Saúde, trabalho e formação profissional

Antenor Amâncio Filho · Capítulo 16 de 16

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Saúde, trabalho e formação profissional

Homenagem a Joaquim Alberto Cardoso de Melo

Homenagem a Joaquim Alberto

Cardoso de Melo 1

 

Feitos farão tão dignos de memória

Que não caibam em verso ou larga história

Os Lusíadas

Quincas, meu irmãozinho:

Não ria, você já sabia que eu ia começar com Camões. É sempre assim, e você merece. Criaram um prêmio com seu nome, e hoje, dia da entrega, me encarregaram da homenagem. Por que eu? Por sua causa. Porque nós éramos amigos. Por causa da nossa correspondência, que você publicou em livro. Bem, estou dizendo coisas que você já sabe. Sei que hoje você está acima dessas coisas. Mas tenha paciência, não se irrite, nem dê murros na mesa. Nós ainda estamos do lado de cá, e, você sabe, aqui é assim. O

livro foi um sucesso.2 Não? Ora, você já sabe que sim.

Certamente, foram os meus componentes narcíseos que me levaram, num primeiro movimento, ao texto que escrevi para o seu livro. Reli e gostei, transcrevo algumas passagens.

Sim, quero lhe informar, ainda, que escrevo com caneta de pena, de molhar no tinteiro, daquelas com que nós aprendemos a escrever no colégio. Ε ainda passei a limpo.

"Foi certamente a sua amizade por mim que fez com que fosse

eu o escolhido para a apresentação desta coletânea. Também

por amizade aceitei. Na primeira passada de olhos, tentando

ordenar o material, fiquei encantado em ler uma citação que

Sherrine Maria faz de uma passagem de Lewis Carrol:

Não se pode acreditar em coisas impossíveis, diz Alice. Suponho que tens falta de treino, diz a Rainha (...) Aconteceu-me, algumas vezes, acreditar em seis coisas impossíveis, antes do pequeno almoço.

Penso que nada seria mais adequado a um livro sobre

educação, especialmente um livro nascido na Escola Nacional

de Saúde Pública.

Edmar Terra Blois, o fundador desta casa (hoje, estátua no

nosso hall de entrada), costumava dizer: 'Vamos criar uma

escola, com fantasia e audácia.' Ε completava: 'Essa escola

será tanto mais competente, quanto mais se aproximar da

Universidade da Lapa.'

Ele se referia aos encontros no final da noite, entre cientistas,

poetas, filósofos, vagabundos e, naturalmente, prostitutas, nos

bares do bairro boêmio.

Ε Sávio Antunes - estamos devendo a ele a homenagem mais

do que merecida e que ainda não veio -, companheiro de Blois,

também grande figura desta casa e que tão profundamente

marcou a nossa maneira de pensar, acrescentava: 'Lá, os

debates eram muito mais estimulantes do que nas salas de aula

da Faculdade.'

Era a nossa escola no seu início, nos seus tempos heróicos,

cujo espírito você soube tão bem captar e desenvolver. Livre,

como deve ser todo centro de ensino, um pouco anárquica,

como também deve ser, e com muita audácia. Apostando no

futuro."

Foi audácia, naqueles tempos, a criação do Departamento de Ciências Sociais. Não a partir da organização das bases, através de lutas e sacrifícios, como já ouvi ser afirmado pelos corredores, mas pela vontade soberana de um déspota esclarecido. Lamento, mas, meninos, eu vi.

Como você se lembra, Quincas, estávamos ambos em excelente estado de espírito naquela época.

Passo os olhos por outra passagem:

"Faz frio aqui em Petrópolis. Depois do jantar e de uma

costumeira caminhada pelos jardins de Turris Eburnea com

Branca Maria e nosso cão, fui para o escritório para uma leitura

mais atenta dos textos."

O cão, nosso querido Leão, morreu, como você talvez saiba. Foi um dos seres mais inteligentes e afetuosos (razão e paixão) que conheci em toda a minha vida. Procure por ele aí, tenho certeza de que se tornarão bons amigos.

