Própolis e geoprópolis: uma herança das abelhas

José Maurício Sforcin · Capítulo 6 de 11

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Própolis e geoprópolis: uma herança das abelhas

5 – Propriedades biológicas da própolis produzida por Apis mellifera

5 – Propriedades biológicas da

 

 

própolis produzida por Apis

 

mellifera

 

Inúmeros compostos biologicamente ativos foram encontrados ou sintetizados a partir de fontes naturais. A própolis é um produto elaborado por abelhas a partir de matéria-prima vegetal, apresenta grande variedade de constituintes e inúmeras atividades biológicas (antibacteriana, antifúngica, antioxidante, imunomoduladora, antitumoral). Algumas de suas atividades biológicas, como a ação antimicrobiana, já estão melhor estabelecidas. Nas próximas páginas, apresentamos algumas pesquisas relacionadas à própolis produzida por abelhas africanizadas e suas ações biológicas.

 

Atividade antimicrobiana

 

Com o advento da penicilina no século passado, acreditou-se que o uso de produtos naturais estaria descartado. A resistência bacteriana a antibióticos, entretanto, forçou pesquisadores a buscarem alternativas naturais para o controle de micro-organismos. Ainda hoje vários testes são feitos com diversos produtos naturais para encontrar novos compostos antibacterianos.

A própolis, em baixas concentrações, apresentou ação antibacteriana sobre bactérias gram-positivas (Staphylococcus aureus) e, em altas concentrações, sobre outros tipos de bactérias, como Escherichia coli (bactéria gram-negativa). Essa ação demonstra o caráter diferencial da própolis sobre diferentes grupos de bactérias (Sforcin et al., 2000).

Outros pesquisadores, com abordagens diferentes, evidenciaram que a ação in vitro de própolis com antibióticos promoveu melhor ação do fármaco sobre bactérias e diminuiu a resistência bacteriana a antibióticos (Orsi et al., 2006).

Martos et al. (2008), em revisão da literatura científica, concluíram que a própolis, além de outros produtos apícolas, possui ação antibacteriana por causa de sua composição singular. Sforcin e Bankova (2011) mencionaram que a própolis e alguns de seus compostos isolados apresentam potencial para o desenvolvimento de novos fármacos.

Não só a própolis brasileira, mas também outras amostras colhidas de diferentes localidades apresentam ação antibacteriana. Pesquisadores analisaram dezenove amostras de própolis provenientes de um centro chileno de produção apícola e demonstraram que a própolis apresenta ação bactericida in vitro contra quatro tipos diferentes de bactérias (E. coli, Pseudomonas sp., Yersinia enterocolitica, Salmonella enteretidis) causadoras de doenças no homem. A análise da composição química revelou compostos que as diferenciavam de outras amostras de própolis. Os pesquisadores atribuíram à flora o papel central na diferenciação da composição, reforçando a importância da origem botânica para a composição da própolis (Nina et al., 2015).

Massaro et al. (2015) avaliaram a composição e a ação antibacteriana de uma amostra de própolis proveniente da Austrália subtropical e produzida por Apis mellifera ligustica. A amostra apresentou perfil diferente da produzida no Brasil. Ensaios biológicos demonstraram que a própolis possui ação prevalente sobre S. aureus, porém sem ação sobre Klebsiella pneumoniae e Candida albicans. Tais achados estão de acordo com alguns artigos publicados anteriormente (Sforcin et al., 2000; Marcucci et al., 2001), demonstrando maior eficácia da própolis em combater bactérias gram-positivas. Os autores acrescentaram ainda que tal característica seletiva para o grupo de bactérias deve estar relacionada à saúde das abelhas, já que elas utilizam a própolis para evitar ou diminuir infecções na colmeia (Massaro et al., 2015).

