Persuasão
Apresentação, Ricardo Lísias
APRESENTAÇÃO
O resum o biográfico de Jane Austen (1775-1817) serve com o introdução a qualquer um de seus rom ances. Nascida e crescida entre fazendeiros bem -sucedidos no interior da Inglaterra, viveu em m eio ao am biente rural, às pequenas cidades agrícolas e ao convívio das fam ílias que com punham a classe alta desses cenários. Austen teve sete irm ãos: seis hom ens e um a m ulher, Cassandra. As duas foram m uito ligadas durante toda a vida. Quando estavam j untas, dividiam o gosto pela boa leitura, a devoção à fam ília e a fé cristã. Separadas, trocavam cartas descrevendo seu dia a dia, suas ansiedades e frustrações, além de discutirem os textos de Austen.
Filha de um a autoridade da Igrej a Anglicana, a escritora com certeza participou do m esm o am biente de reuniões sociais, chás, recitais de piano, conversas ao pé do ouvido e hipocrisias de salão que enchem seus textos de graça, algum a am biguidade afetiva e curiosidade. Na intim idade fam iliar, George Austen e sua esposa Cassandra sem pre se preocuparam em oferecer um a boa educação para os filhos. Assim , com os lim ites que um a crença religiosa profunda m as liberal perm itia, os irm ãos tiveram em casa um a boa biblioteca e um am biente propício ao debate. Além disso, sem discrim inar as m ulheres, todo tipo de criatividade era estim ulada. Austen desde cedo recebeu apoio para escrever e alguns biógrafos destacam as encenações dom ésticas de seus dram as j uvenis com o um bom im pulso à carreira literária da m oça.
A união conj ugal, porém , obj etivo principal de suas personagens e fio de todas as tram as, não aparece na biografia de Jane Austen que, com o sua irm ã Cassandra, m orreu solteira. Mas sua vida não foi inteiram ente despida de episódios afetivos. Em 1795, aos vinte anos, Austen passa a conviver com m uita proxim idade e por bastante tem po com um j ovem m ais ou m enos de sua idade. As fam ílias notam e resolvem desestim ular a ligação, sobretudo porque o tal rapaz ainda não tinha condições de m anter um relacionam ento m ais sério. Os dois são separados e nunca m ais se veem . É provável que o episódio tenha m arcado Austen, e talvez tenha contribuído para a verdadeira obsessão que seus textos têm pelo casam ento.
A chance de subir ao altar se apresentaria novam ente em sua vida sete anos depois, quando ela recebeu um a nova proposta, agora de um pretendente com boas condições financeiras. Em um prim eiro m om ento, a j ovem aceitou, voltando atrás no dia seguinte, porém . A explicação dela foi clara e de novo ia ao encontro de seus livros: ela aceitara o casam ento por conveniência m as, pensando m elhor, notou que não tinha nenhum afeto pelo pretendente. Um a união violentaria os dois, portanto. É im possível deixar de notar que, para a época, tal decisão era bastante ousada.
É provável que o am biente fam iliar acolhedor e a extrem a dedicação aos próprios livros tenham tam bém colaborado para a resistência da escritora em investir em um a relação am orosa. De qualquer form a, o proj eto m atrim onial, além desses dois episódios, ficaria restrito às suas obras.
Quando seu pai m orreu, em 1805, os Austen viveram um breve m om ento de crise. Logo os irm ãos reorganizaram a vida fam iliar, no entanto, inclusive saindo de Bath, cidade que m arcou Jane Austen e onde ela am bientou Persuasão. Ela pôde então continuar o intenso trabalho literário que dom inava sua vida. Um prim eiro rascunho de Orgulho e preconceito, hoj e perdido, foi recusado por um editor. Um de seus irm ãos, Henry, resolveu fazer o papel de agente literário da irm ã e obteve um contrato para outro texto, que, entretanto, j am ais seria publicado. Henry não desistiu e, depois de bastante trabalho, conseguiu um editor para Razão e sensibilidade. O livro saiu em 1811, anonim am ente, e recebeu im ediata acolhida de público e crítica. Henry nunca m ais teria dificuldade para publicar os textos da irm ã.
Dois anos depois, a publicação de Orgulho e preconceito am pliou ainda m ais o sucesso da m isteriosa autora. As críticas, m ais um a vez, foram bastante entusiasm adas, e em alguns m eses a edição se esgotou e outra foi posta no m ercado. Em 1814, saiu Mansfield Park. O livro não repetiu o sucesso dos anteriores, m as não foi nenhum fracasso. A essa altura, a fam a daqueles textos graciosos e um tanto cínicos j á estava bem difundida. Jane Austen podia, então, considerar-se um a escritora consolidada. Emma foi publicado em 1815, m esm o ano em que a autora com eçou a escrever Persuasão. Ao term inar, entregou um a prim eira versão ao editor, a qual, entretanto, preferiu rever logo depois, dando origem à versão definitiva e consagrada que utilizam os aqui.
