Sidarta
dLivros
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Enquanto lentamente avançava pelo caminho, Sidarta refletia. Verificou que já não era adolescente, senão homem maduro. Constatou que uma coisa se distanciara dele, assim como a pele gasta se despega da serpente e que ele cessara de sentir aquele desejo que o acompanhara através de toda a sua juventude, fazendo parte da sua personalidade: o desejo de ter mestres e de receber ensinamentos. Sidarta acabava de abandonar o último mestre que surgira no curso da sua jornada; abandonara também a ele, o mestre supremo, o mais sábio de todos, o Santíssimo, o Buda. Fizera-se necessário distanciar-se dele. Já não fora possível aceitar os preceitos de Gotama.
Caminhando cada vez mais devagar, absorvido pelos pensamentos, Sidarta perguntou-se a si mesmo: "Mas que desejaste aprender dos teus mestres e extrair dos seus preceitos? Que será aquilo que eles, que tanto te ensinaram, não conseguiram propiciar-te?" E ele encontrou a resposta: "Era meu desejo conhecer o sentido e a essência do eu, para desprender-me dele e para superá-lo. Porém não pude superá-lo. Apenas logrei iludi-lo.
Consegui, sim, fugir dele e furtar-me às suas vistas.
Realmente, nada neste mundo preocupou-me tanto quanto esse eu, esse mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado e isolado de todos os demais, de ser Sidarta! E de coisa alguma sei menos do que sei quanto a mim, Sidarta!"
Como que agarrado a esse raciocínio, o moço interrompeu a lenta caminhada e de um pensamento nasceu outro, diferente:
"O fato de eu não saber nada a meu próprio respeito, o fato de Sidarta ter permanecido para mim um ser estranho, desconhecido, tem sua explicação numa única causa: tive medo de mim; fugi de mim mesmo! Procurei o Átman, procurei o Brama, sempre disposto a fraturar e a pelar o meu eu, a fim de encontrar no seu âmago ignoto, o núcleo de todas as cascas, o Áímcm, a vida, o elemento divino, o Ultimo. Mas, enquanto fazia isso, perdi-me a mim mesmo."
Abrindo os olhos, Sidarta olhou ao seu redor, com o rosto iluminado por um sorriso, Perpassava-lhe pelo corpo, até aos dedos dos pés, a profunda sensação de ter acordado de um sonho prolongado. Em seguida, reiniciando a sua
marcha, estugou o passo, como quem sabe o que lhe convém realizar.
"Ah, não!" — pensou, aliviado, respirando a plenos pulmões
— "daqui em diante não admitirei nunca mais que Sidarta me escape! Nunca mais o meu pensar e a minha vida terão por ponto de partida o Átrrtan e o sofrimento do mundo! Cessarei de matar-me e de fraturar-me, com o intuito de achar um mistério atrás dos destroços. Não me deixarei orientar nem pelo Yoga-Veda, nem pelo Atarva-Veda, nem por ascetas, nem por doutrina alguma.
Aprenderei por mim mesmo; serei meu próprio aluno; procurarei conhecer-me a mim e desvendar aquele segredo que é Sidarta!"
Olhou o mundo a seu redor, como se o enxergasse pela primeira vez. Belo, era o mundo! Era variado, era surpreendente e enigmático! Lá, o azul; acolá, o amarelo!
O céu a flutuar e o rio a correr, o mato a eriçar-se e a serra também! Tudo lindo, tudo misterioso e mágico! E
no centro de tudo isso achava-se ele, Sidsrta, a caminho de si próprio. Todas essas coisas, esses azuis, amarelos, rios, matos, penetravam nele pela primeira vez, através dos seus olhos. Já não eram feitiço do Mam?
Deixavam de ser o véu da Maia.° Não havia mais aquela multiplicidade
absurda,
casual,
do
mundo
dos
fenômenos, desprezados pelos profundos pensadores brâmanes, que rejeitam a multiplicidade e esforçam-se por achar a unidade. O azul era azul, o rio era rio e, posto que, nesse azul e nesse rio abrangidos por Sídarta existisse, escondida, a idéia da unidade, o Divino, era, contudo, peculiar do Divino, ser amarelo aí e azul lá, céu ali e mato acolá, e também ser Sidarta, aqui, neste lugar.
O sentido e a essência não se encontravam em algum lugar atrás das coisas, senão em seu interior, no íntimo de todas elas.
"Andei deveras surdo e insensível!" — disse de si para si, enquanto avançava rapidamente pela estrada. — "Quem se puser a decifrar um manuscrito, cujo significado lhe interessar, tampouco menosprezará os sinais e as letras, qualificando-os de ilusão, de casualidade, de invólucro vil, senão os lera, estudá-los-á amá-los-á, letra por letra.
Eu porém, que- almejava ler o livro do mundo e o livro da minha própria essência, desprezei os sinais e as letras, em prol de um significado que lhes atribuía de antemão.
Chamei de ilusão o mundo dos fenômenos. Con-siderei meus olhos e minha língua apenas aparentes, casuais, desprovidos de valor. Ora, isso passou. Despertei.
Despertei de fato, Nasci somente hoje."
No curso desses pensamentos, Sidarta estacou mais uma vez, de repente, como se uma cobra lhe cruzasse o caminho.
Pois, subitamente, outra coisa ainda se decantava no seu espírito; ele, que realmente se parecia com uma pessoa que 8
Mara: literalmente: morte, destruição. Em sentido figurado: o de mônio, o tentador. (N, do T.) 9
Maia: na terminologia brámsne, é matéria imperecível, preexistente a todas as coisas, e da qual se servem os deuses para criar as formas aparentes, irreais, falazes.
Assim se torna sinônimo de ilusão, magia, feitiço. (N. do T.)
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acabava de acordar ou de renascer, deveria iniciar nesse instante uma vida totalmente nova. Ao abandonar, na manhã desse mesmo dia, o bosque de Jetavana, o jardim daquele ser sublime, já estivera a ponto de despertar, de encontrar o caminho que o levasse a seu próprio eu. Fora então a sua intenção e se lhe afigurara perfeitamente natural regressar ao torrão natal, para junto do pai, depois de tantos anos de ascetismo. A essa altura, porém, nesse momento em que se detinha, como se se deparasse com uma serpente, impôs-se-lhe a percepção:
"Já não sou aquele que tenho sído. Cessei de ser sacerdote, de ser brâmane. Que farei então lá em casa, ao lado de meu pai? Estudar? Sacrificar?
