Própolis e geoprópolis: uma herança das abelhas

José Maurício Sforcin · Capítulo 8 de 11

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Própolis e geoprópolis: uma herança das abelhas

7 – Uso de produtos disponíveis comercialmente contendo própolis e geoprópolis

7 – Uso de produtos

 

disponíveis comercialmente

 

contendo própolis e

 

geoprópolis

 

Nos dias atuais, há grande interesse e aceitação de produtos apícolas pelas inúmeras propriedades terapêuticas que oferecem. A apiterapia, por exemplo, utiliza geleia real, pólen, mel, apitoxina e própolis para tratar e prevenir diversas enfermidades.

As civilizações antigas (grega, romana, chinesa, persa, hindu e egípcia) descreveram as propriedades terapêuticas desses produtos há milhares de anos, o que torna fascinante a origem de seu uso humano como alimento, profilaxia e cura. Essas civilizações relatavam inúmeras formulações feitas com mel, própolis, larvas e abelhas moídas para tratamento ou prevenção de doenças e cicatrização de feridas (Schneidewind et al., 1975 apud Lacerda et al., 2011). Textos da civilização hebraica, como a Bíblia, salientam as propriedades curativas do mel e da própolis, conhecida como “o bálsamo de Gileade”. No Egito antigo, muitas doenças foram tratadas com um unguento (pomada mais líquida ou em forma de papa) feito com veneno de abelhas (apitoxina). Hipócrates, considerado o pai da medicina, relatou ter-se autoexposto a picadas de abelhas. Na Roma antiga, o filósofo Cláudio Galeno e o imperador Carlos Magno se submeteram a igual tratamento nas articulações para tratar a artrite (Beck, 1997).

O crescente interesse por produtos apícolas, atraiu a atenção da indústria farmacêutica. No início do século XIX, a própolis foi descrita e estudada pelo farmacêutico e químico francês Louis-Nicolas Vauquelin, que descreveu esse produto como benéfico para a medicina humana e animal (Kuropatnicki et al., 2013).

China, Brasil, Estados Unidos, Austrália e Uruguai destacaram-se como grandes produtores de própolis (Spethmamm, 2004). Em 2012, a própolis brasileira ganhou destaque no mundo inteiro, com produção estimada em cem toneladas anuais. No Japão, cerca de 92% de própolis bruta utilizada nos últimos anos foi de origem brasileira (Machado et al., 2012b). O Brasil exporta para todos os continentes e atende clientes com as mais variadas exigências e necessidades. O que desperta o grande interesse pela própolis brasileira é a existência de diferentes amostras oriundas da diversidade da flora encontrada aqui.

Um estudo sobre própolis e segurança alimentar e nutricional revelou que o Brasil ocupava a terceira posição mundial em produção de própolis em 2011. As condições climáticas e geográficas e as características da vegetação são os principais pontos favoráveis desse sistema de produção. Segundo o estudo, a própolis brasileira pode ser classificada em treze tipos, incluindo a “verde” e a “vermelha” (Lacerda et al., 2011).

A própolis brasileira mais conhecida é a chamada própolis “verde”, cuja principal fonte vegetal é a Baccharis dracunculifolia (alecrim-do-campo), muito encontrada em São Paulo e Minas Gerais. Trata-se da própolis brasileira mais cobiçada pelo mercado internacional para produção de medicamentos. Várias linhas de pesquisa com esse tipo de própolis são conduzidas no Brasil e no exterior, sobretudo estudos para prevenção e tratamento do câncer.

A própolis “vermelha” é originada de Dalbergia ecastophyllum (conhecida como “marmeleiro da praia”), vegetação encontrada sobretudo nos manguezais dos estados da Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. O que difere essa própolis de outras amostras é a presença de isoflavona, componente natural amplamente aplicado nas indústrias farmacêutica e alimentícia. Na área científica, estuda-se as atividades dessa amostra contra alguns vírus (principalmente o HIV) e o câncer.

Na tradição popular, a própolis é empregada para tratar infecções urinárias, inflamações, infecções de garganta, mau hálito, úlceras, doenças do coração, diabetes e até mesmo câncer (Dobrowolski et al., 1991; Pereira et al., 2002).

Em formulações farmacêuticas, ela é comercializada em cápsulas, extratos, pó, enxaguatório bucal, spray bucal, pastilhas, xaropes, comprimidos, entre outras (Soares et al., 2006). Também é empregada em cosméticos: condicionador, xampu, sabonete, protetor solar, gel pós-barba, pomadas para cabelo, além de cremes faciais e corporais. Na indústria alimentícia, é recomendada como alimento funcional, disponível no mercado brasileiro na forma de balas, chás, entre outras (Alencar et al., 2005). Todos esses produtos podem ser facilmente adquiridos em farmácias, estabelecimentos de produtos naturais e lojas virtuais. Encontram-se também disponíveis extratos de própolis combinados com outros produtos –como menta, gengibre, guaco e, sobretudo, mel – para tratar infecções do trato respiratório.