Em 1816, um a estranha doença consum iu suas forças. Algum as cartas dão notícia de que seu ritm o de trabalho dim inuía em bora toda fam ília tenha corrido em socorro da irm ã escritora. Nenhum tratam ento surtiu efeito e ela, aos poucos, definhou até m orrer, em j ulho de 1817, desse m al até hoj e não identificado. Os funerais ocorreram na Catedral de Winchester, onde o corpo está enterrado.
Com a m orte da irm ã, Henry não abandonou seu trabalho de agente e continuou negociando e divulgando seus livros. Sendo assim , Persuasão acabou publicado postum am ente, em 1818. Desde então, o sucesso de público e crítica de Jane Austen é constante, vencendo tendências de época, renovações estéticas e todo tipo de m odism o literário.
Assim com o o cenário e as personagens, o estilo de Jane Austen não varia entre seus rom ances. Os textos são lím pidos, redigidos de form a clara e sem sobressaltos. Às vezes, as descrições am eaçam exceder-se, m as o dom ínio técnico da autora, incom um e vistoso, interrom pe-as antes do exagero. Norm alm ente ela faz isso utilizando o diálogo.
Com o exím ia estilista, Jane Austen conhecia a m edida das coisas. A propósito, colocando-a com o o “clím ax” do rom ance do século XVIII, o crítico Ian Watt conclui o célebre estudo A ascensão do romance com Jane Austen, ressaltando a precisão de seus textos:
Austen conseguiu conj ugar num a unidade harm oniosa as vantagens do realism o de apresentação e as do realism o de avaliação, das abordagens interior e exterior das personagens; seus rom ances têm autenticidade sem dispersão nem artifícios, sensatos com entários sociais sem necessidade de um ensaísta loquaz e um a percepção da ordem social que não é conquistada
às custas da individualidade e da autonom ia das personagens.1
Persuasão com eça j ustam ente com a apresentação de um a das protagonistas do rom ance, Anne Elliot, vista a partir de seu lugar social, segundo sobretudo as lentes do pai:
… m as Anne, cuj o caráter elegante e trato gentil teriam lhe garantido um lugar de destaque em qualquer grupo dotado de real discernim ento, não era ninguém nem aos olhos do pai, nem aos da irm ã; sua palavra nada valia, seu papel era ceder sem pre – era ela apenas Anne.
… Alguns anos antes, Anne Elliot fora um a m oça de aparência m uito bonita, m as seu viço havia fenecido cedo; e com o, m esm o no auge desse viço, o pai pouco encontrara para adm irar na filha (cuj os traços delicados e suaves olhos escuros eram radicalm ente diferentes dos seus), não podia haver nada em seu aspecto físico, agora que ela estava m urcha e m agra, capaz de despertar sua estim a.
Apesar da clareza da apresentação, o leitor percebe algum estranham ento na descrição um pouco cruel dem ais da m oça. Quem dá a pista é o narrador, ao qualificar o pai (e, por extensão, o resto do grupo social de Anne) com o dotado de “pouco discernim ento”. Há, portanto, um pequeno abalo na lim pidez narrativa desde o início.
Ainda nas prim eiras páginas a problem ática do casam ento aparece, curiosam ente colocada em negativo: para Anne, que j á teria passado da idade, ele seria um a conquista difícil.
Transparece em seguida um a crise financeira que estaria incom odando os Elliot, a fam ília central da tram a. O problem a, aliás, é apresentado quase ao m esm o tem po que os atrativos das filhas. O m atrim ônio, com o poder de unir as fam ílias e refazer laços, reforçando-os na m aior parte das vezes, nos livros de Jane Austen está diretam ente ligado à questão social. Aliás, Ian Watt, na condição de leitor privilegiado, percebe tam bém com o a escritora vai sem rodeios ao ponto: “Jane Austen encara m ais diretam ente que Defoe, por exem plo, os problem as sociais e m orais levantados pelo individualism o econôm ico e os
esforços da classe m édia para m elhorar de condição … .”2
Dessa form a, um a das prim eiras sensações que Austen causa no leitor é o choque entre a lim pidez estilística e a tensão que a narrativa, sem pre alim entada por questões delicadas com o casam ento e lugar social, vai aos poucos construindo. Não estam os diante de um livro de suspense, m as logo intuím os que há m uito m ais por baixo da aparente placidez desses parágrafos, construídos com graça e equilíbrio.
