Shogun

James Clavell · Capítulo 63 de 64 · parte 2/3

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Shogun

Capítulo 61

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Então isso está resolvido.

Antes do décimo dia, Sudara deve estar de volta às mãos de Zataki. Uma extensão do prazo? Não, isso poderia deixar Zataki ainda mais desconfiado do que já está, e ele é o último homem que quero desconfiado agora. De que modo Zataki reagirá?

Você foi sábio em designar

Sudara. Se houver um futuro, o futuro estará seguro nas mãos dele e de Genjiko, desde que sigam o Legado à letra. E a decisão de reempossá-lo agora foi correta e vai agradar a Ochiba.

Ele já escrevera a carta

naquela manhã e a enviaria a ela na mesma noite, com uma cópia da ordem. Sim, isso lhe removerá uma espinha de peixe da goela, que a estava fazendo sufocar e que tinha sido deliberadamente cravada ali, há muito tempo, com essa finalidade. É bom saber que Genjiko é um dos elos fracos de Ochiba, talvez até o único. Qual é a fraqueza de Genjiko? Nenhuma. Pelo menos ainda não descobri uma, mas se houver, descobrirei.

Estava examinando seus

falcões. Alguns estavam palrando, outros se alisando com o bico, todos em boa forma, todos encapuzados, menos Kogo, os grandes olhos amarelos dardejando, olhando tudo, tão interessado quanto ele próprio.

O que você diria, minha

beleza, perguntou Toranaga à ave em silêncio, o que você diria se eu lhe contasse que devo ser impaciente e explodir e que o meu ataque principal será ao longo da Tokaido, e não através das montanhas de Zataki, conforme disse a Sudara? Você provavelmente diria: por quê? E eu responderia: porque confio em Zataki tanto quanto confio em eu mesmo poder voar. E eu não posso voar em absoluto. Neh?

Então viu os olhos de Kogo

mover-se rapidamente para a estrada. Semicerrou os olhos para ver à distância e sorriu ao distinguir os palanquins e os cavalos de bagagem que se aproximavam

dobrando a curva.

— Então, Fujiko-san?

Como vai?

— Bem, obrigada, senhor,

muito bem. — Ela se curvou de novo e ele notou que ela não sentia dores nas cicatrizes da queimadura. Seus membros agora estavam tão flexíveis como sempre, e havia um rubor agradável nas suas faces. — Posso perguntar como está o Anjin-san? — disse ela. — Ouvi dizer que a viagem de Osaka foi muito ruim, senhor.

— Ele está passando bem

agora, com muito boa saúde.

— Oh, senhor, é a melhor

notícia que poderia ter me dado. — Bom. — Ele se voltou para o palanquim seguinte para saudar Kiku, que sorriu alegremente e cumprimentou-o com grande afeto, dizendo que estava muito feliz de vê-lo e que sentira muita falta sua. — Faz muito tempo, senhor.

— Sim, por favor,

desculpe-me, sinto muito — disse ele, excitado pela surpreendente beleza e alegria interior dela, apesar das suas próprias ansiedades opressivas. — Estou muito satis feito em vê-Ia. — Depois seus olhos foram para a última liteira. — Ah, Gyoko-san, há quanto tempo — acrescentou, seco como lenha.

— Obrigada, senhor, sim,

renasci agora que estes velhos olhos tiveram a honra de vê-lo novamente. — A reverência de Gyoko, que estava cuidadosamente

resplandecente, foi impecável, e ele captou um lampejo mínimo de um sobquimono escarlate, da seda mais cara. — Ah, como está forte, senhor, um gigante entre os homens — entoou ela.

— Obrigado. Está com boa

aparência, também.

Kiku bateu palmas ante o

gracejo e todos riram com ela. — Ouçam — disse ele, feliz por causa dela -, tomei providências para que todas vocês fiquem aqui por enquanto. Agora, Fujikosan, por favor, venha comigo.

Tomou Fujiko à parte e,

depois de lhe oferecer chá e de tagarelarem sobre coisas sem importância, foi ao ponto. — Você concordou com meio ano e eu concordei com meio ano. Sinto muito, mas devo saber hoje se você mudará o acordo.

O rosto pequeno e

quadrado perdeu o atrativo quando a alegria se esvaneceu. A ponta da sua língua tocou os dentes agudos um momento. — Como posso mudar o acordo, senhor? — Muito fácil. Está terminado. Ordeno.

— Por favor, desculpe-me,

senhor — disse Fujiko, a voz sem modulação. — Eu não quis dizer isso. Fiz o acordo espontânea e solenemente diante de Buda, com o espírito do meu falecido marido e do meu falecido filho. Não pode ser mudado.

— Ordeno que seja.

— Sinto muito, senhor, por

favor, desculpe-me, mas então o bushido me desobriga de obediência ao senhor. O seu contrato foi igualmente solene, e qualquer alteração tem que ser aceita por ambas as partes, sem coerção.

— O Anjin-san lhe agrada? — Sou sua consorte. O

necessário é que eu agrade a ele.

— Você poderia continuar

vivendo com ele se o outro acordo não existisse?

— A vida com ele é muito,

muito difícil, senhor. Todas as formalidades, a maioria das cortesias, todo tipo de costume que torna a vida segura, digna, polida e suportável tem que ser posto de lado, ou contornado, por isso a casa dele não é segura, não tem wa, não há harmonia pàra mim. É quase impossível fazer os criados compreender, ou eu mesma compreender... mas, sim, eu poderia continuar' a cumprir o meu dever para com ele. ' — Peço-lhe que dê por encerrado o acordo.

