Shogun

James Clavell · Capítulo 63 de 64 · parte 3/3

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Shogun

Capítulo 61

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Fique aqui esta noite,

depois vá direto amanhã. Não via Yokohama.

— Sim. Compreendo.

Desculpe, posso tomar posse do novo feudo do meu amo em seu nome — e de tudo o que contém -, no momento em que eu chegar?

— Kawanabi-san lhe dará

os documentos necessários antes que você parta. Agora, por favor, mande Kiku-san a mim. Fujiko curvou-se e saiu.

Toranaga grunhiu. Uma

pena que essa mulher vá pôr fim à vida. Ela é quase valiosa demais para se perder, e esperta demais. Ito e Yokosé? Ito é compreensível. Por que Yokosé? E o que mais ela tinha em mente?

Viu Kiku atravessando o

pátio banhado de sol, os pezinhos em tabis brancos, quase dançando, tão doce e elegante com suas sedas, a sombrinha carmesim, o desejo de cada homem à vista dele. Ah, Kiku, pensou ele, não posso me permitir esse desejo, desculpe-me. Não posso me permitir ter você nesta vida, sinto muito. Você deveria ter continuado onde estava, no Mundo Flutuante, cortesã de primeira classe. Ou, até melhor, gueixa. Com que idéia ótima aquela velha megera me saiu! Então você estaria segura, propriedade de muitos, a adorada de muitos, o ponto central de suicídios trágicos e disputas violentas e encontros maravilhosos, adulada e temida, coberta de dinheiro, que você trataria com desdém, uma lenda — enquanto a sua beleza durasse. Mas agora? Agora não posso conservá-la, sinto muito. Qualquer samurai a quem eu a dê leva para a casa uma faca de dois gumes: uma distração completa e a inveja de todos os outros homens. Neh? Poucos concordariam em se casar com você, sinto muito, mas essa é a verdade e este é um dia de verdades. Fujiko tinha razão. Você não foi educada para dirigir a casa de um samurai, sinto muito. Assim que a sua beleza se for... oh, a sua voz durará, criança, e o seu espírito, mas logo você será atirada ao monte de esterco do mundo. Sinto muito, mas isso também é verdade. Outra verdade é que as mais altas damas do Mundo Flutuante são conservadas no seu Mundo Flutuante para dirigir outras casas quando a idade se abate sobre elas, mesmo sobre as mais famosas, para chorar pelos amantes perdidos, pela juventude perdida em barris de saquê, aguado pelas suas lágrimas. As inferiores quando muito tornam-se esposas de um fazendeiro, um pescador, um mercador ou um rico vendedor ou artesão, de cuja vida você nasceu — a flor rara e inesperada que aparece na selva por nenhuma outra razão senão karma, para florescer rapidamente e se extinguir rapidamente.

Tão triste, muito triste.

Como lhe dou filhos samurais? Conserve-a para o resto da vida, disse-lhe o seu coração secreto. Ela merece. Não se iluda como ilude aos outros. A verdade é que você poderia conservá-la facilmente, tirando-lhe um pouco, deixando-lhe muito, exatamente como à sua favorita, Tetsu-ko, ou Kogo. Kiku não é exatamente como um falcão para você? Apreciada, sim, única, sim, mas apenas um falcão que você alimenta no punho, para lançar sobre uma presa e chamar de volta com um engodo, para, após uma estação ou duas, soltar a esmo e desaparecer para sempre? Não minta a si mesmo, isso é fatal. Por que não conservá-la? Ela é apenas um falcão, embora muito especial, de vôo muito alto, muito bela de ver, mas nada mais, rara certamente, única certamente, e, oh, tão "travesseirável" ...

— Por que ri? Por que está tão feliz, senhor? — Porque você é uma alegria de se ver.

Blackthorne apoiou o

próprio peso contra um dos três cabos grossos que estavam presos à quilha do navio. — Hipparuuuuuuu! — gritou — Puuuuuuuuuxem!

Havia cem samurais, só de

tanga, puxando cada corda vigorosamente. Era de tarde agora, a maré estava baixa, e Blackthorne esperava poder deslocar o resto do navio e trazê-lo para a praia, para aproveitar tudo. Adaptara o primeiro plano quando descobrira, para júbilo seu, que todos os canhões tinham sido resgatados ao mar no dia seguinte ao holocausto e que estavam quase tão perfeitos quanto no dia em que haviam deixado a fundição perto de Chatham, no condado de Kent. Além disso quase mil balas de canhão, correntes e muitas coisas de metal tinham sido recuperadas. A maior parte estava retorcida e esfolada, mas ele tinha o essencial de um navio, melhor do que sonhara possível.

— Maravilhoso, Naga-san!

Maravilhoso! — cumprimentara-o ele ao descobrir toda a extensão do que fora poupado.

— Oh, obrigado, Anjin-san.

Tentei arduamente, sinto muito. — Não se lamente mais. Tudo bem agora!

Sim, regozijou-se ele.

Agora The Lady pode ser um nadinha mais comprida e um nadinha mais larga, mas ainda será um galgo, para acabar com o inimigo.

