Práticas investigativas em atividade física e saúde

Helio José Bastos Carneiro de Campos · Capítulo 6 de 12

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Práticas investigativas em atividade física e saúde

Mecanismos de atuação do exercício nos níveis de fadiga de pacientes com câncerAline da Silva Adães Motta, Aline Mendonça de Sá e Cloud Kennedy Couto de Sá

Mecanismos de atuação do exercício

nos níveis de fadiga de pacientes com

câncer

 

Aline da Silva Adães Motta

Aline Mendonça de Sá

Cloud Kennedy Couto de Sá

 

Introdução

O câncer está entre as principais causas de morte no mundo, e é um problema cada vez mais frequente. (INCA, 2009) Além de ser uma doença incapacitante, seus tratamentos comumente promovem efeitos colaterais que muitas vezes estão associados a uma fadiga generalizada não restaurada com o repouso. (SCHNEIDER; DENNELVY; CARTER, 2003)

Hoje em dia o tratamento do câncer busca, além da manutenção ou prolongamento da vida, promover a sobrevivência humanizada e com maior qualidade. Para tanto, atrela a qualidade de vida e a autonomia do paciente ao seu nível de aptidão física e capacidade funcional, tendo nos exercícios uma terapia alternativa para aumento das capacidades físicas e combate à fadiga relacionada ao câncer (FRC).

A este respeito, muitas evidências demonstram que o exercício pode atenuar a FRC (SCHWARTZ et al., 2001; BACKER et al., 2008), melhorar a qualidade de vida (OHIRA et al., 2006; HWANG et al., 2008) e diminuir os efeitos adversos vindos das terapias contra o câncer. (ADAMSEN et al., 2009; EVANS, 2007)

Boa parte desses estudos tem demonstrado que muitos dos componentes fisiológicos e psicológicos que culminam na FRC são responsivos ao aumento do nível de exercício. (IRWIN, 2004; GALVÃO et al., 2007; BATTAGLINI et al., 2007; AL-MAJID; WATERS, 2008;) Nestas evidências observam-se programas de exercícios individuais ou em grupo, realizados de forma supervisionada ou semi-supervisionada e variam entre exercício aeróbio, resistido, exercícios de flexibilidade ou uma combinação de ambos.

Embora essas evidências apresentem os efeitos benéficos dos exercícios na prevenção e controle da FRC, os mecanismos celulares e fisiológicos subjacentes à redução da FRC induzida pelo exercício ainda não foram completamente elucidados. Neste estudo, nosso objetivo foi revisar e descrever os mecanismos de atuação do exercício sobre os níveis de Fadiga Relacionada ao Câncer.

 

Metodologia

Este estudo foi elaborado a partir da literatura de bases de dados acadêmicos como o PUBMED, SCIELO, LILACS. Foram usadas combinações das palavras-chave: exercício aeróbio, exercício resistido, fadiga relacionada ao câncer, quimioterapia, radioterapia e avaliação da fadiga, todas com suas respectivas traduções para o inglês.

Foram selecionados os estudos que priorizaram discutir os mecanismos de atuação de qualquer modalidade e intensidade de exercício sobre a FRC ou nas variáveis que interferem neste sintoma (independente do número ou da heterogeneidade das amostras). Assim foram avaliados 27 estudos, sendo 14 experimentais, 12 revisões e 1 metanálise.

Todos os estudos foram avaliados quanto aos objetivos, população (idade, gênero e tipo de câncer), intervenções (modalidade e intensidade do exercício) e desfechos (eficácia das intervenções), além de observadas suas limitações, recomendações e coerência entre proposições, métodos, resultados e conclusões. Mecanismos do exercício na FRC

Embora os estudos analisados tenham mostrado uma considerável associação entre fadiga e exercício, evidenciando que exercício aeróbio e resistido podem efetivamente reduzir a FRC (LUCTKAR-FLUDE et al., 2009; MCNEELY et al., 2006), os mecanismos celulares e fisiológicos subjacentes à redução da fadiga induzida pelo exercício têm sido pouco explorados.

