Persuasão
Jack e Alice
UMA NOVELA
Respeitosam ente dedicado a Francis William s Austen, Esq.,
oficial em barcado no HMS Perseverance Sua hum ilde e obediente criada, A Autora
CAPÍTULO 1
Já faz algum tem po, o sr. Johnson tinha por volta de cinquenta e três anos de idade; doze m eses depois, com pletou cinquenta e quatro, idade que o deleitou a tal ponto que ele decidiu com em orar o aniversário seguinte organizando um baile de m áscaras para os filhos e os am igos. Assim , no dia em que fez cinquenta e cinco anos, m andou entregar a todos os vizinhos convites para a ocasião. De fato, seus conhecidos na região não eram m uitos, um a vez que incluíam apenas Lady William s, o sr. e a sra. Jones, Charles Adam s e as três srtas. Sim pson, que form avam a vizinhança de Pam m y diddle e iriam com parecer ao baile.
Antes de proceder a um relato da ocasião, seria adequado descrever para m eu leitor as pessoas e os tem peram entos do grupo que lhe está sendo apresentado.
O sr. e a sra. Jones eram am bos bastante altos e m uito arrebatados, m as, sob outros aspectos, eram pessoas bem -hum oradas e bem -com portadas. Charles Adam s era um rapaz afável, talentoso e lindíssim o, de um a beleza tão estonteante que apenas as águias conseguiam olhá-lo de frente.
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Miss Sim pson tinha aparência, m odos e disposição agradáveis; seu único defeito era um a am bição sem lim ites. A irm ã do m eio, Sukey, era invej osa, am arga e cheia de m alícia. Na aparência, era baixinha, gorda e desagradável. Cecilia (a m ais nova) era bastante bonita, m as afetada dem ais para ser agradável.
Lady William s conj ugava todas as virtudes. Era um a viúva com um a bela
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propriedade herdada do m arido e os resquícios de um rosto m uito bonito. Em bora bondosa e ingênua, era generosa e sincera; em bora devota e boa, era religiosa e am ável; e em bora elegante e agradável, era educada e divertida.
Os Johnson eram um a fam ília am orosa e, apesar de algo viciados em bebida e nos dados, possuíam m uitas boas qualidades.
Foi esse o grupo reunido no elegante salão de Johnson Court, em m eio ao qual o agradável sem blante de um a Sultana era a m ais notável das m áscaras fem ininas. Entre as m asculinas, a que representava o Sol foi a m ais adm irada por todos. Os raios que em anavam de seus olhos pareciam o de um astro glorioso, em bora infinitam ente superiores. Tão fortes eram esses raios que ninguém ousava se aventurar a m enos de um quilôm etro de distância deles; assim , o Sol tinha para si a m aior parte do salão, em bora as dim ensões deste últim o não passassem de pouco m ais de um quilôm etro de com prim ento por pouco m enos de um de largura. Por fim , percebendo o cavalheiro que a ferocidade dos raios era tão incôm oda para os presentes que os obrigava a se aglom erar todos j untos em um dos cantos do salão, sem icerrou os olhos, revelando assim aos presentes tratar-se de Charles Adam s vestindo seu casaco verde e liso, sem qualquer m áscara.
Arrefecido o espanto, parcialm ente, a atenção de todos foi atraída por duas
figuras em capas pretas e de m eia-m áscara3 avançando em terrível aflição; eram am bas m uito altas, m as pareciam , sob todos os outros aspectos, ter m uitas boas qualidades. “São o sr. e a sra. Jones”, disse o astuto Charles, e de fato eram .
Ninguém podia im aginar quem fosse a Sultana! Até que, depois de algum tem po, quando ela se dirigiu a um a linda Flora reclinada sobre um sofá em um a pose estudada dizendo: “Ah, Cecilia, quisera eu ser m esm o quem estou fingindo ser”, foi descoberta pela genialidade infalível de Charles Adam s com o sendo a elegante porém am biciosa Caroline Sim pson, enquanto a pessoa a quem ela se dirigia ele supôs corretam ente ser sua bela porém afetada irm ã Cecilia.
O grupo então se dirigiu a um a m esa de j ogo onde estavam sentadas, m uito entretidas, três capas pretas com m eia-m áscara (cada qual com um a garrafa na m ão): m as um a m ulher fantasiada de Virtude fugiu com passos apressados daquela cena chocante, enquanto um a m ulherzinha gorda vestida de Invej a sentava-se alternadam ente diante dos três j ogadores. Charles Adam s dem onstrou a m esm a inteligência de sem pre: logo descobriu que o grupo que j ogava eram os três m em bros da fam ília Johnson, a Invej a era Sukey Sim pson, e a Virtude, Lady William s.