Ah, Rodrigues, pensara ele

sem rancor, estou contente de que você esteja a salvo, este ano, e que haja outro homem para afundar no ano que vem. Se Ferreira for capitão-mor de novo, será um presente do céu, mas não vou contar com isso e estou contente que você esteja indo embora. Devo-lhe a vida e você foi um piloto formidável.

— Hipparuuuuuuuu! —

gritou ele de novo, e os cabos estremeceram, o mar escorrendo deles como suor, mas o navio não se moveu.

Desde aquele amanhecer

na praia com Toranaga, a carta de Mariko nas mãos, os canhões descobertos logo depois, os dias deixaram de ter horas suficientes. Ele esboçara projetos iniciais, fizera e refizera listas, mudara os planos e muito cuidadosamente oferecera listas de homens e materiais necessários, não querendo que houvesse erro algum. E quando o dia findava, ele trabalhava no dicionário noite adentro, para aprender as novas palavras de que precisaria para dizer aos artesãos o que desejava, para descobrir o que eles já tinham e o que já podiam fazer. Muitas vezes, em desespero, tivera vontade de pedir ao padre que o ajudasse, mas sabia que não havia ajuda ali agora, que sua inimizade estava inexoravelmente fixada.

Karma, disse-se ele sem

mágoa, com pena do padre pelo seu fanatismo ilegítimo.

— Hipparuuuuu!

Novamente os samurais

fizeram força contra a garra da areia e do mar, então começaram a entoar uma canção e puxaram em uníssono. O casco moveu-se um nada, eles redobraram os esfor ços, então o resto do navio soltou-se com um estremecimento e eles se esparramaram na areia. Levantaram-se, rindo,

cumprimentando-se, e se agarraram às cordas de novo. Mas o navio estava firme de novo.

Blackthorne mostrou-lhes

como levar as cordas para um lado, depois para outro, tentando soltar o navio para bombordo ou estibordo, mas estava tão fixo como se estivesse ancorado.

— Terei que colocar bóias

nele, depois a maré fará o trabalho e o erguerá — disse ele alto em inglês.

— Dozo? — disse Naga,

desorientado.

— Ah, gomen nasal, Naga-

san. — Por meio de sinais e desenhos na areia, explicou, amaldiçoando a sua falta de palavras, como fazer uma balsa e amarrá-la às costelas na maré baixa; depois a maré alta faria flutuar o navio e eles poderiam puxá-lo para a praia e abicá-lo. Na outra maré baixa seria fácil lidar porque eles teriam colocado rolos onde apoiar o casco.

— Ah so desu! — disse

Naga, impressionado. Quando explicou aos demais oficiais, eles também se admiraram muito, e os vassalos de Blackthorne se envaideceram com a importância que deduziram disso.

Blackthorne notou isso e

apontou um dedo para um deles. — Onde estão as suas maneiras?

— O quê? Oh, desculpe,

senhor, por favor, desculpe-me por tê-lo ofendido.

— Hoje desculparei,

amanhã não. Nade até o navio — desamarre esta corda. — O samurai roam tremeu e rolou os olhos nas órbitas. — Sinto muito, senhor, não sei nadar.

Fez-se silêncio na praia e

Blackthorne sabia que estavam todos esperando para ver o que aconteceria. Ficou furioso consigo mesmo, pois uma ordem era uma ordem e involuntariamente ele dera uma sentença de morte que desta vez não era merecida. Pensou um momento. — As ordens de Toranaga-sama todos os homens aprender nadar. Neh? Todos os meus vassalos nadam dentro de trinta dias. Melhor nadar em trinta dias. Você, na água — a primeira aula agora.

Receoso, o samurai

começou a entrar no mar, sabendo que era um homem morto. Blackthorne juntou-se a ele e, quando a cabeça do homem afundou, puxou-o para cima, sem nenhuma delicadeza, e fê-lo nadar, deixando-o submergir mas nunca perigosamente, até os destroços, o homem tossindo, tendo ânsias de vômito e prosseguindo. Depois puxou-o de volta à praia e a vinte jardas dos baixios empurrou-o para a frente. — Nade!

O homem fez isso como um

gato semi-afogado. Nunca mais ele se daria ares de importância na frente do amo. Os companheiros aplaudiram e os homens na praia rolaram de rir na areia, os que sabiam nadar.

— Muito bom, Anjin-san —

disse Naga. — Muito sábio. — Riu de novo, depois disse: — Por favor, mandei homens buscar bambu. Para balsa, neh? Amanhã tentar trazer tudo para cá. — Obrigado.

— Puxar mais hoje?

— Não, não, obrigado... -

Blackthorne parou e seus olhos se turvaram. O Padre Alvito estava em pé sobre uma duna, observando-os. — Não, obrigado, Naga-san. Acaba tudo por aqui hoje. Por favor, com licença um momento. — Foi pegar as roupas e espadas, mas seus homens lhe trouxeram tudo rapidamente. Sem pressa, vestiu-se e enfiou a espada no sash.

— Boa tarde — disse ele,

aproximando-se de Alvito. O padre parecia abatido, mas havia cordialidade no seu rosto, como houvera antes da violenta discussão nos arredores de Mishima. A cautela de Blackthorne aumentou.

— Ao senhor também,

capitão-piloto. Vou partir esta manhã. instante. Importa-se?

