Políticas Internacionais de Saúde na Era Vargas
5. Organizando o trabalho: o exército de 'soldados da borracha'
5. Organizando o trabalho: o
exército de 'soldados da
borracha'
Sabemos que a carência de mão-de-obra impôs-se como um dos
maiores obstáculos ao aumento da produção da borracha natural da Amazônia na época da Guerra. O despovoamento da região, em decorrência da crise da borracha na década de 1910, estendeu-se pelo menos até 1940, ano em que o censo registrou praticamente o mesmo número de habitantes que o apreciado em 1920. Desde o século XIX, a Amazônia atraía migrantes do Nordeste que ou intentavam 'enricar' com as novas oportunidades vislumbradas ou simplesmente fugiam das secas e de sua seqüência de privações. Uma severa seca atingiu, em 1941, áridas regiões do Nordeste, e provocou uma migração espontânea de milhares de nordestinos para a Amazônia, tomando-se uma variável importante para a chamada 'batalha da borracha'.
O Departamento Nacional de Imigração (DNI) logo tratou de
ordenar esse fluxo voluntário de pessoas, recrutando famílias de refugiados no Ceará e Paraíba e fornecendo-lhes a passagem em navios para o Amazonas. Com isto, o DNI objetivava prover assistência às famílias destituídas e fornecer a tão necessária mão-
de-obra para o aumento da produção de borracha. 1 O plano consistia em transportar 4.800 pessoas por mês e, para tanto, estabeleceu-se um posto de embarque em Fortaleza, além de alojamentos em Belém e Manaus. Entretanto, o número de pessoas que assim se dirigiam para o Amazonas ainda estava muito abaixo dos planos iniciais do DNI: entre maio e junho de 1942, apenas
1.800 migrantes passaram pelo alojamento de Belém. 2 No segundo semestre de 1942, uma ameaça veio prejudicar os esforços do DNI: submarinos alemães afundaram diversos navios na costa brasileira e a rota marítima entre Fortaleza e Belém foi fechada. Como resultado, "milha res de migrantes" se amontoavam nos postos de
embarque em Fortaleza, "sujeitos a epidemias". 3
Tornou-se evidente que a política do DNI de transferir grupos
familiares para o Amazonas não proveria a mão-de-obra necessária para a 'batalha da borracha'. Na verdade, a principal preocupação do DNI era providenciar socorro aos retirantes, e não força de trabalho para a indústria da borracha. De fato, nenhuma das pessoas que passaram pelo posto de Belém até junho de 1942 fora trabalhar nos seringais: elas se empregavam nas áreas vizinhas à cidade ou nas regiões agrícolas da estrada de ferro Bragança, no
Pará, onde muitos mantinham relações familiares. 4 Em agosto de 1942, restavam 7.216 migrantes nos alojamentos de Belém e Manaus. Alguns dos que passaram por Manaus dirigiram-se aos seringais; porém, os que entraram por Belém continuaram a buscar
empregos na agricultura familiar. 5 Além disso, a política do DNI de transferir famílias implicava que grande parte dos migrantes se constituísse de mulheres e crianças que não iriam trabalhar como seringueiros, uma função exercida por homens adultos. Dos 650 migrantes abrigados no posto de Belém em junho de 194, 2220 eram menores de 14 anos, enquanto que, do total dos colonos transferidos pelo DNI para o Amazonas, apenas um terço se
compunha por homens adultos. 6 Para somar seringueiros à 'batalha da borracha' seria necessária uma outra estratégia.
Os burocratas
Em agosto de 1942, a Rubber Reserve Corporation (RDC) foi
designada pelo Secretário de Esta do norte-americano para
financiar um programa de migração para o Amazonas.7 Dois meses depois, uma reunião para organizar este programa foi realizada na direção do DNI, no Rio de Janeiro. O número de organizações brasileiras e norte-americanas representadas neste encontro indicava a preocupação com o tema: além do diretor do DNI, estavam presentes dois representantes do Escritório, dois do Sesp, um do governo do Ceará, outro da Comissão de Controle dos
Acordos de Washington e um da RDC.8
Derivou desta reunião a organização do Programa Migração do
Sesp, formalizado em dezembro de 1942, quando a agência e o DNI assinaram um termo de responsabilidade mútua: o DNI recrutaria os migrantes, enquanto o Sesp selecionaria aqueles fisicamente capazes, proveria assistência médica nos postos do DNI e as boas condições sanitárias nos alojamentos. O Programa Migração op rava uma vasta rede de postos de saúde, enfermarias, hospitais, postos de recrutamento e hospedarias nos estados do Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Pará, Piauí e Amazonas. O antropólogo norte-americano Charles Wagley, então funcionário do Escritório, foi nomeado o primeiro diretor do Programa de Migração
do Sesp (Bastos, 1993). 9
Com recursos da RDC, o governo brasileiro criou duas outras
agências com o encargo de cuidar da migração de homens adultos para a Amazônia. O Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta), fundado em novembro de 1942, recrutaria 50 mil homens até o fim de maio do ano seguinte
(Green, 1971). 10 Já a Superintendência de Abastecimento do Vale Amazônico (Sava), concebida em dezembro de 1942, receberia os recrutados em Belém e os distribuiria pelas áreas produtoras de borracha do vale. Atentando para a preocupação com o trabalhador brasileiro, enfatizada pelo discurso oficial do Estado Novo, o acordo que a Sava assinou com a RDC estabelecia que os migrantes seriam encaminhados para "qualificados seringalistas", e estariam
"sob proteção de toda a legislação civil e do trabalho". 11 Esta proliferação de agências com tarefas distintas mas conflitantes acabou acarretando muitos problemas para o Programa Migração.