As m áscaras então foram todas rem ovidas e o grupo se retirou para outro aposento, onde participou de distrações elegantes e bem -conduzidas, após as quais, com a garrafa sendo passada rapidam ente de m ão em m ão pelos três m em bros da fam ília Johnson, o grupo inteiro, incluindo até m esm o a Virtude, foi carregado para casa em um porre de dar dó.
CAPÍTULO 2
Durante três m eses, o baile de m áscaras proporcionou aos m oradores de Pam m y diddle farto assunto para conversas; m as nenhum de seus participantes foi tão com entado quanto Charles Adam s. A singularidade de sua aparição, os raios que em anavam de seus olhos, o brilho de sua inteligência e o todo o tout
ensemble4 de sua pessoa haviam conquistado os corações de tantas j ovens que, das seis presentes no baile, som ente cinco haviam voltado para casa incólum es. Alice Johnson era a infeliz sexta cuj o coração não conseguira resistir ao poder de seus charm es. No entanto, com o talvez pareça estranho aos m eus leitores o im enso valor e excelência do j ovem terem conquistado apenas o coração dela, será necessário inform ar que as srtas. Sim pson estavam protegidas de seu poder pela am bição, pela invej a e pela soberba.
Tudo o que Caroline desej ava na vida era um m arido com título de nobreza; em Sukey, por sua vez, um a excelência tão superior assim só conseguia despertar invej a, não am or; e Cecilia tinha um apreço excessivo por si m esm a para se deixar agradar por qualquer outra pessoa. Quanto a Lady William s e à sra. Jones, a prim eira era por dem ais sensível para se apaixonar por alguém tão m ais j ovem , e a segunda, em bora m uito alta e m uito arrebatada, gostava dem ais do m arido para pensar em tal coisa.
No entanto, apesar de todos os esforços por parte da srta. Johnson para descobrir nele qualquer apreço por si, o frio e insensível coração de Charles Adam s, sem dar m ostra de coisa algum a, preservou sua liberdade original; educado com todas, m as sem dar preferência a nenhum a, ele perm aneceu o belo, vivaz, m as insensível Charles Adam s.
Certa noite, encontrando-se Alice um pouco alterada pelo vinho (algo não m uito incom um ), decidiu buscar alívio para os pensam entos desordenados e o coração apaixonado em um a conversa com a inteligente Lady William s.
Encontrou Sua Senhoria em casa, com o em geral acontecia, pois esta não
gostava de sair e, assim com o o grande Sir Charles Grandison,5 nunca se recusava a receber quem quer que fosse quando estava em casa, um a vez que considerava o m étodo m uito em voga de im pedir o ingresso de visitas indesej adas pouco m enos do que sim ples bigam ia.
Apesar do vinho que havia bebido, a pobre Alice estava particularm ente desanim ada; tudo em que conseguia pensar era Charles Adam s, não conseguia falar em nada a não ser nele e, para resum ir, exprim iu-se com tanta clareza que Lady William s logo detectou o afeto não correspondido que ela nutria por ele, o que lhe despertou um a pena e um a com paixão tão fortes que ela assim falou:
– Estou vendo claram ente, m inha cara srta. Johnson, que seu coração não foi capaz de suportar os charm es fascinantes desse rapaz, e sinto um a pena genuína da senhorita. É um prim eiro am or?
– Sim .
– Ouvir isso m e deixa ainda m ais entristecida; eu própria sou um triste exem plo das m isérias que em geral acom panham um prim eiro am or, e estou decidida, no futuro, a evitar esse tipo de infortúnio. Desej o que não sej a dem asiado tarde para a senhorita fazer o m esm o; caso não sej a, m inha cara j ovem , tente se preservar de tão grande perigo. Um segundo vínculo raram ente produz consequências m ais sérias; contra isso, portanto, nada tenho a dizer. Basta se proteger de um prim eiro am or para não precisar tem er um segundo.
– A senhora m encionou algo sobre ter sofrido pessoalm ente os infortúnios que agora tem a bondade de desej ar que eu evite. Pode m e falar sobre sua vida e suas aventuras?
– Com prazer, m eu am or.
CAPÍTULO 3
– Meu pai era um cavalheiro de considerável fortuna em Berkshire; eu e uns poucos outros éram os seus únicos filhos. Eu tinha apenas seis anos de idade quando sofri o infortúnio de perder m inha m ãe e, com o na época era m uito j ovem e sensível, m eu pai, em vez de m e m andar para a escola, contratou um a governanta apta a supervisionar m eus estudos em casa. Meus irm ãos foram postos em escolas adequadas à sua idade, e m inhas irm ãs, todas m ais j ovens do que eu, continuaram sob os cuidados da am a.
