Produção e difusão de ciência na cibercultura

Cristiane Porto · Capítulo 3 de 18

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Produção e difusão de ciência na cibercultura

Tema 1 - Cultura científica, comunicação e cibercultura

Tema 1 - Cultura científica,

 

comunicação e cibercultura

 

O pesquisador na cibercultura:

 

nas tramas da rede, entre

 

autorias coletivas e inovações

 

científicas

 

Edvaldo Souza Couto

 

Introdução

 

O avanço das tecnologias digitais e sua crescente popularização, a partir de 1990, com o progressivo acesso ao computador pessoal ligado à internet, às tecnologias móveis, ambientes como redes sociais digitais e centenas de aplicativos gratuitos, causaram efeitos de proporções mundiais nas estruturas da comunicação. Tais efeitos se fazem presentes em contextos educacionais nos quais investigar se tornou o meio por excelência para formar professores e pesquisadores.

Educar com e pela pesquisa pode ser a estratégia mais inovadora na chamada sociedade do conhecimento. Talvez o principal efeito da era das conectividades esteja no fato de que, uma vez conectado, qualquer um pode acessar, remixar, produzir e difundir saberes. A cibercultura permitiu uma ampla participação de pessoas nas dinâmicas que envolvem o caráter internacional do conhecimento.

Desse modo, vivemos, de modo inusitado, uma democratização sideral e envolvente de produção e circulação de saberes capazes de promover, em tempo real, transformações sociais. As tecnologias digitais não são ferramentas a serem aplicadas por alguns em usos restritos. Elas são processos inteligentes intensos, velozes, interativos para transformar e desenvolver pessoas e sociedades. Esses processos são inclusivos, pois mobilizam e acionam sedutoramente a participação coletiva, o fazer em conjunto que promove a cultura do compartilhamento como modo de ser e viver em rede.

Com as tecnologias digitais, o viver conectado gera incessantemente uma fervilhante troca de experiências e informações que resulta em documentos em forma de textos, imagens, sons e vídeos. Tais documentos são produzidos e reproduzidos com auxílio de softwares e hardwares, especialmente por meio de tecnologias móveis, como um dos motores da (r)evolução tecnológica e educacional contemporânea, produzindo mudanças sociais e outros hábitos nos quais todos podem ser autores e emissores no compartilhamento de projetos e ideais no modelo todos-todos. Estamos vivemos a era da descentralização como predomínio da lógica das redes. As hierarquias rígidas perdem espaços para a flexibilidade e a horizontalidade das relações cooperativas que estimulam as relações pessoais, profissionais e científicas.

Vivemos a era dos fluxos de conteúdos e das pedagogias das conexões. É nesse contexto de conectividades e produções de conteúdos que este estudo tem o objetivo de problematizar funções do pesquisador na cibercultura. O argumento central é que a produção e difusão de conteúdos são modos para o pesquisador viver imenso nas tramas da rede, pois a interação intensa com pessoas e dispositivos midiáticas nos permite atuar em ambientes virtuais, ampliando as condições para produzir e difundir saberes. Trata-se de uma investigação bibliográfica, ancorada na análise da autoria como gestão de inovações educacionais, em tempos de aprendizagens ubíquas. O trabalho conclui que na cibercultura o pesquisador se afasta de ações individuais e isoladas e se integra às redes colaborativas de pesquisa mais criativas e fluídas; prioriza estratégias de trocas entre grupos, parcerias nacionais e internacionais, redes de produção e compartilhamento. É por meio da autoria, com e entre pares, que criamos redes de citabilidade, formamos novos pesquisadores, construímos capital intelectual e tecnológico no país, lideramos, politizamos e enfrentamos os muitos desafios do ato de pesquisar, participamos e assumimos nosso compromisso social com e na comunidade científica.

 

Autoria e coautoria na cibercultura

 

Na área de educação, podemos dizer que não temos pesquisadores propriamente ditos se entendermos como pesquisadores aqueles que se dedicam integralmente às investigações e produtos delas decorrentes. O que temos no Brasil são professores, especialmente no ensino superior, sozinhos ou em grupos, sempre mal remunerados e com raros financiamentos conseguidos a duras penas, em meio a muitas e rigorosas disputas, que se desdobram para cumprir as muitas atividades no ensino, extensão e pesquisa. São esses professores que chamamos de pesquisadores e que são responsáveis pela produção e difusão científicas no país. Então, de muitos modos, a formação docente no ensino superior, sobretudo nas universidades públicas, se atrela e confunde com a formação de pesquisadores. Esse é um campo de muitos desafios e tensões.

Em sucessivos governos convivemos com cortes cada vez maiores de verbas para ciências e tecnologias e para a educação em geral. Os investimentos insuficientes e minguantes comprometem tanto a quantidade como a qualidade das produções. De um lado, governos, instituições e professores-pesquisadores comemoram a expansão da graduação e da pós-graduação, o aumento dos cursos e das vagas, o progresso expressivo de artigos científicos, dissertações e teses. De outro lado, enfrentamos as penúrias de recursos nos programas, cursos, grupos de pesquisas. São penúrias de recursos financeiros, infraestrutura tecnológica e humana. Essas dificuldades fazem com que muitos projetos sejam abandonados ou concluídos às pressas. E só com diversas lutas e esforços, muita vezes sobre-humanos, com professores e alunos, vários deles jovens pesquisadores e ainda em formação, sobrecarregados, estressados e doentes, que conseguimos garantir a produção científica crescente que o país precisa para se desenvolver.

