Sá de Miranda e a sua Obra
Lisboa
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
É pouco de estranhar que Sá de Miranda não tivesse em suas
obras a inspiração de Camões, porque devia luctar com grandes difficuldades para amoldar o portuguez duro e rude dos heróes da Africa e da India ao espirito philosophico das suas idêas e á harmonia das novas formas poeticas que pretendia introduzir em Portugal. D'ahi a sua inferioridade manifesta e incontestavel na parte em que mais se inclina para os modelos da escola classico-italiana, inferioridade que ainda mais põe em relevo o brilhantismo das suas redondilhas tão nacionaes.
Innovador convicto, preoccupava-se com a imitação dos modelos
estrangeiros que o deslumbravam e aos quaes desejava egualar, senão exceder. Estudava constantemente procurando seguir com o maior rigor as regras da arte. Fel-o tão a contento dos partidarios de sua escola, que a Vida chega a sustentar que os que attentamente o passarem não lhes ficará necessidade de lêr em as Poeticas de Aristoteles e Horacio, que elle, parece, não largaria da mão.
O poeta, em sua sêde de perfeição, não se dava nunca por
satisfeito com a sua obra. Continuamente refundia os seus trabalhos, cortava aqui, accrescentava além e, pode se dizer, morreu sem deixar uma forma definitiva de sua enorme producção poetica. A grande quantidade de variantes tem sido a maior difficuldade para as edições de suas obras.
Sá de Miranda desejava hombrear com os extraordinarios talentos
que admirara em Italia e cujos livros eram os seus ocios de todos os dias. Sentia-se fraco de forças e não se cançava em procurar aperfeiçoar-se. O proprio poeta o confessa lealmente em o soneto com que fez acompanhar a remessa do seu terceiro manuscripto de versos ao principe D. João, filho de D. João III, espirito culto prematuramente apagado.
Tardei, e cuido que me julgão mal,
Que emendo muito e que emendando, dano.
Senhor, que hei grande medo ao desengano,
D'este amor que a nos temos desigual.
Todos a tudo o seu logo achão sal:
Eu risco e risco, vou me de ano em ano.
E este mal contido suspiro pela sua impotencia:
Ando cos meus papeis em diferenças!
São perceitos de Horacio, me dirão. Não posso em al, sigo o em aparenças.
A sinceridade de Sá de Miranda é a melhor justificação das
imperfeições que se lhe possam notar.
Ao voltar a Portugal, Sá de Miranda observou com profundo
desgosto a completa transformação que se operava na côrte. Os symptomas da decadencia moral da fidalguia tornavam-se evidentes, salientavam já como manchas negras. Dominada pela febre do ouro que se fizera contagiosa, a nobreza esquecia o proverbial cavalheirismo e atirava-se desatinamente á mercancia para obter a todo o preço dinheiro e muito dinheiro.
A sede do ouro e dos prazeres, sede desenfreada e que nada
saciava, substituira a elevação culta dos serões do tempo de D. Manuel. Quão mudados andavam os tempos! Da poesia já poucos queriam saber. E o mal augmentava em um resvalar pavoroso que ia trazer a Inquisição e levar até á infamissima cobardia que entregou Portugal a Castella.
Posteriormente, já em o retiro a que resolvera recolher-se, em
carta dirigida ao seu amigo Antonio Pereira, Sá de Miranda descreve admiravelmente a situação deploravel em que caira o paiz. As causas são bem apontadas e a comparação com as eras passadas não pode ser mais bem feita.
Não me temo de Castela
Donde guerra inda não soa,
Mas temo me de Lisboa,
Que o cheiro d'esta canela
O reino nos despovoa,
E que algum embique ou caia!
O longe va, mao agouro
Falar por aquela praia
Na riqueza de Cambaia,
Narsinga das torres de ouro.
Ouves, Viriato, o estrago
Que ca vai dos teus custumes:
Os leitos, mesas, os lumes,
Tudo cheira: eu olios trago,
Vêm outros, trazem perfumes.
E aos bons trajos de pastores
Em que saístes ás pelejas
Vencendo tais vencedores,
São trocados os louvores,
São mudadas as envejas!
É entrada polos portos
No reino crara peçonha
Sem que remedio se ponha.
Ums doentes, outros mortos,
Outro polas ruas sonha.
Fez nos a ousada avareza
Vencer o vento e o mar,
Vencer caje a natureza.
Medo hei de novo a riqueza
Que nos torne a cativar,
Sá de Miranda, que já se sentira aturdido com a desenvoltura, a
dissolução dos costumes que presenciara em Italia, ficou apavorado ao conhecer o avassalador mercantilismo da côrte portugueza. Com que energia a invectiva depois:
Escravos mais que os escravos,
Por rezão e por justiça
Deixai-vos dos vossos gabos,
Que vos vendeu a cobiça
A mar bravo e a ventos bravos!
Homem recto, consciencia impolluta, Sá de Miranda não se poude
ter que se não retirasse logo para Coimbra, a sua querida, a sua adorada terra natal. Mas, quando fugia á côrte, esta, escorraçada pelos horrores da peste, que fazia de Lisboa um horrivel cemiterio, seguia-o ahi, a acolher-se temporariamente á hospitaleira cidade.
Sá de Miranda possuia em Coimbra, ou em seus arredores,
alguma propriedade situada junto ao Mondego e com a vista sobre a serra, certamente deixa de seus paes. É o que se tira de seus proprios versos,
No lugar onde me vistes
De agua e do monte cercado
N'essa propriedade, pensaria o poeta encontrar um refugio contra
as tentações com que ainda o poderia seduzir a côrte. Ahi contaria, com effeito, mais dias
De ledos que não de tristes.
A ida de D. João III a Coimbra constituiu verdadeiramente uma
simples visita. De todas as supposiçoes que se tem feito ácerca da saída do monarcha de Lisboa, por causa da peste, a mais verosimil é que essa epidemia deu logar a pequenas excursões. A estada da côrte, em 1527, em a Athenas portugueza foi tão rapida, que el-rei passou o Natal em Lisboa, encontrava-se a 15 de fevereiro de 1528 em Almeirim e achava-se de volta a Lisboa de fevereiro a junho de 1530.
