Produção e difusão de ciência na cibercultura

Cristiane Porto · Capítulo 4 de 18

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Produção e difusão de ciência na cibercultura

Da cultura dos cientistas à Cultura científica na cibercultura

Da cultura dos cientistas à

 

cultura científica na

 

Cibercultura

 

Cristiane Porto, Kaio Eduardo Oliveira

 

Introdução

 

Compreender o que é cultura é uma tarefa complexa, compreender a noção de cultura científica também se mostra difícil, principalmente, quando a noção de ciência também é difundida historicamente de modo confuso. Tal afirmação advém tanto das noções de ciência que são popularizadas, quanto da concepção de cultura que é veiculada pela sociedade de modo mais superficial e popular.

A noção de ciência, por exemplo, é difundida, restringindo-se apenas às práticas de pesquisa e de investigação das Ciências Exatas e das Ciências da Natureza. Tal aspecto personifica a imagem do cientista resumida a uma “caricatura” do físico Albert Einstein e de um cientista de jaleco branco com práticas de pesquisas e descobertas científicas apenas no laboratório. Por sua vez, a noção de cultura tem sido resumida apenas às práticas eruditas e mais clássicas da produção artística mundial, não é ampliada para o contexto da cultura popular, por exemplo.

Com isso, é importante destacar que, as noções de cultura da Idade Média, não são as mesmas da contemporaneidade. Igualmente, as práticas e as experiências culturais, assim como a produção científica, a comunicação e a apropriação deste tipo de conhecimento, também, não acontece do mesmo modo e não deve ser restrito às mesmas ideias e concepções.

Embora haja sempre uma relação entre produção de conhecimento e práticas culturais, compreender ciência no século XXI, associando às práticas culturais e sociais do século XV já não produz efeito. Em virtude disso, discutir como se produz ciência na Cibercultura é relevante para problematizamos sobre cultura dos cientistas e a consequentemente, consolidação da cultura científica, já que a primeira provoca impacto sobre a segunda.

Nesta perspectiva, como a ciência muda ao longo do tempo, às vezes de um modo radical, similarmente, provoca efeito no modo como as pessoas se portam e desenvolvem suas experiências cotidianas. É assim que, neste trabalho, nos centramos em demonstrar que nem a ciência, nem a cultura são verdades absolutas, mas conhecimentos, práticas e experiências relativas que se transformam de acordo com o espaço-tempo. Isso quer dizer que, mesmo verdades já estabelecidas, em um dado momento, podem torna-se um conhecimento provisório. Isso porque, a evolução do conhecimento e das práticas culturais são constituídas por ser humanos falíveis e que, por seu esforço comum, tendem a aperfeiçoar esse conhecimento, mas sem nunca possuir garantia de poder chegar a algo definitivo e absoluto.

Com base no que afirmamos anteriormente, este texto tem como objetivo central fazer uma descrição da cultura dos cientistas e, como por meio da divulgação científica, em especial, é possível conceber a formação de uma cultura científica no Brasil. Para tanto, por meio de estudo bibliográfico, com abordagem qualitativa abordaremos os principais elementos que servem de basilares para o propósito aqui enunciado, como a noção de cultura, de ciência e de cultura científica e como estas questões estão articuladas, especialmente na Cibercultura.

 

Sobre concepções de cultura

 

O conceito de cultura não é unânime. Conforme Terry Eagleton (2011), Cultura é a segunda palavra mais complexa do vocabulário inglês e seu nascimento pode ser datado em 1871. Por isso, do seu nascimento até os dias atuais ela, a palavra, e sua acepção apresentam uma complexidade e uma miríade de conceitos e definições.

A interpretação é direcionada, geralmente, ao conceito mais erudito, que levaria em conta apenas as artes, as manifestações culturais de prestígio em uma sociedade: teatro, cinema, dança etc. Apesar disso, em uma revisão mais vertical é possível identificar que a concepção de cultura, embora seja complexa, não se restringe apenas às concepções clássicas e eruditas de um determinado contexto histórico e social. Vai muito mais além.

A cultura seria para Laraia (2003) uma espécie de guia de comportamento em cada sociedade. Ela determinaria como nos vestimos, o que é considerado adequado ou não em uma sociedade, como nos comportamos em relação aos demais, enfim, nossas ações seriam mediadas por aquilo que recebemos através da socialização.

