Saúde do homem: em debate
Apresentação
Saúde dos homens: uma temática em expansão
Os primeiros estudos sobre a saúde de homens surgiram em fins dos anos 70 do século passado nos Estados Unidos. Esses estudos, quase que exclusivamente centrados em déficits de saúde, tiveram dificuldades para conseguir uma ampla divulgação. Talvez isso tenha ocorrido porque os dados evidenciaram uma certa dualidade, que poderia ser interpretada de maneira equivocada: se, como grupo, os homens estavam em desvantagem em relação às mulheres em termos de taxas de morbimortalidade, em contrapartida, constatava-se que eles detinham mais poder do que elas em todos níveis de classes socioeconômicas (Courtenay & Keeling, 2000).
Para se lidar com essa e outras questões, foi preciso, ao longo do final do século passado e início do atual, ampliar a discussão para além das instâncias puramente biológicas ou epidemiológicas. A partir dos anos 90, a discussão desta temática passou a refletir, entre outros aspectos, a singularidade do ser saudável e do ser doente entre segmentos masculinos, sem perder a perspectiva relacional de gênero, buscando uma saúde mais integral do homem (Courtenay, 2000; Schraiber, Gomes & Couto, 2005).
Um exemplo de que a temática tanto teve seu foco ampliado como ultrapassou fronteiras disciplinares é a ampla revisão sobre a saúde de homens, realizada por McKinlay (2005) na Nova Zelândia. O autor analisou fontes diversas que tratavam de: status biológico da saúde de homens; comparações entre a saúde de homens e mulheres; disparidades em saúde; perspectivas filosóficas e sociológicas acerca da masculinidade e dos papéis sociais masculinos; impacto das ações dos profissionais sobre a saúde dos homens e intervenções para a melhoria da saúde de homens.
Com base nesse estudo, McKinlay concluiu que as diferenças entre os gêneros, em termos de morbidade, mortalidade e expectativa de vida, se explicam, principalmente, a partir de cinco fatores: especificidades biológico-genéticas de homens e mulheres; diferenças sociais e étnicas e desigualdades sociais; associação entre condutas e distintas expectativas sociais de homens e mulheres; busca e uso de serviços de saúde por parte dos homens; cuidados de profissionais de saúde voltados para homens.
McKinlay observou, ainda, que, embora haja certo consenso sobre o fato de o status da saúde do homem estar associado tanto aos aspectos biológicos quanto aos de ordem social, desconhece-se qual desses fatores impacta mais a saúde dos homens e como cada um deles pode a ela se direcionar.
Em 2000 e 2001, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou duas publicações voltadas para as especificidades da saúde masculina, destacando os comprometimentos dessa saúde em diferentes fases da vida, a partir de uma perspectiva relacional de gênero. A primeira publicação focaliza os rapazes nas ações da área da saúde (WHO, 2000). A segunda propõe princípios para desenvolver políticas e estratégias voltadas para os homens em processo de envelhecimento (WHO, 2001).
A saúde dos homens continuou em cena no âmbito internacional (Baker, 2001). Foi objeto da criação de uma sociedade internacional (International Society for Men’s Health and Gender) e de um periódico específico, Journal of Men’s Health and Gender (2004).
No Brasil, em 2005, o periódico Ciência & Saúde Coletiva publicou um número voltado especificamente para a saúde masculina. No editorial, propunha-se a consolidação do homem como foco da saúde pública, no sentido de enfatizar:
a singularidade de um dos pares do gênero e evidenciar novas
demandas de ‘ressignificação’ do masculino, decorrentes de
deslocamentos ocorridos no campo do gênero, para que se
possa buscar uma saúde para ele voltada. (Gomes, Schraiber &
Couto, 2005: 4)
Os editores assinalavam a necessidade de a saúde pública aprofundar as relações entre ideologias hegemônicas de masculinidade e processo saúde-doença, para que esse campo pudesse enfrentar certas formas do adoecimento e para promover a saúde masculina e feminina.