Sá de Miranda, que estava em suas terras nas margens do
Mondego, ao saber da viagem do seu excellente amigo o monarcha e da joven rainha, que pela primeira vez ia a Coimbra, correu á cidade a recebel-os, a promover festas em sua honra e elle proprio pronunciou o discurso de recepção dos regios personagens. E, com vontade ou sem ella, restabeleceu, então, as suas relações com a côrte. Consolou-se, talvez, por ver que se lhe offerecia occasião de iniciar a propaganda a favor das idêas e formas poeticas que trouxera de Italia, de as defender calorosamente e de mostrar as bellezas dos seus grandes vultos litterarios, Sanazarro, Dante, Petrarcha, Ariosto, Bembo e Dante, cujas obras possuia.
Certamente, a conversação com Sá de Miranda devia ser
procurada pelos fidalgos mais illustrados que faziam parte do sequito do rei. A consideração que gozava pelo respeito que infundia a sua rectidão de caracter, a longa viagem feita pelo estrangeiro e de onde ainda ha pouco regressara, o muito que devia ter visto e aprendido durante sua excursão, tornavam-o, sem duvida, reclamado em a côrte. O poeta aproveitou este seu predominio para pugnar pelo triumpho dos grandes mestres de Italia, estimulando a curiosidade dos espiritos mais illustrados e intelligentes, patenteando-lhes as perfeições litterarias dos seus trabalhos, emfim, preparando-os para bem receber as suas projectadas obras. Ao mesmo tempo, ia desassombradamente atacando com vigor as producções dos escriptores nacionaes, apontando e condemnando os defeitos que lhes encontrava.
Não foram baldados os esforços de Sá de Miranda. A côrte teve
que se render ante o seu talento e a sua erudição. Como diz a Vida, co as colidades de sua pessoa e boas partes que nelle concorrião, sem outra alguma ajuda das que costumão levantar ainda os indignos, se fez tamanho lugar, que foy sem controversia, senão o mayor hum dos mais estimados cortesãos de seu tempo, concorrendo cos milhores que este Reyno teve por ventura, e isto não só dos companheiros, mas del Rey e dos Principes, e o que he mais dos vallidos com quem ordinariamente nam adiantão os amigos de antes quebrar, que torcer (como elle diz) tomando em desprezo proprio a estimaçam alhea e sentindo como injurias particulares a detestaçam que os judiciosos e discursivos fazem dos vicios em geral. Com effeito, Sá de Miranda atou e sustentou relações de estreita amizade com alguns dos mais nobres fidalgos, como D. Luiz da Silveira, D. Manuel de Portugal, Pero Carvalho e outros.
Sá de Miranda não se limitou, porém, a propugnar pela
divulgarisação dos modelos classicos. Foi mais além e começou a atacar com energia os vicios do tempo, a corrupção que alastrava sem dique. A renovação de seu trato com a côrte permittiu-lhe estudar a fundo os novos costumes dos principes e dos aulicos e analysal-os com olhos de ver para melhor lhes applicar o ferro candente.
Em Coimbra, os cortezãos, e a cohorte de parasitas que os
seguira até ali, foram de uma insaciedade fora de commum. A nobreza da cidade exhauriu-se até de recursos para proporcionar uma vida regalada aos exigentes fidalgos, mas nada os contentou. Acostumados ás montarias aventurosas da graciosa Almeirim e á vida regalada da farta Santarem, não cessaram de clamar contra a existencia atribulada e parca que levavam na soturna cidade. Sentiram-se bem quando a deixaram, voltando para o sul do paiz.
Sá de Miranda, que fôra dos que promoveram a mór parte das
festas em honra dos famelicos cortezãos de seu amigo D. João III, conteve a custo a indignação. Mas, quando a côrte d'ali retirou, a sua ira rompeu caustica como um ferro em brasa. Dirigiu, então, a Pero Carvalho, guarda roupa do rei, essa famosa carta, coriscante diatribe que foi ferir certeiramente os alvejados.
N'essa carta, o poeta começa por exprobrar a maledicencia da
fidalguia e lançar-lhe em rosto a sua ingratidão para com uma cidade que toda se esmerara em bem recebel-os. Fal-o, não por um exclusivo sentimento de amor á terra natal, mas por um acto de justiça, homenagem á verdade.
Que tenção todos tomastes
Á terra que me criou
De que tanto praguejastes?
Por que? Que vos acoutou
Da peste com que i chegastes.
Fostes mal agasalhados?
Não, certo, que té as fazendas,
Vos davão parvos honrados.
Pois, por que? Porque os privados
Tinheis longe vossas rendas?
O que eu por parcialidade
Nem outros respeitos digo:
Da antiga e nobre cidade
Som natural, som amigo,
Som porém mais da verdade.
Após a retirada dos famelicos, a cidade sente-se aliviada de um
grande peso. O proprio poeta viu-se desafrontado.
Como vos partistes de i,
Logo abrigados achei
Em que me desencolhi.
Seguramente dormi,
Seguramente velei.
Para envergonhar os cortezãos ingratos que lhe preferiam a
insignificante Almeirim, põe em relevo a honra de Coimbra possuir o corpo de D. Affonso Henriques.
Cidade rica do santo
Corpo do seu rei primeiro
Que ainda vimos com espanto,
Ha tam pouco, todo inteiro
Dos anos que podem tanto.
E diz-lhe que aquella cidade é tradicionalmente a mais nobre e
leal.
Outro rei, tanto sem mal
Que lhe empeceu a bondade,
O quarto de Portugal,
Qual teve ele outra cidade
Tam constante e tam leal?
A nobreza ociosa e interesseira.
Homens que sempre aos proveitos
E a vosso interesse andais,
Vestidos de falsos peitos,
Quam pouco que nos lembrais
Dos sãos, dos comuns respeitos.
Pôr esta causa se ve
Diferença nos conselhos
E chega inda o mal até
Desacreditar nos velhos
A sã prudencia e a fe.
A côrte é magnificamente pintada.
Essa Circes feiticeira
Da corte tudo trasanda;
Um faz ũa onça ligeira,
Outro faz lobo que manda,
Outro cão que a caça cheira.
Cantão ó passar sereas
Que fazem adormecer.
Correndo todas as veas
De sono e tal sabor cheas,
Não se pode homem erguer.
A ociosidade nociva a que se entregava a fidalguia recebe uma
condemnação severa. Sá de Miranda, para revestir da maior auctoridade as suas palavras, poe-a em confronto com a sua vida toda de trabalho e de estudo.