O Programa de Migração do Sesp expandiu-se a partir de acordo
assinado com o Semta. 12 Diferentemente de contrato anterior assinado com o DNI, o Sesp não ficou responsável pelas condições de saúde dos recrutados, tarefa delegada a um grupo de médicos do Semta. Em muitos documentos, no entanto, a incumbência da avaliação médica dos migrantes aparece compartilhada por uma
junta de médicos do Sesp e do Semta. 13 Tamanha confusão de competências trouxe prejuízos ao projeto: pelo acordo original, o Sesp estaria obrigado a velar pela saúde dos migrantes "apenas enquanto esses estivessem em trânsito". Com as fronteiras de responsabilidade mal definidas, o Semta concordou em obedecer aos requerimentos sanitários do Sesp nos alojamentos espalhados
do Nordeste à Amazônia.14 Com o fechamento da rota marítima entre Fortaleza e Belém, após o ataque dos submarinos alemães, o transporte dos migrantes seria feito por terra, com uma rede de
alojamentos aptos para escalas durante a longa viagem. 15
O Semta promoveu uma campanha agressiva para recrutar
trabalhadores, mediante o uso de folhetos, cartazes e anúncios em
rádios e jornais.16 O folheto Rumo à Amazônia, terra da fartura é um bom exemplo: exaltava o patriotismo e listava as numerosas vantagens que os migrantes receberiam ao se alistarem no 'exército da borracha', entre as quais o status de 'soldados da borracha', embora estivessem dispensados do serviço militar. As vantagens materiais incluíam o fornecimento de alimentação e alojamento; assistência médica; equipamento para viagem e trabalho;
adiantamento no salário e um auxílio financeiro para suas famílias.17 O Semta também se comprometia com a estruturação das famílias em cooperativas pelas quais receberiam assistência médica, religiosa e econômica, além de garantir meios de contato com os
parentes na Amazônia. 18
O maior atrativo para os potenciais migrantes era o contrato de
trabalho prometido. O Semta assegurava ao migrante que, durante os dois anos no seringal, ele "continuaria sob a proteção do governo". Assegurava-se, além do pagamento de, "pelo menos", 60% do valor da borracha que extraíssem, um 'adiantamento' em alimentos, remédios, roupas, utensílios, ferramentas e armas de caça. Por fim, o contrato estabelecia que o trabalhador poderia dispor de 50% de toda a castanha e a madeira coletadas, teria direito a cultivar um hectare de terra e a toda a caça e o peixe que
se sentisse impelido a obter pelo seu trabalho. 19
O discurso patriótico era fartamente utilizado para angariar o
apoio das autoridades municipais, especialmente prefeitos e párocos. O interventor do Ceará conclamou os prefeitos a ajudar o Semta a recrutar "todos os homens desempregados que queiram ir
para o Amazonas".20 Respondendo a esse apelo, o prefeito de Iguatu, onde o Semta construiu um posto para 1.200 homens, ofereceu os serviços do hospital local. A Igreja Católica, por sua vez, foi persuadida a colaborar, após uma "longa conversa" entre o diretor do Semta, Assis Ribeiro, e o Núncio Apostólico. Selado o entendimento, a Igreja designou o carismático padre Helder Câmara
para chefiar o Departamento de Assistência Religiosa do Semta 21 e encorajar párocos e bispos a cooperarem com o plano de migração, além de prover de assistência religiosa os migrantes e suas
famílias.22 Antes das visitas do recrutador médico do Semta, os vigários das pequenas localidades recebiam de Helder Câmara
explicações sobre o programa e um pedido de apoio. 23
A propaganda e o apoio da Igreja Católica tinham por objetivo
vencer a forte resistência encontrada pelo Programa Migração entre os pequenos comerciantes, as populações e autoridades locais. Os pequenos negociantes temiam a falta de força de trabalho, insistindo
que o governo investisse na região das secas.24 Os trabalhadores, por sua vez, temiam alistar-se, diante de absurdos rumores de que seriam enviados para guerra na África ou comidos pelos índios no
Amazonas ou, ainda, vendidos como escravos nos seringais. 25 Um exemplo desta resistência encontramos na pequena cidade de Aracatu, no Ceará, onde um funcionário público municipal foi acusado de antipatriotismo por espalhar o boato de que os
recrutados na cidade "seriam mandados para a África". 26 Na capital do estado, encontramos o outro lado da moeda: Antônio Fernandes de Albuquerque, desejoso de "contribuir com o patriótico esforço" do Semta, enviou uma carta ao seu diretor acusando os "quinta-colunas" de propalarem "histórias macabras de escravidão, assassinato e rebelião nos seringais". Albuquerque, que se lembrava de, quando criança, ouvir de seu pai essas histórias, argumentava que "esses fatos não mais acontecem", assegurando estarem os "nossos trabalhadores (...) protegidos pelo presidente
Getúlio Vargas". 27
Os migrantes
Primeiro superintendente do Sesp, o médico americano George
Saunders, em face de "violentos rumores" sobre as "deploráveis condições sanitárias e de saúde" das famílias migrantes, comentou, definindo em poucas palavras a situação da maioria dos recrutados para o 'exército da borracha':
Eu acredito que são apenas rumores e, embora as condições pudessem
ser melhores, elas não são de todo más. Para começar, essas pessoas
representam o mais baixo estrato social – a maioria deles não têm um
tostão, estão mal vestidos e são quase todos subnutridos (...), muito
provavelmente eles não têm nada além da sua tuberculose para
compartilhar.28
Primeiro diretor do Programa Migração, Charles Wagley procurou
conhecer com precisão os refugiados da seca, empreendendo uma viagem de cinco dias pelo sudoeste do Ceará e oeste da Paraíba. Entrevistou cidadãos e autoridades locais, além dos próprios refugiados, para produzir um relatório sobre a seca do Ceará e seus efeitos sobre os refugiados e o Programa. Wagley demonstrou que o espectro social dos afetados pela seca variava "do pequeno comerciante que perdeu o seu negócio até o refugiado nômade que está realmente morrendo de fome", e identificou dois grupos mais afetados, que deveriam ser alvos prioritários do Programa. O primeiro grupo, que Wagley chamou de 'verdadeiramente flagelados', era composto por um grande número de pequenos proprietários (small farmers, no original) e suas famílias, todos forçados a abandonar suas propriedades. Deste grupo, cerca de 18 mil homens estavam empregados pelo governo federal na construção de estradas. Computando os seus familiares, Wagley calculava que essa população alcançava 80 mil pessoas. Os contratados pelo governo para obras emergenciais recebiam diariamente 4$000 em moeda brasileira, o equivalente a vinte centavos de dólar. Aqueles suficientemente 'afortunados' para ganhar esse salário podiam comprar os principais itens da pobre dieta local: um quilo de feijão, um quilo de farinha de mandioca e urna rapadura.
O segundo grupo, calculado em torno de 100 mil pessoas, era
composto por aqueles que, forçados a abandonar suas casas, peregrinavam pelas estradas, sujeitando-se à caridade pública. Reunidos em grupos nas pequenas vilas, viviam uma existência seminômade, sobrevivendo de esmolas, trabalhos ocasionais ou recebendo alguma ajuda da população. À noite, descansavam sob árvores ou em abrigos providos pela caridade ou autoridade local. Estas pessoas alimentavam-se diariamente de um punhado de farinha de mandioca e um piabá (um pequeno peixe seco). Charles Wagley entrevistou uma família de cinco pessoas que há seis meses vagava de cidade em cidade: eles haviam deixado o Rio Grande do Norte e caminhado até o Ceará, na espera de que chovesse e
pudessem voltar para casa. 29
Apesar de Wagley ter classificado os flagelados de farmers, nem
todos, necessariamente, eram pequenos proprietários, existindo entre eles alguns meeiros e assalariados. A maioria dos migrantes provinha do Ceará, que continha uma população de 2.091.032 habitantes em 1940. Deste número, 515.078 pessoas, 24,63% da população do estado, estavam empregados nas principais atividades econômicas do estado, agricultura e criação de animais. No estado da Paraíba, 28,34% da população também trabalhavam na agricultura e criação, como também o faziam 27,67% da população do Rio Grande do Norte (Brasil, 1947: 14, 17, 19). A maioria da população que trabalhava na agricultura, nestes três estados, era formada por colonos, assalariados ou parceiros, e apenas um pequeno percentual correspondia a proprietários de terras – com menos de cinco hectares (Brasil, 1950). Composta, portanto, de (poucos) pequenos proprietários e de uma maioria de colonos e parceiros, concebia-se a legião de migrantes que se conheceria como os 'soldados da borracha'.
