Saúde do homem: em debate

Romeu Gomes · Capítulo 10 de 11

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Saúde do homem: em debate

8 Representações da violência de gênero para homens e perspectivas para a prevenção e promoção da saúde

8

 

Representações da violência de

gênero para homens e perspectivas

para a prevenção e promoção da

saúde

 

Márcia Thereza Couto; Lilia Blima Schraiber

A violência de gênero no contexto das relações afetivo-conjugais é uma problemática geral, assumindo para alguns o caráter de ‘universal’, e que mobiliza pesquisadores no campo dos estudos de gênero e, mais recentemente, das masculinidades. Dialogando com essa produção, buscou-se evidenciar e discutir o possível essencialismo que muitos atribuem ao caráter universal da problemática, a diversidade cultural brasileira e as conexões entre alguns de seus aspectos, a saber, as diferenças entre rural/ urbano e diferenças regionais do tipo Sudeste/Nordeste dessa violência de gênero.

Situações de agressão experimentadas por mulheres e homens são denominadas violência de gênero, pois se entende que essas situações se fundam na base socialmente construída das relações entre homens e mulheres a partir das diferenciações de poder que tais sujeitos detêm e exercem nas relações que estabelecem.

A discussão é pertinente ao campo das políticas de saúde voltadas à prevenção e à promoção, pela potencialidade de agregar elementos da diversidade de nomeações e sentidos regional e rural-urbana. Com isto, propostas e ações no campo dos estudos e políticas de combate à violência podem ganhar em efetividade quando culturalmente apropriadas às diferentes realidades sociais.

Desde a década de 1970, diferentes pesquisadores, vinculados ao movimento de mulheres e/ou à academia, lançam-se na busca de entender os riscos diferenciados para homens e mulheres de agredirem e serem agredidos, assim como as possibilidades de acessar recursos, igualmente diferenciados, para enfrentar estes riscos (Heise, Ellsberg & Gottemoeller, 1999). A temática da violência contra a mulher foi trazida à cena política e ao debate acadêmico brasileiro na segunda metade dos anos 70, inscrevendo-se no campo da saúde mais expressivamente a partir dos anos 90. Estabelece-se como forma de denúncia da magnitude e invisibilidade social de atos violentos que têm, como espaço preferencial, o privado e, como protagonistas, homens-agressores e mulheres-agredidas em relações de intimidade/conjugalidade (Schraiber, Gomes & Couto, 2005; Saffioti & Almeida, 1995).

De modo articulado ao incremento dos estudos empíricos, observam-se mudanças e ampliação nas abordagens e referenciais de análise da temática. Assim, se, na década de 1980, a violência contra a mulher era analisada como fenômeno resultante do ‘phalluscentrismo’ ou do patriarcalismo; na década seguinte a crítica a este tipo de análise volta-se ao debate acerca da essencialização da discussão sobre violência em uma dualidade entre vítima e algoz (Gregori, 2003). Com a crescente incorporação da perspectiva relacional de gênero, os estudos se voltam, a partir dos anos 2000, para os diferenciais entre os gêneros que respondem, fundamentalmente, aos posicionamentos dos sujeitos na sociedade, segundo classe, raça, etnia, geração, entre outros, e ao modo como os sujeitos vivenciam as relações sociais com o mesmo sexo e com o sexo oposto nos domínios público e privado (Couto & Schraiber, 2005).

Embora a produção acadêmica brasileira acerca da temática violência contra a mulher se mostre crescente, na saúde, desde os anos 90 (Schraiber, d’Oliveira & Couto, 2006), é apenas na segunda metade da década de 2000 que os homens, como sujeitos implicados nas relações violentas, passam a merecer considerações não apenas como agressores mas também como sujeitos das pesquisas. Seguindo a tendência de investigações internacionais, a face masculina começa a ganhar destaque quando as experiências de ações políticas interventivas no campo jurídico e da saúde apontam que o trabalho com as mulheres necessitam da inclusão dos homens para barrar o ciclo de violência entre os gêneros (Greig, 2001).

O deslocamento quanto ao foco até então preferencial das análises (as mulheres) deve ser creditado, também, à consolidação da abordagem de gênero e ao incremento dos estudos sobre masculinidades. Pesquisas recentes sobre a violência conjugal e a violência de gênero a partir das representações e discursos masculinos apontam que, para os homens, embora a violência seja em princípio sempre condenável, é justificada a partir de um processo de naturalização da identidade social masculina. Neste processo de naturalização do social, categorias como ‘instinto’, ‘impulsividade’, ‘fatalidade’ e ‘destino’ são adotadas para dar sentido às agressões perpetradas contra as esposas-companheiras (Couto et al., 2007), o que, consequentemente, ajuda a encobrir a identificação dessas ações como violência (Rosa et al., 2008).

As análises também creditam as irrupções de situações de violência às recentes mudanças socioculturais e seus efeitos perversos nos valores morais dos homens assentados em uma rígida divisão e hierarquização de papéis para homens e mulheres na sociedade (Alves & Diniz, 2005; Gomes & Freire, 2005). A quebra nas relações de reciprocidade entre os gêneros, nas quais caberia ao homem prover material e moralmente a família, ao passo que às mulheres responder às necessidades de cuidado da casa e dos filhos, bem como subordinar sua sexualidade ao controle masculino, estaria colocando em xeque a autoridade masculina. Como decorrência deste processo, o exercício da violência seria a busca de (re)colocar no lugar da ordem o que os homens consideram como desordem em seus relacionamentos e em suas famílias. Toma-se esta explicação como uma das que se adota relativamente à violência de gênero, sem, contudo, anular a que remete à atribuição de ‘educador’ assumida pelo homem, mediante a qual este se vale da violência para ensinar à mulher seu lugar social, mesmo sem ter havido ruptura da ordem hierárquica prevista (Schraiber, d’ Oliveira & Couto, 2009).

A partir deste quadro, focaliza-se o fenômeno da violência de homens contra mulheres em uma perspectiva relacional-estrutural de gênero (Dantas-Berger & Giffin, 2005), o que implica contemplar análises sobre os processos de socialização masculina e os significados de ser homem na sociedade, articulando-os ao concreto-vivido das condições de existência que forma a base para a experiência das relações afetivo-conjugais.

Com isto, lança-se mão dos aspectos simbólicos que conformam a socialização masculina assentada em uma busca constante de coibir emoções e negar sentimentos (Da Matta, 1997), creditar à sexualidade uma ordem instintiva que impele à conquista sexual e banaliza a infidelidade (Gomes, 2008) e justifica o uso da violência e a agressividade em situações de teste da masculinidade (Nolasco, 2001). É, a partir de tal estruturação simbólica, que se analisam os contextos sociais de transformação, especialmente no campo da família e do trabalho, que reposicionaram homens e mulheres nas esferas pública e privada.