Duranti (1997) lista e analisa seis teorias sobre o que seria cultura em sua obra Linguistic anthropology. A primeira entenderia a cultura como tudo aquilo que o ser humano produz e que seria oposto à natureza. Cultura seria algo que os grupos humanos passariam para seus descendentes. Franz Boas é um dos representantes desse grupo, pois ele via a cultura como todas as ações do homem face à natureza e aos outros indivíduos. Para Boas (2009), o ser humano apreende o mundo sob a ótica de sua cultura, a famosa “lente” que de alguma forma molda nossa visão de tudo o que vemos.

A segunda teoria, denominada de cognitiva, veria a cultura como uma síntese dos conhecimentos que são compartilhados pelos membros de uma determinada sociedade. Estes lhes servem de parâmetros para interagir entre si e também para apreender o mundo à sua volta, como foi sintetizada por Duranti (1997).

A terceira teoria, cujos representantes mais famosos seriam Lévi-Strauss e Geertz, considera a cultura como uma maneira de representar o mundo e de entendê-lo. No entanto, enquanto o primeiro vê as culturas como adaptações da mente humana aos vários ambientes em que os seres humanos vivem para que possam habitar de maneira satisfatória, para o segundo, o que é mais interessante é, justamente, ver aquilo que é comum a todas as culturas, a fim de traçar regras gerais para o entendimento das culturas humanas.

Já para estudiosos defensores da quarta teoria, como Marx, a cultura seria um mediador entre o ser humano e seus afazeres, e tudo aquilo que o homem produz com o intuito de atingir seus objetivos, seja material ou não. A quinta abordagem, que teve em Bourdieu um de seus expoentes, vê a cultura como um sistema de práticas mediadas pelas relações que se estabelecem dentro de uma sociedade, abarcando aquelas entre indivíduos e também entre indivíduos e instituições.

O sexto entendimento do que seria cultura tem a ver como um sistema interativo, e tudo o que o ser humano faz deve ser entendido dentro do contexto social. A cultura seria um resultado das interações entre os indivíduos de cada sociedade. Se centrarmos a percepção apenas na etimologia da palavra, perceberemos que o termo alemão Kultur já era utilizado no século XVIII “para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade”, como discute Laraia (2003, p. 25). Por outro lado, a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. O antropólogo inglês Edward Tylor teria sintetizado ambos os conceitos no termo inglês culture.

Ainda segundo Laraia (2003, p. 68), a associação das concepções francesa e alemã definem a cultura como o modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes comportamentos sociais e, mesmo as posturas corporais, são assim produtos de uma herança cultural, ou seja, resultado da operação de uma determinada cultura.

 

Cultura dos cientistas e suas

 

implicações

 

No período do Renascimento foi registrado na História uma transformação significativa no que se refere à ciência. Há um advento desta por meio da importância dela na sociedade e, do mesmo modo, devido à solidificação de teorias. Isto é, além disso, a importância da Teoria Positivista, do método científico e da Teoria Cartesiana. Outro elemento importante é a criação dos tipos móveis por Gutenberg no século XV. Todos estes acontecimentos são fatos para uma reflexão que revela aspectos, aliados à acepção que a cultura e a ciência começam a se entrelaçar e proporcionar uma evolução constante da ciência em meio à cultura e da cultura em meio à ciência. Similarmente, acontece, neste período, o início da caracterização de uma tecnologia mais avançada, o que pode ter gerado a necessidade do deslocamento desse conceito de cultura científica do de outras concepções de cultura.

Por conseguinte, ocorre o redimensionamento do argumento em que a ciência atua em contextos técnicos, sociais, culturais, políticos e militares.

 

Um novo ethos da ciência passou a desafiar o imperialismo do modelo geral

com que habituamos a identificar a actividade da ciência processo tradicional

que se desenvolve, essencialmente, em função dinâmicas internas a

contextos académicos e disciplinares […]. (SANTOS, 2009, p. 532)

 

Todavia, como já fora mencionado neste texto, sabemos que, a partir do século XVI, a ciência passa a ser o centro das atenções da sociedade e pelo grupo seleto de estudiosos. É um momento expressivo em que o homem tem no racionalismo, o caminho para se chegar ao conhecimento e que tudo podia ser explicado pela razão e pela ciência.

As mudanças, ocorridas no século XVI, foram exponenciais e estão bem delineadas nas artes plásticas, na literatura e em outros segmentos sociais, o que nos mostra uma mudança de olhares e crenças. Não obstante, nosso olhar se fixará com mais acuidade aspectos do que chamamos de cultura dos cientistas.