Sites e bulas recomendam, de modo variado, o uso da própolis

(Tabela 1). Apesar de encontrarmos apenas um produto comercial à base de geoprópolis (item 11), ela apresenta-se como potencial candidata para geração de renda sustentável no Brasil, sobretudo no estado do Maranhão, que incluiu apicultura e meliponicultura como atividades produtivas da região (BNB, 2001).

 

Tabela 1 – Alguns produtos formulados com própolis e geoprópolis e

informações sobre tipo de extrato, indicações e recomendações de

uso*

Tipo de Recomendação de

Produto Indicação

extrato uso

1 Alcóolico Bochechar ou

(30%) ou gargarejar 45-50 gotas

Dor de garganta,

aquoso diluídas em meio copo

de dente de água com uma aftas, faringites e dor

pitada de sal grosso,

quatro vezes ao dia

Herpes, micoses, Pingar algumas gotas

frieiras e feridas na área afetada

* Recomendações de diferentes fabricantes nas bulas de produtos comercialmente disponíveis. Para evitar citar a fonte dos produtos, os exemplos utilizados foram numerados de 1 a 11.

Tipo de Recomendação de

Produto Indicação

extrato uso

Gripes, resfriados, Consumir 25-30 gotas

bronquites, sinusite, diluídas em suco, água

úlceras, gastrite e ou leite, três vezes ao

infecções intestinais dia

Diluir 5 ml em um copo

Sinusite e congestão

de água fervente e

nasal

inalar

Preventivo e curativo

Alcóolico

de gripes e resfriados,

2 cicatrizante de Consumir 20-25 gotas, (30%) ou

(própolis queimaduras, quatro vezes ao dia aquoso

verde) machucados, aftas e frieiras

 

3 Úlceras, duodenite, Consumir 20 gotas aftas, amigdalites, diluídas em água, chá, hipertensão, giárdia, leite ou suco três viroses, produção de vezes ao dia – anticorpos

Prevenção de

doenças e 10-15 gotas fortalecimento do diariamente sistema imunológico

4 Concentrado Afta, gengivite, Bochecho

amigdalite e faringite

Pulverizar na boca

5 Alcóolico quatro vezes ao dia – (20%) (sem restrição quanto

ao aumento da dose)

 

* Recomendações de diferentes fabricantes nas bulas de produtos comercialmente disponíveis. Para evitar citar a fonte dos produtos, os exemplos utilizados foram numerados de 1 a 11.

Tipo de Recomendação de

Produto Indicação

extrato uso

Afta, gengivite,

amigdalite, laringite,

Alcóolico bronquite, estomatite,

6 –

(30%) faringite, frieira,

micose, verrugas e

lesões cutâneas

Consumir 15 ml, puro

7 Diluído em ou diluído em água, – água leite ou chá, três vezes

ao dia

 

8 Alcóolico Consumir 1 colher de Anti-inflamatório, chá (trinta gotas) (própolis antibiótico e diluída em água, leite verde) bactericida ou suco

 

9 água ( Diluído em Resfriados comuns, Meio conta-gotas em spray sinusite, rinite e cada narina de uma a ou gotas) descongestionante três vezes ao dia (40mg/ml) nasal

Resfriados, sinusite,

10 Diluído em rinite e – água (gotas) descongestionante

nasal

Seu uso como

complemento

Geoprópolis

alimentar garante

de

11 maior proteção contra –

mandaçaia (20ml) diversas doenças,

além de atuar como

terápico

* Recomendações de diferentes fabricantes nas bulas de produtos comercialmente disponíveis. Para evitar citar a fonte dos produtos, os exemplos utilizados foram numerados de 1 a 11.

Observa-se que não há padrão para o preparo de produtos à base de própolis, com extratos alcoólicos e aquosos comercializados para o mesmo fim. Conforme dito anteriormente, a mudança de solvente altera a composição química do extrato e, como consequência, a solução apresenta propriedades biológicas semelhantes ou não. Sobre diferenças de extratos, será que a mesma dose de extratos

alcoólicos e aquosos (itens 1 e 2 da Tabela 1) propiciam o mesmo resultado? Outro ponto importante: nas instruções das bulas, a maioria dos extratos de própolis disponíveis no comércio não informa qual tipo de própolis foi utilizada. Será que tipos diferentes de própolis têm atividades tão semelhantes a ponto de se recomendar a mesma dose e modo de uso?

Nas recomendações para uso da própolis, muitos produtos comerciais destacam o “milagre” que o produto oferece: o mesmo extrato, na mesma concentração e com o mesmo solvente é indicado para múltiplas enfermidades. Se o produto tivesse esse poder, teríamos tantos pesquisadores empenhados em estudar e desvendar o potencial da própolis e padronizar quimicamente um extrato e suas atividades?

O potencial da própolis para tratamento de inúmeras enfermidades e desenvolvimento de novas drogas é evidente, mas é preciso considerar e avaliar diversos fatores: procedência da amostra, origem geográfica e fontes vegetais, formulação e tipo de solvente utilizado, finalidade de aplicação, uso interno ou externo, quantidade e periodicidade de ingestão e tempo de uso.

Percebe-se que pesquisas sobre própolis avançaram – e muito –, mas ainda há aspectos a serem explorados, química e biologicamente, e também quanto à padronização desses estudos, para melhor aproveitamento desse produto.