A perspectiva de análise adotada também se mostra adequada relativamente à possibilidade de se considerar de que modo padrões culturais (urbano-rural) e regionais (Sudeste-Nordeste) influenciam as representações de família, homem-mulher e conjugalidade e como estas contribuem para a conformação do simbolismo da violência nas relações afetivo-conjugais. Em suma, proporciona uma inteligibilidade maior às situações de violência vividas em contextos sociais e culturais diversos. Trata-se, portanto, de um recorte dirigido às diferenças. Isto não significa, entretanto, que se deixa de conceber a permanência do fenômeno violência contra as mulheres como norma aceita socialmente de modo mais geral, dada a adoção do referencial de gênero assentado nas premissas do poder e da desigualdade geral entre homens e mulheres. Entende-se que a violência de gênero é (re)produzida sob o pano de fundo de padrões culturais que surgem de processos convergentes de crescimento, mudança ou desenvolvimento. Tomando a prerrogativa dos estudos culturais, compreende-se que “assim, como a mudança só pode ser vista em contraste com a estabilidade ou manutenção cultural, a estabilidade só pode ser compreendida em contraste com a mudança” (Kaplan & Manners, 1981: 19).

 

Aspectos metodológicos

O presente trabalho se inspira e utiliza dados de uma pesquisa mais ampla. Trata-se de estudo multicêntrico internacional – “WHO multicountry study on women’s health and domestic violence against women” (Schraiber et al., 2002) – que conjugou coleta de dados qualitativos (entrevistas tipo história de vida com mulheres que sofreram violência, grupos focais com homens e mulheres, entrevistas semiestruturadas com informantes-chave/serviços de apoio e assistência a mulheres em situação de violência) e quantitativos (questionários domiciliares aplicados à amostra representativa de mulheres do município de São Paulo e de outros 13 municípios da Zona da Mata de Pernambuco).

Em particular, utilizamos aqui os dois grupos focais com homens de baixa escolaridade e rendimento realizados em São Paulo e os dois

grupos focais com homens rurais (um do município de Tamandaré 1

e um do município de Carpina 2) de Pernambuco. Tal recorte deveu-se à opção de trabalhar a diferença regional (Sudeste/Nordeste) e cultural-geográfica (urbano/rural), na busca de analisar a existência de padrões diferenciados de masculinidade que dão suporte aos valores e atitudes na vida cotidiana dos homens, e como tais padrões fundamentam suas representações acerca das relações afetivo-conjugais, especialmente quanto aos conflitos e violência.

Em São Paulo, a pesquisa recorreu à terceirização da etapa de recrutamento dos participantes dos grupos focais com a contratação de uma agência especializada em pesquisa de mercado. A partir da definição dos critérios de seleção (sexo, idade e escolaridade), a empresa fez a seleção dos participantes. A realização dos grupos aconteceu nas dependências do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Os grupos focais com homens de baixa escolaridade, aqui analisados, foram moderados e observados por pesquisadores do sexo masculino que faziam parte da equipe paulista do projeto.

Em Pernambuco, por se tratarem de grupos focais com homens de áreas rurais, a logística foi mais complexa. A organização não governamental (ONG) parceira da pesquisa, SOS Corpo: gênero e cidadania, realizou contatos com os municípios. Em Carpina, recorreu à Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape), cuja assessora indicou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. No contato com o presidente

do sindicato, foi selecionada a comunidade de Carnaúba-Torta, 3 distante 45 minutos de carro da sede do município, para a realização do grupo. O recrutamento de sujeitos foi feito nas ruas. O grupo foi realizado em escola municipal da comunidade.

No outro município, Tamandaré, o contato também foi feito com o secretário do sindicato. Selecionado o engenho Brejo, realizou-se o convite à participação. O grupo focal foi realizado na escola do engenho. Em ambos os locais, os grupos foram moderados e observados por pesquisadores do sexo masculino, membros do grupo de pesquisa de Pernambuco.

Utilizou-se o mesmo roteiro para ambos os estados, visando à análise comparativa posterior. Seu foco consistia na abordagem do problema violência nas relações afetivo-conjugais. Foi estruturado em cinco blocos em que se enfatizaram os seguintes aspectos: 1) a construção das imagens ideais de mulheres e homens; 2) as relações afetivo-familiares entre homens e mulheres; 3) a ocorrência, aceitabilidade, visibilidade da violência; 4) a discussão sobre os valores do senso comum sobre a violência por meio dos significados dados a ditos populares e, por fim, 5) as perspectivas de mudança e resistência em torno da questão da violência, explorada na forma de conselhos para filhos.

Para a análise do material visando a este trabalho, realizou-se um recorte segundo os temas abordados nos grupos focais a partir dos seguintes tópicos: o homem e a mulher ideais, as relações entre homens e mulheres; e os significados associados a ditos populares sobre relações afetivo-conjugais e a violência contra a mulher.

Os dados provenientes das seções dos grupos focais foram analisados, considerando os seguintes procedimentos: 1) leitura exaustiva da transcrição de cada grupo focal e dos relatórios produzidos pelos observadores dos grupos; 2) estabelecimento de categorias temáticas; 3) organização e análise do material segundo as categorias temáticas por estado e, na sequência, de forma comparativa entre estes; 4) cotejamento dos conteúdos das categorias com a literatura sobre a temática geral e com as referências teóricas que norteiam a pesquisa.

 

Caracterização geral dos sujeitos

Os grupos focais de São Paulo contaram, ao todo, com a participação de 17 homens de classes populares com idade média em torno de 31 anos. A maioria era composta de trabalhadores em

ocupações de baixa remuneração, 4 com média de rendimento

familiar de R$ 546,00. 5 Em relação à escolaridade, a maior parte dos homens tinha ensino fundamental incompleto (média de 7 anos de estudo). No que diz respeito à situação familiar e conjugal dos participantes, cabe ressaltar que, em São Paulo, a maioria era casada ou coabitava com a companheira, com média de 1,2 filhos.

Analisando os mesmos dados sociodemográficos dos 26 participantes dos grupos focais rurais em Pernambuco (10 em Carpina e 16 em Tamandaré), tem-se que a idade média também foi de 31 anos. Todos os homens trabalhavam com agricultura, a maioria como empregados de engenhos de cana-de-açúcar, sendo que alguns também plantavam culturas de subsistência em terras cedidas. A renda média era de R$ 390,00. A média de anos de escolaridade encontrada neste grupo foi de quatro anos. Já em termos de constituição familiar, a maioria era casada com média de dois filhos.