Ε ainda, outra passagem:

"São onze horas da noite. A essa hora, inexoravelmente, a

governanta me traz o chá. Branca Maria, encantadora como

sempre, vai ler, para mim, trechos da tese que está escrevendo,

O ensino nos tempos de Oswaldo, com toda a força da

evocação, que ela sabe tão bem fazer, do Rio belle époque."

A tese foi defendida e aprovada com láurea. Você também teve a sua participação. Lembra-se? Mas o meu egocentrismo não é absoluto. Passo então à sua carta. Afinal de contas, o homenageado é você.

" É que estou tentando ver se essa coletânea pode ser lançada

durante a IX Conferência Nacional de Saúde. Por um motivo

pessoal. Gostaria de levar meu sobrinho caçula, Luiz

Guilherme, para o lançamento, e para conhecer Brasília. Seria

um evento inesquecível para ambos."

Mais tarde, você me diria que nem isso era fundamental. Penso que, nessa época, você já estava muito mais próximo do Paraíso.

"Esta coletânea foi movida pela amizade, como você pode

notar. Esta é uma forma de amor que sempre me fascinou.

Desde o ginásio, quando aprendi, no Liceu Pasteur em São

Paulo, onde estudei durante nove anos, 'cantigas de amor' e

'cantigas de amigo' (...) Muito importante é a influência dos

'jovens educadores' sobre mim. São meus mestres." [ - sempre

esse charme, Quincas - ] 'Tenho um grande amor-amizade por

eles. Estou também muito entusiasmado com meu curso de

filosofia na Escola Politécnica Joaquim Venâncio.

Fico imaginando você e Branca Maria em 'Turris Eburnea',

daqui de Mambucaba, enquanto sirvo um chá com uísque e

algumas uvas-passas brancas [ - lembra das passas de

Esmirna? - ] servidas pelo meu mordomo (...).

Recebam, você e Bianca, um abraço afetuoso de seu irmão

muito amigo,

Joaquim Alberto."

Meu irmãozinho, como eu aprendi com você naquela época! Até breve, quando poderemos retomar as nossas conversas. De homens livres, sem a mínima preocupação com a platéia, fazendo a crítica da crítica. Livres, como só podem ser aqueles que têm o forte sentimento da morte.

Senhor Presidente da Fiocruz, meu irmãozinho Paulo Buss;

Senhor Diretor da Ensp, meu irmãozinho, muito mais jovem,

Adauto José; Meus senhores e minhas senhoras:

Joaquim Alberto Cardoso de Melo nasceu em Pirajuí, no Estado de São Paulo, a 26 de outubro de 1936. Estudos secundários, ele já nos contou na carta que me escreveu, no Liceu Pasteur. Curso de graduação em Odontologia na USP de 1957 a 1961. Curso de Saúde Pública na Faculdade de Saúde Pública de São Paulo em 1966. Na mesma Faculdade, Curso de Educação em Saúde em 1967. Doutorado na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas em 1976. Professor da Escola Nacional de Saúde Pública desde 1977, onde, no Departamento de Ciências Sociais - área de Educação -, ministrou cursos e orientou teses de mestrado e doutorado. Foi também, e com grande satisfação sua, professor de Filosofia da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio.

Participou de bancas de exame, de comissões, da organização de seminários e mesas-redondas. Em 1977, nos legou A Educação e as Práticas de Saúde, sua tese de doutorado.

Com Victor Valia, publicou, em 1987, Sem Educação, ou sem Dinheiro?; com Ramos e Soares, Quem Educa Quem?, em 1989. Em 1990, listava entre seus trabalhos terminados e ainda não publicados Trabalho, Educação e Saúde - da pedagogia a uma sócio-antropologia das investigações de saúde, e já anunciava seu livro Educação: razão e paixão, que sairia póstumo. Ainda em 1990, informava à Coordenação de Pós-Graduação o seu programa de pesquisa: "Consolidação de um quadro teórico-metodológico para a abordagem de trabalho e educação em saúde".

