Papéis Avulsos
O Alienista
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Entretanto, a arruaça crescia. Já não eram trinta, mas trezentas pessoas que acompanhavam o barbeiro, cuja alcunha familiar deve ser mencionada, porque ella deu o nome á revolta; chamavam-lhe o Cangica,—e o movimento ficou celebre com o nome de revolta dos Cangicas. A acção podia ser restricta,—visto que muita gente, ou por medo, ou por habitos de educação, não descia á rua; mas o sentimento era unanime, ou quasi unanime, e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde,—dada a diferença de Paris a Itaguahy,—podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha.
D. Evarista teve noticia da rebellião antes que ella chegasse; veiu dar-lh'a uma de suas crias. Ella provava nessa occasião um vestido do seda,—um dos trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro,—e não quiz crer.
—Hade ser alguma patuscada, dizia ella mudando a posição de um alfinete. Benedicta, vê se a barra está boa.
—Está, sinhá, respondia a mucama de cocaras no chão, está boa. Sinhá vira um bocadinho. Assim, Está muito boa.
—Não é patuscada, não, senhora; elles estão gritando:—Morra o Dr. Bacamarte! o tyranno! dizia o moleque assustado.
—Cala a hoca, tolo! Benedicta, olha ahi do lado esquerdo; não parece que a costura está um pouco enviezada? A risca azul não segue até abaixo; está muito feio assim; é preciso descozer para ficar egualzinho e...
—Morra o Dr. Bacamarte! morra o tyranno! uivaram fóra trezentas vozes. Era a rebellião que desembocava na rua Nova.
D. Evarista ficou sem pinga de sangue. No primeiro instante não deu um passo, não fez um gesto; o terror petrificou-a. A mucama correu instinctivamente para a porta do fundo. Quanto ao moleque, a quem D. Evarista. não dera credito, teve um instante de triumpho, um certo movimento subito, imperceptivel, entranhado, de satisfação moral, ao ver que a realidade vinha jurar por elle.
—Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto.
D. Evarista, se não resistia facilmente ás commoções de prazer, sabia entestar com os momentos de perigo. Não desmaiou; correu á sala interior onde o marido estudava. Quando ella alli entrou, precipitada, o illustre medico escrutava um texto de Averróes, os olhos delle, empanados pela cogitação, subiam do livro ao tecto e baixavam do tecto ao livro, cégos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos mentaes. D. Evarista chamou pelo marido duas vezes, sem que elle lhe désse attenção; á terceira, ouviu e perguntou-lhe o que tinha, se estava doente.
—Você não ouve estes gritos? perguntou a digna esposa em lagrimas.
O alienista attendeu então; os gritos approximavam-se, terriveis, ameaçadores; elle comprehendeu tudo. Levantou-se da cadeira de espaldar em que estava sentado, fechou o livro, e, a passo firme e tranquillo, foi deposital-o na estante. Como a introducção do volume desconcertasse um pouco a linha dos dous tomos contiguos, Simão Bacamarte cuidou de corrigir esse defeito minimo, e, aliás, interessante. Depois disse á mulher que se recolhesse, que não fizesse nada.
—Não, não, implorava a digna senhora, quero morrer ao lado de você...
Simão Bacamarte teimou que não, que não era caso de morte; e ainda que o fosse, intimava-lhe em nome da vida que ficasse. A infeliz dama curvou a cabeça, obediente e chorosa.
—Abaixo a Casa Verde! bradavam os Cangicas.
O alienista caminhou para a varanda da frente, e chegou alli no momento em que a rebellião tambem chegava e parava, defronte, com as suas trezentas cabeças rutilantes de civismo e sombrias de desespero.—Morra! morra! bradaram de todos os lados, apenas o vulto do alienista assomou na varanda. Simão Bacamarte fez um signal pedindo para fallar; os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de indignação. Então, o barbeiro agitando o chapéo, afim de impôr silencio á turba, conseguiu aquietar os amigos, e declarou ao alienista que podia fallar, mas accrescentou que não abusasse da paciencia, do povo como fizera até então.
—Direi pouco, ou até não direi nada, se fôr preciso. Desejo saber primeiro o que pedis.
—Não pedimos nada, replicou fremente o barbeiro; ordenamos que a Casa Verde seja demolida ou pelo menos despojada dos infelizes que lá estão.
—Não entendo.
—Entendeis bem, tyranno; queremos dar liberdade ás victimas do vosso odio, capricho, ganancia...
O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homem não era cousa visivel aos olhos da multidão; era uma contracção leve de dous ou tres musculos, nada mais. Sorriu e respondeu:
—Meus senhores, a sciencia é cousa seria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus actos de alienista a ninguem, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou prompto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em commissão dos outros, a vir ver commigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos mão do meu systema, o que não farei a leigos, nem a rebeldes.
