Semiótica e Pragmatismo: Interfaces Teóricas, Volume 1
Prefácio
A verdade e a justiça são forças da Natureza. As ideias civilizatórias levam adiante as novas incipiências do crescimento. As possibilidades melhorativas da Natureza se derramam sobre nós em cada momento. Para a nossa humanidade, a espécie mais plástica do planeta terra, a Natureza parece estar num compasso paciente, movendo-se lentamente em sua miríade de transformações evolucionárias; fases progressivas da civilização humana parecem acelerar o compasso das metamorfoses da Natureza. No entanto, em toda parte e todo tempo, a Natureza é o genius loci, possuída de Anaxagoreanas rationes seminales em inexauríveis proliferações. Natura naturans decreta a regra para a arte: a engenhosidade humana é o dom e vetor do gênio da própria natureza.
Nada é predeterminado. Tudo é maturação 2 .
Deixemos estas sentenças abrirem um caminho de acesso à filosofia de Charles S. Peirce, “o homem e suas obras”, considerada na plena maturação de suas conquistas filosóficas na história da filosofia. Ao mesmo tempo, que sirvam de antecipação ao conteúdo da erudita interpretação que Ivo Ibri faz da filosofia de Peirce.
O presente volume, projetado para ser um conjunto de dois volumes em português, reúne os principais ensaios, até o presente momento, da carreira de Ibri sobre Peirce e autores que com ele dialogaram, centrado estrategicamente ao redor (antes e depois) da publicação de sua magistral obra Kósmos Noetós: A Arquitetura
Metafísica de C. S. Peirce 3. Para pesquisadores atuais e, mais importantemente, para futuras gerações, homenageia décadas do papel de liderança que Ibri desempenhou nos estudos da filosofia peirciana no Brasil, bem como testemunha sua participação verdadeiramente mundial em conferências profissionais com foco nos campos da Filosofia e Pragmatismo norte-americanos.
Ao reconhecer Ivo Assad Ibri como um dos principais expoentes das interpretações qualitativas de Peirce no mundo hoje, refiro-me especialmente à sua concentração nos escritos tardios acerca da metafísica que sondam o coração e a alma das contribuições essenciais de Peirce à história da filosofia. A expertise de Ibri será vista como consistindo em suas precisas reformulações do inteiro arcabouço filosófico de Peirce, não apenas na busca de tópicos menores especializados. É sempre a visão do todo, incluso o papel preponderante de reconhecer a origem poética schellinguiana no corpus da obra de Peirce. O papel de Ibri em demonstrar a origem schellinguiana do pensamento peirciano tem sido uma mudança de paradigma na interpretação acadêmica de Peirce. De certo modo, o status de Peirce como um grande filósofo na história da filosofia vem
à tona com esta mesma consideração 4.
O sistema de ideias de Peirce exibe um desenvolvimento teleológico no curso de cinco décadas de interesses e atividades polimáticas. Ao longo deste desenvolvimento, Peirce herdou uma corrente principal de empirismo metafísico progressivo em meados do século XIX e o levou adiante até a primeira década do século XX. Eu me refiro a uma corrente principal de inteligência prospectiva a posteriori nos registros de fundo da teoria filosófica normativa. As linhas que são marcos dessa corrente principal podem ser referidas aos legados de Kant, Fichte e Schelling – houve, certamente, outros menores, tributários do pensamento moderno.
No contexto de seu tempo, os escritos filosóficos de Peirce tinham o efeito catalisador de transmutar as variáveis da linha kantiana em conjunto com o crescente desenvolvimento científico do século de Darwin. Peirce teve notícia pela primeira vez da Origem das Espécies, de 1859, quando, aos seus 20 anos, fazia levantamento topográfico nas matas de Louisiana. Ele comentou ali mesmo, naquele momento, que a interpretação da obra de Darwin não se sustentaria dentro dos limites de uma concepção nominalista e mecanicista da filosofia. Este desafio estava alinhado com sua aspiração prodigiosa de revisar as categorias de Kant em relação às formas de cognição epistêmica e ontológica. Com o passar do tempo, Peirce passou a desafiar a hegemonia dos métodos tradicionais de raciocínio dogmático a partir de premissas axiomáticas claras e distintas, girando efetivamente a direção da filosofia e da ciência – e, de forma mais abrangente, toda a lógica da investigação tout court, de ponta cabeça – por meio da priorização das formas probabilísticas da inferência válida funcionando de maneira indutiva e abdutiva, num universo em evolução vital de transformações simbólicas.