O nome da ociosidade
Soa mal, mas se ela é sã,
Bem empregada em vontade,
Socrates da liberdade
Sempre lhe chamou irmã!
Dou vos Enio por autor:
Quem não sabe usar do ocio
Cansa e anda d'arredor,
Que vem a têr mais negocio
Que um grande negociador.
Que ó menos sabe apos que anda,
Estoutro a si não se entende,
Quanto anda, tanto desanda,
Não se obedece nem manda,
Ora se apaga, ora acende.
Ve-lo ir, ve-lo tornar,
Ve-lo cansar e gemer
E em busca de si andar,
Cobrar a cor e perder.
Que se não pode topar!
Mas eu, porque passa assi,
Que seja muito, direi:
Dias ha que me escondi,
Co que li, co que escrevi,
Inda me não enfadei.
Satyra directa e violenta, a carta a Pero Carvalho provocou uma
surda irritação de despeito, mal contida pelo temor do valimento do poeta junto do monarcha. Os fidalgos attingidos não poderam tirar immediatamente o desforço, tiveram que ouvir e calar, mas, d'ahi em diante, poude Sá de Miranda contar com alguns inimigos que deviam aguardar com anciedade o momento da vingança.
O unico passatempo da côrte era, então, as diversões scenicas,
os autos ou comedias representadas perante a nobreza. Gil Vicente, emquanto a côrte esteve em Coimbra, ia ahi propositadamente, de Santarem, onde habitualmente residia, segundo se infere de suas producções, divertil-a com suas farças. Com esse fim compoz a Comedia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, a Tragicomedia Pastoril da Serra da Estrella, a Farça dos Almocreves e o Dialogo sobre a Resurreição.
Talento dramatico genial mas inculto, viva encarnação do espirito
popular, satyrico e motejador, Gil Vicente arremettia audaciosamente com todos e com tudo, não respeitando sequer as coisas divinas. Seus autos e farças eram um tanto grotescas, por vezes excessivamente livres, algumas extraordinariamente louvaminheiras dos cortezãos. O dialogo não era dos mais apurados nem a acção muito cuidada.
Sá de Miranda, que assistira, em a scena italiana, a
representações de comedias classicas em prosa, originaes, com um fino dialogo, limadas de allusões facêtas, acção escolhida, não poupava censuras nem criticas aceradas ás producções de Gil Vicente. Sobretudo, condemnava asperamente a liberdade com que o creador do theatro nacional tirava das sagradas escripturas os elementos de todos os seus autos hieraticos. Catholico fervente, não lhe perdoava que tratasse coisas serias em estylo chocareiro, zombeteando escandalosamente de quanto lhe era respeitavel.
E, para mais pôr em evidencia a elevação da comedia classica
em prosa, para estabelecer o confronto de esta com o theatro nacional, compoz e apresentou Os Estrangeiros, em a opinião da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos a primeira comedia classica portugueza em prosa, sendo-lhe posterior a Eufrosina de Jorge Ferreira de Vasconcellos. Foi acolhida com interesse.
Houve quem applaudisse enthusiasticamente Os Estrangeiros por
seu estylo sentencioso, muy limado e novo, que a tudo excedia em brevidade, grandeza e decoro e que guardava as regras da arte com summa perfeição. Os partidarios do theatro nacional, envolvidos por Sá de Miranda nos gracejos do Prologo, sentiram-se attingidos e receberam a novidade com zombarias. A lucta contra a innovação, acirrada de certo pelos inimigos de um e outro poeta, parece ter se tornado porfiada, d'ahi em diante.
Das relações pessoaes entre Sá de Miranda e Gil Vicente, o mais
fiel representante da tradição nacional, não se pode, em verdade, mais fazer que conjecturas. É provavel que Sá de Miranda não tivesse Gil Vicente em grande consideração pela liberdade com que usava e abusava dos livros sagrados, facto que o magoava a elle que, embora não fosse fanatico nem exaltado, era, todavia, sincero e respeitador. Não se encontra, porém, em suas composições poeticas, uma unica allusão directa, incisiva, sobre o emerito auctor da Ignez Pereira.
Qual o proceder de Gil Vicente para com o acerrimo propugnador
dos modelos classicos? O sr. Theophilo Braga vê, no final da Comedia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, em o elogio dos Menezes, um acto de louvor a Sá de Miranda, descendente de aquella familia, por parte de seu antepassado João Rodrigues de Sá de Menezes. Por seu lado, o grande romancista Camillo Castello Branco viu em a farça Clerigo da Beira uma satyra a Sá de Miranda, pessoal de mais para se considerar mera casualidade.
Em a alludida farça, Gil Vicente refere-se a um filho de clerigo, de
nome Francisco, de más manhas e peor lingua, com costella de lavrador e pretensões de cortezão. O proprio pae, parece que com pleno conhecimento de causa, lhe diz:
Filho de clerigo és,
Nunca bom feito farás.
Frei Mendo não anda muito de accordo com o filho, é um continuo
conflicto entre os dois. O clerigo, menoscabando as qualidades d'elle, invectiva-o:
Medraria este rapaz
Na côrte mais que ninguem,
Porque lá não fazem bem
Senão a quem menos faz
Outras manchas tem assaz,
Cada uma muito bôa:
Nunca diz bem de pessoa,
Nem verdade nunca a traz.
Mexerica que por nada
Revolverá San Francisco
Que para a côrte é um visco,
Que caça toda a manada.
Realmente, esta allusão aos filhos de frei Mendo, sendo o pae de
Sá de Miranda o conego Gonçalo Mendes, parece tencional. A farça, porém, foi representada em 1520, em Almeirim, e não se sabe como conciliar essa data com a do regresso do poeta de sua viagem á Italia. Ou será necessario admittir-se que, em fins d'esse anno, elle estaria de volta a Portugal e já gosava o favor da côrte? Pode ser.
Em tal caso, comtudo, essa allusão viria mais da popularidade de
Sá de Miranda, de sua presumpção pelo muito que vira e ouvira no estrangeiro e não seria resultante de suas tentativas de innovador, embora logo após o seu regresso houvesse começado a atacar os defeitos que encontrava em as obras portuguezas. Seria mesmo uma satyra impessoal, caracteristica de uma entidade do tempo. Quantos conegos Mendes haveria então? como hoje Marias e Manueis.