— Não, em absoluto. — O que vai fazer, tentar

fazer flutuar o casco?

— Sim.

— Receio que isso não vá

ajudar.

— Não tem importância.

Vou tentar. Realmente acredita que pode construir outro navio?

— Oh, sim — disse

Blackthorne com paciência, perguntando-se o que Alvito teria em mente.

— Vai trazer o resto da sua

tripulação para cá, para ajudá-lo?

— Não — disse

Blackthorne após um momento. — É melhor que fiquem em Yedo. Quando o navio estiver quase acabado... há muito tempo para trazê-los para cá.

— Eles vivem com etas,

não?

— Sim.

— É essa a razão pela qual

o senhor não os quer aqui?

— Uma delas.

— Não o censuro. Ouvi

dizer que estão todos muito turbulentos e bêbados a maior parte do tempo. O senhor soube que, ao que consta, há uma semana mais ou menos houve uma pequena desordem entre eles e a casa se incendiou?

— Não. Alguém se feriu?

— Não. Mas só pela graça

de Deus. Parece que um deles fez uma destilaria.

Alvito assentiu e olhou de

novo para as costelas banhadas pelas ondas.

— Eu queria lhe dizer,

antes de partir, que sei o que a perda de Mariko-san representa para o senhor. Fiquei extremamente entristecido com a sua história sobre Osaka, mas de certo modo exaltado. Compreendo o que significou o sacrifício dela... Ela lhe contou sobre o pai, toda aquela outra tragédia?

— Sim. Alguma coisa. — Ah. Então o senhor

também compreende. Conheci Ju-san Kubo muito bem.

— O quê? Refere-se a

Akechi Jinsai?

— Oh, desculpe, sim. É

esse o nome pelo qual ele é conhecido agora. Mariko-sama não lhe contou?

— Não.

— O táicum ironicamente o

apelidou assim: Ju-san Kubo, Xógum dos Treze Dias. A rebelião dele — ao condenar seus homens ao grande seppuku — durou apenas treze dias. Era um homem excelente, mas odiava-nos, não porque éramos cristãos, mas porque éramos estrangeiros. Freqüentemente me perguntei se Mariko não se tornou cristã apenas para aprender os nossos procedimentos, a fim de nos destruir. Ele dizia freqüentemente que eu tinha envenenado Goroda contra ele.

— Envenenou?

— Não.

— Como era ele?

— Um homem baixo, calvo,

muito orgulhoso, um excelente general e um poeta de grande notoriedade. Muito triste terminar daquele jeito, todos os Akechi. E agora a última deles. Pobre Mariko... mas o que ela fez salvou Toranaga, se Deus assim o desejar. — Os dedos de Alvito tocaram o rosário. Após um momento, disse: — Além disso, piloto, antes de partir quero me desculpar por... bem, estou contente que o padre-inspetor estivesse lá para salvá-lo.

— Desculpa-se pelo meu

navio também?

— Não pelo Erasmus,

porque não tive nada a ver com isso. Peço desculpas apenas por aqueles homens, Pesaro e o capitão-mor. Estou contente que o seu navio tenha sido destruído.

— Shikata ga nai, padre.

Logo terei outro.

— Que tipo de embarcação

tentará construir?

— Uma que seja grande e

forte o suficiente.

— Para atacar o Navio

Negro?

— Para navegar de volta à

Inglaterra e me defender de qualquer um.

— Será um desperdício,

todo esse esforço.

— Haverá outro "ato de

Deus"?

— Sim. Ou sabotagem. — Se houver e o meu navio

falhar, construo outro, e se esse falhar, outro. Vou construir um navio e quando voltar à Inglaterra vou pedir, emprestar, comprar ou roubar um privateer e então voltarei para cá.

— Sim. Eu sei. É por isso

que nunca partirá. O senhor sabe demais, Anjin-san. Disse-lhe isso antes e digo de novo, mas sem maldade. Realmente. É um bravo homem, um excelente adversário, digno de respeito, e eu o respeito, e deveria haver paz entre nós. Vamos nos ver muito um ao outro ao longo dos anos — se algum de nós sobreviver à guerra.

— Vamos nos ver?

— Sim. O senhor está

muito bom em japonês. Logo será o intérprete pessoal de Toranaga. Não deveríamos discutir, o senhor e eu. Receio que nossos destinos estejam interligados. Mariko-san também lhe disse isso? A mim disse.

— Não. Ela nunca disse. O

que mais ela lhe disse?

— Rogou-me que fosse seu amigo, que o protegesse se pudesse. Anjin-san, não vim aqui para espicaçá-lo, ou para discutir, mas para pedir paz antes de partir.

— Aonde vai?

— Primeiro a Nagasaki, de

navio, saindo de Mishima. Há negociações comerciais a concluir. Depois para onde quer que Toranaga vá, onde quer que seja a batalha.

— Eles o deixarão

comerciar livremente, apesar da guerra? — Oh, sim. Eles precisam de nós, vença quem vencer. Com certeza podemos ser razoáveis e fazer a paz, o senhor e eu. Peço por causa de Mariko-sama.