Vê-se, portanto, que, na caracterização sociofamiliar, diferenças culturais, especialmente ligadas à escolaridade, ocupação e rendimentos já se fazem presentes.

A partir dos temas que serão abordados, tratar-se-á de discutir como se processa a estruturação de aspectos recorrentes nos padrões de masculinidade (e não de uma masculinidade hegemônica) e como se configuram as tensões no processo de atualização destes padrões pelos homens rurais e urbanos, em Pernambuco e em São Paulo.

 

Construindo a mulher e o homem ideais

Recorremos aos discursos produzidos pelos homens de São Paulo e da Zona da Mata de Pernambuco acerca da mulher ideal e do

homem ideal, 6 o que nos permitiu vislumbrar características que informam os referenciais de masculinidades segundo a diversidade regional – Sudeste/ Nordeste – e urbano/rural.

Começando pelos grupos focais de São Paulo, os homens utilizaram como parâmetros a referência dos próprios relacionamentos (atuais ou anteriores) e imagens femininas que circulam na mídia e que, segundo eles, representam o padrão de beleza nacional. Em relação às suas mulheres, a inteligência, a maturidade, a responsabilidade foram as características mais valorizadas e ressaltadas como ideais. Já quanto às outras, os critérios de beleza física e sensualidade que se reúnem em personagens inacessíveis (atrizes, dançarinas e modelos em destaque na mídia) foram as referências. Um deles construiu, segundo tais referências, a mulher ideal: “1,60 m, 59 quilos, bunda bem feitinha... Mulher sem bunda para mim não tem graça”.

Entre os homens da Zona da Mata de Pernambuco, as referências morais sobressaíram em relação às características físicas. Ressalta-se que nenhuma figura feminina de exposição na mídia foi citada. Quando destacavam atributos físicos, os principais eram: bonita, gostosa, seios pequenos, pernas grossas, tornozelos cheios. Também mereceram destaque, na fala de alguns homens de Tamandaré, atributos de sensualidade e energia sexual. Um deles pontuou: “Eu gosto de mulher acesa, fogosa; tem que ter aquelas coxonas, mulher que você pode passar o inverno só com a carne”.

Mas, sem dúvida, as duas principais características da mulher ideal para os homens pernambucanos foram: respeito e valor. Um deles destacou: “A mulher ideal é aquela que sabe se dá valor. Eu num quero é procurar uma pessoa que eu sei que tem bastante relação com todas as pessoas para ser minha esposa, porque ela transou com um, transou com outro”.

Neste relato, sobressai a valorização da virgindade como marca da mulher ideal, aspecto esse que não apareceu nas falas dos homens paulistas. Entretanto, o tema virgindade não foi unânime entre os homens dos grupos focais em Pernambuco, especialmente em Carpina. Um participante relativizou a virgindade como critério marcador de mulher ideal: “Acho que esse negócio de virgem não tá tendo tanta importância... Pra mim depende se eu gostar. Se eu gostar de uma pessoa e ela for virgem muito bem, se não for.... aí vai depender do comportamento dela”.

Note-se, contudo, que, se a virgindade é relativizada, o padrão de comportamento sexual associado à moral exigida pela sociedade ainda se constitui como eixo de referência de mulher ideal, dado também encontrado na pesquisa de Portella e colaboradores (2004).

Ainda quanto ao mesmo tema, os homens de São Paulo destacaram um ideal que tem, na emancipação feminina, um traço importante; o que não se verificou entre os pernambucanos dos dois municípios da Zona da Mata. Para muitos de São Paulo, mulher ideal deve ser “inteligente, dinâmica, arrojada”, sendo desprezada aquela que não trabalha e, portanto, depende do homem.

Portella e colaboradores (2004) apontam que, especialmente entre os homens participantes da pesquisa em São Paulo, a referência à ‘ajuda’ feminina no tocante às despesas da casa passa a se configurar como um arranjo conjugal desejável e justo.

No entanto, percebeu-se contradição na exposição dessas ideias: ao mesmo tempo que se ressalta a necessidade do respeito, da amizade e do diálogo, abre-se um debate no qual o argumento central é a importância da mulher como objeto sexual e em que excesso de inteligência e/ou beleza feminina pode se transformar em problema.

Acho que uma mulher muito inteligente dá muito problema,

porque ela não aceita as coisas.

Se puder juntar beleza e inteligência, aí sim; é a mulher ideal.

O assunto ‘sexo’ emerge no debate, evidenciando o conflito entre a priorização da emancipação feminina e a passividade sexual e os atributos físicos, características da mulher ideal. Quando o tema da satisfação sexual masculina entrou em pauta, a tensão entre os dois ideais distintos de mulher tornou-se aguda entre os homens paulistas. As características físicas substituíram o caráter como referência primeira da mulher ideal. Um dos participantes de São Paulo resumiu bem tal percepção: “Os homens dizem: mulher ideal é aquela arrojada, independente, compreensiva... mas no fundo, no fundo, a ideal, e a que todo mundo quer, é aquela que é objeto sexual dele. Ninguém tá falando, mas é verdade, todo mundo pensa isso.”

Mais uma vez, a diversidade cultural e a regional potencializam diferenciações na conformação de ideais de mulher presente nos imaginários masculinos. Embora reconheçamos traços comuns que perpassam os dois grupos, é inegável que padrões, valores e atributos distintos geram a riqueza de referenciais cultural e regionalmente localizados de masculinidade.

Passando à construção do homem ideal, dois aspectos iniciais devem ser sublinhados. O primeiro é o fato de os homens terem sido bem mais ‘econômicos’ nas discussões sobre o homem ideal, quando comparados aos debates suscitados no tópico mulher ideal. O segundo foi que, também diferentemente da discussão sobre a mulher ideal, a construção do homem ideal tomou como base uma leitura de ‘segunda mão’, o ponto de vista do ‘outro’, a mulher. Em outras palavras, na descrição dos atributos ideais dos homens, a principal referência adotada foi a feminina e não a deles mesmos.

Este homem foi construído a partir do referente que eles julgam como sendo o das mulheres, como aquele que ‘ajuda’ em casa, é prestativo, dedica-se à família, é gentil, carinhoso, romântico, delicado (“mas não viado”) e companheiro.

As frases de um participante paulista e de um pernambucano, respectivamente, apontam para isto:

Eu acho que as mulheres gostam de homem romântico, que

saiba fazer ela enlouquecer.

