Saúde: fundamentos de Geografia humana

Raul Borges Guimarães · Capítulo 3 de 7

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Saúde: fundamentos de Geografia humana

2 - Da patologia geográfica à saúde humana

2 - Da patologia geográfica à saúde

humana

 

Neste capítulo são levantados os principais problemas epistemológicos que estão sendo debatidos pelos geógrafos da saúde, na medida em que o que está em jogo nesse campo de estudos é a vida das pessoas. O desafio é pensar a saúde a partir do espaço, discutindo os problemas teóricos que envolvem o olhar dos geógrafos do ponto de vista dos sujeitos sociais.

Principais conceitos e temas:

- Geografia da saúde;

- Crise da racionalidade científica;

- Espaço relacional e o corpo humano;

- Saúde como reprodução do espaço vivido.

***

Os “geógrafos da saúde” brasileiros, desde os primeiros debates que se iniciaram no I Simpósio Nacional de Geografia da saúde, realizado em Presidente Prudente em 2003, não tomam a chamada “Geografia da saúde” como um novo campo ou especialidade da Geografia, mas um modo de olhar para o mundo a partir da Geografia. Que ponto de vista é esse?

Entendemos que a Geografia da saúde é uma abordagem de Geografia preocupada com a vida das pessoas, uma Geografia que tem o lugar de cada um como ponto de partida para olhar o mundo. Dessa forma, mesmo para aqueles que não entendem as razões de se adotar como tema a “Geografia da saúde”, faço um convite à reflexão. Você se preocupa com a vida das pessoas que vivem nos lugares estudados pela Geografia? Em que medida os territórios vividos fazem parte de suas preocupações? Seria possível reconhecer na produção dos espaços geográficos o ponto de vista dos sujeitos produtores desses espaços? Em caso afirmativo, todos nós estamos mais próximos da abordagem de Geografia da saúde do que possamos imaginar.

Desde a minha dissertação de mestrado (Guimarães, 1994), o estudo da Geografia da saúde tem me conduzido para a compreensão do espaço urbano. Afinal, em um contexto de profunda heterogeneidade na distribuição de equipamentos coletivos, como é o caso das cidades brasileiras, é preciso levar em consideração a variabilidade de ligações efetivamente realizadas ao longo do tempo pelos diferentes agentes sociais sobre a rede de saúde. Somente esse aspecto da rede de serviços de saúde já lhe confere um atributo intrínseco à vida urbana. Os serviços de saúde são articulados aos centros nervosos de redes cada vez mais extensas de serviços de produção e consumo urbanos (Singer, 1978) e podem ser considerados como elementos fundamentais do processo de reestruturação da centralidade urbana (Spósito, 1996).

Mas a própria natureza do objeto de estudo aproximou-me de uma leitura da cidade na perspectiva das pessoas que vivem nela. Talvez porque nenhuma outra rede de serviços tenha tamanho poder de produção, reprodução e enunciação de representações sociais da vida urbana como a saúde. Ela produz poderosas unidades semânticas com base nas quais se articulam, inclusive, outros simbolismos sociais, o que inclui o desejo, o imaginário, o percebido. Esse aspecto da produção das representações sociais da saúde tem o poder de satisfazer o desejo de apropriação do objeto real mediante sua substituição no plano do discurso e resulta de transferências do universo do espaço urbano vivido e percebido para o campo simbólico, que mobiliza imagens e arquétipos no nosso campo cognitivo (Lefébvre, 1983).

O rumo das minhas pesquisas não se constituiu num fato isolado. Fui orientador do primeiro trabalho a respeito das representações sociais em nosso curso de Geograf ia, que foi apresentado na I Semana de Geografia (Silva, 1999). De lá para cá, observo um interesse crescente pelo tema. Cabe-nos indagar quais os motivos desse crescente interesse.

Em primeiro lugar, poderíamos buscar explicação na crise do pensamento racional.