Entregar-me à meditação? Tudo isso pertence ao passado, deixou de ladear meu caminho."
Sidarta parou. Quedou-se imóvel. Notando a que ponto iria a sua solidão, sentiu, por um instante, pela duração de um respiro, que o coração se lhe gelava no peito, estremecendo de frio, como um bichinho, um pássaro, uma lebre. Durante muitos anos'andara sem lar e, no entanto, não o percebera. Nesse momento, porém, dava-se conta da falta. Sempre, ainda que se distanciasse de tudo, nas mais longínquas meditações, pros-seguira sendo o filho de seu pai, fora brâmane, aristocrata, intelectual. Daí por diante, seria apenas Sidarta, o homem que acabava de acordar e nada mais. -Com toda a sua fôfça, aspirou o ar. Por um momento, tremeu de frio e de horror.
Ninguém estaria tão solitário quanto ele. Não havia nenhum nobre que não fizesse parte dos nobres; nenhum artesão que não pertencesse à classe dos artesãos,
encontrando agasalho entre seus semelhantes, vivendo a vida deles e falando a mesma língua; nenhum brâmane que não se incluísse no grupo dos seus pares e convivesse com eles; nenhum asceta que não pudesse buscar abrigo entre os samanas, Nem sequer o mais isolado de todos os ermitões da selva era um homem só, não levava uma existência solitária, porquanto também ele pertencia a uma classe que lhe propiciava um lar.
Govinda tornara-se monge e milhares de monges eram seus irmãos, vestiam os mesmos trajes, tinham a mesma fé, falavam a mesma língua. E ele, Sidarta? Qual seria o seu lugar? Participaria ele da existência de outrem?
Haveria pessoas que falassem a mesma língua que ele?
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Dês&e minuto, durante o qual o mundo que o cercava dissolvia-se em nada, durante o qual Sidarta estava só corno um astro no firmamento, desse minuto transido de frio e de temores, emergiu Sidarta, mais eu do que nunca,
mais
firme,
mais
con-centrado,
Sentiu
nitidamente: aquilo fora o derradeiro tremor do despertar, o último espasmo do parto. E logo tomou a caminhar, em marcha rápida, impaciente, afastando-se da sua terra, do lar paterno, de tudo quanto jazia atrás dele.
Segunda Parte
KAMALA
A
CADA PASSO da sua jornada, Sidarta
aprendia coisas que antes desconhecera. O mundo parecia-lhe diferente. Seu coração batia como que
enfeitiçado. E
ele mirava o sol, sempre que este se levantava acima das montanhas cobertas de florestas ou se punha atrás da longínqua praia orlada de palmeiras. Contemplava a ordem dos astros no fírmamento noturno e o crescente da lua, a singrar, feito barco, pelo espaço azul. Olhava árvores, estrelas, animais, nuvens, arcos-íris, rochedos, ervas, flores, arroios e rios. Percebia o orvalho da madrugada, a cintilar nos galhos dos arbustos, e também o gxis esmaecido de serras distantes. Cantavam os pássaros, zumbiam as abelhas. Nos arrozais ressoava o argentino zunir da aragem. Tudo aquilo, esse sem-número de formas e cores, existira sempre. Em todos os tempos houvera o murmúrio de regatos e o zumbir de abelhas, mas outrora esses fenômenos tinham-se afigurado a Sidarta como um véu falaz, passageiro, estendido diante de seus olhos e que apenas merecesse desconfiança; um véu cujo destino fosse ser penetrado e destruído pelo pensamento, já que nada dísso ei a essencial e a realidade se encontrava além dos objetos visíveis.
Agora, porém, seu olhar libertado atinha-se a este lado das coisas, acolhendo e identificando o que se lhe 41
deparava. Procurava radicar-se neste mundo. Já não ia em busca do essencial. Já não visava o além. Como era belo o mundo, para quem o olhasse assim, ingenuamente, simplesmente, sem nada procurar nele!
Como eram lindos os astros e a lua, os arroios e as ribeiras, as florestas e os penedos, a cabra e o besouro dourado, a flor e a borboleta! Era prazeroso e ameno passear assim pelo mundo, cândidamente, como quem acabasse de despertar e se abrisse a tudo quanto o rodeasse, sem o menor receio. Diferente era o sol que
ardia por cima da sua cabeça; diferente, a frescura da sombra do mato; diferente, o sabor da água de regato e cisterna; diferente, o aroma de abóboras e bananas.
Breves se tornavam os dias; fugazes as noites. Cada hora voava, impelida qual veleiro no mar, e sob as velas achava-se o casco cheio de tesouros, de delícias. Sidarta espreitou o povo dos macacos, enquanto percorriam a alta abóbada formada pela ramagem da selva; observou-os, como pulavam de galho em galho; escutou os gritos ávidos, ferozes. Viu um carneiro a correr atrás de uma ovelha,1 para cobri-la. Ao entardecer, no juncal da lagoa, espiou um lúcio que ia à caça, acossado pela fome, e o cardume de peixinhos apavorados, a saltar das águas, nervosos e brilhantes. A violência da perseguição provocou turbilhões passageiros que exalavam um perfume impregnado de paixão e vigor.
Tudo isso existira em todos os tempos, e todavia escapara a Sidarta. Ele não estivera presente. Nes.se instante, porém, estava presente, fazia parte dos acontecimentos. Pelos seus olhos passavam luzes e sombras. Os astros e a lua entravam no seu coração.
Durante a caminhada, Sidarta rememorou tudo o que lhe ocorrera no jardim de Jetavana: a doutrina que ali ouvira, o divino Buda, a despedida de Govinda, o diálogo travado com o Augusto. Chamou à memória as frases que ele mesmo dirigira ao Sublime, palavra por palavra e com espanto verificou que naquela hora proferira coisas que então, no fundo, nem sequer sabia. Dissera a Gotama que o tesouro e o mistério do Buda não consisteir na doutrina, senão num quê indizível, não suscetível de ser ensinado e cuja experiência coubera ao Augusto na hora de sua iluminação. Ora, o desígnio da sua própria jornada seria precisamente ter essa mesma experiência. Ele
recém-começara a viver. Agora carecia'sondar o seu íntimo. Na ver-42
dade percebera, havia muito, que seu eu e o Átman eram uma e a mesma coisa e tinham a sua essência eterna em comum com o Brama. Mas nunca lograra achar esse eu, portanto se empenhara em enredá-lo nas malhas do pensamento. Posto que o corpo e o jogo dos sentidos certamente não fossem o eu, não convinha tampouco identificar com ele o pensamento, a inteligência, a sabedoria assimilada ou, finalmente, a técnica de tirar conclusões e de tecer, à base de raciocínios feitos, pensamentos novos. Não! também essa esfera do espírito pertencia ainda a este mundo. Quem matasse o eu casual dos sentidos e, em compensação, alimentasse o eu igualmente casual do pensar e da erudição não alcançaria nenhum objetivo. Uns e outros, os pensamentos tanto como os sentidos, eram coisas bonitas. O derradeiro significado jazia, porém, atrás de ambos. Era preciso ouvir os dois, brincar com eles, sem desprezá-los nem superestimá-los. Cumpria depreender de tudo quanto diziam a voz secreta do nosso íntimo.