Persuasão é todo constituído por cenas ou, para fugir um pouco do vocabulário do cinem a, blocos narrativos. É possível dividir o livro em várias partes m uito bem dem arcadas. Prim eiro, tem os a apresentação da fam ília, pela ótica do pai, com o vim os, encadeada à crise financeira que viviam . O im óvel (ou sej a, o cenário) em que m uito da história de vida dos Elliot se dera terá que ser deixado para trás.
Outro bloco narrativo se abre com o anúncio do retorno de um certo capitão Wentworth, que acrescenta um com plicador à tram a: a crise financeira faz-se acom panhar por outra, agora em ocional. Vem os então um a sequência de acontecim entos em que o capitão e seu desej o de se casar para superar um antigo traum a form am o centro da narrativa.
Se havia choque entre o estilo equilibrado e a m atéria tensa, é possível agora identificar outro ponto de fricção. Cada um desses blocos com plica os anteriores, acrescentando novos elem entos de conflito. O exem plo inicial, para não adiantar o resto do rom ance, é m odelar: não é apenas um a propriedade que será deixada – o que j á seria m uito doloroso –, m as ela será ocupada por um a pessoa que teve um a participação ativa e traum ática na vida da fam ília que ali vivia.
Um a im agem adequada aqui é a das placas tectônicas. É com o se o leitor percebesse que as personagens estão sobre um terreno que am eaça trem er a qualquer m om ento. Tal artifício causa curiosidade pelo bloco seguinte ao m esm o tem po em que se percebe a possibilidade de terrem oto. Ou, se não um terrem oto, ao m enos um trem or forte, sem pre sutilm ente anunciado. Tudo nos rom ances de Austen, com o esses blocos, está em constante m ovim ento, ou am eaça m exer-se.
Com o se sabe, um a das grandes qualidades da arte de prim eira grandeza é trazer para a form a os conflitos que a narrativa aborda. A estrutura e o estilo dos rom ances de Jane Austen fazem j ustam ente isso. As relações fam iliares e sociais são o prim eiro plano de todos os seus rom ances, enquanto o m om ento histórico turbulento que ela vivia com põe o plano de fundo. No prefácio a Orgulho e preconceito, a crítica Vivien Jones reconhece com clareza essa questão:
Seus rom ances são … preocupados com questões de respeitabilidade e responsabilidade; descrevem a constituição em rápida transform ação da Inglaterra rural no m om ento em que as propriedades vinham sendo com pradas, alugadas ou fundadas por aqueles que haviam feito dinheiro no com ércio (com o a fam ília Bingley ) e quando, ao m esm o tem po, um a nova classe m édia profissional à qual os Gardiner pertenciam ganhava
3
ascendência cultural.
Dessa form a, m esm o que a política não apareça com clareza nos textos, não é possível dizer que Austen deixa de lado a com plexidade de sua época. A intem périe política, ainda que apenas com o eco, tam bém está na areia m ovediça do terreno onde os blocos se estabelecem .
Vivien Jones é precisa, tam bém , ao apontar a questão central de toda a obra de Jane Austen: “Ela escreve, portanto, sobre m ulheres e sobre classe: sobre form as de identidade e sobre o casam ento com o instituição política que reproduz – sim bólica e literalm ente – a ordem social.” De fato, os j ogos sociais, com seus lances am bíguos e m ovim entos cheios de intenções ocultas, tam bém reforçam a im pressão de trem or que o leitor sente. Ainda assim , é preciso ficar claro que, m esm o sendo a questão afetiva loquazm ente delicada, e ressaltando que Austen privilegia sobretudo o am biente de salão (e a hipocrisia que esse tipo de representação exige), nada é dito diretam ente. O início do capítulo 2 de Persuasão exem plifica bem esse detalhe:
Fossem quais fossem sua influência e opinião acerca de Sir Walter, o sr. Shepherd, advogado cortês e cauteloso, preferia que a sugestão desagradável fosse feita por outra pessoa, preferia se abster de qualquer pronunciam ento e apenas pediu licença para recom endar um a referência im plícita ao excelente j uízo de Lady Russell, em cuj o notório bom -senso tinha plena confiança para o aconselham ento j ustam ente das m edidas resolutas que pretendia adotar em últim a instância.
Aliás, para form ar o caráter das personagens, Austen utiliza, entre algum as outras saídas, a m aneira com o as pessoas reagem à dissim ulação:
Lady Russell dem onstrou um zelo aflito em relação ao assunto, que considerou com grande seriedade. Era um a m ulher de qualidades sólidas m ais do que rápidas, e teve grande dificuldade para tom ar um a decisão nessa questão devido à oposição de dois princípios im portantes. Ela própria possuía um a firm e integridade e um a delicada noção de honra, m as tinha
tanto desej o de poupar os sentim entos de Sir Walter, tanta preocupação com a reputação da fam ília e tanta nobreza na avaliação do que lhes era devido quanto poderia ter qualquer pessoa dotada de bom -senso e honestidade.
