Sá de Miranda e a sua Obra
Lisboa
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Não têm fundo aqueles sacos.
Inda mal com tantos meos
Pera viver dos mais fracos
E dos suores alheos.
Que eu vejo nos povoados
Muitos dos salteadores
Com nome e rosto de honrados
Andar quentes e forrados
De pelos de lavradores.
E senhor, não me creais
Se não as achão mais finas
Que as dos lobos cervais,
Que arminhos nem zebelinas.
Custão menos, valem mais.
Ah senhor, que vos direi
Que acode mais vento ás velas?
Nunca se descuide o rei,
Que inda não é feita a lei,
Ja lhe são feitas cautelas.
Então tristes das molheres,
Tristes dos orfãos cuitados,
E a pobreza dos mesteres!
Que nem falar são ousados
Diante os môres poderes.
Esplendido caracter o de esse homem de uma franqueza
verdadeiramente sem egual. Se os reis tivessem sempre conselheiros assim leaes, quantas desgraças não evitariam aos seus subditos, quantas injustiças não lhes poupariam! E, necessariamente, essa admiravel carta encerra allusões directas a acontecimentos conhecidos de D. João III, mas que hoje são difficeis de traduzir.
A ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, considerando
particularmente a Carta a El-Rei, aprecia-a como um desforço contra a injustiça com que trataram o poeta, porque só ouviram seus inimigos e não lhe concederam sequer o direito de pedir satisfação pelas armas ao poderoso que o calumniou. Não iremos tão longe, mesmo porque não está ainda averiguada a certeza da perseguição de que se diz ter sido victima Sá de Miranda, mas, dado que a escrevesse com uma intenção de desforra, nem por isso se deixará de avaliar em seu justo valor a famosa carta.
Em a dirigida a João Ruiz de Sá de Menezes, o poeta insiste em
os perigos que teme para o paiz. O bom patriota, lá do seu retiro do Minho, nem um só momento esquece o que devia á patria.
Estes mimos indianos
Hei gram medo a Portugal
Que venhão fazer os danos
Que Capua fez a Anibal.
Sá de Miranda curava-se, agora, com a philosophia. Temia mais
os inimigos de casa que os de fóra. Eram aquelles que estavam promovendo a ruina de Portugal.
Cura me filosofia
Que me promete saude;
Dei lhe a mão, ela me guia,
Ouço falar da virtude;
Se a visse, sarar me hia.
Diz Platão, que é dos milhores,
Quem posesse os olhos nela,
Que verdadeiros amores
Sempre traria com ela.
Como digo, eu sô de ouvir
Ando como homem pasmado,
Desejoso de a seguir,
Chorando todo o passado,
Temendo todo o porvir.
De fora ha muitos perigos
A cuja lembrança temo,
Em casa aqueles imigos
Que eu mais que os de fora temo.
E, mais que nunca, votava a sua attenção para os grandes
modelos da litteratura classico italiana. Lia-os e relia os com admiração, não se cançando de os estudar e de procurar desvendar os mysterios de sua inspiração.
Aqueles cantares finos,
A que liricos disserão Os Gregos e os Latinos,
Digão me donde os houverão
Salvo dos livros divinos?
Quantos que d'ahi ao seu
Trouxerão auguas á mão.
Regou Pindaro e Alceu,
E em môres prados Platão!
Mas é o que ora aprendo
Ler por eles de giolhos,
De que sei quam pouco entendo.
Mas fossem dinos meus olhos,
De cegar sobre eles lendo!
Que, dos seus misterios altos
Assi lubrigando vejo
Que não são pera tais saltos:
Gemo sômente e desejo.
Indubitavelmente a carta a João Ruiz de Sá de Menezes foi,
tambem, escripta antes de Sá de Miranda se casar. Indica-o as allusões que faz ao amor e as duvidas com que mostra luctar antes de se resolver a esse passo decisivo.
Fui posto em gram diferença
Se casaria, se não?
Houve de sair sentença
Que a sô ũa desse a mão,
Ás outras boa licença.
A composição que mais absorveu os cuidados de Sá de Miranda
foi a ecloga Basto, cheia de intimas confidencias. O poeta, parece, levou toda a sua existencia a depural-a, chegando mesmo a refundil-a. Conhecem-se d'ella umas quatorze variantes mais ou menos desiguaes, das quaes as mais antigas são escriptas em decimas e as mais recentes foram reduzidas a estrophes de oito versos.
Encantadora essa ecloga em que Sá de Miranda deixou correr a
sua penna livremente, sob o impulso da inspiração popular. É a Basto um dos monumentos mais bellos de nossa litteratura e um dos melhores quadros de nosso viver intimo em o seculo XVI, frisando admiravelmente o contraste entre a sociabilidade urbana e a insociabilidade rustica, ou melhor, entre a vida palaciana, toda de prazeres, e a do campo, entre ares e caracteres puros. Formosa descripção de costumes minhotos, originalissima, os episodios simples e graciosos tocam pela ingenua candura de um verdor e transparencia de agua corrente. O dialogo é sereno, mas vivo.
A Basto seduz tanto pela elegancia da phrase e pelo subtil do
descriptivo, que se é tentado a consideral-a como a melhor composição poetica de Sá de Miranda. As suas bellezas, incontestaveis, passaram indifferentes a muitas gerações que n'ella achariam um modelo digno de estudo cuidado. O que prova quão transviados da tradição nacional, tão rica de primores, têm andado quasi todos os nossos poetas.
Um dos episodios mais admiraveis pela sua simplicidade
expressiva aqui o reproduzimos, segundo o ms. enviado ao principe D. João.
O moço que entra em terreiro
E não toca o chão de leve,
Polo ar voa o pandeiro,
E a toda a festa se atreve
Ele sô com seu parceiro,
Este tal baile, este cante,
Este seus jogos ordene,
Corra, va, pase adiante,
Este voltee, este espante,
Este dê penas e pene!
Mas quem já se vêm das pontas,
Não acha o que soía em si,
Começa entrar noutras contas:
Ouvi ja milhor e vi,
Suar e passar afrontas.
Vai se o tempo, tudo foge,
Corre o dia após o dia;
Queres que homem não se anoje?
Que me não conheci hoje
Nũa fonte em que bebia.
