Sá de Miranda e a sua Obra

Décio Carneiro · Capítulo 1 de 2 · parte 1/3

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Sá de Miranda e a sua Obra

Lisboa

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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Miranda e a sua Obra

 

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Title: Sá de Miranda e a sua Obra

 

Author: Décio Carneiro

 

Release date: January 10, 2009 [eBook #27762] Most recently updated: January 4, 2021

 

Language: Portuguese

 

Credits: Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images

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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK SÁ DE MIRANDA E A SUA OBRA ***

SÁ DE MIRANDA

 

E A SUA OBRA

 

DECIO CARNEIRO

 

SÁ DE MIRANDA

 

E A SUA OBRA

——oOo——

 

LISBOA

Antiga Casa Bertrand—José Bastos

73, Rua Garrett, 75

1895

 

Tiragem especial de vinte e cinco exemplares em papel superior, numerados e rubricados pelo auctor.

LISBOA

Barata & Sanches (antiga casa Adolpho, Modesto & C.ª)

Rua Nova do Loureiro, 25 a 39

 

AO DISTINCTO ADVOGADO

 

Aureliano de Mattos

 

Como tributo de consideração e amizade

 

O ESPIRITO D'ESTE TRABALHO.

 

Para o completo, universal triumpho:

Almeida Garrett.

(O V —c. 3.º)

São tres os principaes trabalhos publicados ácerca de Sá de

Miranda.

 

Em ordem chronologica, o primeiro e indiscutivelmente o mais

valioso é a Vida, que acompanha a segunda edição das suas obras poeticas, datada de 1614. A Vida, em puro estylo quinhentista, de auctor anonymo, apresenta-se como collegida de pessoas fidedignas que o conhecerão—ao poeta—e tratarão e dos livros das gerações deste Reyno.

 

Barbosa Machado attribuiu essa biographia-critica de Sá de

Miranda a Dom Gonçalo Coutinho mas não adduziu provas para fundamentar a sua affirmativa. Todos os escriptores, porém, lh'a acceitaram como demonstrada. Apenas o sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, lhe pesou o valor e reforçou a allegação do illustre auctor da Bibliotheca Luzitana com as relações havidas entre D. Gonçalo Coutinho, poeta tambem da escola classico italiana, e os individuos a quem elle recorreu para a sua biographia.

 

Seja ou não de D. Gonçalo Coutinho, e não obstante a sua

lamentavel pobreza de datas historicas, a Vida é um documento preciosissimo. Tem servido e servirá sempre de base a todos os trabalhos reconstruitivos da biographia da poderosa individualidade a quem se deve o movimento que tão alto levantou a litteratura portugueza e a fez attingir culminancias nunca alcançadas posteriormente. E tanto mais apreciavel é a Vida que a sua veracidade se comprova facilmente pelas Cartas, verdadeira autobiographia do poeta.

 

Foi a Vida o fio porque se guiou o sr. Theophilo Braga, em sua

Historia dos Quinhentistas, em a parte particularmente referente á Vida de Sá de Miranda. Este o segundo trabalho de mór valia que temos sobre o grande poeta. Trabalho apreciavel e erudito, mas mais propriamente parte do estudo de uma escola litteraria, como é, que destinado a pôr em relevo, em toda a viveza de suas côres, a biographia de Sá de Miranda e o seu valor como philosopho e poeta.

 

Obra por egual notavel em erudição e em critica, a da ex.ma sr.ª D.

Carolina Michaëlis de Vasconcellos. Tambem a sua edição das Poesias de Francisco de Sá de Miranda, feita sobre cinco manuscriptos ineditos e todas as edições impressas, é a mais valiosa de todas, a mais importante.

 

Um dos manuscriptos de que a illustrada senhora, benemerita das

lettras portuguezas, se serviu habilitou-a a conhecer quaes foram as poesias, ou melhor, quaes os grupos de poesias, os mss. separados, que Sá de Miranda enviou, por tres vezes, ao principe D. João. Esse ms. é, demais, preciosissimo porque representa uma redacção primitiva, original, feita com cuidado e com o intuito da offerta. D'ahi, indubitavelmente, uma coordenação subordinada a certos principios e que denuncia a mão do proprio poeta. As edições, até então feitas, haviam-o sido sobre manuscriptos distribuidos a amigos e discipulos.

 

A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, corrigindo

rigorosamente aquelle ms. fundamental da sua edição, deu-lhe não o caracter de diplomatica, sim de normal. Esse codice vem representado no texto pelas tres primeiras partes, reproducção integral, livre de restaurações e renovações arbitrarias, mas emendada onde havia erros visiveis e inilludiveis e systematicamente orthographada, em harmonia com os principios do escriba, com alguma, pouca, pontuação, pouquissimos accentos e resolução de todas as abreviaturas. Acompanha a edição um extenso corpo de variantes.

 

Esplendido trabalho de erudição, o da ex.ma sr.ª D. Carolina

Michaëlis de Vasconcellos, é ainda enriquecido com uma vida e commentario notabilissimos. Como estudo de profundo saber ficará considerado monumento perduravel e guia indispensavel para obras futuras.

A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos e o sr.

Theophilo Braga, apoiando-se na Vida, investigaram e esgotaram, por assim dizer, quanto a respeito de Sá de Miranda se pode escrever. Não que hajam aclarado todos os pontos duvidosos da obscura biographia do nobilissimo auctor das Cartas. Isso, todavia, é assumpto para futuras e demoradas investigações.

 

Comprehende-se, pois, que o presente trabalho não é

positivamente novo. Tomando por base a Vida, aproveita todos os resultados adquiridos por os anteriores, comparando opiniões desencontradas e procurando projectar a mais intensa luz sobre a biographia e a obra do grande Sá de Miranda. Tudo documentado, tanto quanto possa ser, por citações das cartas e eclogas do poeta, pois que, das suas producções, as mais d'ellas respeitam sobre casos particulares que succederam na côrte em seu tempo.

 

O intuito primordial do presente estudo é tornar conhecida a vida

d'esse vulto sympathico da nossa historia litteraria, mostrar a estreita relação que ha entre ella e a sua obra, e restituir, ante a geração actual, o poeta ao logar a que tem direito pela independencia do seu caracter, pela auctoridade indiscutivel que lhe dava esse mesmo caracter, e pelo alto valor de sua poesia, toda conceituosa e philosophica. Isto apenas desejava conseguir o auctor para poder justificar a si proprio a audaz tentativa que emprehende.

 

Lisboa, agosto de 1895.