Nomes como Copérnico e Galileu listado como os que marcaram, sobremaneira, este período que também passa a ser denominado por alguns historiadores como o “Renascimento Científico”. Outro aspecto importante é a criação do método científico, balizador para o advento do que é ou não científico na produção de conhecimento da humanidade.

Por isso, a produção do conhecimento científico começa a ser associada às condições históricas, sociais e culturais de uma determinada sociedade em seu tempo histórico. Quando alguns teóricos concordam com esse ponto de vista, defendem que mesmo sendo uma cultura dos cientistas, ela está inserida em uma dinâmica cultural, seja do ponto de vista da sua produção, da sua difusão entre pares e extrapares. (LÉVY-LEBLOND, 2006)

A partir daí, a concepção sobre uma ciência togada e cheia de verdades ganha espaço e começamos a registrar uma representação que, hoje, é equivocada, da realidade, do legado da divisão que se fazia, no século XIX, entre os cientistas e suas práticas. Ou seja, eles como detentores de um conhecimento geral e universal desarticulado de uma preocupação em tornar público os resultados de pesquisa para além das sociedades científicas, estas eram a casta de um pensamento que, de certa forma, sentia-se superior.

Portanto, a apropriação dos conhecimentos científicos era sempre um processo para um grupo seleto que detinha os conhecimentos, sedimentados nas experiências científicas. Para este grupo não havia o entendimento vertical de que a ciência era, inclusive, “fruto das circunstâncias e condições de um determinado estágio do saber, em determinada época e lugar”. (ZAMBONI, 2001, p. 32)

Vale ressaltar que, para a cultura dos cientistas, o cerne que canoniza o saber científico do saber é a capacidade de organização e de entendimento dos elementos da natureza. Ou seja, por meio de um sujeito que sabe refletir e pormenorizar as observações e interações sensoriais dos saberes tradicionais. Afinal, os cientistas abordam os fenômenos segundo uma concepção paradigmática, prática e teórica do seu tempo, que ele se permite por força das evidências. O paradigma é que margeia e sustenta os modelos e critérios que tornarão o suporte para se chegar a respostas aceitáveis.

É evidente que a acepção de ciência sofreu uma relevante evolução desde o Renascimento até hoje com a difusão da ciência moderna. Santos (2006) aponta que a ciência moderna, que tem um paradigma dominante, está em crise vertical, caracterizada por uma diversidade de condições sociais e teóricas. Tal situação é consequência dos avanços do conhecimento que, em muitas áreas, contribuíram para a crise do paradigma moderno. O que culminou na emergência de um novo paradigma que vislumbra não só um paradigma científico, como também um paradigma social.

O paradigma a se elevar na denominada ciência moderna na atualidade, “não pode ser apenas um paradigma científico de um conhecimento prudente, tem que ser também um paradigma social (o paradigma de uma vida decente)”. (SANTOS, 2006, p. 60) Por isso, é preciso pensar que, para além da cultura dos cientistas, necessitamos de uma cultura científica, é importante que as agências de fomento em nosso país, além de financiar a pesquisa, façam o pesquisador se comprometer com atividades de divulgação científica com responsabilidade social.

É perceptível que o conhecimento científico traz muitos benefícios para a humanidade, desde o aumento da qualidade de vida às possibilidades de compreensão dos fenômenos naturais. O que nos dá ciência da importância da ciência na formação dos indivíduos, reafirmando seus efeitos nesta formação. A ciência é um elemento fundamental para sociedade.

Na cultura dos cientistas é comum o entendimento de que basta comunicar ciência para seus pares e já estão fazendo um grande bem à sociedade. Tal aspecto é sim importante, outrossim, essa comunicação científica deve ultrapassar os muros das instituições de pesquisa e buscar consolidar a ciência como um bem social. Uma comunicação de ciência que não seja apenas para manter publicações de artigos de estrato A1, A2 e B1, de livros L2 a L4, fator de impacto, as bolsas de produtividade, as notas dos Programas de Pós-graduação. Necessário se faz que, em um Brasil onde mais de 80% da pesquisa é financiada pelo dinheiro público, essas notícias sejam de conhecimento da sociedade e não apenas dos pares e dos extrapares.

