Saúde do homem: em debate

Romeu Gomes · Capítulo 8 de 11

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Saúde do homem: em debate

6 A sexualidade masculina em foco

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A sexualidade masculina em foco

 

Romeu Gomes

 

Reduções da sexualidade masculina

A sexualidade masculina tem estado em foco, não só em fóruns acadêmicos como também no âmbito da mídia, por meio de matérias, entrevistas ou propagandas. Revistas nas bancas de jornal a ela dedicam seções especiais. Anúncios ou propagandas sobre a saúde do homem – quando veiculados na mídia ou na Internet – em geral é dela que tratam.

No entanto, observa-se que nem sempre a sexualidade masculina é considerada de uma forma abrangente. Ao contrário, a temática costuma ser focalizada a partir de perspectivas reducionistas.

A revista Men’s Health, por exemplo, costuma restringir a avaliação da competência sexual aos desempenhos sexuais (Gomes, 2008). O leitor é, então, convidado a ler sobre formas de se obter mais êxitos nos relacionamentos sexuais e como chegar ao ápice do prazer. Assim, técnicas e artefatos são apresentados para que os homens possam melhorar o seu desempenho sexual.

Essa revista, que circula em vários países, foi estudada por outros autores (Boni, 2002; Stibbe, 2004; Werkmeister, 2003). Entre as principais críticas ao periódico em pauta, destacam-se as seguintes: a abordagem da revista, ancorada numa perspectiva de medicalização, incentiva uma obsessão do corpo; estimula benefícios de estilos de vida, desconsiderando um corpo masculino com suas fronteiras, seus rituais, suas inquietudes, seus medos de invasão e perda de identidade; veicula mensagens associadas a uma padronização da beleza, moda, saúde e vida amorosa; tanto disponibiliza informações sobre a saúde, como reproduz um modelo de masculinidade hegemônica, induzindo a condutas que podem comprometer a saúde do homem bem como a das mulheres.

Enfim, a revista expressa, como modelo, um homem euroamericano, heterossexual, com alta escolaridade e detentor de um considerável status econômico, sem destacar a existência das masculinidades, tampouco a possibilidade de haver enredos e personagens sexuais que se recriam a partir de outros padrões, sem ser o hegemônico.

Em sites da Internet, quando se busca informações com as palavras “saúde sexual masculina”, comumente observa-se que o assunto é reduzido à disfunção erétil e à ejaculação precoce. Por vezes, as matérias acerca dessas expressões consistem em explicações sobre o que elas significam ou em orientações como proceder no caso de um homem ter esses problemas.

O prazer sexual, quase sempre, quando tratado, aparece como a promessa de resultado de uso de determinado medicamento ou de intervenções específicas de caráter cirúrgico. Outra redução comum que ocorre nesses sites se relaciona ao aumento do tamanho do pênis. Em todas essas matérias, não só as dos sites mais populares mas também aqueles de clínicas ou hospitais médicos, constata-se que a sexualidade dos homens, em geral, é reduzida ao órgão sexual masculino.

Gomes e Nascimento (2006) identificaram outra redução da sexualidade masculina no campo da saúde pública: a de focalizá-la como infectante, associando-a muito mais à doença do que à saúde. Os autores observaram que, embora as pesquisas tivessem de tratar das doenças sexualmente transmissíveis devido à forte participação de homens nos perfis epidemiológicos relacionados a essas doenças, poderiam ampliar a discussão, contemplando questões sobre sexualidade masculina especificamente e sobre aquelas relativas às relações de gênero, para que pudessem melhor abordar os problemas das doenças.

Não é só a sexualidade masculina que costuma ser reduzida. Pode-se observar fenômeno semelhante na abordagem da sexualidade feminina, tanto no campo midiático, quanto no âmbito específico da saúde. Por isso, faz-se necessário apontar alguns marcos conceituais sobre a sexualidade em geral para avançar no debate sobre a sexualidade masculina em específico. Ainda que se focalize a sexualidade masculina, não se pode desconsiderar a feminina, direta ou indiretamente, “uma vez que tanto a sexualidade dos homens quanto a das mulheres são elaboradas e se tornam viáveis ou não dentro do cenário das relações de gênero culturalmente construídas e socialmente demarcadas” (Gomes, 2008: 84).