Disse isto o alienista, e a multidão ficou attonita; era claro que não esperava tanta energia e menos ainda tamanha serenidade. Mas o assombro cresceu de ponto quando o alienista, cortejando a multidão com muita gravidade, deu-lhe as costas e retirou-se lentamente para dentro. O barbeiro tornou logo a si, e, agitando o chapéo, convidou os amigos á demolição da Casa Verde; poucas vozes e frouxas lhe responderam. Foi nesse momento decisivo que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição do governo; pareceu-lhe então que, demolindo a Casa Verde, e derrocando a influencia do alienista, chegaria a apoderar-se da camara, dominar as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguahy. Desde alguns annos que elle forcejava por ver o seu nome incluido nos pellouros para o sorteio dos vereadores, mas era recusado por não ter uma posição compativel com tão grande cargo. A occasião era agora ou nunca. Demais fôra tão longe na arruaça, que a derrota seria a prisão, ou talvez a forca, ou o degredo. Infelizmente, a resposta do alienista diminuira o furor dos sequazes. O barbeiro, logo que o percebeu, sentiu um impulso de indignação, e quiz bradar-lhes:—Canalha! covardes!—mas conteve-se, e rompeu deste modo:
—Meus amigos, lutemos até o fim! A salvação de ltaguahy está nas vossas mãos dignas e heroicas. Destruamos o carcere de vossos filhos e paes, de vossas mães e irmãs, de vossos parentes e amigos, e de vós mesmos. Ou morrereis a pão e agua, talvez a chicote, ua masmorra daquelle indigno.
A multidão agitou-se, murmurou, bradou, ameaçou, congregou-se toda em derredor do barbeiro. Era a revolta que tomava a si da ligeira syncope, e ameaçava arrazar a Casa Verde.
—Vamos! bradou Porfirio agitando o chapéo.
—Vamos! repetiram todos.
Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões que, a marche-marche, entrava na rua Nova.
VII
O INESPERADO
Chegados os dragões em frente aos Cangicas, houve um instante de estupefacção; os Cangicas não queriam crer que a força publica fosse mandada contra elles; mas o barbeiro comprehendeu tudo e esperou. Os dragões pararam, o capitão intimou á multidão que se dispersasse; mas, comquanto uma parte della estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos alevantados:
—Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadaveres, podeis tomal-os; mas só os cadaveres; não levareis a nossa honra, o nosso credito, os nossos direitos, e com elles a salvação da Itaguahy.
Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse tambem um excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Cangicas. O momento foi indescriptivel. A multidão urrou furiosa; alguns, trepando ás janellas das casas, ou correndo pela rua fóra, conseguiram escapar; mas a maioria ficou, bufando de colera, indignada, animada pela exhortação do barbeiro. A derrota dos Cangicas estava imininente, quando um terço dos dragões,—qualquer que fosse o motivo, as chronicas não o declaram,—passou subitamente para o lado da rebellião. Este inesperado reforço deu alma aos Cangicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo ás fileiras da legalidade. Os soldados fieis não tiveram coragem de atacar os seus proprios camaradas, e, um a um, foram passando para elles, de modo que ao cabo de alguns minutos, o aspecto das cousas era totalmente outro. O capitão estava de um lado, com alguma gente, contra uma massa compacta que o ameaçava de morte. Não teve remedio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro.
A revolução triumphante não perdeu um só minuto; recolheu os feridos ás casas proximas, e guiou para a camara. Povo e tropa fraternisavam, davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itaguahy, ao «illustre Porfirio.» Este ia na frento, empunhando tão destramente a espada, como se ella fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. A victoria cingia-lhe a fronte de um nimbo mysterioso. A dignidade de governo começava a enrijar-lhe os quadris.
Os vereadores, ás janellas, vendo a multidão e a tropa, cuidaram que a tropa capturára a multidão, e sem mais exame, entraram e votaram uma petição ao vice-rei para que mandasse dar um mez de soldo aos dragões, «cujo denodo salvou Itaguahy do abysmo a que o tinha lançado uma cáfila de rebeldes.» Esta phrase foi proposta por Sebastião Freitas, o vereador dissidente, cuja defeza dos Cangicas tanto escandalisára os collegas. Mas bem depressa a illusão se desfez. Os vivas ao barbeiro, os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-lhes noticia da triste realidade. O presidente não desanimou:—Qualquer que seja a nossa sorte, disse elle, lembremo-nos que estamos ao serviço de Sua Magestade e do povo.—Sebastião Freitas insinuou que melhor se poderia servir á corôa e á villa sahindo pelos fundos e indo conferenciar com o juiz de fóra, mas toda a camara rejeitou esse alvitre.
D'ahi a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus tenentes, entrava na sala da vereança, e intimava á camara a sua queda. A camara não resistiu, entregou-se, e foi dalli para a cadeia. Então os amigos do barbeiro propozeram-lhe que assumisse o governo da villa, em nome de Sua Magestade. Porfirio aceitou o encargo, embora não desconhecesse (accrescentou) os espinhos que trazia; disse mais que não podia dispensar o concurso dos amigos presentes; ao que elles promptamente annuiram. O barbeiro veiu á janella, e communicou ao povo essas resoluções, quo o povo ratificou, acclamando o barbeiro. Este tomou a denominação de —«Protector da villa em nome de Sua Magestade e do povo.»— Expediram-se logo varias ordens importantes, communicações officiaes do novo governo, uma exposição minuciosa ao vice-rei, com muitos protestos de obediencia ás ordens de Sua Magestade; finalmente, uma proclamação ao povo, curta, mas energica:
«Itaguahyenses!
Uma camara corrupta e violenta conspirava contra os interesses de Sua Magestade e do povo. A opinião publica tinha-a condemnado; um punhado de cidadãos, fortemente apoiados pelos bravos dragões de Sua Magestade, acaba de a dissolver ignominiosamente, e por unanime consenso da villa, foi-me confiado o mando supremo, até que Sua Magestade se sirva ordenar o que parecer melhor ao seu real serviço. Itaguahyenses! não vos peço se não que me rodeeis de confiança, que me auxilieis em restaurar a paz e a fazenda publica, tão desbaratada pela camara que ora findou ás vossas mãos. Contai com o meu sacrificio, e ficai certos de que a coroa será por nós.