As questões dos recursos financeiros, a pobreza da infraestrutura tecnológica e humana constituem, via de regra, o cenário bastante desolador das pesquisas e dos pesquisadores. Mas é preciso considerar também outros aspectos igualmente graves merecem atenção e aguardam soluções. Por exemplo, a necessidade de diversificar modos de gestão e políticas organizacionais da produção científica e tecnológica que sejam capazes de realizar e destacar a força criativa e produtiva da comunidade científica brasileira em tempos de cibercultura.

É provável que uma das dificuldades de gestão esteja no próprio entendimento sobre as funções do pesquisador na cibercultura. Essas funções estão sendo modificadas em velocidade e, muitas vezes, o tradicionalismo, acompanhado de uma ferrenha burocracia burra e obsoleta, nas universidades, onde praticamente as pesquisas são realizadas e a produção científica acontece, não impulsionam as adaptações e desenvolvimentos de habilidades ou hábitos mais adequados ao contexto das sociedades conectadas.

Nos distantes anos de 1990, num trabalho pioneiro, Lévy (1997) apresentou uma primeira definição de cibercultura. A cibercultura era entendida como uma cultura surgida com a rede mundial dos computadores. De um lado, a infraestrutura tecnológica, o parque das máquinas, os equipamentos de comunicação virtual. De outro lado, os comportamentos humanos mediados e em interação com os objetos técnicos. Desse modo, a cibercultura foi entendida como o estudo dos vários fenômenos sociais associados à internet. Esse ponto ainda merece destaque porque a cibercultura sempre foi menos a máquina, no caso, o computador, e mais o humano, milhares de pessoas conectadas, em processos e vivências interativas, em comunidades digitais, que formavam a inteligência coletiva. (LÉVY, 1994) Relações entre pessoas mediadas pelas máquinas, por meio de comunidades online, jogos de multiusuários, jogos sociais, mídias sociais, realidade aumentada, mensagens de texto, etc. passaram a definir nossos modos de ser e viver.

De lá pra cá, praticamente nas três últimas décadas, foram muitas as mudanças promovidas pela sociedade em rede (CASTELL, 2005), pela era das conectividades, marcadas pelas inovações tecnológicas que implicam numa ética do compartilhamento da vida pessoal e profissional. Conectividade, interatividade e hipertextualidade se tornaram conceitos amplamente debatidos na educação. Em toda parte, sobretudo nas redes sociodigitais, professores e alunos passaram a narrar experiências múltiplas e práticas de ensino/aprendizagem, o cotidiano escolar, os modos cada vez mais rápidos e fluídos de pesquisar em rede, dialogar com pessoas e documentos escritos, sonoros ou imagéticos. De modo geral a palavra remixagem entrou em moda. Os conhecimentos podiam ser facilmente acessados, remixados e difundidos em variados formatos.

Essas “novidades” permitiram multifacetadas problematizações sobre a produção e difusão dos saberes na cibercultura. As chamadas novas formas de saber passaram a circular livremente e a criar ambientes de rede sedutores que requisitavam ampla participação das pessoas sempre conectadas. Alguns desses ambientes amplamente populares são a Wikipédia, YouTube, redes sociais digitais e outros sites e aplicativos, sem os quais, parece que não podemos mais viver. Rapidamente milhares de pessoas conectadas aprenderam que esses ambientes eram irresistíveis porque existiam em função da colaboração de todos. Não eram ambientes para acessar e consumir informações de modo passivo, não se tratava de absorver o que um determinado grupo de especialistas produzia para uma massa que consumia calada. Esse modelo massivo foi de variados modos destruído. Em seu lugar emergiu a cultura da conexão. (HENRY; GREEN; FORD, 2014)

Em toda parte, mais principalmente nos ambientes de rede, as coisas acontecem porque milhares de pessoas compartilham ideias, problemas, dúvidas, críticas, hábitos e escolhas. Talvez o elemento mais revolucionário e inovador da cibercultura foi dizer que eu, você e todo mundo somos agentes, ao mesmo tempo produtores, difusores e consumidores ativos, transformadores de saberes. Nos mais diversos ambientes de rede, qualquer pessoa, em qualquer tempo ou lugar, pode agir e interagir, opinar e dar visibilidade a si mesma e aos seus valores e interesses, difundir suas crenças, valores e práticas militantes de diversas ordens. Todo mundo, literalmente todo mundo, passou a ter voz e liberdade para se expressar, não sem polêmicas e conflitos, certamente, nas tramas, rotas e nexos da rede. (COUTO, 2017) A cibercultura é esse fluxo contínuo de ideias, práticas, representações, textos em variados gêneros e ações, que ocorre entre interconectadas.

Isto parece simples, mas mudou tudo, mudou a nossa concepção do mundo e da vida, desenvolveu em todos nós a consciência de que a sociedade e a cidadania em rede acontecem e se desenvolvem por meio da participação horizontal e festiva de todos. A noção de coletividade foi ampliada sideralmente. Desse modo, a cibercultura, ao mesmo tempo, conecta as pessoas e cria condições para que novos saberes possam ser desenvolvidos em mais aplicativos, sites, programas etc. Sempre dinâmica e flexível, a base da cibercultura está nessa fascinante dinâmica de cada um poder acessar, remixar, produzir, publicar e, em meio a essas práticas interativas, recriar seus espaços sociais e educacionais. A cibercultura é, pois, esse ciberespaço de participação e compartilhamento. É um modo de sociabilidade em rede, com formas de relações sociais, códigos, estruturas e especificidades próprias, marcadas por crescentes, fecundas e diversificadas interações entre as pessoas.

