Persuasão
Persuasão
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
LIVRO I
CAPÍTULO 1
1
Sir Walter Elliot, de Kelly nch Hall, Som ersetshire, era um hom em que, para se
entreter, nunca lia outro livro que não o Baronetage; 2 nele encontrava distração para os m om entos ociosos e consolo para os difíceis; nele sua adm iração e respeito eram despertados pela contem plação dos poucos rem anescentes dos prim eiros títulos; nele qualquer sensação desagradável ocasionada por questões dom ésticas se transform ava naturalm ente em dó e desprezo. À m edida que
folheava os quase infindáveis enobrecim entos do século anterior3 – e, caso nenhum a outra página surtisse efeito, podia ler a própria história com um interesse que j am ais arrefecia –, eis a página em que o livro preferido sem pre se abria:
ELLIOT, DE KELLYNCH HALL
Walter Elliot, nascido em 1º de m arço de 1760, casado em 15 de j ulho de
4
1784 com Elizabeth, filha de Jam es Stevenson, distinto cavalheiro de South Park, condado de Gloucester, com a qual (falecida em 1800) teve: Elizabeth, nascida em 1º de j unho de 1785; Anne, nascida em 9 de agosto de 1787; um filho natim orto em 5 de novem bro de 1789; e Mary, nascida em 20 de novem bro de 1791.
Era assim , sem tirar nem pôr, que o parágrafo havia saído originalm ente das m ãos do im pressor. Sir Walter, porém , o havia aprim orado, tanto para a própria inform ação quanto para a da fam ília, com o acréscim o das seguintes palavras após a data de nascim ento de Mary : “Casada em 16 de dezem bro de 1810 com Charles, filho e herdeiro de Charles Musgrove, distinto cavaleiro de Uppercross, Som ersetshire”; e a indicação do dia exato do m ês em que havia perdido a esposa.
Vinham então relatadas nos term os habituais a história e ascensão da antiga e respeitável fam ília: com o esta havia se instalado inicialm ente em Cheshire e
5 6
com o era m encionada por Dugdale – serviu com o xerife do condado, teve
representantes m unicipais 7 em três parlam entos sucessivos e dem onstrou lealdade e dignidade condizentes com o título de baronetes durante o prim eiro
ano do reinado de Carlos II, 8 incluindo todas as Mary s e Elizabeths que haviam
9
desposado. O texto ocupava a totalidade de duas belas páginas in-duodecimo, antes de se encerrar com o brasão e a divisa da fam ília: “Sede principal: Kelly nch Hall, Som ersetshire”, e, novam ente na caligrafia de Sir Walter, a
seguinte conclusão: “Herdeiro pressuposto: 10 distinto cavaleiro William Walter Elliot, bisneto do segundo Sir Walter.”
A vaidade era o traço dom inante do tem peram ento de Sir Walter Elliot, tanto em relação à sua pessoa quanto à sua situação. Quando j ovem , havia sido um hom em de beleza notável, e aos 54 anos perm anecia m uito vistoso. Poucas m ulheres davam tanta im portância à aparência pessoal quanto ele, e nem
m esm o o valete11 de um lorde recém -nom eado poderia se m ostrar m ais encantado com a posição que ocupava na sociedade. Para Sir Walter Elliot, a bênção da beleza física só perdia em im portância para a bênção de ser baronete, e ele, que reunia em si essas duas dádivas, era obj eto constante de seus m ais sinceros respeito e devoção.
A beleza física e a posição social de Sir Walter m ereciam sua grande estim a pelo m enos em um quesito, pois ele lhes devia o fato de ter tido um a esposa de caráter m uito superior a qualquer coisa que o seu próprio pudesse m erecer. Lady Elliot havia sido um a m ulher excelente, sensata e agradável, cuj os j uízo e conduta, um a vez perdoada a paixão j uvenil que a fizera virar Lady Elliot, não haviam m ais necessitado qualquer indulgência. Ela havia tolerado, atenuado ou ocultado os defeitos do m arido e prom ovido sua verdadeira respeitabilidade ao longo de dezessete anos; e, ainda que não fosse ela própria a criatura m ais feliz do m undo, havia encontrado nos afazeres, nos am igos e nas filhas razão suficiente para prender-se à vida e para não ser m otivo de indiferença quando foi cham ada a abandoná-los. Três m eninas, as duas m ais velhas com dezesseis e catorze anos, era um péssim o legado para um a m ãe deixar; ou, m elhor dizendo, um péssim o fardo a se confiar à autoridade e orientação de um pai vaidoso e tolo. Lady Elliot, porém , tinha um a am iga m uito chegada, m ulher sensata e m erecedora, que fora levada, pela forte am izade que as unia, a m orar perto da fam ília, no vilarej o de Kelly nch; e a gentileza e os conselhos dessa am iga eram as suas principais garantias no que tangia ao auxílio e à m anutenção dos bons princípios e da instrução que vinha se esm erando para m inistrar às filhas.
Fossem quais fossem as suposições nesse sentido entre seus conhecidos, essa am iga e Sir Walter não se casaram . Treze anos j á haviam transcorrido desde a m orte de Lady Elliot, e os dois continuavam vizinhos e am igos íntim os; ele ainda viúvo, e ela igualm ente viúva.
O fato de um a m ulher m adura em idade e tem peram ento e dona de um a situação financeira privilegiada com o Lady Russell nem cogitar contrair segundas núpcias não requer nenhum a j ustificativa j unto à opinião pública, que, na verdade, tende a se m ostrar excessivam ente descontente quando um a m ulher se casa novam ente, e não quando ela não o faz; m as o fato de Sir Walter continuar solteiro requer um a explicação. Saiba-se, portanto, que Sir Walter, com o bom pai que era (e depois de ter tido um a ou duas decepções pessoais em tentativas bem pouco sensatas), orgulhava-se de perm anecer solteiro pelo bem de sua querida filha. Por um a delas, a m ais velha, ele de fato teria aberto m ão de qualquer coisa, algo que não lhe era m uito tentador. Aos dezesseis anos, Elizabeth havia herdado tudo que havia sido possível herdar dos direitos e da autoridade da m ãe; e, por ser m uito bonita, e m uito parecida com o pai, sem pre tivera grande influência j unto a ele, e os dois se entendiam às m il m aravilhas. As duas outras filhas tinham um valor m uito m enor. Mary havia adquirido um a pequena im portância artificial ao desposar Charles Musgrove; m as Anne, cuj o caráter elegante e trato gentil teriam lhe garantido um lugar de destaque em qualquer grupo dotado de real discernim ento, não era ninguém nem aos olhos do pai, nem aos da irm ã; sua palavra nada valia, seu papel era ceder sem pre – ela era apenas Anne.