 

Marco conceitual sobre a sexualidade em geral

Aspectos da concepção de Michel Foucault podem servir de ponto de partida para uma reflexão sobre a sexualidade, situando-a em um escopo mais amplo de discussão. Para ele, a sexualidade é um

nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não à

realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à

grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a

intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação

dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências,

encadeiam-se uns nos outros, segundo algumas grandes

estratégias de saber e de poder. (Foucault, 1988: 100)

Essas palavras evidenciam que a sexualidade é uma construção histórica e se estrutura a partir da articulação de saberes e poderes relacionados aos prazeres sexuais. Esse famoso pensador francês quer discutir mais a lógica da norma do que a da interdição, assinalando que o lícito e o ilícito vão dar lugar ao normal e ao patológico. Não enfoca o assunto em questão a partir de pulsão ou instinto, mas como um dispositivo histórico ancorado em discursos, saberes e poderes.

Segundo Foucault (1988), nos três últimos séculos que

precederam o século XX, em torno do sexo, houve uma

verdadeira explosão discursiva. (...) O eixo desses discursos

não foi unicamente o da moral, mas também o da racionalidade,

com o propósito de administrar o sexo para que houvesse um

padrão ótimo de funcionamento para o bem de todos. Ainda

segundo Foucault, o silêncio acerca do sexo que impetrou

nesses séculos não pode ser interpretado como ausência do

discurso. No não falar, cabe interrogar quem pode falar e o que

tem autorização para ser dito. (Gomes, 2008: 84)

Assim, caminhando em uma lógica distinta da repressão, de acordo com essa concepção, “o poder sobre o sexo não inibe ou reprime uma essência verdadeira, ele cria verdades sobre o sexo que operam produzindo relações de poder, que são imanentes ao seu funcionamento” (Monteiro, 2000: 21).

A concepção de Gagnon (2006) também pode constituir-se em um marco conceitual importante para ampliar a discussão sobre a sexualidade. Para esse autor, a sexualidade diferencia-se nos distintos espaços cultuais e ao longo das épocas históricas, fazendo com que, muito mais que um comportamento individual, seja uma consequência da cultura. Ele também diferencia comportamento de conduta sexual: o comportamento sexual – humano e não humano – se relaciona a práticas corporais, ao passo que a conduta sexual envolve uma avaliação de comportamento por parte dos indivíduos com base em significados culturais e sociais.

Empregar, então, conduta sexual no lugar de comportamento sexual é deslocar a perspectiva dos determinantes dos impulsos ou das energias sexuais para a concepção de uma sexualidade socialmente construída.

A conduta sexual, ainda segundo Gagnon, pode ser compreendida a partir de roteiros culturais (elementos simbólicos e não verbais) que a ela impõem uma sequência. As pessoas se apropriam desses roteiros, editando-os, reescrevendo-os e organizando-os para atender às exigências concretas de suas vidas. Em outras palavras, as pessoas primeiro são socializadas como aprendizes dos cenários culturais e, à medida que vão encenando os roteiros, vão modificando-os diante das situações concretas em que se encontram.

É essa relação frouxa entre os roteiros e o comportamento

concreto que torna tão problemática e invalida boa parte da

psicologização transcultural e histórica. Todavia, essa mesma

relação flexível entre os roteiros e o comportamento concreto é

crucial para os processos de desenvolvimento, bem como para

as mudanças individuais e sociais. (Gagnon, 2006: 125)

Bozon também entende a sexualidade humana como uma construção social, em que atividade mental e atividade corporal se articulam. Para ele, os seres humanos “não só necessitam de um aprendizado social para saber de que maneira, quando e com quem agir sexualmente, como não conseguem agir sem dar um sentido aos seus atos” (Bozon, 2004: 13).

Nessa concepção, embora a sexualidade seja entendida como uma esfera específica do comportamento humano, não é vista como autônoma, uma vez que depende de rituais, representações e histórias que a encenem. Além de aprenderem os procedimentos sexuais, as pessoas precisam atribuir sentidos ao que fazem e mentalmente elaborar o que vão fazer e, assim, ao longo de suas vidas, vão produzindo ou reproduzindo constantes interpretações e reinterpretações sobre a sexualidade.

Ainda que haja diferenças epistemológicas, as concepções aqui apresentadas podem constituir um marco conceitual que – diferentemente da lógica que focaliza as energias biológicas – adota uma visão cultural da sexualidade e aponta para processos sociais complexos.