Pesquisadores coletaram dez amostras de própolis boliviana e testaram a ação antibacteriana contra S. aureus, E. coli, Pseudomonas sp., Y. enterocolitica, S. enteretidis e Proteus mirabilis, e a ação antiparasitária contra a Leishmania braziliensis e Leishmania amazonensis. Algumas amostras se revelaram altamente eficazes contra a população bacteriana e contra os dois tipos de parasitas prevalentes na Bolívia. Essa ação se deu provavelmente pela composição rica em compostos fenólicos, presentes em outras amostras de própolis, inclusive na brasileira (Nina et al., 2016).

Pesquisadores catarinenses avaliaram as propriedades biológicas de duas própolis diferentes, uma obtida em Minas Gerais e outra em Santa Catarina. Foi realizada a caracterização química de ambas as amostras, havendo diferenças em sua composição. Os testes microbiológicos revelaram que ambas possuem ação sobre S. aureus, porém apresentaram eficácia reduzida quando testadas sobre culturas de E. coli. Esse resultado novamente reflete a maior eficiência sobre bactérias gram-positivas. Prosseguindo os estudos, pesquisadores avaliaram o potencial bactericida da própolis sobre a microbiota de tecido glandular mamário bovino. Ambas apresentaram toxicidade às células mamárias e às bactérias, porém a amostra de Minas Gerais, em menores concentrações, apresentou menor toxicidade ao tecido mamário e manteve o efeito bactericida cerca de seis horas após a administração da própolis. Com essas descobertas, foi sugerido que a própolis possui potencial para o tratamento de mastite bovina (Fiordalisi et al., 2016).

Em relação à atividade antiparasitária da própolis, pesquisadores observaram que ratos infectados com Trypanosoma evansi e tratados com própolis apresentaram maior longevidade em comparação aos ratos do grupo controle (sem tratamento). Outro aspecto observado in vitro foi a morte de tripomastigotas (forma flagelada do protozoário) após a incubação por uma hora com o extrato de própolis, demonstrando que o produto pode prolongar a vida de ratos infectados com o protozoário (Gressler et al., 2012). Em outro estudo, avaliando in vitro uma amostra de própolis mexicana sobre Giardia lamblia, pesquisadores observaram atividade inibitória contra a proliferação desse parasita (Alday-Provencio et al., 2015).

A atividade antifúngica da própolis também tem sido pesquisada. Freires et al. (2016b) verificaram in vitro o efeito da própolis contra C. albicans. Os resultados revelaram ação fungistática da própolis contra esse fungo e capacidade de romper estruturas do biofilme de Candida sp. Ainda avaliando a atividade antifúngica da própolis, Mutlu Sariguzel et al. (2015) analisaram essa atividade in vitro contra Candida sp. isolada de culturas de sangue de pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Os autores concluíram que a própolis desempenhou papel antifúngico contra todos isolados, sendo essa atividade semelhante ou até superior à de antifúngicos conhecidos (fluconazol e itraconazol). Com base nos estudos apresentados, a própolis apresenta potencial antifúngico, e ensaios clínicos merecem ser mais explorados.

Além das atividades descritas, a própolis também é conhecida por apresentar ação antiviral. Búfalo et al. (2009) avaliaram a atividade da própolis e dos ácidos cinâmico e cafeico, constituintes da própolis, sobre poliovírus in vitro. Observaram que a própolis é capaz de inibir a replicação viral mais eficientemente que seus constituintes. Ainda em relação ao efeito antiviral, Yildirim et al. (2016) avaliaram a própolis, in vitro, contra os vírus herpes simples tipo 1 e 2, obtendo inibição da replicação viral. Ademais, os autores observaram efeito sinérgico entre a própolis e o antiviral aciclovir.

Existem inúmeros estudos que relatam as atividades antimicrobianas da própolis, apontando seu promissor emprego na indústria farmacêutica. Porém ainda há a necessidade de estudos químicos de suas características para padronização dos resultados.

 

Atividade anti-inflamatória

 

Entre outras propriedades biológicas, a própolis apresenta também ação anti-inflamatória. Martos et al. (2008), em revisão da literatura acerca das propriedades da própolis, do mel e da geleia real, destacaram o mel e a própolis por sua ação anti-inflamatória. Tal característica deve-se ao fato de certos compostos químicos, como flavonoides, estarem presentes tanto no mel como na própolis e poderem agir no organismo, diminuindo marcadores, danos e indícios provenientes de processo inflamatório.