Para Lady Russell, no entanto, Anne era um a afilhada altam ente querida e m uito prezada, favorita e am iga. Lady Russell am ava as três m oças, m as era som ente em Anne que podia im aginar Lady Elliot reencarnada.
Alguns anos antes, Anne Elliot fora um a m oça de aparência m uito bonita, m as seu viço havia fenecido cedo; e com o, m esm o no auge desse viço, o pai pouco encontrara para adm irar na filha (cuj os traços delicados e suaves olhos escuros eram radicalm ente diferentes dos seus), não podia haver nada em seu aspecto físico, agora que ela estava m urcha e m agra, capaz de despertar sua estim a. Ele nunca havia nutrido grandes esperanças, e agora j á não tinha nenhum a, de um
12
dia ler o nom e de Anne em algum a outra página de seu livro preferido. Qualquer enlace digno teria que vir de Elizabeth, pois Mary havia apenas se casado com o m em bro de um a antiga fam ília rural respeitável e dotada de grande fortuna, sendo, portanto, a provedora de toda a honra sem receber nenhum a em troca; Elizabeth, m ais cedo ou m ais tarde, faria um casam ento adequado.
Às vezes ocorre de um a m oça ser m ais bela aos vinte e nove anos do que o era um a década antes; e, de m odo geral, a m enos em caso de doença ou ansiedade, trata-se de um a fase da vida em que a m ulher não perde nada de seu charm e.
13
Assim foi com Elizabeth, que ainda era a m esm a bela srta. Elliot que com eçara a ser treze anos antes, o que desculpava o fato de Sir Walter esquecer sua idade ou, no m ínim o, j ustificava que ele fosse considerado apenas parcialm ente tolo ao j ulgar que tanto ele quanto Elizabeth m antinham o m esm o viço de sem pre em m eio à ruína da aparência física de todos os dem ais, pois ele podia ver m uito bem com o seus parentes e conhecidos estavam envelhecendo. Anne em aciada, Mary em brutecida, a piora coletiva dos sem blantes dos vizinhos e o rápido aum ento dos pés de galinha nas têm poras de Lady Russell; j á fazia algum tem po que tudo isso era para ele um a fonte de preocupação.
Elizabeth não chegava a se equiparar ao pai em m atéria de satisfação pessoal. Fazia treze anos que era a senhora de Kelly nch Hall, casa que presidia e adm inistrava com segurança e autoridade de m odo que j am ais transm itiria a im pressão de ser m ais j ovem do que na realidade era. Havia treze anos ela vinha fazendo as honras para os convidados, estabelecendo as leis dom ésticas, seguindo na frente para subir na carruagem e saindo de todos os salões e salas de j antar
14
das redondezas atrás apenas de Lady Russell. O gelo de treze invernos a tinha
visto abrir todos os bailes dignos de nota proporcionados por um a região tão m odesta, e os botões de treze prim averas haviam florescido enquanto ela viaj ava para Londres na com panhia do pai para passar algum as sem anas por ano gozando os prazeres m undanos da cidade grande. Disso tudo ela se lem brava, e a consciência de estar com vinte e nove anos lhe provocava alguns arrependim entos e algum a apreensão: o fato de conservar a m esm a beleza de antes lhe causava grande satisfação, m as ela sentia que se aproxim ava dos anos perigosos, e teria se alegrado com a certeza de ser devidam ente solicitada por algum pretendente com sangue de baronete antes de transcorridos os próxim os doze ou vinte e quatro m eses. Nesse caso, talvez tivesse tornado a abrir o livro dos livros com o m esm o prazer do início da j uventude, m as agora não gostava de fazê-lo. Deparar-se a cada vez com a data do próprio nascim ento sem nenhum a subsequente indicação de casam ento a não ser o da irm ã caçula tornava o livro um estorvo; e em m ais de um a ocasião, depois de o pai tê-lo deixado aberto sobre a m esa ao seu lado, ela o havia fechado olhando para o lado antes de em purrá-lo para longe.
Além disso, Elizabeth havia tido um a decepção da qual aquele livro e sobretudo a história de sua própria fam ília sem pre lhe fariam lem brar. Quem a decepcionara fora o herdeiro pressuposto do título, o próprio distinto cavalheiro William Walter Elliot cuj os direitos haviam sido tão generosam ente defendidos por seu pai.
Quando era m uito j ovem , assim que soubera que ele, caso ela não tivesse nenhum irm ão hom em , seria o futuro baronete, Elizabeth havia decidido desposá-lo, e seu pai sem pre tivera a intenção de que assim fosse. Eles não conheceram William durante a infância; logo após a m orte de Lady Elliot, porém , Sir Walter havia procurado estreitar os laços, e, em bora suas iniciativas não tivessem sido acolhidas com qualquer efusão, havia insistido nelas, atribuindo a frieza à m odéstia e ao acanham ento da j uventude; assim , durante um a de suas tem poradas prim averis em Londres, quando Elizabeth estava no prim eiro auge da beleza, sr. Elliot havia sido forçado a conhecer a fam ília.