Com o o am biente íntim o é o de preferência da autora, questões de ordem m ais coletiva parecem afastar-se do texto. Se os m ovim entos históricos são o plano de fundo, eles nunca am eaçam se sobrepor ao j ogo social das personagens. A conclusão é que talvez não sej am fundam entais para a autora. Em um prim eiro m om ento, esse detalhe pode passar a im pressão de conservadorism o. Aliás, é o que acontece, conform e Jones nota m uito bem :
A m aioria dos com entaristas concorda, contudo, que os rom ances de Austen defendem um a posição essencialm ente conservadora. O foco em um setor da classe dom inante rural propugna antes a consolidação e a renovação da
4
ordem social estabelecida do que propriam ente a revolução.
É verdade que um m ovim ento revolucionário, ao m enos de m olde tradicional, não está no horizonte de Austen. Do m esm o j eito, tudo parece se dirigir para o casam ento, que restauraria o am biente calm o da vida rural. Acom panhando algum as leituras contem porâneas, porém , é possível encontrar um a tensão política nos textos da escritora que, sem cavalaria nem rifle, talvez possa j ustificar um a pequena revolução.
Ao trazer o elem ento afetivo para um a instituição social tão cristalizada com o o casam ento de conveniências, ela abala as estruturas fixas da ordem social. Ora, isso é o contrário do conservadorism o. Além do m ais, se a conveniência financeira não é o centro do arranj o m atrim onial, tam bém fica desafiado o poder do dinheiro, j ustam ente em um a das nações centrais para o capitalism o. Por fim , o hom em deixa de ter o papel preponderante no casam ento, tendo que prestar contas não apenas financeiras, m as tam bém em ocionais, à sua pretendente. Ou sej a: há m uitos blocos de rocha sendo abalados nas páginas aparentem ente calm as de Austen.
O lugar da m ulher torna-se m ais relevante, o que j ustifica certa leitura fem inista contem porânea. Para além dos rótulos, por fim , aqui está um a prova da força dos textos de Jane Austen: parece que os planos de leitura vão sem pre surgindo, um depois do outro.
Todo am biente de salão privilegia a im agem . As pessoas trocam olhares, fazem gestos e desem penham papéis m uito definidos para serem vistas. Com o as relações sociais, sobretudo o casam ento, estão no centro das tram as de Jane Austen, as personagens precisam m ostrar-se ainda m ais.
Além disso, o baile dos olhares exige um cenário. É preciso que haj a um a casa, um a sala de j antar, as carruagens e os j ardins que abrigam as pessoas a serem vistas. Em Persuasão, o im óvel dos Elliott é parte da tram a: a casa parece ser o invólucro em que os afetos, fraturados e em luta por algum a recom posição, nascem e se cultivam . Os obj etos, descritos com clareza, term inam de form ar o am biente em que todos vão aparecer. Ninguém casa se não sair à rua. Quem sai à rua se expõe.
Os textos de Austen, dessa form a, resultam bastante plásticos. Com o o olhar desem penha um papel fundam ental, tudo é m uito im agético. O exem plo a seguir é apenas um entre os tantos que podem ser achados em Persuasão:
Uppercross era um vilarej o de tam anho m édio que, alguns anos antes, ainda era inteiram ente construído no estilo inglês antigo, contendo apenas duas casas cuj a aparência superava as dos pequenos proprietários rurais e cam poneses: a m ansão do distinto cavalheiro da cidade, com seus m uros altos, portões im ponentes e árvores ancestrais, construção sólida e desprovida de confortos m odernos, e a pequena residência paroquial cercada por seu próprio j ardim bem -arrum ado, com um a videira e um a pereira podadas em volta das j anelas. Na ocasião do casam ento do filho do distinto cavalheiro, porém , o vilarej o havia sido agraciado com um a casa alçada à condição de chalé para a sua residência, e assim Uppercross Cottage, com sua varanda, as j anelas altas e outros m im os, tinha tanta probabilidade de atrair a atenção de algum viaj ante quanto o aspecto e o terreno m ais sólidos e consideráveis da Casa Grande, que ficava pouco m enos de m eio quilôm etro adiante.
A insistência na im agem é sem dúvida nenhum a um a das m ais fortes razões do interesse do cinem a pelos livros de Jane Austen. Com o a narrativa, outro pilar da sétim a arte, tam bém ocupa neles um papel privilegiado, tal interesse torna-se ainda m aior.