Apesar de Wagley ter diagnosticado a seca como a origem da
tragédia social que ele testemunhou, o flagelo não é o único a influir na migração; esta se origina de uma inter-relação de fatores sociais, ambientais, políticos e econômicos. A ligação evidente entre o fenômeno natural e a quebra da ordem social leva o desastre resultante a ser considerado natural, percepção que freqüentemente obscurece os dilemas econômicos, sociais e políticos que produzem ou exacerbam uma catástrofe ecológica (Ball, 1981).
Além do trabalho de Wagley, outra fonte valiosa sobre os
migrantes achamos no relatório de John Edwards acerca da viagem a bordo do vapor Comandante Ripper que, em abril de 1944, deixou Fortaleza em direção a Belém, levando 988 migrantes. Destes, 508 eram homens solteiros e outras 480 pessoas possuíam famílias, recrutadas pelo DNI. Edwards entrevistou um jovem casal sem filhos do Rio Grande do Norte que, como milhares de outros, fugia da seca. Eles haviam perdido a colheita por dois anos consecutivos e "preferiam o risco do desconhecido do que morrer de fome". Um casal de "negros fortes", com um filho de oito anos, vinha de Iguatú, Ceará. O homem era pequeno proprietário e também_trabalhara numa fábrica de óleo, "mas esta última havia incapacitado a sua mão para qualquer outro trabalho". Por causa da perda recorrente das colheitas e nenhuma perspectiva de trabalho, ele decidiu tentar a sorte no Amazonas. Outro casal de jovens, com um filho de quatro anos, repetiu uma história similar de colheitas e esperanças perdidas. Eles decidiram aventurar-se na viagem, mas não tinham "nenhuma idéia do que o futuro lhes reservava ou onde estavam indo". Caso tocante contou um viúvo com idade entre 55 e 60 anos, mas ainda "forte e saudável": já estabelecido no Amazonas, decidira buscar os seis filhos na Paraíba. Um homem solteiro, também da Parafua, disse a Edwards que tinha 40 anos, apesar "de parecer ter 70 anos". Ele havia deixado a sua cidade natal por causa da seca e
estava disposto a tentar a vida nos seringais da Amazônia.30
O relatório de José Carlos Ribeiro, que foi o segundo diretor do
Programa Migração, nos fornece dados quantitativos sobre os migrantes em 1943.
Tabela 3 – Migrantes recrutados pelo Semta em 194331
Categoria Número % Recrutados para o Amazonas 10.824 100 Desertados, durante a viagem 364 3,3 Categoria Número % Rejeitados ou mortos, sob
responsabilidade do Semta em 64 0,59 Belém
Desertados, em Belém 1.247 11,52 Rejeitados ou mortos, sob
responsabilidade da Sava em 712 6,57 Belém / retornaram às origens/ outros
Entregues pela Sava aos 8.437 77,94 seringais
De Belém, a Sava enviou 5.492 dos recrutados em 1943 para
Manaus, de onde seriam distribuídos pelos seringais do vale, dos quais:
Tabela 4 – Migrantes mandados pela Sava para o alto vale
do Amazonas em 1943
Categoria Número %
Enviados para Manaus 5.492 100
Rejeitados após a chegada 350 6,37
Trabalhando na agricultura 239 4,35
Mortos nos acampamentos 12 0,21
Desertaram 660 12,01
Ainda acampados em Manaus 91 1,65
Enviados para seringais 4.140 75,38
'Infiltrado' entre os 10.824 homens refugiados da seca do
Nordeste e recrutados pelo Semta em 1943 estava um primeiro grupo selecionado entre a população de rua do Rio de Janeiro –
como demonstrado na Tabela 5 –, que fora enviado para o Amazonas após uma campanha para "limpar a cidade" de "gente indesejável", fomentada por um abrigo municipal.
Tabela 5 – Enviados pelo Albergue da Boa
Vontade, no Rio de Janeiro, para o
Semta32
Categoria Número % Homens examinados 1.446 100 Fisicamente capazes 1.242 85,9 Rejeitados 204 14,1
Dos 1.242 selecionados, 1.036 seguiram para o Amazonas e 206
(16,58% dos selecionados) faltaram ao embarque. Vejamos a situação dessa população recrutada no albergue carioca:
Tabela 6 – Situação conjugal, raça
e escolaridade dos 1.242 homens
selecionados pelo Albergue da Boa
Vontade
Categoria Número % Solteiros 1.177 94,76 Casados 52 4,19 Viúvos 13 1,05 Brancos 549 44,20 Pardos 486 39,13 Negros 207 16,66 Alfabetizados 974 78,42 Analfabetos 268 21,58
Este primeiro grupo de homens recrutados no Rio embarcou em
15 de janeiro de 1943 para Fortaleza, onde foram submetidos a exames médicos. Aqueles fisicamente capazes seguiram para São Luis e, de lá, para Belém. Outros grupos de 60 homens percorreriam a mesma rota até o final do mês. Um grupo maior, composto de 300 homens, seguiu em companhia do cineasta Paulo Emílio Salks
Gomes, encarregado de filmar a viagem.33 Dos que chegaram à
Fortaleza, 34 acabariam rejeitados num segundo exame médico34, o caso de João Dantas Amorim, que afirmou estar "passando
necessidades", reclamando o salário "que lhe fora prometido".35 Além dos incapacitados por saúde, 24 outros também foram
despachados de volta ao Rio, por 'insubordinação'.36
A atitude da municipalidade do Rio de Janeiro no recrutamento
desta população de rua repercutiu tão mal que o presidente Vargas ordenou ao ministro João Alberto "tomar conta dos refugiados do Ceará". Vargas referia-se aos 'telegramas alarmantes' de autoridades do Nordeste preocupadas com a instabilidade social na região. Após intervenção de João Alberto junto ao Semta para "solucionar o problema dos refugiados", em janeiro de 1943 a agência inciou o recrutamento no Ceará e, no dia 31 do mesmo mês, seu diretor anunciou o início de uma "marcha para o
Amazonas".37
Paulo Ribeiro, diretor do Semta, reconheceu que o grupo de
homens recrutados no Rio foi o que "deu maior trabalho", ocasionando problemas com as polícias locais e muitas deserções. O pior incidente aconteceu em São Luís, onde houve conflito com a
polícia e muitas prisões por desordem. 38
Os migrantes recrutados eram abrigados e submetidos a exames
pelos médicos do Semta. Algumas doenças motivavam uma recusa definitiva; outras, implicavam o encaminhamento para tratamento do migrante em uma clínica ou hospital do Sesp. Aqueles que adoeciam de forma 'irrecuperável' em viagem eram embarcados de volta, conforme sucedeu com Pedro Soares, em São Luís, e Antônio
Silvestre da Silva, em Teresina.39
Além do recrutamento de homens solteiros realizado pelo Semta,
havia o alistamento de famílias inteiras de imigrantes pelo DNI. Utilizamo-nos, mais uma vez, do relatório de 1943 do diretor do Projeto Migração para coletar dados sobre este segundo grupo:
Tabela 7 – Números e
estados de origem dos
migrantes enviados pelo
DNI para Belém em
1943. 40
Estado Número % CE 6.937 92,96
Estado Número % RN 252 3,37 PB 273 3,65 Total 7.462 100
Como podemos observar, o Ceará foi o estado de onde mais
famílias emigraram, sendo o vale do Jaguaribe e o litoral as
principais regiões de migração (Tabela 8) – não por acaso, exatamente as áreas mais atacadas pela seca de 1941-42. A situação crítica do vale do Jaguaribe foi documentada por Charles Wagley, que registrou ser, naquela região, a "situação (...) bem pior"
que em outras do Ceará.41
Tabela 8 – Migrantes do Ceará em
1943, por regiões.