Na época, ele era um rapaz m uito j ovem , recém -ingressado no estudo do direito, e Elizabeth o considerou extrem am ente agradável, e todos os planos em relação a ele se confirm aram . Ele foi convidado a Kelly nch Hall, o que deu m argens a conversas e expectativas durante o resto do ano, m as nunca apareceu. Na prim avera seguinte, tornou a ser visto na cidade, foi considerado igualm ente agradável e novam ente solicitado, convidado e aguardado, e novam ente não apareceu; e a notícia seguinte foi que havia se casado. Em vez de aum entar seu prestígio no cam inho traçado para o herdeiro da casa dos Elliot, ele havia conquistado independência unindo-se a um a m ulher rica de baixa extração.
Sir Walter ficara ofendido. Com o chefe da casa, sentia que deveria ter sido consultado, sobretudo depois de ter tentado conduzir o rapaz de form a tão ostensiva: “Pois nós devem os ter sido vistos j untos”, observou, “um a vez em
Tattersall 15 e duas vezes no saguão da Câm ara dos Com uns.” Seu desagrado foi m anifestado, m as aparentem ente m uito pouco levado em conta. O sr. Elliot não havia feito qualquer tentativa de se desculpar e m ostrara-se tão indiferente ao fato de não ser m ais alvo do interesse da fam ília quanto Sir Walter o considerava indigno de tal interesse; e toda relação entre eles havia cessado.
Muitos anos depois, esse constrangedor episódio com o sr. Elliot ainda causava raiva em Elizabeth, que havia apreciado o rapaz pelo que era, e m ais ainda por ser herdeiro de seu pai, e cuj o forte orgulho fam iliar só conseguia ver nele um pretendente à altura da prim ogênita de Sir Walter Elliot. Não havia nenhum baronete, de A a Z, que os seus sentim entos pudessem ter reconhecido tão facilm ente com o seu sem elhante. No entanto, ele havia se com portado de form a tão lam entável que, em bora atualm ente (no verão de 1814) Elizabeth estivesse
usando fitas pretas por sua esposa, 16 nem sequer cogitava tornar a gratificá-lo com sua consideração. A desgraça daquele prim eiro casam ento, um a vez que não havia m otivos para supor que houvesse sido perpetuado por filhos, poderia ter sido superada caso ele não tivesse feito coisa ainda pior; no entanto, conform e haviam sido inform ados pela costum eira intervenção de gentis am igos, ele havia se referido à fam ília toda de form a m uito desrespeitosa, m enosprezando e desdenhando o próprio sangue e as honrarias que posteriorm ente seriam as suas próprias. E para isso não podia haver perdão.
Eram esses os sentim entos e as sensações de Elizabeth Elliot; essas as preocupações que tem peravam e as agitações que anim avam a m esm ice e a elegância, a prosperidade e o vazio de sua vida; esses os sentim entos que davam colorido à longa e tediosa residência em um a m esm a com unidade rural, e preenchiam os tem pos m ortos, na inexistência de um hábito útil fora de casa, um talento ou um a realização dom éstica para ocupá-los.
Agora, porém , a tudo isso vinha se som ar outra ocupação e inquietude. Seu pai estava com eçando a ter problem as financeiros. Ela sabia que agora, quando ele abria o Baronetage, era para espantar do pensam ento as altas contas de seus fornecedores e as desagradáveis insinuações de seu adm inistrador, o sr. Shepherd. Kelly nch era um a propriedade sólida, m as não era condizente com a concepção que Sir Walter fazia do estilo de vida que seu proprietário deveria ter. Quando Lady Elliot ainda era viva, havia m étodo, m oderação e econom ia suficientes para m antê-lo dentro das possibilidades de sua renda; m as todas as considerações desse tipo haviam m orrido j unto com a esposa, e a partir de então ele vinha ultrapassando constantem ente essas possibilidades. Não lhe fora possível gastar m enos: ele nada fizera a não ser o que Sir Walter Elliot tinha a obrigação de fazer; no entanto, por m ais isento de culpa que estivesse, não apenas estava acum ulando m uitas dívidas, com o tam bém ouvindo falar tanto no assunto que se tornou vão tentar esconder, ainda que parcialm ente, a situação da filha por m ais tem po, ainda que parcialm ente. Na últim a prim avera em Londres, ele havia feito algum as alusões ao problem a; chegara até a dizer: “Será que não podem os econom izar? Você consegue pensar em algum artigo no qual possam os econom izar?” E Elizabeth, j ustiça lhe sej a feita, tom ada pelo ardor inicial do alarm e fem inino, havia com eçado a pensar seriam ente no que poderia ser feito, e por fim sugerido duas form as de econom ia: cortar algum as doações de caridade desnecessárias e evitar um a reform a do salão; a isso acrescentou, posteriorm ente, a feliz ideia de não levarem nenhum presente para Anne, com o era o costum e anual. Essas m edidas, porém , por m elhores que fossem em si, não bastaram para sanar o m al, cuj a extensão Sir Walter se viu obrigado a confessar à filha pouco depois. Elizabeth não teve qualquer outra sugestão m ais eficaz. Assim com o o pai, sentia-se m altratada e infeliz, e nenhum dos dois era capaz de im aginar qualquer form a de dim inuir as despesas sem com prom eter a dignidade ou abrir m ão do conforto em que viviam de um a form a que lhes seria im possível de tolerar.
De todas as terras que possuía, Sir Walter só podia dispor de um a pequena
17
parte; no entanto, ainda que tivesse sido possível alienar todos os seus hectares,
isso não teria feito a m enor diferença. Aceitara hipotecar até onde podia, m as j am ais aceitaria vender. Não, j am ais causaria tam anha desgraça ao próprio nom e. A propriedade de Kelly nch seria transm itida íntegra e com pleta, com o ele a havia recebido.
Os dois am igos e confidentes da fam ília, o sr. Shepherd, que m orava na cidade vizinha, e Lady Russell, foram cham ados para aj udar; e am bos, pai e filha, pareciam esperar que um ou outro conseguisse encontrar algum a solução capaz de elim inar o constrangim ento e reduzir as despesas sem acarretar a perda de qualquer satisfação do gosto ou prazer.