Blackthorne não disse nada

por um instante. — Uma vez tivemos uma trégua, porque ela quis. Ofereço-lhe isso. Uma trégua, não uma paz — desde que o senhor concorde em não chegar a mais de cinqüenta milhas do ponto onde estiver o meu estaleiro. — Concordo, piloto, claro que concordo, mas o senhor não tem nada a recear de mim. Uma trégua, então, em memória dela. — Alvito estendeu a mão. — Obrigado.

Blackthorne apertou a mão com firmeza. Então Alvito disse: — O funeral dela será logo em Nagasaki. Deve ser na catedral. O padre-inspetor dirá o serviço pessoalmente. Parte de suas cinzas serão sepultadas lá.

— Ela gostaria disso. —

Blackthorne observou os destroços do navio um momento, depois olhou de novo para Alvito. — Uma coisa que eu ... eu não mencionei a Toranaga: pouco antes de ela morrer eu a abençoei como um padre faria, e dei-lhe os últimos ritos do melhor modo que pude. Não havia mais ninguém e ela era católica. Não creio que me tenha ouvido, não sei se estava consciente. E repeti na cremação. Isso... isso seria a mesma coisa? Seria aceitável? Tentei fazê-lo diante de Deus, não o meu, nem o seu, mas Deus.

— Não, Anjin-san. Somos

ensinados que não seria a mesma coisa. Mas dois dias antes de morrer ela pediu e recebeu absolvição do padre-inspetor, e foi santificada.

— Então ... então ela sabia

o tempo todo que tinha que morrer... acontecesse o que acontecesse, ela era um sacrifício. — Sim, Deus a abençoe e estime!

— Obrigado por me dizer

— disse Blackthorne. — Eu... eu estive sempre preocupado que a minha intercessão não servisse, embora eu ... Obrigado por me dizer.

— Sayonara, Anjin-san —

disse Alvito, oferecendo a mão de novo.

— Sayonara, Tsukku-san.

Por favor, acenda uma vela para ela ... por mim.

— Farei isso.

Blackthorne apertou a mão

e ficou olhando o padre se afastar, alto e forte, um adversário digno. Seremos sempre inimigos, pensou. Ambos sabemos disso, com trégua ou sem trégua. O que você diria se soubesse do plano de Toranaga e do meu plano? Nada além do que já ameaçou, neh? Bom. Compreendemos um ao outro. Uma trégua não fará mal algum. Mas não vamos nos ver tanto assim, Tsukku-san. Enquanto o meu navio estiver sendo construído, tomarei o seu lugar como intérprete com Toranaga e os regentes, e logo você estará fora das negociações de comércio, mesmo enquanto os navios portugueses ainda carregarem a seda. E tudo isso também mudará. Minha frota será apenas o começo. Em dez anos o Leão da Inglaterra dominará estes mares. Mas primeiro The Lady, depois o resto ...

Contente, Blackthorne

voltou para junto de Naga e estabeleceu planos para o dia seguinte, depois subiu a vertente até a sua casa temporária, perto da de Toranaga. Lá comeu arroz e peixe cru desfiado que um dos seus cozinheiros preparara para ele, e achou delicioso. Pegou um segundo prato e começou a rir.

— Senhor?

— Nada. — Mas

mentalmente estava vendo Mariko e ouvindo-a dizer: — Oh, Anjin-san, um dia talvez até consigamos que o senhor goste de peixe cru, e então o senhor estará a caminho do nirvana, o Lugar da Paz Perfeita.

Ah, Mariko, pensou ele,

estou muito contente com a absolvição verdadeira. E agradeço-lhe.

Agradece o quê, Anjin-san?

ouviu-a dizer. A vida, Mariko, minha querida. Você ...

Muitas vezes, durante o dia e a noite, ele conversava com ela mentalmente, revivendo partes da vida deles juntos e contando-lhe sobre hoje, sentindo-lhe a presença muito próxima, sempre tão próxima que uma ou duas vezes ele olhara por sobre o ombro, esperando vê-Ia em pé, ali. Fiz isso esta manhã, Mariko, mas em vez de você era Buntaro, com Tsukku-san ao lado, ambos me fitando. Eu tinha a minha espada, mas ele estava com o grande arco nas mãos. Iiiiih, meu amor, precisei de toda a minha coragem para me aproximar e cumprimentá-los formalmente. Você estava assistindo? Teria tido orgulho de mim, tão calmo e samurai e petrificado. Ele disse rigidamente, falando por intermédio do Tsukku-san: — A Senhora Kiritsubo e a Senhora Sazuko me informaram de como o senhor protegeu a honra de minha esposa e a delas. Como o senhor a salvou da vergonha. E a elas. Agradeço-lhe, Anjin-san. Por favor, desculpe-me pelo meu desprezível desequilíbrio de antes. Peço desculpas e agradeço. — Então se curvou para mim e foi embora, e eu tive muita vontade de que você estivesse aqui — para saber que está tudo protegido e ninguém jamais saberá.