Mas ninguém deve achar que a autora escreveu um a espécie de conj unto de roteiros avant la lettre. A im agem não é o centro de Persuasão. A m atéria cinem atográfica aqui fica evidente na exposição absoluta do corpo, dos obj etos, dos im óveis e da paisagem urbana com o parte da narrativa. Se as personagens não forem vistas, não se constituirão com o seres sociais. Mas a im agem exposta funciona com o um indício do que está por trás dos olhos, com o no cinem a.
São inúm eros os film es realizados a partir da obra de Jane Austen Em 1940, Laurence Olivier estrelou um a m ontagem de Orgulho e preconceito, aliás refilm ado em 2005, rendendo à atriz Keira Knightley um a indicação ao Oscar. O cinem a indiano trouxe o livro para o m undo contem porâneo no invulgar Bride & Prejudice (Noiva e preconceito, de 2004). Um a m ontagem de 1995 de Razão e sensibilidade levou às telas Em m a Thom pson e Kate Winslet. No ano seguinte, Gwy neth Paltrow estrelaria um a versão de Emma. Persuasão ganhou versões para a televisão em 1995 e 2007.
Já que estam os tratando de im agens, vale ressaltar que um a questão im portante de Persuasão é o olhar. Com o capitão Wentworth atrás de um a esposa, é im perativo que os olhos das personagens se cruzem . Pessoas expostas estão diante dos olhos dos outros. Nesse sentido, é possível aproxim ar Austen de autores com o Machado de Assis e Marcel Proust.
Os três escritores tem atizam as relações sociais de certa classe privilegiada e trabalham com am bientes de salão. Com o brasileiro, Austen divide o olhar interessado das personagens, que propicia m uitas vezes a oportunidade de
5
contrair novos laços sociais. Para a escritora inglesa, os olhos revelam intenções:
As palavras e a atitude de Sir Walter denotavam tam anha ansiedade que Anne não ficou surpresa em ver a sra. Clay olhar de relance para Elizabeth e para ela própria. Sua atitude talvez expressasse algum a cautela; m as o elogio feito a um a m ente refinada não pareceu causar em sua irm ã qualquer estranham ento. A dam a não pôde fazer outra coisa senão ceder a tal pedido conj unto e prom eter ficar.
Machado de Assis, frequentem ente, envolve os olhares em interesses e em suas tradicionais dissim ulações, com o nesse trecho de Quincas Borba:
Palha e Cam acho olharam um para o outro… Oh! esse olhar foi com o um bilhete de visita trocado entre as duas consciências. Nenhum a disse o seu
segredo, m as viram os nom es no cartão, e cum prim entaram -se. 6
Marcel Proust coloca m ais urgência no olhar. Suas personagens, sobretudo o narrador, parecem m uitas vezes ter um a necessidade absoluta de ver e assim descobrir algo m uito revelador ou confirm ar algum sentim ento m ais forte. Há um a urgência pela descoberta em m uitos trechos de Em busca do tempo perdido.
Todo o tem po em que m e achava longe de Gilberte, tinha necessidade de a ver, porque, procurando incessantem ente representar-m e a sua im agem , acabava por não m ais consegui-lo e por não m ais saber exatam ente a que correspondia o m eu am or. E depois ela nunca havia dito que m e am ava. … O m ais urgente era que Gilberte e eu nos víssem os e pudéssem os fazer a confissão recíproca de nosso am or, que até esse m om ento não teria por assim dizer com eçado. As diversas razões que m e tornavam tão im paciente
de a ver seriam m enos im periosas, sem dúvida, para um hom em m aduro. 7
Se a presença do olhar os une, a finalidade e a intensidade das observações no m eio do baile diferem . Austen parece construir um olhar sincero, ainda que cheio de intenções ocultas. Machado carrega de interesse e cinism o os olhos do narrador e das personagens. Proust adota a revelação. De um j eito ou de outro, os três estão criando personagens cuj os olhares definem as relações. Trata-se, cada um a seu m odo, de um am biente de aparências.
O verbo “aparecer”, fundam ental aqui, tem vários significados para Jane Austen. Com o j á vim os, sendo o casam ento o centro da narrativa, as personagens precisam aparecer para que as relações sociais se estabeleçam . A escolha será feita através da observação. Mas as aparências vão m uito além do m ero j ogo social. Sem dúvida, todos estão tentando construir um a im agem que lhes garanta posições confortáveis nas rodas burguesas de que alm ej am participar, m as podem os procurar outro sentido para o verbo “aparecer”. Em Jane Austen, as situações surgem conform e as personagens fazem revelações e, assim com o elas próprias, tentam encaixar-se nos espaços sociais. É com o se houvesse um encadeam ento de circunstâncias que vão surgindo conform e a situação anterior se resolve. Há sem dúvida algo de j ogo, em bora não fique claro quem sej am os oponentes. Se a m etáfora lúdica não é a m elhor, pode-se pensar em passos de dança – até porque estam os no am biente dos salões.
