Sidarta

Hermann Hesse · Capítulo 1 de 2 · parte 1/2

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Sidarta

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

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SIDARTA

Não há ninguém no Brasil que desconheça o nome de Hermann Hesse. Seu romance O Lobo da Estepe foi e é das obras literárias mais lidas em nosso País, tendo exercido profunda influência sobre as novas gerações. O Prêmio Nobel de Literatura;, que foi em 1946

conferido a Hesse, consagrou essa fama, essa glória.

Mas, com exceção daquele grande romance, a obra de Hesse era pouco conhecida no Brasil. Reconhecendo que se trata de desenterrar um verdadeiro tesouro para os nossos leitores, a Editora Civilização Brasileira iniciou com a edição de Sidarta, a publicação dos mais importantes romances de Hermann Hesse em tradução para ó vernáculo.

As Obras Completas de Hesse poderiam encher uma estante inteira: poesias, romances, novelas, en-saios, manifestos. Já no começo deste século conquis-tou Hesse larga popularidade com o romance Peter Camenzind, história de um sonhador romântico que passa pela vida boêmia dos artistas de Paris e encontra a paz da alma na paisagem de Assisi, santi-ficada pela memória de São Francisco. Foi o primeiro grande best-seller do século XX.

As tempestades da Primeira Guerra Mundial ajudaram-no a superar o romantismo inato: e o romance Demian tornou-se

outro

best-seller,

o

manifesto

do

expressionismo e de uma mocidade que esperava, depois da grande matança, a renovação relígiosa e socialista do mundo. Desilu-dido, depois, Hesse evocou contra o demonismo do mundo moderno os demônios em sua própria alma.

Foi a hora de O Lobo da Estepe. Enfim, nos últimos anos de sua longa vida, escreveu Hesse, na paz das montanhas suíças, O Jogo das Contas de Vidro, sua obra-prima definitiva, o romance-resumo da nossa cul-tura e do nosso tempo.

Hesse, embora poeta por vocação, tornou-se grande romancista; e sua própria vida foi um grande romance.

Nasceu em 1877 no coração da Alemanha antiga, romântica, em uma das pequenas cidades de aspecto medieval. Seus pais foram missionários protestantes que tinham pregado o cristianismo na índia. O jovem Hesse também deveria estudar teologia. Mas fugiu do SIDARTA Sumário

PRIMEIRA PARTE

O

Filho

do

Brâmane

.................................................................

5

Com

os

Samanas

.......................................................................

13

Gotama

.

.

............................................................................

..................

23

O

Despertar

...............................................................................

32

SEGUNDA PARTE

Kamala

........................................................................................

41

Entre

os

homens

tolos

.............................................................

54

Sansara

.........................................................................................

63

A Beira do Rio ...............................................................

72

O

Balseiro

..................................................................................

83

O

Filho

.........................................................................................

95

Om

...........................................................................................

....

104

Govinda

.........................................................................................

íll

O FILHO DO BRÂMANE

À SOMBRA da casa, ao sol da ribeira, perto dos barcos, na penumbra do salgueiral, ao pé da figueira, criou-se Sidarta, belo filho de brâmane, jovem falcão, junto com Govinda, seu amigo, filho de brâmane. O sol tostava-lhes as claras espáduas, à beira do rio, durante o banho, por ocasião das abluções sagradas e dos sacrifícios rituais. A sombra insinuava-se-lhe nos olhos negros, quando ele estava no mangueíral, entretendo-se com jogos infantis, ouvindo o canto da mãe, presenciando os sacrifícios rituais, escutando os ensinamentos do pai, o erudito, ou assistindo aos colóquios dos sábios. Havia muito que Sidarta participava dos colóquios dos sábios. Junto com Govinda, já realizava torneios de eloqüência; junto cora Govinda, já se exercitava na arte de contemplar e nos serviços

de

meditação.

Já

sabia

pronunciar

silenciosamente o Om,1 a palavra das palavras; sabia dize-lo, silenciosamente de si para si, ao aspirar o ar e pro-1 Om: "o presente, o passado e o futuro". É, segund o o upaníchade de Manduquia, o mundo inteiro, expressado por uma única sílaba, e ainda tudo quanto pode existir fora dos mencionados três tempos.

Pronunciado de diferentes maneiras, simboliza coisas as

mais diversas, tais como as horas üo dia, os Vedas, os três deuses Brama, Vixna e Siva, etc.

(N. do T.)

5

feri-lo, silenciosamente, para fora, ao expelir o ar, com a alma concentrada e a fronte aureolada pelo esplendor da inteligência lúcida. Já era capaz de perceber no íntimo da sua natureza a presença do Átman,2 indestrutível, uno com o Universo.

O coração do pai vibrava de alegria pelo filho dócil, ávido de saber. Pressentia nele um sábio, um sacerdote, um príncipe entre os brâmanes.

O peito da mãe enchia-se de delícia, sempre que o olhava, observando-lhe o modo de caminhar, de sentar-se, de erguer-se, o modo de Sidarta, o belo, o forte, que lá passeava com suas pernas delgadas e a saudava com perfeito recato.

Nas almas das jovens filhas de brâmanes nascia o amor, cada vez que Sidarta andava pelas ruas da cidade, com a testa luzente, os olhos de um rei, a cintura esbelta.

Mais do que todos os outros, porém, adorava-o Govinda, seu amigo, filho de brâmane. Amava o olhar de Sidarta, a voz *

meiga, a postura, a primorosa correção dos gestos; amava tudo quanto Sidarta fazia ou dizia; e, antes de mais nada, amava-lhe o espírito, 05 pensamentos sublimes, fervorosos, o ardor da vontade, a alta vocação.

Govinda tinha certeza de que o amigo jamais se tornaria um brâmane comum. "Esse aí nunca será nem indolente

oficial de templo, nem ganancioso mercador de fórmulas mágicas, nem orador vaidoso e vazio, nem tampouco sacerdote perverso, bifronte. Mas, ainda menos, chegará a ser ovelha bonachona, estúpida, em meio ao rebanho de outras iguais.

Nunca!" E o próprio Govinda, por sua vez, não tinha a menor intenção de ser um brâmane qualquer, tal como existe aos milhares. Queria seguir os passos de seu adorado e maravilhoso Sidarta e se este um dia se transformasse num deus, entrando no círculo dos que resplandecem ao longe, então o acompanharia Govinda, como seu amigo, seu sequaz, seu servo, seu lanceiro, sua sombra. Assim todos amavam Sidarta. A todos causava ele alegrias.

Para todos, era fonte de prazer.

Mas a si mesmo, Sidarta não se dava alegria. Para si, não era nenhuma fonte de prazer. Enquanto passeava pelas sendas rosadas do figueiredo, enquanto se mantinha sentado na penumbra azulada do bosque da contemplação, enquanto abluía ò corpo 2 Átman: literalmente fôlego. Em sentido figurado: a força vital, a personalidade, o eu, a alma, o princípio da vida. (N. do T.)