“A srta. Dickins era um a excelente governanta. Foi ela quem m e orientou nos cam inhos da virtude; sob as suas instruções, fui m e tornando a cada dia m ais am ável, e talvez, a essa altura, j á houvesse quase alcançado a perfeição caso m inha valorosa instrutora não m e tivesse sido arrancada antes m esm o de eu com pletar dezessete anos. Jam ais esquecerei suas últim as palavras. ‘Minha querida Kitty ’, disse ela, ‘tenha um a boa noite’. Nunca m ais a vi”, prosseguiu Lady William s, enxugando os olhos. “Ela fugiu com o m ordom o nessa m esm a noite.
“No ano seguinte, fui convidada por um a parenta distante de m eu pai para passar o inverno em sua com panhia na cidade. A sra. Watkins era um a dam a de estilo, fam ília e fortuna; de m odo geral, era considerada um a m ulher bonita, m as eu, por m inha parte, nunca a j ulguei m uito atraente. Sua testa era alta dem ais, seus olhos excessivam ente m iúdos e sua tez por dem ais corada.”
– Mas como é possível isso? – interrom peu a srta. Johnson, enrubescendo de raiva. – A senhora acha que alguém pode ter a tez excessivam ente corada?
– Acho, sim , e vou lhe dizer por quê, m inha cara Alice; quando alguém tem m uito verm elho na com pleição, o rosto, na m inha opinião, adquire um aspecto excessivam ente averm elhado.
– Mas, senhora, é possível um rosto ser excessivam ente averm elhado?
– Com certeza, m inha cara srta. Johnson, e vou lhe dizer por quê. Quando um rosto tem um aspecto por dem ais averm elhado, não fica tão valorizado quanto poderia ficar caso fosse m ais pálido.
– Por favor, senhora, queira prosseguir com sua história.
– Bem , com o eu disse antes, fui convidada por essa dam a a passar algum as sem anas na cidade em sua com panhia. Muitos cavalheiros a consideravam bonita, m as, na m inha opinião, sua testa era excessivam ente alta, seus olhos excessivam ente pequenos e sua tez por dem ais corada.
– Nisso, m inha senhora, com o eu j á disse, Sua Senhoria deve estar enganada. A sra. Watkins não podia ter a tez por dem ais corada, porque ninguém pode ter a tez corada dem ais.
– Queira m e desculpar, m eu am or, m as não concordo com você nesse detalhe. Perm ita-m e explicar com clareza. O que penso em relação a isso é o seguinte: quando um a m ulher tem um a proporção excessiva de verm elho nas faces, ela tem um colorido excessivo.
– Mas, m inha senhora, eu nego que sej a possível alguém ter um a proporção excessiva de verm elho nas faces.
– Com o assim , m eu am or, m as e se elas tiverem um colorido excessivo?
A srta. Johnson agora j á estava quase sem paciência, m ais ainda, talvez, pelo fato de Lady William s perm anecer tão inflexível e fria. É preciso lem brar, porém , que em um quesito Sua Senhoria tinha um a clara vantagem em relação a Alice; com isso quero dizer em não estar em briagada, pois, influenciada pelo vinho e exaltada pela paixão, a j ovem não conseguia controlar o próprio tem peram ento.
Depois de algum tem po, o debate se tornou tão acalorado por parte de Alice que “de palavras ela quase passou à agressão”, quando por sorte o sr. Johnson adentrou o recinto e, com algum a dificuldade, forçou-a a se afastar de Lady William s, da sra. Watkins e de suas faces verm elhas.
CAPÍTULO 4
Meus leitores talvez pensem que, depois de tal confusão, nenhum a intim idade entre a fam ília Johnson e Lady William s poderia perdurar, m as nisso estão enganados, pois Sua Senhoria era sensível dem ais para se zangar com um com portam ento que, com o não podia deixar de observar, era a consequência natural da ebriedade, e Alice tinha um respeito por dem ais sincero por Lady William s e um a predileção por dem ais intensa por seu vinho para deixar de fazer qualquer concessão que estivesse ao seu alcance.