CAPÍTULO 2
Fossem quais fossem sua influência e opinião acerca de Sir Walter, o sr. Shepherd, advogado cortês e cauteloso, preferia que a sugestão desagradável fosse feita por outra pessoa, preferia se abster de qualquer pronunciam ento e apenas pediu licença para recom endar um a referência im plícita ao excelente j uízo de Lady Russell, em cuj o notório bom -senso tinha plena confiança para o aconselham ento j ustam ente das m edidas resolutas que pretendia adotar em últim a instância.
Lady Russell dem onstrou um zelo aflito em relação ao assunto, que considerou com grande seriedade. Era um a m ulher de qualidades sólidas m ais do que rápidas, e teve grande dificuldade para tom ar um a decisão na questão devido à oposição de dois princípios im portantes. Ela própria possuía um a firm e integridade e um a delicada noção de honra, m as tinha tanto desej o de poupar os sentim entos de Sir Walter, tanta preocupação com a reputação da fam ília e tanta nobreza na avaliação do que lhes era devido quanto poderia ter qualquer pessoa dotada de bom -senso e honestidade. Era um a m ulher benevolente, caridosa e boa, capaz de estabelecer vínculos fortes, m uito correta em sua conduta, rígida em sua concepção do decoro, e seus m odos eram considerados um a referência da boa estirpe. Possuía um espírito culto, e de m odo geral sem pre se m ostrava racional e lógica; tinha, porém , alguns preconceitos no que dizia respeito à hereditariedade: sua valorização da posição e do prestígio social a tornavam cega para os defeitos de quem os possuísse. Viúva de um reles cavaleiro, dava ao título de baronete todo o valor que este m erecia; e Sir Walter, pelo sim ples fato de ser Sir Walter, independentem ente de ser um velho conhecido, vizinho atencioso,
18
senhorio prestativo, m arido de sua querida am iga e pai de Anne e das irm ãs,
era, em sua concepção, m erecedor de im ensas doses de com paixão e consideração em m eio às dificuldades que atravessava.
Precisavam econom izar, disto não havia dúvida. Mas Lady Russell fazia questão de que isso causasse a m enor dor possível para Sir Walter e Elizabeth. Traçou planos para a contenção de gastos, realizou cálculos exatos e fez o que m ais ninguém pensou em fazer: consultou Anne, que os outros nunca pareciam pensar que tivesse qualquer interesse na questão. Consultou Anne, e foi em grande m edida influenciada por ela na elaboração do plano de econom ias finalm ente apresentado a Sir Walter. Todas as alterações de Anne haviam privilegiado a honestidade em detrim ento da im portância. Ela defendia m edidas m ais vigorosas, um a reform a m ais am pla, um a quitação m ais rápida das dívidas, um tom bem m ais enfático de indiferença em relação a tudo que não fosse j ustiça e equidade.
– Se conseguirm os persuadir seu pai de tudo isso – disse Lady Russell ao exam inar o papel –, m uito poderá ser feito. Se ele adotar estas regras, daqui a sete anos estará livre de dívidas. E espero que consigam os convencê-lo, e a Elizabeth de que Kelly nch Hall possui um a respeitabilidade intrínseca que não pode ser afetada por essas reduções, e que a verdadeira dignidade de Sir Walter Elliot não será de form a algum a com prom etida aos olhos das pessoas sensatas pelo fato de ele agir com o um hom em de princípios. Afinal, o que ele estará fazendo que m uitas de nossas prim eiras fam ílias j á não fizeram ou deveriam fazer? Não haverá nada de singular em seu caso, e aquilo que m uitas vezes constitui a pior parte de nosso sofrim ento, assim com o sem pre constitui a pior parte de nossa conduta, é a singularidade. Tenho grandes esperanças de que irem os superar isso. Precisam os ser sérios e decididos; afinal de contas, quem contraiu dívidas deve pagá-las. E, em bora os sentim entos de um cavalheiro e chefe de fam ília com o seu pai devam ser levados em conta, deve ser levado em conta m ais ainda o caráter de um hom em honesto.
Era segundo esse princípio que Anne desej ava ver o pai se com portar e os am igos do pai o incentivarem a agir. Ela achava que era dever indispensável do pai sanar as dívidas j unto a seus credores com toda a rapidez que as m ais am plas econom ias pudessem garantir, e não considerava digna qualquer outra atitude. Queria que isso fosse prescrito e entendido com o um dever. Tinha a influência de Lady Russell em alta conta; quanto ao severo grau de privações ditado pela própria consciência, im aginava que não seria m uito m ais difícil persuadi-los a fazer um a reform a com pleta do que um a reform a parcial. O conhecim ento que tinha do pai e de Elizabeth a levava a pensar que o sacrifício de um a parelha de cavalos não seria m uito m enos doloroso do que o de duas, e assim por diante, na lista de reduções excessivam ente branda elaborada por Lady Russell.
Pouco im porta com o as requisições m ais rígidas de Anne poderiam ter sido recebidas. As de Lady Russell não tiveram nenhum sucesso; não podiam ser toleradas, não seriam suportadas. “O quê? Todos os confortos da vida elim inados! Viagens, Londres, criados, cavalos, com ida… reduções e restrições por toda parte! Viver sem ter nem sequer as decências de um m odesto cavalheiro! Não, ele preferia deixar Kelly nch Hall na m esm a hora a perm anecer ali em condições tão degradantes.”
“Deixar Kelly nch Hall.” A sugestão foi aceita na hora pelo sr. Shepherd, que tinha interesse na concretização das econom ias de Sir Walter e estava inteiram ente convencido de que nada seria feito sem um a m udança de residência. “Um a vez que a ideia tinha sido iniciada pelo próprio indivíduo que deveria ditar as ordens”, ele não tinha escrúpulos, afirm ou, para se confessar totalm ente favorável a essa opinião. Não lhe parecia que Sir Walter “fosse capaz de alterar substancialm ente o seu estilo de vida em um a casa que precisava m anter tam anho padrão de hospitalidade e dignidade ancestral. Em qualquer outro lugar, Sir Walter talvez pudesse j ulgar por si m esm o, e ser respeitado ao regular seu m odo de viver da m aneira que j ulgasse m ais adequada para adm inistrar seu lar.”