Importante ressaltar, igualmente, que muitos dos nossos pesquisadores não entendem a diferença entre disseminação e divulgação científica. Isso torna-se um dos entraves para que se estabeleça uma cultura científica no Brasil, pois sem divulgação a cultura científica não será consolidada. Nesse sentido, faz-se mais que necessário que, além das instituições que financiam pesquisa, similarmente, os divulgadores de ciência ou os estudiosos sobre assunto atuem como agentes, visando consolidar uma comunicação científica para além dos pares com uma divulgação de ciência implicada com a formação de uma cultura científica no Brasil.

Assim, é preciso reconfigurar a cultura científica e consequentemente a produção de ciência como conhecimento canônico. Montada em procedimentos severamente formalizantes e formalizados. Posto que o conhecimento científico sempre foi objeto de polêmica, bifurcando-se em inúmeros paradigmas, metodologias, escolas, e alternativas, com este texto propomos simplesmente que ele seja entendimento como bem para apropriação social e mudanças culturais.

 

Cultura científica e suas implicações

 

Há um conceito bastante difundido de que cabe à divulgação científica preencher uma lacuna de informação que o leigo não tem em relação à ciência, isto é, que o leigo é, portanto, analfabeto cientificamente. Diante disso, os norte-americanos chamam essa atividade de scientific literacy, que é alfabetização científica, ou seja, tornar, o leigo informado das questões da ciência.

A partir de enquetes sobre essa questão, notaram que também nos Estados Unidos o percentual da população que tinha informação sobre muitas questões, eventos ou fatos científicos era relativamente pequeno. Esse déficit de informação – teoria do déficit – orientou durante muito tempo as atividades de divulgação.

O que cabia à divulgação científica? Cabia suprir a falta de informação da população leiga em relação à ciência, ou seja, propor uma aproximação entre conhecimento científico e sociedade. Por conseguinte, considerava-se que era imprescindível, então, levar a esta sociedade o conhecimento sobre ciência.

Com o decorrer das atividades em vários países, na Inglaterra, na França, na Europa, de modo geral, e com o reflexo disso em países como o Brasil, essa teoria do déficit foi sendo substituída por uma visão mais democrática do papel da divulgação científica. Nessa visão, não cabe à divulgação científica apenas levar a informação, mas também atuar de modo a produzir as condições de formação crítica do cidadão em relação à ciência.

Deste modo, não compete à divulgação a aquisição de conhecimento e informação, mas a produção de uma reflexão relativa e crítica a respeito do papel da ciência, sua função na sociedade, as tomadas de decisão correlatas, fomentos, aos apoios da ciência, seu próprio destino, suas prioridades e assim por diante. Tal aspecto vai além da atitude inicial, na qual o cientista era o sábio, o cidadão era o ignorante e o jornalista científico ou divulgador da ciência era o construtor da ponte entre essas figuras, de maneira a suprir o tal déficit de informação.

Na Inglaterra, por exemplo, desenvolveu-se a experiência chamada public understanding of science, que é diferente do scientific literacy, do ponto de vista americano e, em seguida, um conceito que é ligado ao primeiro, mas um pouco diferente, que é o public awareness of science. Um é o entendimento público de ciência, enquanto que o outro é a consciência pública da ciência.

Com estes dois casos, o que queremos enfatizar não é somente as propostas de popularização para aquisição da informação, mas a formação do cidadão no sentido em que ele possa ter opiniões e uma visão crítica de todo o processo envolvido na produção do conhecimento científico com sua circulação e assim por diante. Essa é uma preocupação em âmbito amplo relacionado à cultura científica que modifica os modos de se fazer e pensar a própria divulgação e, consequentemente, nas ciências.

No Brasil a percepção sobre a necessidade de apropriação social dos conhecimentos científicos tem sido caracterizada em diferentes modos em algumas, mesmo com propostas distintas com o igual propósito: a Mentalidade científica, por Miguel Ozorio de Almeida; o espírito científico por Anísio Teixeira; o progresso da ciência e cultura por Maurício Rocha e Silva; e a cultura científica proposta por Carlos Vogt, e sobre qual nos centramos neste trabalho.

De acordo com Vogt (2006), a cultura científica é a cultura que se refere aos processos de produção e difusão do conhecimento. E, no caso deste último, engloba não somente o conhecimento que produz resultados, mas, igualmente, as tentativas de construir teorias alternativas de saber, novos modos de produzir conhecimento e a emergência de novas ciências.