O Falibilismo de Peirce – Pragmatismo, Pragmaticismo e Semiótica ontológica e especulativamente gramatical – rearranjam o leque de ciências e artes com orientação para o futuro da razoabilidade intrinsicamente improvisadora da Natureza, revirando, assim, a inteira plataforma meramente formular do antropocentrismo nominalista na ciência, filosofia e na vida moderna em geral, em favor de uma lógica científica da investigação evidenciando as simetrias simbióticas e afinidades conaturais da mente e da Natureza.
Agora, como esclarecem os perspicazes ensaios de Ibri, os corolários contemporâneos das conquistas teoréticas de Peirce permanecem relevantes hoje. Como um exemplo, a linha hegeliana da inferência imanententemente discursiva – a lógica sublacional que ainda impulsiona uma versão da práxis marxista – fica evidente já ter sido eclipsada na arquitetura categorial de Peirce.
Igualmente, em plano fundacional, Peirce solapa a linha tradicional do positivismo lógico empirista que continua presente na academia profissional contemporânea. Vale mencionar, também, que, em grande parte, as ondas iniciais de pesquisa em Peirce vieram da ala analítica da academia, treinada no positivismo lógico.
Neste sentido, uma realização singular dos escritos de Ibri consiste em seu reconhecimento da absorção inovadora que Peirce faz da corrente principal do progressivo empirismo metafísico – no dizer de Schelling – que já minara as correntes hegeliana e psicológico-positivista. Refiro-me, especialmente, à obra clássica de Schelling, Investigações Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana, de 1809, que juntamente com outra obra mais tardia, A Fundamentação da Filosofia Positiva, nas Conferências de Berlin, 1841, merecem leitura cuidadosa como a proveniência do Falibilismo de Peirce em seu pleno escopo – epistêmico, cosmológico e ontologicamente semiótico.
A revolução copernicana sui generis de Kant virtualmente criou a filosofia moderna. O que significa dizer que as primeiras duas Críticas de Kant configuraram os conceitos fundacionais de Natureza e de Liberdade, decisivos para os vários projetos da modernidade filosófica como um todo. Kant levou estes dois conceitos fundacionais para a reflexão de sua terceira Crítica sobre a esperança transcendental, isto é, a possibilidade a priori da descoberta de formas específicas de licitude estética e teleológica, dentro da arbitrariedade contingente dos fenômenos. Concomitante a isso, a terceira Crítica de Kant postulou a teoria do gênio que inaugurou mudanças para certas sugestões de congenialidades harmoniosas entre fenômenos naturais e inteligência imaginativa – embora para Kant ainda na forma nominalista de inteligência apenas reguladora. No entanto, tal função a priori das formas estéticas e teleológicas do juízo reflexivo constitui uma imensa mediação na teoria de base de Kant ao sugerir um meio termo poético entre sua original dicotomia entre Natureza e Liberdade – um que é experimentado na interação simbiótica da natureza objetiva e da mente subjetiva ao longo de toda a gama de ciências e artes da descoberta heurística. Esta interação simbiótica foi posteriormente articulada por Friedrich von Schiller em termos de um instinto de jogo (Spieltrieb) nas suas Cartas sobre a Educação Estética do Homem (1795), obra que se tornou a primeira leitura filosófica de
Peirce enquanto graduando em Harvard5.