— Meu primeiro dever é

para com o senhor. Meu segundo dever é para com o meu marido.

— Minha idéia, Fujiko-san,

era que o Anjin-san se casasse com você. Aí você não seria uma consorte.

— Um samurai não pode

servir a dois senhores, nem uma esposa a dois maridos. Meu dever é para com o meu falecido marido. Por favor, desculpe-me, não posso mudar.

— Com paciência tudo

muda. Logo o Anjin-san saberá mais dos nossos hábitos e a casa dele também terá wa. Ele aprendeu incrivelmente desde que...

— Oh, por favor, senhor, não me interprete mal, o Anjin-san é o homem mais extraordinário que já conheci e, oh, sim, sei que a casa dele logo será uma casa de verdade, mas... mas, por favor, desculpe-me, devo cumprir o meu dever. Meu dever é para com o meu marido, meu único marido... — Esforçou-se por se controlar. — Deve ser, neh? Deve ser, senhor, ou então toda... toda a vergonha, o sofrimento, a desonra perdem o significado, neh? A morte dele, de meu filho, as espadas dele quebradas e enterradas na aldeia eta... Sem dever para com ele, todo o nosso bushido não é uma pilhéria imortal?

— Deve responder a uma

pergunta, Fujiko-san: o seu dever para com uma solicitação minha, seu suserano, e para com um homem surpreendentemente

corajoso que está se tornando um de nós e é seu amo, e — acrescentou, acreditando reconhecer o rubor no rosto dela — o seu dever para com o filho dele ainda não nascido, isso tudo não tem precedência sobre um dever anterior?

— Eu... eu não estou

carregando o filho dele, senhor. — Tem certeza?

— Não, não tenho. — Está

atrasada?

— Sim... mas só um pouco

e isso poderia ser... Toranaga observava e esperava. Pacientemente. Ainda havia muito a fazer antes que ele pudesse partir a galope e soltar Tetsu-ko ou Kogo, e sentia-se ávido por esse prazer, mas isso seria apenas para ele, portanto sem importância. Fujiko era importante e ele prometera a si mesmo que pelo menos hoje fingiria ter vencido a guerra, que tinha tempo, podia ser paciente e resolver assuntos que era seu dever resolver. — Bem?

— Sinto muito, senhor,

não.

— Então é não, Fujiko-san.

Por favor, desculpe-me por ter perguntado, mas era necessário. — Toranaga não estava nem zangado nem satisfeito. A garota estava apenas fazendo o que era honroso fazer, e ele soubera, desde o momento em que concordara em fazer o trato com ela, que nunca haveria uma alteração. É isso o que nos torna únicos na terra, pensou ele com satisfação. Um trato com a morte é um trato santificado. Curvou-se para ela formalmente. — Cumprimento-a pela sua honra e senso de dever para com o seu marido, Usagi Fujiko — disse ele, citando o nome que cessara de existir.

— Oh, obrigada, senhor —

disse ela, ante a honra que ele lhe fazia, as lágrimas escorrendo devido à total felicidade que a invadia, sabendo que esse gesto simples limpava o estigma do único marido que ela teria nesta vida.

— Ouça, Fujiko, vinte dias

antes do último dia, você partirá para Yedo — aconteça o que acontecer a mim. A sua morte deve ocorrer durante a viagem e deve parecer acidental. Neh?

— Sim, sim, senhor.

— Isso será segredo

nosso. Seu e meu apenas. — Sim, senhor.

— Até lá você continuará

como cabeça da casa dele. — Sim, senhor.

— Agora, por favor, diga a

Gyoko que venha aqui. Mandarei chamá-la de novo antes de partir. Tenho outras coisas a discutir com você.

— Sim, senhor — Fujiko curvou-se profundamente e disse: — Eu o abençôo por me libertar da vida. — Afastou-se.

Curioso, pensou Toranaga,

como as mulheres podem mudar como camaleões — num momento feias, no outro atraentes, às vezes até bonitas, embora na realidade não sejam.

— Mandou me chamar,

senhor?

— Sim, Gyoko-san. Que

notícias tem para mim?

— De todo tipo, senhor —

disse Gyoko, o rosto bem maquilado sem medo, um brilho nos olhos, mas as tripas se contorcendo. Sabia que não era por coincidência que aquele encontro estava ocorrendo, e seu instinto lhe dizia que Toranaga estava mais perigoso do que o habitual. — As providências para a corporação de cortesãs avançam satisfatoriamente, e as regras e regulamentos estão sendo rascunhados para a sua aprovação. Há uma área excelente ao norte da cidade que...

— A área que já escolhi

fica perto da costa. O Yoshiwara. Ela o cumprimentou pela escolha, gemendo por dentro. O Yoshiwara — Brejo Vermelho — era atualmente um pântano, infestado de mosquitos, e teria que ser drenado e recuperado, antes de poder ser cercado e suportar uma construção. — Excelente, senhor. Depois: as regras e regulamentos para as gueixas também estão sendo preparados para o seu exame.

— Bom. Faça-os breves e

concisos. Que inscrição você colocará sobre a entrada do Yoshiwara?

— "A luxúria não se refreia

— alguma coisa tem que ser feita com relação a isso."

Ele riu, e ela sorriu, mas

não se descontraiu, e acrescentou séria: — Permita-me agradecer-lhe de novo em nome das gerações futuras, senhor.