Escreveu o mallogrado Pinheiro Chagas, referindo-se ao director

espiritual e mestre dos lyricos do seculo XVI, ou da escola chamada classico-italiana, que—se Camões, como os Jeronymos de Belem, significa a resistencia do estylo nacional e da tradição nacional á Renascença classica, Sá de Miranda representa o enxerto da litteratura classica em um vigoroso rebento nacional. Nenhum outro juizo, como o do nosso grande historiador contemporaneo, poderia assignalar melhor o logar de Sá de Miranda no movimento litterario nacional portuguez. Cultor fervoroso da tradição portugueza em seus primeiros tempos de poetisação, o illustre solitario da Tapada, ao dedicar-se ao estudo e á imitativa dos classicos da antiguidade grega e romana, não quebrou, talvez porque o não quizesse fazer, os laços que o prendiam ao espirito que lhe guiara os primeiros passos.

 

Sá de Miranda, como nota o sr. Theophilo Braga, fez uma

revolução profunda na poesia portugueza, foi a alma da boa litteratura e o poeta que mais propagou a tradição classica entre nós, no seculo XVI. Comtudo, o classicismo n'elle não passa de um enxerto, mera tentativa não sem valor, mas destituida de vida. E a sua gloria está toda, exactamente, em o que a sua obra tem de genuinamente portuguez. As suas Cartas, satyras admiraveis, são em todos os sentidos verdadeiras perolas da nossa litteratura.

 

É certo que o classicismo, a brilhante Renascença, auroreava já

no horisonte do Portugal litterario. Encontrára mesmo alguns adeptos apaixonados, mas que, faltos de talento, lhe não tinham dado impulso. Se algumas tentativas houve antes de Sá de Miranda, tão fracas foram que não tiveram seguidores. Elle seu principal e verdadeiro propulsor.

 

Em sua educação primeira, Sá de Miranda recebeu

necessariamente uns laivos de classicismo pelo estudo das obras dos poetas gregos e latinos. Nem de outro modo se poderia explicar a sua inclinação manifesta em esse sentido. A Vida dá conhecimento de que, em 1584, um fidalgo de Lamego, Gonçalo da Fonseca de Crasto, possuia um Homero com notas á margem feitas em grego pelo douto Sá. Prova de que Sá de Miranda recebeu uma educação classica.

 

Esclarecerá tudo, talvez, o saber-se que Sá de Miranda nasceu

em Coimbra, que vem sendo de seculos o mais importante centro intellectual do paiz. Centro que tem inspirado a poesia desde Sá de Miranda até Garrett e, posteriormente, até João de Deus, Guerra Junqueiro, Anthero e Eugenio de Castro. Coimbra, a cidade das melancolicas margens do Mondego, a que as lagrimas de Ignez tornaram lendario e querido dos poetas, a Coimbra dos estudantes... Antiga e nobre cidade, como Sá de Miranda lhe chamou em uma das suas Cartas, a dirigida a Pero de Carvalho.

 

Da antiga e nobre cidade

Som natural, som amigo.

 

Cidade cuja belleza maravilhosa sempre amou e louvou com o

carinho de filho amantissimo.

 

Cidade rica do santo

Corpo do seu rei primeiro

Que ainda vimos com espanto

Ha tam pouco, todo inteiro,

Dos annos que podem tanto.

 

A nobre e leal Coimbra.

 

Outro rei, tanto sem mal

Que lhe empeceu a bondade,

O quarto de Portugal,

Qual teve ele outra cidade

Tam constante e tam leal?

 

Do nascimento de Sá de Miranda affirma a Vida que o poeta viu a

luz em o mesmo dia em que el Rey Dom Manoel tomou posse do governo destes Reynos. Sobre qual tenha sido esse dia levantou-se divergencia de opiniões. Uns pretenderam que fosse fixado a 24 de outubro de 1495, como o admittiu o sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, livre da supposição de, pela logica dos factos, ser levado a crer que o poeta tivesse nascido muito antes d'esse anno. Outros escriptores attribuiram-lhe a data de 27 de outubro, para a qual se inclinaram a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos e Pinheiro Chagas.

 

A logica dos factos não mentiu ao sr. Theophilo Braga. Sá de

Miranda viu a luz necessariamente muito antes do anno admittido geralmente. Demonstra-o, irrefutavelmente, um precioso documento recentemente encontrado, em a Torre do Tombo, pelo incansavel investigador e erudito escriptor, sr. dr. Sousa Viterbo:—nem mais nem menos do que a carta de legitimação do grande poeta, datada de 1490, em que apenas se faz referencia a Francisco, filho do conego Gonçalo Mendes, que, não resta duvida, é o nosso poeta. Ha pelo menos, portanto, a recuar uns cinco ou seis annos a data de seu nascimento, o que não deixa de ter importancia para a comprehensão da sua vida.

 

Da filiação de Sá de Miranda apenas se conhece o nome do pae,

o conego Gonçalo Mendes de Sá, embora o sr. Theophilo Braga o diga filho de D. Filippa de Sá. Errada interpretação, como o apontou Camillo Castello Branco, da noticia-attribuida a D. Gonçalo Coutinho. A Vida é bem expressa dizendo que o poeta foy filho de Gonçalo Mendes de Sá e neto de João Gonçalves de Miranda, que viveo junto a Buarcos e de Dona Phelippa de Sá sua molher. Clarissimo, pois, que Sá de Miranda era neto, e não filho, de Dona Phelippa de Sá. Quem fosse a mãe, se plebea ou nobre, é mysterio que a alludida carta de legitimação vem desvendar.

 

Descendia, portanto, Sá de Miranda, da antiga geração dos Sás,

geração que deu a Portugal muitos filhos illustres, cavalleiros, prelados e escriptores de renome e dos quaes um irmão do nosso poeta, Mem de Sá, é um nobilissimo exemplo. Mas, essa geração tambem legou ao mundo alguns scelerados de marca. Um dos proprios filhos de Sá de Miranda demonstrou exuberantemente quanta bilis corria entre o sangue generoso d'essa illustre familia.

 

A avó do nosso poeta. Dona Phelippa de Sá, era filha de

Rodrigues de Sá, e neta de João Rodrigues de Sá, o primeiro que chamarão das Galés assas conhecido em tempo del Rey Dom João de boa memoria. Sá de Miranda estava assim aparentado com as mais nobres familias do paiz e mesmo com a illustre familia Colonna de Italia. Era-o, tambem, com a fidalguia de Hespanha. A origem hespanhola dos Mirandas explica, como quer o sr. Theophilo Braga, os versos em que o poeta se dá por parente do fidalgo asturiano Garcilaso de la Vega.