O paradigma científico dominante, com base no mecanicismo newtoniano, é caracterizado por Boaventura de Sousa Santos (1995) pela:

– distinção hierárquica entre conhecimento científico e senso

comum;

– especialização, que separa a natureza e a sociedade em

objeto de disciplinas distintas;

– valorização da observação e experimentação;

– privilegiamento da análise matemática (conhecer significa

quantificar);

– privilegiamento de como funciona as coisas em detrimento

de qual o fim das coisas;

– ideia de ordem e estabilidade como pressuposto metateórico

(mundo-máquina);

– redução dos fatos sociais às suas dimensões externas,

observáveis e mensuráveis.

Segundo esse autor, a crise desse modelo científico pode ser explicada pelo avanço do conhecimento que o próprio modelo possibilitou. A primeira grande ruptura foi proposta por Einstein quando ele relativizou o rigor das leis físicas newtonianas, no domínio das distâncias astronômicas. Por sua vez, Heinsenberg e seus seguidores da mecânica quântica irão demonstrar que não é possível observar e medir, no domínio da microfísica, sem provocar alguma alteração nas propriedades do objeto que está sendo estudado, de tal forma que o objeto em foco não é mais o mesmo do início da investigação. Ou seja, a distinção entre o sujeito e o objeto deixa de ser vista de maneira simplista para assumir a forma de um continuum.

A importância maior dessas mudanças é que elas não estão isoladas de uma série de outras indagações a respeito da validade das leis científicas e do princípio de causalidade, questão amplamente debatida nos campos da Química e da Biologia, nas últimas décadas. Os estudos dos processos de auto-organização em sistemas abertos comprovam que as flutuações de energia, nunca inteiramente previsíveis, desencadeiam reações que conduzem a um novo estado por meio de mecanismos não lineares. Por causa disso, as noções de lei e de causalidade têm sido substituídas pelas noções de estrutura e de processo.

Não menos importantes foram os avanços no campo das ciências sociais, no decorrer do século XX, provocados pelas rupturas epistemológicas de três correntes do pensamento: a fenomenologia, o estruturalismo e o marxismo. Segundo Chauí (1994), se a fenomenologia garantiu o domínio da especificidade do objeto das ciências sociais – diferenciando internamente uma realidade de outras, o estruturalismo colocou em xeque a ideia da continuidade temporal e do progresso; isto é, compreendendo que a história não é acumulativa, numa sequência evolutiva, os estruturalistas abriram a possibilidade do estudo da forma em que cada estrutura se apresenta num específico contexto espaço-temporal. O marxismo, por sua vez, colocou em pauta o papel das condições objetivas segundo as quais se desenvolvem o pensamento e a ação dos sujeitos sociais. Ou seja, o desenvolvimento do corpo teórico marxista foi capaz de colocar no centro da investigação científica a análise das condições sociais e dos contextos culturais.

Evidentemente, a crise da racionalidade científica não representa o esgotamento do pensamento racional. Muito pelo contrário, estamos vivendo um momento de enorme ampliação de nosso poder explicativo, ainda que a partir de um outro paradigma de racionalidade, mais plural e holístico. Assim, ainda conforme Boaventura de Sousa Santos (1995), esse paradigma emergente tenderia a:

– superar o conhecimento dicotômico (natureza/cultura;

vivo/inanimado; mente/matéria; observador/observado;

coletivo/individual);

– colocar as pessoas no centro do conhecimento, enquanto

autores e sujeitos do mundo;

– transformar o conhecimento científico num processo de

autoconhecimento, no qual o objeto é a continuação do sujeito

por outros meios.

Essa crise, sumariamente descrita aqui, teve enormes repercussões no pensamento geográfico, que vive um vigoroso movimento de renovação na direção dessa nova razão. Atendo-nos a dois grandes geógrafos brasileiros, Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro e Armando Corrêa da Silva, vejamos em que termos foi colocado esse debate em nossa ciência.

