficou patente que o mestre sabia muito bem o que estava falando e para quem estava falando. Só não sabíamos como ele sabia de tudo isso. Como pode um maltrapilho deter todas essas informações? Que homem é esse que transita entre os miseráveis e os milionários com inigualável desenvoltura?
De onde procede?
Bartolomeu, ao ver os participantes da excepcional conferência reconhecerem que estavam fragilizados, não suportou ficar quieto. Levantou a mão direita e interpelou o mestre:
— Chefinho, esses caras estão mal das pernas! Vamos fazer uma vaquinha para ajudá-los. — Provavelmente achou que os participantes estavam bem-trajados porque iam a algum baile de fantasia.
Foi a primeira vez na civilização moderna que um miserável chamou os membros da elite financeira de paupérrimos. Foi a primeira vez que um proletário se sentiu mais rico que os milionários da sua sociedade. Sua fala foi tão espontânea que o que era trágico tornou-se cômico. Os participantes olharam uns para os outros e sorriram ininterruptamente. Não desrespeitaram os mortos com suas gargalhadas, riram da própria miserabilidade. Precisavam comprar muitos sonhos se quisessem ter o mínimo de saúde psíquica.