Indubitavelmente, as innovações de Sá de Miranda deviam
encontrar opposição e as suas obras detractores. Sim, que o poeta era um severissimo censor, um caracter immaculado. Sá de Miranda não recuou e a breve trecho lançou um novo desafio á escola do theatro tradicional portuguez com a bella Fabula do Mondego, em forma de canção e que, ao que resulta de algumas de suas passagens, foi representada em a côrte na estação calmosa, em um certo e determinado dia festivo, talvez o anniversario de el-rei, 6 de junho. A seguir, appareceu a ecloga Aleixo e varios sonetos que mais vieram augmentar a reputação de Sá de Miranda e, tambem, os seus rivaes.
A ecloga Aleixo! Foi a melhor arma que Sá de Miranda poude
collocar em as mãos de seus inimigos.
De varias formas tem sido explicado o abandono definitivo da
côrte por Sá de Miranda, entre 1533 a 1534, para se retirar á Commenda das Duas Egrejas. As causas d'esse exilio voluntario, a par de forçado, foram, decerto, complexas e multiplas, ao que se pode ler em as entrelinhas de suas poesias e nas do seu anonymo biographo, muito prudente para com uma allusão directa fazer reviver rancores mal apagados.
A Vida dá como motivo immediato da saida de Sá de Miranda da
côrte o odio de hua pessoa muito poderosa d'aquella era em desprazer de quem se interpretava mal polla mesma enveja hum lugar de sua Egloga de Aleyxo. Temos por tão auctorisada a Vida, que não ousamos duvidar da veracidade de sua noticia, além de que a interpretação da ecloga Aleixo, como perfeitamente o provou a ex. ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, explica cabalmente o obscuro successo. Porém, nem todos os escriptores têm interpretado o caso como vem evidenciado em a Vida.
Indo de encontro á cathegorica affirmativa do desconhecido
biographo, o sr. Theophilo Braga quer que tenha sido a ecloga Andrés e não Aleyxo, a causadora immediata da intriga que provocou o exilio de Sá de Miranda. Ora, exactamente essa ecloga foi escripta quando já o poeta se encontrava em a Tapada, após o seu casamento e annos depois da morte de todos os que se podiam offender com as allusões n'ella contidas, allusões que Sá de Miranda dava, de resto, como uma simples recordação de annos passados. Não podem, pois, as referencias ao caso escandaloso do casamento do infante D. Fernando, que arrancára D. Guiomar Coutinho ao marquez de Torres, com quem secretamente se desposara, para casar com ella, ter concorrido em cousa alguma para que Sá de Miranda se visse compellido a abandonar a côrte.
Tão pouco satisfaz o espirito ou resolve o problema, a hypothese
avançada por Camillo Castello Branco. O facto de seus primos e amigos, a par de companheiros de infancia, Simão de Miranda Henriques e Gonçalo de Miranda da Silva, haverem sido iniquamente esbulhados dos seus haveres, devia, certamente, feril-o profundamente em seu coração, indispôr ainda mais seu animo contra a torpe fidalguia, azedar o seu caracter, mas não impôr a sua saida da côrte.
O erudito escriptor Manuel Pinheiro Chagas attribuiu
exclusivamente o rompimento definitivo de Sá de Miranda com a côrte ao seu amor ao retiro, inclinação propria do temperamento melancolico e um pouco misanthropo do poeta, aggravado pela morte de uma mulher que amara profundamente e que apenas seria conhecida pelo pseudonymo pastoril de Celia. Parece demasiado accesso de romanticismo quando este ainda não estava em voga.
Não foi nenhuma d'estas circumstancias isolada, mas sim todas
juntas a causa do exilio de Sá de Miranda. Os successivos escandalos da côrte, que se multiplicavam prodigiosamente, o constante accrescendo da attitude aggressiva de seus inimigos, cujos desvarios não poupava, o convencimento de que, por então, não podia levar por diante o seu ideal de reforma litteraria e de engrandecimento da poesia portugueza, haviam chocado muito o animo forte e persistente de Sá de Miranda. O espirito do poeta, de si propenso para a solidão, foi-se aggravando.
Haviam terminado os bons tempos. Emquanto os chronistas,
attentando unicamente em o brilho das exterioridades, continuavam a entoar hymnos ao engrandecimento do paiz, Sá de Miranda profundava em todo o seu horror a enorme decadencia moral, analysava a corrupção que tão intensamente lavrava e divisava em o sombrio horisonte os pavores de um futuro de aniquilamento. Ninguém quiz ouvil-o. Desilludiu-se e pouco a pouco foi radicando-se em sua mente a idêa de abandonar para sempre a vida turbulenta e miseravel da côrte, tanto que começou a solicitar de seu amigo D. João III a commenda das Duas Egrejas.
Deu-se, então, o successo da ecloga Aleixo. Veiu elle epilogar o
conflicto travado em a consciencia do poeta.
A antiga amizade de Sá de Miranda por Bernardim Ribeiro
mantivera-se, senão avigorara, atravez das vicissitudes de um e outro poeta. Em a ecloga Aleixo, ao que parece composta e representada por 1530, Sá de Miranda referiu-se ao desterro de seu amigo, defendendo-o com palavras dedicadas.
Juan
No sé como no llorava.
Sabes porque sospirava?
Porque aqui canto Ribero,
Aqui nuestro amo escuchava,
Rodeavan lo pastores,
Colgados de la su boca
Cantando el los sus amores.
Gente de firmeza poca
Que le dió tantos loores,
I aora ge los apoca!
Anton
Eso falta, Juan pastor!
Soncas, porque sospirar?
I a que se pueden alzar
Ia los ojos sin dolor?
Ni a que se pueden bajar
Donde los pornás enjutos?
Adelante, o cara atras?
Las tierras niegan sus frutos:
El sembrar es por demas,
Los aires andan corrutos,
Los hombres cada vez mas.
De aquel gran pino a la sombra...
Ia ves quanto que ensanchó!
Que el prado i zarzas cobrió
I los vezinos asombra.
A allusão, o gran pino, entendia-se com o valido de el-rei, o conde
de Castanheira D. Antonio de Athaide. Este, como todos os favoritos poderosos, orgulhoso e despotico, abusava com frequencia de seu prestigio e, no caso a que se referia a ecloga, elle não deixaria de concorrer grandemente para o desenlace que se deplorava.