A lista é longa, e o seu prestígio nas questões de educação é por demais notório. Não cabe aqui análise crítica da obra, nem eu tenho competência para isto.

Por um desses estranhos acasos da vida, leio no discurso de posse de Sérgio Paulo Rouanet, na Academia Brasileira de Letras, uma citação de Lima Barreto: "Para se compreender bem um homem, não se procure saber como oficialmente viveu. Ε saber como ele morreu." Voltaremos ao tema.

Nossa amizade se aprofundou nos últimos anos de sua vida. Éramos da mesma geração, eu, um mês e três dias mais velho. Tínhamos em comum a memória de nossa época, nossos tempos de juventude.

Tínhamos lido e nos encantado com os mesmos livros. As histórias de Julio Verne (a inesquecível figura do capitão Nemo, Phileas Fogg e Passepartout, bem mais tarde imortalizados no cinema por David Niven e Cantinflas); as aventuras de Tarzã (que, no nosso tempo, era representado no cinema por John Weissmuller); e, passando da fantasia à realidade, as viagens do capitão Cook e a chegada de Amundsen ao Pólo Sul. E, voltando à fantasia, o eterno Sherlock Holmes; e, ainda, em livro ou no cinema, as histórias da Legião Estrangeira.

Ε os clássicos, aqueles que estudávamos no colégio, nos cursos de inglês, francês, latim e grego, e os que lemos por nossa conta.

Comentávamos a pedagogia daquele tempo. As histórias pitorescas de alguns professores. Ε o cinema, onde mesmo na matinê, só se entrava de paletó e gravata. As piadas da época, enfim, o mundo da nossa juventude.

Ε foi nessas conversas, leves e despretensiosas, muitas vezes com a presença de André, Bianca e Júlio, com quem implicávamos, que fomos ficando cada vez mais amigos.

Encontro ainda, em Rouanet (Mal Estar na Modernidade), uma passagem que teria sido muito bem-vinda se tivesse chegado às nossas mãos naquela época. É a seguinte: "Obelix não respeitava as normas de boas maneiras de Petrônio e, normalmente, os bárbaros brasileiros não circulam de black-tie nas colunas sociais. Comum, aos bárbaros antigos e modernos, é uma ignorância robusta, saudável e, quase diria, metódica. Nossos bárbaros são tão incapazes de citar o título de um romance de Stendhal, como um frígio do tempo de Augusto, de declamar uma ode de Catulo."

Nós já tínhamos passado a fase da crítica, agora fazíamos a crítica dos críticos. Com bom humor, era divertido. Nos uniu também, nessa época, o projeto educacional para a Escola Politécnica de Saúde. Homem de paixão, sabia se indignar, se irritava, vociferava, dava socos na mesa. Durante certa época, de charme, segundo me disse, passou a usar bengala.

Certa vez, no trânsito, um motorista disse algo que o irritou. Não teve dúvidas, respondeu às bengaladas. Uma bengala histórica, que, se me lembro bem, havia pertencido ao seu bisavô.

Mas também tinha savoir faire, ironia, sabia rir tranqüilo das mesquinharias da vida. Apaixonado pela Escola Politécnica, me disse: 'Vou ser professor de filosofia desses meninos. Isso é o que faz sentido para mim nesse momento.' Entrou com um requerimento pedindo transferência da Ensp para o Politécnico. Alguns dias depois, me mostrou a resposta. De início, uma série de elogios à sua pessoa, depois diziam que não podiam abrir mão de um quadro tão competente e, finalmente, que ele poderia, informalmente, dedicar-se em tempo integral à Escola Politécnica. Sorrindo, com uma expressão irônica, me disse: 'O que eles querem é a minha vaga'.

Seus cursos de filosofia foram um sucesso. Ε jamais fez a menor concessão. Jamais fez aquilo que se costuma chamar 'jogar para a platéia'. Hábito nefasto, tão comum nos dias de hoje e que, em português claro, se chama mentir.