Região Número % Vale do Jaguaribe 3.414 49,21 Serra Grande 304 4,38 Cariri 313 4,51 Litoral 2.144 30,9 Centro 762 10,98 Total 6.937 100
Após analisar os dados de 1943, Paulo Ribeiro, então diretor do
projeto, ressaltou que o progresso do movimento migratório devia-se mais à seca que "ao esforço do Projeto Migração". Nos primeiros oito meses de 1943, a maioria das famílias recrutadas pelo DNI era composta por refugiados; por volta de agosto, com o início das chuvas no Ceará, começa a mudar o padrão migratório. Gradativamente os flagelados são substituídos por famílias em melhor situação econômica, atraídas pelo Projeto Migração porque "queriam melhorar suas vidas". Muitas famílias maiores optavam por primeiro enviar parentes para a Amazônia, para averiguar as chances de sucesso. Se bem-afortunados, os 'soldados' mandavam
buscar os seus familiares. 42
Alguns sobreviventes do 'exército da borracha' ainda podem ser
eventualmente encontrados. Este foi o caso de Pedro Marcia no de Souza, um ex-seringueiro identificado em 1991 por um grupo de pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz. A equipe o encontrou em Eirunepé, uma vila nas margens do rio Juruá, no Amazonas. Souza nasceu no Ceará, em 1924, e migrou como 'soldado da borracha' em 1943, aos 18 anos. Trabalhou como seringueiro por 29 anos para o seringalista João Conceição, até perder uma perna num acidente. Souza relatou aos pesquisadores que muitos, como ele, "ficaram e fizeram família", e que, apesar de gostar do Amazonas, o
trabalho nos seringais era "cativo" e ele "nunca conseguiu nada".43
A viagem
Cessada a ameaça de submarinos alemães na costa brasileira,
após novembro de 1943, os migrantes voltaram a ser transportados por barco. A viagem entre Fortaleza e a capital do Pará transcorria em cinco dias, era muito desconfortável e o navio freqüentemente embarcava superlotado e com atrasos. John Edwards, acompanhando uma destas viagens, relatou que os migrantes iam a bordo 'abarrotados': mulheres e crianças, na terceira classe; os homens, nos corredores e convés, expostos aos humores do tempo. O médico do Sesp temia o "risco de eventuais doenças contagiosas", pois um navio que comportava um máximo de 800 passageiros trafegava com quase mil pessoas, entre migrantes e
tripulação.44 Apesar de Edwards considerar 'satisfatórias' as condições sanitárias a bordo, ele registrou que o número de privadas era insuficiente e que não existiam condições de banho: mesmo na primeira classe o "chuveiro está seco". Numa outra viagem, as condições descritas não eram melhores, com os trabalhadores "amontoados em um paquete relativamente pequeno"; "poucas horas depois da partida, o convés estava escorregadio de saliva, cascas de frutas, restos de comida e
vômito".45
A negligência com os migrantes era comum e apresentava-se de
diversas formas. Um testemunho informa que 800 trabalhadores aguardavam no porto quando uma violenta chuva desabou e deixou-os ensopados: nesse estado embarcaram, para passar a noite ao relento. Os atrasos se repetiam: certa vez, um navio com capacidade para 280 passageiros demorou seis dias atracado, com mil pessoas a bordo. Durante esse período de espera, 31 pessoas foram retiradas do navio e hospitalizadas; na chegada a Belém, 44 pessoas apresentavam sarampo. Quase nunca havia médico a bordo – guardas sanitários acompanhavam os migrantes. A maioria
das mortes registradas em trânsito eram de crianças. 46
Se a viagem de navio era dura, por terra podia ser ainda pior.