— Não foi por você ou por

elas que eu concordei — disse Toranaga, e citou uma das suas notas no Legado: — "Os homens virtuosos no decorrer da história sempre censuraram as casas de tolerância ou lugares de `travesseiro', mas os homens não são virtuosos, e se um líder banir as casas e o `travesseiro', será um tolo, porque males maiores logo irromperão como uma peste de furúnculos".

— Como é sábio, senhor. — E quanto a colocar todos

os lugares de "travesseiro" numa única área, isso quer dizer que todos os não-virtuosos poderão ser vigiados, taxados e controlados, todos ao mesmo tempo. Você tem razão de novo, Gyoko-san, "a luxúria não se refreia". Logo se deteriora. O que mais?

— Kiku-san recuperou a

saúde, senhor. Perfeitamente.

— Sim, eu vi. Ela está

deliciosa! Desculpe... Yedo certamente é quente e rude no verão. Tem certeza de que ela está bem agora?

— Sim, oh sim, mas ela

sentiu saudades do senhor. Devemos acompanhá-lo a Mishima?

— Que outros boatos você

ouviu?

— Apenas que Ishido

deixou o Castelo de Osaka. Os regentes formalmente declararam o senhor fora da lei — que impertinência, senhor.

— De que modo ele está

planejando me atacar?

— Não sei, senhor — disse ela cautelosamente. — Mas imagino que seja um ataque bifurcado, ao longo da Tokaido com Ikawa Hikoju, partindo de Shinano, já que o Senhor Zataki tola mente se aliou ao Senhor Ishido contra o senhor. Mas atrás das suas montanhas o senhor está seguro. Oh, sim, estou certa de que o senhor viverá até uma idade bem avançada. Com a sua permissão, senhor, vou transferir todos os meus negócios para Yedo.

— Certamente. Enquanto

isso, veja se consegue descobrir onde será a investida principal.

— Tentarei, oh, sim, senhor. Estes são tempos terríveis, senhor, quando irmão vai contra irmão, filho contra pai.

De olhos velados, Toranaga

anotou mentalmente para aumentar a vigilância sobre Noboru, seu filho mais velho, cuja fidelidade última era para com o táicum. — Sim — concordou. — Tempos terríveis. Tempos de grandes mudanças. Algumas más, outras boas. Você, por exemplo, está rica agora, e o seu filho, por exemplo. Ele não está encarregado da sua fábrica de saquê em Odawara?

— Sim, senhor. — Gyoko ficou cinza por baixo da maquilagem.

— Tem tido grandes lucros,

neh?

— Ele com certeza é o

melhor administrador de Odawara, senhor.

— Assim ouvi dizer. Tenho

um serviço para ele. O Anjin-san vai construir um novo navio. Estou providenciando todos os artesãos e materiais, por isso quero o lado comercial tratado com o maior cuidado.

Gyoko quase desmaiou de

alívio. Presumira que Toranaga ia destruí-los a todos antes de partir para a guerra, ou taxá-la de modo exorbitante, porque descobrira que ela mentira sobre o Anjin-san e a Senhora Toda, ou sobre o infeliz aborto de Kiku, que não fora por acaso, como ela relatara tão lacrimosamente um mês atrás, mas por cuidadosa indução, por insistência, junto com a submissa anuência de Kiku. — Oh ko, senhor, quando quer meu filho em Yokohama? Ele garantirá que seja o navio mais barato jamais construido.

— Não o quero barato.

Quero que seja o melhor — pelo preço mais razoável. Ele será supervisor e responsável, subordinado ao Anjin-san.

— Senhor, tem a minha

garantia, o meu futuro, as minhas esperanças de futuro, de que será como o senhor deseja.

— Se o navio for

construido perfeitamente,

exatamente como o Anjin-san quer, dentro de seis meses a contar do primeiro dia, farei seu filho samurai.

Ela se curvou

profundamente e por um momento não conseguiu falar. — Por favor, perdoe uma pobre imbecil, senhor. Obrigada, obrigada.

— Ele tem que aprender

tudo o que o Anjin-san sabe sobre a construção do navio, de modo que se possam construir outros depois que ele parta. Neh?

— Será feito.

— Depois: Kiku-san. Os

seus talentos merecem um futuro melhor do que apenas estar sozinha numa caixa, uma dentre muitas mulheres.

Gyoko levantou os olhos,

novamente esperando pelo pior. — Vai vender o contrato dela, senhor?

— Não, ela não deveria ser cortesã novamente, ou mesmo uma das suas gueixas. Deveria estar numa família, uma senhora dentre poucas, muito poucas.

— Mas, senhor, se ela o

vir, ainda que ocasionalmente, como poderia ter uma vida melhor em outro lugar?

Ele permitiu que ela o

cumprimentasse, retribuiu,

estendendo o cumprimento a Kiku, e disse: — Francamente, Gyoko-san, estou gostando demais dela e não posso me permitir ser distraído. Francamente ela é bonita demais para mim ... perfeita demais ... Por favor, desculpe-me, mas este deve ser outro dos nossos segredos.

— Concordo, senhor,

claro, tudo o que desejar — disse Gyoko fervorosamente, ignorando tudo o que fora dito como mentiras, quebrando a cabeça à procura da verdadeira razão. -— Se a pessoa pudesse ser alguém que Kiku pudesse admirar, eu morreria contente.

— Mas somente depois de

ver o navio do Anjin-san navegando, no prazo de seis meses — disse ele secamente.

