Shogun
Capítulo 61
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Duas manhãs depois,
Teranaga estava examinando as cilhas da sua sela. Habilmente fez o cavalo se ajoelhar, relaxando os músculos do estômago, e apertou a correia mais dois furos. Animal degenerado, pensou ele, desprezando os cavalos pelas constantes manhas, traições e periculosidade mal-humorada. Este sou eu, Yoshi Toranaga-noh-Chikitada-noh-Minowai~a, não uma criança qualquer de cérebro confuso. Esperou um momento forçou o cavalo a se ajoelhar de novo. O cavalo grunhiu o freio, e ele apertou as corïeias completamente.
— Bom, senhor! Muito bom
— disse o mestre de admiração. Era um homem velho, enrugado, tão forte quanto um barril de salmoura. — Muitos teriam ficado da primeira vez.
— Aí a sela do cavaleiro
teria escorregado e o idiota teria sido atirado ao chão e suas costas talvez estivessem quebradas ao meio-dia. Neh?
Os samurais riram.
— Sim, e merecendo isso,
senhor!
Em torno deles no estábulo
estavam guardas e falcoeiros, segurando falcões e gaviões encapuzados. Tetsu-ko, o peregrinus, estava no lugar de honra e, ao seu lado, menor, o único sem capuz, Kogo, o milhafre, seus olhos dourados e inclementes inspecionando tudo.
Naga aproximou-se a
cavalo.
— Bom dia, Pai.
— Bom dia, meu filho.
Onde está seu irmão?
— O Senhor Sudara está
esperando no acampamento, senhor.
— Bom — Toranaga sorriu
para o jovem. Depois, porque gostava dele, puxou-o a um lado. — Ouça, meu filho, em vez de ir caçar, escreva as ordens de batalha para eu assinar quando voltar esta noite.
— Oh, Pai — disse Naga,
explodindo de orgulho com a honra de formalmente aceitar o desafio lançado por Ishido, escrito pessoalmente por ele, pondo em execução a decisão, tomada na véspera pelo conselho de guerra, de ordenar aos exércitos que rumassem para os desfiladeiros. — Obrigado, obrigado.
— Depois: o Regimento de
Mosquetes tem ordens de partir para Hakoné ao amanhecer de amanhã. Depois: o comboio de bagagem chegará de Yedo esta tarde. Certifique-se de que esteja tudo pronto.
— Sim, certamente. Dentro
de quanto tempo iremos à luta?
— Muito em breve. Na noite
passada recebi notícias de que Ishido e o herdeiro partiriam de Osaka para revistar os exércitos. Portanto agora está resolvido.
— Por favor, perdoe-me
por não poder voar até Osaka como Tetsu-ko e matá-lo, e a Kiyama e a Onoshi, e resolver todo esse problema sem ter que incomodá-lo.
— Obrigado, meu filho. —
Toranaga não se deu ao trabalho de revelar a ele os monstruosos problemas que teriam que ser solucionados antes que tais mortes pudessem tornar-se um fato. Correu os olhos ao seu redor. Todos os falcoeiros estavam prontos. E os guardas. Chamou o mestre de caça para perto de si. — Primeiro vou até o acampamento, depois tomaremos a estrada costeira por quatro ris para o norte.
— Mas os batedores já se
encontram nas colinas... — O mestre de caça engoliu o resto da queixa e tentou se recompor. — Por favor, desculpe a minha, há, devo ter comido alguma coisa estragada, senhor.
— É o que parece. Talvez
você devesse passar a sua responsabilidade a outro. Talvez esteja com o raciocínio afetado, sinto muito — disse Toranaga. Se eu não estivesse usando a caçada como um disfarce, teria substituído o mestre de caça. — Hein? — Sim, sinto muito, senhor — disse o velho samurai. — Permita-me perguntar, há, o senhor gostaria de caçar nas áreas que escolheu a noite passada ou gostaria, há, gostaria de caçar ao longo da costa?
— Ao longo da costa. — Certamente, senhor. Por
favor, com licença, vou providenciar a alteração. — O homem saiu correndo. Toranaga manteve os olhos nele. É tempo de que ele se aposente, pensou sem maldade. Então notou Omi aproximando-se dos estábulos com um jovem samurai ao seu lado, que mancava muito, um cruel ferimento de faca ainda lívido no rosto, resultado do combate em Osaka.
— Ah. Omi-san! —
Retribuiu-lhes a saudação. — É esse o sujeito?
— Sim, senhor.
Toranaga chamou os dois à
parte e interrogou o samurai habilmente. Fez isso por cortesia para com Omi, já tendo chegado às mesmas conclusões quando conversara com o homem na pri meira noite, assim como fora polido com o Anjin-san, perguntando o que continha a carta de Mariko, embora já soubesse o que Mariko escrevera.
— Mas, por favor, coloque
com as suas próprias palavras, Mariko-san — dissera ele antes que ela partisse de Yedo para Osaka.
— Devo entregar o navio
dele ao inimigo dele, senhor?
— Não, senhora — dissera
ele, enquanto os olhos dela se enchiam de lágrimas. — Não. Repito: você vai sussurrar ao Tsukku-san os segredos que me contou, imediatamente aqui em Ycdo, depois ao sumo sacerdote e a Kiyama em Osaka, e dizer a todos que sem o navio o Anjin-san não é ameaça para eles. E escreverá a carta ao Anjin-san conforme sugeri, agora.
— Eles destruirão o navio. — Tentarão fazer isso.
Claro que pensarão na mesma resposta por si mesmos, portanto, na realidade, você não estará revelando nada, neh?
— Pode proteger o navio
dele, senhor? — Será guardado por quatro mil samurais.