Para Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro (1999), a crise paradigmática abre um campo de possibilidades para os geógrafos, na direção de um novo humanismo, preocupado com o campo da cultura. Se, num primeiro momento, a comunidade geográf ica despendeu enormes energias na busca estéril a respeito do que é a Geografia e qual o seu objeto, o que só reforçou a baixa autoestima dos geógrafos perante outros campos da ciência, o que se coloca como relevante é o reconhecimento de que a essência ou a verdade do mundo transcende a interpretação de dados analisados por nós, geógrafos, historiadores, sociólogos. Muito mais importante do que isso, a indagação a respeito da condição humana é razão primeira do entendimento, o que impõe o debate a respeito do espaço simbólico e da cultura.

Dessa forma, a interface entre a ciência e a arte coloca-se como frutífera não no sentido de substituir uma pela outra, mas de reconhecer a existência de novos meios de interpretação. No caso da literatura, por exemplo, quando a obra transcende um caso particular de uma dada região, por exemplo, dando voz à condição humana, atinge foros de universalidade e de compreensão holística (Monteiro, 2002).

Nesse mesmo sentido, Armando Corrêa da Silva (1986a) irá propor que o problema gerado pela crise do pensamento racional não é o da substituição do discurso clássico do concreto sensível pelo discurso do concreto pensado. Para ele, o principal desafio é o enfrentamento da fragmentação do discurso científico por meio de uma revolução na linguagem. Baseando-se em Lukács (1968), a solução encontrada por Armando foi a de percorrer um caminho concreto-ontológico e não apenas os passos lógicos do conhecimento (Silva, 1986a). O resultado disso é uma permanente reflexão a respeito da dimensão relacional entre sujeitos e objetos, tendo em vista o espaço como fundamento de um novo racionalismo (Silva, 1986a).

Ao contrário dos chamados geógrafos críticos, preocupados em estabelecer o rompimento com as velhas formas de produção geográfica, o pianista e geógrafo Armando Corrêa da Silva dedica suas horas de trabalho na busca de seu próprio ritmo e da utilização do fio condutor do seu texto para o refinamento profundo da musicalidade das palavras. Não creio que essa estratégia discursiva tenha sido por acaso. Ao aproximar da linguagem em prosa e da poesia, renovando o sentido do discurso, não raras vezes causa uma sensação de mal-estar ao leitor, que se perde na busca do raciocínio cartesiano inexistente naquele texto. Ao fazer isso, ele atinge seu principal objetivo, evoca a natureza imaginativa do processo de entendimento, colocando em evidência qual é o sentido de estarmos ali. Quem fala? De qual lugar? Ou seja, qual é a nossa condição de ser no mundo.

 

A geografia e o estudo do ser

Como nos ensina Élvio Martins (2007, p.35), uma vez que a produção social do espaço é o objeto central da Geografia, tomamos o espaço como ser. E se o espaço é o ser, ele pergunta: ser de que ente? O ente é o que é em função do seu ser. Para responder essa questão, a Geografia tem confundido existência com essência, assim como estar/ter e ser. Na evolução do pensamento geográfico, o espaço tem sido pensado como externo à consciência e dotado de materialidade, sendo, portanto, visível e tangível. É assim que, segundo Élvio Martins, o espaço em si mesmo tem sido tomado como ser, colocado no lugar do ser. É por isso que somos obrigados a perguntar como fica o estudo do sujeito na Geografia.

Essa superposição estabeleceu uma cadeia sinonímica entre matéria, corpo e natureza que tomou o ente pelo ser tornando o estudo da Geografia dos sujeitos a discussão da produção do espaço per si. Ou seja, a grande contribuição da Geografia para a compreensão da sociedade seria o estudo do espaço social, assim como o da História seria o estudo do tempo social. Por sua vez, o campo da ciência geográfica deveria ter como ponto de partida e de chegada a melhor compreensão das dimensões espaciais da vida social, aprofundando-se os conceitos geográf icos de território, região e lugar.