— Sim ... oh, sim. —

Gyoko moveu o leque, pois o sol estava quente agora, o ar úmido e abafado, tentando sondar por que Toranaga estava sendo generoso com elas duas, sabendo que o preço seria pesado, muito pesado. — Kiku-san ficará muito perturbada por deixar a sua casa.

— Sim, naturalmente. Acho

que deveria haver alguma compensação pela obediência dela a mim, seu suserano. Deixe isso comigo, e por enquanto não toque no assunto com ela.

— Sim, senhor. E quando

deseja que meu filho esteja em Yokohama?

— Você será informada

antes de eu partir.

Ela se curvou e se afastou

a trote. Toranaga foi nadar um pouco. Ao norte o céu estava muito escuro, e ele sabia que devia estar chovendo pesadamente lá.. Quando viu o pequeno grupo de cavaleiros vindo da direção de Yokohama, retornou.

Omi desmontou e

desembrulhou a cabeça. — O Senhor Kasigi Yabu obedeceu, senhor, pouco antes do meio-dia. — A cabeça fora recentemente lavada, o cabelo penteado, e estava espetada na ponta de um pequeno pedestal, utilizado normalmente para esse exame.

Toranaga inspecionou um

inimigo como já fizera dez mil vezes na vida, perguntando-se, como sempre, como se pareceria a sua própria cabeça depois da morte, examinada pelo seu conquistador, e se demonstraria terror, agonia, raiva, horror, ou tudo isso junto ou nada disso. Ou dignidade. A máscara de morte de Yabu mostrava somente uma cólera frenética, os lábios repuxados para trás num desafio feroz. — Ele morreu bem?

— O melhor que já vi,

senhor. O Senhor Hiromatsu disse o mesmo. Os dois cortes, depois um terceiro na garganta. Sem auxílio e sem ruído — acrescentou Omi. — Aqui está o seu testamento.

— Você decepou a cabeça

com um único golpe?

— Sim, senhor. Pedi

permissão ao Anjin-san para usar a espada do Senhor Yabu.

— A Yoshitomo? A que eu

dei a Yabu? Ele a deu ao Anjin-san?

— Sim, senhor. Eles

conversaram por intermédio do Tsukku-san. Ele disse: "Anjin-san, dou-lhe isto para celebrar a sua chegada a Anjiro e como um agradecimento pelo prazer que o pequeno bárbaro me deu". Inicialmente o Anjin-san se recusou a aceitá-la, mas Yabu rogou-lhe que o fizesse e disse: "Nenhum destes comedores de esterco merece uma lâmina assim". O Anjin-san acabou concordando.

Curioso, pensou Toranaga.

Eu esperava que Yabu desse a lâmina a Omi.

— Quais foram suas

últimas instruções? — perguntou.

Orni contou-lhe.

Exatamente. Se não estivessem todas escritas no testamento, que fora dado publicamente à testemunha formal, Buntaro, Omi não as teria comunicado todas e, na reali dade, teria inventado outras. Yabu tinha razão, pensou ele, furioso, lembrando-se de que devia ter sempre em mente que o pincel de escrita era um braço que se alongava da sepultura.

— Para honrar a bravura

da morte do seu tio, devo respeitar-lhe os desejos de morte. Todos eles, sem alteração, neh? — disse Toranaga, testando-o.

— Sim, senhor. — Yuki! — Sim, senhor — disse a

criada. — Traga chá, por favor.

Ela saiu correndo, e

Toranaga deixou a mente ponderar sobre as últimas vontades de Yabu. Eram todas muito sábias. Mizuno era um imbecil e totalmente no caminho de Omi. A mãe era uma megera velha, irritante e untuosa, também no caminho de Omi. — Muito bem, desde que você concorde, estão confirmadas. Todas elas. E também desejo aprovar os desejos de morte de seu pai antes de se tornarem finais. Como recompensa pela sua devoção, designo-o comandante do Regimento de Mosquetes.

— Obrigado, senhor, mas

não mereço essa honra — disse Omi exultante.

— Naga será o segundo

em comando. Depois: você fica nomeado cabeça dos Kasigi e o seu novo feudo serão as terras fronteiriças a Izu, de Atami, a leste, a Nimazu, a oeste, incluindo a capital, Mishima, com a renda anual de trinta mil kokus.

— Sim, senhor, obrigado.

Por favor ... não sei como agradecer-lhe. Não sou digno dessas honras.

— Faça por sê-lo, Omi-

sarna -— disse Toranaga afavelmente. — Tome posse do castelo de Mishima imediatamente. Parta de Yokohama hoje. Apresente-se ao Senhor Sudara em Mishima. O Regimento de Mosquetes será enviado para Hakoné e estará lá dentro de quatro dias. Depois, em particular, apenas para o seu conhecimento: estou mandando o Anjin-san de volta a Anjiro.

Ele construirá um novo

navio lá. Você passará o seu feudo atual a ele. Imediatamente.

— Sim, senhor. Posso dar-

lhe a minha casa?

— Sim, pode — disse

Toranaga, embora, naturalmente, um feudo contivesse tudo+ o que estivesse no local, casas, propriedade, camponeses,

pescadores, botes. Os dois homens olharam quan do a risada gorjeaste de Kiku veio ao ar, e viram-na no pátio fazendo o jogo de atirar o leque com a criada, Suisen, cujo contrato Toranaga também comprara como presente de consolo pelo infeliz aborto de Kiku.

A adoração de Orni foi

evidente -todos poderiam notála, por mais que tentasse ocultá-la, tão súbita e inesperada fora a aparição dela. Então viram-na olhar na direção deles. Um sorriso adorável espalhou-se peio rosto dela, que acenou alegremente. Toranaga retribuiu e ela voltou ao jogo.