— Mas se tiverem êxito... o Anjin-san não vale nada sem o navio. Rogo pela vida dele.
— Não é preciso, Mariko-
san. Garanto-lhe que ele é valioso para mim, com ou sem um navio. Prometo-lhe. Diga-lhe também, na carta, que, se o navio dele se perder, que por favor construa outro.
__ O quê?
— Você me disse que ele
pode fazer isso, neh? Tem certeza? Se eu lhe der todos os carpinteiros e ferreiros?
— Oh, sim. Oh, como o
senhor é inteligente! Oh, sim, ele disse muitas vezes que é um construtor de navios...
— Tem toda a certeza,
Mariko-san?
— Sim, senhor.
— Bom.
— Então o senhor pensa
que os padres cristãos terão êxito, mesmo contra. quatro mil homens?
— Sim. Sinto muito, mas os
cristãos nunca deixarão o navio intacto, ou a ele mesmo vivo, enquanto o navio estiver flutuando e pronto para zarpar. É uma ameaça grande demais para eles. Esse navio está condenado, portanto não há mal em entregá-lo a eles. Mas você e eu sabemos e devemos saber que a única esperança do Anjin-san é construir outro navio. Sou o único que pode ajudá-lo a fazer isso. Resolva Osaka para mim e providenciarei para que ele construa o seu navio.
Eu disse a verdade a ela,
pensou Toranaga ali no amanhecer em Yokohama, por entre o odor de cavalos, excremento e suor, seus ouvidos mal ouvindo agora o sa? nurai ferido e Omi, todo o seu ser entristecido por Mariko. A vida é tão triste, disse a si mesmo; cansado dos homens, de Osaka, de jogos, que causavam tanto sofrimento à existência, por maiores que fossem os prêmios a atingir.
— Obrigado por me dizer,
Kosami — disse ele, quando o samurai terminou. — Agiu muito bem. Por favor, venha comigo. Vocês dois.
Toranaga voltou para junto
da sua égua e fê-la ajoelhar uma última vez. Desta vez ela choramingou, mas ele não apertou mais a cilha. — Cavalos são muito piores do que homens em traição — disse, a ninguém em particular, e saltou para a sela e saiu a galope, seguido de seus guardas, Omi, e Kosami.
No acampamento, parou.
Buntaro estava lá, ao lado de Yabu, Hiromatsu e Sudara, este com ura peregrinus no punho. Saudaram-no. — Bom dia -— disse ele jovialmente, chamando Omi com um gesto a participar da conversa, mas afastando todos os demais. — Está pronto, meu filho?
— Sim. Pai — disse
Sudara. — Mandei alguns dos meus homens para as montanhas, a fim de verificarem que os batedores sejam perfeitos para o senhor.
— Obrigado, mas decidi
caçar ao longo da costa. Imediatamente Sudara chamou um dos guardas e mandou-o a galope para trazer os homens de volta das colinas e conduzi-los para a costa. — Sinto muito, senhor, eu deveria ter pensado nisso e estar preparado. Por favor, desculpe-me.
— Sim. Então, Hiromatsu,
como vai o treinamento? Hiromatsu, a espada inevitavelmente frouxa nas mãos, fez uma carranca. — Ainda acho que isso é desonroso e desnecessário. Logo seremos capazes de esquecê-lo. Mijaremos em cima de 1shido sem este tipo de traição.
— Por favor, desculpe-me
— disse Yabu -, mas sem estas armas e esta estratégia, Hiromatsu-san, perderemos. Esta é uma guerra moderna, deste modo temos uma chance de vencer. — Olhou para Toranaga, que ainda não desmontara. — Fui informado durante a noite de que Jikkyu morreu.
— Tem certeza? —
Toranaga fingiu surpresa. Obtivera a informação secreta no dia em que partira de Mishima.
— Sim, senhor. Parece
que ele esteve doente algum tempo. Meu informante relata que ele morreu há dois dias — disse Yabu, regozijando-se abertamente. — O herdeiro é o filho dele, Hikoju.
— Aquele jovenzinho
enfatuado? — disse Buntaro, com desdém.
— Sim. Concordo que ele
não passa de um filhote. — Yabu parecia várias polegadas mais alto do que o habitual. — Senhor, isso não abre a estrada meridional? Por que não atacar pela estrada Tokaido imediatamente? Com a velha raposa morta, Izu está segura agora, e Suruga e Totomi estão tão indefesas quanto um. atum encalhado. Neh?
Toranaga desmontou
pensativo.
— Bem? — perguntou a
Hiromatsu calmamente.
O velho general respondeu
imediatamente:
— Se pudéssemos dominar
a estrada até o passo de Utsunoya e todas as pontes, e chegar á vertente Tenryu rapidamente — com todas as nossas comunicações garantidas -, retalharíamos o baixo-ventre de Ishido. Poderíamos conter Zataki nas montanhas, reforçar o ataque pela Tokaido e investir contra Osaka. Seríamos invencíveis.
— Enquanto o herdeiro
comandar os exércitos de Ishido — disse Sudara -, poderemos ser vencidos.
— Não concordo — disse
Hiromatsu.
— Nem eu, sinto muito —
disse Yabu.
— Mas eu concordo —
disse Toranaga, tão inexpressivo e grave quanto Sudara. Ainda não lhes falara sobre o possível acordo de Zataki em trair Ishido quando o momento fosse opor tuno. Por que deveria lhes dizer? pensou. Não é um fato ainda. Mas como é que você propõe pôr em prática o seu acordo solene com o seu meio irmão, casando-o com Ochiba se ele o apoiar, e ao mesmo tempo casar você mesmo com Ochiba, se for esse o preço dela? É uma pergunta razoável, disse-se ele. Mas é altamente improvável que Ochiba traia Ishido. Se o fizesse e esse fosse o preço, a resposta seria simples: meu irmão teria que se curvar ao inevitável.