 

Os primeiros annos de sua vida, parece, Sá de Miranda passou-

os nas poeticas margens do Mondego, em Buarcos, em casa de seu avô paterno João Gonçalves de Miranda. Deve ter estudado as primeiras letras de humanidades em Coimbra. São, porém, completamente desconhecidas as primeiras impressões de sua mocidade e nem se póde conjecturar ácerca dos seus primeiros professores e estudos.

 

Desconhecem-se, egualmente, quaes as relações em que estava

a familia de Sá de Miranda para com o monarcha. Devem ter sido cordeaes, pois que a Vida affirma que o nosso poeta veiu para Lisboa estudar Leis em a Universidade, não que por inclinação que tivesse aquella maneira de vida mas obedecendo a seu pay que lha escolhera e, tambem, em obsequio ao gosto del Rey Dom João o Terceiro.

 

Em 1516 devia ter concluido a sua formatura. Isto se deprehende

de, por essa epoca, já ser tratado por doutor. No Cancioneiro geral, colligido por Garcia de Resende, encontram-se varias glosas e cantigas de Sá de Miranda com a rubrica—Do Doutor Francisco de Saa, grosando esta cantigua de Jorge Manrrique.

 

Sá de Miranda seguiu os seus estudos com felices porgressos e

sahio grande letrado. D'ahi, decerto, tendo um curso distincto, o ser escolhido para ficar em a Universidade, professando as disciplinas que frequentara. Pelo menos, a Vida affirma que o poeta tomou o grao de Doutor e leo varias cadeiras daquella faculdade.

 

Então, os poetas eram geralmente jurisconsultos, phenomeno

este que hoje se dá como maravilha. Ferreira, que egualmente reunia as duas qualidades, á primeira vista incompativeis, de doutor e poeta, defendendo essa alliança, dizia:

 

Não fazem damno ás musas os doutores,

Antes ajuda a suas letras dão.

 

A passagem de Sá de Miranda pelo professorado da Universidade

foi rapida. A Vida diz que o poeta, conhecendo os perigos que o uso desta sciencia tras consigo em materia de julgar, tanto que lhe faltou seu pay não só deixou de todo as escollas, mas engeitou os lugares do Desembargo, que por muitas vezes lhe forão offerecidos.

 

O doutor Francisco de Sáa tinha, certamente, alguns bens que lhe

permittiam custear a vida embora modestamente, e, d'ahi, o desprezar os empregos da côrte. Caracter altivo e independente não queria ceder da sua liberdade. Assim, poude dedicar-se completamente ao estudo da Philosophia Moral e Estoyca a que sua natureza o inclinava, e em que se tornou consummado.

 

Pela familia illustre a que pertencia, pelas estreitas relações em

que ella estaria com o paço real e pelas recommendações especiaes que traria, Sá de Miranda, ou, como era conhecido, Francisco de Sáa, encontrou um cordealissimo acolhimento no palacio do faustoso monarcha D. Manoel. No intervallo das lições, nos ocios que lhe deixava a sua applicação ao estudo, frequentava os serões da côrte portugueza, em pleno esplendor então que Portugal attingia as culminancias do poderio moral e material. Era a bandeira portugueza desfraldada por todo o mundo, os reinos caindo ao embate das armas do pequeno povo das costas atlanticas da peninsula hispanica, o nome de Portugal acatado com respeito, tanto que o Rei Venturoso sentiu os primeiros assomos da idêa avassalladora da monarchia universal.

 

A realeza procurava reunir em seu torno, em o palacio real, os

espiritos mais cultos do paiz. Entoava-se como que um côro de louvôres, de canticos de alegria, em volta do feliz monarcha de um povo que tão extraordinarios paizes desvendára e dera á civilisaçao. E como poderia deixar de o ser, se a epopêa era maravilhosa. Andava-se em ethereo paraizo. Tudo era fausto, tudo gloria, tudo um sonho infindo como infindo o horisonte que o nauta persegue.

 

Notabilissimos os serões d'essa côrte faustosa que começava a

effeminar-se na ociosidade da victoria e no goso das inexgotaveis riquezas conquistadas, e que, assim, preparava proximos desastres. A sua pompa e sumptuosidade excedia tudo quanto se poderia conceber. A imaginação mais viva e ardente luctaria por os descrever em todo o brilho. A sua fama foi em um crescendo continuo, passou as fronteiras e repercutiu-se lá fóra, até se tornar universal. Os não menos famosos da côrte pontificia de Leão X ficaram-lhe sempre áquem e muito.

 

O doutor Francisco de Sáa, elle proprio, tomou parte em os

certamens poeticos realisados n'essa côrte esplendida. Ahi se encontrou em contacto com os homens notaveis da epoca, sobretudo poetas. Em a côrte se relacionou Sá de Miranda com o bucolista Bernardim Ribeiro a quem tomou amizade sincera e por quem sempre foi dedicado. De então datam, egualmente, as estreitas relações que manteve em toda a vida com o principe Dom João, filho de el rei D. Manuel, relações que se sustentaram atravez de todos os acontecimentos, pois que o mesmo D. João, quando já no throno, jámais deixou de patentear a sua estima ao poeta, de o proteger e de lhe apreciar as producções.

 

A estrella de maior brilho da côrte de D. Manuel era ao tempo

ainda a tão formosa quanto esquiva D. Leonor de Mascarenhas, diz-se que dama da rainha D. Maria. Senhora de dotes e qualidades pouco vulgares, constituia ella o alvo das attenções dos mais galantes cavalleiros a par de inspirados poetas, como D. João de Menezes, Fernam da Silveira e outros. A espada que galhardamente lhes pendia do cinturão, emquanto trovavam á sua dama, e que matava o audaz rival, era, tambem, a lusa espada pelejadora pela patria e pela religião.

 

Em o Cancioneiro de Resende encontram-se muitas referencias a

essa illustre senhora. A fidalguia porfiava em agradar-lhe, cercava-a de galanteios para lhe merecer os sorrisos. Não consta que ella se tenha rendido a qualquer d'elles. A tradição dá-a como um modelo de esquivança.

 

Mais tarde, quando a fumarada das primeiras fogueiras do Santo

Officio ennegrecia o azul alegre e puro do nosso admiravel ceo, a suspeita e o temor invadiam as consciencias, Sá de Miranda relanceava os olhos pela estrada do seu passado, revia os tempos da sua mocidade e recordava-se com profundissima saudade d'esses serões. Não que ao poeta seduzisse o fausto, mas a fina e intelligente companhia que n'elles havia, n'aquelles serões de subtis e delicados motes.