Ainda em termos de realidade brasileira, em 2008, destaca-se o lançamento para consulta pública da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem pelo Ministério da Saúde. Partindo da premissa de que os agravos do sexo masculino são problemas de saúde pública, dentre outros, essa proposta tinha como objetivo:
promover ações de saúde que contribuam significativamente
para a compreensão da realidade singular masculina nos seus
diversos contextos socioculturais e político-econômicos e que,
respeitando os diferentes níveis de desenvolvimento e
organização dos sistemas locais de saúde e tipos de gestão,
possibilitem o aumento da expectativa de vida e a redução dos
índices de morbimortalidade por causas preveníveis e evitáveis
nessa população. (Brasil, 2008: 3)
Essa proposta e as outras, anteriormente mencionadas, de certa forma, atestam que a temática saúde de homens encontra-se em expansão. Nesse movimento de expansão, observam-se tanto abordagens que problematizam o assunto quanto aquelas que o limitam.
Para que o debate avance não apenas na quantidade de contribuições, mas também na ampliação do foco da discussão, cabe registrar o posicionamento de White, Fawkner e Holmes (2006). Segundo esses autores, a saúde de homens pode ser definida como tema, condição ou determinante relacionados à qualidade de vida de homens. Pode, ainda, ser vista como requisito para que homens, rapazes e meninos vivenciem saúde física, emocional ou social. Para eles, a saúde de homens ultrapassa a instância específica das doenças relacionadas aos órgãos reprodutivo-sexuais masculinos.
Ainda em relação à construção de uma abordagem ampliada, faz-se necessário reforçar a importância de situar os homens como atores de um determinado gênero, e não apenas como ser humano genérico (Kimmel, 1992). Ganhando essa amplitude, a discussão poderá contribuir não só para se abordar o homem como variável de sexo ou como agente a ser incluído na promoção da saúde da mulher, mas também para considerar os homens como protagonistas da própria saúde.
Essa abordagem poderá trazer pelo menos três subversões para o campo da saúde coletiva:
(1) obriga cientistas e formuladores de política a enfrentar
questões das interrelações entre os gêneros, com imensa
repercussão nas práticas de prevenção e principalmente na
promoção à saúde, deslocando as aproximações
individualizantes; (2) traz novas temáticas para os estudos e
políticas em saúde da mulher, bem como impõe novos olhares
(de gênero) para antigos objetos da saúde das mulheres e dos
homens; (3) ressalta o entrelaçamento entre saúde, cidadania e
direitos humanos. (Schraiber, Gomes & Couto, 2005: 8)
Abordagens sobre a saúde de homens
O debate sobre a saúde de homens pode envolver diferentes abordagens, atravessadas por distintos campos disciplinares. Conscientes de que existe um amplo espectro de perspectivas que pode ser utilizado para lidar com a temática em questão, faz-se necessário demarcar não somente o campo em que se circunscreve a discussão, como também o seu foco principal.
Procura-se situar o debate no âmbito das questões culturais que potencializam ou limitam os cuidados em saúde a serem assumidos por homens. Para isso, utiliza-se a perspectiva relacional de gênero, ancorada principalmente em uma base socioantropológica, procurando trazer contribuições para as ações de prevenção e promoção da saúde de homens, que integram o campo saúde coletiva.
O capítulo 1, “Integralidade em Saúde e os Homens na Perspectiva Relacional de Gênero”, anuncia de pronto a abordagem do debate. Parte-se, assim, do conceito de ‘integralidade em saúde’ para se pensar a saúde de homens no cenário relacional de gênero, com uma abordagem interdisciplinar. A discussão é ancorada na premissa de que, ao se planejarem as ações de prevenção e promoção da saúde, é preciso considerar as especificidades nas formas como os homens lidam com o processo saúde e doença. Estas diferenças estão relacionadas à maneira como os indivíduos do sexo masculino veem o cuidado consigo e com o outro.