£

no cotidiano banho expiatório, ou fazia sacrifícios rituais no mangueiral envolto em sombras profundas, fazendo gestos de primorosa correção, despertando amor em toda gente, deliciando a todos, não sentia, ainda assim, nenhuma satisfação em sua própria alma. Visões acometiam-no e também pensamentos irre-quietos, brotados das águas do rio, a falsearem nos astros da noite, a fundirem-se sob os raios do sol. Devaneios

assoma-vam-lhe aos olhos. O desassossêgo do coração invadia-o, vindo da fumaça dos sacrifícios, do som assoprado dos versos do Rig-veda,s dos ensinamentos dos brâmanes anciãos.

Sidarta começava a abrigar em suas entranhas o descontentamento. Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da mãe, nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e a cada momento a força de alegrá-lo, de tranqüilizá-lo, de nutri-lo, de bastar-]he.

Começava a vislumbrar que seu venerando pai e seus demais mestres, aqueles sábios brâmanes, já lhe haviam comunicado a maior e a melhor parte dos seus conhecimentos: começava a perceber que eles tinham derramado a plenitude do que possuíam no receptáculo acolhedor que ele trazia em seu íntimo. E esse receptáculo não estava cheio; o espírito continuava insatisfeito; a alma andava inquieta; o coração não se sentia saciado. As abluções, por proveitosas que fossem, eram apenas água; não tiravam dele o pecado; não curavam a a sede do espírito; não aliviavam a angústia do coração. Excelentes eram os sacrifícios e as invocações dos deuses — mas que lhe adiantava tudo isso? Propiciariam os sacrifícios a felicidade?

E quanto aos deuses: foi realmente Prajapati quem criou o mundo? E não o Átman? Ele, o único, o indivisível? Não eram os deuses figuras criadas da mesma forma que tu e eu, perecíveis, dependentes do tempo? Seria, portanto, bom e acertado, oferecer sacrifícios aos deuses? Era isso realmente uma atividade sensata, sublime? Quem merecia imolações e reverência, senão Ele, o único, o Átman? E onde se podia encontrar o Atman, onde morava Ele, onde pulsava o Seu eterno coração, onde, a não ser no próprio eu, naquele âmago indestrutível que cada um trazia em si? Mas, em que lugar^ em que lugar

achava-se esse eu, esse âmago, esse último fim? Não era nem carne nem osso, nem pensamento nem consciência, segundo afirmavam os mais sábios.

3 Rig-veda: coleção de hinos, o primeiro dos quatro livros sagrados hindus. (N. do T.) Onde, onde existia então? Para chegar até ele, até ao eu, até a mim, ao Ãtman — haveria qualquer outro caminho que valesse a pena procurai? AÍ dele! ninguém lhe indicava tal caminho, ninguém o conhecia, nem o pai, nem os mestres e os sábios, nem os sagrados cânticos do ritual dos sacrifícios! Tudo sabiam eles, os brâmanes com seus livros santificados; tudo sabiam; com tudo se preocupavam, com tudo e mais ainda, desde a criação do mundo e a origem da fala, dos alimentos, da aspiração e da exaiação até às categorias dos sentidos e às façanhas dos deuses!

Sabiam inúmeras coisas, mas que valor tinha toda essa sabedoria para quem ignorasse aquiio que era uno e único, o mais importante, ao lado do qual coisa alguma tinha importância?

Era bem- verdade que numerosos versos dos livros sagrados, sobretudo dos upanichades do Sama-Veda*

referiam-se a esse quê derradeiro, mais íntimo. Que versos maravilhosos! "Tua alma é o mundo inteiro" —

rezava um deles e estava escrito que o homem durante o sono, o sono profundo, entrava no próprio âmago e habitava o Âtman. Sabedoria milagrosa residia nesses poemas. Todos os conhecimentos dos mais sábios encontravam-se ali reunidos, puros qual mel colhido pelas abelhas.

Não, absolutamente não convinha desprezar a imensa quantidade de saber que lá estava armazenada e conservada por inúmeras gerações de brâmanes eruditos.. . Mas, onde se achariam os brâmanes, onde os sacerdotes, os sábios ou os ascetas que lograssem não somente conhecer senão também viver essa profunda sabedoria? Onde estaria o homem perito que fosse capaz de realizar aquele passe de mágica que transportasse a familia-rídade com o Átman desde o sono para o estado de vigília, para a vida de todos os momentos e a demonstrasse por atos e palavras? Sidarta tinha contato com grande número de venerandos brâmanes e, em primeiro lugar, com seu pai, homem puro, letrado, sumamente digno de reverência. Admirável, sim, era o pai, no seu comportamento calmo, distinto. Pura era sua vida; ponderada, sua maneira de falar; idéias delicadas e nobres residiam atrás da sua testa. Quem poderia, porém, afirmar que esse homem, que tanta coisa sabia, levava uma existência feliz?

Não seria também ele um pesquisador acossado pela sede? Não * Sama-Veda: o terceiro dos hinos sagrados hindus. Os upanichades, tratados filosóficos em prosa e verso, constituem-lhe o comentário. (N. do T.) se sentia impelido a beber, insaciável, uma e outra vez nas fontes sagradas, a fim de abrevar-se em sacrifícios, livros, colóquios com outros brâmanes? Por que era preciso que tal ser incensurável se lavasse diariamente de seus pecados, empenhando-se dia a dia naquela incessante purificação? Não mora nele o Âtman? Não lhe brotava do fundo do coração o manancial dos mananciais? Esse manancial, cumpria encontrá-lo dentro

do próprio eu, para apossar-se dele! Todo o resto era apenas busca, desvio, equívoco.

Tais eram os pensamentos de Sidarta, a sua sede, o seu sofrimento.

Freqüentemente recitava de si para si os versetos de um upanichade de Xandogia: "Deveras, o nome do BranuP é satiam* e quem tiver conhecimento disso entrará todos os dias verdadeiramente no mundo celeste." Amiúde, esse mundo celeste descortinava-se-lhe bem próximo, mas jamais ele conseguiu alcançá-lo, jamais saciou inteiramente a sede. E entre todus os eruditos que conhecia, entre os pensadores mais sábios cujos ensinamentos lhe eram ministrados, não havia nenhum que tivesse chegado até lá, pondo o pé no mundo celeste e matando a sede perene.

— Govinda! — disse Sidarta ao amigo — Govinda, meu caro, vem comigo até à figueira. À sua sombra, entreguemo-nos à meditação.

Encaminharam-se para a árvore. Assentaram-se, Sidarta num lugar, e Govinda, noutro, a vinte passos de distância.

Enquanto tomava assento e se dispunha a pronunciar o Omt Sidarta, num murmúrio, repetia os versos: Om é arco; a alma é a seta;

Brama é o alvo da seta; Cumpre

feri-lo constantemente."

Decorrido o tempo habitual do exercício de meditação, levantou-se Govinda. Anoitecera. Convinha fazer a

ablução noturna. E ele chamou Sidarta pelo nome. Mas este não res-5

Brdma:

substantivo

neutro

que

significava

primitivamente fórmula mágica. Mais tarde assumiu o sentido da força imanente à cantiga re ligiosa, para, finalmente, nos upanichades, referir-se à alma universal, à força et erna, in fin ita, qu e cria e cons er va o mund o.

(N. d o T.) 6

Saíiam: verdade. (N. do T.)

—. Hei de conservar-me assim, aguardando.

— Ficarás cansado, Sidarta.