Eu acho que o homem ideal da mulher é um cara gentil, que

sabe tratar bem, que gosta de ajudar... Eu também sou assim.

Uma pessoa não agressiva. Tem que ser gentil, mas não viado.

Este ideal é construído em oposição àquele do homem agressivo, que bebe, usa drogas e bate na mulher. A violência, tema central dos grupos focais, entrou espontaneamente no debate em ambos os lugares (Pernambuco e São Paulo), e alguns casos pessoais foram, inclusive, relatados.

Se em relação à mulher ideal foi possível traçar um perfil mais unificado (porque polarizado entre a mulher dos atributos físicos e a mulher dos atributos morais); no que diz respeito ao homem os participantes revelaram dificuldade em sintetizar características que definissem um ideal. Ou porque se mostraram resistentes a qualquer proposta de elaboração de um ideal de homem, o que ocorreu mais fortemente em São Paulo, ou porque apontam para a dificuldade de eleger características mais ou menos recorrentes, por perceberem que há tantos tipos ideais de homens, quanto há fantasias e referenciais das mulheres. Um dos homens de São Paulo comentou: “É difícil dizer um único homem ideal para uma mulher. Porque cada uma tem um gosto, umas já gostam de um cara carinhoso, outras de um mais machão... outras gostam de malandro”.

Apenas nos grupos focais da Zona da Mata de Pernambuco, os homens falaram sobre qualidades masculinas de maneira independente das referências projetadas para as mulheres. As virtudes enunciadas remeteram fortemente ao caráter e à moral do homem (Portella et al., 2004), como responsável pela família (Sarti, 1996), trabalhador e companheiro de outros homens (Nascimento, 1999). Ter moral, ser honesto, respeitador, trabalhador são, portanto, características essenciais do homem que cada um deve perseguir.

O homem tem que ter moral. Ter moral tem haver para toda

vida.

Tem que considerar logo as famílias alheia e os próprios

amigos, que é o que interessa.

 

Relações entre homens e mulheres

Em primeiro lugar, ‘sexo’ foi o aspecto que abriu a discussão sobre as relações entre homens e mulheres nos dois grupos focais em

São Paulo. 7 Embora tal referência também tenha emergido espontaneamente nos grupos focais rurais de Pernambuco, tal ênfase foi mais forte em São Paulo.

Mas o sexo apareceu não apenas como fazendo parte de relacionamentos esporádicos, sem afetividade e vínculo. Em São Paulo, após a fala inicial taxativa que alça sexo a um primeiro plano, os homens reformularam esta referência e relativizaram-na em termos de que sexo não seria tudo, apenas um dos muitos aspectos dos relacionamentos entre homens e mulheres. Este conteúdo relativista e plural foi, para os participantes de Carpina e Tamandaré, logo de início abordado, quando um dos pernambucanos disse: “Relação entre homem e mulher tem que ter carinho, porque não há quem possa viver isolado”.

Outras referências, além do sexo, como o companheirismo, a amizade, o respeito, a compreensão e a convivência foram citadas por todos os grupos, embora vez por outra sexo nas relações voltasse ao centro da discussão.

Os homens paulistas argumentaram que é da natureza masculina precisar de sexo, e a sua satisfação sexual representa um item importante para a estabilidade da relação, corroborando outros achados da literatura (Nascimento, 1999). Quando este falta, pela recusa da mulher/companheira, o homem passa a buscá-lo fora, o que se justifica pela “necessidade de uma satisfação física”. Está posto, pois, a ideia arraigada de que sexo se constitui como um dos pilares da afirmação da identidade masculina. O relato a seguir ilustra bem esta percepção:

Quando o cara tá namorando, noivando, tem uma relação

[sexual] mais contínua, pelo menos umas três vezes por

semana. Mas, depois que casa, não. Fica 15, 20 dias... até um

mês. Ela tá com dor de cabeça, tá com isso, tá com aquilo. Aí

pinta uma briguinha. Porque você aí chega na sua mulher e ela

recusa... você toca e ela se afasta, então é terrível você sentir

que ela se afasta. Aí você começa a procurar pessoas por fora,

paqueras, para ver se pinta alguma coisa... Tentando alimentar

seu ego.

Se sexo se configura como preeminente na relação afetiva, sua vivência não satisfatória traz riscos – a traição – que também foi constantemente relatada.

Entre os paulistas, a traição masculina foi a única comentada. As relações extraconjugais, que são exemplares quanto à quebra do padrão de reciprocidade estabelecido nas relações afetivo-sexuais, foram consideradas, pelos homens de São Paulo, como experiências preponderantemente masculinas. Um deles disparou: “Graças a Deus eu nunca fui traído, nem por namorada e nem pela minha mulher... mas já aconteceu de eu trair”.

A traição por parte da mulher, como se percebe no relato, é algo que este homem não vislumbra para si, ao mesmo tempo que refere como usual no comportamento dos homens.

Embora tenhamos relatos de traição masculina apenas em São Paulo, estas situações são apontadas como podendo interferir no casamento (que, em muitas falas, aparece como um valor importante). Este, para ser mantido, depende de muita “luta”. O matrimônio constitui-se para a maioria na referência primária para

se pensar a relação entre homens e mulheres. 8 No relato a seguir, também de um homem de São Paulo, o caráter relacional que está implícito (e explícito) na relação homem-mulher exige o reconhecimento do ‘outro’ (no caso, a mulher). Instaura-se, pois, a tensão entre a vivência de um modelo de masculinidade que pressupõe uma sexualidade livre e autônoma (Gomes, 2008), porque tem apenas como referente o homem que deseja, procura e obtém prazer, e o modelo de uma sexualidade compartilhada, em que autonomia, desejo e prazer são, também, considerados como atributos femininos.

Eu já tive relação extraconjugal. Não foi bom. Quase acabou

meu casamento. O que eu entendo é que a gente tem que lutar

muito para manter o casamento. (...) Eu era mais novo e queria

me afirmar como homem... Ter várias. Aí, quando minha mulher

ficou sabendo, saíram todas fora... e ela também. E eu tive que

ir atrás de minha mulher. Se é difícil dar conta de uma mulher,

imagina de duas.

Já na Zona da Mata de Pernambuco, a traição feminina apareceu e mereceu, de saída, uma proposição: “Acho que acontece [traição] mais quando a mulher num... acho que quando num sente prazer, né, aí ela fica, fica procurando ‘conhecer’ homem. Olha, tem muita coisa nesse mundo”.

Ainda nos grupos rurais, a referência à traição nas relações de casal aparece no discurso evangélico: “o crente tem que ser caseiro, ele e a esposa dele. Num pode ter um adultério”.

