Semiótica e Pragmatismo: Interfaces Teóricas, Volume 1

Apresentação

 

Os ensaios publicados neste primeiro volume dos Collected Essays do Professor Ivo Assad Ibri são de grande importância para a comunidade de acadêmicos e estudantes de filosofia, mas não apenas. Os temas abordados nas páginas a seguir, na verdade, são de considerável interesse para quem tem sensibilidade e atenção à condução das práticas culturais e, principalmente, às expressões artísticas e sua total relação com outras áreas do patrimônio da reflexão e do conhecimento que qualificam o mundo humano.

Não é coincidência que o estilo de escrita que caracteriza a produção filosófica de Ivo Assad Ibri seja excepcionalmente fascinante e incorpore sua paixão pessoal pela arte, em particular pela poesia e pela música, nas quais possui competência indubitável. Em muitas páginas de seus escritos, paixão e competência artística se fundem efetivamente com o conhecimento preciso das obras filosóficas às quais o professor Ibri dedicou tantos anos de estudo e de interpretação crítica, oferecendo um exemplo concreto da impossibilidade de traçar fronteiras claras entre as disciplinas que compõem a história do nosso saber e a evolução de suas linguagens. Dessa forma, seus escritos demonstram que devem ser feitos esforços para traçar as profundas conexões que existem entre elas, ou seja, precisamos descobrir o fio vermelho que liga arte, lógica, ciência, ontologia, epistemologia.

A própria ordem em que os capítulos desse volume se apresentam, atesta o compromisso de olhar além dos limites disciplinares impostos pela filosofia acadêmica, compromisso esse que professor Ibri tem o mérito de colocar em um arcabouço teórico que recupera, de um modo completamente original, o valor requintadamente humano da metafísica. É um valor que lembra de perto a teoria fenomenológica proposta por Charles Sanders Peirce, o principal autor de referência do Professor Ibri. Ele não hesita em lidar com um dos temas mais espinhosos e, ao mesmo tempo, mais fascinantes da obra do fundador do pragmatismo: a relação imediata com os objetos que são oferecidos à nossa percepção, isto é, a primeiridade. Ela constitui a base do discurso filosófico e, acima de tudo, estabelece o início da cadeia de significados, em que o dar-se imediato dos objetos da realidade necessariamente tem implicação para o pensamento e a ação humanos.

Na primeiridade, que coincide com a maravilha da qual falam Platão ou Schiller, descortinam-se as múltiplas possibilidades oferecidas ao complicado e perene trabalho da mente humana, o seu esforço para compreender o universo, no qual está imersa a primeiridade e a necessidade de elaborar, gradativamente, projetos mais viáveis para poder habitá-lo. Como mostram os escritos do professor Ibri, a imediatidade e a capacidade de a absorver são um conjunto indissociável com a experiência do artista, que, no entanto, compartilha com o cientista, o filósofo, e, diria, mesmo com o artesão, o deleite da realidade objetiva que se faz presente, e o artista, como todos eles, se esforça para tirar proveito disso de acordo com os instrumentos e objetivos que são possíveis para cada um. Mas isso significa que a imediatidade se transforma e se reflete na mediação, ou seja, ela passa por meio da cadeia semiótica, da qual fala Peirce, retendo apenas uma pequena parte de sua figura original e, contudo, impondo-se como uma indicação inequívoca da presença de alguma alteridade, com a qual devemos necessariamente confrontar.

O gozo da imediatidade, de fato, coincide com a inefabilidade do seu conteúdo, com uma espécie de afasia que desafia o ser humano a superar, mediante a abertura de um olhar sobre os objetos do universo sabidamente livre de pré-conceitos e, acima de tudo, um olhar capaz de acolher o universo com o mesmo amor com o qual ele se oferece à nossa compreensão, como insiste Ivo Ibri. Assim, ele atribui um papel proeminente ao Agapismo de Peirce, dando-lhe um significado existencial que reúne a hipótese cosmológica peirciana para a qual Acaso, Amor e Lógica constituem o tecido do real. Os ensaios coletados neste volume nos lembram, com grande efetividade, que até mesmo a tríade de primeiridade, segundidade e terceiridade, salientada por Peirce, é o reflexo da trama da realidade, que, todavia, só poderá ser vislumbrada a partir de um olhar poético, ou seja, capaz de elevar-se acima dos meros dados objetivos que constituem o suporte da atividade cognitiva. Remanesce, com o professor Ibri, o mérito de nos ter convidado, com paixão, para refinarmos este olhar.

Durante os longos anos de sua atividade filosófica e sua excepcional capacidade de atrair, ao seu redor, estudiosos do pragmatismo de todo o mundo, o professor Ibri nos ensinou que, seguindo o realismo de Peirce, somos chamados a professar a falibilidade de nossas relações com a realidade, mas, também, a reconhecer que a essência dos objetos reais consiste propriamente na sua cognoscibilidade. E isso simplesmente significa que a velha antinomia da mente e do mundo deve dar lugar a uma dialética de profunda intimidade do ser humano com o universo. Pessoalmente, acredito que esta é uma das sugestões mais fecundas dos escritos de Ivo Ibri que, de qualquer forma, nos dão uma interpretação e um desenvolvimento original dos aspectos proeminentes do pensamento de Peirce.

 

Rosa M. Calcaterra 1

Universitá di Roma Tre