— Ficarei cansado.

— Adormecerás, Sidarta.

— Não adormecerei.

— Morrerás, Sidarta.

— Morrerei.

— E preferes morrer a obedecer teu pai?

— Sidarta sempre obedeceu seu pai.

— Então desistirás do teu propósito?

— Sidarta fará o que lhe ordenar seu pai.

O primeiro clarão da madrugada invadia a salinha. O brà-mane notou que os joelhos de Sidarta tremiam levemente. Mas no seu rosto não se deparava nenhum tremor. Os olhos fitavam um ponto .muito distante. Foi

quando o pai se deu conta de que Sidarta já não se achava junto dele, nem no torrão natal, pois que acabava de separar-se de ambos.

O pai colocou a mão no ombro, do filho.

— Hás de embrenhar-te no mato — disse — para que possas ser um samana. Se encontrares a felicidade no mato, volta e ensina-ma. Se encontrares desilusões, procura-me nova mente e juntos sacrificaremos aos deuses. Agora vai-te. Abraça tua mãe e dize-lhe aonde te encaminhas. Para mim, está na hora de ir ao rio, a fim de fazer a primeira ablução.

Tirou a mão do ombro do filho e saiu. Sidarta cambaleou, quando tentava pôr-se em movimento. Mesmo assim, dominou os seus membros. Depois de inclinar-se diante do pai, foi ter com a mãe, para cumprir com a ordem paterna.

Quando abandonava a cidade ainda silenciosa, à luz da incipiente madrugada, caminhando devagar, com as pernas enri-jecidas, avistou nas proximidades da última cabana um vulto que ali estava acocorado. Era Govinda.

Ergueu-se e foi com Sidarta, o peregrino.

— Vieste mesmo — disse Sidarta, sorrindo.

— Vim — confirmou Govinda.

12

COM OS SAMANAS

i

A NOITE do mesmo dia alcançaram eles os

ascetas, aqueles mesmos esqueléticos s&manas e pediram-lhes licença para acompanhá-los. Prometeram obedecer-lhes e foram aceitos. Sidarta deu as suas roupas a um brâmane indigente que se encontrava à beira da estrada. Apenas ficou com a tanga e a manta parda. Daí por diante, limitava-se a fazer uma única refeição por dia e deixava de comer alimentos cozidos.

Jejuou durante quinze dias; durante vinte e oito dias, A carne sumia-lhe das pernas e das faces. Fervorosos devaneios bruxuleavam em seus olhos encovados. Nos dedos ressequidos cresciam unhas compridas. Do queixo pendia a barba seca, hirsuta.

Seu olhar tornava-se glacial, sempre que deparava com mulheres.

Desde-nhosamente crispava-se-lhe a boca, cada vez que, ao atravessar uma cidade, topasse com pessoas bem vestidas. Via muito bem como os mercados faziam negócios, como os potentados iam à caça, os enlutadòs choravam seus mortos, as meretrizes se ofereciam, os médicos cuidavam de seus pacientes, os sacerdotes fixavam o dia apropriado para a semeadura, os namorados enlaçavam-se, as mães amamentavam os filhinhos... Mas nada disso era digno de ser olhado. Tudo era mentira; tudo, fedor; tudo recendia a falsidade, tudo criava a ilusão de significado,

13

felicidade, beleza e, todavia, não passava de putrefação oculta. Amargo era o sabor do mundo. A vida era um tormento.

Um único objetivo surgia diante de Sidarta; o objetivo de tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazio de

sonhos, vazio de alegria e de pesar. Exterminar-se distanciando-se de si mesmo; cessar de ser um eu; encontrar sossego, após ter evar cuado o coração; abrir-se ao milagre, com o pensamento desin-dividualizado —

eis o que era o seu propósito. Quando todo e qualquer eu estivesse dominado e morto, quando, dentro do coração, se calassem todos os anseios e instintos, inevitavelmente despertaria no seu ser a quinta-essência, o último elemento, aquilo que já não fosse o eu, o grande mistério.

Em completo silêncio, Sidarta mantinha-se de pé, abrasado peto sol do meio-dia, torturado pela dor, consumido pela sede.

Mantinha-se de pé, até já não sentir nem dor nem sede.

Em completo silêncio, mantinha-se de pé, na época das chuvas, com a água a gotejar-lhe dos cabelos, por sobre as espáduas gélidas, os quadris e as coxas enregeladas.

De pé continuava o penitente, até que os ombros e as pernas deixassem de sentir frio, até que se calassem, sossegados.

Em

completo

silêncio,

quedava-se

acocorado nas brenhas do espinhal. Da pele ardente pingava o sangue; das chagas, o pus. Hirto, imóvel, permanecia Sidarta, até que o sangue cessasse de correr e nada mais picasse ou ardesse. Sidarta conservava-se sentado, em posição ereta.

Aprendia a economizar o fôlego, a necessitar cada vez menos fôlego, a abster-se totalmente dele. Aprendia, partindo da respiração a acalmar as pulsações do coração, a diminuí-las até sobrarem somente poucas, quase nenhuma.

Orientado pelo mais idoso dos samanas, Sidarta exercitava-se na desindividualizacão e na meditação,

segundo as novas regras da irmandade. Uma garça voava por cima do bambual e Sidarta acolhia-a na sua alma. Adejava por sobre as selvas e as serras, devorava peixes, sofria fome de garça, proferia grasnidos der garça, morria a morte das garças. O cadáver de um chacal jazia na areia da ribeira e a alma de Sidarta infiltrou-se nele, fez-se chacal morto, jazeu na ribeira, intumescida, fedorenta, putrefata. Dilaceravam-na as hienas, escorchavam-na os abutres.

E ela transformou-se em pó que esvoaçou pelos campos.

Em seguida, a alma de Sidarta regressava. Morrera, decompusera-se, 14

transformara-se em pó, experimentara a triste embriaguez do circuito e Sidarta, acossado de nova sede, tornava a espreitar, qual caçador, uma lacuna que lhe permitisse esquivar-se do circuito, para descobrir o lugar onde se encontrasse o fim das causas e começasse a eternidade isenta de pesares. Mortificava os sentidos: aniquilava as recordações: distanciandc^se do seu eu, introduzia-se em milhares de formas estranhas; convertia-se em bichos, carniças, pedras, tocos, águas e ao acordar, sempre se reencontrava. Que brilhasse o sol ou a lua, Sidarta tornava a seu eu, a flutuar no circuito, a padecer sede, a dominar a sede, a sentir nova sede.

Os samanas ensinavam muita coisa a Sidarta e ele aprendia numerosos métodos de separar-se do eu.

Trilhava a senda da desindividualização, através da dor, através do tormento volun-tário e do triunfo sobre o sofrimento, sobre a fome, a sede, o cansaço.

Desindividualizava-se, mediante a meditação, tirando do seu espírito toda e qualquer representação, até deixá-lo vazio. Aprendia a percorrer esse e outros caminhos, saindo inúmeras vezes do próprio eu e conservando-se

no não eu, horas e dias a fio. Mas, por mais que os caminhos o afastassem do eu, ao fim sempre o reconduziam até ele. Se bem que, Sidarta, milhares de vezes escapasse a si mesmo, para demorar-se no nada, nos animais, nas pedras, era inevitável o retorno, era impossível evitar a hora do reencontro, à luz do sol ou ao luar, na penumbra ou sob a chuva; sempre vinha a hora em que ele era novamente Sidarta, eu e sentia mais uma vez a tortura do circuito imposto a ele.