Este interessante descriptivo ou episodio, como queiram chamar-
lhe, foi posteriormente aperfeiçoado pelo poeta. Em a variante que passa como a melhor da ecloga, apparece elle posto na bocca de Bleito assim:
O moço que entra em terreiro
E não toca o chão, de leve.
Sô ele co seu parceiro
A toda a festa se atreve,
Este tal jogos ordene,
Este nas aldeas more,
Este balhe, este namore,
Este dé penas e pene;
Este os seus contentamentos
Diga em cantares nas vodas,
Este nos ajuntamentos
Dê mil voltas, no ar todas,
Este quando lhe aconteça
Que em Filipa ou em Marta sonha,
Ós domingos feitos ponha
Ou das malvas na cabeça;
Deixe o gado sô no monte
Em perigo, e corra a terra
Por saber quem vai á fonte
Depois que a noite se cerra;
Este tenha e perca arrufos,
Este logre abril e maio,
Este dé golpes no saio
E todo se empole em tufos!
Mas quem cuida e lança contas
Que tanto e tanto relevão,
Que fará? tu não te afrontas
Coa pressa que as vidas levão?
Passa pera sempre o dia,
Passa o ano, tudo foge.
Que me não conhecia hoje
Vendo me quando bebia;
Antes, quando ia beber
Sequioso e mui cansado,
Houvera d'esmorecer
Vendo me assi tam mudado.
Responde Gil com uma esplendida apologia da vida simples do
campo, vivendo livre, entregue aos cuidados da previdente natureza. As vantagens e os encantos d'essa existencia feliz são deliciosamente expostos, salientando-se pela convicção que lhe imprime o poeta.
Andando assi não me empecem
Maos olhos nem mas palavras,
Nem me temo se engafecem
Entre nosoutros as cabras,
Nem menos que o meu cabrito
Me furte o vezinho e coma;
Aqui, se paixão me toma,
Posso cantar voz em grito,
Com estas aves, que tais
Duas aventagens têm
D'esses outros animais,
Voar e cantar tam bem,
Ou ao som d'agua que cai
Rompendo polos penedos,
Eles que sempre estão quedos,
Ela que a gram pressa vai.
Dá me de que me mantenha
Este meu gado com leite,
Acho polo monte lenha,
Acho abrigo onde me deite
E faça quanto quiser.
E a noite tras a fogueira
Trago isca e pederneira,
Vinho não-no hei mester.
Ves tu a minha cabana?
Como o tempo acode, assi
A mudo. Nem Guiomar nem Ana
Não dão voltas por aqui,
Que me façam merecer
Muitas d'estas varapaos
Com seus olhos vaganaos
Bons de dar, bons de tolher.
Passado o frio e a neve,
Quando ó gado é cousa sã
Andar trosquiado e leve,
Visto me da sua lã.
Abasta me o seu sobejo
Pera tudo que hei mister;
Assi como o ano quer,
Assim com ele me rejo.
Para cousas que acontecem,
Trago comigo rafeiros
Que outras suas mãis parecem
Das mãis dos seus cordeiros.
Inda que se a ovelha esqueça
A trasparida e maltreita,
O cão cab' ela se deita
Té que eu em busca apareça.
Deixa me ver este ceo
E o sol como vai fermoso.
Que gram caminho correu
Desd'hoje e quam espaçoso,
Vai seguindo a outra párte,
Irá ver gente estranha,
Outra terra, outras montanhas
Que de nos não sabem parte.
Deixa me ver estas flóres
Tantas que nacem de seu!
Que este é o meu mal d'amores,
Ou de fora, ou de sandeu,
E mais, se inda mais quiseres,
Sicais que será verdade.
Porem tenha eu liberdade!
Dé vos deus muitos prazeres!
Aqui não sou com vezinhos
Cada ora aos empuxõis,
Nem sei sômente o caminho
Da vila e seus são Juõis,
Que, em vez de matar, avivão
Outra vez as diferenças.
Que te aproveita que venças
Se vencendo te cativão?
Sá de Miranda, como moralista eximio que era, pois a sua poesia
visava sempre a instruir, a educar, não a simples distracção, servia-se frequentemente da allegoria e da fabula. Na ecloga Basto demonstra a forma brilhante como sabia applicar as velhas fabulas classicas, ou ainda as que corriam entre o povo, ao seu intuito conceituoso. A licção dellas tirada é sempre a mais apropriada.
Ha em a Basto duas bellas fabulas: a de Gil Ratinho e a do
Bacoro Ovelheiro. Engraçadissima a primeira.
Fui um dia a vila, Gil,
E logo, ó sair da casa,
Mais verde que um perrexil
Cuidei que matava a brasa
De galante e de gentil.
Bem passei cos viandantes
Mas despois la, quando cheas
Vi ruas de outros galantes,
Se eu viera ufano de antes,
Não tornei tal ás aldeas.
Dezia um vendo me assi:
Bom vai o do barretinho!
Outros dar os olhos vi,
Outros chamar me ratinho,
Tanto tê que me escondi.
Finalmente por acerto
Vi algums nossos de ca,
Deixei os chegar mais perto,
Meti me antre eles por certo.
Que tarde me acolhem la!
Não menos conceituosa a do Bacoro Ovelheiro.
Um bacorote orgulhoso
Deu vista ó gado ovelhum,
De quexiquer espantoso
Trombejava ele um e um,
Andava todo bravoso.
Vem o lobo um dia e apanha
Polo pescoço o doudete,
Abrandou lhe aquela sanha,
Brada ai dos meus; em tamanha Pressa ninguem arremete.
Vinhão os porcos da aldea
Mais atras, grunhir ouvirão;
Cada um d'eles esbravea,
Estes si que lhe acudirão:
Perde o lobo a sua cea,
Ele solto, viu que o gado,
Da lã branca estava olhando
De longe, ainda amedrontado.
Antes, disse, ser mandado, Que a tal perigo tal mando.
Esta preciosa allegoria?
Do leite e sangue empolado
O bezerrinho viçoso
Corre e salta polo prado,
Despois lavra perguiçoso,
Tira o seu carro cansado.
Cos dias e co trabalho
O brincar d'antes lhe esquece,
Não é ja o que era almalho,
Venda se pera o talho
Que este boi velho enfraquece!