 

Os momos, os seraos de Portugal,

Tam falados no mundo, onde são idos?

E as graças temperadas do seu sal?

Dos motes o primor, e altos sentidos?

Ums ditos delicados cortesãos,

Que é d'eles? Quem lhes dá sómente ouvidos?

 

E com que energia fustigava a decadencia miseravel que levára a

essa desolação!

 

Lançou-nos a perder engenhos mil

E mil este interesse que haja mal,

Que tudo o mais fez vil, sendo ele vil!

 

Os ultimos trovadores do Cancioneiro de Resende, Sá de Miranda

ainda os conheceu ou ouviu as suas poesias. Em começo de frequentar a côrte repercutiam-se n'ella os ultimos echos dos cantares do mimoso D. João de Menezes, um dos mais afamados d'aquelle tempo, e que devia a sua nomeada ao chiste, á graça arrebatadora, á facilidade com que glosava os motes apresentados pelas damas do paço. Cavalheiro amabilissimo, eximio na arte do galanteio, D. João de Menezes fizera-se adorado. As suas canções, foram ouvidas e estimadas ainda muito tempo após a sua morte, revestindo a sua memoria lendaria uma aureola de consagração.

 

Particularmente bem acceito, amimado mesmo, o dr. Francisco de

Sá de Miranda, espirito engenhoso, talento a desabrochar, deixou-se influenciar pela maneira e pela fórma das poesias dos ultimos trovadores da côrte manuelina. Foi em sua corrente, poetando como elles, tomando-os como modelos e seguindo-os na esteira. Sobretudo, as poesias de D. João de Menezes mereceram-lhe especial consideração e estudo.

 

D'esse tempo a maior parte dos seus vilancetes e cantigas.

Composições faceis, de estructura simples e superficiaes, algumas d'ellas são, entretanto, como as aprecia a ex. ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, perolas de raro valor e flores de delicioso perfume. Sá de Miranda cultivou, assim, n'esse primeiro periodo de seu labor, a tradição da chamada escola velha. Pode-se affirmar, sem receio de contradicta, que o fez com notoriedade. Muitas das suas poesias de então apparecem no Cancioneiro geral.

 

Tem-se levantado grande celeuma sobre um pretendido

sentimento de acerbo desgosto, de profunda tristeza, manifestado n'essas primeiras composições poeticas, desgosto a que se pretende ligar uns infelizes amores por uma tal Celia. Que estes amores sejam ou não ficção, é ponto hoje controverso e sel-o-ha, talvez, por muito tempo. A verdade é que a taciturnidade do nosso poeta não era extemporanea. Vinha do temperamento proprio de Sá de Miranda, um pouco do caracter ethnico da região de sua naturalidade e a evidencial-o está a inclinação philosophica de toda a sua vida.

 

É provavel que o moço dr. Francisco de Sá se não esquivasse a

qualquer intriga amorosa em palacio. No verdor dos annos, em uma côrte a corromper-se, com as facilidades que de per si se proporcionavam, como poderia deixar de se prender pelo donaire de qualquer gentil dama? Envolver-se-hia em algum caso mais serio e escandaloso, e d'ahi o dizer-se, posteriormente, que a sua viagem á Italia tivera por causas primordiaes questões na côrte.

 

A Vida sustenta que, levantando-lhe a philosophia o pensamento

ao desprezo de todas as cousas de cá quis peregrinar pollo mundo, porque no repouso a que determinava recolher-se o não inquietassem as novas do que não vira. Pode-se d'aqui deprehender que esse

 

Homem de um só parecer,

de um só rosto, e d'ũa fé,

d'antes quebrar que torcer,

 

começava a profundar a base falsa da sociedade em que vivia? Será dado inferir-se que era a decadencia que elle antevia imminente, que o levava a despresar os folguedos e a aborrecer as cousas de cá? Talvez.

 

Sá de Miranda era um espirito observador e comparativo. De

temperamento taciturno, grave na pessoa, melancolico na apparencia, mas facil e humano na conversação, engraçado nella com bom tom de falla, e menos parco em fallar que em rir, fatigar-se-hia, por vezes, dos passatempos frivolos da côrte estouvada e procuraria em o estudo um refugio para retemperar a sua actividade. De mais, illustrado e laborioso, não pensaria apenas em folgar e poetar. Applicava as suas faculdades intellectuaes, analysava e produzia. Ninguem melhor do que elle conheceria o trabalho espiritual de sua época.

 

O movimento litterario tornara-se essencialmente palaciano no

reinado do feliz D. Manoel. Natural attracção da realeza esplendorosa. Tambem, o soberano venturoso iniciara a politica de unidade monarchica com as celebradas Ordenações Manuelinas, cujo pensamento capital, traduzido pela reforma dos foros, era a concentração, em o poder real, dos privilegios locaes e a extincção das antigas tradições feudaes.

A poesia cessára, portanto, de ser puramente popular, nacional,

de se inspirar directamente nos actos da vida do povo, para se converter em graciosa e cortezã. Não que aquella desapparecesse de todo, pois, felizmente, não deixara de se manifestar a reação. As formas palacianas tinham conquistado, porém, o predominio sobre as classes mais illustradas.

 

Admiravel e prestadia manifestação poetica, o trovadorismo

acabara por se estagnar nas superficialidades da côrte, ao contacto dos costumes de uma nobreza propensa á ociosidade e á fatuidade pelo saciamento do oiro. Reduzira-se a um lyrismo artificioso e destituido de sentimento pela carencia absoluta de motivos emotivos, de actos inspiradores. O seu fim era, sobretudo, o bom dito, a impressão sobre os presentes, impressão, está bem de ver, muito pessoal e passageira.

 

E decaira tanto o trovadorismo que se pozera servilmente a imitar

os hespanhoes e até a adoptar a lingua d'aquelles para as composições poeticas. Precaria, então, a existencia da portugueza, nobre e bella como nenhuma outra. O melhor testemunho d'essa decadencia encontra-se no Cancioneiro geral de Resende, archivo da fina flor da poesia palaciana do tempo, como ironicamente lhe chamou um conhecido escriptor.

 

Essa poesia, falta de ideal, de um motivo emocionante, sem uma

unica das qualidades que constituem a obra d'arte, recorria aos artificios da forma, a um exagerado abuso de allegorias metaphysicas para se fazer valer. Carecendo de sentimento verdadeiro, pedia vida á casuistica amorosa que apresentava ao mais elevado refinamento.