Sidarta estava decidido a aspirar somente àquilo que a voz mandasse perseguir. Não se ateria a coisa alguma a não ser àquela que a voz lhe recomendasse. Por que se sentara Gotama em determinado momento, na hora das horas, ao pé daquele baobá, onde lhe viesse a iluminação? Por ter ouvido uma voz, a ressoar dentro do seu próprio coração, e que lhe ordenava repousar na sombra dessas árvores. E ele, sem dar preferência às mortificações, aos sacrifícios, aos banhos, às orações, sem pensar em comer, beber, dormir, sonhar, obede-cera à ordem. Tal obediência prestada, não a prescrições vindas de fora, senão unicamente à voz íntima, tal prontidão irrestrita, era boa, era necessária e o mais não tinha importância alguma.
À noite, enquanto dormia na choupana de palha de um balseiro, junto à ribeira, Sidaría teve uma visão: aparecia-lhe Govinda, vestindo os trajes amarelos dos ascetas.
Seu rosto parecia abatido e em voz triste disse ele: "Por que me abandonaste?"
E Sidarta abraçou o amigo. Mas, enquanto o enlaçava nos braços e o estreitava ao peito, já não era Govinda a quem cingia, senão uma mulher, de cujo vestido saía um seio opulento. Sidarta encostou a boca nesse seio e bebeu. O
sabor do leite era doce e forte. Sabia a macho e fêmea, a sol e mato, a animal e flor, a todas as frutas, a todos os prazeres. Embriagava e provocava tonturas.
Quanto Sidarta acordou, cintilavam as águas do rio, lan-çando um clarão lívído pela porta da choupana. Da selva ressoava, profundo e distinto, o grave chamado de uma coruja.
Logo que raiou o dia, Sidarta pediu a seu anfitrião que o conduzisse ao outro lado, Na jangada de bambu, o balseiro transportou-o através do vasto rio, cuja água resplandecia rosada à luz da aurora.
— Que lindo rio! — disse Sidarta ao companheiro.
— Pois é — respondeu o balseiro. — Ê muito lindo. Pre firo esse rio a todo o resto do mundo. — Muitas vezes escutei o seu murmúrio, muitas vezes observei o seu olhar e nunca deixei de aprender dele. Um rio pode ensinar-nos tanta coisa.
— Agradeço-te, ó meu benfeitor — disse Sidarta, ao desem barcar. — Não te posso dar nenhum presente,
para retribuir a tua hospitalidade. Não tenho com que te pagar, meu caro.
Sou um homem ser lar. Sou filho de brâmane e samana.
— Eu sabia disso — replicou o balseiro — e não esperei da tua parte nenhuma recompensa, nenhum presente.
Em outra ocasião me darás algum mimo.
— Achas mesmo? — perguntou Sidarta jovialmente.
— Tenho certeza. Também isso aprendi do rio: tudo volta.
Tu também voltarás, ó samana. Passa bem! Que tua amizade seja meu salário. Lembra-te de mim, quando oíereceres um sacrifício aos deuses.
Separaram-se com um sorriso. Risonho, Sidarta aprazía-se com a gentileza e a amabilidade do balseiro. "Ele se parece com Govinda — pensou, sorrindo. — Tais pessoas ficam gratas, apesar de poderem, elas mesmas, reivindicar gratidão. Todas elas são submissas, querem ser amigas, gostam de obedecer, não gostam de pensar muito. Esses homens são verdadeiras crianças."
Por volta do meio-dia, passou por uma aldeia. Diante das cabanas de barro, a garotada revolvia-se na poeira da rua, brincando com sementes de abóbora e conchas. Os meninos gritavam e lutavam uns com os outros, mas todos fugiam, assustados, do samana desconhecido, Na outra extremidade da aldeia, a estrada "atravessava um arroio. À sua beira, uma rapariga, de joelhos, lavava roupa. Levantou a cabeça, quando Sidarta a saudou e examinou-o, sorrindo, de baíxo para cima, de modo que reluzia o branco de seus olhos. O jovem proferiu uma frase de bênção, à maneira dos peregrinos.
Em seguida perguntou-lhe se a cidade grande ficava
ainda longe. Ela levantou-se. Aproximou-se de Sidarta.
Os lábios úmidos brilhavam formosos, no rosto da moça.
Os dois trocaram então gracejos. Ela indagou se Sidarta já almoçara. Quis saber se era verdade que os samanas passavam a noite sozinhos no mato e não unham o direito de gozar a companhia de mulheres. Enquanto isso, colocou o pé esquerdo sobre o pé direito de Sidarta e esboçou o gesto que fazem as mulheres, quando excitam os homens àquele jogo de amor que os manuais didáticos denominam: "Trepar na árvore". Sidaría sentiu que seu sangue escaldava c, recordando-se do sonho que tivera, inclinou-se levemente em direção da mulher, para apertar a boca no bico pardo do seio. Erguendo o rosto, viu que a mulher sorria, cheia de desejo. Nos olhos semicerrados liam-se a imploração e a cupidez.
Também Sidarta experimentava o mesmo desejo. Sentia a vibração da fonte do sexo. Mas, como jamais se acercara de mulher alguma, hesitou por um instante, com as mãos já dispostas a agarrá-la. E nesse momento ouvia, estremecendo, a voz da sua alma e a voz dizia:
"Não!" De súbito, o semblante risonho da rapariga perdeu todo o seu encanto. O que se lhe deparava era apenas o olhar úmido de uma fêmea no cio. Gentilmente, Sidarta acariciou-lhe a face. Em seguida, afastando-se a passo lépido da mulher desapontada, sumiu no bambual.
No mesmo dia, antes do entardecer, alcançou uma cidade grande. Alegrou-se com isso, uma vez que tinha saudade de criaturas humanas. Por longos anos, vivera na floresta e a choupana de palha do balseiro, onde ele passara a noite anterior, era, desde muito tempo, o único teto a abrigá-lo.