Não é bem assim. As implicações práticas dessa postura epistemológica seria a desconsideração do papel da Geografia na compreensão de problemas sociais que não tenham claramente uma vinculação com a materialidade espacial. Assim, não seria papel da Geografia compreender os processos de adoecer e morrer de um grupo social, desde que não fosse possível demonstrar a determinação socioespacial de tais processos.

Quem estuda a Geografia da saúde tem sido duramente criticado por não conseguir responder essa questão do “propósito geográfico” do trabalho. Em certas situações, há mesmo uma espécie de patrulhamento ideológico, que tem inibido esse debate.

O problema é que tal postura está gerando um isolamento dos geógrafos. Na ânsia de delimitação do campo da Geografia, perde-se o diálogo com outros campos do saber científico, o que é fundamental para o avanço das fronteiras do conhecimento e o envolvimento com demandas que estão sendo postas pela sociedade.

O que importa é que, independentemente de geógrafos e do que esses pensam o que é geográfico, a vida continua ou pelo menos luta para continuar sendo vivida. Na luta constante entre a vida e a morte, os sujeitos produzem a sua própria geografia. Independentemente de pensarmos sobre as coisas, elas existem. Aliás, só podemos estruturar nosso pensamento geograficamente porque na vida real há uma geografia vivida. Podemos continuar dizendo que nem todos os problemas de saúde são geográficos. Podemos ficar aqui nessa discussão, mas independentemente de nós, há uma geografia que se realiza onde as coisas acontecem. E a vida continua, assim como morremos um pouco por dia, desde o nosso nascimento.

Como não estamos muito atentos para essas questões e as demandas sociais estão aí para serem resolvidas, outros profissionais têm pensado essa geografia real e produzido, por nós, o entendimento dessa geografia constituinte da realidade que nos cerca.

Eis aí um grande desafio: desvendar que geograficidade é essa que caracteriza a saúde humana. Para enfrentá-lo, é preciso descolonizar o nosso pensamento. Estremecer as estruturas preestabelecidas que definem lugares fixos para essas coisas e colocar o nosso pensamento em movimento.

Onde estou e o que vejo a partir do lugar que ocupo? É essa a questão central que coloca o sujeito no centro do conhecimento geográfico. O centro do mundo não está definido a priori por ninguém, mas é uma construção social. Portanto, o que é Geografia, o que é Saúde e qual a relação entre esses termos depende do contexto histórico e geográfico. Os meios são contextos culturais e técnicos que expressam modos espaciais de existência – geograficidades (Moreira, 2004). O ente que é o homem tem a saúde como sua objetivação. Tal objetivação se realiza na produção do meio geográfico. Então, como podemos compreender a geografia que se constitui na luta pela vida, a saúde como reprodução do espaço vivido?

Do ponto de vista da metafísica realista, o espaço é uma realidade física compreendida por meio de dados e de demarcações evidentes, com atributos materiais tangíveis (extensão, vizinhança, entre outros). Assim, a saúde é percebida a partir de uma sucessão de acontecimentos no corpo anatomofisiológico (quadro sintomático). Segundo essa concepção, não há espaço onde não há objeto material, o que sustenta a tese da inexistência do vazio, do nada. A via de acesso à saúde, nesses termos, se dá pela mobilização das habilidades sensório-motoras dos sujeitos que, se deslocando, estabelecem relações topológicas e desenvolvem as noções de lateralidade (esquerda, direita), ou seja, de referentes centrados em cada indivíduo. Sob essa perspectiva, a saúde como reprodução do espaço vivido resulta da nossa percepção, o que torna impossível considerar a existência de outras dimensões intangíveis da saúde.

Mas quase sempre as aparências enganam. Se a aparência física representa uma importante medida para a análise clínica, apresentada como um “dado da realidade” de uma dada etiologia orgânica, elimina-se a importância dos eventos da vida de uma pessoa e da possibilidade de que existam outras dimensões intangíveis (humor, realização pessoal), juntamente, como numa ordem de coexistências.