A cibercultura, concebida nesses moldes, modificou substancialmente as noções de autoria e coautoria na rede, nas práticas escolares, na formação de professores e pesquisadores, nas múltiplas maneiras da produção e difusão científica. É provável que a mudança mais significativa tenha sido a crítica crescente ao amplo processo de corta e cola de conteúdos disponíveis em múltiplos ambientes da rede. Não que essa prática tenha desaparecido, mas ela passou a ser amplamente combatida e milhares de pessoas foram sistematicamente orientadas a pesquisar em rede, selecionar conteúdos, remixá-los e a desenvolver, de modo crítico, a produção coletiva e interativa de novos saberes. Foram igualmente estimulados a compartilhar suas descobertas. Aquela atividade intelectual preguiçosa do corta e cola vem sendo substituída por uma cultura de criação, na qual o prazer em contribuir, criar e difundir conteúdos seduz e mobiliza as pessoas.

Transformar informações, relatar experiências e interagir em rede passaram a ser valores fundamentais no nosso tempo. Nas nossas mídias online toda e qualquer mensagem pode ser facilmente capturada, manipulada, modificada à vontade. Como as imagens, sons e textos não têm mais materialidade fixa, deslizam nos fluxos da rede, cada um a bel prazer pode articular e desenvolver outros nexos. Não por acaso a palavra hipertexto passou a dominar esse entendimento de saberes abertos e em transformações. O hipertexto só existe porque milhares de pessoas conectadas acessam, modificam e criam mais textos. Assim, na cibercultura, os antigos consumidores passaram a ser os atuais e ativos produtores e difusores de conhecimentos.

Nesse contexto, cada sujeito conectado, deslizando por telas e interagindo com pessoas, se torna autor e coautor. Ao invés de receber informações, cada um tem a experiência na participação e elaboração de conteúdos. Não se trata mais apenas de acessar e interpretar, mas de organizar, criar e distribuir. Essas ações, já amplamente presentes no cotidiano escolar, potencializam o trabalho do professor-pesquisador. O hipertexto é uma relação simultânea de vários textos e narrativas, mas também de vários autores e coautores, é a própria polifonia em rede, por meio de diferentes linguagens. Com o hipertexto não temos mais, de um lado, o autor e, de outro, o leitor. Autor e leitor interagem, se confundem. Cada escrito é continuamente reescrito, cada ideia pode gerar mais textos. A noção de autoria se expande, engloba os interagentes. Conectado, cada um é estimulado a contribuir com mais informações, sugerir soluções para problemas, encontrar percursos mais dinâmicos nos processos informacionais e de aprendizagens. Praticamente todo mundo é autor e coautor porque participamos incessantemente nas mixagens e remixagens dos conteúdos. (VELOSO, 2014)

A função autoral, quando se trabalha com acesso e produção de conhecimentos em rede, está menos no produto em si, um livro, vídeo, artigo jornalístico ou científico etc., mas nos entremeios, sempre registrados, rastreados e identificados, nos fios e tramas discursivas que constituem esses produtos. Autor ou coautor é aquele que atua, que é interlocutor, contribui e se responsabiliza com a trama textual. O autor e coautor, nessas tramas narrativas, inauguram e proliferam discursividade, como enfatizou Foucault (1992). De muitos modos, cada sujeito passa a se inscrever no texto, a deixar sua marca autoral nos produtos. Os resultados, sempre provisórios e modificáveis, são, pois, esforços conjuntos. Na cibercultura se tornou muito difícil pensar a autoria como única, original, pertencente a um só indivíduo. A colaboração, a generosidade para acolher e se dedicar a outras autorias, marcam os sentidos das produções e difusões dos saberes em rede.

A questão da autoria e coautoria sempre foi complexa. Agora, diante das inovações sociotécnicas, os modos de expressão se ampliaram e tal complexidade se manifesta nos pluralismos dos discursos, produtos abertos, inúmeros comentários e reorganizações. Esses modos de ser, produzir e circular saberes nos coloca a todos diante de um novo olhar teórico-educacional nos contextos virtuais imersivos. Na era das tecnologias móveis, dos aplicativos que articulam as experiências cotidianas e profissionais, das pedagogias das conexões (COUTO, 2016a) e das aprendizagens ubíquas (SANTAELLA, 2013) não temos mais espectadores. Todos somos atuantes.

Quando todos somos atuantes o próprio modelo tradicional de escola ou universidade que estava em questão, entre encantos e desencantos, inovações e permanências, é problematizado e, parece, não tem mais como se sustentar. Consumir e reproduzir saberes são ações que não atendem mais às necessidades das vidas conectadas. Existe por toda parte um anseio por participação, criação, criatividade. Os desafios do nosso tempo dizem respeito à autonomia de alunos, professores, pesquisadores e gestores para pesquisar, produzir e difundir conteúdos em rede. Tais desafios apontam uma outra cultura imersiva e participativa, de ensino e aprendizagem.

Educar pela pesquisa é também educar estimulando e produzindo conteúdos. Não por acaso falamos tanto em educação personalizada nos últimos anos. Se é verdade que duas pessoas aprendem de modo diferente, também devem ter seus próprios percussos de aprendizagem. E educação personalizada não é educação individualizada. É cada um trabalhando no seu ritmo, mas compartilhando ideias, projetos, percursos, descobertas e conteúdos. É o fim da massificação no ensino e na aprendizagem. Não se trata mais de transmitir e consumir saberes, mas de incentivar, problematizar, selecionar as melhores fontes, contextualizar as informações, mixar, remixar, criar conjuntamente os conhecimentos. (COUTELLE, 2015) Em outras palavras, adotar tecnologias digitais para ensinar e aprender, cada um no seu ritmo e foco de interesse, com materiais diferentes e plurais obtidos por meio da pesquisa em rede, mas em diálogo com os outros, produzindo conteúdos generosamente compartilhados, sendo autor e coautor.