Alguns dias depois de as duas se reconciliarem , Lady William s m andou cham ar a srta. Johnson para sugerir um passeio por um bosque de lim oeiros que conduzia do chiqueiro de Sua Senhoria ao laguinho onde davam banho e água aos cavalos de Charles Adam s. Alice ficou por dem ais sensibilizada com a gentileza de Lady William s ao propor tal passeio e m uito satisfeita com a possibilidade de, ao final deste, ver um laguinho pertencente a Charles para não aceitar o convite com visível deleite. As duas não haviam avançado m uito quando ela foi despertada do devaneio quanto à felicidade da qual iria gozar pela seguinte frase de Lady William s.
– Até agora, cara Alice, evitei prosseguir a narrativa sobre m inha vida por não querer fazê-la relem brar um a cena que (um a vez que ela lhe causa m ais desgraça do que crédito) é m elhor esquecer do que recordar.
Alice j á havia com eçado a enrubescer e estava com eçando a falar quando Sua Senhoria, notando seu desespero, continuou assim :
– Tem o, m inha cara j ovem , tê-la ofendido com o que acabo de dizer; garanto-lhe que não desej o perturbá-la relem brando o que agora j á não tem rem édio; feitas as contas, não acho que a senhorita tenha tanta culpa quanto m uitas pessoas têm ; pois, quando alguém tem um a inclinação para a bebida, não há com o saber do que é capaz; um a m ulher nesse estado fica particularm ente exposta, porque sua m ente não tem forças para suportar a em briaguez.
– Senhora, não há com o tolerar isso; eu insisto…
– Minha cara j ovem , não se ofenda quanto a isso; garanto-lhe que perdoei por com pleto tudo relacionado a esse acontecim ento; de fato, não fiquei zangada na ocasião porque vi desde o princípio que a senhorita estava totalm ente ébria. Sabia que não podia ter evitado dizer as coisas estranhas que disse. Mas vej o que a estou deixando perturbada; de m odo que m udarei de assunto e desej arei que ele nunca m ais torne a ser m encionado; lem bre-se, está tudo esquecido… Agora continuarei m inha história; m as preciso insistir em não lhe fazer nenhum a descrição da sra. Watkins: isso seria apenas relem brar histórias antigas e, com o a senhorita nunca a viu, de nada lhe im porta se a testa dela era mesmo alta dem ais ou se sua tez era mesmo excessivam ente corada.
– Outra vez! Lady William s, isso é dem ais…
A pobre Alice ficou tão irritada com essa ressurreição da velha história que não sei quais poderiam ter sido as consequências caso sua atenção não tivesse sido atraída por outro obj eto. Um a linda j ovem deitada sob um lim oeiro, aparentando estar sentindo m uita dor, era um obj eto por dem ais interessante para não atrair a atenção delas. Esquecendo-se da própria desavença, as duas, com um a ternura atenciosa, avançaram na direção da j ovem , que abordaram com as seguintes palavras:
– Bela ninfa, a senhorita parece estar às voltas com algum infortúnio que ficarem os felizes em aliviar caso nos inform e a respeito. Aceita nos contar sua vida e suas aventuras?
– De bom grado, senhoras, se tiverem a bondade de se sentar. As duas se acom odaram , e a m oça com eçou assim .
CAPÍTULO 5
– Eu nasci em North Wales, e m eu pai é um dos m ais im portantes alfaiates da região. Com o tinha um a fam ília grande, foi convencido com facilidade por um a irm ã de m inha m ãe, viúva de boa situação e dona de um a taberna em um vilarej o vizinho ao nosso, a deixá-la m e levar para casa e m e criar à sua custa. Assim , passei os últim os oito anos de m inha vida m orando com ela, período durante o qual ela m e proporcionou alguns dos m elhores professores, que m e ensinaram todas as habilidades adequadas a m eu sexo e à m inha condição social. Sob sua instrução, aprendi dança, m úsica, desenho e vários idiom as, tornando-m e com isso m ais prendada do que qualquer outra filha de alfaiate no País de Gales. Nunca houve criatura m ais feliz do que eu, até que, nos últim os seis m eses… Mas eu deveria ter lhes dito antes que a principal propriedade em nossa região pertence a Charles Adam s, dono daquela casa de tij olos que podem ver m ais adiante.
– Charles Adam s! – exclam ou Alice, estupefata. – A senhorita conhece Charles Adam s?
– Para m inha tristeza, conheço sim . Ele apareceu faz m ais ou m enos seis m eses para receber o aluguel da propriedade que acabo de m encionar. Foi quando o vi pela prim eira vez; com o a senhora parece conhecê-lo, não preciso lhe descrever o quanto ele é encantador. Eu não poderia resistir aos seus charm es…
– Ah! Mas quem pode? – disse Alice com um fundo suspiro.