Ainda nenhum escriptor portuguez tratou com tanto engenho o
fabulario, ainda nenhum o applicou tão bem e lhe deu tão bello relevo. Sá de Miranda allia delicadamente a grandeza com a graça, a par de uma maneira simples e primorosa de contar.
Em a carta que posteriormente dedicou a seu irmão Mem de Sá, o
poeta utilisa admiravelmente a fabula de o rato do campo e o rato da cidade. Sá de Miranda conta-a em referencia á sua situação, convencido de sua verdade que tanto ao vivo sentira. Realmente não valeria mais o pouco a par das alternativas das grandezas? O poeta podia responder afoutamente.
Essa linda fabula, de origem grega diz-se, mas verdadeiramente
anterior aos hellenos, espalhada na antiguidade sob o nome de Esopo, tem tido enumeras imitações. O Arcypreste de Hita tratou-a com grande relevo. La Fontaine tambem lhe deu um certo brilho e a sua fórma é das mais espalhadas entre nós. Pois, de todas as imitações modernas, a mais valiosa é a de Sá de Miranda. Isto, como o reconhece a ex. ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, sob o ponto de vista da espontaneidade, da graça natural e da travessura ingenua.
Quem as confrontar deve reconhecer a justeza da nossa
apreciação. Para a vulgarisar a reproduzimos, embora seja um pouco extensa.
Um rato usado á cidade
A noite o tomou por fora;
(Quem foge á necessidade?)
Lembrou lhe a velha amizade
D'outro rato que ahi mora.
O qual assi salteado
De um tamanho cidadão
Por lhe fazer gasalhado
Dá mil voltas o coitado
Que não põi os pés no chão.
Faz homem a conta errada,
(Que mil vezes acontece)
Cresceu me muito a jornada,
Diz, entrando na pousada
O cidadão que aparece.
Estoutro poendo lhe a mezinha,
Põi lhe nela algum legume;
Mesura quando ia e vinha,
Deu lhe tudo quanto tinha,
Pede perdão por custume.
Cumpre muito aquela mesa
Mais da fome que da gula;
Faz claro a fogueira acesa;
Mostra bom rosto á despesa.
Vem o outro e dissimula.
E está dizendo consigo:
Este não foi pera mais!
Que vai de Pedro a Rodrigo!
Bem diz o enxempro antigo
Que os dedos não são iguais!
Ora despois de comer,
Jazendo detras o lar,
Começa o rico a dizer:
Dous dias que has de viver
Aqui os queres passar?
Na secura de um deserto
Que não sei quem o soporte,
De urzes e tojos cuberto,
Sendo tudo tam incerto
E tam certa sô a morte?
Vive, amigo, a teu sabor;
Mais é que cousa perdida
Quem por si escolhe o pior.
Vai te comigo onde eu for,
La verás que cousa é vida.
Des que um e outro provares,
(Que eu de outrem não adevinho)
Quando te não contentares,
Aqui tens os teus manjares
I tambem tens o caminho.
Assi disse! Eis o villão,
Em alvoroço e balança,
Ia e vinha o coração
Ora si, e ora não.
Venceu porem esperança!
E que deve i al fazer?
Vive de tanto suor!
Inda não pode viver,
Não pode o ano vencer,
Sempre a saida é milhor
E diz: Quem não se aventura,
Não ganha! Rezõis contadas,
Escolhem ora segura,
Entrão por ũa abertura;
O rico sabe as entradas.
Vão se por paços dourados,
Todos cheirosos da cea,
Tristes dos casais coitados
Do sol e vento torrados!
Pobre e faminta da aldea!
Vou me por meu conto avante:
Amostra o cidadão tudo
Que traz no bucho um infante;
Vão os seus gabos diante.
Pasmado o outro anda mudo,
Que tam sômente em provar
Das cousas que i mais lhe aprazem,
Ja começão de engeitar;
Fartos pera arrebentar
Sobre bons tapetes jazem.
Nisto o despenseiro chega
(Que estes bens não durão tanto);
Ve os ele, a pressa o cega,
Um lanço e dous mal emprega,
Corre os de canto em canto,
Os cãis á volta se erguérão,
Ladrão, (que é alto o serão)
As casas estremecérão,
Ums e outros i corrérão;
Foi dita que os gatos não!
Sabia o maior da manha,
Sabia a casa, e fogiu;
Ó ratinho da montanha.
Ós pés em pressa tamanha
Ó coração lhe caiu.
Mas espaçado o perigo
E a morte que ante si vira,
O coitado assi consigo,
Por seu asessego antigo
Que mal deixara, sospira:
Minha segura pobreza,
Se chegarei a ver quando
A vos torne? e esta riqueza,
Mal que tanto o mundo preza,
Fuja (se poder) voando?
Ai baldias esperanças!
Meu entendimento fraco!
Que al temos das abastanças?
La guardai vossas mostranças,
Deus me torne ao meu buraco!
Das composições poeticas de Sá de Miranda pode-se destacar
um fabulario do mais alto e inapreciavel valor. Ainda ninguem soube fazer-lhe a merecida justiça de uma edição condigna. Não devem os nossos editores curar unicamente de propagar a litteratura de além Pyreneus, sendo para desejar que as suas boas escolhas recaiam especialmente em o muito que ha das boas lettras em Portugal.
Em 1536, Sá de Miranda casou com D. Briolanja de Azevedo,
irmã de Manuel Machado, opulentissimo senhor de Entre-Homem e Cavado, em o alto Minho, e muito da amizade do poeta da Tapada. O enlace parece ter sido resultado de amor mais do que de desejo de gosar o viver modesto e socegado da familia.
A analyse de algumas das poesias de Sá de Miranda leva a inferir
que D. Briolanja era uma senhora formosa e que elle, por a ver, concebeu paixão por ella. Seus cabellos brancos, mais causados pelos desgostos que pela edade, ainda que o poeta andasse pelos cincoenta annos, far-lhe hiam receiar ser repellido.
E o poeta não hesitaria tambem em perder a sua liberdade varonil
ao casar-se? Camillo Castello Branco, com o seu conhecido humorismo, diz que o haver sido Sá de Miranda marido exemplar não fará deprehender que fosse descaroavel para com as demais mulheres. Como homem bem morigerado pelos annos déra á esposa o coração estreme, escreveu o grande romancista, excluindo d'essa entranha arisca todas as mulheres a quem apenas concedia licença—uma concessão assaz agradavel, qualquer que fosse.