A educação personalizada implica autoria e coautoria e também é chamada educação sob medida, cada sujeito é protagonista e o processo de aprendizagem é desenvolvido por meio da criação coletiva de saberes. Essa educação baseada na colaboração pressupõe metodologias ativas. (DIESEL; BALDEZ; MARTINS, 2017) O aluno passa a ser o centro do processo de ensino-aprendizagem. Num mundo globalizado, ele vive conectado e imerso em uma imensa quantidade de informações que se transformam continuamente. Tal dinamismo solicita que todo e qualquer sujeito participe ativamente dessas transformações, principalmente na vida escolar, que não é mais restrita ao tradicional espaço da escola, que seja autor e coautor, valorizando suas criações, experiências e modos de ser.

Nesse sentido, a conectividade e as metodologias ativas favorecem as comunidades aprendentes. Nelas, cada sujeito se torna mais autônomo para administrar a sua aprendizagem imerso na pesquisa: leitura e escrita, comparação, observação, imaginação, obtenção e organização dos dados, elaboração e confirmação de hipóteses, classificação, interpretação, crítica, busca de suposições, construção de sínteses e aplicação de fatos e princípios a novas situações, planejamento de projetos e pesquisas, análise e tomadas de decisões, etc., são ações comuns no processo ativo e interativo de aprendentes. Por meios dessas ações conteúdos são remixados e recriados, as autorias se multiplicam e circula.

Pesquisar, problematizar, encontrar soluções, compartilhar descobertas são ações ativas que se misturam. A ação intelectual se dá pelo dinamismo entre variadas fontes, múltiplos aspectos das realidades estudadas, explorando vários caminhos e possibilidades para criar. O importante é que criar, produzir conteúdos, significa intervir na realidade. Onde antes tínhamos a observação, temos agora intervenção sempre crítica, dialogada. A conectividade e as metodologias ativas estimulam o trabalho em equipe, aberto, acolhedor, colaborativo. Ele se torna mais fascinante quando associado a recursos educacionais abertos (SANTANA; ROSSINI; PRETTO, 2012), desenvolvido com software livre. (SILVEIRA, 2015)

Os recursos educacionais abertos são materiais de ensino e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, que estão sob domínio público ou são licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam acessados, utilizados, adaptados e redistribuídos por terceiros. O uso de formatos técnicos abertos facilita o acesso e reúso potencial dos conteúdos, favorecendo aprendizagens, produção e distribuição de renovados conteúdos. Autoria e coautoria são condições para as inovações das práticas pedagógicas em tempos de conexões e aprendizagens ubíquas. Estar conectado nessa cultura da produção e difusão de conteúdos é viver a cibercultura.

 

O pesquisador na cibercultura

 

Parece simples: o pesquisador é o profissional que faz pesquisa. O fazer e orientar pesquisa, ações praticamente concentradas na pós-graduação, na verdade é um conjunto de tarefas bem difícil de administrar. Nas universidades públicas brasileiras o professor em regime de dedicação integral deve se dedicar ao ensino, extensão, pesquisa e, muitas vezes, também gestão. Então, como quase todos os professores na área de educação trabalham em regime de dedicação exclusiva, supõe-se que a pesquisa faz parte do cotidiano da vida universitária.

Parece natural também que quem faz pesquisa é essencialmente autor e coautor, isto é, dedica-se a escrever e publicar. A publicação é o meio pelo qual o pesquisador participa da comunidade científica e encontra na avaliação feita por pares a validade acadêmica da sua produção científica e de suas investigações. A participação e interação com a comunidade científica acontecem, pois, por meio do compartilhamento de resultados parciais e finais dos estudos. Publicar é uma consequência do ato de pesquisa. Em outras palavras, quem pesquisa publica. Entendida desse modo, a publicação de uma pesquisa não é somente uma questão de disseminação de resultados, não é apenas para atender a exigências de órgãos financiadores. A publicação é parte inerente da cultura do ato de pesquisar, é compromisso social de cada pesquisador com a comunidade científica e a sociedade. (COUTO, 2016b)

Entretanto, a educação no Brasil parece ser ainda um entrave para o desenvolvimento científico e tecnológico, para a produção científica, para o aumento da publicação qualificada. O ensino de ciência é precário em todos os níveis, muitos são educados para reproduzir, cortar e colar informações. Não são abundantes as experiências de uma formação pela pesquisa, não são lautos os incentivos para escrever e publicar. Pesquisar é caro, exige diferentes investimentos: financeiro, infraestrutura tecnológica, equipamentos de última geração, rapidamente superados e atualizados, recursos humanos que dominem e desenvolvam diversas habilidades, etc. O tempo da pesquisa também parece ser mais lento. Não é possível apostar na instantaneidade quando se trata de criação, inovação. Pesquisar exige dedicação contínua.

São muitos os desafios que os pesquisadores enfrentam diariamente e nenhum deles pode ser amenizado. Mas é preciso considerar que praticamente eles são oriundos de um sistema de produção capitalista que transforma tudo em mercadorias, inclusive os pesquisadores e a produção científica. Nesse contexto, o ritmo de trabalho passa a ser determinado por fatores externos ao sujeito e se intensifica na cobrança cada vez de maior de produção. Conhecemos bem essa condição que faz do produtor um duplamente alienado: do processo e do produto do seu trabalho.