Sir Walter iria deixar Kelly nch Hall, e após m ais uns poucos dias de dúvida e indecisão a grande questão de para onde ele iria ficou resolvida e o prim eiro esboço dessa im portante m udança foi traçado.
Eram três as alternativas: Londres, Bath ou outra casa no cam po. Todos os desej os de Anne tendiam para a últim a opção. Um a pequena casa na m esm a região em que m oravam agora, onde ainda pudessem conviver com Lady Russell, estar perto de Mary e ter o prazer de ainda ver de vez em quando os gram ados e bosques de Kelly nch: tal era o obj eto de sua am bição. Mas o destino habitual de Anne a esperava, e a decisão tom ada foi algo m uito diferente de sua inclinação. Ela não gostava de Bath, não achava que a cidade lhe fizesse bem – e Bath se tornaria o seu novo lar.
No início, Sir Walter se m ostrara m ais inclinado a se m udar para Londres, m as o sr. Shepherd pensava que não seria possível confiar nele em Londres, e tivera habilidade suficiente para persuadi-lo a não ir e a preferir Bath. Tratava-se de um lugar bem m ais seguro para um cavalheiro em sua difícil situação: lá ele poderia ser im portante a um custo com parativam ente m ais baixo. Naturalm ente, todo o peso possível havia sido atribuído a duas vantagens m ateriais de Bath em relação a Londres: a distância m ais conveniente de Kelly nch, apenas oitenta quilôm etros, e o fato de Lady Russell passar parte de cada inverno na cidade. E, para grande satisfação de Lady Russell, cuj as prim eiras opiniões em relação à m udança prevista haviam favorecido Bath, Sir Walter e Elizabeth foram induzidos a crer que não iriam perder nem prestígio nem prazer ao se instalar ali.
Lady Russell se sentiu obrigada a contrariar os desej os expressos de sua querida Anne. Esperar que Sir Walter se m udasse para um a casinha em sua própria região seria dem ais. A própria Anne teria considerado as hum ilhações decorrentes do fato m aiores do que o previsto, e para Sir Walter estas devem ter parecido insuportáveis. A antipatia de Anne por Bath, por sua vez, era considerada por Lady Russell um preconceito e um erro oriundos, em prim eiro lugar, do fato de ela ter cursado três anos de escola na cidade após a m orte da m ãe e, em segundo lugar, do fato de Anne não ter se m ostrado m uito bem -disposta durante o único inverno passado posteriorm ente ali em sua com panhia.
Em sum a, Lady Russell gostava de Bath, e estava inclinada a pensar que a cidade se adequaria bem às necessidades de toda a fam ília; quanto à saúde de sua j ovem am iga, qualquer perigo poderia ser evitado se Anne viesse passar os
m eses m ais quentes na com panhia de Lady Russell, em Kelly nch Lodge; 19 e essa era, na realidade, um a m udança que deveria fazer bem tanto à sua saúde quanto ao seu ânim o. Anne havia passado m uito pouco tem po fora de casa, e visto m uito pouco do m undo. Não andava m uito bem -disposta. Um círculo social m ais am plo lhe faria bem . Lady Russell queria que ela fosse m ais conhecida.
Para Sir Walter, o caráter indesej ável de qualquer outra casa na m esm a redondeza certam ente foi m uito fortalecido por um aspecto da com binação, e um aspecto m uito concreto, que tinha sido decidido sem qualquer polêm ica desde o princípio. Sir Walter não iria apenas deixar a casa, m as tam bém iria vê-la ocupada por outros: tratava-se de um desafio à sua resistência que hom ens m ais firm es do que ele não haviam conseguido suportar. Isso, porém , era um grande segredo, que não deveria ser revelado fora de seu círculo.
Sir Walter não teria suportado a hum ilhação de que os outros soubessem que havia se rebaixado a alugar a própria casa. O sr. Shepherd havia pronunciado um a vez a palavra “anunciar”, m as nunca m ais se atrevera a tocar no assunto. Sir Walter recusava a ideia de a casa ser anunciada de qualquer form a que fosse, proibia qualquer sugestão de que tivesse tal intenção, e só a alugaria caso fosse procurado espontaneam ente por algum candidato irrecusável, segundo suas próprias palavras, e com o um grandessíssim o favor.
Com o surgem depressa os m otivos para aprovar aquilo que nos agrada! Lady Russell tinha outro excelente m otivo para estar extrem am ente satisfeita com o fato de Sir Walter e sua fam ília se m udarem do cam po. Ultim am ente, Elizabeth vinha estreitando um a am izade que Lady Russell desej ava interrom per. A am iga em questão era um a das filhas do sr. Shepherd que, depois de um casam ento m al-sucedido, tinha voltado para a casa do pai com o fardo suplem entar de dois filhos. Era um a j ovem esperta, que entendia a arte de agradar – ou pelo m enos a arte de agradar em Kelly nch Hall –, e que havia conseguido se fazer tão aceitável aos olhos da srta. Elliot a ponto de j á ter se hospedado na casa m ais de um a vez, isso apesar de todas as sugestões de cautela e reserva de Lady Russell, para quem essa am izade era um tanto inadequada.
Lady Russell, de fato, não tinha quase nenhum a influência sobre Elizabeth, e parecia am á-la porque assim desej ava, e não porque Elizabeth m erecesse. Nunca havia recebido da m oça m ais do que um a atenção superficial, nada além do respeito às norm as da boa educação; j am ais conseguira persuadir Elizabeth de qualquer coisa quando sua inclinação prévia era contrária. Tinha se m ostrado diversas vezes m uito enfática ao tentar incluir Anne na viagem a Londres, m uito sensível a toda a inj ustiça e a todo o descrédito dos arranj os egoístas que a excluíam e, em m uitas ocasiões de m enor im portância, tinha tentado beneficiar Elizabeth com as vantagens de seu próprio j uízo e experiência superiores. Mas tudo havia sido sem pre em vão: Elizabeth só fazia o que queria, e em nenhum a ocasião havia se m ostrado m ais decidida em sua oposição a Lady Russell do que naquela questão relacionada à sra. Clay, virando as costas à relação com um a irm ã tão m erecedora e depositando seu afeto e confiança em um a m ulher que nada deveria ter sido para ela a não ser obj eto de um a civilidade distante.