 

Sobre a sexualidade masculina A conduta sexual masculina costuma ser influenciada por algumas ideias que circulam no imaginário social, entre as quais se destacam: preocupação com o tamanho do pênis, a importância do coito na relação sexual, a exigência de se experimentar uma ereção imediata e a redução da sexualidade à área genital. Essas ideias circulam com tanta força persuasiva e sedutora que podem ser consideradas pelos homens como verdades da vida sexual masculina (Nogales, 2006).

Outro aspecto que, em geral, vem à tona na discussão sobre a sexualidade masculina é a masturbação. Ela – que aparece como uma experiência quase universal – pode exercer um papel importante, na medida em que comumente precede as relações sexuais entre parceiros. Diferentemente das mulheres, que tendem a se iniciar sexualmente pela experiência amorosa, os homens costumam experimentá-la como porta de entrada para o exercício da sexualidade (Bozon, 2004).

A masturbação pode servir para autodescoberta tanto masculina quanto feminina. Entretanto, no caso dos homens, além de possibilitar uma autodescoberta (tomando a ereção e a ejaculação como indicadores da virilidade e da potência), pode ser uma preparação para que a sexualidade masculina seja atestada na relação com a mulher. Ampla pesquisa brasileira (Almeida, 2007) concluiu que a maioria de homens e mulheres pertencentes a segmentos com ensino superior é a favor da masturbação masculina (71%) e da feminina (74%).

A heterossexualidade – entendida como orientação ou preferência – também costuma ser destacada, por alguns autores, como um eixo estruturante para a sexualidade masculina, tornando-se quase como uma pertença exclusiva dessa sexualidade.

E os homens que querem viver sexualidades não

heterocentradas são estigmatizados como não sendo homens

normais, acusados de serem ‘passivos’, e ameaçados de serem

associados a mulheres e tratados como elas. Pois se trata bem

disto, ser homem corresponde ao fato de ser ativo Por último, observa-se que os aspectos que costumam ser associados à sexualidade masculina, ainda que não sejam determinantes para todos os homens, não podem ser desconsiderados, uma vez que, segundo a literatura específica, eles costumam atravessar as fronteiras entre raças/etnias e classes sociais.

(...) De fato, o duplo paradigma naturalista que define, por um

lado, a superioridade masculina sobre as mulheres e, por outro

lado, normatiza o que deve ser a sexualidade masculina produz

uma norma política andro-heterocentrada e homofóbica que nos

diz o que deve ser o verdadeiro homem, o homem normal.

(Welzer-Lang, 201: 469)

A associação estabelecida entre heterossexualidade e as ideias de ativo e dominador, diferenciando-se das ideias de passivo e submisso relacionadas à homossexualidade, tem forte acento na cultura sexual brasileira, servindo tanto para a relação homem-mulher, quanto para aquela que se estabelece entre homens (Parker, 1991). Assim, às vezes, as relações sexuais praticadas entre homens nem sempre comprometem a imagem masculina:

(...) nota-se que, através dos termos ‘atividade’ e ‘passividade’,

encontramos atribuições de dominação e submissão,

instaurando uma relação hierárquica: a atividade, o ato de

penetrar outro homem, sempre é ‘apresentada’ como uma

forma positiva de autoafirmação masculina e significa poder em

relação à passividade. (Cecchetto, 2004: 55)

No senso comum, há outras situações em que se tolera a transgressão da heteronormatividade. Como mencionado em uma revisão da literatura, há, pelo menos, três situações em que isso pode ocorrer: as relações sexuais episódicas durante a infância; as ocorridas entre homens quando estão encarcerados e as praticadas por homens trabalhadores do sexo com os seus clientes com fins comerciais (Gomes & Nascimento, 2006).

A flexibilização das orientações ou preferências sexuais ocorrem por conta da premissa de que homossexualidade e homossexuais são rótulos que devem ser vistos mais a partir das diferenças histórico-culturais do que pela ordem natural, traduzido-se na ideia de que o gênero e a sexualidade são socialmente aprendidos. Assim, a quebra ou não das imposições sobre os papéis sexuais vai depender das mudanças que ocorrem no âmbito das culturas em geral (Gagnon, 2006).