– Com o m inha tia gozava de grande intim idade com a cozinheira dele, decidiu, a pedido m eu, descobrir por interm édio da am iga se haveria algum a chance de ele corresponder ao m eu afeto. Para isso, foi certa tarde tom ar chá com a sra. Susan, que, durante a conversa, m encionou com o seu em prego era bom e com o era bom tam bém o seu patrão; diante disso, m inha tia com eçou a lhe extrair inform ações com tal perícia que, em pouco tem po, Susan confessou que não pensava que o patrão um dia fosse se casar, “pois”, disse ela, “ele m e declarou m uitas vezes que a sua esposa, quem quer que sej a, deve ter j uventude, beleza, berço, inteligência, m érito e dinheiro. Muitas vezes”, prosseguiu ela, “tentei fazê-lo m udar de ideia a esse respeito e convencê-lo da im probabilidade de ele um dia encontrar um a dam a assim ; m eus argum entos, porém , não surtiram efeito, e ele continua firm e com o nunca em sua determ inação.” As senhoras podem im aginar m inha aflição ao ouvir isso; pois eu tem ia que, em bora tivesse j uventude, beleza, inteligência e m érito, e em bora fosse a provável herdeira da casa e do negócio de m inha tia, ele pudesse m e achar deficiente em posição social e, portanto, indigna de sua m ão.
“No entanto, eu estava decidida a tom ar um a atitude ousada, e, assim sendo, escrevi para ele um a carta m uito gentil oferecendo-lhe com grande ternura m inha m ão em casam ento e m eu coração. A ela recebi um a recusa zangada e perem ptória, m as, pensando que esta pudesse ser consequência de sua m odéstia m ais do que de qualquer outra coisa, tornei a insistir com ele no assunto. Mas ele nunca m ais respondeu a nenhum a de m inhas cartas, e m uito pouco tem po depois foi em bora da região. Assim que fiquei sabendo de sua partida, escrevi para ele aqui, inform ando que m uito em breve daria a m im m esm a a honra de visitá-lo em Pam m y diddle, m as não obtive resposta; assim , decidindo tom ar o silêncio por um consentim ento, saí do País de Gales sem avisar à m inha tia e cheguei aqui hoj e de m anhã após um a viagem m açante. Ao perguntar sobre a casa dele, fui instruída a atravessar um bosque, aquele que as senhoras podem ver logo ali. Com o coração anim ado pela alm ej ada felicidade de vê-lo, entrei no bosque, e havia avançado até aqui quando m e vi subitam ente agarrada pela perna e, ao exam inar qual seria o m otivo, descobri que tinha ficado presa em um a das arm adilhas de aço tão com uns nos terrenos de caça de qualquer cavalheiro.”
– Ah! – exclam ou Lady William s. – Que sorte a nossa term os encontrado a senhorita; de outra form a, talvez pudéssem os ter tido o m esm o infortúnio.
– De fato, é um a sorte para as senhoras eu ter chegado aqui pouco antes. Gritei, com o as senhoras podem facilm ente im aginar, até a floresta ecoar vezes sem conta e até um dos criados do desum ano infeliz vir em m eu auxílio e m e liberar de m inha terrível prisão, m as não antes de um a de m inhas pernas ficar totalm ente quebrada.
CAPÍTULO 6
Diante desse m elancólico relato, os belos olhos de Lady William s se encheram de lágrim as, e Alice não pôde se conter e exclam ou:
– Ah! Com o Charles é cruel por m achucar os corações e as pernas de todas as m ulheres.
Lady William s então interveio, e observou que a perna da j ovem deveria ser posta em um a tala sem m ais dem ora. Depois de exam inar a fratura, portanto, ela na m esm a hora iniciou e executou o procedim ento com grande perícia, fato ainda m ais notável visto que nunca antes havia executado tal operação. Lucy então se levantou e, ao descobrir que conseguia andar com m uita desenvoltura, acom panhou-as até a casa de Lady William s a pedido expresso de Sua Senhoria.
A silhueta perfeita, o lindo rosto e os m odos elegantes de Lucy logo conquistaram a tal ponto o afeto de Alice que, quando as duas se despediram , o que só ocorreu após o j antar, ela lhe garantiu que, com exceção do pai, do irm ão, dos tios, das tias, dos prim os e de outros parentes, de Lady William s, de Charles Adam s e de um as poucas dúzias de outros am igos especiais, ela a am ava m ais do que quase qualquer outra pessoa no m undo.
Um a garantia assim lisonj eira de apreço teria proporcionado grande satisfação ao seu alvo, caso Lucy não houvesse percebido de form a evidente que a am ável Alice havia ingurgitado doses excessivam ente generosas do vinho de Lady William s.