A seu lado vivia Govinda, sua sombra. Trilhava as mesmas sendas. Afadigava-se da mesma forma. Só raras vezes falavam eles sobre outros assuntos que não aqueles que o serviço e os exercícios requeriam. De quando em quando, ambos passavam pelas aldeias, a mendigarem alimentos para si e para os seus mestres.

— Que tal, Govinda? — disse Sidarta durante uma dessas jornadas. — Achas que fizemos progressos? Realizamos algum propósito?

Respondeu Govinda:

— Aprendemos e continuamos a aprender. Tu, Sidarta, chegarás a ser um grande satnana. Em pouco tempo conseguiste 15

executar todos os exercícios. Freqüentemente os velhos samanas tributaram-te admiração. Um dia serás um santo, ó Sidarta.

Replicou Sidarta:

— A mim, meu amigo, .-as coisas não se apresentam assim.

Olha, Govinda: aquelas lições que, até ao dia de hoje, aprendi dos samanas, eu poderia tê-las assimilado mais depressa e com menos esforço. Aquilo, meu caro, posso aprendê-lo em qual quer tasca do bairro de meretrizes, entre carroceiros e jogadores de dados.

— Sidarta está brincando comigo — tomou Govinda. —

Como poderias obter daqueles miseráveis a arte da meditação, a suspensão do fôlego, a insensibilidade à fome e à dor?

Mas Sidarta disse em voz baixa, como se falasse de si para si:

— O que é a meditação? O que, o abandono do corpo?

Que significa o jejum? E a suspensão do fôlego? São modos de fugirmos de nós mesmos. São momentos durante os quais o homem escapa à tortura de seu eu.

Fazem-nos esquecer, passa geiramente, o sofrimento e a insensatez da vida. A mesma fuga, o mesmíssimo esquecimento, o boiadeiro encontra-os na estala-gem, quando bebe algumas tigelas de vinho de arroz ou de leite de coco fermentado. Então cessa de sentir o seu eu, cessa de padecer dores, anestesia-se por algum tempo.

Ao adormecer, junto à tigela de vinho de arroz, consegue o mesmo efeito que provocam Sidarta e Govinda, cada vez que, depois de prolongados exercícios, se distanciam de seus corpos, a fim de entrarem no não eu. Realmente, é assim, Govinda!

— Ainda que fales assim, meu amigo, — retrucou Govinda — sabes muito bem que Sidarta não é nenhum boia deiro e que os samanas não são ébrios. É verdade que um beberrão obtém o esquecimento. Certamente se lhe oferecem breves instantes de fuga e de sossego, mas

sempre regressará do mundo da ilusão e tudo se lhe deparará como antes. Ele não se torna mais sisudo, não colhe conhecimentos, não sobe nenhum degrau.

E Sidarta replicou, sorrindo;

— Isso não sei julgar. Nunca fui beberrão. Mas uma coisa sei, ó Govinda: nos meus exercícios e nas minhas meditações, eu, Sidarta, encontro apenas fugidias fases de esquecimento.

E que, apesar disso, continuo tão distante da sabedoria, da 16

salvação, quanto fica um feto no ventre da mãe, disso tenho plena certeza.

Em outra ocasião, quando Sidarta, acompanhado de Govinda, saía do mato, a fim de mendigarem na aldeia alguma comida para si e para os mestres, começou a abrir-se novamente, dizendo:

— Que achas, Govinda? Estamos no caminho certo?

Pensas que nos aproximamos do conhecimento?

Chegamos mais perto da graça? Ou, quem sabe, movimentamo-nos num círculo fe chado, justamente nós que queríamos escapar ao circuito?

A isso respondeu Govinda:

— Olha, Sidarta, aprendemos muito, mas muita coisa ainda resta-nos aprender. Não nos movimentamos num círculo fe chado, senão subimos sempre. O círculo é uma espiral. Já galgamos numerosos degraus.

Tornou Sidarta:

— Que pensas, quantos anos tem o nosso venerando mestre, o mais idoso dos somemos?

E Govinda: — O mais velho deve contar uns sessenta anos.

— Sessenta anos — retorquiu Sidarta — e não alcançou o Nirvana? Ele completará setenta anos e oitenta, e tu e eu, talvez cheguemos à mesma idade. Faremos exercícios, jejua-rcmos, havemos de meditar. Mas nunca alcançaremos o Nirvana, nem ele, nem nós. Acharemos consolo, encontraremos esque cimento, aprenderemos técnicas mediante as quais nos possamos iludir. O

essencial, porém, o caminho dos caminhos, jamais se nos descortina.

•— O Sidarta — exclamou Govinda — não pronuncies essas palavras assustadoras! Como então seria possível que entre tantos homens sábios, entre tantos brâmanes, entre tantos samanas austeros e veneráveis, entre tantos e tantos pesquisadores esforça-dos e puros, não houvesse nenhum que fosse capaz de encontrar o caminho dos caminhos?

Mas Sidarta respondeu numa voz que refletia, ao mesmo tempo, pesar e escárnio, voz baixa, um pouco triste e todavia, irônica:

7 Nirvana: extinção da individualidade, emancipação final.

17

— Em breve, ó Govinda, o teu amigo há de afastar-se da senda dos samanas, pela qual andou, lado a lado contigo, durante muito tempo. Sinto sede, Govinda e no curso da longa caminhada que fiz junto com os samanas,

a minha sede não diminuiu em absoluto. Sempre almejei o conhecimento; sempre abriguei em mim grande número de perguntas. Consultei cs brâmanes, ano por ano, e consultei os sagrados vedas, ano por ano, e consultei os piedosos samanas, ano por ano. Talvez, ó Govinda, fosse igualmente oportuno, sensato e proveitoso inter rogar uma ave ou um chimpanzé. Gastei muito tempo e ainda não cheguei ao fim, para apenas aprender isto: que não se pode aprender nada! Acho eu que a tal coisa que chamamos "apren der' de fato não existe. Existe, sim, meu amigo, uma única sabedoria, que se acha em toda a parte. É o Átman, que está em mim e em ti e em qualquer criatura. E por isso começo 2

crer que o pior inimigo dessa sabedoria é a sede de saber, é a aprendizagem,

Nesse momento, Govinda estacou no meio do caminho.

Levantando as mãos ao céu, implorou:

— ó Sidarta, não desencorajes teu amigo, falando assim!

Realmente, tuas palavras despertam em meu coração gravíssimos temores. Imagina apenas: onde ficaria a santidade das orações, que seria feito da respeitabilidade da classe dos brâmanes e da virtude dos samanas, se aquilo fosse verdade e não pudéssemos aprender nada?

Dize-^ne, ó Sidarta: qual seria então o destino de todas as coisas sagradas, valiosas, dignas de reverência que existem nesta terra?

E num murmúrio, Govinda recitou um verseto de um upanichade:

"Quem, ao meditar, com o espírito purificado, se confundir com o Átman, propiciará ao seu coração

indizível bem-aven-turança."