É o poeta que o declara na carta a João Ruiz de Sá de Menezes,
evidentemente escripta antes do casamento.
Fui posto em gram diferença
Se casaria, se não?
Houve de sair sentença
Que a sô ũa desse a mão,
Ás outras boa licença.
Isto assentado, Amor deu
Claro sinal que era ali;
Eu o som do coldre, eu
O som das setas ouvi,
Amor, que estás sempre avindo
E junto á propria verdade,
Sejas por sempre bem vindo
Ao entregar da vontade,
Que entrego em te aqui sentindo,
Põi do teu fogo a esta casa!
Arça sempre e nunca abrande,
Que deus é fogo que abrasa:
Sei o de um privado grande!
Da força do amor diz Sá de Miranda em o soneto seguinte:
Mas que não pode Amor? Fez me engeitar
Tam levemente a mim por quem me engeita.
Castelos de esperança e de sospeita
Faz, e não sei que faz! é tudo um ar.
Fez me pedras colher, fez mas lançar.
A alma, apertando as mãos, toda encolheita,
Á força que fará e á lei estreita
Que em fim, queira ou não queira, ha de passar?
Como, e tão cego era eu que da vontade
Fiei tudo, que tudo a traves guia,
Tam gram contraira minha e da verdade?
Que al se podia esperar d'ũa tal guia?
Cai onde ora jaço; oh crueldade!
Não sei quando é noite ou quando é dia.
A lenda, porém, pretende que a D. Briolanja era tão feia de rosto
como de nome e, para mais, velha e tropega. A Vida refere até uma engraçada historia a respeito d'esse consorcio. Conta que estando o poeta em a Tapada, logrando quietamente o fruto de seus estudos e peregrinações, casou com Dona Briolanja Dazevedo filha de Francisco Machado senhor da Lousãa de Crasto Darega, e das terras de entre Homem e Câvado e de Dona Ioana Dazevedo sua molher, com a qual viveo annos em grande conformidade sendo ella tão pouco fermosa exteriormente e de tanta idade que quando a pedio a seus irmãos Manoel Machado e Bernaldim Machado, por ser seu pay já morto, não quiserão elles differir-lhe ao casamento, sem que primeiro visse bem a noyva, e sendo-lhe mostrada pollos irmãos, disse para ella, castigay-me senhora com esse bordão, porque vim tam tarde...
Camillo Castello Branco, achando, e com toda a razão, exquisito
que a noiva do dr. Francisco de Sá recebesse o noivo de aggressivo bengalão alçado, viu um erro typographico n'aquelle adjectivo articular esse, que deveria ser este. Quem levaria o bordão seria o poeta que, ao cumprimentar graciosamente a linda noiva, diria:— Castigai-me, senhora, com este bordão porque vim tão tarde.— Significava assim que entrara em o declinar dos annos por haver passado os quarenta e cinco, ao passo que D. Briolanja estava em pleno brilho da mocidade.
O sr. Theophilo Braga crê que da má comprehensão do dito a que
allude a Vida e que ficou em proverbio se formou a tradição de ter Sá de Miranda casado com uma senhora velha e feia. Em verdade, não se póde acceitar semelhante lenda, visto que da leitura das composições do poeta, dos parabéns com que se felicita, se deprehende tratar-se de uma senhora, muito pelo contrario, nova e formosa. Que, ao mesmo tempo, o poeta frisa bem a sua edade avançada. O dito do castigae-me deve antes ser olhado como uma galanteria bem comprehensivel em um cavalheiro de trato tão esmerado como era o poeta.
Foi em extremo venturoso esse enlace. D. Briolanja era senhora
de elevadas qualidades moraes, de preclaras virtudes e animo levantado. Sá de Miranda, estimando sobretudo os dotes dalma daquella matrona, que foram excellentes... do descanço de seu marido, da criaçam de seus filhos, da doutrina de seus criados e do provimento de sua casa, dedicou-lhe uma affeição tão sincera quanto intensa.
Vida santa, vida amantissima a d'aquella familia exemplar. Sobrio
e austero comsigo, Sá de Miranda era largo com algum excesso cos hospedes que indifferentemente agasalhava com gosto particular, costumando a dizer que o livravam de si o tempo em que os conversava. As festas familiares eram distracções para o seu melancolismo, cujas causas tem resistido a todas as investigações. Essas visitas proporcionavam ao poeta horas agradabilissimas de um convivio doce e terno. Vieram depois os filhos e com elles novos cuidados a Sá de Miranda que sempre procurou dar-lhes uma educação primorosa, fazer d'elles cavalleiros esforçados e honestos. Ao mais novo, Jeronymo, com nam ser muy rico, mandou-o aprender musica tendo em sua casa mestres d'ella custosos.
Após seu casamento com a irmã de Manoel Machado, Sá de
Miranda voltou novamente e com afinco á propagação dos metros italianos. Animou-o talvez o exito alcançado em Hespanha por Garcilaso e Boscan que acabavam de triumphar impondo-se. A grande reforma litteraria vencera ali finalmente.
As poesias dos dois poetas hespanhoes exerceram sobre elle,
n'este ultimo periodo de sua actividade poetica, uma influencia decisiva, influencia que foi até passar a escrever quasi todas as suas eclogas de metro hendecasyllabico em hespanhol. É que a harmonia meiga e suave d'aquellas poesias o seduziu a ponto de considerar a lingua castelhana como mais melodiosa, mais euphonica que a portugueza, que difficilmente se ia pulindo e abrandando.
A influencia do grande lyrico hespanhol, de Garcilaso, dominou
esta nova serie de producções do famoso poeta quinhentista. Falto de espirito de originalidade, o unico e verdadeiro defeito que se lhe póde encontrar, Sá de Miranda mais uma vez se acostou aos espiritos que se evidenciavam pelo talento e serve-se quasi das mesmas formas metricas e dos mesmos artificios. Comtudo, vae além do que Garcilaso e Boscan ousaram, intercalando redondilhas, á laia de coplas cantadas, em meio dos versos de onze syllabas.