A cada m ovim ento, as personagens assum em novas posições, conduzidas por suas próprias ações, pelas atitudes das outras personagens e sobretudo pela com binação que esse balé de circunstâncias vai form ando. É um a espécie de sucessão de acontecim entos a cam inho da valsa nupcial. Nem tudo está claro, e às vezes há a am eaça de desequilíbrio. Ainda assim , a dança vai, com o os atos de um a peça, desenrolando-se diante dos nossos olhos.
Um tem a secundário, m as ainda assim bastante im portante, em Persuasão é o retorno. A literatura sem pre teve com o um de seus eixos as histórias de pessoas que, hum ilhadas ou lesadas no passado, voltam algum , ou m uito, tem po depois, em um a situação diferente, e procuram acertar contas antigas.
Exem plo notável é o clássico de Alexandre Dum as, O conde de Monte Cristo. Preso sem ter tido culpa, o hom em am arga um enorm e sofrim ento no cárcere, m as enriquece e resolve ir atrás de seus algozes. Tam bém na peça A visita da velha senhora, de Friedrich Dürrenm att, a protagonista, após ser praticam ente escorraçada da cidade e viver quase na m iséria, volta tendo ganhado m uito dinheiro a fim de encarar os que a hum ilharam . Em am bos os casos, a vingança funciona tanto com o acerto de contas quanto com o um a espécie de reconstituição em ocional da autoestim a.
Persuasão com partilha com esses dois clássicos um traço biográfico da personagem que retorna: o enriquecim ento. Ao ressurgir, o capitão Wentworth está m ais velho e rico. A diferença, porém , são suas intenções: m esm o hum ilhado quando j ovem , ele não pretende se vingar. Ao contrário, sua ideia é conseguir se casar, reparando da m elhor m aneira possível a fratura do passado.
De qualquer m odo, a chegada do capitão ao im óvel não é apenas um a m udança na posse do terreno. Na verdade, ela despertará antigos afetos. E sua fortuna não é apenas a dem onstração de um a ascensão de classe, m as determ ina tam bém um a volta por cim a e a possibilidade de reparação.
Com o se vê, são m uitos os planos de leitura. Edward Said, em outro m om ento, aponta o alcance da literatura da grande escritora inglesa: “Mas a interpretação de Jane Austen depende de quem interpreta, quando interpreta e, não m enos
im portante, 8 de onde interpreta.” Talvez sej a possível identificar aqui um a ferram enta que resum a parte do “segredo” da autora: a extensão. Enquanto lem os Persuasão, estam os sem pre diante de algo que vai m ais além .
O procedim ento, com o em toda grande arte, não fica restrito à história, m as “estende-se” à form a. Ao encadear blocos narrativos com plem entares, o sentido vai sem pre sendo retrabalhado e se am plifica. Do m esm o j eito, a am eaça de tensão que contam ina a placidez estilística torna m ais elástico o significado do texto, j á que faz o leitor perceber que precisa “continuar” um pouco m ais em suas interpretações. Por fim , com o a tensão vem em um crescente, de novo a leitura precisa “estender-se” até o leitor perceber por que está ansioso por um incidente, apesar de ter diante dos olhos um texto plácido e lím pido.
Um exem plo está no início da narrativa. Sabem os que, por volta de sete anos antes, um a das protagonistas precisou pôr fim a um grande am or por im pedim entos financeiros. Obedecendo à recom endação da fam ília, ela rechaçou o pretendente sem sucesso na vida. Ao fazê-lo, fechou-se para os relacionam entos, recusando inclusive um a proposta de casam ento. A descrição desses fatos é leve, em bora acom panhada de certa reflexão existencial, e ainda revela a intim idade das personagens:
Com seu refinam ento de espírito e seu gosto exigente, nenhum outro relacionam ento, único rem édio inteiram ente natural, feliz e suficiente nessa fase da vida, havia sido possível dentro dos estreitos lim ites da sociedade que os rodeava. Por volta dos vinte e dois anos, ela havia recebido um a proposta para m udar de nom e do m esm o rapaz que, pouco depois, encontrou em sua irm ã caçula um a disposição m ais favorável; e Lady Russell havia lam entado sua recusa, pois Charles Musgrove era o prim ogênito de um hom em cuj as terras e influência só perdiam na região para as do próprio Sir Walter, além de ter boa índole e boa aparência. E ainda que Lady Russell pudesse ter pedido m ais quando Anne tinha dezenove anos, teria se
regozij ado em vê-la, aos vinte e dois, afastada de form a tão respeitável das desigualdades e inj ustiças da casa paterna e instalada de form a tão perm anente perto de sua própria residência.