 

Narrativas sexuais masculinas

As narrativas sexuais masculinas nem sempre revelam enredos universais ou determinados por modelos hegemônicos que estruturam a construção da masculinidade. Por vezes, tais modelos são reproduzidos e, em outros momentos, não só são ressignificados como também abandonados para que outras narrativas sejam editadas. No sentido de discutir essas ideias, retoma-se estudo realizado no Rio de Janeiro sobre narrativas sexuais de homens (Gomes, 2008).

Nesse estudo, entrevistaram-se dois grupos de homens. O primeiro era composto de dez homens, com as seguintes características: 1) idades entre 45 e 57 anos; 2) a maioria se autodeclarou parda; 3) nove deles cursaram até a quarta série do ensino fundamental e um respondeu não ter nenhuma instrução; 4) nove eram casados e um afirmou ser solteiro; 5) renda mensal média de 3,3 salários mínimos, que, à época da pesquisa era de R$ 305,00; 6) as principais atividades eram as de carpinteiro, pintor e armador, além de ascensorista, mestre de serviços operacionais, pedreiro e servente; 7) a maioria deles residia em municípios vizinhos à cidade do Rio de Janeiro.

O segundo grupo era composto por oito homens, com as seguintes características: 1) idades entre 40 e 64 anos; 2) quatro se autodeclararam brancos; dois, pretos e dois, pardos; 3) quatro eram casados e quatro, solteiros; 4) renda mensal média aproximada de 15 salários mínimos; 5) as principais atividades exercidas eram as de professor, psicólogo, engenheiro, advogado e economista; 6) todos residiam na cidade do Rio de Janeiro.

Esse estudo construiu uma metanarrativa, tentando sintetizar as diversas narrativas individuais.

Assim, por meio de sínteses dos diferentes sentidos que os

sujeitos atribuem às suas experiências, consegui abstrair um

roteiro e personagens que modelam as histórias sexuais

masculinas. Isso não significa que os sujeitos tenham ou

vivenciem uma só história, mas que, ao construírem suas

sexualidades, levam em conta um roteiro cultural que lhes serve

de modelo. (Gomes, 2008: 147)

Nessa metanarrativa, observam-se enredos que se constroem, tendo como referência a heterossexualidade:

O homem não deve ser gay. O homem não deve ser bicha.

(Homem 1/ Grupo I)

[O homem] tem que procurar mulher. (Homem 3/Grupo I)

[Homens que] têm um companheiro igual a ele mesmo (...) não

deixam de ser homem também. (...) Mas têm a vida deles (...)

meio isolada. (Homem 4/Grupo II)

Eu sempre tive preferências por outros garotos (...) E as crises

começam a acontecer (...) e eu tive que desenrolar, comigo

mesmo, que eu não ia abrir para ninguém (...) cheguei aos

meus 47 anos bem [não tendo] que dar satisfação; você tem

que ser superior às cobranças. (Homem 5/ Grupo II)

Esses fragmentos de narrativas contêm um espectro amplo de opiniões sobre a heterossexualidade. Nas falas, observam-se posições de adesão à norma (primeiro e segundo depoimentos), de abandono da norma, reconhecendo-se o isolamento que esta atitude acarreta (terceiro depoimento), e até mesmo a negação da norma (quarto depoimento). Sobre isso, constata-se que os homens com ensino superior conseguiam relativizar um pouco mais a heteronormatividade.

Outro aspecto a ser destacado na metanarrativa se relaciona ao fato de que – embora os homens sejam considerados os dominadores – a mulher é protagonista comum e, em determinadas situações, pode ensinar o ofício da sexualidade para os homens. Assim, submetendo-se à passividade momentânea, o homem se exercitaria para ser sexualmente ativo.

Observou-se também que as primeiras experiências sexuais – entendidas como penetração – por vezes eram atravessadas por medos e inseguranças. Nem sempre os homens conversavam com colegas ou amigos sobre esses sentimentos. Entre os pares, costumavam ocorrer mais narrativas sobre conquistas do que sobre os sentimentos envolvidos em suas experiências, assinalando principalmente a frequência e a intensidade dos atos sexuais, uma vez que isso pode indicar o grau de virilidade do sujeito da narrativa.