Muitas passagens encantadoras, de uma vaga magia, se
encontram nas eclogas em hendecasyllabos hespanhoes. Rescendem ellas um sentimento profundo e têm uma rara vivacidade. Mas, como o faz notar a ex. ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, não agradarão a todos por haver n'ellas, por vezes, transicção abrupta de certos dialogos em estylo simples, á moda de Theocrito, para canções de um idealismo, de um platonismo indeciso. Fluctuação immotivada, embora rara, entre as formas cultas italianas e os metros da velha escola peninsular, mistura de uma philosophia ideal com uma serie de traços realisticos tirados da vida dos pastores portuguezes e promulgados em um tom intencionalmente rude e energico, esta desigualdade faz desmerecer muito a belleza d'essas composições que a têm innegavelmente. O poeta, ainda pouco seguro dos modelos que procurava egualar ou muito aferrado á tradição nacional para romper completamente com ella, como que hesita, titubia em suas innovações.
Por essa época e até 1538, escreveu as eclogas Celia, Andrés, o
Epitalamio Pastoril, o Encantamento e, em o outomno de 1537, a ecloga Nemoroso, destinada a commemorar o anniversario do fallecimento de Laso. D'estas producções, em que uma critica desapaixonada e rigorosa poderá encontrar meritos dignos de louvor, destacam-se a Andrés e a Celia.
A ecloga Andrés é uma sentidissima referencia a tristes
acontecimentos passados, a que o poeta assistira certamente com a mais cruciante magoa. Descreve as peripecias do casamento do infante D. Fernando, irmão de D. João III, com D. Guiomar, conhecida na ecloga pelo nome de Pascuala. Ha n'ella passagens vívidas de sentimento. A bella alma do poeta manifesta-se com um suave e palido brilho de lua de maio.
Da frescura deliciosa, da admiravel simplicidade d'essa excellente
composição, dirá esta passagem, uma das capitaes n'ella:
Aun las fieras salvajes quantas son
Vencer se dejan de humanidad buena;
El toro bravo, el mas bravo leon
Con tiempo muestran que pierden la pena,
El uno en iugo, el otro en la prision.
Si la voz conocida al aire suena
Del halconero, abaja desde el cielo
A prender se el halcon mas que de vuelo.
Todo lo vience el tiempo i la porfia:
En marmol duro si el agua desciende,
Ella tan blanda cava todavia;
Es duro el hierro, gasta se por ende;
Lo que no puede un dia, haze otro dia.
A las sus fuerzas, quien se le defiende?
Durisima Pascuala quanto en ti
De amor, trabajo, fe, tiempo perdi!
Vemos la golondrina vuelto el pecho
Al viento como un raio ir se volando,
Ora en cielo, ora en tierra, a trecho a trecho,
Que la vista la va mal devisando.
Contra la vena de agua por derecho
Van truchas las azudas trespasando.
Con quantas aves de entre dia vuelan,
Otras la noche escura se desvelan.
Ha i animales que a los nuestros fuegos
Se acogen, constreñidos del mal frio,
Otros no vence estonces, como juegos;
Aves del cielo biven por el rio,
Otros se esconden por la tierra ciegos;
Biven del fuego, biven del rocio:
No sé de condicion que eres Pascuala
Pero no de mujer, no de zagala,
Mas antes de zagala i de mujer!
Que debajo de aquella vista hermosa,
Tan llegada al divino parecer,
Escondió la natura artificiosa
El maior mal que pueden ojos ver,
Engaño que haz la pena deleitosa,
Ponzoña de gran fuerza! mata el vel-las,
Mata el oil-as, mata el oir d'elas!
Oh que haias mucho de mal grado, Amor
Que ansi nos turbas el entendimiento?
Al maior daño diste mas sabor,
Errado el peso, la medida, el cuento,
Donde se sigue que de tal error
Se vengan recreciendo ciento a ciento,
Qual fuente avelenada perenal
Donde mana despues tanto de mal!
Suerte mucho cruel que tal consiente?
Logo abaixo da Basto, embora em verdade muito inferior, pode
ser collocada a Andrés. A Celia, dedicada ao infante D. Luiz, não é tão mimosa, porém quasi lhe eguala em sentimento. O poeta canta uma mulher desapparecida, o amor querido do alludido principe.
Ai Celia! quantas lagrimas devidas
Te son! i quantas, si remedio diesen
A cosa alguna de mas a las vidas
Por quien costumbre quiso se vertiesen
En vano tantos tiempos, si no havidas
De los mas sabios por flaqueza fuesen.
No digo mas de si ni mas de no
Son que causa terná quien nos las dió.
Aquel dolor que va turbando dentro
De cuerpo i d'alma todos los sentidos,
Pasando al corazon que es el su centro,
Las lagrimas de alla manda i gemidos
Que abran camiños a aquel duro encuentro;
Sino, que es fuerza, siendo detenidos,
Con el fuego encerrado i las centellas
Ardan las casas i el señor con ellas.
.........................................
Estés por siempre, buena Celia, en gloria
I siempre en fama qual dejaste aqui;
Deve se tal corona a tal vitoria
Del enemigo, del mundo, i de ti,
Duros contrarios que en nuestra memoria
No sé vencidos quien los haia ansi;
Derechamente corriste a la palma,
Dejaste el cuerpo atras, avante el alma.
Em 1538, apresentou o poeta a sua segunda comedia classica Os
Vilhalpandos, escripta em prosa como a primeira. Esta e os Estrangeiros, o Cardeal D. Henrique que depois foi Rei, tam pio, tam zelador da Fé, e dos bons costumes, reformador das Religiões, Legado á Lattere, Inquisidor-Môr, não só lhas mandou pedir pera as fazer (como fez) representar diante de si por pessoas que depois foram grandissimos ministros... senão pouco despois de Francisco de Sá morto, porque se ellas nam perdessem as fez imprimir ambas em Coimbra na forma em que andam e as tinha e lia muitas vezes.
O visconde de Almeida Garrett, traçando um pequeno esboço da
Historia da lingua e da poesia portuguesa, mostrou-se da opinião que as comedias de Sá de Miranda eram para admirar e constituiam um notavel monumento para a historia das artes pela feliz imitação dos antigos e pelo que excedem quanto até então se tinha escripto. Justo n'esta apreciação, Garrett deixou-se, comtudo, levar pelo pessimismo de considerar funesto o impulso dado por Sá de Miranda ao theatro portuguez, funesto e como tendo-o destruido ao nascer. N'esta mesma direcção, Andrade Ferreira acha que a influencia italiana não deu de si mais que a memoria de varias tentativas eruditas.