Essa mesma lógica perversa é aplicada na produção científica. Essa lógica tomou conta da educação e com ela é necessário produzir velozmente diplomas, pesquisas, livros, eventos, artigos científicos e recursos humanos. Mas não são apenas os produtos das pesquisas que entram no rol dos valores mercantis, os próprios pesquisadores são mercadorias valorizadas enquanto são produtivos nas escalas desejadas, estipuladas e continuamente ampliadas.

Esse não é um tema novo, mas impõe, insistentemente, a urgência em criar conteúdos pra dar conta de um mercado voraz e servir aos muitos e sempre mais exigentes modelos de avaliação. Não por acaso o mantra na pós-graduação, centros e grupos de pesquisa é “publicar ou perecer”. Nosso contexto acadêmico é marcado, em termos de criação e veiculação de conhecimentos, pela exigência cada vez maior de publicação em veículos qualificados. Esse fenômeno compulsivo pressiona todo mundo a publicar mais e mais. As pressões impactam a vida e o trabalho dos envolvidos, estressam e adoecem, desenvolvem um cruel sistema de poucos bônus e muitas punições para aqueles que não conseguem publicar no ritmo e na quantidade exigidas. Sem atender às demandas de produção muitos passam a ser excluídos, vivem à margem, sobrevivem como restos humanos na burocracia acadêmica ou nas salas de aula desprestigiadas.

Estratégias de sobrevivência são criadas em toda parte. É preciso ensinar rapidamente como se submeter com sucesso ao sistema. Surgem pedagogias, didáticas, metodologias e orientações para as publicações. Cursos e manuais proliferam para ensinar a escrever artigos científicos, dissertações e teses no menor tempo possível. Escrever em formatos publicáveis é a nova práxis educacional. (LAMBERT, 2014) A partir daí cada pesquisador, programa de pós-graduação, grupo de pesquisa, instituições e governos são considerados em função do aumento das publicações acadêmicas. Os ranques se multiplicam, as listas com os pesquisadores mais produtivos são amplamente divulgados, os trabalhos mais citados são comemorados. Ranques, listas e citações passam a ser padrões de qualidade acadêmica, pessoal e institucional, na qual só as publicações são glorificadas. Os que não se enquadram passam por humilhações e não raro integram as listas dos improdutivos, daqueles que podem e devem ser desprezados.

A pressão por publicação é um modo de construir um capital intelectual para o pesquisador, instituição, país. O capital intelectual (MOREIRA; VIOLIN; SILVA; 2014) é um conjunto de conhecimento, informação, competência, habilidade, criatividade, capital humano e capacidade inovadora, elementos estes que tem tido efeito fundamental para o desenvolvimento das organizações. A produção científica é o capital intelectual, a fonte de riqueza da comunidade científica é o seu principal ativo representado pelo valor das ideias, pesquisas e desenvolvimento, capaz de gerar inovações, multiplicar discursos, produtos, marcas e patentes.

Uma das características da cibercultura é a espetacularização das notícias, acontecimentos pessoais e culturais. Vivemos a era estridente da visibilidade em que cada um desenvolve e administra estratégias de promoção de si e de suas produções nos mais diversos ambientes de rede, especialmente nas redes sociais digitais. (SANTANA; COUTO, 2017) Não é diferente com a produção científica. Para além da publicação em si é preciso criar redes de divulgação e promoção da produção em grupos específicos e sites de relacionamentos pessoais e profissionais. A visibilidade da produção científica passa a ser elemento decisivo e valorizador de pesquisadores, grupos e instituições.

Frente às pressões para ampliar a quantidade de produção científica em menor tempo e à necessidade de criar estratégias de visibilidade para os produtos, supostamente capazes de aumentar a rede de citabilidade dos artigos, capítulos e livros, os pesquisadores são enredados num volume cada vez maior de tarefas. Com os sucessivos cortes de financiamentos, as disputas por recursos aumentam a competitividade e fazem estragos. Não é por acaso que passou a ser comum na comunidade universitária a reclamação, crítica e um certo enfrentamento ao chamado produtivismo acadêmico. (VOSGERAU; ORLANDO; MEYER, 2017)

Produtivismo acadêmico é uma expressão amplamente utilizada para se referir à proliferação de pesquisadores focados na produção de resultados, baseados em pesquisas efêmeras; afinal, eles são valorizados em suas respectivas áreas de atuação por critérios meramente quantitativos. Esse fenômeno amplia o processo de mercantilização da educação e reduz a função do intelectual a produzir e participar de eventos científicos, bem como emitir avaliações, pareceres e elaborar artigos. Essas ações, cada vez mais exigentes, são rigorosas e efetivamente julgadas, avaliadas e geram reconhecimento. O produtivismo mina redes de colaboração porque incentiva e sobrevive da feroz competitividade entre os pesquisadores atrás de financiamentos, bolsas, caminhos e processos para mais publicações e visibilidades dos trabalhos e seus produtos. A ética de mercado prospera e, com ela, muitos colegas se sentem muito à vontade para passar a perna em parceiros, sabotar e plagiar pesquisas e publicações. O ambiente acadêmico passa a ser cada vez mais competitivo, individualista e desonesto. A consequência é a intensificação da precarização do trabalho do pesquisador e o enfraquecimento do sentimento de pertença a um coletivo, a destruição das relações de amizade. A regra é: cada um se vira e sobrevive como pode. Nesse contexto, muitos sucumbem diante da violência do processo, vivem exaustos, adoecem, são super medicados, desistem da carreira, morrem. (FERREIRA; MIRANDA; GURGEL, 2015)

De acordo com os críticos do produtivismo acadêmico, essa política sempre cobra mais produção enquanto investe menos em infraestrutura, condições de trabalho, qualificação das pessoas. Ela arrocha os salários, impõe aos pesquisadores gastos como atualização tecnológica dos equipamentos, viagens só parcialmente financiadas, tradução de artigos, afinal vivemos a era da internacionalização. Ela cria critérios de avaliação que limitam os números dos habilitados ao sucesso e ainda, perversamente, responsabiliza os professores pelos fracassos individuais e institucionais.