Diante das portas da cidade, nas proximidades de um belo bosque cercado, um1 grupinho de servos e aias, carregados de cestas, ia de encontro ao caminhante.
Dentro de uma liteira conduzida por quatro homens e coberta de um baldaquim de muitas cores, uma senhora, a patroa, estava sentada num coxim vermelho. Sidarta estacou junto à entrada do arvoredo, a fim de contemplar o cortejo. Observou os criados, as raparigas, as cestas. Olhou a liíeira e dentro dela, enxergou a dama.
Sob uma alta torre de cabelos negros, avistou um semblante muíto claro, bem delicado, bastante inteligente, com a boca rosada, como um figo recém-cortado. Cuidadosamente pintadas, arqueavam-se 45
as sobrancelhas. A mirada dos olhos escuros revelava siso e vigilância. Alvo e comprido, o pescoço saía do corpete verde e jajde. As mãos brancas, graciosas, delgadas, repousavam, imóveis e largos braceletes de ouro adornavam os pulsos.
Sidarta admirou-se de tanta beleza e seu coração deliciou-se.
Curvou-se profundamente, quando a liteira chegou perto dele. Ao erguer-se, fitou o rosto luzente, simpático. Por um instante, lia nos olhos inteligentes, por cima dos quais se abobadavam as altas sobrancelhas. Inalava a aura de um perfume desconhecido.
Sorridente, a formosa mulher saudou-o com uma inclinação apenas perceptível da cabeça. Logo depois, desapareceu no bosque, seguida pela criadagem.
"Ora — pensou Sidarta — desta forma entro na cidade sob um signo auspicioso." Teve vontade de penetrar no arvoredo sem perda de tempo, mas, refletindo, lembrou-
se de que os servos e as aias o haviam examinado com menosprezo e desconfiança, ao cruzarem com ele, junto à porta do bosque.
"Por enquanto sou samana — disse de si para si. — Não cessei ainda de ser um asceta e um mendigo. Não posso ficar assim. Deste jeito, não é possível entrar num parque."
E riu-se gostosamente.
À primeira pessoa que encontrou na estrada perguntou a quem pertencia o bosque e como se chamava a mulher.
Soube então que se encontrava no parque de Kamala, célebre cortesã, que além dessa propriedade ainda possuía uma casa na cidade.
Sem demora, Sidarta entrou nessa cidade. Daí por diante, teria um objetivo.
Sem perdê-lo de vista, deixou-se tragar pela multidão.
Depois de boiar na corrente das vielas, parava nas praças. Des-cansava na escadaria, à beira do rio. De íardezinha, travou amizade com um oficial de barbearia, ao qual vira trabalhar à sombra de um portão e que reencontrou a orar num templo de Visnu. Contou-lhe a história de Visnu e Laksmi. Pernoitou perto dos barcos ancorados no rio e ria manhã seguinte, bem cedo, antes de chegarerr os primeiros fregueses, pediu ao rapaz para barbeá-lo, cortar-lhe o cabelo, arranjar-lhe o penteado e uniá-lo com óleos finíssimos. Feito isso, foi banhar-se no rio.
Ao entardecer, quando a formosa Kamala na sua liteira acercava-se do bosque, Sidarta achava-se junto à
entrada. Inclinou-se e recebeu a saudação da cortesã.
Fazendo um sinal ao 46
servo que encerrava o cortejo, solicitou dele que informasse a patroa de que um jovem brâmane desejava falar com ela. Depois de alguns minutos, o criado voltou e lhe deu um sinal para que o acompanhasse. Sem falar, conduziu-o a um pavilhão, onde Kamala jazia num sofá.
Deixou-o a sós com ela.
__ Não és aquele moço que esteve ontem na entrada do bosque e me cumprimentou? — perguntou Kamala.
_ Pois é. Já te vi e te cumprimentei ontem.
_ Mas, não tinhas ontem uma barba e cabelos compridos, cobertos de poeira?
— Observaste-me muito bem. Enxergaste tudo. Viste Sidarta, o füho de brâmane, que abandonou o seu lar, para ser um samana e viveu três anos a vida dos ascetas. Agora, porém, abandonei essa senda. Cheguei a esta cidade e, a primeira pessoa que encontrei, ainda antes do portão, fôste tu. Para dizer-te isso, vim tem contigo, ó Kamala! Tu és a primeira mulher à qual Si darta dirige a palavra sem baixar os olhos. Nunca mais baixarei os olhos, quanto topar com uma formosa'
mulher.
Sorrindo, Kamala brincava com o leque de penas de pavão.
— E Sidarta veio visitar-me, unicamente para dizer-me isso? — indagou.
— Para dizer-te isso, sim, e para expressar a sua gratidão por seres tão linda. E se minha ousadia não te
desaprouver, ó Kamala, gostaria de pedir-te que sejas minha amiga e mestra.
Pois nada sei ainda da arte que tu exerces tão magistralmente. Kamala deu uma gargalhada.
— Olha, meu amigo, nunca me ocorreu que um samana pudesse sair do mato, a fim de estudar comigo! Pela primeira vez me procura um samana de cabelos compridos, com uma tanga velha, esfarrapada! Muitos jovens vêm ter comigo e entre eles há também filhos de brâmanes. Mas todos andam bem ves tidos, calçando sapatos elegantes. Têm cabelos perfumados e dinheiro nos bolsos. Ê assim, meu amigo santana, que devem ser os jovens que me visitem.
— Já começo a aprender de ti — respondeu Sidarta.
— Ontem também aprendi alguma coisa. Já me desfiz da barba, penteei o cabelo, perfumei a cabeça. O que ainda me falta, ó magnífica senhora, é pouca coisa apenas: roupas finas, sapatos distintos, dinheiro nos bolsos. Olha, Sidarta enfrentou tarefas muito mais difíceis do que bagatelas dessa espécie e realizou-as. Como não conseguiria então o que se propôs ontem: ser teu amigo e aprender de ti as delícias do amor! Tu terás era mim um aluno dócil, ó Kamala. Assimilei ensinamentos mais complicados do que aqueles que tu terás de ministrar-me. Pois então, Sidarta não te basta assim como é, com os cabelos besun-tados de óleo, mas sem roupas, sem sapatos, sem dinheiro?
Com uma risada, replicou Kamala:
—• Não, meu caro, ele não me basta. Deve ter roupas, mas roupas bonitas, e sapatos, mas dos melhores, muito dinheiro nos bolsos e presentes para Kamala.