Comprehende-se que o publico preferisse o theatro tal como o
apresentava a musa negligente e faceta de Gil Vicente e João Prestes, em que havia sido creado e que o interessava porque o divertia. Natural que antes quizesse as jocosidades por vezes grosseiras dos autos populares a conservar a sua grave compostura ante as subtilezas da arte e correcção das comedias ao gosto classico, a que não estava habituado e que o não deixavam á vontade, acabando por o fazer bocejar. Parece-nos, exagero, porém, inferir d'ahi a funesticidade da obra de Sá de Miranda.
Seriam as comedias de Sá de Miranda faltas de caracter nacional
e improprias para dar uma boa direcção ao theatro portuguez? Só um estudo profundo e demorado o pode decidir. Foi, todavia, essa corrente de reforma do theatro pela imitação da comedia classica que produziu essa obra immortal de Ferreira, a Castro, a primeira composição dramatica moderna, que reproduz o que existe de mais sublime e pathetico em um quadro de historia nacional, como escreve Andrade Ferreira.
O final de este periodo de actividade litteraria de Sá de Miranda
foi assignalado por uma nova carta em redondilhas, dirigida a seu irmão Mem de Sá. Esta carta deve datar-se de pouco depois de 1543 porque allude á morte de D. Duarte e de Boscan.
Mem de Sá, ao contrario de seu irmão, procurava elevar-se pelas
honrarias da côrte e alcançava ascender aos mais altos cargos do estado. Como governador geral do Brazil, o seu nome cobriu-se de uma gloria immortal. Sá de Miranda, em sua carta, aconselha-o a evitar os escolhos da ambição e da vaidade para não ver a sua carreira naufragar inopinadamente. Para mostrar quanto mais valia a modestia do pouco em socego ante as incertezas inherentes ás maiores grandezas utilisa bellamente a celebre fabula do rato do campo e do rato da cidade.
Sá de Miranda confirma suas palavras com o exemplo de seu
passado. Explica-lhe porque abandonou a côrte e descreve-lhe a vida tumultuaria que n'ella se passa e contra a qual se não podia já ir.
Polo qual a este abrigo,
Onde me acolhi cansado
E ja com assaz perigo,
A essas letras que sigo,
Devo que nunca me enfado,
Devo a minha muito amada
E prezada liberdade
Que tive aos dados jugada.
Aqui sômente é mandada
Da rezão boa e verdade.
Nas cortes não pode ser!
Vedes os tempos que correm!
E assí vemos té morrer
Irem muitos a correr
Por fugirem d'onde morrem.
Ora pôr peito á corrente,
Que sejais forçoso e são,
E de sangue inda fervente,
Gram nadador, claramente
É quebrar braços em vão.
Que valem as riquezas comparadas com a liberdade? Ambições
que passam com a edade!
Buscar e sonhar privanças,
Dar de entrada a liberdade
Logo por vãs esperanças,
Esses jogos, essas danças
Passem coa mocidade.
Da fraqueza propria vem o medo á pobreza.
Fracos de fe! e de fraqueza
Vêm estes nossos suores,
Estes medos á proveza.
E que desgraçada existencia a d'aquelles que só vivem da
ambição e para a ambição.
Andando assi neste enlheo
Em quantos erros caimos
Sem conto, sem fim, sem meo;
Dormimos o sono alheo
O nosso não o durmimos;
Queremos o que outrem quer,
O que não quer engeitamos!
Estamos sômente a ver,
Rimos o alheo prazer,
E ás vezes quando choramos.
A carta a Mem de Sá foi a ultima composição notavel do poeta da
Tapada. Sá de Miranda nada voltou a produzir que se possa destacar e os seus trabalhos poeticos posteriores limitaram-se a moribundos clarões de um sol no poente. Emmudeceria ante a decadencia que escancarava a sua terrivel guella hiante com os primeiros horrores da Inquisição ou preoccupava-o em extremo o futuro dos filhos já homens ou, ainda, seria absorvido pela sua occupação mais constante de rever as obras antigas para as polir e aperfeiçoar, sobretudo a famosa e esplendida Basto, objecto dos seus mais dedicados cuidados e a que deu o maior realce? Talvez todos esses motivos concorressem para afrouxar a actividade do poeta.
Por 1551, o principe D. João, joven herdeiro do throno e que bem
novo se declarava um decidido protector das lettras, mandou pedir a Sá de Miranda uma collecção de suas poesias. O poeta satisfez com empenho o pedido, sentindo-se n'elle não só honrado, como apreciado. Era aquella solicitação confirmativa de seu triumpho.
As composições poeticas de Sá de Miranda só em 1595, annos
depois de sua morte, é que foram pela primeira vez impressas. Nem por isso sua influencia se exerceu menos accentuada, pois corriam manuscriptas de mão para mão amiga. Aquelle cenaculo da Tapada cedo se tornou o foco de onde irradiou a luz que trouxe a restauração da poesia portugueza, o centro do movimento poetico do paiz. O nome de Sá de Miranda foi sempre augmentando até se impôr aos outros quinhentistas com um predominio a que lhe dava jus a sua vasta e solida erudição, a auctoridade de seu caracter e a sua obra admiravel.
Em torno do venerando moralista e brilhante poeta começaram a
agrupar-se, quer pela communhão de idêas, quer pelas relações pessoaes, os espiritos esclarecidos do tempo, como Ferreira, Diogo Bernardes, D. Manuel de Portugal, Francisco de Sá e Menezes, Pero de Andrade Caminha e outros. Soccorriam-se á sua experiencia, consultavam-o, ouviam-o e submettiam-lhe as suas producções.
Diogo Bernardes, ao tempo em que ainda se conservava em sua
terra natal, Ponte de Lima, visitava a miudo a Tapada onde Sá de Miranda o recebia com a mais carinhosa intimidade. Em sua primeira carta, escripta em tercetos á maneira italiana, confessa que é a elle que toma por mestre.
O dôce estylo teu tomo por guia,
Escrevo, leio e risco; vejo quantas
Vezes se engana quem de si se fia.