A integralidade, relacionada à boa prática profissional, às formas de organização das práticas de saúde e às políticas de saúde, é destacada como princípio para: acolher as necessidades de usuários; ampliar o foco no adoecimento a partir de questões relacionadas à vida cultural e social; estabelecer conexões entre ações de saúde pública e as de cunho médico-assistencial; articular demandas espontâneas com as programadas pelas políticas de saúde e integrar diferentes especialidades profissionais. Na lógica da integralidade, criticam-se as reduções das necessidades de saúde de homens e mulheres ao corpo anatomopatológico.
Também o capítulo 2, “’Eu Não Sou Só Próstata, Eu Sou um Homem!’”, adverte sobre a necessidade de não se fazerem reduções sobre o homem. O objetivo é revisar estudos e intervenções sociais, no campo dos direitos sexuais e reprodutivos, voltados para homens, destacando principalmente as abordagens e as estratégias utilizadas. Para isso, inicialmente, apresenta-se uma breve contextualização da trajetória política e conceitual dos debates que situam a masculinidade como construção de gênero e a perspectiva feminista como aporte teórico fundamental. Em seguida, faz-se uma análise da visibilidade de dados epidemiológicos sobre adoecimento e morte da população masculina como estratégia discursiva que justifica políticas, define prioridades e produz sujeitos. Por último, desenvolve-se uma leitura crítica acerca dos investimentos recentes em torno da construção de um documento-marco para a política de saúde do homem, na interface com as políticas nacionais voltadas à mulher e aquelas dirigidas ao enfrentamento da homofobia.
No capítulo 3, “Vulnerabilidade Masculina, Curso de Vida e Moradia Urbana”, inicia-se a análise a partir das seguintes questões: como as pessoas experimentam o espaço urbano em relação à vivência do curso de vida em espaços domésticos? Quais as suas implicações para a saúde do homem? A discussão continua, aprofundando o assunto tomando como base as perspectivas de gênero, renda e ocupação do espaço urbano. Na primeira parte do capítulo, examinam-se dados censitários para se buscar uma interpretação plausível para compreender as proporções de homens e mulheres que residem em bairros pobres e bairros nobres. Em seguida, procura-se analisar a circulação de homens e mulheres interresidências, interbairros e intergerações, voltando-se para a construção dos significados das vivências espaciais. Na terceira parte, busca-se entender a relação que se estabelece entre homens e serviços de saúde.
O capítulo 4, “Reflexões sobre a Saúde dos Homens Jovens”, reflete sobre a articulação entre gênero, geração e condição social na promoção da saúde da população masculina jovem.
Duas partes compõem esse capítulo. Na primeira, aborda-se o contexto das vulnerabilidades às quais os homens jovens estão submetidos. Dentro dessa perspectiva, com base em estudos nacionais e internacionais, são trabalhadas as relações entre homens jovens e a saúde sexual e reprodutiva; o HIV e a Aids; acidentes e violências; mercado de trabalho; educação e serviços de saúde.
A segunda parte do capítulo consiste na problematização de dados de uma pesquisa com homens jovens, com as seguintes temáticas: normas sociais em torno da masculinidade e das relações de gênero; sexualidade e uso de preservativo; saúde em geral; cuidado; sexo do profissional de saúde; posto de saúde e doenças sexualmente transmissíveis.
O capítulo 5, “Discriminação, Cor/Raça e Masculinidade no Âmbito da Saúde”, desenvolve uma reflexão sobre situações de discriminação associadas à cor/raça no cenário nacional, com implicações no campo dos agravos à saúde. São priorizados dois eixos discursivos: aspectos da discriminação racial no contexto brasileiro remetidos para as especificidades de homens jovens, classificados como negros/pretos, e conexões entre as manifestações de discriminação racial, situações de violência e estilos de masculinidade e seus reflexos nos dados de morbimortalidade masculina. A discussão procura lançar luzes sobre as pesquisas e as políticas de saúde pública voltadas para a população masculina no país.