Compreendeste, ó samana do mato? Gravaste tudo na memória?
—• Gravei tudo, perfeitamente — exclamou Sidarta. —
Como me esqueceria de algo que viesse de uma boca igual à tua?
Tua boca parece um figo recém-cortado, ó Kamala.
Também a minha é rubra e fresca. Hás de notar que ela combinará bem com a tua. Mas dize-me, ó bela Kamala, não tens nenhum medo do samana saído do mato, e que veio aprender de ti o amor?
—• Por que sentiria eu medo de um samana, de um palerma do mato, que só conviveu com os chacais e não tem a menor idéia do que é uma mulher?
—• Olha, ele é forte, esse samana, e nada o assusta. Ele poderia tomar-te pela força, ó formosa moça. Poderia raptar-te.
Poderia fazer-te mal.
— Não, ó samana, assim não me aíemorizas. Por acaso existiu jamais um samana ou um brâmane receoso de que alguém pudesse aproximar-se dele, para agarrá-lo e roubar-lhe a erudição, a piedade, a profundeza do espírito? Nunca! Essas qualidades lhe pertencem exclusivamente e ele distribui delas só aquilo que quiser dar e a quem lhe aprouver. O mesmo, exatamente o mesmo, acontece com Kamala e com os prazeres do amor. Bela e rubra é a boca de Kamala, mas procura apenas beijá-la contra a sua vontade e não obterás
nenhuma gota da doçura desses lábios que tanta doçura sabem propiciar! Uma vez que és dócil, ó samanü, aprende também isto: o amor pode-se mendigar, comprar, receber de presente, mas nunca roubar pela força. O caminho que imaginaste está errado. Realmente, seria uma lástima, se um moço tão bonito como tu lançasse mão de meios tão absurdos.
Sidarta inclinou-se com um sorriso.
— Seria de fato uma lástima, ó Kamala, Tens razão.
Uma verdadeira lástima! Não, não devo perder nenhuma gota da doçura da tua boca, assim como tu não perderás nenhuma da minha! Está combinado: Sidarta voltará quando tiver o que ainda lhe falta, as roupas, os sapatos, o dinheiro. Mas, dize-me, ó graciosa Kamala; não queres dar-me um pequeno conselho?
— Um conselho? Por que não? Quem não gostaria de orientar um pobre e ignorante samana que vem diretamente dos chacais do mato?
— Aconselha-me então, minha querida Kamala: aonde devo dirigir-me para encontrar aquelas três coisas o mais depressa possível?
— Ora, meu amigo, há muita gente que gostaria de saber a resposta a essa pergunta. Terás de utilizar teus conhecimentos e conseguir que paguem o teu trabalho, oferecendo-te dinheiro, roupas e sapatos. É só assim que os pobres chegam a enriquecer.
Que é que sabes fazer?
—• Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar.
— Nada mais?
— Nada mais. Mas, como? Sei ainda fazer poesia. Não me darias um beijo por um poema?
— Darei, sim, se teu poema me agradar. Quero ouvi-lo.
Após ter refletido um instante, Sidarta recitou os seguintes versos:
"Na sombra do seu bosque entrou a beta Kamala, Ate entrada do arvoredo achava-se o pardo samana.
Quando avistou a jlor de lótus,
Profundamente se inclinou.
Sorrindo, agradeceu Kamala,
E o jovem disse de si para si:
Faz bem quem imolar tudo aos deuses,
Mas melhor ainda quem sacrificar
à bela Kamala."
A moça aplaudiu com tanta força que os braceletes de ouro tiniam.
—i Teus versos são lindos, ó pardo samana. Realmente, acho que não perco nada, se te der um beijo em troca.
Atraiu-o para junto de si e Sidarta inclinou o rosto sobre o de Kamala. Pousou a boca sobre os lábios dela, que pareciam 49
um figo recém-cortado. Era demorado o beijo de Kamala e com imenso espanto sentiu Sidarta que ela o ensinava.
Percebeu a perícia da mulher. Observou que o dominava, ora afastando-o, ora convidando-o. Notou que a esse primeiro beijo sucedia toda uma seqüência de beijos bem calculados e estudados, cada quai diferente do anterior e dos
que
ainda
o
aguardavam.
Respirando
profundamente, Sidarta permaneceu imóvel, pasmado, como uma criança, em face da extensão da arte que se lhe descortinava, e de tudo quanto lhe restava aprender.-
— São muito lindos, os teus versos — exclamou Kamala
— e se eu fosse rica, receberias de mim umas moedas de ouro.
Mas será difícil para ti ganhar com versos tanto dinheiro quanto necessitarás. Pois, precisarás de bastante dinheiro, se quiseres tornar-te o amigo de Kamala,
— Corno saber beijar bem, ó Kamala! — balbuciou Si darta. —. Sim, sei dar beijos e por isso não me faltam vestidos, sapatos, pulseiras e todas as outras coisas bonitas. Mas que será de ti? Não sabes fazer nada, a não ser pensar, jejuar e fazer versos?
— Sei também as orações dos sacrifícios — respondeu Sidarta — mas não quero voltar a cantá-las. Também conheço fórmulas mágicas, mas não quero pronunciá-las novamente.
Li as escrituras...
— Pára! — ínterrompeu-o Kamala. — Então sabes ler e escrever?
— Claro que sei, e não sou o único a sabê-lo.
— Mas a maioria das pessoas não sabe. Nem eu sei. Está ótimo que aprendesíe a ler e escrever, está ótimo! E
também poderás servir-te das fórmulas mágicas.
Nesse momento, uma das aias, que entrara a toda pressa, soprou algumas palavras ao ouvido da patroa.
— Vem uma visita — disse Kamala. — Vai-te embora, Sidarta, e que ninguém te veja aqui! Compreendeste?
Amanhã tornarei a receber-te.
A seguir ordenou à criada que desse um manto branco ao piedoso brâmane. Antes que se desse conta do que lhe acontecia, o jovem sentiu-se arrastado pela rapariga que, por um caminho secreto, conduziu-o a uma casa de jardineiro. Brin-dou-o com um manto, levou-o ao arvoredo e pediu-lhe insis-50
tentemente que se apressasse a sair do recinto, sem que ninguém o avistasse.
Satisfeito, Sidarta obedeceu. Como aprendera na floresta, atravessou silenciosamente o bosque e passou por cima da cerca viva. Todo feliz, regressou à cidade, com o manto enrolado sob o braço. Num albergue freqüentado por viajantes, colocou-se nas proximidades da porta. Com um gesto mudo, rogou que lhe dessem alguma comida e, sem falar, aceitou um pedaço de bolo de arroz. "Pode ser que amanhã eu não precise mais pedir comida a ninguém!" — pensou.