— É bonita, neh?

Omi sentiu as orelhas

queimando. — Sim.

Originalmente Toranaga

comprara o contrato de Kiku para separá-la de Omi, porque ela era uma das fraquezas de Orni e claramente um prêmio, a ser dado ou recusado, até que Omi tivesse declarado e provado sua real dedicação, e ajudado ou não na eliminação de Yabu. E ele ajudara, miraculosamente, e provara a si mesmo muitas vezes. Investigar os criados fora sugestão de Omi. Muitas, se não todas, das excelentes idéias de Yabu provieram de Omi. Um mês atrás Omi havia desvendado os detalhes da conspiração a fim de assassinar Naga e os outros oficiais marrons durante a batalha.

— Não há engano nisso,

Omì-san? -— perguntara ele quando Omi se apresentara secretamente a ele, em Mishima, enquanto ele esperava o resultado do desafio de Mariko.

— Não, senhor. Kiwami

Matano, do Terceiro Regimento de Izu, está lá fora.

O oficial de Izu, um homem

de meia-idade, bochechudo, atarracado, revelara a conspiração toda, dando as senhas e explicando como funcionaria o esquema. — Eu não podia mais viver com a vergonha desse conhecimento, senhor. O senhor é o nosso suserano. Claro, para ser justo devo dizer que o plano era apenas para o caso de ser necessário. Imaginei que isso significasse a possibilidade de 1'abu-cama resolver mudar de lado durante a batalha. Sinto muito, o senhor era o alvo principal depois de Naga-san. Depois o Senhor Sudara.

— Quando foi dada a

ordem para esse plano e quem está a par dele?

— Pauco depois de o

regimento ser formado. Cinqüenta e quatro de nós sabemos, dei todos os nomes por escrito a Omisama. O plano, de codinome "Ameixeira", foi confirmado pessoal mente por Kasigi Yabu-sarna antes de ele partir para Osaka a última vez.

— Obrigado. Cumprimento-

lhe a lealdade. Deve manter isso em segredo até que eu the diga. Depois receberá um feudo no valor de cinco mil kokus.

— Por favor, desculpe-me.

não mereço nada, senhor. Imploro permissão para cometer .reppuku, por ter guardado esse segredo vergonhoso tanto tempo.

— A permissão é

recusada. Será conforme eu ordenei.

— Por favor, desculpe-me,

não mereço essa recompensa. Pelo menos permita-me continuar como estou. Era o meu dever e não merece recompensa. Na realidade eu deveria ser punido. — Qual é a sua renda agora?

— Quatrocentos kokus,

senhor. É suficiente. — Considerarei o que você diz, Kiwa-mi-san.

Depois que o oficial se

fora, ele dissera: — O que prometeu a ele, Omi-san?

— Nada, senhor. Ele me

procurou espontaneamente ontem. -— Um homem honesto? Está me dizendo que ele é um homem honesto?

— Não sei nada sobre isso,

senhor. Mas ele me procurou ontem, e eu corri para cá para lhe dizer.

— Então ele realmente será

recompensado. Tal lealdade é mais importante do que qualquer coisa, neh?

— Sim, senhor.

— Não diga nada sobre

isso a ninguém.

Omi partira e Toranaga

perguntara a si mesmo se Mizuno e ele não teriam forjado a conspiração para desacreditar Yabu. Imediatamente colocou seus espiões para descobrirem a verdade. Mas a conspiração era autêntica, e a queima do navïo fora uma desculpa perfeita para eliminar os cinqüenta e três traidores, todos os quais tinham sido calocados entre os guardas de Izu naquela noite. Kiwami Matano fora mandado para a norte, com um bom feudo, embora modesto.

— Com certeza esse

Kiwami é o mais perigoso de todos -~ dissera a Sudara, o único a ser informado da trama.

— Sim. E será vigiado o resto da vida e nunca merecerá

confiança. Mas geralmente

o bem exïste nas pessoas más e a mal nas pessoas boas. Deve-se escolher o bem e eliminar o mal, sem sacrificar o bom. Não há desperdício nos meus domínios para ser jogado fora levianamente.

Sim, pensou Toranaga com

grande satisfação, você certamente merece um prêmio, Omi.

— Ouça, Omi-san, a

batalha começará em poucos dias. Voeé me serviu lealmente. No último campo de batalha, após a minha vitória, nomeá-lo-ei governador de Izu, e farei novamente da linhagem Kasìgi daimios hereditários.

— Sinto muito, senhor, por

favor, desculpe-me, mas não mereço essa honra — dìsse Omi.

— Você é jovem mas

promete muito, mais do que a sua idade deixaria supor. Seu avô era muito parecido com você, muito inteligente, mas não tinha paciência. — Novamente o som da risada das senhoras, e Toranaga observou Kiku, tentando resolver sobre ela, o plano original agora posta de lado.

— Passo perguntar-lhe o

que quer dizer com "paciência", senhor? — dìsse Omí, instintivamente sentindo que Toranaga desejava que a pergunta fosse feita.

Toranaga ainda olhava para

a garota, entusiasmado com ela. — Paciência quer dizer conter-se. Existem sete emoções, neh? Alegria, ira, ansiedade, adoração, pesar, medo e ódio. Se um homem não cede a elas, é paciente. Eu nãa sou tão forte quanto poderia ser, mas ,sou paciente. Compreende?

— Sim, senhor. Com toda a

clareza.