Embora franca e rude, a allusão era, comtudo, digna e não
deprimente. Os inimigos de Sá de Miranda aproveitaram-a para tecer uma habilissimateia e afastarem para longe o atrevido poeta, implacavel para com os seus desmandos. Intrigando na sombra, torceram a interpretação da ecloga e deram ao trecho incriminado um sentido que, certamente, não tinha. Apresentaram-o como um ataque directo. O conde de Castanheira, cioso de seu valimento, comprehende-se bem, não poude levar á paciencia a intervenção do poeta e muito menos tolerar o que considerou atrevidos insultos.
Quaes as consequencias da torpissima intriga e do furor do
valido, eis o que não é precisamente conhecido. Dos versos de Sá de Miranda pode-se inferir que foi cruelmente perseguido, correndo talvez mesmo grave risco de, quem sabe, ser assassinado. Com effeito, mais tarde, quando já em seu retiro, escrevia a seu irmão:
Agora, por que vos conte
O que vi, tudo é mudado:
Quando me acolhi ó monte,
Por meus imigos de fronte
Vi lobos no povoado:
e tambem:
Polo qual a este abrigo,
Onde me acolhi cansado
E ja com assaz perigo,
A essas letras que sigo,
Devo que nunca me enfado,
Devo a minha muito amada
E prezada liberdade
Que tive aos dados jugada.
Aqui sômente é mandada
Da rezão boa e verdade.
A bella Canção a Nossa Senhora parece ter sido escripta quando
o poeta soffria duro captiveiro. Pelo menos, se se tomar á lettra estes versos:
ao meu destroço,
Assi tam perseguido como vedes,
D'antres tam altas, tam grossas paredes,
De ferro carregado,
Note-se que essa canção, como o proprio Sá de Miranda declara,
foi feita por aquela de Petrarcha: «Virgine bella». Longe de constituir uma vaga reminiscencia, é uma imitação positiva, embora livre, e que se pode acompanhar com o modelo. Se nãohouvesse a confissão do consciencioso poeta em seu ms., bastaria a simples confrontação para o provar. Dias Gomes, que a analysou com uma minucia de grammatico estrophe por estrophe, verificou que o poeta portuguez até lhe deu o mesmo numero de estancias e versos, a mesma disposição metrica e simulcadente, começando, como retrarcha, cada uma d'aquellas pela palavra Virgem.
Não ha duvida em que a factura da Canção seja posterior ao
regresso do poeta ao paiz. Mas seria composta por esta epoca? A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos julga que sim.
A illustrada senhora, reconhecendo que o assumpto foi tratado
magistralmente e que a Canção de Sá de Miranda excede em muito o seu modelo, quanto á profunda expressão e intensidade do sentimento, não concorda com Dias Gomes em que ella seja a producção mais sublime que se encontra nas composições do illustre poeta da Tapada. A nosso ver, a Canção, realmente admiravel pelo sentimento que a vivifica, tem o seu tanto ou quanto de artificiosa.
Se não, veja-se:
...............................
Virgem, seguro porto e emparo e abrigo
Ás môres tempestades; ah que tinha
Ós ventos esta vida encomendada
Sem olhar a que parte ia ou vinha,
Vãmente descuidado do perigo,
Surdo aos conselhos, tudo tendo em nada,
Não vos seja em despreço ũa coitada
Alma que ante vos vem,
Por rezõis que tem,
De imigos grandes mal ameaçada.
E que eu tam pecador e errado seja,
Vença vossa piedade
Minha maldade grande e assi sobeja.
Virgem, do mar estrela, neste lago
E nesta noite um faro que nos guia,
Pera o porto seguro um certo norte;
Quem sem vos atinar, quem poderia
Abrir sômente os olhos vendo o estrago
Que atras olhando deixa feito a morte?
Quem proa me daria com que corte
Por tam brava tormenta?
De toda a parte venta,
De toda espanta o tempo feo e forte.
Mas tudo que será? coa vossa ajudaNévoa que foge ao vento Que num momento s'alevanta e muda.
.....................................
Virgem, nossa esperança, um alto poço
De vivas aguas, donde a graça corre
Em que se matão pera sempre as sedes;
Não de Nembrot, mas de David a torre,
Donde socorro espero ao meu destroço,
Assi tam perseguido como vedes,
D'antre tam altas, tam grossas paredes,
De ferro carregado,
Um coração coitado
Chama por vos envolto em bastas redes.
Esse que eu som, sinais inda algums tenho
De ser do vosso bando,
Que a vos bradando por piedade venho.
Virgem do sol vestida, e dos seus raios
Toda cuberta e ainda coroada
De estrelas, e debaixo o sol, a lua,
São vindas minhas culpas d'assuada
Sobre mim tantas; valei-me ós meus desmaios!
De tantas que possa ir chorando algũa!
Não me deixárão desculpa nenhũa
Os meus erros sobejos;
Levarão me os desejos
O milhor das idades ũa e ũa.
Quem tromenta passou por toda a praia
Cos ventos contrastando,
Saia nadando, ja coa vida, e saia.
Virgem, horto cercado, alto e defeso,
Rico ramo do tronco de Jessé
Que milagrosamente enflorece,
Custodia preciosissima da fe
Que toda junta tivestes em peso
Quando um e o outro sol sua luz perdeu;
Rompão os meus sospiros o alto ceo,
E a vos cheguem, senhora,
Que assi voa de ora em ora
Envolto n'este cego e basto veo;
De dia em dia, vou me de ano em ano,
A minha fim chegando
Dessimulando a vergonha e o dano.
Não será exactamente a referencia á prisão artificio poetico? A
Vida assevera que Sá de Miranda viu com desgosto a errada e malevola interpretação do Aleyxo, mas que, nem querendo declarar-se milhor, nem esperar á vista os effeitos da ira declarada, tendo-lhe el Rey dado hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamão as duas Igrejas, preferiu retirar-se voluntariamente da côrte. Isto afasta, portanto, a idêa da perseguição.
Como se poderia explicar que o poeta soffresse duros tratos se
contava com a amizade provada do seu bom amigo D. João III e com a terna affeição do herdeiro da corôa que lhe mandava pedir suas poesias! É natural que se tenha manifestado acceso, a pretexto da Aleyxo, o odio dos inimigos de Sá de Miranda, mas não parece provavel que o soberano consentisse em o ver perseguido como um animal damninho a que fosse necessario encurralar. Vamos mesmo porque se metteu de permeio agraciando Sá de Miranda com a Commenda de Santa Maria das Duas Egrejas, conhecedor de sua grande vontade de se recolher á solidão.