Subitamente, um sentimento de orgulho apoderou-se dele-Depois de ter cessado de ser samana, já não lhe convinha mendigar. Atirando o bolo de arroz a um cão, absteve-se de alimentos.
"Como é simples a vida que se leva neste mundo!" —
ponderou Sidaría. — "Não existe nenhuma dificuldade.
Quando eu era samana, tudo era complicado e penoso, Ao fim, já não havia nenhuma esperança. Agora tudo se torna fácil, tão fácil quanto são as aulas de beijos que me ministra Kamala. Preciso unicamente de dinheiro e de roupas. É um objetivo próximo, insignificante, que não me tirará o sono."
Fazia muito que localizara a casa que Kamala habitava na cidade. No dia seguinte, lá apareceu.
— Tudo vai bem! — exclamou ela, ao vê-lo. —
Kamasvami te aguarda. É o comerciante mais rico da cidade. Se lhe agradares, serás contratado por ele. Usa a tua inteligência, ó pardo samana. Consegui que outras pessoas lhe falassem de ti.
Mostra-te gentil para com ele. Kamasvami é muito poderoso.
Mas não sejas demasiado modesto! Não quero que ele te em pregue como servo. Deveras ser seu igual, de outro modo não ficarei satisfeita contigo. Kamasvami começa a envelhecer e torna-se preguiçoso. Se ele gostar de ti, certamente te entregará muitos assuntos.
Sidarta agradeceu-lhe, radiante, e Kamala, quando soube que o moço nada comera, nem naquele dia, nem na véspera, deu ordem para que lhe trouxessem pão e frutas, que ela mesma lhe serviu.
— Tiveste sorte — disse na hora da despedida. — Uma porta após outra abre-se diante de ti. Como se explica isso?
Dispões, por acaso, de algum feitiço?
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E Sidarta:
— Ontem te contei que sei pensar, esperar, jejuar e tu achaste que isso não valia nada. Mas, na realidade vale muito, ó Kamala, como verás em breve. Então perceberás que os estúpidos samanas da selva aprendem muita coisa bonita que vós, os outros, ignorais. Anteontem, eu era um mendigo hirsuto.
Ontem já beijei Kamala e daqui a pouco serei um comerciante e terei dinheiro e todas as demais coisas às quais ligas tamanha importância.
— Pois é — concordou ela. — Mas que farias sem mim?
Que seria de ti, se Kamala não te ajudasse?
—> Minha querida Kamala — replicou Sidarta, emperti-gando-se. — Quando entrei no teu bosque, dei o primeiro passo.
Era o meu propósito aprender o amor pelos ensinamentos da mais formosa de todas as mulheres. A partir do momento em que me propus a isso, sabia também que realizaria as minhas intenções. Tinha certeza de que tu me ajudarias. Sabia-o, desde que me olhaste pela primeira vez, na entrada do teu parque.
—• E se eu não quisesse fazê-lo?
— Já o fizeste. Olha, Kamala: uma pedra que atirares na água, dirige-se ao fundo pelo caminho mais rápido. O
mesmo sucede, cada vez que Sidarta tem um objetivo, um propósito.
Sidarta não faz nada. Apenas espera, pensa e jejua. Mas passn através das coisas deste mundo como a pedra passa pela ágt , sem mexer-se, sentindo-se atraído, deixando-se cair. Sua met.
puxa-o para si, uma vez que ele não admite no seu espírito nada que se possa opor a ela. Eis o que Sidarta aprendeu dos samanas. É aquilo que os tolos chamam de feitiço e que na opinião deles é obra dos demônios. Nada é obra dos demônios, já que não há demônios. Cada um pode ser feiticeiro. Todas as pessoas são capazes de alcançar os seus objetivos, desde que saibam pensar, esperar, jejuar.
Kamala escutou atentamente. Adorava a voz de Sidarta e também a expressão de seus olhos.
— Talvez seja mesmo assim como afirmas — disse ela em voz baixa. — Mas também pode ser que Sidarta seja apenas 52
um bonitão, cujo olhar agrade às mulheres, e que, por isso, a sorte o bafeje.
Sidarta despediu-se com um beijo. — Oue assim seja, minha mestra! Tomara que meu olhar nunca cesse de agradar-te, paia que minha sorte sempre venha de ti!
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ENTRE OS HOMENS TOLOS
encaminhou-se ao comerciante Kamasvami. In-dicaram-lhe uma casa luxuosa. Alguns criados conduziram-no por corredores decorados com tapetes
preciosos até a uma sala onde ele devia aguardar a chegada do amo.
Entrou Kamasvami, homem ágil, desembaraçado, de cabelos grisalhos. Seu olhar revelava siso e prudência e a boca, sensua-lidade. O dono da casa e o visitante cumprimentaram-se amàvelmente.
— Fiquei sabendo — começou o comerciante — que és um brâmane erudito, mas procuras um emprego no comércio.
Explica-me, pois, ó brâmane; estás na miséria, de modo que a necessidade te obriga a empregar-te?
— Absolutamente — respondeu Sidarta. — Não estou na miséria, e nunca padeci miséria. É preciso que saibas que fiz parte dos samanas e convivi com eles durante muito tempo.
— Ora, se viveste a vida dos samanas, como dizes que não estás na miséria? Desde quando não andam os samanas des providos de tudo?
— Não tenho nada que me pertença — replicou Sidarta
— se fôr a isso que te referes. Estou desprovido de tudo, como 54
não? Mas vivo assim por minha livre vontade e por isso não careço de nada.
— Mas de que tencionas viver, uma vez que não possuis nada? — Nunca me preocupei com esse problema, meu caro se nhor. Por mais de três anos vivi sem ter bens materiais e nunca me perguntei como me sustentaria no futuro.
— De maneira que viveste do que outros possuíam.
— Provavelmente foi assim. Também o comerciante vive do que possuem os outros.
— Muito bem. Mas não recebe os bens dos outros de graça, uma vez que lhes dá em troca a sua mercadoria.
— De fato parece que seja assim. Todos recebem e dão alguma coisa. Assim é a vida.
—• Permite-me, porém, uma objeção: tu que não possuis nada, que é que tencionas dar?
— Cada um dá o que tem. O guerreiro dá a sua força; o comerciante, a sua mercadoria; o mestre, a sua doutrina; o pescador, os seus peixes.