Um outro aspecto que remete diretamente à vivência da sexualidade e à relação conjugal – a liberdade – emergiu da discussão no bloco das relações entre homens e mulheres, mas só em São Paulo. Explorar-se-á um pouco esta questão porque denota, ao menos, um discurso de transição de um padrão de masculinidade tradicional para um mais igualitário neste contexto urbano, que se mostra exemplar na discussão entre masculinidades e diversidade cultural.

Os homens dos grupos focais em São Paulo, mesmo reconhecendo que os impulsos sexuais são fortes e, quando não regulados, trazem conflitos aos relacionamentos, não deixam de mencionar que a liberdade é também um dado importante na relação afetivo-conjugal. A liberdade foi colocada como ponto fundamental para manter a relação e, principalmente, para a sua durabilidade. É verdade que a discussão da liberdade se iniciou pelo lado masculino. Alguns comentaram que as mulheres deveriam confiar nos seus companheiros e não se incomodar com as saídas com amigos. Mas, durante o debate, alguns colocaram que a liberdade não deveria ser algo exclusivo dos homens, mas também das mulheres.

Instaura-se, portanto, um deslocamento entre o padrão tradicional de controle do comportamento das mulheres (saídas com amigas, amizade no trabalho, estudos etc.) para um tipo mais igualitário no qual a liberdade é elemento constituinte da autonomia do sujeito e necessário no contexto das relações afetivo-conjugais.

Mas, pelo que se pode sentir ao longo do debate entre os homens dos grupos de São Paulo, a liberdade para as mulheres se localiza muito mais em termos do discurso genérico, não se apresentando como algo concreto ou que faz parte do cotidiano da relação. Há, portanto, uma ambiguidade no que é considerado como liberdade para homens e para mulheres. Se, para os primeiros, ela está associada à vivência/circulação irrestrita no espaço público (a farra com amigos no bar sem o olhar vigilante das companheiras, as amizades no trabalho etc.); para as mulheres, a liberdade foi referida de duas formas: como autonomia e independência em relação ao homem (poder trabalhar fora, estudar) e como autonomia e poder de decisão na esfera doméstica.

Resumindo, a liberdade masculina se conecta com a necessidade de certa permissividade por parte da mulher em relação aos hábitos tradicionais masculinos (farra com amigos, chegar tarde em casa, não dar “satisfação de todos os passos”), que é responsável pela

estabilidade da relação.9 Ao mesmo tempo, nos relatos de alguns homens paulistas, sobressai a ideia de que a mulher deve ser cuidadosa ao procurar diversão quando desacompanhada.

Vê-se, portanto, o caráter ambíguo e hierárquico presente no discurso sobre liberdade: mesmo que a dependência e a submissão da mulher ao homem apareçam de forma negativa; a liberdade se localiza em um espaço que não deixa de ser restrito (a casa). Portanto, a ‘natureza’ diferencia, mais uma vez, homens e mulheres: enquanto a liberdade masculina deve ser irrestrita e está associada à diversão e ao espaço público, a da mulher está mais associada ao espaço da casa e, quando remetida ao público, trata-se apenas de trabalho e estudo, nunca lazer/diversão.

A análise deste bloco apontou para uma interessante problemática: a confluência e, ao mesmo tempo, a tensão, entre dois ideais de feminilidade: aquele que traz a referência da autonomia, liberdade e poder feminino conquistado ao longo das três últimas décadas e resultado das transformações socioculturais em torno da inserção da mulher no espaço público (ingresso no mercado de trabalho, maiores níveis de escolaridade etc.), e, por outro lado, o recurso à tradição, sobretudo familiar, que destina à mulher a reprodução dos usuais papéis de cuidado da casa e da família. Também fica claro que, entre os paulistas, a polarização entre esses ideais é mais equitativo, ou seja, embora o discurso que remete ao peso da tradição ainda se faça presente, falas associadas às transformações ligadas à autonomia das mulheres ganham destaque. Já na zona rural de Pernambuco, ainda se trata de um discurso residual e mesmo extravagante.

 

Ditos populares: o que pensam os homens

A fim de desvelar os significados da violência de gênero entre os grupos de homens pesquisados, foi proposto, aos grupos, discutir ditos populares bastante conhecidos em todos os segmentos sociais e contextos culturais no país que expressam de maneira gritante (e, para alguns, jocosa) a dominação e violência masculina sobre as mulheres, especialmente companheiras: “a gente não sabe por que está batendo, mas elas sabem por que estão apanhando”; “mulher é como bife, quanto mais apanha, mais macia fica” – e o seu oposto, expresso no dito: “em mulher não se bate nem com uma flor”. Também foi lançado um dito popular que remete ao expediente de ‘tomar partido’/intervir (ou não) em relações conflitivas vividas por outros casais: “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”.

Em relação ao primeiro ditado popular (a gente não sabe por que está batendo, mas elas sabem por que estão apanhando), observou-se uma polarização entre duas interpretações. A primeira ressaltava o exagero e o machismo inerente ao dito popular. Para metade dos participantes dos grupos focais de São Paulo, foi considerado um absurdo bater em mulher, porque ela se constitui como ser frágil. Consequentemente, tal atitude significa um ato de covardia. Mas, foi interessante perceber que a mesma lógica ‘naturalizante’ reveste o argumento oposto de que, por vezes, é natural ao homem, dado seu instinto agressivo e intempestivo, bater em mulher. A fala de um dos participantes paulistas ilustra tal percepção: “A violência não acontece só entre os homens, mas em todo o mundo animal. Você vê: o macaco bate na macaca. Existe o instinto do homem, dele bater”.

Uma segunda interpretação aglutinou os demais participantes na defesa de que é o próprio aspecto ‘natural’ constitutivo do homem que o leva a bater em mulher, especialmente quando entra em cena a traição feminina. Ressalte-se que a traição (ou mesmo sua suposição) tem sido apontada como justificativa para a agressão à esposa-companheira no discurso dos homens em diferentes pesquisas (Alves & Diniz, 2005; Couto et al., 2007). Um outro participante de São Paulo que, a princípio era contrário à violência, reconsiderou seu argumento quando a temática da traição irrompeu no debate:

Acho que não se deve bater, mas se você pega a mulher te

traindo, não sei... Não se pode dizer a reação do momento...

Mas um bom tapa na cara é difícil de não dar. Não deve dar um

tiro, porque aí vai para a cadeia e o povo diz: ‘olha lá o corno’,

mas um tapa... Nesse caso é mais fácil você bater na mulher do

que tentar bater no cara, porque o cara, às vezes, nem sabe

quem é você...