Na opinião de Lady Russell, a sra. Clay era um a com panhia m uito desigual por sua posição social e m uito perigosa por seu caráter, e um a m udança que deixasse a sra. Clay para trás e proporcionasse à srta. Elliot um leque de am igas m ais adequadas era um a questão de sum a im portância.
CAPÍTULO 3
– Com sua licença, Sir Walter – disse o sr. Shepherd certo dia de m anhã em Kelly nch Hall, enquanto pousava o j ornal –, devo observar que a atual
conj untura em m uito nos favorece. Essa paz 20 trará de volta para casa todos os nossos ricos oficiais da Marinha. Todos eles vão querer um a residência. Não poderia haver m om ento m ais propício para se escolher um inquilino, Sir Walter, e um inquilino m uito responsável. Muitas nobres fortunas foram feitas durante a guerra. Se algum rico alm irante cruzasse o seu cam inho, Sir Walter…
– Ele seria um hom em de m uita sorte, Shepherd, é tudo o que tenho a com entar – retrucou Sir Walter. – Kelly nch Hall seria m esm o um bônus para um hom em assim ; na verdade, seria o m aior de todos, m esm o que ele j á tenha
21
conquistado m uitos outros no m ar. Não é m esm o, Shepherd?
O sr. Shepherd riu do com entário espirituoso, com o sabia que deveria rir, e logo acrescentou:
– Perm ita-m e observar, Sir Walter, que, em se tratando de negócios, os cavalheiros da Marinha são m uito bons de se lidar. Tenho algum conhecim ento de seus m étodos de fazer negócios, e posso afirm ar que eles têm ideias m uito liberais, e que provavelm ente seriam inquilinos m ais desej áveis do que qualquer outro grupo que se pudesse encontrar. Assim sendo, Sir Walter, o que eu gostaria de pedir perm issão para sugerir é que, caso algum boato sobre as suas intenções se espalhe, possibilidade essa que deve ser contem plada, pois sabem os com o é difícil proteger as ações e os propósitos de um a parte do m undo da atenção e da curiosidade da outra… O prestígio tem lá o seu preço… Eu, John Shepherd, seria capaz de ocultar qualquer questão fam iliar que desej asse, pois ninguém se daria ao trabalho de m e vigiar, m as Sir Walter Elliot tem olhos a observá-lo que talvez sej am m uito difíceis de evitar. Assim sendo, tom arei a liberdade de afirm ar que não ficaria m uito surpreso se, apesar de toda a nossa cautela, algum boato em relação à verdade se espalhasse. Caso isso aconteça, com o eu estava prestes a observar, j á que as candidaturas serão inevitáveis, penso que qualquer um de nossos ricos com andantes navais seria um candidato particularm ente digno de atenção. Perm ita-m e dizer, ainda, que a qualquer m om ento eu levaria apenas duas horas para estar aqui, de m odo que o senhor não precisaria ter o trabalho de responder.
Sir Walter apenas m eneou a cabeça. Logo depois, no entanto, levantou-se e pôs-se a andar pela sala enquanto observava com sarcasm o:
– Im agino que sej am poucos os cavalheiros da Marinha que não ficariam surpresos ao se verem dentro de um a casa com o esta.
– Eles sem dúvida olhariam em volta e dariam graças à sua boa sorte – com entou a sra. Clay, pois ela tam bém estava presente: o pai a tinha levado até lá, pois nada fazia tanto bem à saúde da sra. Clay quanto um a visita a Kelly nch. – Mas concordo com a opinião de m eu pai de que um m em bro da Marinha talvez sej a um inquilino m uito desej ável. Já conheci vários m em bros da profissão: além de generosos, são m uito ordeiros e cuidadosos em tudo! Esses seus quadros caros, Sir Elliot, estariam totalm ente seguros caso o senhor decida deixá-los aqui. Tudo na casa e à sua volta ficaria m uito bem -cuidado! Os j ardins e os arbustos seriam m antidos em condição quase tão perfeita quanto agora. Não precisa tem er que os seus lindos canteiros de flores fiquem abandonados, srta. Elliot.
– Com relação a tudo isso – retrucou Sir Walter com frieza –, supondo que eu aceitasse alugar a casa, de form a algum a decidi que privilégios anexaria ao aluguel. Não estou particularm ente inclinado a favorecer um inquilino. O terreno de caça ficaria à sua disposição, é claro, e poucos são os oficiais da Marinha ou hom ens de qualquer outra condição que j am ais puderam gozar de tam anho espaço, m as as restrições que eu poderia im por ao uso do j ardim são outra história. Não gosto da ideia de os m eus arbustos poderem estar sem pre ao alcance de todos; e m eu conselho à srta. Elliot seria tom ar cuidado com seu canteiro de flores. Estou m uito pouco inclinado a conceder qualquer favor extraordinário a um inquilino de Kelly nch Hall, isso eu lhe garanto, sej a ele m arinheiro ou soldado.
Depois de um a curta pausa, o sr. Shepherd se atreveu a dizer:
– Em relação a todos esses porm enores, existem procedim entos estabelecidos que tornam tudo sim ples e fácil entre proprietário e inquilino. Seus interesses estão em boas m ãos, Sir Walter. Pode contar com igo para cuidar que nenhum inquilino obtenha m ais do que aquilo a que tem direito. Atrevo-m e a dizer que Sir Walter Elliot não poderia ter nem m etade do cuidado com a sua propriedade que John Shepherd terá por ele.
Anne então falou:
22
– Eu acho que a Marinha, que tanto fez por nós, tem pelo m enos os m esm os
direitos que qualquer outro grupo de hom ens a todos os confortos e privilégios que qualquer casa possa proporcionar. Todos precisam os adm itir que os m arinheiros trabalham duro para m erecer seu conforto.