O facto é que Sá de Miranda abandonou a côrte para nunca mais
voltar a ella. Deixou o mimo da Corte, a conversaçam dos amigos, a esperança de mayores merces assegurada no favor do Principe Dom João, que em muito tenra idade, começava a fazer lhe grande, e do Cardeal Dom Henrique, que com mostras de particular affeição assistia a suas cousas. Tudo pôz de parte preferindo-lhe o socego corporal e espiritual.
O Minho, com a sua verdura de esmeralda, o seu azul purissimo,
a fertilidade de seu solo, a simplicidade encantadora de primitiva de seus costumes, prendeu o philosophico poeta. A Commenda das Duas Egrejas, a que se retirara, ficava perto do Pico de Regalados, na margem esquerda do Rio Neiva, margens deliciosas como todas as do norte portuguez accidentado e exuberante de vegetação.
Por lá se deixou ficar Sá de Miranda, no encanto e socego da
paisagem, a descançar das agitações da côrte e a inspirar-se em o doce decorrer de uma tranquilla existencia. Ali, que até a natureza é tocante de candura, que tudo encanta a alma e enleva o espirito, se fortaleceu o seu animo abatido pelos desgostos experimentados na côrte e foram produzidas as suas melhores composições poeticas.
Proximo da Commenda das Duas Egrejas vivia, em propriedades
suas, Antonio Pereira Marramaque, senhor de Basto, homem tido por mui douto e versado em humanidades. Antonio Pereira entregava-se á vida placida dos campos, não sem que votasse os seus maiores ocios ao estudo, acompanhando com vivo interesse o movimento intellectual da Europa. Seguia os resultados do conflicto provocado pela Reforma e defendia-a com calor. Poetava tambem.
Entre Sá de Miranda e Antonio Pereira estabeleceram-se relações
que rapidamente se estreitaram e tornaram das mais intimas. Os dois poetas foram mesmo quasi inseparaveis durante cerca de dois annos, sendo Sá de Miranda hospede assiduo e considerado da casa de Basto, onde passava a maior parte do anno.
Das mãos de Antonio Pereira recebeu Sá de Miranda o primeiro
exemplar das obras de Garcilaso e isto antes de 1536. Foi talvez esse offerecimento o ponto de partida da amizade que os dois sustentaram. Esse exemplar era, sem duvida, manuscripto, pois que a primeira edição d'aquellas obras appareceu em 1543. É certo que para o primeiro anniversario da morte de Garcilaso, em 1536, compôz Sá de Miranda a sua ecloga Nemoroso em que evidencia o mais intimo conhecimento não só das poesias do grande lyrico hespanhol como de sua propria vida.
Apraziveis dias passaram os dois poetas. Gozaram a pulmões
cheios o encanto dos prazeres campezinos. Sá de Miranda, era inclinado á caça dos Lobos. Não faltaram egualmente festas caseiras nem representações de comedias improvisadas a que vinham assistir os mais nobres dos arredores. Ás vezes, como era amigo de musica, Sá de Miranda tangia viola de arco.
Assim foram os primeiros annos que Sá de Miranda passou em o
campo. Tudo tem fim n'este mundo e essa magnifica existencia da casa de Basto terminou por haver Antonio Pereira partido para a côrte com a sua casa toda, como o poeta diz em a carta que lhe dedicou.
Não é precisamente conhecida a causa nem a data da partida de
Antonio Pereira para Lisboa. Ha escriptores que affirmam ter-se ella realisado depois de 1540, isto é, em epoca em que o senhor de Basto começava a preoccupar-se com o futuro de seus filhos, nascidos por 1530, e entendia dever apresental-os na côrte. Parece a outros que Pereira pensava em os levar a frequentar a Universidade, o que não é possivel admittir-se pois que aquella, reformada por iniciativa de D. João III, voltou para Coimbra em 1537.
Seja qual fôr a causa que a determinou, a ida de Antonio Pereira
para Lisboa deve ter-se effectuado antes de 1536. Accusam-o diversos indicios, entre outros os versos da carta que lhe dirigiu Sá de Miranda e pelos quaes se conclue que, ao tempo em que era escripta, viviam ainda Garcilaso e Gil Vicente. De resto, não se encontra n'ella a minima allusão a seu casamento, o que era natural dar-se sendo, como eram, os dois tão intimos amigos e constituindo aquella por assim dizer, um precioso inventario da feliz temporada que elles haviam levado em sua convivencia.
Sá de Miranda assistiu com immenso desgosto á partida de
Antonio Pereira. A proposito, escreveu a esplendida carta em que lhe faz amarissimas reflexões e reprova as enormes despezas que a mudança exigia. Depois, o perigo de seu bom amigo se perverter ao contacto com essa côrte de que elle fugira!
Como eu vi correr pardaos
Por Cabeceiras de Basto,
Crecer em cercas e em gasto,
Vi por caminhos tam maos
Tal trilha, tamanho rasto,
Nesta ora os olhos ergui
Á casa antiga e á torre
Dizendo comigo assi:
Se nos deus não val aqui.
Perigoso imigo corre!
Sá de Miranda recorda saudosamente, em sua carta, o bello
periodo de convivio doce e sereno que tivera com Antonio Pereira, convivio simples e puro em que a conversa attrahente e erudita do respeitavel poeta que viajara por Italia era apreciada como o merecia. Confronta bellamente esse viver de provincia, á antiga, com o dos cortezãos sempre famelicos.
Os bons convites antigos,
Antes de se tudo alçar,
Erão pera conversar
Os parentes e os amigos,
Que não pera arrebentar.
Os mezes mais calmosos do anno, julho e agosto, passavam-o os
dois em a fonte da Barroca. A meza era frugal, a remir dias, placidamente, em suave conversação.
Á vossa fonte tam fria
Da Barroca em julho e agosto
(Inda me é presente o gosto)
Quam bem que nos i sabia
Quanto na mesa era posto!
Ali não mordia a graça,
Erão iguais os juizes,
Não vinha nada da praça,
Ali da vossa cachaça,
Ali das vossas perdizes!
Ali das fruitas da terra,
(Que dá cada tempo a sua)
Colhida á mão cada ũa!