 

Privilegio das classes elevadas, como o aponta o sr. Theophilo

Braga, ella servia de passatempo nos ocios da guerra, era a expressão da galanteria com as damas e o meio de dar celebridade aos casos anedocticos que se passavam detraz dos pannos de Arras. Mero entretenimento, como tal, descambava quasi sempre para a banalidade. Futilissimos, assim, os themas de inspiração, umas grandes barbas, um pelote de peludo, um macho ruço e quejandas cousas.

 

Felizmente, a Renascença abrira novos horizontes e os seus

fulgurantes clarões vinham já alumiando até Portugal. Para isso concorria, sem duvida, as estreitas relações em que se estava com a Italia e o acolhimento que entre nós encontravam os que d'ahi chegavam. Ninguem melhor do que Oliveira Martins, em sua Historia de Portugal, assignala o ponto de partida d'esse movimento revivificador, dizendo que os filhos de el-rei D. João I, abrindo as portas da nação á cultura da Renascença, chamando sabios, viajando, fundando bibliothecas, tinham lançado á dura terra do velho Portugal as sementes italianas.

 

A transformação, porém, não se operou de momento, em um

convulsionismo rapido. Seguiu lenta, infiltrando-se pouco a pouco, tanto que, como o sustenta a ex. ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, na litteratura como nas artes e nas sciencias, os vestigios da influencia italiana foram quasi insensiveis até 1520, vesperas da partida de Sá de Miranda para o estrangeiro. Mas, nem o proprio creador do theatro nacional, o talentoso, embora inculto, Gil Vicente, tão aferrado á escola da tradição nacional, escapa á sua influencia. Manifesta-o a ironia de suas farças, aquella mordacidade que nada poupava e ia até desrespeitar as crenças religiosas, ironia que annunciava o proximo advento da Reforma, o despertar da razão humana escravisada pela esteril escolastica.

 

Lá fóra rompera já acirrada a lucta entre as duas escolas

litterarias. Uma procurava manter intransigentemente as tradições da edade media e da poesia nacional e a outra ia inspirar-se em os monumentos da litteratura classica, tendendo a imital-os, se não seguil-os servilmente. Havia-se ferido os primeiros combates em forma entre os partidarios de uma e os sectarios da outra, combates que tinham tido uma natural repercussão em nosso paiz. São os eruditos conjurando-se contra Gil Vicente, cuja originalidade contestam, e considerando as suas obras de rasteiras e ordinarias. Com que fino tacto epigrammatico, porém, o auctor de Ignez Pereira os apodou de homens de bom saber! De bom saber!...

 

Sá de Miranda, de uma instrucção variadissima, innegavelmente

conhecia desde a infancia os livros dos escriptores gregos e latinos. A Vida offerece a preciosissima noticia de que elle soube tanto da lingoa grega, que lia a Homero nella, e anotava de sua mão em grego tambem. Devia ter seguido com interesse a evolução da poesia italiana que a tão grande altura se estava levantando.

 

Approximando as producções dos poetas italianos das dos seus

contemporaneos, Sá de Miranda media bem a inferioridade da nossa poesia. Comprehendia e avaliava a necessidade de a vitalisar egualando-a com a grandiosidade epica que estava attingindo o espirito guerreiro dos portuguezes. Tomou-o o desejo de exaltar o pensamento revestindo-o de novas e vigorosas formas. Em seu animo de patriota, concebeu a vontade ardente de fazer vibrar a mentalidade nacional com scintillações desusadas a par dos coriscantes raios despedidos pelas espadas vibradas por braços energicos.

 

Um vilancete brando, ou seja um chiste,

Letras ás invençõis, motes ás damas,

 

Ũa pregunta escura, esparsa triste!

Tudo bom! quem o nega? mas porque,

Se alguem descobre mais, se lhe resiste?

 

A renovação litteraria e artistica, importante e fecunda de

resultados immediatos, que se operava em Italia, devia attrahir o sonhador poeta como o luzir do dia chama a passarada chilreante. Sá de Miranda, votando ao desprezo as cousas de cà, sentir-se hia tomado de um vehemente desejo de ir verificar de perto, avaliar de visu, por assim dizer, a intensidade d'esse grande movimento intellectual que começava a ter echo em toda a Europa, visitar esse meio que a tuba da Fama dizia o mais culto.

Estamos, assim, de accordo com a ex. ma sr.ª D. Carolina

Michaëlis de Vasconcellos em que a viagem de Sá de Miranda á Italia não teve origem primordial em questões da côrte. Não. Tudo é porque o seu motor foi—a anciedade espiritual do poeta, o desejo de estudar a arte, de pôr em concordancia a elevação do pensamento com a heroicidade das acções portuguezas que o expatriou. Altamente patriotico, pois, e proprio do seu nobre caracter, o emprehendimento que se propozera o poeta.

 

Sá de Miranda demorou-se lá por fóra bastantes annos. Viagem

larga e que lhe permittiu, visitando primeiro os mais celebres lugares de Espanha, percorrer com vagar e curiosidade Roma, Veneza, Napoles, Milão, Florença e o milhor de Cicilia. Verdadeira missão de estudo a que não escaparam as cidades então mais em evidencia e onde se encontravam os homens mais illustres da Renascença.

 

Vi Roma, vi Veneza, vi Milão

Em tempo de Espanhoes e de Franceses,

Os jardins de Valença de Aragão

Em que o amor vive e reina, onde florece,

Por onde tantas rebuçadas vão.

 

A saída do poeta para a Italia deve ter-se effectuado por 1521 e o

regresso ao reino por 1526. É o que se conclue do verso

 

Em tempo de Espanhoes e de Franceses

 

Era a epoca em que o imperador Carlos V, de Hespanha, andava

em guerra com Francisco I, de França, por este haver, tambem, aspirado ao throno da Allemanha. Exactamente n'esse anno de 1521 encetou Carlos V as hostilidades contra o rei de França, abrindo o primeiro periodo de guerra que teve por campo de batalha, sobretudo, a Italia, e que veiu a terminar, depois da batalha de Pavia (1525), em que Francisco I caiu prisioneiro dos hespanhoes, pelo tratado de Madrid que deixou a peninsula italica em poder dos ultimos (1526).

 

A viagem de Sá de Miranda deve, portanto, ser collocada entre os

annos de 1521 e 1526. Esta data está completamente de accordo com a indicação de seus proprios versos, além de que todos os factos a que elles se referem a confirmam. Quando o poeta se tornou ao reino, já avia muito que reynava el-rei D. João III.