“É verdade, é verdade. O que a srta. Anne está dizendo é a pura verdade” foi o com entário do sr. Shepherd, enquanto o de sua filha foi “Ah, sim , com certeza!” Pouco depois, no entanto, o com entário de Sir Walter foi:
– A profissão tem lá a sua utilidade, m as eu ficaria triste em ver algum am igo m eu se dedicando a ela.
– É m esm o? – foi a resposta, e com um a expressão de espanto.
– Sim . A profissão m e desagrada em dois pontos; tenho duas fortes obj eções a ela. Em prim eiro lugar, ela perm ite a pessoas de berço obscuro obter um a distinção im erecida, e dá a certos hom ens acesso a honrarias com as quais seus pais e avôs nem sequer sonharam . Em segundo lugar, interrom pe de form a terrível a j uventude e o vigor de um hom em : os m em bros da Marinha envelhecem antes de qualquer outro. Pude observar isso a vida inteira. Na Marinha, um hom em corre m ais risco do que em qualquer outra profissão de ser insultado pela ascensão de outro com cuj o pai o seu talvez tivesse desdenhado falar, e de se tornar ele próprio prem aturam ente um obj eto de repulsa. Certo dia na cidade, na prim avera passada, encontrei dois hom ens que são exem plos notáveis do que estou dizendo: lorde St. Ives, cuj o pai, todos sabem os, foi um cura de zona rural que não tinha onde cair m orto… Pois tive que dar passagem a St. Ives e a um certo alm irante Baldwin, a criatura de aspecto m ais deplorável que se possa im aginar: um rosto da m esm a cor do m ogno, grosseiro e m altratado até o últim o grau, cheio de rugas e vincos, nove fios de cabelo grisalho em um dos lados da cabeça e apenas um leve toque de pó de arroz no topo. “Pelo am or de Deus, quem é esse velho?”, perguntei a um am igo m eu que estava por perto (Sir Basil Morley ). “Velho?!”, exclam ou Sir Basil, “Aquele ali é o alm irante Baldwin. Quantos anos acha que ele tem ?” “Sessenta”, respondi, “ou talvez sessenta e dois.” “Quarenta”, retrucou Sir Basil, “apenas quarenta anos”. Im aginem o m eu assom bro: não vou esquecer o alm irante Baldwin tão cedo. Nunca vi exem plo tão lam entável do que um a vida no m ar é capaz de fazer; no entanto, em certa m edida, sei que é o m esm o para todos eles, são todos castigados e expostos a todo tipo de intem périe e a todo tipo de clim a até ficarem totalm ente arruinados. É um a pena que não lhes deem um a paulada na cabeça logo de um a vez antes de chegarem à idade do alm irante Baldwin.
– Ora, Sir Walter, quanta severidade – exclam ou a sra. Clay. – Tenha um pouco de com paixão do pobre coitado. Nem todos nascem os para ser bonitos. Com certeza o m ar não é um grande em belezador; os que nele trabalham de fato envelhecem antes da hora. Já observei isso m uitas vezes: eles logo perdem o ar de j uventude. Mas não acontece o m esm o nas outras profissões, talvez na m aioria delas? Os soldados da ativa não têm m elhor sorte, e até m esm o as profissões m ais tranquilas exigem trabalho e esforço da m ente, quando não do corpo, que raram ente deixam a aparência de um hom em à m ercê dos efeitos naturais do tem po. O advogado vive arrastando os pés de tanta preocupação, o m édico não tem hora para dorm ir e viaj a sob qualquer clim a, e até m esm o o sacerdote… – ela se deteve um instante para pensar no que poderia convir ao sacerdote. – Até m esm o o sacerdote, o senhor sabe, é obrigado a frequentar recintos infectados e a expor a saúde e a aparência aos riscos de um am biente venenoso. Na verdade, há m uito j á m e convenci de que, em bora todas as profissões sej am necessárias e honradas à sua m aneira, som ente aqueles que não são obrigados a seguir nenhum a delas, que podem levar um a vida regrada, no cam po, donos do próprio tem po, escolhendo as próprias atividades e m orando em sua própria casa, sem o torm ento de tentar obter m ais, apenas eles, digo eu, podem gozar das bênçãos da saúde e da boa aparência em seu grau m áxim o. Não conheço nenhum outro grupo de hom ens que não perca algo de sua beleza ao deixar a j uventude para trás.
Em suas tentativas de conquistar as boas graças de Sir Walter em relação a ter um oficial da Marinha com o inquilino, o sr. Shepherd parecia ter sido abençoado com um poder de vidência, pois o prim eiro candidato a alugar a casa foi um certo alm irante Croft, com quem ele pouco depois se encontrou enquanto assistia
23
à reunião do tribunal em Taunton. Com efeito, o nom e do alm irante lhe fora sugerido por um conhecido de Londres. Segundo o relatório que ele se apressou em com parecer a Kelly nch para fazer, o alm irante Croft havia nascido em Som ersetshire e, depois de acum ular um a bela fortuna, desej ava fixar residência em sua região natal, e havia ido a Taunton para visitar algum as casas anunciadas nas redondezas im ediatas da cidade, casas estas que não haviam lhe agradado, porém . E depois de ficar sabendo por acaso (j ustam ente com o ele havia previsto, observou o sr. Shepherd, era im possível guardar segredo em relação à situação de Sir Walter), depois de ficar sabendo por acaso da possibilidade de Kelly nch Hall estar disponível para alugar, e um a vez inform ado da sua ligação (ou sej a, do sr. Shepherd) com o proprietário, havia se apresentado a ele para saber m ais detalhes e, no decurso de um a dem orada conversa, expressado um a inclinação tão forte em relação à casa quanto podia ter um hom em que a conhecia apenas pela descrição. E ele dera ao sr. Shepherd, na descrição explícita que fizera de si m esm o, todas as provas de ser um inquilino extrem am ente responsável e satisfatório.