Esses argumentos parecem fortes e verdadeiros. Mas é preciso problematizá-los e desconstruí-los. De um lado, temos um pequeno grupo de pesquisadores na área de educação, que se dedica a produzir mais e com qualidade, que mantém firme o compromisso em melhorar os índices de avaliação dos programas de pósgraduação. De outro lado temos uma imensa maioria de pesquisadores – sim, todos os professores das universidades públicas se dizem pesquisadores, afinal precisam defender e manter o regime de trabalho de dedicação exclusiva – com baixíssima produção científica e, não raro, sem produção nenhuma. Em outras palavras, poucos se matam e produzem muito e muitos não produzem nada ou quase nada. Então, para a maioria, o problema não é o produtivismo acadêmico, mas o contrário, exatamente a baixa ou mesmo falta de produção.

É curioso que muitos que reclamam insistentemente do produtivismo nas universidades não publiquem sequer um artigo por ano. Não são poucos os professores universitários do sistema público descredenciados da pós-graduação por insuficiência de produção científica. E existe um verdadeiro exército de professores universitários que leva anos, às vezes, décadas, sem publicar um artigo ou livro; não almejam a pós-graduação, não fazem, não orientam e não avaliam pesquisas acadêmicas.

Do mesmo modo temos alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado que mal dão conta das dissertações e teses ou relatórios de pesquisas. Gente que passa todo o processo de formação de pesquisador com baixa produção ou sem produção alguma. Tem uma gente que quer ter e exibir título de doutor e vive nas burocracias das universidades públicas desmerecendo, sabotando e perseguindo colegas que pesquisam. É escandaloso o descompromisso com a função social do ser pesquisador num país tão carente de investigações e inovações científicas e tecnológicas.

De muitos modos os argumentos contra a pressão por produção científica querem mostrar que vivemos uma cultura produtivista na academia. É preciso considerar que os nossos problemas talvez não estejam necessariamente nessa ordem. Não parece verdade que vivemos uma corrida exacerbada em direção à produção. Nosso desafio ainda é democratizar a pesquisa, incluir milhares de pessoas, pesquisadores formados e em formação, na produção e difusão científicas. Macedo (2015) destaca que no Brasil muitas das nossas fragilidades de produção decorrem de políticas atrapalhadas de ciência, tecnologia e inovação; de uma educação científica deficiente que não habilita alunos, professores universitários e pesquisadores em formação, para as linguagens e técnicas da escrita científica e, consequentemente, para a publicação. A essas dificuldades são somadas o consequente baixo incentivo para que se pesquise e publique. A nossa luta para ampliar e democratizar a pós-graduação deve ser, simultaneamente, por ampliar e democratizar a performance produtiva que valorize as parcerias e as publicações qualificadas. Só assim teremos a área de educação mais robusta, dinâmica, inovadora e marcada por prestígio acadêmico e social.

Apesar desses contratempos, dos exércitos que não pesquisam e não publicam, é verdade que nos últimos anos lidamos com uma ampliação da pesquisa em educação. Essa realidade potencializou produções e formas de divulgação. Nesse contexto é importante ressaltar que a ampliação da produção na área de educação não é apenas uma resposta a demandas da cultura produtivistas, mas indica um amadurecimento e uma consolidação da área como campo de pesquisa:

 

Tendo em vista esse perfil de crescimento, é de se esperar que a produção bibliográfica e as formas possíveis de sua veiculação venham se ampliando exponencialmente nos últimos anos. Cresceu o número de eventos em que essa produção é discutida, assim como o quantitativo de periódicos e livros, especialmente coletâneas, em que pode ser publicada. Entendo que se trata de um desdobramento natural de um sistema de pós-graduação que se ampliou e que ainda precisa ser ampliado para fazer face ao tamanho da demanda no país. (MACEDO, 2015, p. 766)

 

Nesse contexto, é preciso festejar o aumento da produção científica na área de educação. É igualmente necessário destacar que a produção científica não é marcada apenas por lutas e sacrifícios. Ela também fornece satisfação e recompensas. É inegável a alegria que todos sentimos quando nossos artigos são aceitos e publicados nas revistas bem avaliadas, quando nossos livros são lançados por editoras de prestígio acadêmico. É inevitável que publicações qualificadas valorizam o currículo do pesquisador, favorecem a disputa por financiamento junto às agências de fomento, possibilitam convites para eventos e bancas nos quais são estabelecidos importantes laços de afeto e parcerias. Mas também devemos reconhecer que ainda produzimos pouco e nem sempre essa produção é avaliada como de qualidade. Em outras palavras, nossa produção, em quantidade e qualidade, ainda é insuficiente e deve ser ampliada. Precisamos de políticas, pessoais e institucionais, pautadas na ampliação do nosso potencial da escrita acadêmica por todos.

Para além das resistências às pressões produtivistas neoliberais, enfrentamos certas dificuldades para produzir e compartilhar nossas pesquisas em função também de um obsoleto entendimento do que é ser pesquisador. Tradicionalmente a ciência era considerada como atividade para poucos, um pequeno grupo de iniciados, e o pesquisador era visto como alguém de dotes intelectuais elevados, um especialista meio “maluco”, que vivia num mundo a parte, meio isolado em seu laboratório ou oficina e, por meio de ações individuais, esforços próprios, produzia saberes. Quem não fazia parte desse seleto grupo podia se dedicar à vulgarização do conhecimento. Esse era o lugar, pouco honroso no panteão da ciência, dos professores universitários não autores e coautores, mas reprodutores das ideias, teorias, saberes e métodos criados por poucos. Essa reprodução, na maioria das vezes sem questionamentos, visava apenas a assimilação simplificada dos conhecimentos científicos.