Sidarta, porém, permaneceu calado. Refletiu acerca das palavras pronunciadas por Govinda e, no seu pensamento, acompanhou-as até ao seu derradeiro significado.

"Sim, — pensou, enquanto se detinha também, sabisbaixo

— que nos restaria de tudo quanto se nos afigurava sagrado?

O que ficará? O que resistirá à prova?"

18

E sacudiu a cabeça.

Certa feita, quando os dois jovens já haviam passado três anos em companhia dos samanas, sempre participando dos exercícios recomendados por estes, alcançou-os por estranhos caminhos e desvios uma nova, um boato, um mito, a afirmar que acabava de surgir uma pessoa de nome Gotama, o Sublime, o Buda, aquele que dominara em si mesmo o sofrimento do mundo e fizera parar a roda das ressurreições. Dizia-se que ele percorria o país, a ensinar, rodeado de discípulos, desprovido de recursos, sem pátria, sem mulher, trajando o manto amarelo dos ascetas, mas mostrando uma fisionomia plácida, como um bem-aventurado. Brâmanes e príncipes, inclinando-se diante dele, tornavam-se seus discípulos.

Esse mito ou boato ou lenda ecoava em toda a parte, exalando aqui e ali o seu insinuante aroma. Nas cidades, os bíâmanés comentavam-no e na selva, os samanas.

Sempre e sempre, o nome de Gotama, o Buda, chegava

aos ouvidos dos jovens, por bem ou por mal, encomiado ou envilecido.

Dava-se então o que ocorreria quando, num país atacado pela peste, se espalhasse a notícia de que, em algum lugar, existia um homem, um sábio, um perito, cuja palavra e cujo sopro ba&-tassem para curar todas as pessoas acometidas pelo mal. Se tal nova se propagasse pela região e todos falassem dela, sempre haveria quem acreditasse nela e quem manifestasse dúvidas.

Muitos, porém, pôr-se-iam a caminho, a fim de irem ao encontro do sábio, do salvador. Da mesma forma, corria de boca em boca aquela lenda; a perfumada lenda de Gotama, o Buda, o sábio da estirpe dos Saquias. Coubera a ele — segundo afirmavam os crentes — o dom do conhecimento supremo e de recordar-se das suas existências anteriores. Tendo alcançado o Nirvana, nunca mais voltaria ao circuito; jamais tornaria a mer-gulhar na turva torrente das configurações. A seu respeito, divulgavam-se numerosos

fatos

maravilhosos,

formidáveis. O

Buda fizera milagres, vencera o Diabo, conversara com os deuses.

Seus céticos inimigos, porém, diziam que o tal Gotama era apenas um sedutor vaidoso; que passava os seus dias numa vida ociosa, desprezando os sacrifícios; que não possuía a menor erudição e não tinha noção de exercícios e mortificações.

Doce era o som da lenda do Buda; mágica, a fragrância dos boatos. Ora, o mundo estava doente. Tornara-se difícil 19

suportar a vida. . . E, todavia, imaginem! lá manava uma fonte de consolo. Era como se ressoasse o brado de um arauto, chamado reconfortante, clemente, prenhe de generosas pro-cessas. Onde quer que se divulgasse a fama do Buda, em todos os recantos das terras da índia, os jovens aguçavam o ouvido, cheios de saudade e de confiança. Entre os filhos de brámanes, nas cidades e nas aldeias, era bem-vindo qualquer peregrino cai forasteiro que lhes trouxesse notícias de Gotama, o Sublime, o Saquia-Muni.

A nova, penetrando na própria selva, alcançou também os $amana$. Sidarta e Govinda ouviram-na, aos poucos, em gotas, gotas pejadas de esperanças e de dúvidas. Só raras vezes falavam a seu respeito, já que o decano dos samanas não gostava da lenda, porque fora informado de que o pretenso Buda outrora vivera oo mato, como ermitão, porém, retornara à boa vida e aos prazeres mundanos. Por essa razão, o velho satnana formara uma opinião desfavorável àquele Gotama.

— ó Sidarta, — disse Govinda certa feita ao amigo — hoje estive na aldeia e um brâmane convidou-me para entrar tja sua casa. Ali se encontrava o filho de um brâmane de Magada, o qual viu o Buda com os próprios olhos e assistiu às suas aulas. Realmente, nesse momento, a respiração me doeu no peito. Fiquei pensando: quem me dera que eu, que Sidarta e eu, pudéssemos viver até àquela hora em que nos fosse per mitido ouvir da boca desse Ser Perfeito a sua doutrina!

Que achas, meu amigo? Que tal, se nós também nos encaminhásse mos ali, a fim de recebermos os ensinamentos do Buda em pessoa?

Respondeu Sidarta:

— Eu sempre pensei, ó Govinda, que tu nunca te afastarias dos samanas. Sempre acreditei que fosse o propósito de Govinda chegar aos sessenta e aos setenta anos, praticando sem cessar os métodos e os exercícios que fazem honra ao samana. Mas, vejam só! eu não conhecia Govinda. Pouca coisa sabia do seu coração. Pois então, meu caro, tens realmente a intenção de trilhar uma senda nova e de encaminhar-te ao lugar onde o Buda proclama a sua doutrina?

Replicou Govinda:

— Estás zombando de mim. Não faz mal, Sidarta. Mas, olha: não despertaram também em ti a vontade e o desejo de 20

conhecer essa doutrina? E não me disseste certa vez que não acompanharia» por mais tempo os caminhos dos

&amanas?

Nesse momento riu-se Sidarta, à sua maneira, e quando falou em seguida, havia no som de sua voz um quê de mágoa e uma pitada de ironia:

— Muito bem, Govínda — disse. — Falaste bem, e certas são as tuas recordações. Oxalá te lembres também de outra frase que me ouviste proferir; a saber que me tornei desconfiado com relação a ensinamentos e aprendizagens, que me cansei deles e que minha fé em palavras pronunciadas por professores diminuiu muito.

Mas, apesar disso, meu querido, vamo-nos!

Estou disposto a enfronhar-me naquela doutrina, ainda que, no fundo do coração, esteja convencido de que já saboreamos os seus melhores frutos.

Retorquiu Govinda:

— Minha alma alegra-se em face do teu intuito. Explica-me, porém, uma coisa; acho impossível aquilo que afirmaste.

Como poderia a doutrina do Buda nos proporcionar os seus melhores frutos antes que a conhecêssemos?

E Sidarta:

— Gozemos desses frutos e aguardemos o resto. O

primeiro fruto cujo sumo devemos ao Buda consiste no fato de ele ter-nos aliciado para longe dos samanas.

Resta saber se ele tem ainda outras coisas, coisas melhores, a oferecer-nos, mas isso, meu amigo, podemos aguardar com toda a calma.

Nesse mesmo dia, Sidarta comunicou ao decano dos samanas a decisão que tomara, no sentido de separar-se dele. Falou ao ancião com a cortesia e a modéstia que convém aos jovens e aos discípulos. Mas o samana enfureceu-se, ao saber que os dois rapazes desejavam abandoná-lo. Começou a gritar, usando nomes feios.