Certa vez, André Malhão, que era seu assistente, me convidou para debater com os alunos O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Amador que sou, preparei perguntas e comentários sobre o período histórico correspondente e alguma coisa sobre a filosofia de Aristóteles. Acostumado a lidar com alunos de pós-graduação, fiquei admirado com a competência dos meninos. Como o Quincas tinha sido competente! Ε o André também.

Tinha os seus métodos pedagógicos próprios. Alguns alunos tinham o hábito de ouvir suas aulas com a cabeça deitada na carteira, de olhos fechados. À sua reprimenda, responderam que estavam prestando atenção. Na aula seguinte, deitou a cabeça na mesa, fechou os olhos e deu sua aula. Os alunos entenderam: era desagradável.

Mas o seu êxito fica claro nas homenagens que recebeu de diversas turmas. E, especialmente, no carinhoso cordel escrito para ele pelas alunas Tereza Cristina, Ruzia e Rozângela. Não resisto a transcrever algumas passagens:

Filosofar, eis a questão

Com seu cigarro no dedo

Elegante pareceu

Mas depois fumou um giz

Ε ninguém o entendeu

Pelo seu jeito disciplinado

Uma discussão surgiu

Mas foi o maior barato

Quando na aula ele latiu

Com seu jeito rude

Ele pareceu durão

Mas com seu coração de manteiga

Ele fica um baratão

e ainda:

As terças-feiras sem ele

Jamais seriam as mesmas

A sala, sempre uma rodinha

Ε ninguém apoiado sobre as mesas.

A vida só existe porque existe a morte. Todos sabemos disso, mas poucos são capazes de incorporar essa idéia ao sentimento. Negar a morte é negar a vida. São a mesma moeda.

Conheci três pessoas que se comportaram com a mais invejável dignidade diante da morte.

Meu pai, grande clínico e professor, quando alguns dos seus discípulos procuravam atenuar o seu prognóstico, dizia no tom habitual: 'Não seja idiota, você aprendeu comigo, e não foi isso que eu te ensinei.'

Foi sereno, nada de ordens, façam isso ou façam aquilo. Nenhum lamento também. Lembro-me da serenidade que havia em seus olhos, quando me dizia, depois da saída de uma visita que falara, durante horas, sobre temas do momento: 'Isso não me interessa mais, prefiro ler as histórias do Pato Donald.'

A mãe da Bianca, dona Mercedes. Mais jovem do que eu. Nem queixas, nem lamentos e, principalmente, nenhum teatro. Lembro-me de um almoço no Praia Bar, poucos dias antes de sua morte. Como as dores fossem fortes, deitou a cabeça sobre a mesa. Quando viu que tínhamos percebido, sorriu suave, ergueu a cabeça e retomou a conversa. Nenhuma explicação, não havia necessidade. Nenhum gesto pretensamente heróico. Simplesmente retomou a conversa. Lembra a morte de Petrônio e Eunice.

A terceira pessoa foi Joaquim Alberto. Conhecedor do diagnóstico, ele como que cresceu, e muito. Ganhou mais segurança no gesto e elegância na postura, e até no trajar.

Acredito que tenha atingido uma dimensão do humano raramente alcançada. Conseguido o encontro consigo mesmo, a sua individualidade, a sua liberdade, a harmonia da paixão e razão.

Difícil exprimir isso em palavras. Nessa época, conversávamos sobre a busca da individualidade, de o homem ser capaz de ouvir o seu coração, de olhar de frente os fantasmas que trazemos dentro de nós. Sem medo. O encontro da liberdade. Só a partir daí, o homem seria capaz de deixar ao mundo a sua mensagem, clara e sem mentir. Fazíamos a crítica do mundo massificado. Ainda aqui, Rouanet: Ά individualidade submerge cada vez mais no anonimato do conformismo e da sociedade de consumo.' Não se trata tanto de pensar os pensamentos que todos pensam, mas de comprar os videocassetes que todos compram, nos aviões charter em que todos viajam para Miami. Os sanitaristas apresentam, com júbilo, as taxas que evidenciam o prolongamento da vida. Quanto mais longo esse tempo, mais êxito, mais progresso. Mas nunca estão satisfeitos, sempre querem oferecer ao homem mais e mais tempo sobre a terra. Lendo certos artigos, penso que há aí embutido um sonho de imortalidade antigo, arcaico.