Viu-os todos a olhá-lo.
— O que é?
Houve um silêncio. Então
Buntaro disse:
— O que acontece, senhor,
quando nos opomos à bandeira do herdeiro?
Nenhum deles jamais
formulara essa pergunta formalmente, diretamente e publicamente.
— Se isso acontecer, eu
perco — disse Toranaga. — Cometerei seppuku e aqueles que honram o testamento do táicum e a inconteste herança legal do herdeiro terão que se submeter com humildade, imediatamente, ao seu perdão. Os que não o fizerem não terão honra. Neh?
Todos assentiram. Então
ele se voltou para Yabu para concluir o negócio que estava à mão, e tornou-se cordial de novo.
— Entretanto, ainda não
estamos nesse campo de batalha, por tanto continuamos conforme planejamos. Sim, Yabu-sama, a estrada meridional é possível agora. De que morreu Jikkyu?
— De doença, senhor. — Uma doença de
quinhentos kokus?
Yabu riu, mas interiormente
ficou furioso de que Toranaga houvesse rompido a sua rede de segurança. — Sim — disse — eu presumiria que sim, senhor. Meu irmão lhe contou? — Tora naga assentiu e pediu-lhe que explicasse aos demais. Yabu aquiesceu, não descontente, pois era um estratagema inteligente, e contou-lhes como Mizuno, seu irmão, passara o dinheiro proveniente do Anjin-san a um ajudante de cozinheiro que fora introduzido na cozinha particular de Jikkyu.
— Barato, neh? — disse Yabu alegremente. — Quinhentos kokus pela estrada meridional?
Hiro-matou disse
rigidamente a Toranaga: — Por favor, desculpe-me, mas acho essa história repugnante.
Toranaga sorriu. — Traição
é uma arma de guerra, neh? — Sim. Mas não de um samurai.
Yabu indignou-se. — Sinto
muito, Senhor Hiro-matou, mas presumo que o senhor não tenha tido a intenção de me insultar? — Ele não teve a intenção. Teve, Hiro-matou? — disse Toranaga.
— Não, senhor — replicou o velho general. — Por favor, desculpe-me.
— Veneno, traição,
deslealdade, assassinato sempre foram armas de guerra, amigo velho — disse Toranaga. — Jikkyu era um inimigo e um imbecil. Quinhentos kokeís pela estrada meri dional não é nada! Yabu-sama serviu-me bem. Aqui e em Osaka. Neh, Yabu-san?
— Sempre tentei servi-lo
com lealdade, senhor.
— Sim, então, por favor,
explique por que matou o Capitão Sumiyori antes do ataque ninja — disse Toranaga.
O rosto de Yabu não se
alterou. Estava usando sua espada Yoshitomo, a mão, como sempre, frouxa sobre o punho da arma. — Quem diz isso? Quem me acusa disso, senhor?
Toranaga apontou para o
grupo de marrons a quarenta passos de distância. — Aquele homem! Por favor, venha aqui, Kosami-san. — O jovem samurai desmontou, avançou coxeando e curvou-se.
Yabu cravou-lhe os olhos.
— Quem é você, camarada?
— Sokura Kosami, da
Décima Legião, designado para a guarda pessoal da Senhora Kiritsubo em Osaka, senhor — disse o jovem. — O senhor me pôs de guarda à porta dos seus aposentos — e de Sumiyori-san -, na noite do ataque ninja.
— Não me lembro de você.
Atreve-se a dizer que matei Sumiyori?
O jovem hesitou. Toranaga
disse: — Diga-lhe!
Kosami disse num fôlego:
— Só tive tempo, senhor, antes de os ninjas caírem em cima de nós, de abrir a porta e gritar um aviso a Sumiyori-san, mas ele não se moveu. — Voltou-se para Toranaga, estremecendo sob o olhar de todos eles. — Ele... ele tinha sono leve, senhor, e foi só um momento depois de... isso é tudo, senhor.
— Você entrou no quarto?
Sacudiu-o? — pressionou Yabu. — Não, senhor, oh, não, senhor, os ninjas chegaram tão depressa, que recuamos imediatamente e contra-atacamos assim que pudemos, foi como eu disse...
Yabu olhou para Toranaga.
— Sumiyori-san estivera em serviço durante dois dias. Estava exausto — todos nós estávamos. O que isso prova? — perguntou a todos eles.
— Nada — disse Toranaga,
ainda cordial. — Mas mais tarde, Kosami-san, você voltou ao quarto. Neh?
— Sim, senhor, Sumiyori-
san ainda estava deitado nos futons do jeito que eu o vira e... e o quarto não estava em desordem, em absoluto, senhor, e ele tinha sido esfaqueado, senhor, esfa queado nas costas uma vez. Na hora pensei que tivessem sido os ninjas e mais nada, até que Omi-san me interrogasse.
— Ah! — Yabu voltou os olhos para o sobrinho, toda a sua hara centrada no seu traidor, medindo a distância entre eles. — Então você o interrogou?
— Sim, senhor — replicou
Omi. — O Senhor Toranaga pediu-me que reexaminasse todas as histórias. Essa foi uma das mais estranhas que achei que poderiam ser trazidas à atenção do nosso amo.
— Uma das mais
estranhas? Há outra?
— Seguindo as ordens do
Senhor Toranaga, interroguei os criados que sobreviveram ao ataque, senhor. Havia dois. Sinto muito, mas ambos disseram que o senhor atravessou os aposentos deles com um samurai e retornou pouco depois, sozinho, gritando: "Ninfas"! Então eles...