Em geral, programas de exercício aeróbio para indivíduos saudáveis promovem um número de positivas adaptações fisiológicas e psicológicas como o aumento do metabolismo, a melhora da resistência muscular, mudanças positivas na composição corporal, aumento do bem-estar e melhora do humor (BATTAGLINI et al, 2007; WINDSOR et al., 2009), enquanto que o exercício resistido, além de muitos destes benefícios, melhora ainda a força muscular e promove aumento de massa magra (BATTAGLINI et al., 2007), bem como atenua a perda muscular associada com a variedade de condições catabólicas. (ARGILES et al, 1999 apud AL-MAJID et al, 2001)

Alguns estudos propuseram que os mecanismos de atuação do exercício em pessoas saudáveis podem também ser relevantes para pessoas com câncer. Dentre estes mecanismos, Holloszy e Coyle (1984) mostraram que um treino regular de exercício de endurance de intensidade submáxima em sujeitos normais aumenta a resistência muscular e a resistência à fadiga pelo aumento da atividade enzimática mitocondrial, que resulta em um aumento da capacidade oxidativa dos músculos.

Postula-se também que a fadiga possui uma causa central associada ao funcionamento neural. Assim, Jager, Sleijfer e Van der Rijt (2008) sugeriram que a atividade física interfere nos níveis de fadiga por aumentar os níveis plasmáticos e cerebrais de triptofano, com decorrente aumento dos níveis sinápticos de 5-hidroxitriptamina

(serotonina), neurotransmissor implicado na FRC (Figura 1).

FIGURA 1. Possíveis mecanismos do efeito do Exercício

Aeróbico na FRC. Fonte: Jager, Sleijfer e Van der Rijt (2008)

 

Outras linhas ainda sugerem que exercício pode alterar o ciclo da fadiga pela melhora do perfil funcional e da eficiência neuromuscular. A este respeito, Pollock e colaboradores (1998) defendem que o exercício resistido progressivo é um potente estimulante da síntese muscular, endurance, força, sensibilidade à insulina e melhora da funcionalidade física, adaptações que refletem positivamente na manutenção da funcionalidade muitas vezes prejudicada pelo câncer ou pela FRC.

Al-Majid e colaboradores (2008) e Galvão e colaboradores (2007) propuseram que o exercício resistido atenua a perda do músculo esquelético relacionada ao câncer pela supressão da atividade das citocinas pró-inflamatórias e pelo aumento da fosforilação das moléculas sinalizadoras de aminoácido intramuscular. Tal estímulo pode acarretar em maior envolvimento de células satélites com promoção de uma recuperação/estímulo à preservação da massa muscular.

Apesar dessas células se apresentarem geralmente inativas em indivíduos adultos, seu papel associa-se à recuperação e devolução de funcionalidade às células musculares que foram previamente danificadas. Alguns estudos têm mostrado que tensão, sobrecarga de estiramento e liberação de substâncias inflamatórias ou fatores de crescimento produzidos pelo exercício resistido ativam as células satélites, estimulando-as a entrar novamente no ciclo celular e a proliferar, além de suas progênies poderem funcionar para formar novas células musculares. (KADI et al., 2004; KADI et al., 2005; HAWKE; GARRY, 2001)

Outros autores referenciaram que o Fator de Necrose Tumoral (TNF-a) também está envolvido com grande perda de massa muscular. (GREIWE et al., 2001) Tal citocina é produzida por monócitos e macrófagos em resposta a endotoxinas e interleucina-1 (IL-1) e está relacionada com uma variedade de doenças humanas, inclusive câncer. (LOCKSLEY;, KILLEEN; LENARDO, 2001) Possuindo atividade necrotizante contra linhagens de células tumorais, ela ativa leucócitos e tem atividade antitumoral.

Greiwe e colaboradores (2001) demonstraram que esse efeito catabólico da TNF-α pode ser revertido através da realização de um programa de exercício resistido, que induz uma significante diminuição na expressão do RNA-m de TNF-α e, consequentemente, da proteína TNF-α. Tem sido documentado ainda que contrações musculares estimulam a produção e liberação da citocina anti-inflamatória IL-6 em pessoas saudáveis (STARKIE et al., 2003 apud AL-MAJID et al., 2008) e em pessoas com câncer de próstata. (GALVÃO et al., 2007) A IL-6 inibe a produção de TNF-a e IL-1 in vitro (STARKIE et al., 2003 apud AL-MAJID et al., 2008),

o que induz a diminuição da perda muscular (Figura 2). Apesar da maioria desses achados terem sido encontrados em pessoas saudáveis, eles podem ter relevância para pessoas com câncer que participam de um programa de treinamento resistido.

FIGURA 2. Possíveis mecanismos do Efeito do Exercício

Resistido na FRC TRC: Treinamento Contra Resistência; IL-6:

Interleucina-6; IL-1; TNF (x) Fator de Necrose Tumoral - (x);

Fadiga Relacionada ao Cãncer.