A metafísica idealista, por sua vez, dirá que a saúde é uma representação criada pelo sujeito do conhecimento para organizar a ordem dos objetos espaciais coexistentes. A saúde não existe, mas é uma idealidade produzida pela razão, com base nas projeções euclidianas que transformam o “umbigo do mundo” em termos de um espaço geométrico rigorosamente mensurado.

Um novo engano acaba de ser cometido. Se a saúde é pura representação estabelecida pela consciência reflexiva na apreensão de uma ordem de objetos espaciais coexistentes, não haverá coexistência a apreender, pois a consciência reflexiva só se materializa no ato da própria reflexão. Ora, sendo a ordem de coexistências a manifestação da simultaneidade, torna-se impossível a compreensão da saúde posto que ela é a elaboração simbólica do que acontece de maneiras diferentes em diversos lugares ao mesmo tempo.

Veja no Quadro 1 a relação entre esses elementos apresentados aqui.

Quadro 1 – Espaço e saúde do ponto de vista metafísico

ponto de espaço saúde fonte do

vista conheciment

o

metafísic realidade sucessão de percepção a realista física, com acontecimentos

atributos no corpo

materiais, anatomofisiológic tais como o extensão, (quadro

vizinhança sintomático)

metafísic espaço representação representaçã

a geométric ideal da ordem o

idealista o espacial

euclidiano (coexistentes)

 

Saúde, geografia e corpo humano

Como vimos, a percepção e a representação, por si sós, não permitem a superação da separação entre o sujeito e o objeto. É que tal desafio não se completa apenas no ato de pensar, mas no ato de existir. Para responder nossa indagação do conceito de saúde a partir do conhecimento geográfico, impõem-se a questão do caráter relacional do espaço. Nenhum objeto existe sem apresentar contido nele a relação que estabelece com os outros objetos, numa totalidade. Será preciso considerar a experiência dos sujeitos.

Mas nós, geógrafos, ainda somos muito preocupados em definir o espaço, e temos ainda que avançar na discussão do que vêm a ser os sujeitos. Daí a nossa dificuldade em pensar o que é a saúde. Seria a Geografia uma ciência sem sujeito? Como pensar, em termos geográficos, a saúde humana?

O ponto de partida é a inserção de nosso corpo no mundo. Sim, o corpo humano não é apenas um corpo anatomofisiológico, mas também um corpo social. As diferenças corporais servem como base para formas socioespaciais de inclusão e empoderamento, exclusão e opressão, produzindo experiências diferenciadas de saúde e doença. Nele está inscrito nossa história, a partir dele eu construo a consciência do estar-aí-no-mundo... Nesse caso, o espaço se põe como ser, uma vez que as categorias são formas, modos do ser (Silva, A. C. da, 1985). É por causa disso que a Geografia da saúde deve se aproximar de outras forma de linguagem. Às vezes, na forma do jovem se vestir, no vocabulário e nas gírias que utiliza, na música que cria ou gosta de ouvir ou no cuidado que tem com o corpo é possível compreender o significado, para ele, da saúde como reprodução do espaço vivido. Até mesmo as informações estampadas em um corpo tatuado podem remeter-nos aos fundamentos de geografia humana da saúde. O desafio é compreender os novos significados da vida social, do sentimento de pertencer a um território e dos processos geradores do interesse coletivo e comunitário daqueles que vivem e morrem em cada lugar.

O corpo em movimento ultrapassa amplamente o dado puramente técnico, revelando as próprias relações sociais. Entra aqui como um traço de união. É o tempo da circulação. É o tempo da solidariedade e da cooperação. É o tempo da terapêutica e da cura. A materialização no corpo do uso do tempo.

Detalhando um pouco mais esse raciocínio, existe uma espécie de círculo relacional entre o que é o espaço e os sujeitos, de maneira que cada um se relaciona e condiciona o outro, produzindo e reproduzindo relações de poder, de submissão e até mesmo de subversão. Dessa forma, o espaço é o contexto no qual se realizam as ações e movimentos sociais (Massey, 2005), como também a manifestação dos corpos. Essa múltipla relação gera a confrontação entre a sociedade e o indivíduo, aparentemente invisíveis, o que coloca o corpo como arena de tensões e conflitos (Rodríguez; Guimarães, 2013). A relação entre corpo e espaço é o tema principal do livro Pleasure zones: bodies, cities, spaces (Bell et al., 2001).