— Eles nos atacaram e
mataram o infeliz com uma lança e uma espada, e quase me abateram. Tive que recuar para dar o alarma. — Yabu voltou-se para Toranaga, cuidadosamente pondo os pés numa posição melhor para o ataque. — Já lhe tinha contado isso, senhor, tanto pessoalmente quanto no relatório escrito. O que criados têm a ver comigo?
— Bem, Otni-san? —
perguntou Toranaga.
— Sinto muito, Yabu-sama
— disse Omi -, mas ambos o viram abrir os ferrolhos de uma porta secreta no porão e ouviram-no dizer aos ninfas: "Sou Kasigi Yabu". Foi isso o que deu tempo a eles de se esconderem e não serem massacrados.
A mão de Yabu moveu-se
uma fração. Instantaneamente Sudara saltou para a frente de Toranaga para protegê-lo e no mesmo momento a espada de Hiromatsu disparou na direção do pescoço de Yabu.
— Pare! — ordenou
Toranaga.
A espada de Hiromatsu
parou, seu controle miraculoso. Yabu não fizera movimento algum. Encarou-os, depois riu, insolente. — Serei eu um ronin imundo que atacaria seu suserano? Este é Kasigi Yabu, senhor de Izu, Suruga e Totomi. Neh? — Olhou diretamente para Toranaga. — De que sou acusado, senhor? De ajudar ninfas? Ridículo! O que têm as fantasias de criados a ver comigo? São mentirosos! Assim como este sujeito, que insinua uma coisa que não pode provar e eu não posso justificar!
— Não há provas, Yabu-
sama — disse Toranaga. — Concordo integralmente. Não há provas em absoluto.
— Yabu-sama, o senhor
fez essas costas? — perguntou Hiromatsu.
— Claro que não!
— Mas eu acho que fez —
disse Toranaga -, portanto todas as suas terras estão confiscadas. Por favor, rasgue o ventre hoje. Antes do meio-dia.
A sentença era decisiva.
Era o momento supremo para o qual Yabu estivera preparado a vida toda.
Karma, pensou, o cérebro
trabalhando a uma velocidade frenética. Não há nada que eu possa fazer, a ordem é legal, Toranaga é meu suserano, eles podem me tirar a cabeça ou posso morrer com dignidade. De um jeito ou de outro estou morto. Omi traiu-me, mas esse é o meu karma. Os criados deviam ter sido todos mortos, conforme o plano, mas dois sobreviveram, e esse é o meu karma. Seja digno, disse-se ele, reunindo coragem. Pense com clareza e seja responsável.
— Senhor — começou ele,
com uma demonstração de audácia-, primeiro, sou inocente desses crimes, Kosami está enganado, e os criados são mentirosos. Segundo, sou o melhor general de batalha que o senhor tem. Imploro pela honra de comandar o ataque pela Tokaido — ou o primeiro lugar na primeira batalha -, de modo que minha morte seja de uso direto.
— É uma boa sugestão,
Yabu-san — disse Toranaga cordialmente -, e concordo sinceramente que o senhor é o melhor general para o Regimento de Mosquetes, mas, sinto muito, não confio no senhor. Por favor, rasgue o ventre afites do meio-dia. Yabu controlou a fúria cegante e satisfez sua honra como samurai e como líder do seu clã com a totalidade do seu autosacrifício. — Formalmente absolvo o meu sobrinho Kasigi Omisan de qualquer responsabilidade pela minha traição e formalmente o designo meu herdeiro.
Toranaga ficou tão
surpreso quanto todos os demais.
— Muito bem — disse. —
Sim, acho que isso é muito sábio. Concordo.
— Izu é o feudo hereditário
dos Kasigi. Lego-o a ele.
— Izu já não é seu para
dá-lo. O senhor é meu vassalo, neh?
Izu é uma das minhas
províncias, a ser dada conforme eu desejar, neh?
Yabu encolheu os ombros.
— Lego-o a ele, — Riu. — É um favor de vida. Neh?
— Pedir é justo. Sua
solicitação está recusada. E, Yabusan, todas as suas últimas ordens estão sujeitas à minha aprovação. Buntaro-san, você será a testemunha formal. Agora, Yabusan, a quem deseja como assistente?
— Kasigi Omi-san.
Toranaga olhou para Omi.
Omi curvou-se, — A honra será minha — disse.
— Bom. Então está tudo
arranjado.
— E o ataque pela
Tokaido? — disse Hiromatsu.
— Estaremos mais seguros
atrás das nossas montanhas. — Jovialmente Toranaga retribuiu-lhes o cumprimento, montou, e partiu a trote. Sudara fez um gesto polido de cabeça e seguiu-o. Assim que Toranaga e Sudara se encontraram fora de alcance, Buntaro e Hiromatsu se descontraíram, mas Omi não, e nenhum deles tirou os olhos do braço da espada de Yabu.
— Onde quer que seja,
Yabu-sama? — perguntou Buntaro. — Aqui, ali, na praia, ou num monte de bosta — para mim é tudo a mesma coisa. Não preciso de vestes cerimoniais. Mas, Omi-san, você não dará o golpe até que eu tenha feito dois cortes.
— Sim, senhor.
— Com a sua permissão,
Yabu-sama, também serei testemunha — disse Hiromatsu.
— Por que não se
preocupa com as suas hemorróidas?
O general indignou-se e
disse a Buntaro: — Por favor, mande me chamar quando ele estiver pronto.
Yabu cuspiu.
— Já estou pronto. O
senhor está?
Hiromatsu girou sobre os
calcanhares.