— A paciência é muito necessária num líder. — Sìm.

— Aquela senhora, par

exemplo. É uma distração para mim, bela demais, perfeita demais para mim, Sou simples demais para uma criatura tão rara. Por isso resolvi que ela pertence a outro lugar.

— Mas, senhor, mesmo

como uma das suas damas menores... — Omi pronunciou a cortesia que os dois homens sabiam ser um fingimento, embora obrigatória, e o tempo todo rezava como nunca rezara antes, sabendo o que era possível, sabendo que nunca poderia pedir.

— Concorda totalmente —

disse Toranaga. — Mas um grande talento merece sacrifício. — Ainda a observava jogando o leque, pegando o leque da criada de volta, sua alegria conta giaste. Então a vista das duas mulheres foi obscurecida pelos cavalos. Sinto muito, Kiku-san, pensou ele, mas tenho que passá-Ia adiante, instalá-la fora do meu alcance rapidamente. A verdade é que realmente estou gostando demais de você, embora Gyoko nunca acreditasse que eu lhe disse a verdade, nem Omi, nem você mesma. — Kiku-san é digna de ter sua própria casa. Com seu próprio marido.

— Melhor ser consorte do

samurai mais baixo do que esposa de um fazendeiro ou mercador, por mais rico que seja.

— Não concordo.

Para Omi essas palavras

encerraram o assunto. Karma, disse a si mesmo, seu sofrimento dominando-o. Afaste a tristeza, imbecil. O seu suserano decidiu, portanto está encerrado. Midori é uma esposa perfeita. Sua mãe vai se tornar monja, portanto agora a sua casa terá harmonia.

Tanta tristeza hoje. E

felicidade: futuro daimio de Izu; comandante do regimento; o Anjin-san será mantido em Anjiro, conseqüentemente o primeiro navio será construído em Izu - Ponha de lado a sua tristeza. A vida é toda feita de tristeza.

Omi levantou os olhos para

Toranaga, a mente clara, tudo no respectivo compartimento:

— Por favor, desculpe-me,

senhor, peço-lhe perdão. Eu não estava pensando com clareza.

— Pode saudá-la se

desejar, antes de partir.

— Obrigado, senhor. —

Omi envolveu a cabeça de Yabu. — Deseja que eu a enterre ou que a exiba?

— Espete-a numa lança, de

frente para os destroços do navio.

— Sim, senhor.

— Qual foi o poema de

morte dele?

Omi disse:

— "O que são nuvens

senão uma desculpa para o céu? O que é a vida Senão uma fuga da morte?"

Toranaga sorriu.

— Interessante — disse.

Omi curvou-se, entregou a

cabeça embrulhada a um de seus homens e dirigiu-se por entre os cavalos e samurais até o pátio.

— Ah, senhora — disse

ele, com uma formalidade gentil. — Estou muito satisfeito de vê-la bem e feliz.

— Estou com meu senhor,

Omi-san, e contente. Como poderia eu estar, senão feliz?

— Sayonara, senhora. — Sayonara, Omi-san. Ela se curvou. Uma lágrima

brotou e ela a secou, curvou-se de novo, enquanto ele se afastava. O andar firme, e teria chorado alto, mas então, como sempre, ouviu na memória as palavras tantas vezes pronunciadas, faladas gentilmente, faladas sabiamente: "Por que chora, criança? Nós, do Mundo Flutuante, vivemos apenas para o momento, dando todo o nosso tempo aos prazeres das flores de cerejeira, da neve, das folhas de bordo, do chamado de um grilo, da beleza da luz, minguando, crescendo e renascendo, cantando nossas canções e tomando chá e saquê, conhecendo perfumes e o toque das sedas, acariciando por prazer, e devaneando, sempre devaneando. Ouça, criança, nunca fique triste, sinta-se sempre vagando como um lírio na correnteza cio rio da vida. Como você tem sorte, Kiku-chan, você é uma princesa do Ukiyo, do Mundo Flutuante, devaneie, viva o momento..." Kiku secou uma segunda lágrima, uma última lágrima. Garota tola, chorando assim. Pare de chorar! ordenou a si mesma. Você tem uma sorte inacreditável! É consorte do maior daimio, embora seja uma consorte menor, não oficial, mas o que importa isso? Os seus filhos nascerão samurais. Esse não é o presente mais inacreditável do mundo? O adivinho não predisse essa boa fortuna incrível, que era para não se acreditar nunca? Mas agora é verdade, neh? Se você tem que chorar, há coisas mais impórtantes por que chorar. Sobre a semente crescendo no seu ventre, que o chá de gosto esquisito tirou de você. Mas por que chorar por isso? Ainda nem era uma criança, e quem era o pai? De verdade?

— Não sei, não com

certeza, Gyoko-san, sinto muito, mas acho que é do meu senhor — dissera ela finalmente, desejando muito um filho dele para concretizar a promessa de samurai.

— Mas digamos que a

criança nasça com olhos azuis e a pele clara? Poderia, neh? Conte os dias.

— Contei e retomei, oh,

como contei!

— Então seja honesta

consigo mesma. Sinto muito, mas o futuro de nós duas depende agora de você. Tem muitos anos férteis pela frente. Está só com dezoito anos, criança, neh? É melhor ter certeza, neh?