Govinda, todo assustado, ficou perplexo. Sidarta, porém, aproximou a boca da orelha do amigo e sussurrou-lhe:

— Agora mostrarei ao velho que aprendi dele algumas coisinhas.

Colocando-se perto do samana, com a alma concentrada, apanhou nos seus olhos o olhar do ancião. Dominou-o, fez com que ele se calasse e perdesse a vontade própria.

A seguir ordenou-lhe que, sem protesto, executasse o que lhe fosse imposto.

O velho silenciou. Os olhos imobilizaram-se. Sua vontade 21

tornou-se inerte. Os braços pendiam frouxos. Impotente, sucum-bia ao feitiço de Sidarta. E os pensamentos do jovem apodera-vam-se do samana que teve de fazer o que dele exigia. Curvan-do-se várias vezes, o decano esboçou gestos de bênção e, em voz embargada, proferiu votos de boa viagem. Os dois amigos, por sua vez, retribuíram as mesuras, agradecendo e afastaram-se cem uma saudação.

— Ó Sidarta, — disse Govinda durante a caminhada —

aprendeste dos samanas mais do que &u sabia. É difícil, muito difícil mesmo, enfeitiçar um somaria idoso. Falando sério, se tivéssemos permanecido ali, rapidamente terias aprendido a caminhar sobre as águas.

— Ora, não me tenta caminhar sobre as águas — respon deu Sidarta. — Que os velhos somemos se divirtam com truques dessa espécie!

GOTAMA

N,

A CIDADE de Savati, até as crianças

conheciam o nome do augusto Buda e todas as famílias apressavam-se em encher as tigelas de esmola dos discípulos de Gotama, cada vez que estes as imploravam, sem pronunciarem palavra alguma. Nas proximidades da cidade estava o sítio preferido do Buda: o bosque de Jetavana, que Anatapindica, abastado admirador do Majestoso, dera de presente a ele e seus adeptos.

Sem exceção, as descrições e as respostas que os dois jovens ascetas haviam obtido, enquanto andavam à

busca de Gotama, tinham-lhes indicado essa mesma região. Logo que chegaram à primeira casa de Savati e pararam diante da porta em posição súplice, alguém lhes ofereceu comida. Aceitaram os alimentos e Sidarta perguntou à mulher que os atendia:

— ó bondosa moça, nós ansiámos de saber onde se en contra o venerabilíssimo Buda. Somos samanos e saímos da selva, a fim de vermos o Inigualável e ouvirmos de sua boca a doutrina.

— Deveras, ó samanas da selva, — tornou a mulher —

repousais no lugar certo. Pois, o Augusto reside em Jetavana, no jardim de Anatapindica. Convém, ó peregrinos, passardes a 23

noite ali, uma vez que naquele recinto não falta espaço para o sem-número de pessoas que afluem para ouvirem de sua boca a doutrina,

Com isso alegrou-se Govinda.

— Até que enfim! — exclamou jubilosamente. — Chega mos ao nosso destino. Terminou a viagem. Mas, dize-nos, ó mãe dos peregrinos: conheces o Buda? Já o viste com teus próprios olhos?

E a mulher:

— Muitas vezes vi o Augusto. Em numerosas ocasiões ob servei-o quando passava pelas ruas, sem falar, com seu manto amarelo, ou apresentava, silenciosamente, a tigela de esmola às portas das casas, ou ainda quando se afastava com a tigela cheia.

Encantado. Govinda escutou-a. Já se dispunha a fazer outras perguntas, para ouvir mais. Sidarta, porém, insistiu

em

que

prosseguissem

na

caminhada.

Agradeceram e partiram. Não havia necessidade de pedirem informações, quanto à direção, porquanto não era pequeno o número de peregrinos e de monges do séquito de Gotama que se encaminhavam a Jetavana. E, à noite, quando alcançaram o lugar, não cessou nunca o movimento de chegadas, gritos, vozerios, de pessoas que procuravam e achavam pouso. Os dois somo nas, habituados à vida na selva, encontraram facilmente um abrigo, onde pudessem descansar até à madrugada.

Ao nascer do sol, notaram, com espanto, a multidão de fíéis e curiosos que pernoitara a seu redor. Por todas as veredas do bosque sagrado perambulavam monges de trajes amarelos; estavam sentados sob as árvores, absorvidos na meditação; aqui e ali travavam diálogos sobre assuntos religiosos. Os hortos obumbrados pareciam uma cidade cheia de habitantes que ali fervilhavam, qual enxame de abelhas. A maioria dos monges punha-se a caminho com as tigelas de esmolas, a fim de obterem, na cidade, comida para a refeição do meio-dia, a única que costumavam fazer. Também o próprio Buda, o Iluminado, tinha o hábito de esmolar na parte da manha.

Sidarta deparou com ele e imediatamente o reconheceu, como se um deus lho tivesse indicado. Observou como ele andava calmamente, um homem simples, de batina amarela, com a tigela de esmoleiro na mão.

24

— Olha aí! — segredou Sidarta ao ouvido de Govinda.

— Es.se é o Buda.

Atentamente, Govinda examinou o monge trajado de amarelo e que em nada parecia distinguir-se de centenas de outros monges. E logo percebeu também Govinda: é ele! E seguindo-o, ambos contemplavam o Buda.

Este palmilhava a estrada, recatadamente, entregue a seus pensamentos. Seu semblante impassível não mostrava nem alegria nem tristeza. Era como se, no seu íntimo, sorrisse silenciosamente. Com um sorriso imperceptível, tranqüilo, comedido, feito criança sadia, avançava o Buda, vestindo os mesmos trajes e colocando os pés de modo igual ao de todos os seus monges, conforme a rigorosos preceitos. Mas seu rosto, seus passos, seu olhar sereno, abaixado, sua mão que pendia imóvel e os próprios dedos dessa mão — tudo isso proclamava paz, proclamava perfeição, sem buscar, sem imitar nada; tudo era respiração suave, em imperecível sossego, em imorredoura luz, em nunca per-turbada paz.

Assim caminhava Gotama, rumo à cidade, para pedir esmolas e os dois samanGS identificavam-no unicamente pela perfeição da serenidade, pela calma da aparência, que não deixava perceber nem ambição, nem vontade, nem arremedo, nem. esforço, senão apenas luz e paz.

— Hoje hemos de ouvir a doutrina da própria boca do Buda — disse Govinda.

Sidarta permaneceu calado. Sentia pouca curiosidade pela doutrina. Não acreditava que ela pudesse ensinar-lhe algo de novo, uma vez que, tanto ele como Govinda, haviam obtido freqüentes informações acerca do teor dos ensinamentos de Gotama, ainda que se tratasse de relatos de segunda ou terceira mão. Contudo fitava atentamente a cabeça do Buda, os ombros, os pés, a mão que pendia serenamente. Parecia-lhe que as falan-ges de cada dedo dessa mão eram doutrina, falavam, respiravam, exalavam aroma, derramavam o brilho da verdade. Esse homem, esse Buda, era sincero até no gesto do último dos seus dedos.

Era santo. Jamais Sidarta venerara tão fervorosamente nenhum ser humano. Jamais tributara tamanho amor a homem algum.

Ambos seguiram o Sublime até à cidade. Voltaram em silêncio, porquanto tencionavam abster-se de alimentos durante esse dia. Viram como Gotama regressava.