Com o trânsito de navios para Belém suspenso, por causa da ameaça dos submarinos alemães, entre agosto de 1942 e novembro de 1943 os migrantes eram transportados por terra. O percurso iniciava-se depois do exame – num dos postos de recrutamento espalhados por todo o interior do Nordeste – das condições de saúde dos recrutados, em geral péssimas: muitos viajavam
subnutridos, necessitando de cuidados médicos. 47 A primeira etapa da viagem compreendia o trajeto entre o posto de recrutamento e Fortaleza, onde alojamentos do Semta abrigavam os migrantes que aguardavam embarque. Nas pequenas vilas do interior, a partida dos migrantes adquiria um caráter ritualístico, aproveitado como propaganda do Programa: anúncios pela rádio local convidavam a população a se dirigir até a praça central, onde os 'soldados da borracha' eram abençoados pelo pároco e saudados pelo prefeito
ao embarcarem, em caminhão, rumo a Fortaleza.48
A segunda etapa da viagem, entre Fortaleza e Teresina, cumpria-
se de caminhão; de Teresina até São Luís, de trem. Como a jornada era longa e árdua, construiu-se uma rede de alojamentos e postos
de saúde entre Fortaleza e São Luís. 49 O Sesp, de acordo com o contrato com o Semta, era responsável pela assistência médica dos migrantes e pelas condições sanitárias dos alojamentos. Ia-se de Fortaleza a Teresina em comboios de caminhões pela estrada de terra. Cada comboio era composto de seis caminhões, cada um com 35 trabalhadores. Um chefe de comboio era encarregado da viagem, assistido por um chefe de turma, incumbido da disciplina. Um par de guardas sanitários, para uma eventual emergência médica, seguia no último caminhão. Em raras ocasiões um médico acompanhava o comboio. Cada migrante recebia um farnel provido
com rapadura, farinha de mandioca, carne seca e bananas. 50
Os 600 quilômetros que separavam Fortaleza e Teresina eram
cumpridos com duas paradas, sendo a primeira em Sobral, onde havia um posto de recrutamento com capacidade para 800 homens e um posto de trânsito para 500 migrantes. Levava-se cerca de seis horas para percorrer os 244 quilômetros deste percurso inicial, porém freqüentemente ocorriam atrasos provocados pelas más condições da estrada e meios de transporte. Assim, não era incomum que trabalhadores permanecessem na estrada "toda a noite sob chuva e frio". Não por acaso, no alojamento de Tianguá, localizado no topo de uma serra e segunda parada do percurso, fazia-se comum a estadia de migrantes com infecções nas vias respiratórias superiores. Nos 266 quilômetros restantes entre Tianguá e Teresina, a estrada era "uma descida e havia menos vento", porém tais condições tornavam a viagem mais sujeita a acidentes, como o de sete de abril de 1943, quando um caminhão
tombou com 35 homens, "quatro dos quais seriamente feridos".51 De Teresina, embarcava-se num trem para uma jornada de 12 horas até Coroatá, o último alojamento antes de São Luís, de onde se
tomava um navio para Belém e, de lá, outro para Manaus. 52
Transporte era a principal dificuldade para o fluxo contínuo e
regular de migrantes entre os diversos alojamentos. A falta de combustível para os caminhões e a precária situação da estrada de ferro resultavam em muitos alojamentos superlotados, o que
paralisava momentaneamente todo o sistema.53 Em fevereiro de 1944, o posto de embarque de Fortaleza estava completamente
abarrotado de migrantes. 54 O acampamento de Teresina, com capacidade para 1.200 homens, vivia superlotado, em virtude dos atrasos no trem. Em abril de 1943, "muitos trabalhadores esperavam entre três e quatro semanas em Teresina" para tomar o
trem para São Luís, o que provocava muitas deserções. 55 Esta longa espera em alojamentos acima da capacidade não raro causava conflitos entre migrantes e entre estes e a população local,
sendo o campo de Teresina o mais 'indisciplinado'. 56 Também no posto de Coroatá os migrantes amontoavam-se "às centenas por
mais de duas semanas".57 Em São Luís, o alojamento edificado para abrigar 1.200 homens costumava abrigar cerca de dois mil
migrantes. 58
Belém e Manaus igualmente mantinham em seus alojamentos
uma população acima de sua capacidade. O posto de trânsito de Curro, em Belém, pertencente ao DNI, acolhia homens, mulheres e crianças. Apesar de habilitado para receber 600 pessoas, em geral não abrigava menos de 800 migrantes, número que chegava,
eventualmente, a 1.200. 59 Em julho de 1943, o alojamento da Sava de Topanã, em Belém, já além de sua capacidade, esperava a chegada de mais migrantes. A alternativa dos burocratas de plantão foi simplesmente transferir o 'problema' para Manaus, onde o posto de Paredão, com uma capacidade para mil homens, passou a
hospedar 1.510 pessoas naquele mês.60
A alimentação servida aos migrantes variava na quantidade e na
qualidade, de um alojamento para outro. O cardápio, preparado por uma nutricionista, nem sempre era seguido, por falta de ingredientes, desorganização administrativa ou mesmo
negligência. 61 Quando o Semta enviou a nutricionista Maria Novais em viagem de inspeção pelos postos, ela denunciou as "vis condições" de alguns alojamentos, principalmente em Teresina, onde "os trabalhadores estavam à beira de uma greve em virtude da deplorável qualidade das refeições". Novais ficou particularmente chocada com as condições sanitárias da cozinha e com a forma como a comida era servida: "em vasilhas de lavar pratos, numa grande bagunça, como se fosse comida para porcos". Em Prado, a nutricionista aprovou a limpeza da cozinha mas considerou insuficiente a quantidade de alimento servida diariamente para um homem adulto. A nutricionista chegou a ouvir de um grupo: "se esta comida continuar a nos ser fornecida, todos terminaremos no
cemitério".62 Alimentação também era um problema nos campos do DNI. O diretor do alojamento de Pensador, em Manaus, relatou que, enquanto no hospital a comida era "satisfatória", no pouso era tão ruim que "era comum que indivíduos viessem para o hospital, não
por estarem doentes, mas para comerem melhor".63
As condições sanitárias variavam por alojamento, mas em geral
não eram boas e, nos campos superpovoados, podiam tornar-se perigosas. O Sesp considerou os postos do Semta de Fortaleza e
Tianguá como de "excelente condição sanitária". 64 Em contraste, o campo do DNI em Alagadiço, Fortaleza, já foi inaugurado "sob as piores condições"; freqüentemente superpovoado, suas condições
sanitárias só pioravam. 65 Um relatório de setembro de 1944 descreveu o posto de Teresina, com um "espaço saudável e limpo
para se viver". 66 Relatório anterior, no entanto, denunciara as "péssimas condições" do campo, uma descrição compatível com a
informação de sua reiterada superlotação.67 Em São Luís, as péssimas condições sanitárias foram atribuídas pelos médicos "às