Muitas vezes Blackthorne

olhara por sobre o ombro, esperando vê-Ia ali, mas ela nunca estava e nunca estaria, e isso não o perturbava. Ela estava com ele para sempre, e ele sabia que a amaria nos bons tempos e nos tempos trágicos, mesmo no inverno da sua vida. Ela estava sempre presente nos seus sonhos. E agora esses sonhos eram bons, muito bons, e misturados com ela estavam esboços, planos, a escultura da figura de proa e velas e como fazer a quilha e como construir o navio, e depois, que alegria, a forma final de The Lady a toda vela, enfunada por um impetuoso vento sudoeste, subindo canal acima, o freio entre os dentes, adriças rangendo, botalós estirados numa manobra de bombordo e depois: "Todas as velas, ho! Joanetes, velas mestras, sobrejoanetes!" soltando-se das cordas, dando-lhe cada polegada, o canhoneio das velas com o navio tomando outra posição e "Conservem o rumo!", cada partícula de lona respondendo ao seu grito, e depois, finalmente, encorpada, uma dama de beleza inestimável virando a bombordo perto de Beachy Head para Londres ...

Toranaga subiu a elevação

perto do acampamento, sua comitiva agrupada ao seu redor. Trazia Kogo sobre a luva, havia caçado ao longo da costa e agora se dirigia para as colinas acima da aldeia. Ainda restavam duas horas de sol e ele não queria desperdiçá-las, não sabendo quando teria tempo para caçar outra vez. Hoje foi para mim, pensou ele. Amanhã irei à guerra, mas hoje foi para pôr a minha casa em ordem, fingindo que o Kwanto estava seguro e Izu estava seguro, e a minha sucessão — que viverei para ver outro inverno e, na primavera, caçar por lazer. Ah, hoje foi muito bom.

Matara duas vezes com

Tetsu-ko e a ave voara como num sonho, nunca estivera tão perfeita nem mesmo quando caçara com Naga, perto de Anjiro — aquele belo mergulho, de não se esque cer nunca, para pegar aquele astuto galo velho. Hoje ela pegara um grou com várias vezes o seu tamanho e voltara à isca perfeitamente. Um faisão fora apontado pelos cães e ele lançara o falcão para a posição circulante no ar. Depois o faisão fora abalado e o eleva-se, sobe e cai começara, para durar para sempre, um abate lindo. Novamente Tetsu-ko voltara à isca e se alimentara sobre o punho orgulhosamente.

Agora ele estava à procura

de uma lebre. Ocorrera-lhe que o Anjin-san gostaria de carne. Assim, em vez de dar o dia por encerrado, satisfeito, Toranaga decidira caçar comida. Apertou o passo, não querendo falhar.

Seus batedores à dianteira

passaram pelo acampamento, subiram a estrada coleante até o cume, e ele se sentia extremamente contente com o dia que tivera.

Seu olhar crítico varreu Q

acampamento, procurando perigos, e não descobriu nenhum. Pôde ver homens em treinamento de armas — todo o treinamento e tiroteio do regimento estava proi bido enquanto Tsukku-san se encontrasse por perto-, e isso lhe agradou. A um lado, cintilando ao sol, estavam os vinte canhões que haviam sido salvos com tanto cuidado, e ele notou que Blackthorne estava sentado de pernas cruzadas no chão ali perto, concentrado sobre uma mesa baixa, sentado, agora, como qualquer pessoa normal se sentaria. Adiante via os restos do navio, notou que ainda não saíra do lugar, e perguntou-se como o Anjin-san o traria para a praia, se não pudesse ser puxado.

Porque, Anjin-san, você o

trará para a praia, disse-se Toranaga, com toda a certeza.

Oh, sim. E construirá o seu

navio e eu o destruirei como destruí o outro, ou o entregarei, outro bocado para os cristãos, que são mais importantes para mim do que os seus navios, meu amigo, sinto muito, e do que os outros navios esperando no seu país. Seus compatriotas os trarão para mim, e o tratado com a sua rainha. Não você. Preciso de você aqui.

Quando o momento for

oportuno, Anjin-san, eu lhe contarei por que tive que queimar o seu navio, e então você não se importará, porque outras coisas o estarão ocupando, e compreenderá que o que eu lhe disse era verdade igualmente: era o seu navio ou a sua vida. Escolhi a sua vida. Foi correto, neh? Então riremos sobre o "ato de Deus", você e eu. Oh, foi fácil designar um turno especial de homens de confiança a bordo, com instruções secretas de espalhar pólvora com abundância na noite escolhida, depois de dizer a Naga — no momento em que Omi sussurrara sobre a conspiração de Yabu — que refizesse a escalação, de modo que a patrulha da praia e o vigia de convés fossem apenas homens de Izu, particularmente os cinqüenta e três traidores. Depois um único ninfa saído da escuridão com uma pederneira e o seu navio se tornou uma tocha. Claro que nem Omi nem Naga jamais estiveram a par da sabotagem.

Sinto muito, mas foi muito

necessário, Anjin-san. Salvei-lhe a vida, que você desejava acima do seu navio. Cinqüenta vezes ou mais já tive que considerar a possibilidade de entregar a sua vida, mas até o momento consegui dar um jeito de evitar isso. Espero continuar a fazê-lo. Por quê? Este é um dia para verdade, neh? A resposta é que você me faz rir e eu preciso de um amigo. Não me atrevo a fazer amigos entre a minha própria gente, ou entre os portugueses. Sim, cochicharei isso num poço ao meio dia, mas só quando tiver certeza de estar sozinho: preciso ele run amigo. E também do seu conhecimento. Mariko-sarna estava certa de novo. Antes de você partir, quero saber tudo o que você sabe. Eu lhe disse que nós dois tínhamos muito tempo, você e eu.