O capítulo 6, “A Sexualidade Masculina em Foco”, começa problematizando as reduções da sexualidade masculina realizadas tanto pela mídia como por fóruns acadêmicos. Em seguida, apresenta o marco conceitual sobre a sexualidade adotado na discussão. O capítulo segue examinando questões relacionadas especificamente à sexualidade masculina, que são examinadas à luz de narrativas sexuais masculinas, partindo-se de uma pesquisa realizada com homens, na cidade do Rio de Janeiro. Princípios para que haja continuidade do debate são apontados como encerramento do trabalho.
No capítulo 7, “De Quem É o Problema? Os homens e a medicalização da reprodução”, problematizam-se questões relacionadas aos caminhos, às negociações e às pressões que homens e casais, com ‘problemas’, vivenciam para ter um filho. A discussão situa-se no cenário da dimensão de gênero e das questões relacionadas aos serviços de saúde. Nesse cenário, são examinadas as chamadas novas tecnologias reprodutivas. A reflexão baseia-se em uma pesquisa etnográfica desenvolvida em um hospital público que presta serviços de reprodução assistida. O olhar sobre os dados dessa pesquisa se inicia sobre os aspectos relacionados à fila de espera. Em seguida, se volta para a pergunta ‘de quem é o problema?’, que sintetiza os questionamentos sobre a causa da dificuldade para se ter filhos.
A discussão continua com as questões relacionadas à medicalização dos corpos, tanto femininos como masculinos. Os comentários finais voltam-se para questões sobre as novas tecnologias reprodutivas, infertilidade e o lugar dos homens na reprodução e na paternidade.
O capítulo 8, “Representações da Violência de Gênero para Homens e Perspectivas para a Prevenção e Promoção da Saúde”, inicia com considerações sobre a violência de gênero e as masculinidades, temática considerada por alguns de caráter universal. Prosseguindo a discussão, apresenta-se um estudo brasileiro que parte de uma pesquisa multicêntrica. Esse recorte investigativo conjugou o método quantitativo com o de ordem qualitativa, no município de São Paulo e em municípios da Zona da Mata de Pernambuco. Os dados desse estudo são retomados para se fundamentar a análise das seguintes temáticas: o homem e a mulher ideais; relações entre homens e mulheres, e significados associados às relações afetivo-sexuais e à violência contra a mulher. Por fim, são estabelecidas considerações sobre violência de gênero, masculinidades e diversidade cultural remetidas ao campo da saúde.
Por último, no capítulo 9, “Masculinidade(s), Violência e Homofobia”, propõe-se uma discussão de violência intragênero, mais especificamente entre homens por conta do rompimento com as convenções sociais de gênero e sexualidade. Examina-se também a discriminação sofrida por aqueles que vivenciam práticas e desejos que não são estruturados a partir da heteronormatividade. Os dados produzidos por um questionário respondido por mais de três mil participantes das paradas de Orgulho LGBT, de quatro capitais brasileiras, é utilizado como base da discussão. Ao longo da análise, os resultados dialogam com outros estudos teóricos e empíricos que estabelecem relações entre homofobia, masculinidade, violência e discriminação.
As abordagens utilizadas pelos autores desta coletânea não necessariamente convergem. Algumas delas se contrapõem dialeticamente, tanto para explicitar contradições quanto para problematizar o tema em foco. Os capítulos, na realidade, são abordagens topológicas, que refletem diferentes dimensões sobre uma grande temática: a saúde de homens. Embora todos autores tratem, direta ou indiretamente, da saúde do homem, cada um o faz sob um ponto de vista diferente.
As contribuições de cada capítulo confluem para uma perspectiva abrangente, estruturada a partir de distintas lógicas utilizadas para se pensar a saúde dos homens. Busca-se, assim, um posicionamento próximo ao de de Will Courtenay (2002), que, além de defender que as abordagens específicas de gênero podem reconhecer diferentes experiências de gênero e várias populações de mulheres e de homens, advoga uma discussão que explore como os fatores biológicos, socioculturais, psicológicos interagem na saúde física e mental de homens.
O Organizador
Referências
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