Na geografia brasileira destacam-se as pesquisas do grupo liderado por Joseli Maria Silva (2009), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR), explorando a forma como os corpos são produzidos e usados, assim como os corpos como inscrição de poder e de resistência. Para Silva et al. (2013, p.88-9), “estados corpóreos, como saúde, doença, força física, capacidade reprodutiva e habilidades manuais, são elementos de intensa associação entre o corpo e a sociedade e, portanto, o espaço”.

Tendo em vista essas considerações, a produção de conhecimento é também um processo corporal de autoconhecimento. Ao pensar o que é saúde, creio que a principal reflexão não seja a respeito do que é simplesmente o espaço, mas de quem somos nós, geógrafos da saúde. O que estamos fazendo aqui? Qual é o nosso projeto? As categorias do ser geográfico não estão dadas a priori, como propõe o empirismo. Da mesma forma, não estão dadas a posteriori, como na epistemologia racionalista. Para aproximar-nos do que é saúde, o ponto de partida é a experiência dos homens reais.

Segundo Armando Corrêa da Silva (1985, p.6), “o futuro da Geografia está ligado à capacidade daqueles que a fazem em produzir um conhecimento que seja útil a uma sociedade em que não haja opressão, o que exige uma posição de permanente luta. Quem constrói o futuro somos nós mesmos”.

As características do meio impõem uma série de condições que conformam essa Geografia da saúde. Isso pode ser observado no período que vivemos. Como vimos no capítulo anterior, o mundo contemporâneo é marcado pela aceleração dos fluxos e pelo elevado conteúdo de ciência e tecnologia nos processos produtivos, impondo uma ordem e racionalidade na escala global. Mas essa racionalidade atinge desigualmente os territórios nacionais, regiões e lugares. De acordo com o geógrafo Milton Santos (1996, p.272-3):

a ordem global busca impor, a todos os lugares, uma única

racionalidade. E os lugares respondem ao mundo segundo os

diversos modos de sua própria racionalidade [...]. A ordem

global funda as escalas superiores ou externas à escala do

cotidiano. Seus parâmetros são a razão técnica e operacional, o

cálculo da função, a linguagem matemática. A ordem local

funda a escala do cotidiano, e seus parâmetros são a

copresença, a vizinhança, a intimidade, a emoção, a

cooperação e a socialização com base da contiguidade [...].

Cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razão global e

de uma razão local, convivendo dialeticamente.

Assim, a subsunção do trabalho vivo ao trabalho morto e a precarização do mundo do trabalho banalizaram a violência e a morte. A sobrecarga do trabalho nos canaviais brasileiros está literalmente levando à morte os cortadores de cana, que vivem em condições muito piores do que viviam escravos nas senzalas. Os circuitos da droga e dos negócios ilícitos fazem parte de grandes cadeias produtivas globalizadas e estão fortemente relacionadas com a escala da violência urbana e o aumento das taxas de homicídio nas grandes cidades. Soma-se a esse tipo de violência aquela gerada na sociedade do automóvel – o grande fetiche da mercadoria, a ponto de impactar a esperança de vida dos países que perdem precocemente sua população mais jovem.

O que fazemos diante disto? Perdemos a capacidade de nos indignar. Passamos a conviver com a violência, numa espécie de patologia social da indiferença, a maior das patologias geográficas.

Desde muito cedo, os sujeitos estão expostos ao desafio de viver e compreender o espaço ao seu redor. Essas experiências são fundamentais para a formação da consciência de si e do mundo em que vivem, desenvolvendo condições cognitivas e afetivas para se organizar espacialmente, localizar-se a partir de indicadores espaciais reais ou representados ou para estabelecer relações com objetos externos.