 

A peninsula italica encontrava-se, então, em plena febre de

renascimento. Seus povos, escravisados successivamente por allemães, francezes e hespanhoes, sem forças para se libertarem dos dominadores, procuravam em o engrandecimento do passado o esquecimento das desgraças que soffriam, da decadencia do presente. A imagem de Virgilio, cantor das glorias nacionaes, apparecia-lhes como um protesto patriotico e, o que era mais, como um balsamo fortificante das energias abatidas.

 

As recordações dos tempos idos incutiam os estimulos para a

lucta que a Italia sustentava. Por isso principiou ali a Renascença bafejada pelas lembranças sempre vivas de uma tradição patriotica jamais extincta, na phrase elegante e justa do sr. Simões Dias. E foi assim que ella conseguiu engrandecer-se como nunca, levantar-se á maior altura da arte, em concepções grandiosas, com artistas que attingiram a um renome perduravel.

 

Em meio de uma actividade assombrosa, a Italia caminhava para

conquistar, entre as nações neo-selticas, a posição intellectual dominante que posteriormente gosou. Palmo a palmo, alcançava um triumpho tão glorioso quanto indelevel. Aos genios de Dante, Petrarcha e Boccacio, iniciadores d'esse movimento extraordinario e inegualavel, em o periodo em que as trovas provençaes ainda eram o divertimento das classes patricias, e de Leonardo de Vinci, succedera uma geração toda illustre. Ao tempo de Sá de Miranda, a Italia era o campo de gloria de Ariosto, Sanazarro, Bembo, Tasso, Machiavello, Vittoria Colonna, Raphael, Miguel Angelo, etc.

 

Em seus versos, Sá de Miranda refere-se, por vezes, aos diversos

homens illustres dessa vicejante Italia. O conhecimento que d'elles mostra auctorisa a affirmativa de que tratou pessoalmente com os mesmos. A posição que occupava na côrte portugueza, o prestigio do nome da familia a que pertencia, para mais ainda aparentada com a opulenta casa Colonna por seu avô paterno João Rodrigues de Sá, pol-o em estreitas relações com homens notaveis como Giovanni Ruccellai, Lattanzio Tolommei e outros. Ao excellente lyrico e notavel bucolico da Arcadia chama o bom velho Sanazarro.

 

Floresciam, então, com o mais vivo esplendor, os talentos mais

insignes. De um a outro extremo da formosa peninsula, o genio irrompia audaz e scintillante. A Italia foi, d'esta sorte, um verdadeiro deslumbramento para Sá de Miranda. Affirma a Vida que o poeta viu Roma, Veneza, Napoles, Milão e Florença, os centros d'essa admiravel elaboração intellectual, com vagar e curiosidade. Assim deve ter sido.

 

Não houve homem notavel que o nosso poeta não conhecesse ou

de que não indagasse o merito artistico. Em Roma, encontraria o celebre cardeal Bembo, intimo do magnificente Leão X, imitador acerrimo de Cicero a ponto de aconselhar os seus amigos a não lerem as epistolas de S. Paulo para não macularem o estylo e que, ao celebrar o sacrificio da missa, recitava odes de Anacreonte, em vez das orações do ritual. Ao visitar Veneza, a bella rainha do Adriatico, ouviria fallar do implacavel poeta satyrico Aretino, verdadeira lingua viperina, que vendia publicamente os seus terriveis epigrammas a quem mais lhe dava.

 

Sá de Miranda cita, outrosim, Ariosto, em pleno florescimento na

côrte de Ferrara, e que introduzira em a poesia o sensualismo elegante e a phantasia pura. Machiavello, o famoso secretario da republica de Florença, preparava tres seculos de acerrima controversia com o seu não menos celebre livro Principe, apologia emphatica do poder absoluto. Era, ainda, Trissino, grammatico e lyrico, mais conhecido pela tragedia Sophonisba, escripta á maneira grega; o cardeal Sadoleto, esse outro secretario de Leão X, insigne latinista e poeta lyrico; Guicciardini, jurisconsulto notavel e Julio Scaligero, hellenista de fama. Seria necessario quasi um volume para enumerar todas as individualidades d'essa geração illustre.

 

As relações de Sá de Miranda com os artistas e eruditos italianos

abriram novos horisontes ao seu espirito e este insensivelmente foi recebendo a direcção que devia dar ao genio da Renascença em Portugal. Mas não era apenas o contacto com esses homens de talento, sim, tambem, a observação d'essas maravilhosas obras de arte disseminadas por toda a Italia, em palacios, monumentos e templos grandiosos, as incomparaveis telas de Raphael, espirito todo luz, harmonia e amor, a branca visão do Thabor, como lhe chamou Henri Martin, e de Miguel Angelo, o austero e solitario pintor, o anjo das trevas divinas. Era a acquisição dos mais bellos trabalhos da brilhantissima litteratura italiana, que relia e estudava com sofreguidão e cujas excellencias saboreava com dôce embriaguez, mais tarde, em sua quinta da Tapada, longe do bulicio da côrte.

 

Liamos os Assolanos

De Bembo, engenho tam raro

Nestes derradeiros anos

Os pastores italianos

Do bom velho Sanazaro.

 

Sá de Miranda teve egualmente occasião de vêr em scena a

comedia classica em prosa, moldada pela da antiguidade. Observador como era, não lhe escapou a importancia d'esse novo germen litterario e analysou-o cuidadosamente para o introduzir e adaptar em sua patria. A par da comedia manifestava-se uma outra especie nova, o dilettantismo musical. Para mostrar o agrado com que o veria o poeta, bastará dizer que elle tangia violas darco e era dado á musica.

 

Nos palacios, outros tantos fócos de Renascença, discutiam-se

todas as questões de arte e de litteratura. As festas n'elles celebradas não eram puramente de distracção como as da côrte portugueza, mas essencialmente productivas. Em casa do marquez de Pescara reuniam-se os talentos mais em evidencia. Comprehende-se bem o que seriam os serãos ali realisados.

 

Sá de Miranda, de natural perscrutador, não deixaria, certamente,

de se interessar pelas questões politicas e religiosas, que tambem agitavam a esse tempo a Italia e que constituiam os grandes factos da Reforma attingindo o seu extremo, na Dieta de Spira, com a proclamação da liberdade de consciencia. Provavelmente, como catholico devotado e ardente, lhe não seria em principio sympathica a Reforma, mas nem por isso escapou á influencia d'ella, nem deixou de votar a mais profunda repugnancia ao excesso de intolerantismo da reacção.