O Protector da villa em nome de Sua Magestade e do povo
Porfirio Caetano das Neves.»
Toda a gente advertiu no absoluto silencio desta proclamação ácerca da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver mais vivo indicio dos projectos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto maior quanto que, no meio mesmo desses graves successos, o alienista mettera na Casa Verde umas sete ou oito pessoas, entre ellas duas senhoras, sendo um dos homens aparentado com o Protector. Não era um repto, um acto intencional; mas todos o interpretaram dessa maneira, e a villa respirou com a esperança de que o alienista dentro de vinte e quatro horas estaria a ferros, e destruido o terrivel carcere.
O dia acabou alegremente. Emquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defeza do illustre Porfirio. Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na acção do governo. O barbeiro fez expedir um acto declarando feriado aquelle dia, e entabolou negociações com o vigario para a celebração de um Te-Deum, tão conveniente era aos olhos delle a conjuncção do poder temporal com o espiritual; mas o padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.
—Em todo caso, Vossa Reverendissima não se alistará entre os inimigos do governo? disse-lhe o barbeiro dando á physionomia um aspecto tenebroso.
Ao que o padre Lopes respondeu, sem responder:
—Como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos?
O barbeiro sorriu; era a pura verdade. Salvo o capitão, os vereadores e os principaes da villa, toda a gente o acclamava. Os mesmos principaes, se o não acclamavam, não tinham saido contra elle. Nenhum dos almotacés deixou de vir receber as suas ordens. No geral, as familias abençoavam o nome daquelle que ia emfim libertar Itaguahy da Casa Verde e do terrivel Simão Bacamarte.
VIII
AS ANGUSTIAS DO BOTICARIO
Vinte e quatro horas depois dos successos narrados no capitulo anterior, o barbeiro saiu do palacio do governo—foi a denominação dada á casa da camara—, com dous ajudantes de ordens, e dirigiu-se á residencia de Simão Bacamarte. Não ignorava elle que era mais decoroso ao governo mandal-o chamar; o receio, porém, de que o alienista não obedecesse, obrigou-o a parecer tolerante e moderado.
Não descrevo o terror do boticario ao ouvir dizer que o barbeiro ia á casa do alienista.—Vae prendel-o, pensou elle. E redobraram-lhe as angustias. Com effeito, a tortura moral do boticario naquelles dias de revolução excede a toda a descripção possivel. Nunca um homem se achou em mais apertado lance:—a privança do alienista chamava-o ao lado deste, a victoria do barbeiro attrahia-o ao barbeiro. Já a simples noticia da sublevação tinha-lhe sacudido fortemente a alma, porque elle sabia a unanimidade do odio ao alienista; mas a victoria final foi tambem o golpe final. A esposa, senhora mascula, amiga particular de D. Evarista, dizia que o lugar delle era ao lado de Simão Bacamarte; ao passo que o coração lhe bradava que não, que a causa do alienista estava perdida, e que ninguem, por acto proprio, se amarra a um cadaver. Fel-o Catão, é verdade, sed victa Catoni, pensava elle, relembrando algumas palestras habituaes do padre Lopes; mas Catão não se atou a uma causa vencida, elle era a propria causa vencida, a causa da republica; o seu acto, portanto, foi de egoista, de um miseravel egoista; minha situação é outra. Insistindo, porém, a mulher, não achou Crispim Soares outra sahida em tal crise senão adoecer; declarou-se doente, e metteu-se na cama.
—Lá vai o Porfirio á casa do Dr. Bacamarte, disse-lhe a mulher no dia seguinte á cabeceira da cama; vai acompanhado de gente.
—Vai prendel-o, pensou o boticario.
Uma idéa traz outra; o boticario imaginou que, uma vez preso o alienista, viriam tambem buscal-o a elle, na qualidade de complice. Esta idéa foi o melhor dos visicatorios. Crispim Soares ergueu-se, disse que estava bom, que ia sahir; e apesar de todos os esforços e protestos da consorte, vestiu-se e sahiu. Os velhos chronistas são unanimes em dizer que a certeza de que o marido ia collocar-se nobremente ao lado do alienista consolou grandemente a esposa do boticario; e notam, com muita perspicacia, o immenso poder moral de uma illusão; porquanto, o boticario caminhou resolutamente ao palacio do governo, não á casa do alienista. Alli chegando, mostrou-se admirado de não ver o barbeiro, a quem ia apresentar os seus protestos de adhesão, não o tendo feito desde a vespera por enfermo. E tossia com algum custo. Os altos funccionarios que lhe ouviam esta declaração, sabedores da intimidade do boticario com o alienista, comprehenderam toda a importancia da adhesão nova, e trataram a Crispim Soares com apurado carinho; affirmaram-lhe que o barbeiro não tardava; Sua Senhoria tinha ido á Casa Verde, a negocio importante, mas não tardava. Deram-lhe cadeira, refrescos, elogios; disseram-lhe que a causa do iIlustre Porfirio era a de todos os patriotas; ao que o boticario ia repetindo que sim, que nunca pensára outra cousa, que isso mesmo mandaria declarar Sua Magestade.
IX
DOUS LINDOS CASOS
Não se demorou o alienista em receber o barbeiro; declarou-lhe que não tinha meios de resistir, e portanto estava prestes a obedecer. Só uma cousa pedia, é que o não constrangesse a assistir pessoalmente á destruição da Casa Verde.
—Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa, engana-se em attribuir ao governo intenções vandalicas. Com razão ou sem ella, a opinião crê que a maior parte dos doudos alli mettidos estão era seu perfeito juizo, mas o governo reconhece que a questão é puramente scientifica, e não cogita em resolver com posturas as questões scientificas. Demais, a Casa Verde é uma instituição publica; tal a aceitamos das mãos da camara dissolvida. Ha, entretanto,—por força que ha de haver um alvitre intermedio que restitua o socego ao espirito publico.
O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que esperava outra cousa, o arrazamento do hospicio, a prisão delle, o desterro, tudo, menos...
—O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de não attender á grave responsabilidade do governo. O povo, tomado de uma céga piedade, que lhe dá em tal caso legitima indignação, póde exigir do governo certa ordem de actos; mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a nossa situação. A generosa revolução que hontem derrubou uma camara villipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrazamento da Casa Verde; mas pode entrar no animo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminal-a, reconhecel-a? Tambem não; é materia de sciencia. Logo, em assumpto tão melindroso, o governo não póde, não deve, não quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obedecer. Um dos alvitres aceitaveis, se Vossa Senhoria não indicar outro, seria fazer retinir da Casa Verde aquelles enfermos que estiverem quasi curados, e bem assim os maniacos de pouca monta, etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerancia e benignidade.
—Quantos mortos e feridos houve hontem no conflicto? perguntou Simão Bacamarte, depois de uns tres minutos.
O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo que onze mortos e vinte e cinco feridos.
—Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou trez vezes o alienista.
E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom, mas que elle ia catar algum outro, e dentro de poucos dias lhe daria resposta. E fez-lhe varias perguntas ácerca dos successos da vespera, ataque, defeza, adhesão dos dragões, resistencia da camara, etc., ao que o barbeiro ia respondendo com grande abundancia, insistindo principalmente no descredito em que a camara cahira. O barbeiro confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos principaes da villa, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. O govemo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, não já com a sympathia, senão com a benevolencia do mais alto espirito de Itaguahy, e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera physionomia daquelle grande homem, que ouvia calado, sem desvanecimento, nem modestia, mas impassivel como um deus de pedra.
—Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista, depois de acompanhar o barbeiro ate á porta. Eis ahi dous lindos casos de doença cerebral. Os symptomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto á toleima dos que o acclamaram não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos.—Dous lindos casos!
—Viva o illustre Porfirio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam o barbeiro á porta.
O alienista espiou pela janella, e ainda ouviu este resto de uma pequena falla do barbeiro ás trinta pessoas que o acclamavam.
—... porque eu vélo, podeis estar certos disso, eu vélo pela execução das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se fará pela melhor maneira. Só vos recommendo ordem. A ordem, meus amigos, é a base do governo...
—Viva o illustre Porfirio! bradaram as trinta vozes, agitando os chapéos.
—Dous lindos casos! murmurou o alienista.
X
A RESTAURAÇÃO
Dentro de cinco dias, o alienista metteu na Casa Verde cerca de cincoenta acclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o Porfirio estava «vendido ao ouro de Simão Bacamarte,» phrase que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da villa. Porfirio, vendo o antigo rival da navalha á testa da insurreição, comprehendeu que a sua perda era irremediavel, se não désse um grande golpe; expediu dous decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. João Pina mostrou claramente, com grandes phrases, que o acto de Porfirio era um simples apparato, um engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois cahia Porfirio ignominiosamente, e João Pina assumia a difficil tarefa do governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros actos inauguraes do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir; accrescentam os chronistas, e aliás sub entende-se, que elle lhes mudou os nomes, e onde o outro barbeiro fallára de uma camara corrupta, fallou este de «um intruso eivado das más doutrinas francesas, e contrario aos sacrosantos interesses de Sua Magestade, etc.»
Nisto entrou na villa uma força mandada pelo vice-rei, e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfirio, e bem assim a de uns cincoenta e tantos individuos, que declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses, como afiançaram entregar-lhe mais desenove sequazes do barbeiro, que convaleciam das feridas apanhadas na primeira rebellião.
Este ponto da crise de Itaguahy marca tambem o grau maximo da influencia de Simão Bacamarte. Tudo quanto quiz, deu-se-lhe; e uma das mais vivas provas do poder do illustre medico achamol-a na promptidão com que os vereadores, restituidos a seus logares, consentiram em que Sebastião Freitas tambem fosse recolhido ao hospicio. O alienista, sabendo da extraordinaria inconsistencia das opiniões desse vereador, entendeu que era um caso pathologico, e pediu-o. A mesma cousa aconteceu ao boticario. O alienista, desde que lhe fallaram da momentanea adhesão de Crispim Soares á rebellião dos Cangicas, comparou-a á approvação que sempre recebera delle, ainda na vespera, e mandou captural-o. Crispim Soares não negou o facto, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror, ao ver a rebellião triumphante, e deu como prova a ausencia de nenhum outro acto seu, accrescentando que voltára logo á cama, doente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circumstantes que o terror tambem é pae da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterisados.
Mas a prova mais evidente da influencia de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a camara lhe entregou o proprio presidente. Este digno magistrado tinha declarado em plena sessão, que não se contentava, para laval-o da affronta dos Cangicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretario da camara, enthusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte começou por metter o secretario na Casa Verde, e foi d'alli á camara, á qual declarou que o presidente estava padecendo da «demencia dos touros», um genero que elle pretendia estudar, com grande vantagem para os povos. A camara a principio hesitou, mas acabou cedendo.