Fonte: Jager, Sleijfer e Van der Rijt (2008)

Recentes evidências também sugerem que treinamento resistido pode aumentar a síntese de proteína muscular pelo aumento da fosforilação da molécula sinalizadora de proteína p70S6k, responsável pelo controle da síntese protéica no aumento da massa muscular esquelética. (BOLUYT et al., 1997). Baar e Esser (1999) mostraram que uma série aguda de exercício aumentou a fosforilação da p70S6k após 6 semanas de treino.

Grande parte dessas evidências que sustentam os mecanismos do efeito do exercício sobre os níveis de fadiga quer por sinalização hormonal, por supressão de citocinas ou por aumento de fosforilação de moléculas sinalizadoras de aminoácido intramuscular, foram geradas de estudos com humanos saudáveis. Devido a isso, há ainda uma insatisfação no que se refere à possibilidade de mecanismos semelhantes acontecerem em pessoas com câncer, o que torna necessário o desenvolvimento de novos estudos para o preenchimento de tais lacunas. (HEADLEY; OWNBY; JOHN, 2004)

 

Conclusão

A FRC é extremamente prevalente e marca de forma negativa a vida de pessoas com câncer. Devido a isso, um considerável número de evidências têm descrito sua etiologia com o fim de auxiliar os profissionais na construção de ferramentas que diminuam os efeitos desse sintoma e melhorem a qualidade de vida dos pacientes. Com o avanço dessas informações e com evidências de que a perda muscular é um dos principais promotores da FRC, o desenvolvimento de pesquisas envolvendo exercícios físicos começou a ganhar espaço e mostrar resultados promissores.

A revisão de estudos sobre exercício e FRC demonstra, de forma geral, alguns benefícios do exercício na redução dos sintomas da FRC. As intervenções que usaram apenas exercícios aeróbios induziram a uma diminuição dos níveis de FRC, bem como uma melhora das variáveis que estão relacionados com o aumento do cansaço. Da mesma forma, os ensaios com intervenções apenas com exercício resistido revelaram principalmente aumento da força muscular e da massa magra. O outro grupo de estudos envolvendo combinação de exercícios mostrou significante melhora da composição corporal e da funcionalidade física.

Apesar desses desfechos positivos, nem todos os autores que publicaram sobre os efeitos do exercício resistido em pacientes com câncer fizeram relação desses resultados com variações nos níveis da FRC ou exploraram os mecanismos.

Quanto a tirar conclusões para a prática baseado nessas evidências, é importante que alguns detalhes sejam considerados prioritariamente. Um fator a ser ponderado é o limitado número de evidências e a heterogeneidade das amostras de alguns estudos, o que envolve gênero, tipo de câncer, tipo do exercício, intensidade e o tempo da intervenção. Sobre o gênero e tipo de câncer, alguns estudos não trazem essas informações especificadas adequadamente, já os outros, que tentaram homogeneizar as características da amostra, apresentaram dados apenas de mulheres com câncer de mama e/ou homens com câncer de próstata devido ao grande número de pacientes com esse agravo, o que limita a extensão dos resultados para populações com outros tipos de câncer.

Tratando-se da intervenção, não existe uma padronização dos programas de exercício, o que pode de alguma forma ter interferido no resultado de alguns estudos que usaram volumes e intensidades inadequadas, subestimando ou superestimando os efeitos das intervenções.

Outra limitação diz respeito à falta de literatura explanando os mecanismos do exercício em populações com câncer. De todos os artigos encontrados e utilizados nessa revisão, apenas um ensaio clínico analisou as respostas endócrino-metabólicas do exercício em pacientes com câncer. (GALVÃO et al., 2007) Todas as análises já feitas por outros autores sobre o tema partiram de evidências em pessoas saudáveis e conjectura-se que nem sempre o mesmo possa ocorrer em pacientes com câncer, revelando assim a necessidade de estudos para essa área.

A fim de integrar o exercício no tratamento do câncer de forma regular e eficaz, mais provas para os diferentes parâmetros da prescrição do exercício (população, tipo de exercício, intensidade, duração e frequência), para os possíveis mecanismos do exercício (em pacientes com câncer e não em sujeitos saudáveis), para a padronização da mensuração da fadiga e para a viabilidade e segurança do exercício durante o tratamento do câncer são necessárias.

 

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