Observaram como 25

fazia a sua refeição, rodeado pelos discípulos. O que comia não teria bastado nem sequer a um passarinho. E

eles acom-panharam-no com os olhos, quando se recolhia à sombra do mangueiral.

À tardezmha, porém, logo que o calor amainara e os habitantes do acampamento se reuniram, reanimados, escutaram ambos os ensinamentos do Buda. Ouviram a voz dele e também esta era perfeita, manifestava tranqüilidade total, irradiava paz.

Gotama ministrava a doutrina do sofrimento, da origem do sofrimento, do caminho à abolição do sofrimento.

Calmamente, lücj-damente, fluía a exposição plácida. A vida era sofrimento; o mundo estava cheio de mágoas; mas encontrara-se a salvação capaz de livrar-nos das tristezas: achá-la-ia quem acompanhasse o caminho do Buda. Com voz suave e, todavia, firme, falava o Augusto.

Ensinava os quatro axiomas fundamentais, ensinava a óctupla estrada. Pacientemente, percorria a vereda habitual da doutrina, dos paradigmas, das repetições.

Clara e branda, a voz pairava por cima dos ouvintes, como uma luz, como um firmamento estrelado.

,Já anoitecera, quando o Buda cessou de falar, Em seguida, alguns peregrinos aproximaram-se dele e lhe pediram que os aco-ihesse na sua comunidade, para que a doutrina os abrigasse, E Gotama admitiu-os, dizendo:

— Bem ouvistes a doutrina. Bem foi ela explicada. Vinde então, para viverdes em santidade e acabardes com todo o sofrimento.

Eis que Govinda, por tímido que fosse, igualmente avançou, anunciando:

— Também eu procuro agasalho na proximidade do Au gusto e da sua doutrina. — Solicitou a sua admissão ao círculo dos discípulos e foi aceito.

Logo depois, o Buda recolheu-se ao repouso noturno.

Nesse instante, Govinda dirigiu-se a Sidarta, falando com ardor:

— Olha, Sidarta, não me cabe certsurar-te. Mas tu e eu escutamos a voz do Augusto. Ambos assistimos à exposição da doutrina. Govinda assimilou-a e procurou agasalho nela. E tu, meu prezado amigo, não queres trilhar também a senda da sal vação? Por que hesitas?

Que aguardas ainda?

Era como se Sidarta despertasse de um sono profundo, ao ouvir as palavras de Govinda. Por muito tempo olhou o 26

rosto do companheiro. A seguir, disse ern voz baixa, sem nenhuma ironia:

— Govinda, meu caro, acabas de dar o passo e de escolher o caminho. Sempre fôste meu amigo, ó Govinda, sempre

andaste

um

passo

atrás

de

mim.

Freqüentemente pensei: será que Go vinda nunca dará um passo sozinho, sem mim, pela iniciativa da sua própria alma? Pois é, e agora te tornaste homem e tu mesmo detenninaste o teu destino. Oxalá consigas chegar ao fim da tua jornada, meu querido! Que encontres a salvação!

Govinda,

que

por

enquanto

não

compreendia

inteiramente o significado dessas palavras, repetiu a sua pergunta com certa impaciência:

— Decide-te, finalmente, meu caro, faze-me o favor!

Dize-me, uma vez, que não pode haver outra solução, que também tu, meu sábio amigo, desejas procurar agasalho na proximidade do bublime Buda!

Deitando a mão no ombro de Govinda, respondeu Sidarta:

— Ó Govinda, não percebeste a bênção que pronunciei.

Repito-a; oxalá que possas chegar ao fim da tua jornada!

Que encontres a salvação!

Nesse momento, Govinda deu-se conta de que o compai.heiro o abandonava. Rebentou em pranto.

— Sidarta! — exclamou em voz lamentosa

Mas este prosseguiu jovialmente:

— Não esqueças, Govinda, que daqui por diante fazes parte dos samonas do Buda. Renunciaste á pátria e aos pais; rs-mmciaste à estirpe e às posses; renunciaste à

tua própria vontade; renuüciaste à amizade. Assim o requer a doutrina. Assim o de seja o Augusto. Tu mesmo o quiseste assim. Amanhã, ó Go vinda, hei de separar-me de ti.

Por muitas horas, ainda, os amigos passearam pelo bosque. Por muitas horas, permaneceram deitados, sem conciliarem o sono. Uma e outra vez, Govinda insistiu com o companheiro para que este lhe dissesse por que se recusava a acolher a doutrina de Gotama e que defeitos encontrava nela. Mas Sidarta sempre se negava às 'súplicas do amigo, dizendo:

— Sossega, Govinda! A doutrina do Augusto é excelente.

Como poderia eu encontrar nela um defeito sequer?

Ao primeiro clarão da madrugada, um dos mais velhos de entre os monges adeptos do Buda atravessou o jardim, a fira 27

de convocar todos aqueles que desejassem procurar agasalho na doutrina. Queria vestir os neófitos com os trajes amarelos e ensinar-lhes os conhecimentos básicos, bem como as obrigações das pessoas do primeiro grau.

Eis senão quando Govinda, como que desarraigado, abraçou, mais uma vez o companheiro. Em seguida, entrou no séquito dos noviços.

Sidarta, porém, vagueou pelo bosque, entregue aos seus pensamentos.

Foi nesse momento que Gotama, o Augusto, cruzou-lhe o caminho. O jovem saudou-o reverentemente e quando notou o olhar bondoso, sereno, do Buda, encheu-se de coragem. Pediu ao Venerável que lhe desse licença para falar. Com um aceno silencioso, o Augusto anuiu.

E Sidarta começou:

— Ontem, ó Majestoso, coube-me em sorte ouvir a tua maravilhosa doutrina. Junto com meu amigo, vim de longe, a tim de conhecê-la. E agora meu amigo aderiu aos teus discí pulos, abrigando-se na tua proximidade.

Eu, porém, hei de rei niciar a minha peregrinação.

— À vontade — tornou o Venerável, cortêsmente.

— Minha palavras são excessivamente audaciosas — con tinuou Sidarta — mas não quero separar-me do Augusto, sem ter-lhe comunicado, com toda a franqueza, os meus pensamen tos. Consentiria o Venerável em prestar-me atenção por mais um instante?

Silencioso, o Buda deu anuência.

— Há uma coisa, ó Venerabilíssimo, — prosseguiu Sidaría

— que despertou em mim especial admiração, logo que conheci a tua doutrina. Nessa doutrina, tudo fica completamente claro.

Tudo é demonstrado. Tu mostras o mundo sob a forma de uma corrente perfeita, jamais e nenhures interrompida, corrente eter na, constituída de causas e efeitos. Nunca, em parte alguma, isso se percebeu com tamanha nitidez, nem tampouco foi exposto tão irrefutavelmente.

Realmente, os corações de todos os brâmanes deverão vibrar de alegria, quando seus olhos enxergarem o cosmo através de tua doutrina, esse cosmo que forma um conjunto inteiriço, sem lacunas, límpido como cristal, não depen dente nem do acaso nem dos deuses. Se o mundo é bom ou mau, se a vida em seus confins é sofrimento ou prazer, essa pergunta pode permanecer sem resposta. Pede ser que aquilo 28

tenha pouca importância. Mas a unidade do mundo, o nexo existente entre todos os acontecimentos, o fato de todas as coisas, tanto as grandes como as pequenas, estarem incluídas no mesmo decorrer, na mesma lei das causas, do devir e do morrer — tudo isso, ó Augusto, ressalta luminosamente na tua excelsa doutrina.