— Ótimo. E qual será o bem que tu poderás oferecer?
Que aprendeste? Que sabes fazer?
— Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar.
— Só isso?
— Acho que é só isso.
— E que valor têm esses conhecimentos? O jejum, por exemplo. Para que serve o jejum?
— Para muita coisa, meu caro senhor. Para quem não tiver nada que comer, o jejum será a coisa mais inteligente que se possa fazer. Se, por exemplo, Sidarta não houvesse aprendido a suportar o jejum, estaria obrigado a aceitar hoje mesmo um ser viço qualquer, seja na tua casa, seja em outro lugar, já que a fome o forçaria a fazê-lo. Assim, porém, Sidarta pode aguardar
os acontecimentos com toda calma. Não sabe o que é impa ciência. Para ele não existem situações embaraçosas. Sidarta pode agüentar por muito tempo o assédio da fome e ainda rir-se dela. É para isso, meu caro senhor, que serve o jejum.
—
Tens razão, ó samana. Espera um instante, Kamasvami saiu e voltou com um rolo na mão. Esten dendo-o ao visitante, perguntou:
— Sabes ler isto?
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Sidarta olhou o rolo, no qual se achava registrado um con-trato de compra e venda. Começou a ler o conteúdo em voz alia. •— Ótimo — disse Kamasvami. — E agora tem a gentileza de escrever qualquer coisa nesta folha.
Entregou-lhe uma folha de papel e um lápis. Sidarta escreveu e devolveu-lhe a folha.
— Kamasvami leu: — Escrever é bom. Pensar é melhor.
A inteligência é boa, A paciência é melhor.
•— Sat>es escrever magnificamente — elogiou-o o comerciante. — Há ainda muita coisa de que teremos de tratar. Por hoje rogo-te que sejas meu hóspede e te alojes nesta casa.
Agradecendo, Sidarta aceitou o convite. Daí por diante, morava no lar do comerciante. Trouxeram-lhe roupas e sapatos.
Todos os dias, um criado preparava-lhe o banho. Duas vezes por día serviam-lhe copiosos repastos, mas Sidarta limitava-se a- uma refeição diária. Não comia carne nem tampouco tomava vinho. Kamasvami enfronhava-o nos seus negócios. Mostrava-lhe as mercadorias e os armazéns. Explicava-lhe os cálculos.
Sidarta chegava a conhecer inúmeras coisas novas.
Ouvia muito, falava pouco e, recordando-se do conselho de Kamala, jamais se subordinava ao comerciante.
Obrigava-o a tratá-lo como seu igual e mesmo como uma pessoa superior. Kamasvami dedicava-se aos negócios com esmero e, às vezes, com verdadeira paixão. Sidarta, porém, considerava tudo aquilo um mero jogo, cujas regras desejava aprender inteiramente, mas cujo decorrer o deixava perfeitamente frio.
Ainda não se passara muito tempo, desde que tomara residência na casa de Kamasvami, quando já começava a tomar parte no comércio de seu anfitrião. Mas todos os dias à hora marcada por ela, ia tem com a formosa Kamala, trajando belas roupas e sapatos elegantes. Em seguida, também lhe trazia presentes. Muitas coisas lhe revelava a boca rubra, perita, da mulher. Muitas coisas lhe mostrava a mão delicada, ágil, de Kamala. A Sidarta que, em matéria de amor, era ainda um menino e tendia para lançar-se cegamente, com apetite insaciável, no gozo, como que num abismo, ensinava ela, desde os princípios, o fato de que não se pode receber prazer sem dar prazer; que cada gesto, cada carícia, cada aspecto, cada parte do corpo esconde em si um segredo, cuja descoberta causará delícia a 56
quem a fizer. Dela aprendia Sidarta que os amantes não devem separar-se após a festa do amor, sem que um parceiro sinta admiração do outro; sem que ambos sejam
vencedores tanto como vencidos, de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente.
Maravilhosas eram as horas que ele passava em companhia dessa linda e experiente artista, tornando-se sucessivamente seu discípulo, seu amante, seu amigo.
Era ali, nos braços de Kamala, que residiam nessa fase da sua vida o valor e o significado da sua existência e não no escritório de Kamasvami.
O comerciante encarregou-o da redação de cartas e contra-tos de grande importância. Habituou-se a aconselhar-se com Sidarta sobre quaisquer assuntos ponderosos. Depois de pouco tempo verificou que Sidarta quase nada entendia de arroz, de lã, de navegação, de comércio, mas tinha a mão feliz e superava a ele, Kamasvami, no que se referia à calma, à equanimidade, à arte de escutar e de penetrar na alma .alheia. "Esse brâmane
— disse certa feita a um amigo — não é e nunca será um genuíno comerciante. Seu espírito jamais se apaixona pelos negócios. No entanto tem aquele quê misterioso, peculiar das pessoas das quais o êxito se aproxima espontaneamente, trate-se de uma boa estrela nascida com elas, ou de certo poder mágico, ou ainda de algo que os samanas lhe tenham ensinado. Ele sempre me dá a impressão de brincar com os negócios. Nunca se entrega inteiramente ao comércio, nunca se deixa dominar por ele, nunca receia reveses, nunca se preocupa com alguma perda."
E o amigo deu-lhe o seguinte conselho:
"Concede-lhe um terço do lucro de todos os negócios que ele empreender para ti, mas deixa claro que ele terá de arcar na mesma proporção com eventuais prejuízos.
Assim se inten-sificará o seu interesse."
Kamasvami obedeceu à sugestão. Mas Sidarta não ligava a menor importância a tudo aquilo. Quando lhe cabia algum lucro, aceitava-o com displicência e cada vez que houvesse con-tratempo, dava uma risada, dizendo:
"Vejam só, desta vez nos saímos mal!"
Parecia de fato que os negócios o deixavam completamente indiferente. Certa vez, encaminhou-se a uma aldeia, a fim de 57
adquirir ali grande quantidade de arroz. Quando chegou ao destino da viagem, soube que o arroz já fora vendido a um concorrente. Mesmo assim, permaneceu "vários dias naquela aldeia. Convidou os camponeses a comerem e bebêrem. Pre-senteou a criançada com moedas de cobre. Participou dos fes-tejos de um casamento e, finalmente regressou, satisfeitíssimo.