Dahi em diante foi uma collecta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso á mais simples mentira do mundo, ainda daquellas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo mettido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagrammas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguem escapava aos emissarios do alienista. Elle respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural, e as segundas a um vicio. Se um homem era avaro ou prodigo ia do mesmo modo para a Casa Verde; dahi a allegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns chronistas crêem que Simão Bacamarte, nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da affirmação (que não sei se póde ser aceita) o facto de ter alcançado da camara uma postura autorisando o uso de um anel de prata no dedo pollegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradiccional, declarasse ter nas veias duas ou tres onças de sangue godo. Dizem esses chronistas que o fim secreto da insinuação á camara foi enriquecer um ourives, amigo e compadre delle; mas, comquanto seja certo que o ourives viu prosperar o negocio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu á Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se póde definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do illustre medico. Quanto á razão determinativa da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram do annel, é um dos pontos mais obscuros da historia de Itaguahy; a opinião mais verosimil é que elles foram recolhidos por andarem a gesticular, á toa, nas ruas, em casa, na egreja. Ninguem ignora que os doudos gesticulam muito. Em todo caso é uma simples conjectura; de positivo nada ha.
—Onde é que este homem vae parar? diziam os principaes da terra. Ah! se nós tivessemos apoiado os Cangicas...
Um dia de manhã,—dia em que a camara devia dar um grande baile,—a villa inteira ficou abalada com a noticia de que a propria esposa do alienista fôra mettida na Casa Verde. Ninguem acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fôra recolhida ás duas horas da noite. O padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente ácerca do facto.
—Já ha algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido. A modestia com que ella vivera em ambos os matrimonios não podia conciliar-se com o furor das sedas, velludos, rendas e pedras preciosas que manifestou, logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observal-a. Suas conversas eram todas sobre esses objectos; se eu lhe fallava das antigas côrtes, inquiria logo da fórma dos vestidos das damas; se uma senhora a visitava, na minha ausencia, antes de me dizer o objecto da visita, descrevia-me o trajo, approvando umas cousas e censurando outras. Um dia, creio que Vossa Reverendissima hade lembrar-se, propôz-se a fazer annualmente um vestido para a imagem de Nossa Senhora da matriz. Tudo isto eram symptomas graves; esta noite, porém, declarou-se a total demencia. Tinha escolhido, preparado, enfeitado o vestuario que levaria ao baile da camara municipal; só hesitava entre um collar de granada e outro de saphyra. Ante-hontem perguntou-me qual delles levaria; respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. Hontem repetiu a pergunta, ao almoço; pouco depois de jantar fui achal-a calada e pensativa.—Que tem? perguntei-lhe.— Queria levar o collar de granada, mas acho o de saphyra tão bonito! —Pois leve o de saphyra.—Ah! mas onde fica o de granada?— Emfim, passou a tarde sem novidade. Ceamos, e deitamo-nos. Alta noite, seria hora e meia, accordo e não a vejo; levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos dous collares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro. Era evidente a demencia; recolhi-a logo.
O padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não objectou nada. O alienista, porém, percebeu e explicou-lhe que o caso de D. Evarista era de «mania sumptuaria,» não incuravel, e em todo caso digno de estudo.
—Conto pôl-a boa dentro de seis semanas, concluiu elle.
A abnegação do illustre medico deu-lhe grande realce. Conjecturas, invenções, desconfianças, tudo cahiu por terra, desde que elle não duvidou recolher á Casa Verde a propria mulher, a quem amava com todas as forças da alma. Ninguem mais tinha o direito de resistir-lhe,—menos ainda o de attribuir-lhe intuitos alheios á sciencia. Era um grande homem austero, Hippocrates forrado de Catão.
XI
O ASSOMBRO DE ITAGUAHY
E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a villa, ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser póstos na rua.
—Todos?
—Todos.
—É impossivel; alguns, sim, mas todos...
—Todos. Assim o disse elle no officio que mandou hoje de manhã á camara.
De facto, o alienista officiára á camara expondo:—1°, que verificára das estatisticas da villa e da Casa Verde, que quatro quintos da população estavam aposentados naquelle estabelecimento; 2°, que esta deslocação de população levára-o a examinar os fundamentos da sua theoria das molestias cerebraes, theoria que excluia do dominio da razão todos os casos em que o equilibrio das faculdades, não fosse perfeito e absoluto; 3°, que desse exame e do facto estatistico resultára para elle a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquella, mas a opposta, e portanto que se devia admittir como normal e exemplar o desequilibrio das faculdades, e como hypotheses pathologicas todos os casos em que aquelle equilibrio fosse ininterrupto; 4°, que á vista disso, declarava á camara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agazalhar nella as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; 5°, que tratando de descobrir a verdade scientifica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da camara egual dedicação; 6°, que restituia á camara e aos particulares a somma do estipendio recebido para alojamento dos suppostos loucos, descontada a parte effectivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.; o que a camara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.
O assombro de Itaguahy for grande; não foi menor a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares, dansas, luminarias, musicas, tudo houve para celebrar tão fausto acontecimento. Não descrevo as festas por não interessarem ao nosso proposito; mas foram esplendidas, tocantes e prolongadas.