Tanaka et al. (2012) induziram artrite em camundongos e verificaram que animais tratados diariamente com própolis apresentaram menores concentrações de IL-17, IL-4, IFN-γ e menor manifestação da doença. A experiência reflete a ação anti-inflamatória da própolis. Com a finalidade de evidenciar a ação anti-inflamatória e vias moleculares afetadas pelo extrato de própolis, foi verificada a inibição da via do NF-κB e da produção de oxído nítrico, o que confere ação anti-inflamatória a esse apiterápico (Búfalo et al., 2013).

El-Aidy et al. (2015) investigaram o papel da própolis em doenças inflamatórias como a asma. Os pesquisadores induziram a asma em camundongos e iniciaram tratamento com própolis, geleia real e mel durante dezoito dias. Ao final desse período, foram feitas análises de sangue e pulmões dos ratos. A análise do número de células inflamatórias (leucócitos) no sangue revelou que o grupo tratado com própolis se assemelhou ao grupo tratado com um controle positivo (dexametasona). Já o resultado obtido na análise histopatológica dos pulmões demonstrou que a própolis exerceu efeito benéfico, pois diminuiu o score de inflamação no órgão. Com isso, os autores sugeriram que a própolis pode ser benéfica no tratamento de asma alérgica por possuir caráter anti-inflamatório.

 

Atividade antioxidante

 

A capacidade da própolis de diminuir ou neutralizar radicais livres, os responsáveis por danos oxidativos nos tecidos, também tem sido investigada. Um grupo de pesquisadores da Malásia, utilizando modelo animal para doenças neurodegenerativas inflamatórias, demonstrou algumas propriedades antioxidantes da própolis. Os ratos foram inoculados com ácido caínico (KA) para desenvolverem processo inflamatório produtor de radicais livres. O uso de própolis no tratamento desses animais aumentou o status antioxidante e diminuiu a glutationa sintetase dos tecidos neurais estudados, como cérebro e cerebelo, demonstrando a capacidade antioxidante da própolis sobre o estresse oxidativo no organismo (Swamy et al., 2014).

Um estudo de 2015 avaliou o efeito da própolis sobre os níveis de radicais livres e enzimas antioxidantes no fígado de ratos. O aumento do estresse oxidativo foi induzido pela administração de N-nitro-L-arginina metil éster (L-NAME) e os ratos foram tratados com própolis. O efeito foi o esperado: a própolis promoveu a diminuição de enzimas oxidantes, como catalase e malondialdeido, e do estresse oxidativo, evidenciando sua ação antioxidante (Selamoglu et al., 2015).

Investigando um componente da própolis, a crisina, um flavonoide encontrado também no mel, Manzolli et al. (2015) demonstraram sua ação antioxidante. O grupo brasileiro utilizou um modelo experimental de ratos expostos ao mercúrio na forma oxidativa, processo que acarreta aumento de danos no DNA e diminuição da concentração de enzimas antioxidantes. Com a administração de crisina por via oral (gavagem), houve diminuição no dano ao DNA e aumento da concentração de glutationa, antioxidante afetado pelo mercúrio.

Mendonça et al. (2015) analisaram o efeito da própolis vermelha produzida na região nordeste do Brasil e que possui como origem botânica a planta Dalbergia ecastphyllum. Os autores demonstraram que essa amostra diminuiu a quantidade de radicais livres em cultura de células tumorais, corroborando a ação antioxidante da própolis. Uma revisão bibliográfica utilizando abordagem farmacêutica sobre as propriedades biológicas da própolis vermelha demonstrou a ação antioxidante da própolis, concluindo que o uso em formulações farmacêuticas para tratamento de doenças causadas por danos oxidativos e excesso de radicais livres é promissor. Entretanto, ainda faltam dados sobre a segurança de aplicação desse tratamento em seres humanos (Freires et al., 2016a).