atitudes mentais dos próprios migrantes". 68 Estes, com certeza, não compartilhavam dos mesmos conceitos de higiene dos médicos do Semta e do Sesp, porém um programa de educação sanitária parece ter obtido resultados e as condições do campo foram consideradas melhores, posteriormente. No posto do DNI de Curro, em Belém, as condições sanitárias estavam abaixo de qualquer padrão. Apesar de o campo ter sido "aberto temporariamente" numa antiga hospedaria de imigrantes japoneses, funcionou até julho de
1944. 69 No campo da Sava em Manaus as condições sanitárias "não eram satisfatórias", sobretudo em virtude de sua constante
superpovoação. 70
Doenças
A saúde dos migrantes relacionava-se às condições de
alimentação, transporte e de higiene dos alojamentos. Porém, muitos trabalhadores recrutados chegavam aos postos subnutridos,
em "condições físicas terríveis". 71 Identificava-se urna variedade de doenças nos postos de recrutamento e nos diversos alojamentos de trânsito. Entre as mais comuns encontradas nas hospedarias para famílias do DNI estavam as infecções respiratórias, sarampo, caxumba, disenterias, catapora e malária. As crianças, além de sofrerem de sarampo e catapora, estavam ainda sujeitas a subnutrição, doenças digestivas e infecções alimentares. Os adultos não só penavam com as gripes, infecções respiratórias, distúrbios digestivos e malária, mas também as doenças sexualmente
transmissíveis, o sarampo e a catapora.72
Nos alojamentos do DNI, um grande número de crianças
subnutridas eram admitidas diariamente no posto de Alagadiço, em Fortaleza, e imediatamente hospitalizadas. Enquanto há recuperação para uma "boa percentagem" delas, outras "não
respondem ao tratamento de forma nenhuma".73 No início do Programa, quando as obras do posto de Alagadiço não estavam terminadas e suas condições eram ainda piores, o número de crianças doentes "era assustador (...) e o número de mortes muito
alto".74 Desnutrição e intoxicações alimentares correspondiam ao maior quantitativo de óbitos de crianças. O etnocentrismo dos médicos, muitas vezes, fazia-os acusar as mães pelas mortes das crianças. Um médico do Sesp, em Alagadiço, culpou certa vez a dieta que as crianças recebiam das mães, composta de farinha de mandioca e raízes cozidas, como principal razão da intoxicação
alimentar no alojamento. 75 No campo do DNI em Belém, outro médico do Sesp acusou a "ignorância e estupidez" das mães e sua "falta de educação na alimentação infantil" pela morte das
crianças. 76
O diretor do Projeto Migração avaliou que, em virtude da
"alimentação correta", os casos de intoxicação alimentar aguda
tornaram-se raros nos alojamentos do DNJ ao final de 1943.77 Entretanto, apenas em abril de 1944 o número de crianças mortas alcançou 35 no alojamento do DNI em Alagadiço, Fortaleza. Neste campo a população atingira a marca de 1.500 pessoas em arriscada situação: a lotação era de 800. Segundo relatou um médico, vivia-se "em grande promiscuidade" e em falta de lençóis de flanela e cobertores para crianças. Para completar, houve "absoluta falta de leite no hospital por 15 dias, e foi impossível alimentar adequadamente as crianças". Os casos de distúrbios digestivos e intoxicação alimentar aguda abundavam, e "não havia mais espaço
no hospital". 78
Nos campos de homens jovens, as infecções respiratórias eram
responsáveis por mais da metade do número de doenças tratadas
nas enfermarias do Sesp. 79 Os problemas respiratórios apareciam no início da viagem por terra, em função das condições de transporte. De Fortaleza até Teresina, os homens eram transportados nas carrocerias dos caminhões, expostos às chuvas e temperaturas frias da serra. A viagem de trem entre Teresina e São Luís debilitava os trabalhadores, transportados em "vagões quase completamente fechados, em condições climáticas que variavam rapidamente de um sol tropical a uma fria e pesada chuva". Como
resultado, aportavam em São Luís já enfermos ou quase.80
Outro mal comum tratado pelo Sesp nos acampamentos de
adultos jovens, as doenças sexualmente transmissíveis eram consideradas um grave obstáculo para o Programa, porque retiam
centenas de trabalhadores nas enfermarias da rota terrestre.81 Segundo o diretor do Programa, nos campos do Semta e da Sava "a blenorragia era absolutamente preponderante", com as mais altas
taxas se registrando nos alojamentos de Prado e Coroatá.82 O médico do posto do Semta em São Luís relatou que 5% dos migrantes ficavam retidos para tratamento devido a doenças
venéreas.83 Na pequena vila de Coroatá, Maranhão, onde não havia bordéis, o alojamento masculino sempre perfez um alto número de doenças sexualmente transmissíveis. Os médicos do Sesp explicavam este fato por Coroatá ser o alojamento localizado imediatamente após Teresina, onde os prostíbulos eram "um foco de
doenças venéreas". 84 Responsabilizadas as prostitutas pelo crescimento do n mero de casos de doenças venéreas, os burocratas do Sesp e do Semta ergueram pavilhões de isolamento e impuseram tratamento compulsório às mulheres, a ponto de requisitarem força policial para hospitalizar as que resistissem.
Os relatórios do Sesp indicam um aumento na quantidade de
casos em diversos alojamentos, no mês de maio de 1943. No campo de Prado, 176 novos casos foram tratados em apenas uma semana. Em São Luís, o Sesp adotou a política de tratar, além dos migrantes, as mulheres que viviam em torno do acampamento, e de acionar a polícia local para a hospitalização compulsória "dos casos
mais sérios".85
Estas ações derivam da perspectiva masculina dos médicos, para
os quais apenas as mulheres eram culpadas pela difusão das doenças venéreas. Entretanto, em um "relatório confidencial" do Semta, seu diretor reconhecia que o homoerotismo era comum nos alojamentos de jovens migrantes. A solução, proposta para evitar o que ele chamava de 'vícios' entre os jovens migrantes, foi a construção, em cada hospedaria, de uma "pequena capela e um
campo de esportes".86
Também a malária era muito prevalente nos postos e
acampamentos, sendo mais encontrada nas hospedarias de Manaus e Belém, apesar dos casos mais malignos surgirem no posto de Coroatá, Maranhão, onde se registraram 43 casos de
malária 87 falciparum nos primeiros três meses de 1943. No alojamento do DNI em Manaus, um surto de malária atingiu 138 migrantes em maio de 1943, e os números não cessariam de crescer durante o ano. Em dezembro, a incidência de malária era tão alta que todos os funcionários do Sesp, incluindo o médico,
contraíram a doença. A situação não melhoraria no ano seguinte.88 No alojamento de Belém, entretanto, a maioria dos casos de malária não foram contraídos localmente, mas trazidos por seringueiros
retornados das plantações. 89
A maioria dos trabalhadores que retornavam doentes de malária
dos seringais tinha a saúde prejudicada ainda por outras doenças.90 Muitos eram enviados de volta para Fortaleza e, eventualmente, para seus locais de origem. Em novembro de 1943, "muitos migrantes estavam retornando do alto Amazonas em deploráveis condições físicas e muitos mais eram esperados na mesma
condição". 91 Durante o ano de 1944, uma média de 65
trabalhadores retornavam a cada mês. 92 Esse fluxo de retornados prosseguiu nos anos seguintes; no relatório de 1946, registrou-se que os migrantes continuavam a voltar em "extremo estado de