Sim, pensou ela de novo,

como a senhora é sábia, Gyoko-san, e como eu fui tola, estava enfeitiçada. Era apenas um começo, e como somos sensatos, nós, japoneses, em saber que uma criança não é uma criança propriamente dita até trinta dias após o nascimento, quando o espírito se fixa firmemente no corpo e seu ,karma se torna inexorável. Oh, como tenho sorte, e quero um filho, outro e outro e nunca uma filha. Coitadas das meninas! ó deuses, abençoem o adivinho e obrigada, obrigada pelo meu karma, por eu ser favorecida pelo grande daimio, por meus filhos serem samurais e, oh, por favor, façam-me digna de tanta maravilha...

— O que é, ama? —

perguntou a pequena Suisen, amedrontada com a alegria que parecia brotar de Kiku.

Kiku suspirou, contente. —

Eu estava pensando no adivinho, no meu senhor, no meu karma, apenas devaneando, devaneando... Avançou pelo pátio, protegendo-se com a sombrinha escarlate, à procura de Toranaga. Ele estava quase escondido pelos cavalos e samurais e falcões no pátio, mas ela conseguiu vê-lo ainda na varanda, tomando chá agora, Fujiko curvando-se à sua frente de novo. Logo será a minha vez, pensou ela. Talvez esta noite possamos começar uma nova criança. Oh, por favor ... Então, extremamente feliz, voltou ao jogo.

Fora dos portões, Omi

montou e partiu a galope com seus guardas, cada vez mais depressa, a velocidade revigorando-o, limpando-o, o pungente cheiro de suor do seu cavalo agradando-lhe. Não se voltou para olhar para ela, porque não havia necessidade. Sabia que abandonara toda a paixão da vida, e tudo o que adorara, aos pés dela. Tinha certeza de que nunca conheceria a paixão novamente, o êxtase de união espiritual que incandescia homem e mulher. Mas isso não lhe desagradou. Pelo contrário, pensou ele com uma claridade de gelo recém-descoberta, abençôo Toranaga por me libertar dessa servidão. Agora nada me prende. Nem pai nem mãe nem Kiku. Agora também posso ser paciente. Tenho vinte e um anos, sou quase daimio de Izu, e tenho um mundo a conquistar.

— Sim, senhor? -— estava

dizendo Fujiko.

— Você irá diretamente

daqui para Anjiro. Resolvi trocar o feudo do Anjin-san, Yokohama, por Anjiro. Vinte ris em cada direção a partir da aldeia, com uma renda anual de quatro mil kokus. Você ficará com a casa de Omi-san.

— Permita-me agradecer-

lhe em nome dele, senhor. Sinto muito, estou entendendo que ele ainda não sabe disso?

— Não. Vou dizer-lhe hoje.

Ordenei-lhe que construísse outro navio, Fujiko-san, para substituir o que se perdeu, e Anjiro será um estaleiro perfeito, muito melhor que Yokohama. Combi nei com a mulher Gyoko para que o filho mais velho dela seja supervisor comercial para o Anjin-san, e todos os materiais e artesãos serão pagos pela minha tesouraria. Você terá que ajudá-lo a estabelecer alguma forma de administração.

— Oh ko, senhor — disse

ela, imediatamente preocupada. — O tempo que me sobra com o Anjin-san será tão curto.

— Sim. Terei que encontrar outra consorte para ele — ou esposa. Neh?

Fujiko levantou os olhos, os

olhos estreitando-se. E disse: — Por favor, como posso ajudar?

— A quem sugere? —

perguntou Toranaga. — Quero que o Anjin-san esteja contente. Homens contentes trabalham melhor, neh?

— Sim. — Fujiko rebuscou

na mente. Quem se compararia a Mariko-san? Então sorriu. — Senhor, a atual esposa de Omi-san, Midori-san. A mãe dele a odeia, conforme o senhor sabe, e quer que Omi se divorcie — sinto muito, mas ela teve a surpreendente falta de educação de dizer isso na minha frente. Midori-san é uma senhora adorável e, oh, tão inteligente.

— Acha que Omi quer se

divorciar? — Outra peça do quebra-cabeça que se encaixa no lugar.

— Oh, não, senhor, tenho

certeza de que não. Que homem realmente deseja obedecer à mãe? Mas essa é a nossa lei, por isso ele deveria ter-se divorciado na primeira vez em que os pais mencionaram isso, neh? Ainda que sua mãe tenha um temperamento péssimo, com certeza ela sabe o que é melhor para ele, claro. Sinto muito, tenho que ser sincera, já que este assunto é muito importante. Claro que não tenho a intenção de ofender, senhor, mas o dever filial para com os pais é o sustentáculo da nossa lei.

— Concordo — disse

Toranaga, ponderando sobre essa nova e feliz idéia. — O Anjin-san consideraria Midori-san uma boa sugestão?

— Não, senhor, não se o

senhor ordenar o casamento ... mas, desculpe, não há necessidade de o senhor ordenar.

— Oh?

— O senhor talvez pudesse

encontrar um meio de fazê-lo pensar nisso por si. Isso certamente seria melhor. Com Omi-san, claro, o senhor simplesmente ordena.

— Claro. Você aprovaria

Midori-san?

— Oh, sim. Ela tem

dezessete anos, seu filho é saudável, ela é de boa linhagem samurai, portanto daria belos filhos ao Anjin-san. Suponho que os pais de Omi insistirão para que Midori entregue o filho a Omi-san, mas, se não o fizerem, o Anjin-san poderia adotá-lo. Sei que o meu amo gosta dela, porque Marikosama contou-me que o arreliava com ela. Ela é de ótima linhagem samurai, muito prudente, muito inteligente. Oh, sim, ele estaria muito seguro com ela. Além disso seus pais estão mortos, portanto não haveria ressentimento por parte deles quanto ao casamento dela com um ... com o Anjin-san.