Assim que a srta. Johnson partiu, Sua Senhoria (dotada de um im enso discernim ento) leu na inteligente atitude de Lucy a sua opinião a respeito, e assim lhe falou:
– Quando conhecer m inha Alice m ais intim am ente, Lucy, não ficará surpresa ao ver a cara criatura beber um pouco além da conta; pois esse tipo de coisa acontece todos os dias. Ela tem m uitas qualidades raras e encantadoras, m as a sobriedade não é um a delas. Na verdade, a fam ília inteira é um triste bando de beberrões. Lam ento dizer, tam bém , que j am ais conheci três j ogadores m ais inveterados do que eles, em especial Alice. Mas ela é um a m oça encantadora. Tem o que não possua um dos tem peram entos m ais doces do m undo; eu com certeza j á a vi tom ada por grandes paixões! Mas ela é um a m oça m uito doce. Tenho certeza de que irá gostar dela. Não conheço quase ninguém tão am ável. Ah, se pudesse tê-la visto na outra noite! Com o ela protestou! E por algo tão sem im portância! De fato, um a m oça m uito agradável! Eu sem pre a am arei!
– Pelo relato de Sua Senhoria, ela parece ter m uitas boas qualidades – retrucou Lucy.
– Ah, m ilhares – respondeu Lady William s. – Em bora eu sej a m uito parcial em relação a ela, e talvez o m eu afeto m e im peça de ver seus verdadeiros defeitos.
CAPÍTULO 7
Na m anhã seguinte, as três irm ãs Sim pson foram visitar Lady William s, que as recebeu com m áxim a gentileza e apresentou-lhe a sua conhecida Lucy, com quem a m ais velha das irm ãs ficou tão encantada que, ao se despedir, declarou que sua única vontade era que esta as acom panhasse na m anhã seguinte a Bath, onde elas iriam passar algum as sem anas.
– Você pode fazer o que quiser, Lucy – disse Lady William s –, e, caso decida aceitar tão gentil convite, espero que não hesite devido a qualquer sensibilidade em relação à m inha pessoa. De fato, não sei com o algum dia poderei m e separar dela. Ela nunca esteve em Bath, e im agino que essa seria um a viagem das m ais agradáveis. Fale, m eu am or – prosseguiu ela, virando-se para Lucy –, o que diz sobre acom panhar estas dam as? Ficarei inconsolável sem sua com panhia… Vai ser um passeio m uito aprazível para você… espero que vá; se for, tenho certeza de que m orrerei… por favor, deixe-se convencer.
Lucy pediu licença para recusar a honra de acom panhar as irm ãs, com m uitas m anifestações de gratidão pela extrem a boa educação da srta. Sim pson ao lhe fazer o convite.
A srta. Sim pson pareceu m uito desapontada com a recusa. Lady William s insistiu para que Lucy fosse – declarou que j am ais a perdoaria caso não fosse, e que j am ais sobreviveria caso fosse, usando, em sum a, argum entos tão persuasivos que ao final ficou decidido que Lucy iria. As srtas. Sim pson foram buscá-la às dez horas da m anhã seguinte, e Lady William s logo teve a satisfação de receber da j ovem am iga a agradável notícia de sua chegada segura em Bath.
Talvez agora sej a adequado voltar ao herói desta novela, o irm ão de Alice, de quem acredito m al ter tido oportunidade de falar; isso talvez se deva em parte à sua desafortunada propensão para a bebida, que o privou tão por com pleto das qualidades com as quais a natureza o havia presenteado que ele nunca fez na vida nada digno de nota. Sua m orte sobreveio pouco depois da partida de Lucy, e foi um a consequência natural desse hábito pernicioso. Com o falecim ento, a irm ã se tornou herdeira única de um a grande fortuna, fato que, por renovar suas esperanças de se tornar aceitável com o esposa de Charles Adam s, não pôde deixar de lhe ser m uito agradável – e, com o o efeito era prazenteiro, a causa não era de se lam entar.