Nada de bom nessa imortalidade, a vida só é fascinante porque existe o risco e a morte. Só há vida porque existe a morte. Passo a palavra ao mestre Jorge Luis Borges, o imortal, em O Aleph, publicado em 1949, em tradução livre de Ludovicus Tertius Cuanabarinus:

"Em Londres, nos primeiros dias de junho de 1929, o antiquário

Joseph Cartaphilus, de Esmirna, ofereceu à princesa de

Lucinge os seis volumes em quarto menor (1715-1720) da

llíada de Pope. A princesa os adquiriu e, ao recebê-los, trocou

com ele algumas palavras. Era, disse-nos ela, um homem

envelhecido, terroso, de pele cinzenta e barba cinzenta, com o

olhar singularmente vago. Se exprimia, com fluidez e

ignorância, em várias línguas; em poucos minutos, passou do

francês ao inglês e do inglês a uma enigmática mistura do

espanhol de Salonica com o português de Macau. Em outubro,

um passageiro de Zeus informou à princesa que Cartaphilus

havia morrido ao regressar à Esmirna e que fora enterrado na

ilha de los. No último tomo da llíada, foi encontrado o

manuscrito que segue."

Leio apenas algumas passagens mais significativas, procurando dar coerência à história:

"Me disse ele que, a partir da outra margem do rio, se situava a

Cidade dos Imortais. (...) Não me lembro se alguma vez

acreditei na Cidade dos Imortais, mesmo assim me dediquei

com afinco a buscá-la. Flavio, procônsul de Getulia, me cedeu

duzentos homens para a tarefa. (...) Partimos de Arsinoe e

entramos no tórrido deserto. Atravessamos o país dos

trogloditas, que devoram serpentes e não fazem uso das

palavras. (...) A todos nós parecia inconcebível que em regiões

tão bárbaras, onde a terra gera tais monstros, pudesse estar

situada a cidade. (...)

Depois de longas marchas, vi o que, sem dúvida alguma, era a

Cidade dos Imortais. (...) Junto a ela, homens de pele cinzenta,

barba emaranhada e inteiramente nus. Sou capaz de

reconhecê-los, pertencem à estirpe bestial dos trogloditas, que

habitam as margens do mar Arábico e as grutas da Etiópia. Não

me espantei que não falassem e que devorassem serpentes

(...) como estivesse faminto, sedento e exausto, caí por terra.

Os trogloditas não me ajudaram nem a viver, nem a morrer.

Foram indiferentes quando lhes pedi que me matassem. (...)

Quando, finalmente, consegui me levantar, eu. Marco Flamínio

Rufo, tribuno militar de uma das legiões de Roma, comi a minha

primeira ração de carne de serpente. (...) Mas o desejo de ver

os imortais, de entrar na maravilhosa cidade, me dava forças

para prosseguir. (...) Mas quando consegui chegar, senti medo

e repugnância. (...) Um labirinto é construído para confundir os

homens, sua arquitetura simétrica tem uma finalidade. Mas, no

palácio que eu via, a arquitetura era sem nenhum objetivo.