Yabu pensou um momento, depois tirou a espada Yoshitomo, embainhada, do sash.
— Buntaro-san, talvez
pudesse me fazer um favor. Dê isto ao Anjin-san. — Ofereceu a espada, depois franziu o cenho. — Pensando melhor, se não for incômodo, quer, por favor, mandar chamá-lo, para que eu possa entregar-lhe pessoalmente?
— Certamente.
— E, por favor, traga
aquele padre fedorento também, de modo que eu possa conversar diretamente com o Anjin-san.
— Bom. Que providências o senhor deseja que sejam tomadas?
— Só quero papel, tinta,
um pincel para o meu testamento e o meu poema de morte, e dois tatamis — não há razão para eu machucar os joelhos ou me ajoelhar no pó, como um camponês fedorento. Neh? — acrescentou Yabu, com bravata.
Buntaro dirigiu-se aos
outros samurais, que mudavam de posição de um pé para o outro, com uma excitação contida. Negligentemente Yabu sentou-se de pernas cruzadas e esgaravatou os dentes com um talo de grama. Omi acocorou-se perto, cautelosamente longe do alcance da espada.
— Iiiiih! — disse Yabu -,
estive tão perto do sucesso! — Esticou as pernas e martelou-as contra a terra num repentino acesso de raiva. — Iiiiiih, tão perto! Eh, karma, neh? Karma! — Depois riu sonoramente, pigarreou e cuspiu, orgulhoso de ainda ter saliva na boca. — Isto em todos os deuses, vivos, mortos ou que ainda vão nascer! Mas, Omi-san, morro feliz. Jikkyu está morto e quando eu cruzar o último rio e o vir esperando lá, rilhando os dentes, poderei cuspir-lhe no olho para sempre.
— Prestou um grande
serviço ao Senhor Toranaga, senhor — disse Omi, falando com sinceridade, embora o observasse como um falcão. — O senhor tinha razão, e Punho de Aço e Sudara estão errados. Poderíamos atacar imediatamente — as armas nos farão atravessar.
— Aquele velho monte de
esterco! Imbecil! — Yabu riu de novo. — Você o viu ficar roxo quando eu mencionei as hemorróidas dele? Ah! Pensei que elas iam explodir naquela hora. Samurai? Sou mais samurai do que ele! Vou mostrar a ele! Você não dará o golpe até que eu lhe dê a ordem!
— Posso humildemente
agradecer-lhe por me conceder essa honra, e também por me fazer seu herdeiro? Formalmente juro que a honra dos Kasigi estará segura nas minhas mãos.
— Se eu não pensasse
isso, não teria sugerido. — Yabu baixou a voz. — Você agiu certo me traindo a Toranaga. Eu teria feito o mesmo se fosse você, embora seja tudo mentira. É a desculpa de Toranaga. Ele sempre teve inveja das minhas proezas em combate, e da minha compreensão das armas de fogo e do valor do navio. É tudo idéia minha.
— Sim, senhor, eu me
lembro.
— Você salvará a família. É
tão astuto quanto um rato velho e sarnento. Conseguirá Izu de volta e mais — é tudo o que importa agora, e vai conservá-lo para os seus filhos. Você compreende as armas. E Toranaga. Neh?
— Juro que tentarei,
senhor.
Os olhos de Yabu deram com a mão de Omi sobre a espada, notando-lhe a postura alertamente defensiva. — Acha que vou atacá-lo?
— Sinto muito, claro que
não, senhor.
— Fico contente de que
você esteja em guarda. Meu pai era como você. Sim, você é muito parecido com ele. -— Sem fazer qualquer movimento brusco, colocou as duas espadas no chão, fora de alcance. — Pronto! Agora estou indefeso. Há alguns momentos queria vé-lo morto, mas agora não. Agora você não precisa me temer.
— É sempre necessário
temê-lo, senhor.
Yabu soltou uma risadinha
e chupou outro talo de grama. Depois atirou-o fora. — Ouça, Omi-san, estas são minhas ordens como senhor dos Kasigi. Você levará meu filho para a sua casa e o usará, como ele é digno de ser usado. Depois: encontre bons maridos para a minha esposa e a minha consorte, e agradeça-lhes profundamente por me terem servido tão bem. Quanto ao seu pai, Mizuno: ordeno-lhe que cometa seppuku imediatamente.
— Posso solicitar para ele a alternativa de raspar a cabeça e tornar-se monge?
— Não. Ele é imbecil
demais, você nunca poderá confiar nele — que atrevimento o dele, passar meus segredos a Toranaga! — e estará sempre no seu caminho. Quanto à sua mãe ... — Ele arreganhou os dentes - ... fica ordenada a raspar a cabeça, tornar-se monja, entrar num mosteiro fora de Izu e passar o resto da vida dizendo orações pelo futuro dos Kasigi. Budista ou xintoísta — prefiro xintoísta. Você concorda, xintoísta?
— Sim, senhor.
— Bom. Desse modo —
acrescentou Yabu com um deleite malicioso — ela parará de distraí-lo dos assuntos Kasigi com seus lamentos constantes.
— Será feito.
— Bom. Ordeno-lhe que
vingue as mentiras levantadas contra mim por Kosami e aqueles criados traiçoeiros. Cedo ou tarde, não me importa, desde que você o faça antes de morrer.
— Obedecerei.
— Esqueci de alguma
coisa?
Cuidadosamente Omi se
certificou de que não estavam sendo ouvidos. -— E quanto ao herdeiro? — perguntou com cautela. — Quando o herdeiro estiver em campo contra nós, perderemos, neh? — Pegue o Regimento de Mosquetes, abra caminho à força e mate-o, diga Toranaga o que disser. Yaemon é o seu alvo primordial.