necessidade", atacados por 'catarrão'.93 Estudo clínico do médico Morrison Faria, do Sesp, concluiu que a doença que tanto atacava os seringueiros, por eles batizada de 'catarrão', era na verdade bronquite crônica, adquirida pela aspiração da densa fumaça utilizada no processo de coagulação da seiva da borracha. Uma
doença ocupacional, portanto. 94
Epidemias eventualmente varriam os campos de migrantes,
sendo as de sarampo e tifóide as mais comuns. O mais devastador surto de sarampo, que ocasionou diversas mortes, ocorreu na então superlotada – com algo em torno de três mil pessoas – hospedaria de adultos de Tapanã, Belém, em fevereiro de 1943. Somente no
final deste ano o número de casos cairia a "proporções normais". 95 A tifóide também consistia em um risco constante nos albergues: em Fortaleza, de 37 casos, cinco resultaram em mortes em abril de
1943. 96 A hospedaria mais ameaçada pela tifóide era a de Teresina, onde a única fonte de água era o poluído rio Parnaíba. Para resolver o problema, o Sesp e o Semta contrataram os serviços do Serviço
Federal de Águas e Esgotos. 97
Fator determinante na decisão de fechar a hospedaria do DNI na
cidade e a mais violenta epidemia ocorrida durante o Programa Migração, um surto de meningite devastou os alojamentos de Belém em junho e julho de 1944. Por ser a meningite transmitida pelas vias respiratórias superiores, sem dúvida a epidemia teve seu curso
facilitado pela superlotação.98 A narrativa deixada pelos médicos é típica dos acontecimentos epidêmicos: em 27 de maio de 1944, 921 migrantes chegados de Fortaleza a bordo do navio Comandante Ripper desembarcaram em Belém. Deste grupo, 439 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, foram alojadas na hospedaria de Curro, do DNI, sendo outros 482 trabalhadores mandados para o
alojamento de homens em Tapanã. 99 No dia 5 de junho, uma menina do campo do DNI deu entrada na enfermaria com febre alta e vômito e, apesar de medicada, morreu em poucas horas, antes de um possível diagnóstico. Novos casos com os mesmos sintomas continuaram a se manifestar no dia seguinte, e surgiu entre os médicos do Sesp a suspeita, mais tarde confirmada por exames laboratoriais, de um surto de meningite cérebro-espinhal. Não bastasse a incidência de casos não baixar na hospedaria do DNI, um outro surto irromperia no campo de adultos de Tapanã. Descobriu-se que todas as pessoas infectadas haviam aportado em Belém a bordo do Comandante Ripper, ancorado no dia 27 de maio. O aprofundamento da investigação identificou o foco original na pequena vila de San ta Rita, Paraíba, de onde vieram alguns daqueles migrantes e onde uma epidemia de meningite ocorrera no
início de 1944. 100
As doenças que mais matavam nas estações de pouso eram as
entéricas. A seguir, tuberculose e malária.101 A maioria das mortes acontecia nos alojamentos familiares do DNI, provocadas por diarréias e enterites, o que coincide com a alta ocorrência de mortalidade infantil: jovens e crianças eram os que mais morriam
naquelas hospedarias. 102
Mais burocracia
A diversidade de estruturas envolvidas no recrutamento e
transporte de migrantes, o fracionamento do trabalho e as imprecisões sobre a divisão das responsabilidades levavam a freqüentes conflitos entre as organizações. Os atrasos da Sava na entrega dos migrantes aos seringais provocavam superlotação nos alojamentos do Semta em Belém e Manaus e, daí, acusações recíprocas entre seus funcionários. A costumeira superpopulação nas hospedarias causava crises entre o Sesp – responsável pelo saneamento e cuidados médicos nos pousos – e a Sava e o Semta, as agências incumbidas da administração dos alojamentos.
Um dos problemas mais comuns consistia na sobreposição de
funções e tarefas nos postos. Os médicos do Sesp ignoravam exames realizados pelos médicos do Semta nos postos de recrutamento, e submetiam os migrantes a outra avaliação, o que
suscitava reações. 103 Funcionários do Sesp eximiam-se de responsabilidades pelos cuidados médicos nos postos do Semta,
quando superpovoados. 104 Dois médicos do Semta, depois de uma "séria divergência" com médicos do Sesp no campo de Teresina, reivindicaram a "necessidade urgente" de uma clara definição de
papéis.105 Recorrentes conflitos entre o Sesp e a Sava levaram o diretor do Programa de Migração ao Rio de Janeiro, para estabelecer junto à direção da Sava uma precisa delimitação de funções entre aqueles órgãos. Reclamou, na ocasião: "muito tempo tem sido perdido pelo pessoal de atendimento médico em Belém, resolvendo pequenos desentendimentos e pontos de diferença que
ameaçam as relações" entre as duas agências. 106
Entretanto, muitas vezes os conflitos não eram provocados por
"pequenos pontos de diferença". Em julho de 1943, os responsáveis pelo campo da Sava de Tapanã, Belém, pressionados pela chegada de uma nova turma de migrantes, simplesmente decidiram transferir o problema adiante, enviando todos os homens para o posto de Manaus, já superlotado, o que incitou uma contundente resposta do Sesp, obrigado ao atendimento médico nos campos. Na lógica do Sesp, "o movimento de homens entre os diversos campos" deveria estar sob seu controle, já que "era a única organização capaz de
avaliar as condições sanitárias dos diversos acampamentos". 107
Com este quadro, a Igreja Católica retirou seu apoio ao Projeto: o
padre Helder Câmara não apenas pediu demissão de suas funções
como também aconselhou 9 governo a dissolver o Semta. 108 Diante de tão evidentes problemas, o governo brasileiro optou por diminuir o fluxo do recrutamento e fundir o Semta e a Sava numa única agência: a Comissão Administrativa de Encaminhamento de
Trabalhadores para a Amazônia (Caeta). 109 Em setembro de 1943, os então postos do Semta foram temporariamente fechados, e o Projeto Migração paralisou, à espera das decisões da nova
entidade.110
A Caeta serviu para unificar, sob um único comando, todas as
etapas do processo – do recrutamento à entrega dos trabalhadores aos seringais. Subordinava-se ao DNI, órgão que passou a gestor
do Programa Migração (Alves, 1984).111 A Caeta, como suas antecessoras, também era financiada pela RDC, porém tinha um objetivo mais modesto: enquanto o Semta planejara recrutar 50 mil trabalhadores, à Caeta coube selecionar e transportar 16 mil
migrantes, no ano de 1944.112 Em outubro de 1943, o Sesp e a Caeta acordaram compartilhar obrigações quanto aos cuidados médicos. A Caeta reuniria os migrantes, procederia ao seu exame médico e os abrigaria; nos alojamentos, o tratamento médico e a estrutura sanitária ficariam a cargo do Sesp. Ou seja, um convênio semelhante ao assinado anteriormente com o Semta, porém com uma diferença importante: o novo contrato estipulava que, em caso de superlotação dos alojamentos, a responsabilidade do Sesp
cessaria imediatam ente. 113 Uma das primeiras decisões da Caeta foi a de fechar a rota terrestre e transportar os migrantes por mar, no trecho Fortaleza-Belém.