Corredores sem saída, janelas inalcançáveis. Uma porta

majestosa dava para um poço. (...) Quem ouve com atenção o

meu relato há de se lembrar que um homem da tribo me seguiu

como um cão até a base da muralha. (...) Essa noite me dispus

a ensiná-lo a reconhecer e, quem sabe, a repetir, algumas

palavras. (...) A humildade e a miséria do troglodita me

trouxeram à memória a imagem de Argos, o velho cão

moribundo da Odisséia, e por isso lhe pus o nome de Argos e

procurei ensiná-lo. Fracassei e tornei a fracassar. (...) Pensei

que Argos e eu pertencêssemos a universos distintos, pensei

que nossas percepções eram iguais, mas que Argos as

combinava de outra maneira e, com ela, construía outros

objetos. Pensei que talvez não existissem objetos para ele, mas

um rápido e contínuo jogo de impressões brevíssimas. Pensei

em um mundo sem memória e sem tempo. (...) Muitos anos se

passaram, até que certa manhã choveu torrencialmente. (...)

Corri nu para a chuva. (...) Argos gemia.. (...) Argos, então eu

lhe gritei, Argos! (...) Foi quando, como se descobrisse algo

perdido e esquecido há muito tempo, ele balbuciou: 'Argos, o

cão de Ulisses'. Eu lhe perguntei, então: 'O que você sabe da

Odisséia?' A prática do grego lhe era penosa.Tive que repetir a

pergunta. 'Muito pouco', disse. 'Menos que o rapsodo mais

vulgar. Já se passaram mil e cem anos, desde que eu a

inventei'. Então, tudo se tornou claro para mim: os trogloditas

eram os imortais."

Mas o tempo já vai longe, e para nós, mortais, do lado de cá, ele é fundamental. É tempo de terminar, e termino com uma passagem do

Quincas com Roland3 4 em artigo de abertura do livro:

"Poder resgatar aquilo que move, comove, emociona. Não seria

esse um caminho possível para o reencantamento do universo,

um reencontro com a vida, mesmo que seja para a morte?"

Luiz Fernando Ferreira

Professor Titular da Ensp/Fiocruz

 

Outros títulos da editora Fiocruz em catálogo *

Estado sem Cidadãos: seguridade social na América Latina. Sônia Fleury, 1994. 249p.

Saúde e Povos Indígenas. Ricardo Santos & Carlos E. A. Coimbra (Orgs.), 1994. 251 p.

Saúde e Doença: um olhar antropológico. Paulo César Alves & Maria Cecília de Souza Minayo (Orgs.), 1994.174p. Principais Mosquitos de Importância Sanitária no Brasil. Rotraut A. G. B. Consoli & Ricardo Lourenço de Oliveira, 1994.174p.

Filosofia, História e Sociologia das Ciências I: abordagens contemporâneas. Vera Portocarrero (Org.), 1994. 268p. Psiquiatria Social e Reforma Psiquiátrica. Paulo Amarante (Org.), 1994. 202p.

O Controle da Esquistossomose. Segundo relatório do Comitê de Especialistas da OMS, 1994.110p.

Vigilância Alimentar e Nutricional: limitações e interfaces com a rede de saúde. Inês Rugani R. de Castro, 1995.108p. Hanseníase: representações sobre a doença. Lenita B. Lorena Claro, 1995.110p.

Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira. Nara Britto, 1995.111 p.

A Responsabilidade pela Saúde: aspectos jurídicos: Hélio Pereira Dias, 1995. 68p.

Sistemas de Saúde: continuidades e mudanças. Paulo M. Buss & Maria Eliana Labra (Orgs.), 1995. 259p. Só Rindo da Saúde. Catálogo de exposição itinerante de mesmo nome, 1995. 52p.

A Democracia Inconclusa: um estudo da Reforma Sanitária brasileira. Silvia Gerschman, 1995. 203p. Atlas Geografico de Ias Malformaciones Congénitas en Sudamérica. Maria da Graça Dutra (Org.), 1995. 144p. Ciência e Saúde na Terra dos Bandeirantes: a trajetória do Instituto Pasteur de São Paulo no período 1903-1916. Luiz Antonio Teixeira, 1995.187p.

Profissões de Saúde: uma abordagem sociológica. Maria Helena Machado (Org.), 1995.193p.

Recursos Humanos em Saúde no Mercosul. Organização Pan-Americana da Saúde, 1995.155p.