— A minha conclusão
também era essa. Obrigado.
— Bom. Mas melhor do que
esperar todo esse tempo é colocar a cabeça dele a prêmio agora, secretamente, entre os ninjas... ou os Amidas.
— Como os encontro? —
perguntou Omi, um tremor de voz. — A bruxa velha, Gyoko, a Mama-san, é uma das que sabem como.
— Ela?
— Sim. Mas cuidado com
ela, e com os Amidas. Não os use levianamente, Omi-san. Nunca a toque, sempre a proteja. Ela sabe segredos demais e o pincel de escrita é um braço que se alonga da sepultura. Foi consorte não oficial de meu pai durante um ano... pode até ser que o filho dela seja meu meio irmão. Eh, cuidado com ela, sabe segredos demais.
— Mas onde arrumo
dinheiro?
— Isso é problema seu.
Mas arrume. Em qualquer lugar, de qualquer modo.
— Sim. Obrigado.
Obedecerei.
Yabu aproximou-se mais.
Imediatamente Omi se preparou, desconfiado, a espada quase fora da bainha. Yabu sentiu-se satisfeito de, mesmo indefeso, ainda ser um homem contra quem se acautelar. — Enterre este segredo muito profundamente. E ouça, sobrinho, seja um ótimo amigo do Anjin-san. Tente controlar a marinha que ele trará uni dia. Toranaga não compreende o valor real do Anjin-san, mas está certo em ficar atrás das montanhas. Isso dá a ele e a você tempo. Temos que sair da terra e nos pormos ao largo — nossos tripulantes nos navios deles -, com Kasigi no comando supremo. Os Kasigi devem se pôr ao mar, para comandar o mar. Ordeno.
— Sim... oh, sim — disse
Omi. — Confie em mim. Isso acontecerá.
— Bom. Por último, jamais confie em Toranaga.
Omi disse com toda a
sinceridade: — Não confio, senhor. Nunca confiei. E nunca confiarei.
— Bom. E quanto a esses
imundos mentirosos, não se esqueça, trate deles. E de Kosami. — Yabu suspirou, em paz consigo. — Agora por favor, com licença, preciso pensar no meu poema de morte.
Omi levantou-se, recuou e,
quando estava bem afastado, curvou-se e se afastou mais vinte passos. Em meio à segurança dos seus próprios guardas, sentou-se de novo e começou a esperar.
Toranaga e sua comitiva
trotavam ao longo da estrada costeira que contornava a ampla baía, o mar chegando quase até a estrada, do lado direito. Ali a terra era baixa e pantanosa, com muitos charcos. Algumas ris ao norte a estrada se unia à Tokaido, a artéria principal. Mais vinte ris ao norte ficava Yedo. Toranaga tinha cem samurais consigo, dez falcoeiros e dez aves sobre o punho enluvado dos falcoeiros. Sudara tinha vinte guardas e três aves, e cavalgava como vanguarda.
— Sudara! — chamou
Toranaga, como se fosse uma idéia súbita. — Pare na próxima estalagem. Quero comer alguma coisa!
Sudara acenou, dando a
entender que ouvira, e prosseguiu a galope. Quando Toranaga chegou, criadas curvavam-se e sorriam, o estalajadeiro fazendo mesuras com toda a sua gente. Guardas cobriam o norte e o sul, e suas bandeiras estavam orgulhosamente plantadas.
— Bom dia, senhor, por
favor, o que posso lhe servir para comer? — perguntou o estalajadeiro. — Obrigado por honrar a minha pobre hospedaria.
— Chá, e um pouco de
talharim com soja, por favor. — Sim, senhor.
A comida foi trazida numa
bela tigela quase imediatamente, cozida exatamente do modo como ele gostava, já que Sudara prevenira o estalajadeiro. Sem cerimônia, Toranaga se acocorou numa varanda e consumiu com prazer o prato simples, camponês, e observou a estrada à frente. Outros hóspedes se curvaram e foram tratar de seus próprios negócios, contentes, orgulhosos de se encontrarem na mesma hospedaria que o grande daimio. Sudara inspecionou os postos avançados, certificando-se de que estava tudo perfeito. — Onde estão os batedores agora? — perguntou ao mestre de caça.
— Alguns ao norte, alguns
ao sul, e tenho homens extras nas colinas ali. — O velho samurai apontou para o interior na direção de Yokohama, infeliz e transpirando. ~ Por favor, desculpe-me, mas o senhor tem alguma idéia de aonde nosso amo gostaria de ir?
— Nenhuma,
absolutamente. Mas não cometa mais enganos hoje.
— Sim, senhor.
Sudara terminou sua ronda,
depois apresentou-se a Toranaga. — Está tudo satisfatório, senhor? Há alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor?
— Não, obrigado. —
Toranaga terminou a tigela e tornou o resto da sopa. Depois disse numa voz inexpressiva: — Você estava correto no que disse sobre o herdeiro.
— Por favor, desculpe-me, tive medo de talvez tê-lo ofendido, sem intenção.
— Você estava certo — por
que eu ficaria ofendido? Quando o herdeiro se erguer contra mim, o que você fará?
— Obedecerei às suas
ordens.
— Por favor, mande o meu
secretário vir aqui e volte com ele.
Sudara obedeceu.
Kawanabi, o secretário — um ex-samurai e ex-sacerdote -, que sempre viajava com Toranaga, chegou rapidamente com a sua caixa de papéis de viagem, tintas, carimbos, e pincéis que se ajustavam no seu cesto de sela.
— Senhor?