O enredo da metanarrativa do estudo em questão nem sempre consegue fundir erotismo e sentimento. Assim:

Embora haja um ideal de fusão, em que amor e paixão

coexistam no espaço da relação sexual, costuma haver dois

caminhos paralelos que parecem nunca se encontrar, sendo

trilhados por personagens distintos. Quando esse ideal se torna

real, os homens descobrem um ‘sexo bonito’ ou um ‘sexo

gostoso’. (Gomes, 2008: 148)

Em apenas uma narrativa, aparecem, de forma implícita, as práticas de sexo oral e anal. No entanto, mais recentemente, parece que o sexo oral e o anal vêm sendo mais explicitados nos discursos de jovens masculinos e femininos. Em uma ampla pesquisa brasileira (Heilborn, 2006), constatou-se que, em relação ao sexo oral, 70% das moças e 85% dos rapazes responderam ter experimentado fellatio (estímulo sexual do pênis por contato oral); e 79% das moças e 82% dos rapazes disseram ter experiência de cunnilingus (contato oral com órgão sexual feminino). Quanto ao sexo anal, concluiu-se que 61% dos rapazes e 25% das moças experimentaram tal prática.

Outra pesquisa realizada com ampla amostra brasileira conclui que “para cada degrau que se sobe nas faixas de idade, cai a aprovação a um maior liberalismo sexual” (Almeida, 2007: 161). No que se refere a sexo anal, constatou-se que foi rejeitado por 74% dos sujeitos da amostra.

O estudo da metanarrativa aqui focalizado conclui que:

[ela] traduz um modelo padrão das histórias sexuais

masculinas, o que não significa que não possa ser subjetivada.

Ao tomá-la como referência no entendimento da construção

social dos enredos sexuais masculinos, os estudos, os fóruns e

as intervenções da saúde não podem desconsiderar a

possibilidade de os sujeitos reinterpretarem e reinventarem o

que é culturalmente determinado, pois isso os destituiria do

papel de autores e atores das narrativas. (Gomes, 2008: 152)

Essa metanarrativa se articula com outras narrativas – de duas pesquisas realizadas com homens jovens na cidade do Rio de Janeiro (Nascimento & Gomes, 2009; Rebello & Gomes, 2009), indicando que os enredos sexuais podem ultrapassar tanto fronteiras entre classe como as de universo geracional.

 

Pontos de partida para a continuidade do debate

Para que o debate acerca da sexualidade masculina continue, faz-se necessário conceber a sexualidade em geral em uma perspectiva ampliada. Destacam-se os seguintes pontos de partida:

Levar em conta tanto o foco da prevenção de doenças como o da promoção da saúde, articulando as dimensões física e simbólica da sexualidade.

Promover um deslocamento das reduções da sexualidade para uma abordagem mais ampla, como a da Organização Mundial da Saúde (OMS), que a concebe como uma energia que faz com que as pessoas se sintam motivadas para encontrar amor, contato, ternura e intimidade, fazendo parte do modo como se

sentem, se tocam, são tocadas e influenciando a saúde física e mental.

Entender que a sexualidade, em geral, envolve preferências, predisposições, experiências, experimentações e descobertas, que podem variar entre os diferentes segmentos sociais. Considerar a saúde sexual como aquela que, além de ser relacionada ao prazer e ao bem-estar, contribui para a “construção de nossas identidades pessoais e sociais (para estabelecer nosso lugar no mundo, nossas redes de sociabilidade, o modo como vemos e como os outros nos veem)” (Carrara, 2005: 19).

Situar a discussão no campo dos seguintes direitos:

Direito de viver e expressar livremente a sexualidade sem violência, discriminações e imposições e com respeito pleno pelo corpo do(a) parceiro(a). Direito de escolher o(a) parceiro(a) sexual. Direito de viver plenamente a sexualidade sem medo, vergonha, culpa e falsas crenças. Direito de viver a sexualidade independentemente de estado civil, idade ou condição física. Direito de escolher se quer ou não quer ter relação sexual. Direito de expressar livremente sua orientação sexual: heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, entre outras. Direito de ter relação sexual independente da reprodução. Direito ao sexo seguro para prevenção da gravidez indesejada e de DST/HIV/Aids. Direito a serviços de saúde que garantam privacidade, sigilo e atendimento de qualidade e sem discriminação. Direito à informação e à educação sexual e reprodutiva. (Brasil, 2006: 6)

Assim, considerar a sexualidade como saudável – seja de homens, seja de mulheres – significa também integrá-la em uma perspectiva de cidadania sexual, em que as diferenças de gênero e das identidades sexuais são aceitas, sem desconsiderar “as relações de gênero e de poder, o sexismo e a homofobia, assim como o racismo e a pobreza” (Paiva, 2006: 26).

Referências

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