Nunca o sabor a vista erra,
Cheirosa, formosa, e nua.
Oh ceas do paraiso
Que nunca o tempo vos vença,
Sem fala da nossa ou riso,
Nem carregadas do siso,
Nem danadas da licença!
Os dois poetas liam, saboreavam e discutiam as melhores
producções dos poetas antigos e contemporaneos d'elles. Falavam de Ariosto, de Bembo, de Sanazarro, de Laso e de Boscan, e Sá de Miranda apontava as bellezas dos modelos que procurava introduzir, advogava colorosamente suas innovações.
Des i, o gosto chamando
A outros môres sabores,
Liamos pelos amores
Do bravo e furioso Orlando,
E da Arcadia os bons pastores.
Se eu isto estimado agora
Vira como d'antes era,
Por meu conto avante fora,
Mas não diz ora com ora:
Vão se como ó fogo a cera!
Ou como se lê em uma outra variante de sua carta;
Liamos os Assolanos
De Bembo, engenho tam raro
Nestes derradeiros anos,
Os pastores italianos
Do bom velho Sanazaro.
Liamos ao brando Lasso
Com seu amigo Boscão
Que honrárão a sua nação
Ia me meu passo a passo
Aos nossos que aqui não vão,
Desejando pôr Antonio Pereira a coberto das tentações da côrte,
Sá de Miranda descreve-lhe o máo estar do paiz, aponta-lhe os perigos que corre e condemna energicamente os desvarios de uma perdida nobreza. O seu amigo, assim prevenido, decerto se acautelaria e prudentemente havia de resistir ao refluxo da absorvente maré.
É entrada polos portos
No reino crara peçonha
Sem que remedio se ponha.
Ums doentes, outros mortos,
Outro polas ruas sonha.
Fez nos a ousada avareza
Vencer o vento e o mar,
Vencer caje a natureza.
Medo hei de novo a riqueza
Que nos torne a cativar.
Em torno de Sá de Miranda como que se fez um vacuo enorme
após a partida de seu inseparavel companheiro de estudos litterarios. Para bem avaliar a grandeza daquella amizade bastará apontar o logar que o nome de Antonio Pereira occupa em as poesias do cantor do Neiva. A elle communicou as impressões de suas viagens em cartas infelizmente perdidas e a elle dedicou as eclogas Nemoroso e Aleixo. Ao irmão Nunalvarez offereceu a sua esplendida Basto.
Então, tambem por 1536, parece ter Sá de Miranda passado a
habitar a Tapada, vasta e magnifica vivenda com quinta e bosque que demandava a pequena distancia da Commenda. Esta transferencia de habitação tem sido mal comprehendida por alguns escriptores, inclusivé pela ex. ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos que acha de todos os casos muito menos provavel que Sá de Miranda possuisse a Quinta da Tapada antes de obter a mercê da Commenda e que D. João III escolhesse Duas Egrejas exactamente como a mais proxima do retiro que o poeta havia preferido.
O anonymo biographo da Vida affirma expressamente que Sá de
Miranda, tendo-lhe el-Rey dado hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamão as duas Igrejas... recolheu-se a hua quinta que tambem tinha ahi perto chamada a Tapada. Indiscutivel, pois, que a quinta não fazia parte da Commenda e ainda mais indiscutivel que o poeta a possuia antes e independentemente de receber Duas Egrejas. Lá está o desconhecido contemporaneo a attestal-o por uma forma cathegorica.
É, por isso, racional admittir-se que a quinta fosse propriedade do
poeta, talvez de familia, e tanto assim que continuou na posse dos seus descendentes, ao passo que a Commenda já por 1607 havia passado a outras mãos. Admissivel, tambem, que Sá de Miranda solicitasse a Commenda por se encontrar situada proximo da Tapada que já possuia. Provavel, finalmente, que a moradia em a Commenda tivesse em vista, apenas, dar tempo a realisarem-se na casa da Tapada as adaptações necessarias para receber o poeta. É de tudo o mais logico.
Sá de Miranda nem um unico momento afrouxou em sua
actividade desde que se retirou ao Minho. A ociosidade foi para elle sempre uma palavra vã.
O nome da ociosidade
Soa mal, mas se ela é sã,
Bem empregada em vontade,
Socrates da liberdade
Sempre lhe chamou irmã!
As obras dos poetas contemporaneos andavam em constante
leitura. Ellas o estimulavam a proseguir.
Co que li, co que escrevi,
Inda me não enfadei.
Depois, com a auctoridade de seu nome e de seu caracter,
principiava a ganhar adeptos sinceros. A sua musa é, então, vigorosa como nunca. A acuidade do poeta desenvolve-se extraordinariamente.
Sá de Miranda acompanhava do Minho, com o mais vivo
interesse, os menores acontecimentos politicos. Preoccupava-o o destino do paiz e não lhe era indifferente nem as prosperidades nem as desgraças que gosava ou soffria a existencia dos homens que dirigiam os destinos da patria. Esta parecia agora renascer brilhante como em os tempos aureos do venturoso D. Manuel. O movimento litterario renovava-se fazendo esperar novos dias de radiosa gloria. Na côrte, as boas lettras, a poesia, os estudos classicos, patrocinados pela familia reinante, prosperavam. A Universidade, reformada em 1537, passava a Coimbra, para que o bulicio da capital não fosse estorvo ao estudo, e para a dirigir vinham do estrangeiro professores dos mais illustres.
Sempre coherente de pensamento com as acções, esperançado
em melhores epocas, Sá de Miranda escreve as suas Cartas a el-rei D. João III e ao seu velho amigo e parente João Rodrigues de Sá e Menezes. O patriota emerito mostra n'ellas o mais profundo conhecimento do que se passava na côrte e ataca com o seu costumado vigor as ambições dos aulicos. Em seu dizer sentencioso, severo mas commedido, tenta accordar as consciencias, arrancar a nobreza aos deleites de uma vida capuana e trazel-a ao estricto cumprimento do dever.
Infelizmente, os appellos do poeta foram completamente perdidos
e o cataclysmo, que havia de afogar as consciencias em ondas de sangue, vinha annunciado já pelas nuvens negras que appareciam da banda de Italia. A 20 de setembro de 1539 realisava-se o primeiro auto da fé. As chammas das sinistras fogueiras, elevando-se para o ceo com esgares satanicos, eram como maldições que arrastavam Portugal até ao anniquilamento de 1580.