Uma patologia cujo número de incidência vem aumentando é a diabetes tipo 2, responsável pelo estresse oxidativo no organismo e pelo aumento do nível de glicose no sangue, favorecendo o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e piora do quadro do portador da doença (Tangvarasittichai et al., 2015). Considerando o estresse oxidativo elevado em pacientes com diabetes, pesquisadores escolheram dezoito portadores da doença para testar as propriedades biológicas da própolis e observaram que não houve diminuição da glicemia desses indivíduos; entretanto, a própolis induziu aumento de moléculas antioxidantes, como GSH e polifenóis, e diminuição de TNF-α e da lactato desidrogenase, sugerindo que o apiterápico pode apresentar ação antioxidante em pacientes diabéticos (Zhao et al., 2016).

Pesquisadores chineses analisaram o efeito do solvente na composição e ação antioxidante da própolis. Foi comparada a ação do extrato aquoso e etanólico (75%), verificando que esse último extraiu mais compostos biologicamente ativos e apresentou maior ação antioxidante em comparação ao Trolox® – fármaco utilizado como agente antioxidante em experimentos in vitro (Sun et al., 2015).

 

Ação imunomoduladora

 

Ao contrário da geoprópolis, a atividade imunomoduladora da própolis produzida por abelhas africanizadas tem sido estudada com mais frequência em animais de experimentação.

Orsi et al. (2000) avaliaram o efeito da própolis na ativação de macrófagos peritoneais de camundongos, in vivo e in vitro, por meio da determinação dos metabólitos do oxigênio e do nitrogênio. Eles observaram que a própolis, dependendo da concentração utilizada, aumentou a produção de peróxido de hidrogênio (H2O2) e diminuiu a de óxido nítrico (NO). Contrariamente, Simões et al. (2004) relataram que a própolis e alguns de seus componentes apresentaram efeito inibitório na produção de ânion superóxido por neutrófilos de coelhos. De fato, tem sido postulado que a própolis, dependendo do modelo adotado, pode apresentar efeitos tanto pró-oxidantes como antioxidantes.

Estudos relacionados aos receptores semelhantes a Toll são de grande interesse na área da imunidade inata, por causa do importante papel desses receptores no reconhecimento de patógenos e no desenvolvimento da resposta imune adaptativa. Orsatti et al. (2010a) observaram aumento na expressão de TLR-2 e TLR-4 e na produção das citocinas pró-inflamatórias (IL-1β e IL-6) em macrófagos peritoneais e em esplenócitos de camundongos tratados com própolis.

Machado et al. (2012a) analisaram os efeitos da administração de extrato aquoso de própolis verde via oral, em modelos de inflamação pulmonar aguda em camundongos. Os autores constataram que ela exerceu papel anti-inflamatório por inibir as citocinas pró-inflamatórias IL-6 e TNF-α e aumentar as citocinas anti-inflamatórias IL-10 e TGF-β, mensuradas no lavado bronqueoalveolar.

Em trabalho que investigou o efeito imunomodulador da própolis e seus componentes fenólicos (ácidos cinâmico e cumárico), Bachiega et al. (2012) relataram que a própolis e seus componentes fenólicos estimularam a produção de IL-1β e inibiram a produção de IL-10 por macrófagos peritoneais de camundongos.

Orsatti et al. (2010b), ao avaliarem a expressão de citocinas relacionadas às respostas Th1 e Th2 por esplenócitos de camundongos tratados com própolis, relataram que ela não afetou a expressão das citocinas IL-2 (Th1), IL-4 e IL-10 (Th2) e inibiu a expressão da citocina pró-inflamatória IFN-γ (Th1), apresentando efeito anti-inflamatório in vivo.