A discussão deste dito popular entre os homens da zona rural de Pernambuco remete a um melhor entendimento das diferenciações de base cultural que permeiam os contextos sociais aqui tratados (urbano/rural; Sudeste/Nordeste). Isto porque esses homens trouxeram elementos mais explícitos do padrão de masculinidade que associa a violência contra a mulher, especialmente esposa, como punição ou correção por atos/ comportamentos contrários à sua expectativa de autoridade doméstica e de controle da sexualidade feminina (Schraiber, d’Oliveira & Couto, 2009).

Ao contrário dos homens paulistas, que iniciaram a discussão negando o ditado e advogando a atitude da não violência, os homens da Zona da Mata pernambucana começaram justificando o ditado. Um deles legitimou o dito popular, afirmando: “É porque, se ela sabe porque tá apanhando, é porque ela sabe que errou”. E outro acrescentou: “É, porque se ela num errasse, também, ela num ia apanhar”.

Também merece realce o fato de que, ao contrário dos homens dos grupos de São Paulo que se esquivaram de emitir opiniões estritamente pessoais e citar participação em episódios concretos de violência contra a mulher; os homens rurais de Pernambuco não se omitiram diante do ditado e nem se incomodaram em relatar experiências pessoais, sendo que uma boa parte deles justificou o ditado tomando para si a situação:

Se eu saio para trabalhar, arrumar coisa para dentro de casa e

ela sai pra transar com outro, com um macho dentro dos mato,

ela errou e muito, num é isso? Então merece [apanhar].

Quando eu saio pra trabalhar que chego em casa, eu topo com

o fogo apagado, eu topo com o fogo apagado, não tem comida

e ela tá pra casa de um. ‘Fulana, fulana’, e nada! Eu espero ela

chegar, quando chega pego pelo cabelo dela e é pau. Ai é pau!

Tava trabalhando, não tava vadiando não. Vai pro pau. Num sei

nem o que ela tava fazendo, não fez comer pra mim, vai pro

pau!

E outro ainda reforça: “Eu às vezes chego a bater na minha esposa, a agredir. Eu sei por que estou batendo, ela também sabe por que tá apanhando. Agora que mulher num, num é tola! Quando eu bato, eu sei!”.

O segundo ditado – “mulher é como bife, quanto mais apanha, mais macia fica” – foi explorado apenas nos grupos focais rurais de Pernambuco. Destaca-se, também neste caso, a ‘naturalidade’ expressa pelos participantes não apenas em justificar o dito, mas em fazer uso de experiências próprias para tal justificação. Note-se que, apesar de estarem entre desconhecidos e/ou entre pessoas de relação próxima, os homens não se abstiveram de enunciar relatos contundentes sobre a legitimidade e recorrência de atos de agressão, o que denota a banalização da violência física empregada contra suas mulheres.

Um dos participantes do grupo focal realizado em Tamandaré mencionou que sua mulher já tinha levado “sopapos” dele: “A minha já levou cada sopapo, que um soco meu, um tapa, não é fácil não. E depois vamos pra cama, aí vai pra cama que amansa tudo!”.

Um outro arremata, comentando: “Tem mulher que gosta mesmo de levar pancada e nem tá aí. Ela (...) esquece até a dor. Aí é que vem pra cima do cara. Aí é que ela fica doida pelo cara mesmo”.

Ao empregamos os termos recorrência e banalização da violência a partir das falas dos homens, especialmente os de Pernambuco, entendemos que a utilização de expressões como “esquecer a dor” e “gostar” associadas às mulheres que apanham, bem como a ideia de conjugação entre agressão física e sexo, demonstram que o entendimento desses homens quanto ao recurso da violência contra as mulheres não é apenas para punir um ato ou falha que consideram grave, mas um expediente que se integra na dinâmica de dominação-subordinação entre os parceiros, em que a compreensão de prazer sexual da mulher na visão do homem implica uma total e inequívoca subjugação do desejo e da autonomia do outro (Dantas-Berger & Giffin, 2005).

O dito popular “em mulher não se bate nem com uma flor” foi discutido apenas pelos paulistas. Observou-se um expressivo consenso entre os participantes dos dois grupos de São Paulo. Provavelmente isto ocorreu porque a alusão à fragilidade está presente neste ditado, aspecto que se constituiu como a tônica do debate. Nesta fala, é possível observar o ‘traço idílico’ do argumento: “a mulher é a coisa mais linda e bela que Deus deixou pra nós; se ele inventou coisa melhor, guardou pra ele”.

Mas, ainda quanto a esta última expressão, observamos outras interessantes considerações que relativizam o sentido do ditado. Entre elas, a de que há mulheres que gostam de apanhar, assim como há homens que gostam de bater em mulher; e, também, o argumento da “causa e efeito”, expresso na fala de um dos participantes, e que se aproxima da justificação do recurso à violência como amplamente expresso pelos homens rurais de Pernambuco: “Não sei [se concorda], porque eu acredito na ótica da causa e do efeito: se trair eu não tenho como me segurar”.

O último ditado explorado pelos grupos a pedido dos moderadores – “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” – trouxe grandes semelhanças nos discursos dos homens em São Paulo e Pernambuco.

Inicialmente, grande parte concordou com ele, apresentando motivos diferentes, com algumas poucas exceções. O argumento central dos participantes paulistas foi o de que um desconhecido, e mesmo um amigo, não deveria se meter em briga de casal já que, com uma possível reconciliação, ele seria o maior prejudicado. Em Pernambuco, a regra da não ‘intromissão’ neste tipo de conflito parece ainda mais forte. Um dos pernambucanos comentou: “Se eu puder passar correndo, mode não chegar perto [de briga entre casal], eu passo”.

Mas, em casos mais graves, uma possível intervenção indireta colocada pelos homens de São Paulo foi avisar à polícia. No entanto, os participantes apontam alguns casos em que a intromissão direta – pessoal – pode ocorrer: situações onde o risco de vida é iminente – quando, por exemplo, alguém porta uma arma; quando a briga ocorre no espaço público; e quando a mulher envolvida possui um grau de parentesco próximo (mãe e irmã):

Só tem uma situação diferente: quando é dentro de sua família.

Se eu ver meu cunhado batendo na minha irmã, aí é diferente...

Aí eu me meto. Meu pai já virou a mesa com tudo em cima da

minha mãe. Terrível... Ele era o errado... Parece que ele xingou

ela e ela só chamou ele de corno, frouxo, palavrinha simples e

ele não aguentou: virou a mesa com tudo... No horário da

janta... Aí eu e meu irmão ‘voamo’ em cima dele: ‘porra, o pai

quer matar a mãe’... Se cai aquela mesa com tudo em cima

dela, nas pernas dela, tinha quebrado as pernas...