O argumento que apresento é que muito do nosso jeito de pesquisar e publicar ainda está atrelado a essa concepção antiga de produzir saberes. Valores da cibercultura, identificados e analisados na sessão anterior, ainda não estão amplamente no cotidiano das nossas práticas investigativas. Na cultura digital a pesquisa ainda segue atrelada a sujeitos e não a grupos. As práticas são individualizadas, os produtos também. A nossa trajetória de grupos de pesquisas é recente. E o funcionamento dos grupos costuma ser bem precário. Mesmo onde tem grupos, pesquisadores costumam trabalhar sozinhos dentro de grupos. A cultura da pesquisa e da produção científica marcada pela coletividade ainda é insipiente.

É provável que pesquisadores que se reconheçam e se apresentem sempre exaustos estejam também isolados, tentando desesperadamente, de modo individual, aumentar a sua produção acadêmica. Fechados em si ou em seus grupos precários de pesquisas, eles assumem sozinhos o peso das pressões para produzir mais e acabam não dando conta das demandas. Quando o indivíduo sozinho quer dar conta das obrigatoriedades da cultura do desempenho colhe apenas cansaço. (HAN, 2017) Em uma pesquisa sobre os grupos que pesquisam educação a distância no Brasil, coordenada por Kenski (2017), concluímos que o maior problema enfrentado pelos pesquisadores é ainda manter um determinado isolamento. Como os grupos de pesquisa assumem a postura de que são concorrentes e competem entre si, existe pouco diálogo entre eles. Os compartilhamentos são pífios, as ações interinstitucionais esbarram em burocracias infindáveis, as parcerias nacionais e internacionais rastejam. Cada um quer pavonear os seus produtos e almeja o reconhecimento dos demais, mas investe pouco em interlocução, parceria, produção coletiva. Esse equívoco contribui para aumentar o trabalho de todos, exaurir os pesquisadores e sustentar a baixa produção.

Essas representações bem caricatas da ciência e dos próprios pesquisadores isolados encontram pouco espaço na cibercultura. A excentricidade pode até fazer parte de um jeito intelectual de ser, mas aquele que pesquisa sozinho praticamente não tem como sobreviver diante das demandas impostas pela sociedade do desempenho. Os valores da cibercultura apontam caminhos fascinantes: o trabalho coletivo, em redes de compartilhamentos. Autoria e coautorias se fundem nas interações promovidas por pesquisadores em rede, em contínuo diálogo com os pares. Na era das conectividades tais interlocuções ajudam a popularizar a ciência, mostram que as participações coletivas promovem a democratização dos saberes e potencializam as produções científicas.

Ao invés das lamúrias com o produtivismo acadêmico devemos promover entre nós a cultura das redes de produção e compartilhamento. (FURINI, 2015) Não vejo saída do trabalho coletivo, das autorias partilhadas. A conectividade deve ser uma aliada da produção e difusão científica. É preciso ampliar parcerias e afinidades eletivas entre os grupos. É imperativo vivenciar criações e escritas coletivas, nas quais cada um contribui com aquilo que mais sabe e gosta de fazer. E se muitos participam, presencialmente e a distância, inevitavelmente, muitos devem ser autores e coautores dos produtos parciais e finais das investigações. A cultura da produção e difusão científica na cibercultura é autoria coletiva e compartilhamento. Cada um é o que compartilha. Cada um e todos nós juntos participamos da comunidade científica ao compartilharmos resultados das nossas investigações e esses resultados serem remixados em outros produtos. Quanto mais compartilhamento, mais interação com a comunidade científica.

Aqui precisamos enfrentar novos desafios. Além de vencer as resistências para o real funcionamento das pesquisas coletivas, realizadas em grupos de pesquisa, em franca e contínua interação autoral com outros grupos, nacionais e internacionais, precisamos de políticas que garantam, valorizem e avaliem bem as publicações com autorias coletivas. Defendemos produções e publicações coletivas, mas a área de educação ainda vive, inexplicavelmente, emperrada na autoria individual ou num número de autores demasiadamente reduzido. Em outras áreas, exatas e saúde, por exemplo, estamos acostumados a ver artigos científicos assinados por dezenas, às vezes centenas de pesquisadores. Todos são contemplados com as glórias das publicações, os currículos Lattes fazem sucesso, os grupos e programas se consolidam, o número das publicações aumenta. Sim, todos ganham! Lamentavelmente, e de modo equivocado, a área de educação definiu que uma publicação científica só pode ter no máximo três autores. Se são mais de três autores, a publicação, mesmo em revistas com os melhores qualis, não conta pra ninguém. É desesperador. Falamos em parcerias e internacionalização, em interação com grupos de pesquisas, em projetos interinstitucionais, pesquisas em redes colaborativas, etc. Mas na hora de publicar muitos colaboradores ficam de fora, não podem assinar conjuntamente os artigos e livros. Não estou a defender que se coloque nomes de amigos nas publicações para inflar autorias e o Lattes de pesquisadores. Essa prática adotada por uns poucos deve ser combatida. Estou a defender que todos aqueles que participam ativamente de qualquer etapa da pesquisa e produção dos artigos possam assinar e ser reconhecidos como coautor. Essa limitação no número de autores é ruim, compromete o trabalho coletivo e empurra os pesquisadores para a lógica perversa e individual do produtivismo acadêmico. Todos nós perdemos!