 

Intelligencia altamente lucida, Sá de Miranda sentiu-se tomado de

uma intensa fascinação por esse extraordinario movimento intellectual que tinha a felicidade de observar de perto, de apreciar pessoalmente, tratando com os seus principaes corypheus. Como o seu coração de patriota, ardente, não pulsaria actuado por uma forte vontade de tirar a sua patria do profundo marasmo a que decaira para a levantar á maior altura do culto da arte! Avalia-se e dá-se razão ao enthusiasmo com que se tornou a Portugal.

 

Aqueles cantares finos,

A que liricos disserão Os Gregos e os Latinos,

Digão me donde os houverão

Salvo dos livros divinos?

Quantos que d'ahi ao seu

Trouxerão auguas á mão.

Regou Pindaro e Alceu,

E em môres prados Platão! Mas é a que ora aprendo Ler por eles de giolhos.

De que sei quam pouco entendo.

Mas fossem dinos meus olhos,

De cegar sobre eles lendo!

Que, dos seus misterios altos

Assi lubrigando vejo

Que não são pêra tais saltos:

Gemo sômente e desejo.

 

Em 1526, Sá de Miranda encontrava-se, sem duvida, de volta a

Portugal. Reinava, avia muito, o seu nunca desmentido amigo, el rei D. João III. Passava dos trinta e cinco annos. A sua mentalidade achava-se enriquecida com os preciosissimos conhecimentos adquiridos em sua excursão por Italia.

Seu animo retemperado e energico casava perfeitamente com a

firmeza de seu caracter. Traçara os seus planos e estava resolvido a executal-os. Como sustenta a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, tratava de dar novas sendas ás lettras patrias, de estimular os poetas com o exemplo, de provar a possibilidade de um aperfeiçoamento ou antes renovamento fundamental da poetica portugueza, de fazer, emfim, a transplantação das formas e dos metros italianos.

 

Sá de Miranda lançou-se afoitamente á lucta, contando com uma

facil victoria. Enganou-se. A resistencia foi mais porfiada do que certamente esperava e morreu mal tendo chegado a vêr os primeiros fructos de seus esforços.

 

Desde a sua volta a Portugal, Sá de Miranda foi decididamente o

chefe da escola classica, da escola que, como disse Pinheiro Chagas, pautava as suas obras comicas pelos modelos de Plauto e de Terencio, as suas eclogas e cartas pelas de Horacio e de Ovidio, a que substituiu a redondilha popular, até então quasi exclusivamente usada, pelo verso hendecasyllabo jambico italiano e as pastoraes ainda trovadorescas de Bernardim Ribeiro pelos idyllios virgilianos e pelas imitações de Theocrito. Quebrou o grande poeta o encanto e as velhas fórmas gastas do Cancioneiro de Resende, com a futilidade da poesia palaciana, foram completamente abandonadas.

 

O douto e grave poeta, porém, não foi apenas o propulsor da

escola classica em Portugal, mas tambem verdadeiramente o reformador da chamada escola velha, a que deu novos dias de gloria. Os rhythmos nacionaes, o grupo das singellas quintilhas e decimas, levantou-os elle á maior perfeição em suas celebres Cartas satyricas. Longe de romper fundamentalmente com a tradição, continuou a empregar os antigos metros nacionaes, voltando com frequencia ás graciosas redondilhas e até ás esparsas, vilancetes e glosas, de uma ligeira improvisação. Em o ultimo periodo de sua existencia deixou-se dominar mais absolutamente pelo classicismo que, em todo o caso, apparece em suas producções atravez do renovamento italiano.

 

Pena é não haver sido Sá de Miranda um poeta genial, inspirado

como Camões. Com as qualidades de estudo e de observação de que era dotado ter-se-hia tornado uma poderosa individualidade.

 

Innegavelmente são relevantissimos os serviços por elle

prestados á litteratura portugueza. É o que a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos põe em relevo ao affirmar que o illustre poeta provou que a lingua portugueza era capaz de se elevar até ás concepções mais bellas do lyrismo moderno com o soneto e a canção de Petrarcha, os tercetos de Dante, enlaçados em elegias e capitulos segundo o estylo de Bembo, a oitava rima de Policiano, Boccacio e Ariosto, e as ecloglas de Sanazarro com os seus versos encadeados e a variação melodica dos rhythmos e, finalmente, introduzindo o hendecasyllabo jambico italiano.

 

Propriamente a Sá de Miranda nada se deve em o que respeita a

fórmas metricas. O poeta da Tapada, admirador enthusiasta dos modelos estrangeiros que estudara, imitou, em geral escrupulosamente, a estructura das estrophes, introduziu fórmas novas, reformou e aperfeiçoou, mais nada. Podia ter ido muito longe, variar os typos por meio de leves modificações no encandeamento da rima, e no agrupamento dos septenarios na Canção, mas não ousou arcar com essas responsabilidades. Unicamente quanto ao assumpto e á linguagem se reservou uma completa e perfeita originalidade e d'esse modo concorreu bastante para o aperfeiçoamento da lingua portugueza, ainda rude e pouco melodiosa, além de que poude legar á posteridade as suas sempre apreciadas Cartas. Isso o salvou, tambem, do fiasco de algumas mal succedidas tentativas de innovação.

 

Tem-se pretendido negar a Sá de Miranda a iniciativa quanto ao

emprego de novas fórmas metricas. Faria e Sousa foi o primeiro que contestou a actividade e influencia do illustre poeta como reformador, ridicularisando-o e rindo-se de suas pretensões. O satyrico e faceto Diogo Camacho de Sousa, que nem o grande epico, o immortal auctor dos Lusiadas, poupou, chamava-lhe

 

poeta até o embigo.

 

Tolera-se ou desculpa-se que Faria e Sousa e Camacho

aquilatassem por essa forma o merito de Sá de Miranda. Não se podia esperar outra cousa de seu engenho satyrico.

 

De outra ordem é a affirmativa, feita por criticos respeitaveis, de

que os proprios versos que se dizem italianos e introduzidos por Sá de Miranda já eram conhecidos na peninsula do uso dos provençaes que os imitaram dos arabes. José Maria de Andrade Ferreira, em seu Curso de Litteratura Portugueza, vae até declarar cathegoricamente que, no tocante a artificio metrico e variedade rhythmica, nada se póde produzir que não fosse adoptado por aquelles poetas.