E vão assim as cousas humanas! No meio do regosijo produzido pelo officio de Simão Bacamarte, ninguem advertia na phrase final do § 4°, uma phrase cheia de experiencias futuras.
XII
O FINAL DO § 4°
Apagaram-se as luminarias, reconstituiram-se as familias, tudo parecia reposto uos antigos eixos. Reinava a ordem, a camara exercia outra vez o governo, sem nenhuma pressão externa; o proprio presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus logares. O barbeiro Porfirio, ensinado pelos acontecimentos, tendo «provado tudo,» como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma cousa, porque Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro achou preferivel a gloria obscura da navalha e da tesoura ás calamidades brilhantes do poder; foi, é certo, processado; mas a população da villa implorou a clemencia de Sua Magestade; dahi o perdão. João Pina foi absolvido, attendendo-se a que elle derrocára um rebelde. Os chronistas pensam que deste facto é que nasceu o nosso adagio:—ladrão que furta a ladrão, tem cem annos de perdão;— adagio immoral, é verdade, mas grandemente util.
Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum resentimento ficou dos actos que elle praticára; accrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que elle os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido enthusiasmo. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial manifestação, e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e jantares. Dizem as chronicas que D. Evarista a principio tivera ideia de separar-se do consorte, mas a dôr de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer resentimento de amor-proprio, e o casal veiu a ser ainda mais feliz do que antes.
Não menos intima ficou a amizade do alienista e do boticario. Este concluiu do officio de Simão Bacamarte que a prudencia e a primeira das virtudes em tempos de revolução, e apreciou muito a magnanimidade do alienista que, ao dar-lhe a liberdade, ostendeu-lhe a mão de amigo velho.
—É um grande homem, disse elle á mulher, referindo aquella circumstancia.
Não é preciso fallar do albardeiro, do Costa, do Coelho, do Martim Brito e outros, especialmente nomeados neste escripto; basta dizer que puderam exercer livremente os seus habitos anteriores. O proprio Martim Brito, recluso por um discurso em que louvára emphaticamente D. Evarista, fez agora outro em honra do insigne medico—«cujo altissimo genio, elevando as azas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espiritos da terra.»
—Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alienista, e ainda me não arrependo de o haver restituido á liberdade.
Entretanto, a camara, que respondera ao officio de Simão Bacamarte, com a resalva de que opportunamente estatuiria em relação ao final do § 4°, tratou emfim de legislar sobre elle. Foi adoptada, sem debate, uma postura autorisando o alienista a agazalhar na Casa Verde as pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilibrio das faculdades mentaes. E porque a experiencia da camara tivesse sido dolorosa, estabeleceu ella a clausula, de que a autorisação era provisoria, limitada a um anno, para o fim de ser experimentada a nova theoria psychologica, podendo a camara, antes mesmo daquelle prazo, mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem publica. O vereador Freitas propôz tambem a declaração de que em nenhum caso fossem os vereadores recolhidos ao asylo dos alienados: clausula que foi aceita, votada o incluida na postura, apezar das reclamações do vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado é que a camara, legislando sobre uma experiencia scientifica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das consequencias da lei; a excepção era odiosa e ridicula. Mal proferira estas duras palavras, romperam os vereadores em altos brados contra a audacia e insensatez do collega; este, porém, ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a excepção.
—A vereança, concluiu elle, não nos dá nenhum poder especial nem nos elimina do espirito humano.
Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restricções. Quanto á exclusão dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento se fosse compellido a recolhel-os á Casa Verde; a clausula, porém, era a melhor prova de que elles não padeciam do perfeito equilibrio das faculdades mentaes. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo acerto na objecção feita, e cuja moderação na resposta dada ás invectivas dos collegas mostravam da parte delle um cerebro bem organisado; pelo que, rogava á camara que lh'o entregasse. A camara, sentindo-se ainda aggravada pelo proceder do vereador Galvão, estimou o pedido do alienista, e votou unanimamente a entrega.
Comprehende-se que, pela theoria nova, não bastava um facto ou um dito, para recolher alguem á Casa Verde; era preciso um longo exame, um vasto inquerito do passado e do presente. O padre Lopes, por exemplo, só foi capturado trinta dias depois da postura, a mulher do boticario quarenta dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte de indignação. Crispim Soares sahiu de casa espumando de colera, e declarando ás pessoas a quem encontrava que ia arrancar as orelhas ao tyranno. Um sujeito, adversario do alienista, ouvindo na rua essa noticia, esqueceu os motivos de dissidencia, e correu á casa de Simão Bacamarte a participar-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mostrou-se grato ao procedimento do adversario, e poucos minutos lhe bastaram para conhecer a rectidão dos seus sentimentos, a boa fé, o respeito humano, a generosidade; apertou-lhe muito as mãos, e recolheu-o á Casa Verde.
—Um caso destes é raro, disse elle á mulher pasmada. Agora esperemos o nosso Crispim.
Crispim Soares entrou. A dôr vencera a raiva, o boticario não arrancou as orelhas ao alienista. Este consolou o seu privado, assegurando-lhe que não era caso perdido; talvez a mulher tivesse alguma lesão cerebral; ia examinal-a com muita attenção; mas antes disso não podia deixal-a na rua. E parecendo-lhe vantajoso reunil-os, porque a astucia e velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a belleza moral que elle descobrira na esposa, disse Simão Bacamarte:
—O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e jantará, com sua mulher, e cá passará as noites, e os domingos e dias santos.