Há porém algo de incôm odo no trecho, talvez ligado ao anúncio da solidão de Anne, um a situação grave para a época. Um a página adiante, tem os a tensão am pliada:
Com o Anne Elliot poderia ter sido eloquente! Com o eram eloquentes, pelo m enos, a sua defesa de um relacionam ento precoce e afetuoso e a sua j ovial confiança no futuro, em contraste com a cautela excessivam ente aflita que parece desm erecer a energia e desacreditar a Providência! Forçada a ser prudente quando j ovem , ela havia aprendido a ser rom ântica ao envelhecer: a sucessão natural de um início nada natural.
Com todas essas circunstâncias, lem branças e sentim entos, ela não podia
ouvir a notícia de que a irm ã do capitão Wentworth provavelm ente iria se m udar para Kelly nch sem que a antiga dor voltasse à tona; e foram necessários m uitos passeios e m uitos suspiros para neutralizar a agitação que essa notícia provocou.
Ao dizer sem pre m ais, Austen deixa o leitor inteiram ente envolvido com o texto. É com o se nunca o estivéssem os esgotando. Não resta dúvida, assim , de que Persuasão foi escrito por um a escritora com inúm eros recursos.
A edição que o leitor tem em m ãos vai além do últim o rom ance da autora e publica duas novelas inéditas no Brasil. Am bas retom am os tem as caros à escritora, m as cada um a a seu m odo.
“Lady Susan” é com posto por um conj unto de cartas cuj a finalidade é narrar um a aproxim ação am orosa e os percalços e rum ores que a cercam . A estrutura epistolar reforça o procedim ento da extensão: a tram a, que antes seria m atéria transm itida por um narrador, o único a fazer a m ediação com o leitor, agora terá um a segunda cam ada. O autor de cada um a das cartas precisará não apenas transm itir a narrativa ao leitor, com o deve fazê-lo através do diálogo com o destinatário. Apareceu um novo plano.
O enredo se assem elha, em algum a m edida, ao de Persuasão: m em bros de um a fam ília teriam evitado um casam ento presum ivelm ente desastroso e, desde então, m ágoas e ressentim entos decorrentes desse tipo de rom pim entos com eçaram a se m anifestar.
Vale a pena perceber que Jane Austen, m uitas vezes, prefere partir de um a dor para, com o se fosse um tratam ento curativo, chegar à cicatrização, corrigindo os desvios que causaram o ferim ento. Para isso, expõe m esquinharias, interesses financeiros e m anipulações de todo tipo. Aqui, de novo, pode-se usar o verbo “aparecer” com o chave interpretativa: os cam inhos para a cura vão se abrindo, aparecendo, conform e os m otivos da fratura são tratados e vencidos. Há obstáculos a serem superados, portanto, na ética dos textos de Austen.
Com o não poderia ser diferente para um a grande escritora, o tom das cartas varia, do agressivo ao levem ente dissim ulado, ficando a m aior parte no nível da guerra de versões, isto é, a boataria. Aos poucos, o leitor percebe que há rum ores sendo rebatidos, boatos m aldosam ente lançados, aqui e ali respondidos ou j ustificados com algum a dor. Ou m esm o ofensas, nos trechos m ais fortes, que por isso m esm o acabam surpreendendo, pois não são frequentes na prosa elegante de Jane Austen:
Minha cara Alicia,
Quanta bondade sua se interessar por Frederica, e fico grata por isso com o prova de sua am izade; no entanto, com o não tenho dúvidas quanto ao caráter caloroso dessa am izade, não m e atrevo a exigir tão pesado sacrifício. Ela é um a m enina estúpida, sem qualquer qualidade.
As cartas parecem falar dem ais, o que inspira no leitor a repulsa e a atração da fofoca. Mas para que ele consiga organizar os dados, precisa ouvir o burburinho de diversas vozes em ação e colar as inform ações que lhe parecerem m ais úteis. Com o fazem os na vida social…
A segunda novela, “Jack e Alice”, m ais curta e m enos am biciosa, é um a espécie de apresentação de personalidades. O prim eiro parágrafo j á situa o leitor na felicidade íntim a de um hom em e, a seguir, em com o ele se relaciona com o m undo. O texto gira em torno de um a com em oração e, sobretudo, dos bastidores do evento. Trata-se de um a festa à fantasia, que dará ensej o a rum ores, suspeitas e, sobretudo, ocultam entos.