Quero saber como navegar

em torno da terra e compreender como uma pequena ilha pode derrotar um império imenso. Talvez a resposta se aplicasse a nós e à China, neh? Oh, sim, o táicum estava certo ein algumas coisas.

Na primeira vez que o vi, eu

disse: — Não há desculpa para rebelião. — E você disse: — Há uma: se se vence! — Ah, Anjin-san, afeiçoei-me a você naquele momento. Concordo. Está tudo certo se se vence.

Estupidez fracassar.

Imperdoável.

Você não fracassará, e

estará seguro e feliz no seu grande feudo de Anjiro, onde Mura, o pescador, o protegerá dos cristãos e continuará a lhes fornecer informações falsas, conforme eu de termine. Que ingenuidade do Tsukku-san acreditar que algum dos meus homens, ainda que cristão, roubaria os seus portulanos e os daria secretamente aos padres sem o meu conhecimento ou a minha orientação. Ah, Mura, você tem sido fiel há trinta anos ou mais, logo receberá a sua recompensa! O que diriam os padres se soubessem que o seu verdadeiro nome é Akira Tonomoto, samurai — espião sob a minha orientação, assim como pescador, chefe de aldeia e cristão! Eles peidariam pó, neh?

Por isso não se preocupe,

Anjin-san, eu estou me preocupando quanto ao seu futuro. Está em boas e fortes mãos e. ah, que futuro planejei para você!

— Devo ser consorte do

bárbaro? oh! oh! oh! — gemera Kiku.

— Sim, dentro de um mês.

Fujiko-san formalmente concordou. — Mais uma vez contara a verdade a Kiku e a Gyoko, pacientemente. — E mil kokus por ano após o nascimento do primeiro filho do Anjin-san.

-— Hein, mil... o que o

senhor disse?

Ele repetira a promessa e acrescentara suavemente: — Afinal de contas, samurai é samurai, e duas espadas são duas espadas, e os filhos dele serão samurais. Ele é hatamoto, um dos meus vassalos mais importantes, almirante de todos os meus navios, um conselheiro pessoal íntimo — até um amigo. Neh?

— Sinto muito, mas,

senhor...

— Primeiro você será

consorte dele. — Desculpe, primeiro senhor?

— Talvez você devesse ser

sua esposa. Fujiko-san disse-me que não deseja se casar, nunca mais, mas acho que ele deve se casar. Por que não com você? Se você lhe agradar o suficiente, e imagino que possa, e ainda, se o mantiver construindo o navio... neh? Sim, acho que você deve ser esposa dele.

— Oh sim, oh sim, oh sim!

— Ela atirara os braços em torno do pescoço dele e o abençoara e pedira desculpas pela impulsiva falta de modos, interrompendo e não ouvindo com submis são, e o deixara, caminhando quatro passos acima do solo, quando um momento atrás estivera prestes a se atirar do penhasco mais próximo.

Ah, mulheres, pensou

Toranaga, confuso e muito contente. Agora ela tem tudo o que deseja, assim como Gyoko — se o navio for construído em tempo, e será -, assim como os padres, assim como ...

— Senhor! -— Um dos

caçadores estava apontando para uma moita ao lado da estrada. Ele freou e preparou Kogo, afrouxando os pioses que prendiam a ave ao seu punho, — Já — ordenou ele suavemente. Soltaram o cão.

A lebre irrompeu dos

arbustos, correndo à procura de proteção, e nesse instante Toranaga soltou Kogo. Com batidas de asas imensamente potentes, ela se lançou em perseguição, direto como uma seta, passando à frente do animal em pânico. Adiante, cem passos do outro lado da ondulação do terreno, havia um matagal espinhoso, e a lebre disparou em ziguezague, a uma velocidade frenética, rumando para a segurança, Kogo fechando a brecha, cortando as extremidades, investindo sempre mais perto, a alguns pés do solo. Então postou-se acima da presa, atacou, a lebre guinchou, levantou-se nas patas traseiras e voltou em disparada, Kogo ainda em perseguição, chiando de raiva porque errara. A lebre rodopiou de novo numa arremetida final para um abrigo e guinchou quando Kogo atacou outra vez, fincou firme as garras no pescoço e na cabeça da lebre, e se agarrou sem medo, fechando as asas, sem se importar com as frenéticas contorções e volteíos do animal, enquanto sem esforço o milhafre lhe quebrava o pescoço. Um último guincho. Kogo largou a presa e lançou-se ao ar por um instante, sacudiu as penas arrepiadas de volta ao lugar com um estremecimento violento, depois pousou novamente sobre o corpo quente, contorcendo-se, as garras mais uma vez no aperto mortal. Então, e só então, soltou o seu guincho de vitória e sibilou de prazer com a matança. Seus olhos fitavam Toranaga.