Assim, o espaço, objeto de estudo da Geografia, não é meramente um substrato sobre o qual as dinâmicas sociais se desenrolam: é uma dimensão viva dessas dinâmicas. Ele é formado pela articulação entre os objetos técnicos e os elementos da natureza, animados por fluxos de matéria e informação. É preciso considerar, na compreensão do mundo, como se inter-relacionam o território nacional, a região e os lugares, em múltiplas escalas, assunto que será tratado no último capítulo.

Não se deve achar com isso que os estudos de Geografia excluem a imaginação e a criatividade. Pelo contrário, não se pode perder de vista a perspectiva integrada e interdisciplinar, procurando-se respostas às indagações tanto no campo de reflexão do saber geográfico quanto na sua fronteira com outros campos do conhecimento por meio do domínio de múltiplas linguagens. Isso porque a revolução técnico-científica e informacional alterou profundamente os valores das coisas e das relações entre as pessoas com os lugares. Dentre tantos outros temas que estão na ordem do dia, é preciso entender a velocidade em que circula a informação, o complexo jogo político entre as nações, a dinâmica que modifica o traçado das fronteiras políticas internacionais, o crescimento das cidades e a qualidade da vida urbana, as transformações da vida no campo e as questões ambientais. São temas que exigem o aprofundamento da análise da dimensão espacial da vida social.

Isto não quer dizer que a Geografia da saúde deve se transformar numa nova especialidade do campo geográfico. Não precisamos de mais disciplinas. “O que une todas as disciplinas é o mundo. Perdendo-se o mundo como elo central, perde-se a unidade de pensamento dos problemas” (Santos, 2003).

A mensagem mais importante que quero deixar aqui é de esperança: a busca da utopia. Sem ela não é possível pensar. O pensamento não é produzido a partir do que houve, nem do que há. “O pensamento portador de frutos é produzido a partir do que pode ser. Uma ideia aqui ou ali parece frágil, mas pode ter força” (Santos, 2003).

 

Tema para o debate

Para Kossoy (2001), o registro fotográfico é resultado de uma trajetória que combina três elementos. O primeiro deles é o propósito do fotógrafo ou de quem lhe encomendou a foto, o que pode ser revelado por certas características da imagem, desde o enquadramento até a composição de luz e sombras. Outro elemento é o lugar onde o registro foi realizado, o que oferece o repertório do contexto no qual se insere a cena fotografada. Por fim, o terceiro elemento, não menos importante, diz respeito às emoções e sensações que uma imagem desperta em quem a observa. Procure avaliar a combinação desses elementos ao observar a fotografia da

Figura 6.

Figura 6 – Criança brincando na praça em dia de sol, Bristol (Reino

Unido), 2000

 

Foto: Raul Borges Guimarães.

Com base nos elementos observados e suas impressões do registro fotográfico, reflita a respeito da saúde humana, do ponto de vista geográfico. Considere para isso as relações entre o individual e o coletivo, as experiências corporais, as conexões do homem com o meio, além dos sentimentos que despertam.

 

Sugestões de leitura

ALVES, N. C.; GUIMARÃES, R. B. Escala geográfica, câncer de mama e corpo feminino. Revista Latino-Americana de Geografia e Gênero, v.1, n.2, p.245-53, 2010.

CAIAFFA, W. T. et al. Saúde urbana: “a cidade é uma estranha senhora, que hoje sorri e amanhã te devora”. Ciênc. Saúde Coletiva, v.13, n.6, p.1785-96, dez. 2008.

CHIMIN JUNIOR, A. B.; FIOVANTES, K. E. Geografia do corpo: ensaios de geografia cultural. Revista Latino-Americana de Geografia e Gênero, v.1, n.1, p.157-8, 2010.

RODRÍGUEZ, M. T. Vivencias de sujetos en procesos transexualizadores y sus relaciones con el espacio urbano de Santiago de Chile. Presidente Prudente, 2012. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.