O fim do Programa Migração
A proximidade do final da Guerra e o não cumprimento de metas
estabelecidas levaram à decisão de extinguir o Programa Migração até dezembro de 1944. Os serviços da Caeta seriam concluídos até meados daquele ano, o recrutamento de homens solteiros seria suspenso e apenas famílias de migrantes seriam transportadas sob a responsabilidade do DNI. A RDC então sugeriu que o programa fosse extinto paulatinamente, "sentindo que esta decisão seria bem
vista pelo governo brasileiro". 114 Do programa originalmente proposto, apenas cinco postos e enfermarias, todos pertencentes ao DNI, permaneceriam em operação. Um novo acordo entre o Sesp, o DNI e a Comissão de Controle dos Acordos de Washington estabeleceu as condições de funcionamento dos cinco postos até dezembro de 1948, quando o projeto foi definitivamente
encerrado.115
Uma das primeiras conseqüências do fim do Programa foi o
desrespeito a qualquer compromisso com os migrantes e suas famílias. Antes mesmo da extinção da Caeta, os já escassos subsídios prometidos pelo Semta às famílias dos recrutados haviam sido cancelados. Em junho de 1944, Irinea Leandro, Ana Maria Espírito Santo, Isabel Belisa, Ana Maria Conceição, Argentina Casta, Maria Luísa e Maria do Carmo, que se autointitulavam 'esposas de soldados da borracha', enviaram um telegrama ao presidente Getúlio Vargas, pedindo sua intervenção. Suspensas as suas pensões pela Caeta, a cada uma só se oferecia uma passagem para que todas fossem encontrar seus maridos na Amazônia. As mulheres recusaram, argumentando que "é impossível aceitar [a oferta] pois não sabemos onde nossos maridos estão". Elas solicitavam a Vargas que encaminhasse sua resposta
ao padre Lauro Pita, a única pessoa em que podiam confiar.116 Em situação semelhante estava Rita Almeida da Silva, que encabeçava um abaixo-assinado em nome de 191 'famílias miseráveis' com quem a Caeta recusava-se a honrar compromissos outrora estabelecidos. O diretor da Caeta propunha transportá-las para a Amazônia, oferecimento recusado pelas mulheres, que "não podiam
se comunicar com seus maridos".117
O projeto de recrutar 'soldados' para a 'batalha da borracha' na
Amazônia resultou numa incontável quantidade de mortes ou perdas de laços familiares. Os dados variam, dependendo da fonte consultada. Em 1947, o jornal Panflêto, ligado ao Partido Comunista, acusou o governo brasileiro pela morte de 30 mil migrantes mandados para o "inferno verde". Já um jornal no Paraguai denunciou que 20 mil pessoas haviam morrido no Amazonas durante a 'batalha da borracha'. O historiador Warren Dean (1987: 104) calculou que entre 17 e 20 mil seringueiros não retornaram aos seus locais de origem, uma perda maior do que a da
Força Expedicionária Brasileira que lutou na Itália.118
Os números, no entanto, parecem superestimados, se tomarmos
em consideração o número total de migrantes enviados para o Amazonas por todas as organizações. Edgard Carone (1976: 281) provavelmente obteve um cálculo bem próximo da realidade, ao estimar em 22.092 o total de migrantes homens recrutados e enviados para a selva. José Carlos Ribeiro, o diretor do Projeto Migração, registrou que 18.286 pessoas foram recrutadas para a Amazônia em 1943. Deste número, 10.824 eram homens jovens alistados pelo Semta e 7.462 eram membros das famílias recrutadas
pelo DNI.119 Se subtrairmos o quantitativo de homens jovens listados por Ribeiro do total de homens calculado por Carone para todo o Programa, teremos 11.268 homens adultos migrantes em 1944, provavelmente os transportados pela Caeta durante este último ano. Se, então, adicionarmos os números dos que migraram em núcleos familiares em 1943, totalizaremos 29.554 migrantes transportados durante o Programa, sem considerarmos aqueles recrutados e transportados em 1944 pelo DNI, sobre os quais não temos dados. É bastante improvável e não há qualquer indicio de que o DNI tenha transportado mais pessoas em 1944 do que no ano anterior. Como vimos, no final de 1943 o número de recrutados começou a decrescer e o Programa foi encerrado em dezembro do ano seguinte. Se formos generosos e apreciarmos que, em 1944, o DNI recrutou e transportou o mesmo número de pessoas que em 1943, teremos mais 6.431 trabalhadores em 1944, o que perfaz um total de 35.995 migrantes para todo o Programa. É muito pouco provável e não temos evidências para afirmar que 30, 20 ou mesmo 17 mil pessoas tenham morrido ao término do processo.
Embora não mensurados com exatidão, finda a Guerra os
desaparecimentos de migrantes na Amazônia repercutiram mal no Brasil e no exterior. Após a queda do Estado Novo e o fim da censura, o Congresso constituinte de 1946 abordou a questão. Instaurou-se uma Comissão de Inquérito da Campanha da Borracha
para investigar a 'batalha da borracha' e suas implicações.120 O ministro João Alberto, chefe da Comissão de Controle dos Acordos de Washington, imputou-se responsável pelo fracasso da 'campanha da borracha', o que, aparentemente, não lhe trouxe
maiores prejuízos.121 Em Washington, o Congresso convocou um alto funcionário do governo para explicar o papel dos Estados Unidos na 'batalha da borracha' e no Programa Migração. O funcionário declarou aos deputados e senadores americanos que "os acordos entre a RDC (...) e as agências brasileiras encarregadas dos programas estabeleciam que estas seriam responsáveis por estes migrantes" (apud Alves, 1984: 101).
Enfim, nesta outra frente de atuação do Sesp no Nordeste durante
a Guerra, o chamado Projeto Migração, não houve nenhuma preocupação com políticas sanitárias de longo prazo. O Programa Migração teve um objetivo imediato: selecionar aqueles fisicamente capazes de trabalhar como seringueiros na 'batalha da borracha' e providenciar tratamento médico aos recrutados. Entretanto, o Projeto Migração produziu um subefeito inesperado, conforme a premissa de que as políticas sanitárias do Sesp serviram de instrumentos do projeto varguista de incorporação de território e expansão da autoridade pública. O Acre, transformado num "imenso seringai", ao final do processo de migração resultante da 'batalha da borracha' apresentou um saldo demográfico positivo (Cardoso & Muller, 1977). Lembremos que, ao declínio da economia exportadora da borracha, na década de 1910, seguiu-se um período de estagnação econômica e demográfica do vale amazônico. Isso mostra que o Projeto Migração, juntamente com o Programa da Amazônia, fez-se acompanhar da retomada da ocupação territorial da Amazônia e de um movimento de diversificação dos interesses econômicos na região, posteriormente, com a criação da SPVEA.