Ao ver a violência do afeto que sentia por Charles aum entar a cada dia, Alice acabou revelando o fato ao pai, e quis que este propusesse a Charles um a união entre os dois. Seu pai consentiu, e partiu certo dia de m anhã para falar com o rapaz sobre o assunto. Com o o sr. Johnson era um hom em de poucas palavras, desem penhou logo o seu papel, e recebeu a seguinte resposta:
– Senhor, talvez se espere que eu dem onstre satisfação e gratidão pela proposta que o senhor m e fez: m as perm ita-m e dizer que a considero um a afronta. Eu m e considero dono de um a beleza perfeita… onde seria possível encontrar corpo m ais bem -form ado ou rosto m ais encantador? Além disso, senhor, considero m eus m odos e m eu com portam ento dos m ais refinados; eles possuem certa elegância, um a doçura especial que nunca vi serem equiparadas e m al consigo descrever. Deixando de lado a parcialidade, sou com certeza m ais consum ado em qualquer idiom a, qualquer ciência, qualquer arte e qualquer coisa do que qualquer outro indivíduo na Europa. Meu tem peram ento é equilibrado, m inhas virtudes incontáveis, m inha pessoa incom parável. Sendo esse o m eu tem peram ento, com o pode o senhor desej ar que eu despose a sua filha? Deixe que eu lhe faça um breve esboço do senhor e dela. Eu o considero de m odo geral um hom em de m uito boa espécie; um velho beberrão, decerto, m as isso de nada m e im porta. A sua filha, senhor, não é nem suficientem ente bonita, nem suficientem ente inteligente, nem suficientem ente rica para m im . Não espero de m inha esposa nada além do que m inha esposa irá encontrar em m im … perfeição. São esses os m eus sentim entos, senhor, e fico honrado por tê-los. Tenho um a única am iga no m undo, e exulto em ter apenas um a. Ela está no m om ento preparando o m eu j antar, m as, se quiser vê-la, ela irá ter com o senhor para lhe inform ar que esses sem pre foram os m eus sentim entos.
O sr. Johnson se deu por satisfeito; e, expressando grande gratidão ao sr. Adam s pelas descrições que este lhe fizera de si e da filha, pediu licença para se retirar.
A infeliz Alice, ao receber do pai o triste relato do m alogro que sua visita havia produzido, m al conseguiu suportar a decepção. Correu para a garrafa e foi logo esquecida.
CAPÍTULO 8
Enquanto esses assuntos eram debatidos em Pam m y diddle, Lucy conquistava todos os corações em Bath. Duas sem anas de residência na cidade j á haviam quase apagado em sua lem brança a cativante figura de Charles. Pensar no que seu coração tinha sofrido anteriorm ente por causa dos charm es do cavalheiro e sua perna por causa de sua arm adilha de caça perm itiu a ela esquecê-lo com razoável facilidade, e era isso que ela estava decidida a fazer; assim , com esse obj etivo em m ente, passou a dedicar cinco m inutos diários à tarefa de excluí-lo de sua lem brança.
Sua segunda carta para Lady William s continha a agradável inform ação de que ela havia conseguido alcançar seu obj etivo com total satisfação; ela tam bém m encionava na carta um pedido de casam ento feito pelo duque de —, hom em idoso de nobre fortuna cuj a m á saúde era o principal m otivo de sua ida a Bath. “Estou preocupada”, continuava ela, “sem saber se aceito ou não o pedido. Há m il vantagens a se tirar de um casam ento com o duque, pois, além das m ais inferiores relacionadas à posição social e à fortuna, ele m e daria um lar, que entre todas as coisas é a que m ais desej o. O gentil desej o de Sua Senhoria de que eu perm aneça sem pre ao seu lado é nobre e generoso, m as não posso pensar em m e tornar um fardo tão pesado para alguém que tanto am o e estim o. O fato de que só se deve ter obrigações para com quem se despreza é um sentim ento inculcado em m inha m ente por m inha valorosa tia na m ais tenra infância e, na m inha opinião, é im possível superestim ar o seu valor. Ouvi dizer que a excelente m ulher à qual m e refiro está zangada dem ais com m inha partida im prudente do País de Gales para tornar a m e receber. Desej o vivam ente deixar as dam as com as quais agora m e encontro. A m ais velha das irm ãs Sim pson é de fato m uito am ável (excetuando-se a am bição), m as a irm ã do m eio, a invej osa e m aldosa Sukey, é por dem ais desagradável para se conviver. Tenho m otivos para pensar que a adm iração que venho recebendo no círculo das pessoas im portantes desta cidade despertou seu ódio e sua invej a; pois ela m uitas vezes am eaçou, e às vezes chegou a tentar m e cortar o pescoço. Sendo assim , Sua Senhoria haverá de entender que não estou errada ao querer ir em bora de Bath e desej ar ter um lar que m e receba quando o fizer. Aguardarei com im paciência seu conselho em relação ao duque, e subscrevo-m e com forte devoção,