— Escreva isto: "Eu, Yoshi
Toranaga-noh-Minowara, reemposso meu filho Yoshi Sudara-noh-Minowara como meu herdeiro, com todas as suas rendas e títulos restituídos".
Sudara curvou-se. —
Obrigado, Pai — disse, a voz firme, mas perguntando a si mesmo: por quê?
— Jure formalmente aceitar
todos os meus preceitos, testamentos — e o Legado.
Sudara obedeceu.
Toranaga esperou em silêncio até Kawanabi escrever a ordem, depois assinou e tornou-a legal com seu carimbo, um pequeno pedaço quadrado de marfim com seu nome esculpido a uma extremidade. Pressionou-o contra a tinta escarlate quase sólida, depois na base do papel de arroz. A marca saiu perfeita. — Obrigado, Kawanabi-san, ponha a data de ontem. É tudo por enquanto.
— Por favor, desculpe, mas
o senhor precisará de mais cinco cópias, para tornar a sua sucessão inviolável: uma para o Senhor Sudara, uma para o conselho de regentes, uma para a Casa de Registros, uma para os seus fichários pessoais, e outra para os arquivos.
— Faça-as imediatamente.
E dê-me uma cópia extra.
— Sim, senhor. -— O
secretário deixou-os. Toranaga olhou para Sudara e estudou o rosto estreito, inexpressivo. Quando fizera o anúncio deliberadamente repentino, Sudara não deixara transparecer nada, nem no rosto nem nas mãos. Nenhum contentamento, gratidão, orgulho — nem mesmo surpresa, e isso o entristeceu. Mas, pensou Toranaga, por que ficar triste, você tem outros filhos que sorriem, riem, cometem erros, gritam, enfurecem-se, "travesseiram" e têm muitas mulheres. Filhos normais. Este filho é para seguir você, para comandar depois que você estiver morto, para manter os Minowara unidos e passar o Kwanto e o poder a outros Minowara. Para ser gelado e calculista, como você. Não, não como eu, disse-se ele com sinceridade. Eu posso rir às vezes, ter compaixão às vezes, e gosto de peidar e "travesseirar", enfurecer-me, dançar, jogar xadrez, representar, e algumas pessoas me alegram, como Naga, Kiri, Chano e o Anjin-san, e gosto de caçar e vencer, vencer, vencer. Nada o alegra, Sudara, sinto muito. Nada. Exceto a sua esposa, a Senhora Genjiko. A Senhora Genjiko é o único elo fraco na sua corrente.
— Senhor? — perguntou
Sudara.
— Eu estava tentando me
lembrar de quando o vi rir pela última vez.
— Deseja que eu ria,
senhor?
Toranaga meneou a
cabeça, sabendo que educara Sudara para ser o filho perfeito para aquilo que tinha que ser feito. — Quanto tempo você levaria para se certificar de que Jikkyu está realmente morto?
— Antes de deixar o
acampamento, enviei uma mensagem cifrada de alta prioridade para Mishima, para o caso de o senhor já não saber se isso era verdade ou não, Pai. Terei uma resposta dentro de três dias.
Toranaga bendisse os
deuses por ter tido conhecimento antecipado da conspiração contra Jikkyu através de Kasigi Mizuno, e a notícia da morte desse inimigo. Por um momento reexaminou seu plano e não conseguiu encontrar falha alguma nele. Então, levemente nauseado, tomou a decisão. — Ordene aos Décimo Primeiro, Décimo Sexto, Nonagésimo Quarto e Nonagésimo Quinto regimentos, em Mishima, que se ponham em alerta imediatamente. Dentro de quatro dias lance-os pela Tokaido.
— Céu Carmesim? — perguntou Sudara, desconcertado. — O senhor vai atacar?
— Sim. Não vou esperar
que venham contra mim.
— Então Jikkyu está
morto? — Sim.
— Bom — disse Sudara.
— Posso sugerir-lhe que acrescente o Vigésimo e o Vigésimo Terceiro?
— Não. Dez mil homens
devem ser suficientes — com surpresa. Ainda tenho que defender toda a minha fronteira, para o caso de fracasso, ou de uma armadilha. E também há Zataki a conter.
— Sim — disse Sudara.
— Quem deve comandar o
ataque?
— O Senhor Hiromatsu. É
uma campanha perfeita para ele. — Por quê?
— É direto, simples,
conservador e dá ordens claras, Pai. Será perfeito para essa campanha.
— Mas já não é
conveniente como comandante-chefe?
— Sinto muito, Yabu-san
tinha razão, as armas de fogo mudaram o mundo. Punho de Aço está ultrapassado agora.
— Quem, então?
— Apenas o senhor. Até
depois da batalha, aconselho-o a não ter ninguém entre o senhor e a batalha.
— Considerarei isso —
disse Toranaga. — Agora, vá a Mishima. Você preparará tudo. A força de assalto de Hiromatsu terá vinte dias para atravessar o rio Tenryu e garantir a estrada Tokaido.
— Por favor, desculpe-me,
permita-me sugerir que o objetivo final deles seja um pouco adiante, o cume do Shiomi. Dê-lhes trinta dias.
— Não. Se eu der essa
ordem, alguns homens atingirão o cume. Mas a maioria será morta e não será capaz de desferir o contra-ataque, ou acossar o inimigo enquanto nossas forças se retiram.
— Mas certamente o
senhor enviará reforços imediatamente nos calcanhares deles?
— Nosso ataque principal
atravessa as montanhas de Zataki. Isto é uma simulação. — Toranaga estava avaliando o filho com todo o cuidado. Mas Sudara não revelou nada, nem surpresa, nem aprovação, nem desaprovação.
— Ah. Desculpe. Por favor, desculpe-me, senhor.