A próxima geração de kantianos procedeu subitamente a reconfigurar as três Críticas numa plataforma ainda mais elevada de especulação teorética propriamente dita. Ainda no tempo de vida de Kant, a Wissenschaftlehre de Fichte partiu na direção de reconstruir a dicotomia kantiana entre Natureza e Liberdade postulando um transcendentalismo mais radicalmente fundacional, a saber, levando em consideração a Natureza nas profundezas a priori da própria nóesis, uma dimensão unívoca da humana auto postulante
Liberdade per se 6 e überhaupt. A reformulação brilhante de Fichte do emprego binário por Kant de fenômenos (Natureza) e númeno (Liberdade), abriu possibilidades teoréticas para as carreiras especulativas de Schelling e Hegel, sem esquecermos da denúncia que Schopenhauer faz de Fichte, Schelling e Hegel, juntamente com sua reformulação excêntrica do dualismo de Kant. Com o passar do tempo, Schelling superou não apenas seu próprio fichteanismo – dele divergindo e, indiscutivelmente, superando também seu colega especulativo anterior, Hegel – ao engendrar o impulso em direção a uma teoria da liberdade metafísica e da racionalidade incorporada na natureza das coisas.
Sem dúvida, as iniciativas inovadoras de Schelling para expressar tal empirismo metafísico foram um salto quântico na história da filosofia. De sua parte, Peirce veio dar o apoio a todas as fases da carreira de Schelling, especialmente em sua obra Naturphilosophie, e se auto denominou “um schellinguiano, de um certo tipo”. Ele desenvolveu seu pragmatismo inicial como uma filosofia de inteligência intergeracional, orientada para o futuro, realisticamente consequencial em conjunto com a descoberta heurística no interior da variabilidade concreta da razoabilidade energética da Natureza.
À luz destas ideias, entre os muitos pronunciamentos valiosos de seu corpus textual, Peirce resume sua contribuição à inteira história da especulação filosófica na seguinte passagem exemplar:
O próprio ser do Geral, da Razão, consiste em seu governar acontecimentos individuais. Desse modo, a essência da Razão é tal que seu ser jamais poderá ser completamente aperfeiçoado. Deve ser sempre num estado de incipiência, de crescimento. É como o caráter de um homem que consiste nas ideias que ele conceberá e nos esforços que ele fará, e que se desenvolve tão somente na medida em que realmente surgem as ocasiões. No entanto, em toda sua vida, nenhum filho de Adão jamais manifestou plenamente o que estava dentro dele. Desse modo, então, o desenvolvimento da Razão requer como parte dela a ocorrência de mais eventos individuais do que poderão acontecer. Requer, também, toda a coloração de todas as qualidades de sentimento, incluso prazer em seu lugar devido entre os demais. Este desenvolvimento da Razão consiste, poderás observar, na incorporação, isto é, na manifestação. A criação do universo que não aconteceu numa certa semana muito ocupada de 4004 a.C., mas que está acontecendo hoje e jamais acabará, é o próprio desenvolvimento da Razão. Não vejo como alguém pode ter um ideal mais satisfatório do admirável que o desenvolvimento da Razão assim entendido. A única coisa cuja admirabilidade não se deve a uma ulterior Razão é a Razão em si, compreendida em sua plenitude, tanto
quanto podemos compreendê-la.7
Também, no contexto da priorização deste ensaio de 1903 do ideal Estético da Razão incorporada, Peirce estabelece em seguida um subsequente paralelismo entre as formas da razoabilidade Ética e Lógica:
Sob esta concepção, o ideal de conduta será realizar nossa pequena função na operação da criação dando uma mão na direção de tornar o mundo mais razoável aonde quer que, como reza o ditado, “cabe a nós” fazê-lo. Na lógica, será observado que o conhecimento é razoabilidade; e o ideal do raciocínio será seguir tais métodos que possam desenvolver o
conhecimento da maneira mais veloz.8
Podemos razoavelmente pedir mais? Aqui, Ivo Ibri nos oferece profundas e originais leituras dos entrelaçamentos multiformes do texto de Peirce.
David A. Dilworth
Stonybrook University
New York9