Logo, a cultura científica é tipo particular de cultura, de ampla generalidade no mundo contemporâneo, constituída pelo conjunto de fatores, eventos e ações do homem nos processos sociais voltados para a produção, a difusão, o ensino e a divulgação do conhecimento científico. A cultura científica não é nem cultura e nem ciência, embora contenha elementos da cultura e da prática científica, num equilíbrio dinâmico entre as tensões de ambas. (VOGT, 2016)

Assim sendo, a eminente relação entre ciência e cultura poderia ser interpretada como uma relação de oposição, mas de oposição necessária, ou seja, o conceito de cultura na contemporaneidade não existe sem o conceito de ciência, e o conceito de ciência não existe sem o conceito de cultura: eles se opõem, mas se complementam. E o conceito de cultura científica é um conceito que não é nem o de cultura, nem o de ciência, mas uma associação dos dois.

 

A cultura científica na Cibercultura

 

Se a cultura científica é cultura e é ciência ao mesmo tempo, então é pertinente saber: qual é o lugar que deve ocupar a cultura científica na Cibercultura enquanto cultura contemporânea? Aparentemente, pode até parecer uma pergunta fácil de fazer, entretanto, é difícil no que diz respeito às respostas que podemos apresentar.

Em um labirinto onde as ideias se entrelaçam como fios que formam miríades de fenômenos e implicações, os termos Cibercultura, cultura digital se configuram como uma teia de significações e, na sociedade contemporânea, este aspecto desdobra-se no momento em que surge uma hibridez de culturas caracterizada por uma mescla ou convivência de várias culturas. Dessa maneira, a cultura digital localiza-se em meio a esse misto de culturas que viabiliza a disseminação veloz de informações e o ingresso que nos mostra a inserção em um momento da história da humanidade, onde o digital passa a ser uma prática cotidiana.

Podemos afirmar que a Cibercultura é a cultura contemporânea mediada pelos dispositivos digitais em rede. Deste modo, é o epicentro das transformações sociais e culturais. Consequentemente, ela propicia mudanças em vários segmentos da sociedade e na vida cotidiana dos indivíduos. Isso resulta em um movimento no qual a cultura sofre ações que geram mudanças em ambientes díspares de veiculação e, de igual modo, na informação, espacialmente por meio da possibilidade de emissão de informação em rede por qualquer sujeito, marcando sempre o lugar de fala em suas práticas culturais da sociedade.

Em um tempo de criações livres e apropriações, em uma cultura que tem como princípios: a liberação do polo, conexão e reconfiguração. (LEMOS, 2009) Se estabelece, por meio destes elementos, uma opção de recombinar também práticas culturais historicamente tidas como absolutas, mas que, igualmente, são passíveis de mudanças, particularmente, pela possibilidade de conectar, de produzir e emitir. Se estamos neste território rizomático de desterritorialização e reterritorialização das relações sociais (DELEUZE; GUATTARI, 1995), estes elementos são componentes da cultura digital, que permeia o processo de práticas sociais de comunicação científica em suas diversas modalidades.

Claro que neste momento da história das práticas de comunicação entre os pesquisadores, sejam pares, extrapares ou o público que muito se interessa, mas pouco sabe sobre ciência, se transformaram, se redimensionaram. A agilidade e a rapidez da comunicação via internet, seja por meio das redes sociais, aplicativos, ofereceu ao cientista uma nova forma de organizar suas informações, criar seus textos e estabelecer diversas conexões. Os pesquisadores hoje podem publicar seu texto sem a chancela dos pares, descrever suas pesquisas e ainda, transformar o discurso da disseminação em divulgação de ciência.

Claro que divulgar ciência na Cibercultura tornou-se mais ágil, mais fácil, no entanto nos deparamos ainda com pesquisadores que não sabem diferenciar o que é disseminação do que é divulgação. Deste modo, é que a pergunta feita no sentido desta seção ganha sentido. A cultura científica na Cibercultura deve possibilitar engajamento e participação. Tanto de quem faz ciência, quanto quem não faz diretamente mas sofre os impactos de sua produção mesmo que indiretamente em seus cotidianos.

Em uma pesquisa realizada em 2016 sobre divulgação científica pelas universidades brasileiras no Facebook (OLIVEIRA; PORTO, 2017), mostra-se que, embora a maioria das universidades públicas brasileiras possuam conta no Facebook e contem com investimento público para produção de pesquisas, poucas delas se preocupam em veicular essa produção de modo simplificado em redes sociais digitais.