Mas, nessa mesma doutrina, há um único lugar em que tal unidade e lógica das coisas estejam interrompidas.

Por uma minúscula lacuna penetra na unidade desse mundo um elemento estranho, novo, que antes não existiu, que não pode ser mostrado nem comprovado.

Refiro-me à tua tese acerca da possibilidade de superarmos o mundo e alcançarmos a redenção. Ora, essa pequeníssima lacuna, essa brechazinha, basta para destruir e liquidar toda a unidade e eternidade da lei cósmica. Perdoa-me a audácia de ter feito esta objeção.

Silencioso, impassível, escutara Gotama. A seguir falou o Homem Perfeito, na sua voz delicada e clara:

— Ouviste a doutrina, ó filho de brãmane e honra-te teres meditado profundamente a seu respeito. Enconíraste nela uma lacuna, uma falha. Continua a refletir sobre ela.

Permite-me, porém, ó moço ávido de saber, que te advirta do emaranhamento das opiniões e da disputa acerca das palavras. Pouco valor têm as opiniões, sejam elas lindas ou feias, sensatas ou estúpidas.

Qualquer um pode agarrar-se a elas ou também refutá-las. Mas a doutrina que ouviste da minha boca não é nenhuma opinião e não tem o propósito de explicar o mundo a pessoas ávidas de saber. Seu desígnio é a redenção do sofrimento. O que Gotama ensina é ela e nada mais.

— Não tenhas rancor contra ,ním, ó Augusto — disse o jovem. — Não me dirigi a ti para discutir contigo, para provocar uma disputa em torno de palavras. Deveras tens razão: pouco valor têm as opiniões. Mas, com tua licença, direi mais uma coisa: não duvidei de ti nenhum instante. Não duvidei em ab soluto de que és o Buda, de que alcançaste o objetivo supremo a cuja busca se encaminharam tantos milhares de brâmanes e filhos de brâmanes. Obíiveste a redenção da morte! Ela te cou be em virtude do teu próprio empenho, pelo método que é teu,

pelo

pensamento,

pela

meditação,

pelo

conhecimento, pela ilu minação. Não a conseguisíe através da doutrina! E — eis o meu raciocínio, ó Augusto

— ninguém chega à redenção me diante a doutrina! A pessoa .alguma, ó Venerável, poderás 29

comunicar e revelar por meio de palavras ou ensinamentos o qus se deu contigo na hora da tua iluminação! Ela contém muita coisa, a doutrina do esclarecido Buda. A numerosas pessoas indica o caminho para uma vida honesta, afastada do Mal.

Mas há uma única coisa que não se acha nessa doutrina, por mais clara e veneranda que ela seja. Não nos é dado saber o segredo daquela experiência que teve o próprio Augusto, só êU

entre centenas de milhares de homens. São esses os pensamentos e as percepções que me vieram» quando ouvi a doutrina. Por isso, hei de prosseguir na minha peregrinação, não para ir à procura de outra doutrina melhor, já que sei muito bem que não há nenhuma, senão para separar-me de quaisquer doutrinas e mestres, a fim de que possa alcançar sozinho o meu destino ou então morrer. Contudo me lembrarei

freqüentemente deste dia, ó Sublime, e desta hora, na qual um santo se deparou aos meus olhos.

Serenamente, o Buda fitava o chão. Plàcidamente, com perfeita impassibilidade, luzia o rosto mescrutável.

—• Oxalá — disse lentamente o Venerável — que teus pensamentos não sejam erros! Que te seja permitido alcançar o teu destino! Mas, dize-me: viste a multidão de meus samaws, o sem-número de meus irmãos, que se agasalharam na minha doutrina? E achas, ó samana forasteiro, achas realmente que seria melhor para todos eles que abandonassem a doutrina e regres-sassem à vida do mundo e dos prazeres?

— Longe de mim pensar semelhante coisa — exclamou Sidarta. — Que eles continuem fiéis à tua doutrina e realizem os seus propósitos! Não me cumpre julgar a vida de outrem.

Devo opinar, escolher, rejeitar unicamente no que se refere a mim mesmo. Nós, os samanas, procuramos a redenção do eu, ó Augusto. Ora, se eu fosse um dos teus discípulos, ó Venerável, poderia acontecer-me — assim receio — que meu eu só aparen-temente, falazmente obtivesse sossego e redenção, mas na realidade continuasse a viver e a crescer, uma vez que eu teria então a tua doutrina, teria o fato de ser teu adepto, teria meu amor a ti, teria a comunidade dos monges e faria de tudo isso o meu eu.

Esboçando um meio-sorriso, Gotama contemplava o forasteiro com inabalável clareza e bondade. A seguir, despedindo-o com um gesto quase imperceptível, disse o Augusto: 30

—

És

inteligente,

ó

samana.

Sabes

falar

inteligentemente, mas, meu amigo, acautela-te contra o excesso de inteligência!

O Buda afastou-se 2 seu olhar, seu meio-sorriso gravaram-se para sempre na memória de Sidarta.

"Nunca vi homem algum que me olhasse e sorrisse assim, que tivesse esse modo de andar e sentar-se — pensou o jovem.

— Quem me dera olhar, sorrir, caminhar, manter-me sentado à sua maneira, com esse quê de liberdade, de dignidade, de discrição, de ingenuidade, de franqueza e de mistério! Realmen te, assim só pode olhar e caminhar quem tiver penetrado no âmago de sua personalidade.

Pois então, também eu me empe nharei em penetrar no âmago de minha alma."

"Vi um homem — continuou Sidarta nos seus pensamentos

— um único homem, diante do qual tivesse de baixar os olhos Não tenciono baixar os olhos diante de mais ninguém, ninguém!

Já não me tentará doutrina alguma, uma vez que a dele não me seduziu."

"O Buda privou-me de muita coisa — ponderou Sidarta.

—, Tirou-me algo e ainda mais me deu de presente.

Privou-me do amigo, do homem que acreditava em mim e agora crê nele, da pessoa que era minha sombra e passou a ser a sombra de Gotama. E, no entanto, ele me deu Sidarta, deu-me a mim mesmo.

O DESPERTAR

E

NQUANTO Sídarta saía do bosque, onde

permanecia o Buda, o Perfeito, onde também permanecia Govinda, sentia que deixara atrás, nesse recinto, toda a sua vida anterior, a qual daí por diante se separaria dele. Essa sensação que tomava conta do seu espírito preocupou-o durante a vagarosa caminhada. Sidarta refletia profundamente. Mergulhava até o fundo dessa emoção, assim como se mergulha na água, para alcançar-se o ponto onde repousam as causas. Pois lhe parecia que o verdadeiro pensar consistia no reconhecimento das causas e que, desse modo, o sentir se convertia em saber, o qual, ao invés de dissipar-se, criaria forma concreta e irradiaria o seu teor.

Continuar: parte 2 de 2