Toranaga aproximou-se a

trote e desmontou, oferecendo o engodo. Obedientemente o milhafre abandonou a presa e então, como Toranaga habilmente escondera o engodo, pousou sobre a luva esticada. Os dedos do daimio seguraram os pioses e ele pôde sentir o aperto das garras através do couro reforçado com aço do indicador.

— Iiiiih, foi muito bem-feito,

minha beleza — disse ele, recompensando-a com um bocado, uma parte da orelha da lebre que um batedor cortara para ele. — Pronto, empanturre-se com isto, mas não demais — você ainda tem trabalho a fazer.

Sorrindo, o batedor

levantou a lebre.

— Amo! Deve ter três,

quatro vezes o peso dela. O melhor que vimos há semanas, neh?

— Sim. Mande-a para o

acampamento, para o Anjin-san. — Toranaga subiu à sela de novo e acenou aos outros que prosseguissem, à caça novamente.

Sim, o abate foi muito bem

executado, mas não teve nada da excitação do de um peregrinus. Um milhafre é apenas o que é, uma ave de cozinheiro, um matador, nascido para matar toda e qualquer coisa que se mova. É como você, Anjin-san, neh?

Sim, você é um gavião de

asas curtas. Ah... mas Mariko era um peregrinus. Lembrou-se dela muito claramente e sentiu uma vontade imensa de que não tivesse sido necessário que ela fosse a Osaka e para o Vazio. Mas era necessário, disse-se ele pacientemente. Os reféns tinham que ser libertados. Não os meus parentes, mas todos os outros. Agora tenho mais cinqüenta aliados comprometidos secretamente. A sua coragem e a coragem e o auto-sacrifício da Senhora Etsu trouxeram-nos e a todos os Maeda para o meu lado, e, através deles, toda a costa ocidental. lshido tinha que ser atraído para fora do seu covil inexpugnável, os regentes divididos, e Ochiba e Kiyama trazidos, domados, ao meu punho. Você fez tudo isso e mais: deu-me tempo. Apenas o tempo monta armadilhas e produz engodos.

Ah, Mariko-chan, quem

teria pensado que um nadínha de mulher como você, filha de Ju-san Kubo, meu velho rival, o arquitraidor Akechi Jinsai, poderia fazer tanto e descarregar uma vingança tamanha, tão lindamente e com tanta dignidade, contra o táicum, inimigo e assassino do seu pai.

Toranaga estava no topo

agora.

Acariciou o peregrinus

encapuzado sobre o punho uma última vez, depois removeu-lhe o capuz e lançou-o ao céu. Observou-lhe a espiral ascendente, sempre ascendente, procurando uma presa que ele não mais lhe apontaria como isca. A liberdade de Tetsu-ko é o meu presente a você, Mariko-san, disse ele ao espírito dela, observando o falcão circular cada vez mais alto. Para honrar a sua lealdade a mim e a sua devoção filial à nossa regra mais importante: que um filho respeitoso, ou filha, não pode descansar sob o mesmo céu enquanto o assassino de seu pai estiver vivo.

— Ah, muito sábio, senhor

— disse o falcoeiro.

— Hein?

— Soltar Tetsu-ko, libertá-

la. Da última vez que o senhor a soltou, pensei que ela nunca mais voltaria, mas não tinha certeza. Ah, senhor, é o maior falcoeiro do reino, o melhor, para saber, para ter certeza de quando devolvê-la ao céu.

Toranaga permitiu-se fazer

uma carranca. O falcoeiro empalideceu, sem compreender por quê, rapidamente ofereceu Kogo de novo e recuou às pressas.

Sim, o momento de Tetsu-

ko chegara, pensou Toranaga irritado, mas ainda assim foi um presente simbólico ao espírito de Mariko e à qualidade da sua vingança.

Sim. Mas e quanto a todos

os filhos de todos os homens que você matou?

Ah, isso é diferente, aqueles mereceram morrer, todos eles, respondeu ele a si mesmo. Assim, você sempre se acautela contra quem avança até o raio de uma seta — isso é prudência normal. A observação agradou a Toranaga e ele resolveu acrescentá-la ao Legado.

Semicerrou que já não era

cima, além de todas as cóleras, elevando-se sem esforço. Então alguma força fora do alcance visual de Toranaga tomou-a, fê-la girar para norte, e ela desapareceu.

— Ah, Tetsu-ko, obrigado.

Faça muitas filhas — disse ele, e voltou a atenção para a terra, aqui embaixo.

A aldeia era nítida ao sol se

pondo, o Anjin-san ainda estava à sua mesa, samurais treinando, fumaça elevando-se das cozinhas. Do outro lado da baía, vinte ris mais ou menos, ficava Yedo. Quarenta ris a sudoeste, Anjiro. Duzentas e noventa ris a oeste Osaka, e trinta ris ao norte, depois de Osaka, Kyoto.

É lá que deve ser a batalha

principal, pensou ele. Perto da capital. Ao norte, contornando Gifu ou Ogaki ou Hashima, transversalmente sobre a Nakasendo, a Grande Estrada Norte. Talvez onde a estrada dobra para o sul, para a capital, perto da pequena aldeia de Sekigahara, nas montanhas. Em algum lugar lá. Oh, eu estaria a salvo durante anos atrás das minhas montanhas, mas esta é a chance pela qual esperei: a jugular de lshido está desprotegida.