Lucy ”
Lady William s enviou-lhe sua opinião sobre o assunto da seguinte form a:
“Minha cara Lucy, o que a leva a hesitar um segundo sequer em relação ao duque? Fiz pesquisas quanto ao seu caráter, e descobri que ele é um hom em sem princípios, iletrado. Minha Lucy j am ais poderá se unir a um hom em assim ! Ele é dono de um a fortuna principesca que aum enta a cada dia. Com que nobreza você poderá gastá-la! Quanto poderá m elhorar a opinião que todos têm a respeito dele! Com o ele será respeitado por causa da esposa! Mas por que, cara Lucy, não resolver de um a vez esse assunto voltando para m im e nunca m ais m e abandonando? Em bora eu adm ire os seus nobres sentim entos quanto a obrigações, perm ita-m e im plorar para que eles não a im peçam de m e fazer feliz. Com certeza ter você sem pre ao m eu lado será para m im um a forte despesa – da qual não poderei dar conta –, m as o que significa isso quando com parado à felicidade que sua com panhia irá m e proporcionar? Ficarei arruinada, eu sei – sendo assim , você com certeza não irá resistir a esses argum entos, nem se recusar a responder à sua m ui afetuosa,
C. William s”
CAPÍTULO 9
Que efeito teria tido o conselho de Sua Senhoria caso Lucy algum dia o tivesse recebido é um a incógnita, pois a carta chegou a Bath algum as horas depois de a m oça ter dado seu últim o suspiro. Lucy sucum biu à invej a e à m aldade de Sukey, que, encium ada por causa de seus charm es superiores, usou veneno para arrancá-la aos dezessete anos de idade de um m undo que a adm irava.
Foi esse o fim da am ável e bela Lucy, cuj a vida não fora m arcada por qualquer crim e nem m anchada por qualquer m ácula a não ser a partida im prudente da casa da tia, e cuj a m orte foi sinceram ente pranteada por todos que a conheciam . Entre os am igos m ais afetados estavam Lady William s, a srta. Johnson e o duque; as duas prim eiras tinham pela m oça um apreço m uito sincero, em especial Alice, que havia passado um a noite inteira em sua com panhia e depois nunca m ais havia pensado nela. A aflição de Sua Graça tam bém pode ser facilm ente explicada, posto que ele perdeu um a pessoa por quem havia nutrido, ao longo dos últim os dez dias, um afeto carinhoso e um apreço sincero. Ao longo das duas sem anas seguintes, ele chorou sua perda com um a constância inabalável, e, ao final desse período, recom pensou a am bição de Caroline Sim pson alçando-a à condição de duquesa. Assim , no final das contas, ela pôde experim entar um a felicidade plena ao ver recom pensada sua paixão preferida. Sua irm ã, a pérfida Sukey, tam bém se viu exaltada pouco depois de um a form a que de fato m erecia e que, por suas ações, parecia sem pre ter desej ado. O bárbaro assassinato por ela com etido foi descoberto e, apesar da intervenção de todos os am igos, ela foi logo conduzida ao cadafalso. A bela porém afetada Cecilia tinha dem asiada consciência da superioridade dos próprios charm es para não im aginar que, se Caroline era capaz de desposar um duque, ela poderia, sem dúvida, alm ej ar o afeto de algum príncipe – e, sabendo que os de seu país natal estavam em sua m aioria j á com prom etidos, deixou a Inglaterra, e desde então fiquei sabendo que hoj e é a Sultana preferida do grande Mogul.
Enquanto isso, os m oradores de Pam m y diddle foram tom ados pelo m ais im enso espanto e assom bro ao ouvirem o relato de que Charles Adam s pretendia se casar. O nom e da dam a ainda era segredo. O sr. e a sra. Jones im aginavam que fosse a srta. Johnson; m as ela sabia que não era assim ; todos os seus tem ores estavam concentrados na cozinheira quando, para espanto de todos, ele se uniu publicam ente a Lady William s.
FIM
1. Ver n.13 ao texto de Persuasão.
2. No original, jointure: bens legados pelo m arido à viúva para seu usufruto em vida.
3. No original, dominos: traj e utilizado em bailes de m áscaras por participantes que não desej avam um a fantasia específica. Consistia em um a capa preta larga com capuz e um a m eia-m áscara que cobria apenas os olhos. Foi introduzida na Inglaterra no início do séc. XVIII, im portada do carnaval de Veneza, e popularizada nos bailes do séc.XIX. Seu nom e tem origem no term o domini, que designava as capas de inverno de m onges franceses (pretas por fora e brancas por dentro).
4. Em francês no original: o conj unto da obra.
5. Referência ao virtuoso personagem -título do rom ance epistolar inglês The History of Sir Charles Grandison (1753), de Sam uel Richardson (1689-1761).