— Com Yabu morto, quem
deve comandar as armas de fogo?
— Kasigi Omi.
— Por quê?
— Ele as compreende.
Mais que isso, ele é moderno, muito corajoso, muito inteligente, muito paciente — e também muito perigoso, mais perigoso do que o tio. Aconselho-o, se o senhor vencer e ele sobreviver, a encontrar alguma desculpa para mandálo para o Vazio.
— Se eu vencer?
— Céu Carmesim sempre foi um último plano. O senhor disse isso cem vezes. Se formos batidos na Tokaido, Zataki descerá com tudo para as planícies. As armas não nos ajudarão então. É um último plano. O senhor jamais gostou de últimos planos.
— E o Anjin-san? O que
aconselha a respeito dele?
— Concordo com Omi-san
e com Naga-san. Ele deve ser refreado. O resto dos homens dele não representam nada — são etas e logo se devorarão entre si, portanto não são nada. Aconselho que todos os estrangeiros sejam contidos ou expulsos. São uma praga — a ser tratada como tal.
— Então não haverá
comércio de seda. Neh?
— Se o preço fosse esse,
eu pagaria. Eles são uma praga.
— Mas precisamos ter
seda e, para nos proteger, devemos aprender sobre eles, aprender o que sabem, rneh?
— Eles deveriam ser
confinados em Nagasaki, sob guarda muito cerrada, e seu número estritamente limitado. Ainda poderiam comerciar uma vez por ano. Dinheiro não é o motivo essencial deles? Não é o que diz o Anjin-san?
— Ah, então ele é útil? — Sim. Muito. Ensinou-nos
a sabedoria dos editos de expulsão. O Anjin-san é muito sábio, muito corajoso. Mas é um brinquedo. Ele o diverte, senhor, como Tetsu-ko, portanto é valioso, embora continue sendo um brinquedo.
— Obrigado pelas suas
opiniões. Assim que se desencadear o ataque, você regressará a Yedo e esperará outras ordens. — Disse-o deliberadamente. Zataki ainda detinha a Senhora Genjiko,
e o filho e três filhas do
casal, como reféns na sua capital, Takato. Por solicitação de Toranaga, Zataki concedera a Sudara uma permissão de ausência, mas apenas por dez dias, e Sudara solenemente concordara com o trato e com a volta nesse prazo. Zataki era famoso pela sua rigidez quanto à honra. Legalmente ele poderia, e o faria, aniquilar todos os reféns por causa desse ponto de honra, independentemente de qualquer tratado ou acordo aberto ou sigiloso. Tanto Toranaga quanto Sudara sabiam que sem dúvida alguma Zataki faria isso se Sudara não retornasse conforme o prometido. — Você esperará em Yedo por outras ordens.
— Sim, senhor.
— Parta imediatamente
para Mishima.
— Então poupará tempo se
eu for por aqui. — Sudara apontou para o entroncamento à frente.
— Sim. Mando-lhe uma
mensagem amanhã.
Sudara curvou-se, dirigiu-
se para o seu cavalo c, com seus vinte guardas, partiu.
Toranaga pegou a tigela e comeu um último bocado de talharim, agora frio. — Oh, senhor, sinto muito, deseja mais um pouco? — disse a jovem criada sem fôlego, acorrendo. Tinha o rosto redondo, não era bonita, mas esperta e atenta — exatamente do jeito como ele gostava que fossem os seus criados c criadas. — Não, obrigado. Como você se chama?
— Yuki,,senhor.
— Diga ao seu amo que ele
faz um bom talharim, Yuki. — Sim, senhor, obrigada. Obrigada, senhor, por honrar a nossa casa. Basta estalar os dedos para qualquer coisa que deseje e o senhor a terá instantaneamente.
Ele piscou para ela, que
riu, recolheu a bandeja e saiu apressada. Contendo a impaciência, ele examinou a curva distante na estrada, depois os arredores. A hospedaria estava em boas condi ções, as passagens cobertas até o poço limpas e a terra varrida. Fora, no pátio, e em toda a volta, seus homens esperavam pacientemente, mas ele detectou nervosismo no mestre de caça e resolveu que aquele dia seria o último de serviço ativo do homem. Se Toranaga estivesse seriamente interessado na caçada em si, teria dito a ele que voltasse a Yedo agora, dando-lhe uma generosa pensão, e designado outro para o seu lugar.
Essa é a diferença entre
mim e Sudara, pensou ele sem maldade. Sudara não hesitaria. Ordenaria ao homem que cometesse seppukií agora, o que pouparia a pensão e todo o incômodo posterior, e aumentaria a perícia do substituto. Sim, meu filho, conheço-o muito bem. Você é muito importante para mim.
E quanto à Senhora Genjiko e os filhos? perguntou-se ele, trazendo à tona a questão vital. Se a Senhora Genjiko não fosse irmã de Ochiba — c estimada como irmã favorita -, eu pesaro samente permitiria a Zataki eliminá-los a todos agora e assim pouparia Sudara de urra risco enorme no futuro, se eu morrer cedo, porque eles são o seu único elo fraco. Mas felizmente
Genjiko é irmã de Ochiba,
portanto uma peça importante no grande jogo, e não tenho que permitir que isso aconteça. Eu deveria, tuas não o farei. Desta vez tenho que arriscar. Portanto me lembrarei de que Genjiko é valiosa em outros sentidos — é tão afiada quanto uma espinha de tubarão, faz filhos ótimos, e é fanaticamente implacável na defesa da prole, assim como Ochiba, com urna enorme diferença: Genjiko-san é leal primeiro a mim, Ochiba primeiro ao herdeiro.