Em humanos, há alguns estudos relatando o efeito imunomodulador da própolis produzida por A. mellifera. Nosso grupo de pesquisa tem avaliado o efeito da própolis e de seus constituintes sobre células imunes humanas. Conti et al. (2013) avaliaram os efeitos do ácido cinâmico (composto fenólico encontrado na amostra de própolis) sobre monócitos humanos e observaram que este modulou a expressão de marcadores celulares (TLR-2, HLA-DR, CD80 e TLR-4) e a produção de citocinas (TNF-α e IL-10), além de aumentar a atividade fungicida dos monócitos contra C. albicans. Em outros trabalhos, nosso grupo avaliou os efeitos da própolis e do ácido cafeico em monócitos humanos nos mesmos parâmetros e, tomados em conjunto, pôde-se observar que alguns componentes estão parcialmente envolvidos na ação da própolis, favorecendo a atividade da célula contra patógenos (Búfalo et al., 2014; Búfalo; Sforcin, 2015).

Tem sido sugerido constantemente que a ação da própolis é devida ao sinergismo entre seus componentes. Com o intuito de avaliar o envolvimento de três ácidos fenólicos (cafeico, cinâmico e p-cumárico), isolados ou em associação, na ação da própolis sobre monócitos humanos, foi analisada a produção de citocinas, de H2O2, expressão de marcadores celulares e atividade fungicida dessas células. Foi verificado que a própolis exerce efeito ativador em monócitos humanos; contudo, não foi possível identificar qual(is) componente(s) está(ão) exatamente envolvido(s) nessa ação (Cardoso, 2017).

Buscando comparar a capacidade imunomoduladora de diferentes amostras de própolis, Conti et al. (2015) analisaram amostras de própolis de três países diferentes, Brasil, Cuba e México, e sua ação sobre monócitos humanos. A amostra de própolis brasileira estimulou a produção de TNF-α e IL-10, e a amostra cubana estimulou a produção de TNF-α e inibiu a de IL-10. Em contraste, a amostra mexicana inibiu a produção de TNF-α e estimulou a de IL-10. Com esse trabalho, os autores puderam concluir que as diferentes atividades dessas amostras se devem às diferentes composições químicas, em virtude da flora local disponível para elaboração de própolis pelas abelhas. Esses achados revelam a importância de se conhecer a fundo a amostra de própolis a ser utilizada, suas fontes vegetais e sua constituição química, pois a expectativa de que diferentes amostras têm sempre a mesma ação nem sempre procede.

Ainda utilizando monócitos humanos nos ensaios de imunomodulação, Santiago et al. (2016) avaliou o efeito de um produto odontológico contendo própolis em associação à clorexidina, em concentrações menores às comercializadas. Os resultados demonstraram que a combinação de própolis e clorexidina pode favorecer o reconhecimento de antígenos por monócitos humanos, ativar a via de sinalização do NF-kB e aumentar a atividade bactericida de monócitos contra Streptococcus mutans – um dos principais agentes causadores da cárie –, além de desempenhar papel anti-inflamatório na produção de citocinas, diminuindo TNF-α e aumentando IL-10, o que pode ser benéfico no tratamento de doenças periodontais.

Outra célula do sistema imune amplamente utilizada para o estudo da atividade imunomoduladora são as células dendríticas (DCs), consideradas como apresentadoras de antígeno profissionais. Conti et al. (2016) avaliou o efeito da própolis na maturação e função das células dendríticas humanas. Como resultado desse estudo, a própolis ativou essas células, induzindo a ativação da via de sinalização do NF-kB e a produção de TNF-α, IL-6 e IL-10, inibiu a expressão dos microRNAs hsa-miR-148a e hsamiR-148b, abolindo o efeito inibitório destes na expressão de HLA-DR e em citocinas pró-inflamatórias, e aumentou a expressão de hsa-miR-155, correlacionado com o aumento na expressão de TLR-4 e CD86. Esses resultados conjuntos podem ter culminado no aumento da atividade bactericida das DCs contra S. mutans.

Em relação à resposta imune humoral, vários autores indicam que a própolis e seus constituintes aumentam a produção de anticorpos utilizando diferentes antígenos. Fischer et al. (2010) obtiveram aumento no título de anticorpos contra herpesvírus suíno do tipo 1 (SuHV-1) quando coadministraram uma fração de extrato metanólico de própolis. Esses autores observaram também aumento da proteção dos animais quando desafiados com SuHV-1. Ferreira et al. (2012) imunizaram camundongos contra parvovírus (CPV) e administraram conjuntamente extrato etanólico de própolis, aumentando significativamente os títulos de anticorpos do tipo IgG contra CPV.