Toranaga brincou com a

idéia. Eu certamente tenho que manter Omi desnorteado, disse a si mesmo. O jovem Omi pode se tornar um estorvo ao meu lado com toda a facilidade. Bem, não terei que fazer nada para que Midori se divorcie. O pai de Omi certamente terá últimas vontades definidas antes de cometer seppuku, e a esposa insistirá, com certeza, em que a última coisa mais importante que ele faça neste mundo seja casar o filho corretamente. Então Midori estará divorciada dentro de poucos dias, de qualquer modo. Sim, ela seria uma ótima esposa.

— Além dela, Fujiko-san,

que tal Kiku, Kiku-san?

Fujiko olhou-o fixamente. —

Oh, sinto muito, senhor, vai abandoná-la?

— Talvez. Bem?

— Eu teria pensado que

Kiku-san seria uma perfeita consorte não oficial, senhor. É brilhante e maravilhosa. Mas embora eu entenda que ela seria uma distração enorme para um homem comum, sinto muito, levaria anos até que o Anjin-san fosse capaz de apreciar a qualidade rara do seu canto, da sua dança ou do seu espírito. Como esposa? — perguntou ela, com a ênfase suficiente para indicar total desaprovação. — As damas do Mundo do Salgueiro geralmente não são educadas do mesmo modo que... que as outras, senhor. Seus talentos repousam em outra parte. Ser responsável pelas finanças e os negócios da casa de um samurai é diferente do Mundo do Salgueiro.

— Ela poderia aprender? Fujiko hesitou um longo

momento. — O ideal para o Anjin-san seria Midori-san como esposa, Kiku-san como consorte.

— Elas poderiam aprender

a viver com as, há, atitudes diferentes dele?

— Midori-san é samurai,

senhor. Seria dever dela. O senhor lhe ordenaria. Kiku-san também.

— Mas não o Anjin-san?

— O senhor o conhece

melhor do que eu. Mas em coisas de "travesseiro", há... seria melhor que ele, bem, pensasse nisso sozinho.

— Toda Mariko-sama teria

dado uma esposa perfeita para ele. Neh?

— Essa idéia é

extraordinária, senhor — replicou Fujiko, sem piscar. — Certamente ambos tinham um enorme respeito mútuo.

— Sim — disse ele

secamente. — Bem, obrigado, Fujikosan. Considerarei o que você disse. Ele estará em Anjiro dentro de uns dez dias.

— Obrigada, senhor. Se eu

puder sugerir, o porto de Ito e a nascente de Yokosé deveriam ser incluídos no feudo do Anjin-san.

— Por quê?

— Ito só para o caso de

Anjiro não ser grande o bastante. Talvez fossem necessárias carreiras maiores, para um navio tão grande. Talvez estivessem disponíveis lá. Yokosé porq ...

— Estão?

— Sim, senhor. E ... —

Você esteve lá?

— Não, senhor. Mas o Anjin-san se interessa pelo mar. O senhor também. Era meu dever tentar aprender sobre navios e navegação, e, quando fomos informados de que o navio do Anjin san tinha pegado fogo, perguntei a mim mesma se seria possível construir outro, e se fosse, onde e como. lzu é a escolha perfeita, senhor. Será fácil manter os exércitos de Ishido a distância.

— E por que Yokosé? — E Yokosé porque um

hatamoto deve ter um lugar nas montanhas, onde o senhor pudesse ser recebido no estilo que tem o direito de esperar.

Toranaga observava-a

atentamente. Fujiko parecia muito dócil e modesta, mas ele sabia que era tão inflexível quanto ele mesmo, e nem um pouco pronta a ceder em nenhum dos dois pontos, a menos que ele ordenasse. — Concordo. E considerarei o que você disse sobre Midori-san e Kiku-san.

— Obrigada, senhor —

disse ela com humildade, contente por haver cumprido o dever para com o amo e saldado seu débito com Mariko. Ito pelas carreiras, e Yokosé porque Mariko dissera que fora lá que o "amor" deles realmente começara.

— Tenho tanta sorte,

Fujiko-chan — dissera-lhe Mariko em Yedo. — Nossa viagem para cá trouxe-me mais alegria do que eu tenho o direito de esperar em vinte vidas.

— Imploro-lhe que o proteja

em Osaka, Mariko-san. Sinto muito, ele não é como nós, não é civilizado como nós, pobre homem. O nirvana dele é a vida e não a morte.

Isso ainda é verdade,

pensou Fujiko novamente, abençoando a memória de Mariko. Mariko salvara o Anjin-san, ninguém mais — não o Deus cristão ou quaisquer deuses, não o próprio Anjin san, nem mesmo Toranaga, ninguém -, apenas Mariko, sozinha. Toda Mariko-noh-Akechi Jinsai o salvara.

Antes de morrer, vou erigir

um santuário em Yokosé e deixarei um legado para outro em Osaka e outro em Yedo. Será um dos meus desejos de morte, Toranaga-sama, prometeu ela a si mesma, olhando para ele pacientemente, animada pelas outras coisas agradáveis que ainda havia por fazer em nome do Anjin-san. Midori como esposa, certamente, nunca Kiku como esposa, apenas como consorte e não necessariamente consortechefe, e o feudo aumentado até Shimoda, no extremo sul da costa de Izu. — Deseja que eu parta imediatamente, senhor?

Continuar: parte 3 de 3