....................................
Não te deram os céos graças tamanhas,
Para só as lograres, mas por seres
Bom mestre de artes boas, boas manhas.
Sá de Miranda recebeu com enthusiasmo essa estreia do novel
poeta. Com a sua benevolencia paternal, dirigiu lhe este mimoso soneto:
Neste começo d'ano em tam bom dia,
Tam claro, porque não faleça nada,
Me foi da vossa parte apresentada
Vossa composição boa a porfia.
De que espanto me encheu quanto ali via!
E mais em parte ca tam desviada
Sempre até gora da direita estrada
De Clio, de Caliope e Talia.
Oh que enveja vos hei a esse correr
Pola praia do Lima abaixo e arriva
Que tem tanta virtude de esquecer,
O que estes tristes coraçõis aliva,
Do pesar igualmente e do prazer
Passado, que não quer que inda homem viva.
Caminha teve tambem, muito cedo, amizade com Sá de Miranda.
O sr. Theophilo Braga attribue mesmo a essa circumstancia uma parte da celebridade de que aquelle gosou.
A Ferreira nunca Sá de Miranda viu. Pois não era dos que menos
o adoravam pela sua vida integra e caracter austero e admiravam pela sua grande obra de renovação litteraria. Mais tarde, Ferreira lamentou acerbamente nunca se haver encontrado com o poeta da Tapada.
Ah meu bom mestre, ah pastor meu amigo,
Como minha alma e os olhos se estendiam
Por ver-te, e o duro tempo foi-me imigo!
Mas inda que os meus olhos te não viam
Cá te tinha minha alma, e teus bons cantos
Lá me levavam, e de ti todo enchiam.
A geração, que se vinha manifestando exuberante de talento,
encarava com a mais commovida veneração e respeito o grande poeta que tanto trabalhara pelo florescimento das lettras patrias. Conhecia que muito e muito se devia a esse homem verdadeiramente nobre e justo. Da forma como o considerava, dá idêa o admiravel retrato que Ferreira d'elle traçou.
Chamar-te-hei sempre bem aventurado.
Que tanto ha que em bom porto co essas santas
Musas te estás em santo ocio apartado.
Não esperas, não temes, não te espantas;
Sempre em bom ocio, sempre em sãos cuidados, A ti só vives lá, e a ti só cantas.
Os olhos soltos pelos verdes prados,
O pensamento livre, e nos céos posto,
Seguros passos dás e bem contados.
Trazes hua alma sempre n'um só rosto,
Nem o anno te muda, nem o dia,
Um te deixa Dezembro, um te acha Agosto.
Quam alta, quam christã philosophia,
De poucos entendida nos mostraste!
Que caminho do céo, que certa guia!
De ti fugiste, e lá de ti voaste,
Lá longe, onde teu sprito alto subindo
Achou esse alto bem que tanto amaste.
Novo mundo, bom Sá, nos foste abrindo
Com tua vida, e com teu doce canto,
Nova agua e novo fogo descubrindo.
Particularidade digna de mencionar-se e que o sr. Theophilo
Braga nota: todos os poetas que se filiavam em a escola italiana e se dirigiam a Sá de Miranda, começavam por contar-lhe a sua vida, como para mostrar que era immaculada e que merecia a amizade delle. Tanta respeitabilidade infundia esse homem de um caracter integro e puro.
Sá de Miranda sentia um vivo prazer ao observar o triumpho de
seus esforços. Quasi immediatamente surgiu uma serie de cataclysmos que veiu matar o poeta logo tambem pera todas as cousas de seu gosto e antigos exercicios.
A deploravel catastrophe de Ceuta, em 1553, em que pereceu a
flôr da cavallaria portugueza, custou-lhe a preciosa vida de seu filho primogenito Gonçalo Mendes, ambição risonha de seu futuro, enlevo de sua alma, carinho de seu coração amantissimo. O poeta sentiu-se ferido rudemente por esse desabar de toda a sua esperança, de toda a sua felicidade futura.
Os vates da nova escola procuraram consolar a dôr de Sá de
Miranda com sentidas elegias. Ferreira dirigiu-lhe uma suavemente melancolica, vívida, procurando mitigar a dôr do attribulado pae pela idêa da morte gloriosa do filho que caira combatendo pela patria.
Oh alma bem nacida, que em tal guerra
Ganhaste uma tal vida, honra e gloria
Quem morte lhe chamar contra ti erra.
Sá de Miranda respondeu a Ferreira com outra elegia, vibrante da
dôr mais profunda que pode exacerbar o coração de um pae extremoso. A sua magoa não lhe impede, porém, de admirar o talento do joven adepto da nova escola e de o incitar a continuar na vereda encetada.
Vem um dando á cabeza e conta ufano
Cousas do seu bom tempo, ardendo em chamas
Polas que fez: todo al lhe é claro engano.
Andão se ás razõis frias polas ramas
Um vilancete brando, ou seja um chiste,
Letras ás invençõis, motes ás damas,
Ua pregunta escura, esparsa triste!
Tudo bom! quem o nega? mas porque,
Se alguem descobre mais, se lhe resiste?
E como, esta era a ajuda? esta a mercé?
(Deixemos ja as mercés) este o bom rosto?
De menos custa em fim que este tal é?
E logo aqui tam perto, com que gosto
De todos Boscão, Lasso, erguérão bando,
Fizerão dia, ja quasi sol posto!
Ah que não tornão mais! vão se cantando
De vale em vale de ar mais lumioso
E por outras ribeiras passeando.
A idêa de que a sua obra seria continuada por uma geração cheia
de talento mitiga o pezar de Sá de Miranda. Desejava, porém, não ter de lamentar esse filho perdido em tão tenra edade: dezeseis annos. Como invejava a sorte d'aquelle Mestre Dom Rodrigo, chorado por seu filho Jorge Manrique!
Nos sonhamos aqui, tu vas te ao ceu.
Ditoso aquele mestre dom Rodrigo
Manrique, a quem em seu tempo louvou
O filho e deu ao corpo em morte abrigo.
Era ela conta igual que quem entrou
Antes á vida, saisse primeiro?
Eu sou que devera ir! quem nos trocou?
......................................
Vai te a boa ora; não tens de que devas
Temer; la tudo é paz, tudo assossego!