Os dados existentes na literatura sugerem que a própolis possui uma importante capacidade adjuvante em associação a diversos tipos de vacinas (Sforcin et al., 2005; Chu, 2006; Gao et al., 2014; Yang et al., 2015).

 

Atividade antitumoral

 

O câncer é uma doença que acomete milhões de pessoas anualmente no mundo, e outras milhões morrem de complicações decorrentes dele. Esse cenário incentivou pesquisas sobre métodos e substâncias para tratamento do câncer, culminando no advento da quimioterapia na segunda metade do século passado. Percebeu-se recentemente que células tumorais eram capazes de desenvolver resistência à quimioterapia, o que dificultava a conclusão do tratamento (Saraswathy; Gong, 2013). Tentando evitar a resistência a fármacos, novas abordagens de tratamento vêm sendo testadas. Uma delas é o uso de produtos naturais, como a própolis.

A própolis por si só possui ação citotóxica sobre células tumorais in vitro (Watanabe et al., 2011; Mendonça et al., 2015). Utilizando o extrato hidroalcoólico de própolis em dois tipos de células tumorais de mama (MCF-7 e MDA-MB-231), um grupo chinês obteve resultados interessantes quanto à diminuição da proliferação de células de forma dose-tempo dependente. Também houve diminuição na migração e invasão dessas células, evidenciando a ação antitumoral da própolis (Xuan et al., 2014). Begnini et al. (2014) obtiveram resultados favoráveis quanto à ação antitumoral da própolis, utilizando célula tumoral (linhagem 5637) de bexiga. A própolis acarretou parada da divisão celular e morte das células tumorais e impediu a migração celular. Revisões publicadas em 2016, com o objetivo de abordar o estado da arte sobre as pesquisas com própolis, mencionam que a própolis e seus constituintes apresentam caráter antitumoral graças a mecanismos como citotoxicidade, parada do ciclo celular, efeito antiangiogênico e prevenção de metástases, entre outros (Freires et al., 2016a; Sforcin, 2016).

In vivo, Missima et al. (2010) estudaram a atividade antitumoral da própolis em camundongos portadores de melanoma e submetidos a estresse. Os autores verificaram que a administração de própolis reduziu a área tumoral em relação ao grupo de camundongos estressados não tratados; ademais, a própolis favoreceu a resposta imune celular antitumoral.

Ainda em estudos in vivo, pesquisadores induziram câncer renal em camundongos e demonstraram que a utilização da própolis foi benéfica, pois foi capaz de aumentar moléculas antioxidantes (glutationa e superóxido dismutase) e diminuir danos renais e incidência de tumor nos camundongos (Rashid et al., 2013). Pinheiro et al. (2014) induziram câncer de pele em camundongos e trataram os animais com diferentes concentrações de própolis. Apesar de nenhuma delas diminuir a incidência de tumores, a maior concentração foi capaz de diminuir sua malignidade, reduzindo a capacidade invasiva e o tamanho do tumor, enquanto o grupo controle desenvolveu tumores invasivos, demonstrando assim a ação da própolis no controle do desenvolvimento de tumores de pele.

Analisando as principais propriedades biológicas da própolis sobre células tumorais in vivo, verificou-se que esse apiterápico é citotóxico, evita o crescimento de novos vasos sanguíneos na região do tumor e afeta o ambiente circundante, além de ser possível associá-lo à quimioterapia para melhorar a resposta do paciente ao tratamento (Chan et al., 2013). Corroborando os achados anteriores, Patel (2016) listou pesquisas e avanços no campo da oncologia, utilizando a própolis como tratamento auxiliar de quimioterápicos tradicionais. A vantagem desse uso associado é que o apiterápico pode reduzir efeitos colaterais ou aumentar a eficácia da quimioterapia, promovendo um quadro clínico melhor. Esses resultados indicam que a própolis pode ser utilizada como complementar à medicina tradicional.