 

Assim, na opinião de certos escriptores, e para mais auctorisados,

foram os portuguezes os inventores da medida grande, limitando-se os italianos simplesmente a seguir o trilho dos poetas lusitanos. Querem esses que o infante D. Pedro, o das sette partidas e que desastradamente encontrou a morte em Alfarrobeira, haja escripto os primeiros sonetos portuguezes. Segundo esses, ha hendecassyllabos e septenarios italianos, como tambem muitissimas oitavas rimas, não sómente em o Cancioneiro de Resende, em Bernardim Ribeiro e Christovão Falcão, mas até no poema do Cid e no de Alexandre e em muitas coplas dos Cancioneiros da Vaticana, Collocci Brancuti e de Ajuda. Portanto, como pretende Andrade Ferreira, pouco deveria o parnaso portuguez aos chamados quinhentistas.

 

O erudito Dias Gomes foi mais commedido e mais sensato em

sua apreciação. Attribuindo a introducção do soneto, em Portugal, ao famoso infante D. Pedro, concedeu, todavia, que Sá de Miranda o aperfeiçoou e estabeleceu da maneira que ao presente o vemos. Admitte, egualmente, que o poeta da Tapada nos ensinou a estructura da canção, da oitava rima e do terceto. O sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, cita a opinião de Dias Gomes e accrescenta que foram essas formas quasi exclusivas que abraçaram depois os poetas da escola italiana, do que se deprehende que a partilha.

 

Mais recentemente, deve-se á ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de

Vasconcellos o relevante serviço ás lettras patrias de verificar até que ponto eram fundadas as criticas dirigidas contra a obra de Sá de Miranda. D'esse estudo resultou tomar aquella senhora a peito a defeza de haver elle iniciado—a escola nova italiana, introduzindo o hendecasyllabo, ensinando a estructura do soneto, dos capitulos (ou elegias) em tercetos, as fórmas fundamentaes da canção e a oitava rima italiana, e mostrando tambem como estas tres formas estrophicas se podem combinar na ecloga. Não que tão conscienciosa escriptora queira negar a filiação historica, a origem commum do decassylabo limosino e do hendecasyllabo italiano, ou antes, a relação de dependencia do segundo para com o primeiro, mas, em vista da pouca clareza com que os dois metros têm sido classificados, em Portugal, accentuar a sua differença.

 

Exactamente á confusão resultante da falta de methodo no contar

e medir das syllabas e á pouca clareza na terminologia dos versos portuguezes, attribue a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos a contestação de que fosse Sá de Miranda um innovador. Uns, attendendo unicamente aos sons, aos agudos, contam por syllabas de um metro as que se preferem até á ultima aguda, metrica, ou seja pausa, desprezando as breves que se lhe sigam. Outros, pelo contrario, tomando por norma do verso portuguez o grave ou inteiro, contam as syllabas accentuadas, grammaticaes realmente, além da pausa. D'ahi que uns chamaram ou chamam hendecasyllabo, ou de onze syllabas, ao verso que outros denominam decasyllabo jambico limosino, inventado pelos trovadores da Provença e imitado em Italia, Catalunha, Castella e Galliza. Ainda segundo prova a illustrada senhora, as oitavas rimas que os mesmos criticos descobriram na antiga poesia portugueza são, em realidade, estrophes de oito linhas ou oitavas, mas estas estrophes ou se compoêm de duas quadras peninsulares ou são oitavas hespanholas em versos de arte maior.

 

A nosso vêr, a argumentação da ex.ma sr.ª D. Carolina de

Vasconcellos resolve satisfatoriamente a questão. Pode-se d'ella concluir a affirmativa cathegorica de que, antes da viagem de Sá de Miranda á Italia, não existiam, em Portugal, a oitava rima, o soneto, a elegia em tercetos e a canção italiana. Tão pouco se compozera qualquer poesia em hendecasyllabos e septenarios, com accentos fixados á maneira toscana. Sá de Miranda bebeu na nascente, inspirou-se pessoalmente em a propria Italia, com seus grandes e immorredoiros artistas, e, quando de lá voltou á patria, poz-se a seguir as formas ali em uso, o que, de resto, elle proprio confirma e confessa ingenuamente nas rubricas de suas poesias.

 

Fizera-se, realmente, sentir o classicismo na peninsula hispanica,

mas a sua influencia poetica havia sido fraca e desapparecera quasi sem deixar vestigios. E mesmo se limitara a um vago conhecimento da escola dantesca, inaugurada por Imperial e em que se enfileiraram João de Mena, o Marquez de Santilhana e D. Fradique de Vilhena. O Marquez de Santilhana, antes de 1458, escrevêra já alguns sonetos. Outros poetas metrificaram em tercetos. Imperial, em seu Dezir a las siete virtudes, imitou o verso de onze syllabas.

 

Essas innovações foram, porém, prematuras. Não fructificaram

por falta de meio apropriado e em breve cairam em o mais completo abandono. Quanto não custou a Sá de Miranda implantar as suas! Não ha provas, de resto, de que aquellas tenham sido conhecidas em Portugal, ou, pelo menos, de que se lhe haja ligado a minima importancia. Apenas em o Cancioneiro geral se nota uma tendencia accentuada para o symbolismo e allegoria e uma forte inclinação para o didactismo, em um gosto de eruditismo escolastico.

 

Sá de Miranda é, pois, incontestavelmente, senão o fundador, o

propulsor da escola classico-italiana em Portugal. Visitando a Italia, quando esta peninsula attingia o maximo de sua elevação intellectual, preso de um santo enthusiasmo, dedicou-se com alma a reformar a nossa poetica segundo os modelos que lá fóra vira tão apreciados. Não quiz classisar a litteratura patria exclusivamente, mas levantar a poesia de sua decadencia por meio dos modelos italianos que estudara. Com justiça, pois, o nome de Sá de Miranda abre um novo periodo na historia litteraria portugueza, que com Ferreira e Camões se ergue ás maiores alturas.

 

Para as imperfeições metricas e rhythmicas de Sá de Miranda,

perdoaveis em quem, como elle, tinha a luctar com as difficuldades da amoldação e com as rudezas de uma lingua ainda não desbravada de todo, já a Vida, verdadeiro espelho do pensamento dos seus contemporaneos, teve a attenuante de que foi elle o primeiro que compos versos grandes neste Reyno, bastante desculpa das miudezas que se tachão em alguns seus desta medida pera aquelles homens, ao menos que attendendo ao que se diz, não curão muito do modo. A Vida considera os defeitos do poeta como accidentes de nenhuma importancia, attendendo a que elle não somente foy inculpavel na gravidade das sentenças, na agudeza dos conceitos, na propriedade dos termos, na moralidade das figuras, na imitação dos Poetas, na observação das regras, senão inimitavel tambem na pureza com que fallou em materias amorosas.

Continuar: parte 2 de 3