– E quem é o alm irante Croft? – foi a pergunta fria e desconfiada de Sir Walter.
O sr. Shepherd respondeu que o alm irante pertencia a um a fam ília respeitável, e m encionou o nom e de um lugar; e Anne, depois da pequena pausa que se seguiu, acrescentou:
24 25
– Ele é contra-alm irante da esquadra branca. Lutou em Trafalgar, e desde então m ora nas Índias Orientais; acho que j á faz vários anos que está lá.
– Então tenho certeza de que o rosto dele é tão cor de laranj a quanto os punhos
e as capas da libré dos m eus criados 26 – observou Sir Walter.
O sr. Shepherd se apressou em lhe garantir que o alm irante Croft era um hom em m uito saudável, vigoroso e bem -apessoado, um pouco m altratado pelo clim a, decerto, m as não m uito, e um verdadeiro cavalheiro em todas as suas ideias e atitudes. Não era provável que criasse qualquer dificuldade quanto aos term os do aluguel; tudo o que queria era um a casa confortável para onde pudesse se m udar o quanto antes; sabia que precisaria pagar para ter o que queria; sabia o quanto custava um a casa m obiliada desse gabarito; e não teria ficado surpreso caso Sir Walter houvesse pedido um valor m aior; havia perguntado sobre a casa principal; sem dúvida ficaria feliz se tivesse o direito de caçar na propriedade, m as não fazia tanta questão disso, e dissera que de vez em quando saía com a espingarda, m as que nunca m atava: um cavalheiro, sob todos os aspectos.
O sr. Shepherd se m ostrou eloquente em relação ao assunto, enfatizando todas as qualidades da fam ília do alm irante que faziam dele um inquilino particularm ente desej ável. Era casado e não tinha filhos: a condição ideal. Era im possível cuidar bem de um a casa sem o auxílio de um a dam a, observou o sr. Shepherd; e ele não sabia o que faria os m óveis sofrerem m ais, um a casa sem dam a ou um a casa com m uitas crianças. Um a dam a sem filhos era a m elhor conservadora de m óveis do m undo. Ele tam bém tinha visto a sra. Croft; ela estava em Taunton com o alm irante, e estivera presente durante quase todo o tem po em que eles haviam conversado sobre o assunto.
– Pareceu-m e um a dam a m uito cortês, refinada e inteligente – continuou ele. – Fez m ais perguntas sobre a casa, os term os do aluguel e as taxas do que o próprio alm irante, e parecia m ais experiente em m atéria de negócios. Além disso, Sir Walter, descobri que ela tem conexões nesta região além do m arido; é irm ã de um cavalheiro que j á m orou aqui entre nós; foi ela m esm a quem m e disse isso: é irm ã do cavalheiro que m orou em Monkford alguns anos atrás. Ah, m eu Deus, com o era m esm o o nom e dele? Agora não estou m e lem brando, em bora o tenha escutado recentem ente. Penelope, querida, pode m e aj udar a lem brar o nom e do cavalheiro que m orava em Monkford, irm ão da sra. Croft?
Mas a sra. Clay estava tão entretida conversando com a srta. Elliot que não ouviu o pedido do pai.
– Não faço ideia a quem o senhor pode estar se referindo, Shepherd. Não m e lem bro de nenhum cavalheiro que tenha m orado em Monkford desde a época do velho governador Trent.
– Ora! Que estranho! Im agino que eu logo vá esquecer m eu próprio nom e. Um nom e que m e era tão fam iliar… Eu conhecia o cavalheiro tão bem de vista… Devo tê-lo visto um a centena de vezes… Lem bro-m e de que veio m e consultar certa vez em relação a um a invasão por parte de seus vizinhos: um aj udante de fazenda havia entrado em seu pom ar… o m uro foi derrubado… m açãs foram roubadas… o hom em foi pego no ato… E depois, contrariando m eu conselho, ele aceitou um acordo am igável. Muito estranho, m esm o!
Depois de esperar m ais alguns instantes…
– Im agino que estej a se referindo ao sr. Wentworth – disse Anne.
O sr. Shepherd se m ostrou im ensam ente grato.
– Wentworth, isso m esm o! Era o sr. Wentworth. O senhor sabe, Sir Walter, ele foi cura de Monkford por dois ou três anos, j á faz algum tem po. Chegou aqui por volta do ano de —5, acho eu. Tenho certeza de que se lem bra dele.
– Wentworth? Ah, sim ! O sr. Wentworth, cura de Monkford. O senhor m e confundiu ao usar a palavra cavalheiro. Pensei que estivesse falando de algum hom em de posses: eu m e lem bro que o sr. Wentworth era um zé-ninguém , não
tinha relação nenhum a, nem qualquer vínculo com a fam ília Strafford. 27 É de se perguntar com o os nom es de tantos m em bros de nossa nobreza se tornam tão com uns.
Ao perceber que essa ligação com os Croft não surtia nenhum efeito com Sir Walter, o sr. Shepherd não tornou a m encioná-la, e voltou, com todo o zelo, a insistir nas circunstâncias que lhes eram favoráveis da m aneira m ais irrefutável: sua idade, o fato de serem apenas dois e sua fortuna; a alta conta em que tinham colocado Kelly nch Hall e a extrem a preocupação em obter o privilégio de alugar a casa, fazendo parecer que nada era m ais im portante para eles do que a alegria de ser inquilinos de Sir Walter Elliot: um gosto extraordinário, decerto, caso se pudesse supor que eles partilhassem o segredo da rem uneração que Sir Walter j ulgava adequada por parte de um inquilino.
Deu certo, porém , e em bora Sir Walter sem pre fosse olhar com desconfiança qualquer pessoa interessada em m orar naquela casa, e considerá-la infinitam ente afortunada por ter o privilégio de poder alugar Kelly nch Hall m ediante o m ais alto preço, foi convencido a autorizar o sr. Shepherd a seguir adiante com as negociações e autorizou-o a encontrar o alm irante Croft, que ainda estava em Taunton, e m arcar um dia para visitar a casa.