Saúde, trabalho e formação profissional

Antenor Amâncio Filho · Capítulo 1 de 16

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Saúde, trabalho e formação profissional

Prefácio

 

 

Em 1989, quando a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fundação Oswaldo Cruz, realizou o seminário Choque Teórico II, sobre o tema "Saúde, trabalho e formação profissional", colocava um desafio aos participantes: daquele evento deveriam brotar sementes de novas propostas para a formação de profissionais, para a superação do conceito de que o trabalhador de saúde é um 'recurso' que dá sustentação ao sistema de saúde.

O seminário aglutinou um conjunto de profissionais comprometidos com um projeto educacional preocupado com o homem e não com o mercado de trabalho, em busca de referenciais capazes de resgatar a unidade entre teoria e prática, entre o saber e o fazer. Nele discutiram-se desde as concepções de saúde até a qualificação necessária aos trabalhadores diante dos novos desafios tecnológicos colocados pela sociedade.

Nos debates, analisou-se a concepção médica sobre doença, que é a hegemônica, enquanto base para todo o processo tradicional de intervenção dos profissionais. "É preciso educar a população para, pelo menos, entender e saber tratar as doenças." A partir daí, se coloca a transmissão de determinado saber como finalidade da atuação profissional, sem que se considere a maneira como a sociedade (ou grupos dela) vê a questão e que códigos manipula.

Historicamente, as políticas públicas construídas em nosso país entenderam este binômio saúde-doença como uma dicotomia, fragmentando Saúde Pública e Medicina Curativa. Isto tanto do ponto de vista da articulação entre os diferentes níveis de atenção, quanto no tocante à organização dos serviços e sua gestão pelas diferentes esferas de governo. Nessa maneira de ver, uma coisa é prevenir, cuja responsabilidade cabe a uma dada esfera de governo, e outra é curar, o que compete a outra esfera, as quais mantêm entre si permanente embate na obtenção de recursos financeiros e de 'recursos humanos' para cumprir seus objetivos.

Discutiu-se também, no seminário, a privatização das ações e serviços de saúde, ocorrida no Brasil, que fortaleceu a concepção do processo saúde-doença, voltada para a força de trabalho, bem como o princípio da lucratividade do trabalho de prestação de cuidados de saúde. Debateu-se, ainda, o processo de trabalho em saúde, considerando, em primeiro lugar, que ele é parte de um processo geral e, portanto, compartilha características comuns com os demais; em segundo lugar, que é um serviço que se funda numa inter-relação pessoal particular e intensa. Ademais, é fragmentado, ainda que integre os aspectos intelectual e manual, tendo na regulação de sua produção um de seus aspectos mais complexos. Como atender, então, à intensa profissionalização e à exacerbada competitividade exigidas pelo processo produtivo atual?

Ε o seminário prosseguiu instigante, discutindo tanto a visão radical que separa a técnica da sociedade, quanto aquela que as funde, propondo uma compreensão do relacionamento entre ambas, que possuem racionalidades próprias, mas se questionam permanentemente.

As apresentações e os debates que se desenvolveram no seminário certamente alimentaram pistas e apontaram possibilidades que a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio vem implementando, servindo de base para os que atuam no sentido de alterar o referencial tradicional da formação de profissionais. É um dos modos encontrados pela Escola Politécnica de pensar-fazer, aprender-ensinar.

Arlindo Fábio Gómez de Souza

Sociólogo e sanitarista da Ensp/Fiocruz