A ecloga Basto e as Cartas a El-rei, a João Rodrigues de Sá e
Menezes e a Antonio Pereira, este esplendido grupo de poesias pertence, em o parecer da ex. ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, parecer com que nos conformamos, ao curto espaço de tempo que mediou entre a retirada da côrte e o casamento do poeta com D. Briolanja, em 1536.
Scintilla n'essas composições a quintilha, admiravel de
vivacidade, sublime de causticidade sentenciosa. Como muito bem considera a illustrada escriptora, sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, a ecloga Basto e as Cartas representam o que ha de mais original e de mais valioso entre todas as composições poeticas de Sá de Miranda. São essas as que ainda hoje mais captivam as attenções. Lêm-se com agrado, prendem o espirito pela sua graça e dominam pela forte convicção que respiram.
O sr. Theophilo Braga estima, egualmente, as Cartas de Sá de
Miranda como o que ha de melhor na poesia dos quinhentistas. E diz com razão que a quintilha, em o verso de sete syllabas, popular, torna-se facil e tão engenhosa que se presta a todas as descripções, a todos os dizeres e locuções particulares da lingua, aos apophtegmas já metrificados pela tradição. Como satyras, as Cartas em nada desmerecem ás de Horacio ou de Tolentino. De resto, Sá de Miranda era, sobretudo, um moralista e a poesia prestava-se, principalmente na redondilha, para os dizeres conceituosos.
Das Cartas destaca-se, pela energia, pela hombridade e rectidão
de caracter com que se affirma o poeta, a dirigida a el-rei. Como bellamente assignala a ex. ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, não se sabe que admirar mais n'ella, se a nobreza da linguagem, se a alma do patriota, se o grande caracter do fidalgo, se a ironia aguda do moralista. Antes deve admirar-se, essa carta, por todo esse conjuncto de predicados raramente reunidos.
A Carta a El-rei foi, por assim dizer, a despedida do poeta a D.
João III, o seu adeus á côrte. Sá de Miranda dirige-se ao monarcha como vassallo leal, cuja confiança lhe permitte fallar com desassombro, não como cortezão lisongeiro. Tem em vista expor a verdade, não a intriga. E fal-o empregando uma fórma aphoristica e sentenciosa que mais impõe a severidade de seu caracter.
Sá de Miranda relata ao rei o estado de degradação a que o paiz
chegara, aponta-lhe o servilismo enganador dos fidalgos que o rodeiam, indica-lhe os perigos de que precisa defender-se e incita-o a uma acção energica para limpar e purificar a corrupta sociedade que o cerca. A consciencia do poeta, a sua grande amizade ao monarcha, o convencimento que lhe dá o conhecer intimamente os males de que enferma a côrte, a auctoridade do seu caracter, emfim, o sentimento do dever e um sentimento rigoroso e inabalavel que, de resto, se nota em todas as suas poesias, leva-o a nada encobrir ao rei. A carta a D. João III é filha de uma convicção profunda, clara e persuasiva.
Não ha duvida que a humanidade de si esconde vicios. Mas a
falsidade é o peior mal e que mais irreparaveis damnos póde causar.
Onde ha homens, ha cobiça,
Ca e la tudo ela empeça,
Se a santa igual justiça
Não corta ou não desempeça
Quanto a malicia enliça.
Sá de Miranda experimentara os maiores desenganos n'essa
côrte corrupta e enganadora que repugnava ao seu caracter franco e leal e que o levara a retirar-se para o Minho. Dando satisfação d'esse passo ou antecipando-se a solicitações a que não desejava acceder, justifica-se cabalmente de seu procedimento.
Quem graça ante o rei alcança
E i fala o que não deve,
(Mal grande da mâ privança!)
Peçonha na fonte lança
De que toda a terra bebe!
Quem joga onde engano vai,
Em vão corre e torna atras,
Em vão sobre a face cai.
Mal hajão as manhas màs
De que tanto dano sai!
Homem d'um sô parecer,
Dum sô rosto e d'ũa fe,
D'antes quebrar que volver,
Outra cousa pode ser,
Mas de corte homem não é.
Gracejar ouço de ca
Dos que inteiros vêm e vão
Nem se contrafazem la:
Como este vem aldeão!
Que cortesão tornará.
A famelica côrte, astuciosa e matreira, ria-se da rudeza do aldeão.
Demais o sabia Sá de Miranda. Elle, porém, não se ri, mas com a sua penna acerada fal-os sangrar e enraivecer. Anima-o a ser franco a bondade com que, espera-o, el-rei se dignara acolhel-o.
Senhor, hei vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Craro o que posso alcançar:
El-rei estava rodeado de uma camarilha infame, mansos cordeiros
apparentemente, mas por dentro lobos robazes. Espinha de vime e falas de assucar, lisongeiros emeritos, os cortezãos não curam de mais que dos interesses proprios e, explorando torpemente a bondade do rei, pensam unicamente em servir o seu vil egoismo.
Andão pera vos tomar
Por manhas, que não por força.
Por minas trazem suas hazes,
Os rostos de tintoreiros.
Falsas guerras! falsas pazes!
De fora mansos cordeiros,
De dentro lobos robazes!
Tudo seu remedio tem;
Que é assi, bem o sabeis,
E o remedio tambem.
Querei-los conhecer bem:
No fruito os conhecereis.
Obras que palavras não!
Porem, senhor, somos muitos,
E entre tanta obrigação
Trasmalhamos nossos fruitos
Que não saibais cujos são.
Um que por outro se vende,
Lança a pedra, a mão esconde,
O dano longe, se estende.
Aquele a quem doi, se entende,
Com sôs sospiros responde.
A vida desaparece;
Entretanto geme e jaz
O que caiu! e acontece
Que d'um mal que se lhe faz,
Môr despois se lhe recrece.
Pena e galardão igual
O mundo em peso sostem.
É ũa regra geral
Que a pena se deve ao mal,
O galardão ao bem.
Se algũa ora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que d'esta lei se torceu,
Faz se engano ás leis da terra,
Nunca se faz ás do ceo.
São saccos sem fundo os miseraveis, exploradores ignaros dos
fracos. Nomes e rostos honrados encobrem bandidos consummados. Desgraçados dos pequenos que nem sequer podem fazer chegar seus clamores até ao rei. Esteja o monarcha vigilante e atalhe com firmeza o mal.