A proposta collocou o pobre boticario na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar á Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o tirou da difficuldade, promettendo que se incumbiria de vêr a amiga e transmittir os recados de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido. Este ultimo rasgo do egoismo pusillanime pareceu sublime ao alienista.
Ao cabo de cinco mezes estavam alojadas umas dezoito pessoas; mas Simão Bacamarte não afrouxava; ia de rua em rua, de casa em casa, espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo, levava-o com a mesma alegria com que ontrora os arrebanhava ás duzias. Essa mesma desproporção confirmava a theoria nova; achára-se enfim a verdadeira pathologia cerebral. Um dia, conseguiu metter na Casa Verde o juiz de fóra; mas procedia com tanto escrupulo, que o não fez senão depois de estudar minuciosamente todos os seus actos, e interrogar os principaes da villa. Mais de uma vez esteve prestes a recolher pessoas perfeitamente desequilibradas; foi o que se deu com um advogado, em quem reconheceu um tal conjuncto de qualidades moraes e mentaes, que era perigoso deixal-o na rua. Mandou prendel-o; mas o agente, desconfiado, pediu-lhe para fazer uma experiencia; foi ter com um compadre, demandado por um testamento falso, e deu-lhe de conselho que tomasse por advogado o Salustiano; era o nome da pessoa em questão.
—Então, parece-lhe...?
—Sem duvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira, seja qual fôr, e confie-lhe a causa.
O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificado o testamento, e acabou pedindo que lhe tomasse a causa. Não se negou o advogado, estudou os papeis, arrazoou longamente, e provou a todas as luzes que o testamento era mais que verdadeiro. A innocencia do réu foi solemnemente proclamada pelo juiz, e a herança passou-lhe ás mãos. O distincto jurisconsulto deveu a esta experiencia a liberdade. Mas nada escapa a um espirito original e penetrante. Sirnão Bacamarte, que desde algum tempo notava o zelo, a sagacidade, a paciencia, a moderação daquelle agente, reconheceu a habilidade e o tino com que elle levára a cabo uma experiencia tão melindrosa e complicada, e determinou recolhel-o immediatamente á Casa Verde; deu-lhe, todavia, um dos melhores cubiculos.
Os alienados foram alojados por classes. Fez-se uma galeria de modestos, isto é, os loucos em quem predominava esta perfeição moral; outra de tolerantes, outra de veridicos, outra de simplices, outra de leaes, outra de magnanimos, outra de sagazes, outra de sinceros, etc. Naturalmente, as familias e os amigos dos reclusos bradavam contra a theoria; e alguns tentaram compellir a camara a cassar a licença. A camara, porem, não esquecera a linguagem do vereador Galvão, e se cassasse a licença, vel-o-hia na rua, e restituido ao logar; pelo que, recusou. Simão Bacamarte officiou aos vereadores, não agradecendo, mas felicitando-os por esse acto de vingança pessoal.
Desenganados da legalidade, alguns principaes da villa recorreram secretamente ao barbeiro Porfirio e afiançaram-lhe todo o apoio de gente, dinheiro e influencia na côrte, se elle se puzesse á testa de outro movimento contra a camara e o alienista. O barbeiro respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da primeira vez a transgredir as leis, mas que elle se emendára, reconhecendo o erro proprio e a pouca consistencia da opinião dos seus mesmos sequazes; que a camara entendera autorisar a nova experiencia do alienista, por um anno: cumpria, ou esperar o fim do praso, ou requerer ao vice-rei, caso a mesma camara rejeitasse o pedido. Jámais aconselharia o emprego de um recurso que elle viu falhar em suas mãos, e isso a troco de mortes e ferimentos que seriam o seu eterno remorso.
—O que é que me está dizendo? perguntou o alienista quando um agente secreto lhe contou a conversação do barbeiro com os principaes da villa.
Dous dias depois o barbeiro era recolhido á Casa Verde.—Preso por ter cão, preso por não ter cão! exclamou o infeliz.
Chegou o fim do praso, a camara autorisou um praso supplementar de seis mezes para ensaio dos meios therapeuticos. O desfecho deste episodio da chronica itaguahyense, é de tal ordem, e tão inesperado, que merecia nada menos de dez capitulos de exposição; mas contento-me com um, que será o remate da narrativa, e um dos mais bellos exemplos de convicção scientifica e abnegação humana.
XIII
PLUS ULTRA!
Era a vez da therapeutica. Simão Bacamarte, activo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligencia e penetração com que principiou a tratal-os. N'este ponto todos os chronistas estão de pleno accordo: o illustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguahy.
Com effeito, era difficil imaginar mais racional systema therapeutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um d'elles excedia ás outras, Simão Bacamarte cuidou em attacar de frente a qualidade predominante. Supponhamos um modesto. Elle applicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento opposto; e não ia logo ás dóses maximas,—graduava-as, conforme o estado, a edade, o temperamento, a posição social do enfermo. Ás vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabelleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado: em outros casos a molestia era mais rebelde; recorria então aos aneis de brilhantes, ás distincções honorificas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o fim de o apregoar como um rival de Garção e de Pindaro.
—Foi um santo remedio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remedio.