Isto nos faz pensar que, embora os artefatos culturais sejam acessíveis e estejam acessíveis em larga escala pelos pesquisadores, pelas instituições, pelas agências de fomento e, principalmente, pelos usuários das redes sociais, a preocupação em divulgar o que se pesquisa e produz na ciência brasileira ainda não é encarada como tarefa pertinente à produção científica.

Assim, podemos concluir que não basta apenas utilizar os artefatos culturais da Cibercultura para difundir ciência de modo aleatório, é preciso criar estratégias de divulgação e popularização da comunicação científica e aproximá-las das experiências culturais. Mas não de modo isolado, a construção da cultura científica na Cibercultura, é possível por meio de um processo de reflexão da própria ciência, articulado por algo que não é ciência, embora, ao mesmo tempo, faça parte constitutiva da ciência contemporânea: as práticas comunicacionais da cultura contemporânea, mais especificamente, pela divulgação científica na Cibercultura.

 

Conclusão

 

O que buscamos enfatizar neste texto é que para a consolidação de cultura científica e uma mudança de postura em todos os âmbitos, sobretudo, que garantam maior participação da sociedade em relação às descobertas científicas, é necessária uma mudança na cultura dos próprios cientistas e, evidentemente, em sua forma de fazer ciência na contemporaneidade. Isso significa que, não basta apenas produzir ciência ou conhecimento para circular entre os próprios pares, é preciso produzir ciência com engajamento e inserção social.

Não obstante, para entender o que de fato é a formação de uma cultura científica, articulamos questões sobre as concepções de cultura, a concepção de ciência e a cultura científica que é cultura e ciência ao mesmo tempo, não necessariamente nesta ordem. Vale destacar que, quando nos referimos a “cultura científica” é preciso entender pelo menos três possibilidades de sentidos que se oferecem pela própria estrutura linguística da expressão:

 

a. Cultura da ciência. Que é possível vislumbrar ainda duas

alternativas semânticas: cultura gerada pela ciência e cultura própria da ciência.

b. Cultura pela ciência. Permeada por outras duas alternativas

possíveis: cultura por meio da ciência; cultura a favor da ciência.

c. Cultura para a ciência. Que cabe duas possibilidades: cultura

voltada para a produção da ciência; cultura voltada para a socialização da ciência.

 

Nesse último caso, teríamos a difusão científica e a formação de pesquisadores e de novos cientistas e, em parte, do processo de educação não contido. Como o que acontece, por exemplo, no ensino médio ou nos cursos de graduação e, também, nos museus – educação para a ciência –, além da divulgação, responsável, mais amplamente, pela dinâmica cultural de apropriação da ciência e da tecnologia pela sociedade.

Jean-Marc Lévy-Leblond (2006, p. 33) afirma que “[…] depois de permanecer por certo tempo vinculada organicamente à cultura, a ciência evoluiu e alcançou sua plena autonomia, e agora está dela completamente afastada”. A provocação do autor implica, conforme ele mesmo sugere em seguida, no fato de que hoje não mais exista cultura na ciência ou ciência na cultura; e, logo, não existe mais uma cultura científica.

Diante da apologia do saber científico, rigoroso, das rígidas leis do determinismo, concebe-se a cultura dos cientistas. Contudo, na contemporaneidade a cultura científica não se articula como aquela que apenas os cientistas se detinham, mas a formação da cultura científica de modo geral por meio da divulgação científica. Isso posto, lança-se a afirmação de que a totalidade científica tem a mesma natureza do indivíduo, de um movimento incessante, um impulso de liberdade criadora que transforma de forma irrefreável a matéria.

Esta afirmação é também uma forma de demonstrar o movimento da ciência em meio às mais diversas manifestações culturais e sua configuração mediante uma cultura que não é apenas dos cientistas, mas que pode ser a cultura científica que se discute hodiernamente. À vista disso, este texto se concentrou em discutir a cultura dos cientistas e, como por meio da divulgação científica, em especial, na Cibercultura é possível conceber a formação de uma cultura científica no Brasil. Para isso, precisamos criar uma cultura científica, com cientistas mais proativos, que construam pontes mais sólidas entre ciência, produtos culturais, especialmente os meios de comunicação da Cibercultura e sociedade. Para assim, provocar engajamento social e cultural a partir dos meios de comunicação e uma nova concepção do que é ciência do papel desta e dos cientistas para a sociedade.

 

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