Já foi dem onstrado, com relação à Persuasão, com o Austen trabalha com a exposição de personagens e situações. “Aparecer”, para ela, é um verbo com m últiplos significados, todos fundam entais. No caso de “Jack e Alice”, porém , tem os o negativo dessa situação. As personagens estão ocultas e precisam ser descobertas. O estilo continua lím pido, m as é um tanto m ais sardônico e irreverente que o rom ance. Alguns diálogos são francam ente m aldosos:
– Bem , com o eu disse antes, fui convidada por essa dam a a passar algum as sem anas na cidade em sua com panhia. Muitos cavalheiros a consideravam bonita, m as, na m inha opinião, sua testa era excessivam ente alta, seus olhos excessivam ente pequenos e sua tez por dem ais corada.
– Nisso, m inha senhora, com o eu j á disse, Sua Senhoria deve estar enganada. A sra. Watkins não podia ter a tez por dem ais corada, porque ninguém pode ter a tez corada dem ais.
– Queira m e desculpar, m eu am or, m as não concordo com você nesse detalhe. Perm ita-m e explicar com clareza. O que penso em relação a isso é o seguinte: quando um a m ulher tem um a proporção excessiva de verm elho nas faces, ela tem um colorido excessivo.
– Mas, m inha senhora, eu nego que sej a possível alguém ter um a proporção excessiva de verm elho nas faces.
Conform e a novela avança, o leitor m ergulha nas várias cam adas que as fantasias, as da festa e as da cabeça das personagens, escondem . A tensão, nesse caso, vem da ansiedade pela revelação, enquanto o nervosism o cresce graças à possibilidade de engano. Afinal, m áscaras podem esconder surpresas bastante desagradáveis.
Ainda assim , elas provocam , aguçam os olhares. Em um salão de pessoas disfarçadas, os olhos estão todos m uito abertos e a atenção para que não haj a enganos é redobrada. Com isso, a leitura acaba acom panhada de um pouco de angústia, natural para um gênero m ais condensado. O leitor, colocado diante da dúvida de quem é quem e, tam bém , de com o é de fato a personalidade dessa ou daquela figura, acaba vendo-se dentro do salão. Nessa altura do livro, talvez Jane Austen j á sej a quase sua íntim a, tal é a habilidade com que ela nos aproxim a das personagens.
Transm utar em form a literária a m atéria narrada é um a das m ais com plexas operações estéticas. Os autores que conseguem realizá-la entram de im ediato para um grupo pequeno, o dos que atingiram a plenitude. Daí em diante, e m uito provavelm ente para sem pre, o texto será lido, relido e interpretado infinitas vezes. Ele vai para o cinem a, será discutido, transform ado num a história em quadrinhos, passará de geração em geração. É esse o lugar de Jane Austen. Apenas um a leitura apressada e preconceituosa deixaria de ver que o problem a do casam ento é apenas o plano superficial em seus textos. A partir dele, Austen discute um a classe social inteira, revela vícios, traz à tona preconceitos e critica de perto a rigidez das ideologias, em um m om ento histórico no qual era m ais usual criticá-las de longe e superficialm ente.
O procedim ento de sem pre oferecer algo a m ais ao leitor, por sua vez, im põe um a form a de ler. Estendendo-se de um a questão a outra, de cena a cena, cruzando olhares e insinuações de form a contínua, Austen exige um a leitura cuidadosa e atenta. Ao m esm o tem po, m ostra que o “enredo” não é apenas, no caso da grande literatura, o m ero “contar um a história”. Para ela, as im plicações de um olhar term inavam na análise do preconceito social da classe burguesa rural da Inglaterra do século XVIII. Além de um a grande obra de arte, o leitor tem – nos contos aqui publicados pela prim eira vez em português e sobretudo em Persuasão, um rom ance de sua m aturidade criativa – toda um a ética de leitura e, por consequência, de visão de m undo.
RICARDO LÍSIAS
1. Cf. Ian Watt, A ascensão do romance, São Paulo, Com panhia das Letras, 2010, p.318.
2. Idem .
3. Vivien Jones, prefácio a Orgulho e preconceito, São Paulo, Com panhia das Letras, 2011, p.34.
4. Ibid, p.17.
5. A observação foi inspirada, m esm o que com outro olhar, por Alfredo Bosi, Machado de Assis: O enigma do olhar, São Paulo, Ática, 1999.
6. Machado de Assis, Quincas Borba, Belo Horizonte, Garnier, 1998, p.97.
7. Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, São Paulo, Globo, 2006, p.477.
8. Edward W. Said, Cultura e imperialismo, São Paulo, Com panhia das Letras, 2011, p.161.
Ricardo Lísias é doutor em letras pela USP e escritor, autor de rom ances e contos, entre eles Cobertor de estrelas, Anna O e outras novelas e Duas praças, vencedor do prêm io Portugal Telecom . Colabora regularm ente com j ornais e revistas com o O Estado de São Paulo e Piauí.