Minha investida principal

será ao longo da estrada Norte e não pela Tokaido, a estrada costeira, embora daqui até lá eu vá fingir mudar de idéia cinqüenta vezes. Meu irmão cavalgará co migo. Oh, sim, acho que Zataki se convencerá de que lshido o traiu com Kiyama. Meu irmão não é tolo. E manterei meu voto solene de dar-lhe Ochiba. Durante a batalha Kiyama mudará de lado, acho que mudará de lado, e quando o fizer, se fizer, cairá em cima do seu odiado rival, Onoshi. Esse será o sinal para as armas de fogo atacarem, eu enrolarei os flancos dos exércitos deles e vencerei. Oh, sim, vencerei — porque Ochiba, prudentemente, nunca deixará o herdeiro se pôr em campo contra mim. Sabe que, se o fizesse, eu seria forçado a matá-lo, sinto muito.

Toranaga começou a sorrir

secretamente. No momento em que tiver vencido, darei a Kiyama todas as terras de Onoshi, e o convidarei a designar Saruji seu herdeiro. No momento em que eu for presidente do novo conselho de regentes, apresentaremos a proposta de Zataki à Senhora Ochiba, que ficará tão enraivecida com a impertinência dele que, para aplacar a primeira dama da terra do herdeiro, os regentes lamentavelmente terão que convidar meu irmão a partir para o Vazio. Quem deverá tomar o seu lugar como regente? Kasigi Omi. Kiyama será a presa de Omi ... sim, isso é sábio, e muito fácil, porque com certeza, nessa altura, Kiyama, senhor de todos os cristãos, estará ostentando a sua religião, que ainda é contra a nossa lei. Os editos de expulsão do táicum ainda são legais, neh? Certamente Omi e os outros dirão: — Voto para que os editos sejam invocados. — E uma vez que Kiyama se tenha ido, nunca mais deverá haver um regente cristão, e pacientemente o nosso arrocho se reforçará sobre o estúpido mas perigoso dogma estrangeiro que é uma ameaça à Terra dos Deuses, que sempre ameaçou a nossa wa... e que portanto deve ser destruído. Nós, regentes, encorajaremos os compatriotas do Anjin-san a tomar o comércio português. Tão logo seja possível, os regentes ordenarão que todo o comércio e todos os estrangeiros se confinem a Nagasaki, a uma parte minúscula de Nagasaki, sob uma guarda muito séria. E fecharemos o país a eles para sempre... a eles, às suas armas e aos seus venenos.

Tantas coisas maravilhosas

a fazer, depois que eu tiver vencido, se eu vencer, quando eu vencer. Somos um povo muito previsível.

Será uma idade áurea.

Ochiba e o herdeiro majestosamente instalarão a corte em Osaka, e de vez em quando nós nos curvaremos diante deles e continuaremos a governar em seu nome, do lado de fora do Castelo de Osaka. Dentro de três anos mais ou menos, o Filho do Céu me convidará a dissolver o conselho e a me tornar xógum pelo resto da minoridade do meu sobrinho. Os regentes me pressionarão a aceitar e, relutantemente, aceitarei. Depois de um ano ou dois, sem cerimônia, renunciarei em favor de Sudara, conservarei o poder como sempre, e ficarei de olhos firmes no Castelo de Osaka. Continuarei a esperar pacientemente e um dia aqueles usurpadores lá dentro cometerão um engano e desaparecerão, e de algum modo o Castelo de Osaka desaparecerá, apenas outro sonho dentro de um sonho, e o verdadeiro prêmio do grande jogo que começou assim que eu pude pensar, que se tornou possível no momento em que o táicum morreu, o verdadeiro prêmio será conquistado: o xogunato.

É por isso que venho

lutando e planejando a vida toda. Eu, sozinho, sou o herdeiro do reino. Serei xógum. E darei início a uma dinastia.

É tudo possível agora, por

causa de Mariko-san e do bárbaro estrangeiro, que veio do mar oriental.

Mariko-san, era seu karma

morrer gloriosamente e viver para sempre. Anjin-san, meu amigo, é seu karma não deixar nunca esta terra. O meu é ser xógum.

Kogo, o milhafre, esvoaçou sobre o seu pulso e se acomodou, observando-o. Toranaga sorriu para a ave. Não escolhi ser o que sou. É o meu karma.

Naquele ano, ao

amanhecer do vigésimo primeiro dia do décimo mês, o Mês sem Deuses, os exércitos principais se chocaram. Foi nas montanhas perto de Sekigahara, cortando a estrada Norte, o tempo péssimo — neblina, depois granizo. Pelo fim da tarde Toranaga havia vencido a batalha e o massacre começou. Quarenta mil cabeças rolaram.

Três dias depois Ishido foi capturado vivo. Toranaga cordialmente lembrou-o da profecia e mandou-o a ferros para Osaka, para exibição pública, ordenando aos etas que plantassem firmemente os pés do Senhor General Ishido na terra, deixando apenas a cabeça do lado de fora, e que convidassem os passantes a serrar o pescoço mais famoso do reino com uma serra de bambu. Ishido durou três dias e morreu muito velho.