Entre os pernambucanos, embora a ‘intromissão’ em brigas de casais também tenham merecido algumas justificativas quando envolviam pessoas da família (mãe/irmã), a relativização a partir da referência à família e ao parentesco foi bem maior do que em São Paulo. Enquanto um dos homens defendeu: “Se for irmã minha, aí é diferente, né? É meu sangue, por ela ou tudo ou nada”. Outro lançou argumento contrário:

[Se for uma irmã] Eu não vou não, porque ela tem que valorizar

ela mesmo. Porque, se ela tá apanhando ela sabe por que é.

Se ela tá apanhando do marido dela, ela tem obrigação de ir

embora, ela fica porque quer. Mas, se ela for pra minha casa e

ele for lá bater nela, aí o negócio complica. Se ele vai bater nela

na minha casa, ele vai ter que bater neu também.

Destes extratos de falas dos homens em ambos estados, podemos levantar alguns argumentos sobre o simbolismo que perpassa a construção das masculinidades entre os homens pesquisados nas áreas rurais de Tamandaré e Carpina e em São Paulo.

No caso dos pernambucanos da Zona da Mata, as regras de convivência e reciprocidade entre os casais se mostram mais fortes e fixadas em ‘papéis’ e, com isto, inibem a ‘intromissão’ de terceiros, mesmo quando se trata de consanguíneos. A quebra de tal regra só se justifica quando além da consanguinidade entra em cena o aspecto da residência.

A casa, símbolo e locus da família, ocupa espaço elevado nas relações conjugais (Scott, 1990). Na casa, o respeito do agregado à família afim restringe sua ascendência e dominação (especialmente quando do recurso à violência) contra a mulher. Além do mais, em se tratando de conflitos de casal há a ideia, presente tanto entre os pernambucanos como entre os paulistas, de que o espaço onde estes devem se desenrolar é sua própria ‘casa’ e não a de outros. Assim, para os homens paulistas, uma das possibilidades de intervenção em casos de briga/violência entre casais é quando esta se dá no domínio público, âmbito, por excelência, de todos, onde a ordem e a lei (Da Matta, 1986) devem estar presentes.

Violência de gênero, masculinidades e

diversidade cultural: questões para o campo da

saúde

Com base na literatura socioantropológica sobre a constituição das masculinidades, especialmente nos setores populares urbanos (Scott, 1990; Nascimento, 1999), mas também em áreas rurais (Almeida, 1996), vemos que o homem é, por ‘natureza’, considerado como sexualmente insaciável e, portanto, pode, porque sente necessidade, ter relações extraconjugais.

Uma outra característica genérica do ‘ser homem’ se refere à associação com o ‘ser provedor’, moral e material, da família (Sarti, 1996). Quanto à referência à moral, esta é tida como valor que remete, sobremaneira, à honra. Como bem definiu Pitt-Rivers (1971), quando associada à pobreza, a honra constitui-se como virtude moral, não estando associada simplesmente à posição social.

Sendo a honra um dos principais pilares sobre o qual os homens constroem e vivenciam as relações com os ‘outros’ (mulheres, homens mais pobres, homens mais ricos, crianças/adolescentes), não é de se estranhar que, na relação homem-mulher, a honra se constitua como elemento que está sempre à prova. Portanto, o medo da infidelidade feminina, relacionado à vinculação entre masculinidade e virilidade, torna-se presente.

Por fim, um outro aspecto que vale referendar quanto ao modelo de masculinidade em ambos os grupos investigados é o controle sobre a própria vontade (Nascimento, 1999). O homem não deve jamais se submeter à vontade do ‘outro’, especialmente quando este é tido como inferior na hierarquia social (mulheres e crianças, de forma geral, e ‘outros’ homens que detêm menos prestígio: bêbados, miseráveis, vagabundos, homossexuais).

Também com base na literatura, vê-se que, nos poucos estudos que incluem a face masculina dos episódios de violência contra mulher, sobressai o reforço de interpretações sobre um ethos masculino que associa violência e masculinidade (Nolasco, 2001; Welzer-Lang, 2001), embora a atribuição de ‘educador’, assumida pelo homem em relação à mulher, também seja considerada em alguns estudos (Schraiber, d’Oliveira & Couto, 2009).

Destaquem-se, ainda, a ênfase sobre a constituição da identidade masculina no processo de socialização, no qual o machismo prevalece, e a configuração de um princípio simbólico de honra que rege as expectativas e as atuações dos homens na ‘casa’ e na ‘rua’, via crenças internalizadas de autoridade e conexão entre virilidade e violência (Fuller, 2001). Nesta última linha interpretativa, o uso da violência (de caráter psicológico, físico ou sexual) não seria elemento constitutivo da relação afetiva/ conjugal. Antes, sua emergência responderia à necessidade masculina de (re)colocar elementos associados a honra, autoridade e poder na relação quando esta é questionada ou está em crise.

No argumento de Connell (2001), para um homem, a violência é uma possibilidade de resposta à demanda de desempenho de seu papel social. Embora seja estimulada de diferentes formas durante o processo de socialização, torna-se um elemento-chave na reafirmação de um determinado tipo de subjetividade masculina quando o sujeito não encontra para si formas de reconhecimento e inserção social.

Poder, hierarquia e reciprocidade permeiam o cotidiano das relações afetivas entre homens e mulheres, dando forma e dinâmica à vida conjugal e familiar. É, pois, a investigação do caráter fluido e dinâmico destas relações, que respondem às transformações no universo familiar e no lugar da mulher na sociedade, que consubstanciará uma compreensão ampliada e relacional da violência psicológica, física e/ou sexual no âmbito das relações de afetividade/conjugalidade entre moradores das camadas populares da cidade de São Paulo e da área rural de municípios da Zona da Mata pernambucana.

Não obstante a validade deste argumento, é preciso lembrar que a ‘diluição’ do padrão mais tradicional pelos homens paulistas não significa que ele deixou de existir. Mas, quando se trata de um tema como a violência, é possível reconhecer que tal direção possa provocar posteriores repercussões. Inicialmente, estas podem aparecer em termos de um discurso ‘politicamente correto’ que valoriza a emancipação, autonomia e poder da mulher, mas que pode, paulatinamente, ultrapassar tal superficialidade e se inserir como novos valores e práticas em defesa da não violência em geral e da violência de gênero em particular.