Quem leva um tal seguro qual tu levas?
Não se apagara ainda a saudade do filho querido e já uma nova
desgraça feria o coração do poeta. A esposa virtuosissima, D. Briolanja, faltou-lhe em 1555. Sá de Miranda entregou-se a extremos de sentimento senam dignos do animo de hum tam grande Philosopho, devidos pollo menos á estimaçam que com seu profundo juizo fez daquella perda.
Sá de Miranda sobreviveu ainda tres annos ao desapparecimento
d'esse ente querido e, como affirma a Vida, por testemunho de pessoas que conheceram o poeta, nunca mais sahio de sua casa, senão pera ovir os officios Divinos, nem apparou a barba, nem cortou as unhas, nem respondeu a carta que lhe alguem escrevesse até que acabou de todo.
Vivendo ainda tres annos despois de sua mulher, nam se acha
que composesse mais que hum Soneto que fez á sua morte. Foi digna cupula posta á sua obra poetica.
Aquele esprito, já tam bem pagado
Como ele merecia, claro e puro,
Deixou de boa vontade o vale escuro,
De tudo o que ca viu como anojado.
Aquele esprito que, do mar irado
D'esta vida mortal posto em seguro,
Da gloria que la tem de herdade e juro
Ca nos deixou o caminho abalisado.
Alma aqui vinda nesta nossa idade.
De ferro que tornaste a antiga de ouro
Em quanto ca regeste a humanidade,
Em chegando ajuntaste tal tesouro
Que para sempre dura! Ah vaidade!
Ricas areas d'este Tejo e Douro!
Como se não fossem poucos os desgostos a abrirem-lhe a cova,
os ultimos dias de Sá de Miranda ainda passaram amargurados com a noticia da morte do principe D. João, uma promessa para o paiz, quasi a seguir a do infante D. Luiz e, por ultimo, a de el-rei D. João III, o seu grande e nobre amigo, em 1567. Sá de Miranda sobreviveu apenas oito mezes a esta ultima e fulminante desgraça que vinha mergulhar o reino em as dissenções de uma funesta regencia.
O poeta da Tapada, o grande auctor da ecloga Basto, falleceu a
15 de março de 1558, com mais de sessenta e oito annos de edade. Recebeu modesta, mas digna sepultura, ao lado de sua mulher em a capella de Santa Margarida da egreja de S. Martinho de Carrezedo, em o arcebispado de Braga.
Muito sentida a morte do grande poeta por todos os adeptos da
nova escola litteraria a que Sá de Miranda servia, por assim dizer, de elo. Não fosse o espirito do respeitado mestre que se apagára. Tinha-se bem presente aquelles versos de Ferreira em que tão bem se synthetisa a grande obra de Sá de Miranda:
Novo mundo, bom Sá, nos foste abrindo
Com tua vida, e com teu doce canto,
Nova agua e novo fogo descubrindo.
Terminando
A Vida, o precioso documento anonymo que acompanha a
segunda edição, de 1614, das obras poeticas de Sá de Miranda, serviu de guia e de base ao nosso estudo biographico-critico. Como tivemos occasião de ver, no que respeita a fixação de factos, ella nem sempre é veridica, deixando muito a desejar. Erra assim na data que attribue ao nascimento do poeta e em dizer que elle estudou leys mais em obsequio ao gosto del Rey Dom João o Terceiro... que por inclinação que tivesse áquella maneira de vida, phrases que reproduzimos atraz para accentuar as boas relações em que estava a sua familia com a casa real, não por as tomarmos á lettra.
Essas faltas do anonymo biographo, a nosso ver, em nada
desmerecem o valor do documento que nos legou sobre a vida do glorioso solitario da Tapada. Ha grandes lacunas na Vida, erros de vulto, mas ella é bem realmente collegida de pessoas fidedignas que o conhecerão—ao poeta—e tratarão e dos livros das gerações deste Reyno. Tivemos occasião de o verificar notando a concordancia dos seus dados com os offerecidos pelos diversos nobiliarios e genealogias manuscriptas a que precisamos recorrer.
Uma d'essas genealogias, a Nobresa de Portugal e Espanha, de
Manuel Faria e Sousa, em seu titulo dos Sãs de Francisco de Sá de Miranda, senhores da quinta da Tapada, teria poupado a muitos escriptores o engano de dar ao poeta como mãe a avó, se fosse consultada. Ella diz expressamente:—Gonçalo Mendes de Sá, filho 2.º de Felipa de Sá e de seu marido João...
Como deixamos dito, a carta de legitimação do poeta dá o nome
da mãe de Sá de Miranda. Á obsequiosa amabilidade do erudito investigador sr. Sousa Viterbo, devemos o saber que ella se chamava Ignez de Mello. Pertenceria esta senhora á geração dos Mellos de Coimbra? Seria nobre? Occuparia elevada posição social? São perguntas que suggere a particula de anteposta ao nome de familia e que resta averiguar. Que era uma mulher de bem affirmam-o os nobiliarios.
Não estão estes de accordo sobre se Sá de Miranda foi o filho
primogenito do conego Gonçalo Mendes. Haja sido ou não, é incontestavel que o poeta possuia bens proprios. A familia dos Sás era das mais ricas e importantes do paiz.
Como se sabe, Garcilaso falleceu em 1536. Sá de Miranda
compôz para o primeiro anniversario da morte do grande lyrico hespanhol a ecloga Nemoroso em que evidencia o mais intimo conhecimento não só de suas poesias como de sua propria vida. Das poesias tomou conhecimento pelo manuscripto com que o brindou o seu querido amigo Antonio Pereira. O saber de sua vida devia-o decerto a relações pessoaes, achando o sr. Theophilo Braga, natural que durante a sua viagem na Italia tivesse Sá de Miranda encontrado Garcillaso.
Uma ultima nota.
Attribuimos o casamento de Sá de Miranda a resultado de amor
mais do que a desejo de gosar o viver modesto e socegado da familia e procuramos proval-o. Ainda como demonstrativo do que dissemos ha um soneto do poeta que vamos citar na forma porque o reproduziu o sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas.
Como? e serà tão cego e sem sentido
Amor, que umas rasões claras, tão chãs
Não ouça? e que não veja tantas cans, Tanto tempo baldado e não vivido?