Tópicos em Malacologia Médica. Frederico Simões Barbosa (Org.), 1995. 314p.

Agir Comunicativo e Planejamento Social: uma crítica ao enfoque estratégico. Francisco Javier Uribe Rivera, 1995. 213p. Metamorfoses do Corpo: uma pedagogia freudiana. Sherrine Njaine Borges, 1995.197p.

Política de Saúde: o público e o privado. Catalina Eibenschutz (Org.), 1996. 364p.

Formação de Pessoal de Nível Médio para a Saúde: desafios e perspectivas. Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (Org.), 1996. 222p.

Tributo a Vênus: a luta contra a sífílis no Brasil, da passagem do século aos anos 40. Sérgio Carrara, 1996. 339p. O Homem e a Serpente: outras histórias para a loucura e a psiquiatria. Paulo Amarante, 1996.141 p. Raça, Ciência e Sociedade. Ricardo Ventura Santos & Marcos Chor Maio (Orgs.), 1996. 252p. (Co-edição com o Centro Cultural Banco do Brasil)

Biossegurança: uma abordagem multidisciplinar. Pedro Teixeira & Silvio Valle (Orgs.), 1996. 364p.

VI Conferência Mundial sobre a Mulher. Série Conferências Mundiais das Nações Unidas, 1996. 352p. (Co-edição com o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher). Prevención Primaria de los Defectos Congênitos. Eduardo E. Castilla, Jorge S. Lopez-Camelo, Joaquin Ε. Paz & lêda M. Orioli, 1996.147p.

Clínica e Terapêutica da Doença de Chagas: uma abordagem prática para o clínico geral. João Carlos Pinto Dias & José Rodrigues Coura (Orgs.), 1997. 486p.

Do Contágio à Transmissão: ciência e cultura na gênese do conhecimento epidemiológico. Dina Czeresnia, 1997.120p. A Endemia Hansênica: uma perspequitiva multidisciplinar. Marcos de Souza Queiroz & Maria Angélica Puntel, 1997.120p. Avaliação em Saúde: dos modelos conceituais à prática na análise da implantação de programas. Zulmira Maria Araújo Hartz (Org.), 1997.120p.

Fome: uma re(leitura de Josué de Castro). Rosana Magalhães, 1997, 87p.

A Miragem da Pós-Modernidade: democracia e políticas sociais no contexto da globalização. Silvia Gerschman & Maria Lúcia Werneck Vianna (Orgs.), 1997. 226p.

Eqüidade e Saúde: contribuições da Epidemiologia. Rita Barradas Barata, Maurício Lima Barreto, Naomar de Almeida Filho e Renato P. Veras (Orgs). Série Epidemiológica, vol I. 260p. (Co-edição com a Abrasco.

Diários de Langsdorff- Vol I (Rio de Janeiro e Minas Gerais, 08 de maio de 1824 a 17 de fevereiro de 1825), 400p e Vol. II (São Paulo, de 26 de agosto de 1825 a 22 de novembro de 1826). Danúzio Gil Bernadino da Silva (Org.), 1977. 333p. (Co-edição com Assoc. Intern. Estudos Langsdorff e Casa de Oswaldo Cruz)

Os Médicos no Brasil: um retrato da realidade. Maria Helena Machado (Coord.), 1997. 246p.

 

* por ordem de lançamento/ano.

1 Discurso proferido em 11/03/94, em Manguinhos, por ocasião da entrega do prêmio Joaquim Cardoso de Melo a Luís Castiel.

2 O autor refere-se ao livro Educação: razão e paixão, organizado por J. A. C. de Melo, publicado pela Ensp/Fiocruz, em 1993 (Nota dos Orgs.).

3 Referência a Fermin Roland Schramn, pesquisador da Ensp/Fiocruz (Nota dos Orgs).

4 Trata-se do mesmo livro a que se referiu no início deste texto: Educação: razão e paixão (Nota dos Orgs).

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