Outro doente, tambem modesto, oppoz a mesma rebeldia á medicação; mas não sendo escriptor, (mal sabia assignar o nome) não se lhe podia applicar o remedio da matraca. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para elle o lugar de secretario de Academia dos Encobertos estabelecida em Itaguahy. Os logares de presidente e secretarios eram de nomeação regia, por especial graça do finado rei D. João V, e implicavam o tratamento de Excellencia e o uso de uma placa de ouro no chapéu. O governo de Lisboa recusou o diploma; mas representando o alienista que o não pedia como premio honorifico ou distincção legitima, e sómente como um meio therapeutico para um caso difficil, o governo cedeu excepcionalmente á supplica; e ainda assim não o fez sem extraordinario esforço do ministro de marinha e ultramar, que vinha a ser primo do alienado. Foi outro santo remedio.
—Realmente, é admiravel! dizia-se nas ruas, ao ver a expressão sadia e enfunada dos dois ex-dementes.
Tal era o systema. Imagina-se o resto. Cada belleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais solida; e o effeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava outra parte, applicando á therapeutica o methodo da estrategia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não póde conseguir.
No fim de cinco mezes e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão tão cruelmente affligido de moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambiguo, e elle obteve uma boa interpretação, corrompendo os juizes, e embaçando os outros herdeiros. A sinceridade do alienista manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi a simples vis medicatrix da natureza. Não aconteceu o mesmo com o padre Lopes. Sabendo o alienista que elle ignorava perfeitamente o hebraico e o grego, incumbiu-o de fazer uma analyse critica da versão dos Setenta; o padre aceitou a incumbencia, e em boa hora o fez; ao cabo de dous mezes possuia um livro e a liberdade. Quanto á senhora do boticario, não ficou muito tempo na cellula que lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinhos.
—Porque é que o Crispim não vem visitar-me? dizia ella todos os dias.
Respondiam-lhe ora uma cousa, ora outra; afinal disseram-lhe a verdade inteira. A digna matrona, não pôde conter a indignação e a vergonha. Nas explosões da colera escaparam-lhe expressões soltas e vagas, como estas:
—Tratante!... velhaco!... ingrato!... Um patife que tem feito casas á custa de unguentos falsificados e pôdres... Ah! tratante!...
Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando não fosse verdadeira a accusação contida nestas palavras, bastavam ellas para mostrar que a excellente senhora estava emfim restituida ao perfeito desequilibrio das faculdades; e promptamente lhe deu alta.
Agora, se imaginaes que o alienista ficou radiante ao ver sair o ultimo hospede da Casa Verde, mostraes com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra! era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a theoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguahy o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preoccupado, cogitativo; alguma cousa lhe dizia que a theoria nova tinha, em si mesma, outra e novissima theoria.
—Vejamos, pensava elle; vejamos se chego enfim á ultima verdade.
Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica bibliotheca dos dominios ultramarinos de Sua Magestade. Um amplo chambre de damasco, preso á cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo magestoso e austero do illustre alienista. A cabelleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações quotidianas da sciencia. Os pés, não delgados e femininos, não graudos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a differença:—só se lhe notava luxo naquillo que era de origem scientifica; o que propriamente vinha delle trazia a côr da moderação e da singelleza, virtudes tão ajustadas á pessôa de um sabio.
Era assim que elle ia, o grande alienista, de um cabo a outro da vasta bibliotheca, mettido em si mesmo, estranho a todas as cousas que não fosse o tenebroso problema da pathologia cerebral. Subito, parou. Em pé, deante de uma janella, com o cotovello esquerdo apoiado na mão direita, aberta, e o queixo na mão esquerda, fechada, perguntou elle a si:
—Mas deveras estariam elles doudos, e foram curados por mim,— ou o que pareceu cura, não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilibrio do cerebro?
E cavando por ahi abaixo, eis o resultado a que chegou: os cerebros bem organisados que elle acabava de curar, eram tão desequilibrados como os outros. Sim, dizia elle comsigo, eu não posso ter a pretenção de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova;uma e outra cousa existiam no estado latente, mas existiam.
Chegado a esta conclusão, o illustre alienista teve duas sensações contrarias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por vêr que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, lucta ingente com o povo, podia affirmar esta verdade:— não havia loucos em Itaguahy; Itaguahy não possuia um só mentecapto. Mas tão depressa esta idéa lhe refrescara a alma, outra appareceu que neutralisou o primeiro effeito; foi a idéa da duvida. Pois que! Itaguahy não possuiria um unico cerebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo erronea, e não vinha, portanto, destruir o largo e magestoso edificio da nova doutrina psychologica?
A afflicção do egregio Simão Bacamarte é definida pelos chronistas itaguahyenses como uma das mais medonhas tempestades moraes que tem desabado sobre o homem. Mas as tempestades só atterram os fracos; os fortes enrijam-se contra ellas e fitam o trovão. Vinte minutos depois allumiou-se a physionomia do alienista de uma suave claridade.
—Sim, ha de ser isso, pensou elle.
Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os caracteristicos do perfeito equilibrio mental e moral; pareceu-lhe que possuia a sagacidade, a paciencia, a perseverança, a tolerancia, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades emfim que pódem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era illusão; mas sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi affirmativa.
—Nenhum defeito?
—Nenhum, disse em côro a assembléa.
—Nenhum vicio?
—Nada.
—Tudo perfeito?
—Tudo.
—Não, impossivel, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim essa superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificencia. A sympathia é que vos faz fallar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade.
A assembléa insistiu; o alienista resistiu; finalmente o padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador.
—Sabe a razão porque não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras:—a modestia.
Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça, juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Acto continuo, recolheu-se á Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem suggestões nem lagrimas o detiveram um só instante. A questão é scientifica, dizia elle; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reuno em mim mesmo a theoria e a pratica.