Acredita-se que isto é possível, dado, como observado nos grupos em São Paulo, um certo ‘policiamento’ e ‘constrangimento’ dos sujeitos particulares devido à pressão social (mídia, familiares, pessoas do trabalho, amigos, entre outros).

Trata-se, pois, de entender as profundas influências das conjunções dos diversos referenciais identitários sobre as representações e práticas dos sujeitos, que configuram particularidades culturais. Embora a violência de gênero se mostre disseminada entre diferentes culturas e no interior dos grupos e segmentos sociais, perder de vista o caráter da diversidade sociocultural apenas rotula tal fenômeno como ‘universal’ e, com isto, perde-se a possibilidade de compreensões e intervenções mais fecundas e consequentes no plano da prevenção e promoção da saúde.

Em outros termos, são as nuances apontadas das representações e concepções masculinas no que diz respeito aos gêneros e suas atribuições sociais e, em especial, à violência de gênero que permitem a reflexão acerca dos impactos desses achados no campo da saúde, em particular para ações de prevenção e promoção à saúde.

A problemática da violência no contexto das relações conjugais é, antes de tudo, uma questão social. Neste sentido, em um primeiro momento poderia não ser reconhecida como objeto próprio da saúde. Mas, como bem apontam Minayo (1994), Krug e colaboradores (2002) e Schraiber, d’Oliveira e Couto (2006), as violências e, dentre estas, a violência contra a mulher constituem tema pertinente ao campo da saúde pelo impacto que provocam na qualidade de vida dos sujeitos envolvidos, em termos de lesões físicas, psíquicas e pelos danos morais; pelas exigências de atenção e cuidados dos serviços de saúde; e, sem dúvida, pela concepção ampliada de saúde, a de saúde integral, segundo a qual a violência passa a ser considerada como objeto da intersetorialidade, a que o campo médico-social se conecta.

Tomando-se a integralidade em saúde, constata-se que as estratégias de promoção da saúde são vias positivas de enfocar os modos de viver do humano no tocante ao processo de saúde-adoecimento e cuidado. Considerando-se que as ações preventivas são intervenções orientadas para evitar o surgimento de doenças e reduzir sua incidência e prevalência nas populações, a promoção da saúde teria um significado bem mais amplo do que a prevenção, pois, como aponta Czeresnia (2003), não se restringe a uma determinada doença ou desordem, mas serve para ampliar a saúde e o bem-estar geral.

Somado a isto, a promoção, em uma perspectiva progressista, considera que os modos de viver não se referem apenas ao exercício individual pautado na liberdade e autonomia, pois, antes, pertencem à esfera da coletividade na qual os aspectos simbólicos da cultura e estruturais da sociedade dão forma ao vivido.

Nesta direção, poder-se-ia argumentar que políticas de saúde voltadas à prevenção e, sobretudo, à promoção da saúde deveriam lançar mão de estratégias transversais que conferissem visibilidade às diferenças, expressas em necessidades de grupos populacionais (homens e mulheres), territórios e ambientes (Sudeste/Nordeste) e formações culturais (urbano/ rural), visando a adotar estratégias para minimizar situações de vulnerabilidade que defendam a equidade no acesso e estejam orientadas para integralidade da

atenção e do cuidado. 10

Destaca-se, ainda, que a investigação das particularidades socioculturais da problemática da violência contra a mulher, a partir do referencial de gênero e na ótica dos homens, representa inovações no campo da saúde, tendo em vista o imperativo do deslocamento do olhar em duas direções.

Uma primeira remete à incorporação, nas atividades de educação em saúde, de novos aspectos (como as noções de honra, liberdade-autonomia, traição, sexualidade com interação afetiva e entre sujeitos mais simétricos, entre outros) que traduzem a violência do plano do vivido pelos sujeitos para o campo da intervenção em saúde, o que pode proporcionar intervenções que respeitem o caráter relacional implicado no problema violência contra a mulher.

Como apontaram Schraiber, Gomes e Couto (2005), tomando-se em particular as questões da prevenção e promoção, pode-se perceber que a inclusão dos homens no debate sobre saúde não se restringe à saúde masculina, mas consegue ganhos para a saúde feminina em temas que só avançam na medida em que se consegue a participação masculina em seu enfrentamento.

A segunda inovação aponta para, a partir do acúmulo de conhecimento acerca da diversidade de vivência das masculinidades, a possibilidade de ampliação de atividades com os homens no campo da promoção à saúde e à cultura de paz, de forma que tais atividades possam ganhar em efetividade.

 

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1 Tamandaré situa-se na Mata Meridional, distante 92 km de Recife, está entre os quatro municípios menos populosos (cerca de 20.500 habitantes) e apresenta uma das menores taxas de urbanização da Zona da Mata Sul. Em termos de atividade econômica, caracteriza-se por ser uma área de transição dos engenhos para a agricultura familiar em assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Seu núcleo urbano é voltado para o turismo e o pequeno comércio.

2 Carpina localiza-se na Mata Setentrional, encontra-se a 55 km de Recife, está entre os quatro municípios mais populosos de toda a Zona da Mata (cerca de 74.000 habitantes) e tem a maior taxa de urbanização da região. A atividade econômica sustenta-se basicamente do comércio, e sua pequena área rural sobrevive da agricultura familiar e da criação de frangos para abate..

3 Essa comunidade é formada por uns poucos arruados, que são conjuntos de casas unidas por meia-parede. O acesso a ela é feito por estrada de terra.

4 As ocupações foram: segurança, vigilante, corretor de seguros, auxiliar da promotoria, vendedor, auxiliar administrativo, motociclista, auxiliar de mecânico, contínuo, ajudante geral, supervisor de manutenção, auxiliar de almoxarifado, ourives e fiscal de roteiro.

5 O salário mínimo à época da pesquisa era R$ 200,00.

6 Para construir as imagens do homem e da mulher ideais, os moderadores dos grupos focais suscitaram nos homens referências femininas e masculinas imaginárias e concretas.

7 Nessa parte do grupo focal, a proposição dos moderadores foi: o que vem à cabeça de vocês quando falamos das relações entre homens e mulheres?

8 Leve-se em conta que a maior parte dos participantes desses grupos era casada ou já havia sido por pelo menos um ano, como requisitado na própria convocação para a realização dos grupos focais.

9 Em São Paulo, o bar e os amigos, especialmente, foram considerados como um fator de discórdia na relação, mas que poderia ser superado pela “confiança” da mulher.

10 Embora esses princípios estejam presentes na Política Nacional de Promoção à Saúde (Brasil, 2007), o percurso para sua efetiva realização é muito longo.