A burocracia é outra inimiga da produção e difusão cientifica em rede. Em plena cultura digital ainda temos que conviver com documentos impressos, carimbos e mais carimbos, assinaturas e mais assinaturas. Na maioria dos documentos sequer assinatura digital é admitida. Um órgão de fomento como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), para ficar apenas em um exemplo, exige que o pesquisador entregue versão impressa do currículo Lattes até para um aluno ter uma bolsa de iniciação científica. E quando o pesquisador é contemplado com duas ou três bolsas tem que entregar uma versão impressa de toda a documentação, incluindo o currículo Lattes, para cada aluno ou bolsa. A cada instante tem alguém numa universidade inventando um novo formulário que deve ser preenchido urgentemente para se fornecer as mesmas informações que estão disponíveis em vários ambientes de rede. E aí vêm os “iluminados” dizendo que é o produtivismo que multiplica o tempo de trabalho e exaure os pesquisadores. Boa parte dessa burocracia é a resistência a passar do impresso para o digital. A burocracia gera intriga com e dos colegas, impõe prazos cada vez mais curtos e impossíveis de serem cumpridos. Não é fácil seguir em frente. (FERREIRA, 2013)

Outro entrave a ser enfrentado é o processo lento e emperrado das avaliações das produções científicas. A fluidez da cultura digital que pode ajudar o pesquisador a produzir mais rápido, pois acessa as informações em muito menos tempo, esbarra na morosidade avaliativa. Não é raro que um artigo leve até três anos para ser publicado e que um livro fique até cinco anos numa editora. Toda a avaliação acontece em ambientes digitais. Por que demora tanto? Porque são poucos os produtores e poucos os avaliadores, via de regra, os mesmos, já exauridos de tantas solicitações. O exército de professores universitários com baixa ou sem produção também não costuma participar dos muitos processos avaliativos. É correto que seja assim, porque nossa avaliação é feita por pesquisadores, por pares. E quem não publica não é par de coisa alguma de ninguém. Entretanto, se na cultura digital todos são autores e coautores, na vida universitária, em tempos de conectividades, todos devem ser autores e coautores, isto é, pesquisar, publicar e avaliar as produções dos colegas. A tarefa, importantíssima, da avaliação, ser mais distribuída entre os colegas. Com a colaboração de todo o tempo das avaliações baixa e o volume de trabalho de cada um é reduzido. A vida melhora!

A produção científica em rede, de modo cooperativo e compartilhado, amplia a rede de citabilidade dos pesquisadores e dos trabalhos. A generosidade com o trabalho coletivo é uma característica da cibercultura. Se produzimos juntos, é natural citar, referendar publicações de colegas, de grupos parceiros. Pesquisadores isolados, enlouquecidos com a feroz competitividade, não costumam citar para não dar ousadia a rivais. Essa mediocridade não tem futuro na era das conectividades. O investimento coletivo, marcado pela generosidade da cooperação em rede, é para potencializar produtos, autores e coautores; é para alavancar programas, editoras e revistas científicas. A avaliação rigorosa não deve ser para derrubar e punir, mas ressaltar e melhorar a qualidade das pesquisas. Onde tem colaboração e compartilhamento coisas incríveis acontecem!

 

Algumas conclusões

 

As ideias aqui apresentadas, os argumentos construídos e defendidos, apontam um conjunto de conclusões das quais quero destacar três:

A primeira é que os valores da cibercultura podem transformar positivamente a nossa cultura de produção e difusão científica. Progressivamente as pesquisas individuais devem ser coletivas, em grupos de pesquisas, por meio de interações diversas de pesquisadores em rede. Nas tramas da rede pesquisadores devem dividir e coordenar tarefas, somar esforços e colaboração, produzir e publicar em parcerias nacionais e internacionais.

A segunda é que o trabalho coletivo de pesquisa, sempre em rede, é condição para superar isolamentos, burocracias, avaliações apressadas. Todas as etapas da investigação – estado da arte, elaboração do projeto, busca de financiamento, estudo teórico e empírico, construção e análise de dados, relatórios, resultados parciais e finais, artigos jornalísticos e científicos, livros, etc. – devem ser partilhadas, desenvolvidas em grupo, valorizando participação e colaboração de pessoas e instituições envolvidas. O trabalho em redes colaborativas é a alternativa para superarmos as muitas dificuldades, demandas e sofrimentos do produtivismo acadêmico, em termos sombrios de educação mercantilizada, em favor de uma performatividade dinâmica, fluida, positiva, em que as produções e publicações são valorizadas e festejadas nas rotas e nexos da comunidade científica.

A terceira é que a cibercultura impulsiona e torna cada sujeito em autor e coautor de conhecimentos. Talvez essa seja a sua maior importância: democratizar a produção e difusão dos saberes, solicitar e permitir a participação colaborativa de todos. As trocas online entre pesquisadores e as possibilidades de escritas coletivas devem romper com a homogeneização dos estudos, priorizando diversidades de objetos e métodos de investigação, assim como de resultados, tanto em quantidade quanto em qualidade. A autoria em redes colaborativas talvez seja o elemento mais revolucionário e inovador nas nossas práticas educacionais desenvolvidas por e com pesquisas. Autoria e coautoria são estímulos para pesquisar em rede. E aqui pesquisar já é sinônimo de publicar. E publicar é contribuir para a performance irresistível da inteligência conectiva nas muitas redes sociais nas quais agimos e promovemos educações.

 

Referências

 

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