E quando Kamasvami o repreendeu pela demora do retorno c pelo desperdício de tempo e dinheiro, respondeu Sidarta:
— Pára de ralhar comigo, meu caro! Nunca ninguém conseguiu coisa alguma por meio de resmungos. Se houve prejuízo, deixa que eu arque com ele. Fico muito contente com o resultado desta viagem. Conheci muita gente. Um brâmane tornou-se meu emigo. Criancinhas cavalgaram nos meus joelhos. Camponeses mostraram-me os seus campos. Ninguém me tomou por um negociante.
—Tudo isso é muito bonito — exclamou Kamasvami, agastado. —-Mas, na realidade, és um negociante, acho eu'
Ou fizeste essa viagem unicamente para divertir-te?
—.. Claro! —- disse Sidarta, soltando uma gargalhada. —
Claro que viajei para divertir-me, por que outra razão o teria feito? Cheguei a conhecer pessoas e regiões. Obtive gentilezas e confiança. Encontrei amizade. Olha, meu amigo, se eu fôsss Kamasvami, teria regressado imediatamente, a toda a pressa, cheio de raiva, ao constatar que a compra não sairia. Nesse caso, o resultado da viagem seria de fato uma perda de tempo e dinheiro. Mas assim, tive alguns dias amenos. Aprendi alguma coisa. A]egrei-me e não prejudiquei nem a mim nem a outras pessoas por nervosismo ou precipitação. E
se eu mais uma vez, voltar àquele lugar, talvez para comprar outra colheita ou para fazer o que quer que seja, serei recebido amistosa e jovialmente por homens simpáticos. Então me elogiarei a mim mesmo por não ter dado naquela ocasião nenhum sinal de mau humor ou de pressa desnecessária. Sossega, pois, meu amigo, e não es-tragues a tua saúde pela bílis! Logo que verifícares que êsso Sidarta te causa prejuízo, bastará uma única palavra para que ele se vá embora. Até esse dia, porém, continuemos a conviver satisfeitos um com o outro.
Igualmente inúteis eram quaisquer tentativas que fazia o comerciante no sentido de convencer Sidarta de que, afinal de contas, o pão que lhe serviam era dele, Kamasvami. Sidarta 58
achava, no entanto, que comia o seu próprio pão, ou melhor: que ambos comiam o pão de outrem, o pão
comum a todos.
Nunca o moço prestava a menor atenção às preocupações de Kamasvami, e Kamasvami as tinha em grande quantidade.
Sempre que um negócio em andamento estivesse ameaçado de malogro, quer se houvesse extraviado uma remessa de mercadorias, quer um devedor não pudesse pagar, esforçava-se o comerciante em vão por persuadir o seu colaborador da necessidade de proferir palavras pesarosas ou iradas e da utilidade de andar com o rosto carrancudo ou de perder o sono. Certa feita, quando Kamasvami se gabava de que Sidarta aprendera dele tudo quanto sabia, este lhe respondeu:
—- Não brinques comigos! O que aprendi de ti foram o preço de uma cesta de peixes e os juros que se pode pedir por um espréstimo. Assim é a tua sabedoria. Mas, o modo de pensar prezado amigo Kamasvami, isso não aprendi de ti.
Melhor seria que tu o aprendesses de mim.
Era bem verdade que seu coração permanecia distante do comércio. Os negócios serviam para propiciar-lhe dinheiro para Kamala, e o lucro que provinha deles dava-lhe muito mais do que apenas o necessário. De resto, a simpatia e a curiosidade de Sidarta pertenciam às criaturas humanas, cujos trabalhos, ofícios, cuidados, diversões e tolices outrora não lhe haviam interessado em absoluto. Ainda que não encontrasse nenhuma dificuldade em conversar ou conviver com qualquer um e em aprender alguma coisa de todos, percebia com crescente nitidez que existia algo que o separava dos demais homens: seu passado de samana. Ao observar
aquela existência infantil ou animalesca que levavam os seres humanos, ao mesmo tempo adorava e des-prezava tal estilo de vida. Via como labutavam, sofriam, enve-lheciam por causa de assuntos que não lhe pareciam valer tamanho esforço e como se empenhavam em obter dinheiro, prazeres minúsculos, honrarias insignificantes.
Ouvia como se censuravam e se insultavam mutuamente, como choravam suas dores que fariam rir a um samana, e notava o quanto lhes custa-vam certas privações que um samana nem sequer sentiria.
Mantinha-se acessível a tudo o que lhe comunicavam esses homens. Acolhia amàvelmente ao mercador que lhe quisesse vender linho; ao moço endividado que lhe solicitasse um emprés-timo; ao mendigo que lhe roubasse uma hora, contando a história 59
da sua pobreza que, freqüentemente, era muitíssimo menor do que a de qualquer somana, O abastado comerciante estrangeiro recebia da sua parte o mesmo tratamento que o servo que o barbeasse ou o vendedor de rua, do qual comprasse bananas, sempre permitindo que o homem ganhasse algumas moedinhas no peso.
Quando Kamasvami o procurava, para lamentar-se de suas preocupações ou para censurar-lhe algum negócio mal suce-dido, Sidarta, entre curioso c bem-humorado, prestava-lhe '
atenção. Escutava com espanto o que o outro lhe dizia.
Empenhava-se em compreendê-lo. Dava-lhe razão até ao ponto que lhe parecia conveniente e, em seguida, virava-lhe as costas, a fim de atender outra pessoa qualquer que desejasse falar com ele. Muita gente vinha ter com Sidarta, alguns para fazer negócios, outros para lográ-lo, outros para espiá-lo, outros para despertar a sua compaixão e ainda outros para serem orientados por ele.
E Sidarta dava conselhos, compadecia-se, oferecia presentes, admitia pequenas trapaças. Tanto esse jogo como a paixão com que os homens se lhe abandonavam preocupavam o espírito de Sidarta com a mesma intensidade que ele outrora devotara aos deuses e ao De quando em quando, ressoava no âmago do seu peito uma vozinha suave, como que agonizante, a exortá-lo bem baixinho e a queixar-se quase imperceptjvelmente.
Nessas horas, Sidarta, por uns poucos instantes, dava-se conta de que levava uma existência estranha, de que se limitava a fazer coisas que não passavam de um brinquedo. Notava então que tudo isso lhe causava um certo prazer e amiúde o alegrava, mas que a verdadeira vida decorria longe dêje, sem tocá-lo. Assim como um malabarista brinca com suas bolas, assim brincava ele com seus negócios e com os homens que o rodeavam.
Contemplava-os, divertia-se à sua custa, sem que o seu coração e a fonte da sua alma participassem dessas atividades. Essa fonte jorrava em outra parte, muito distante da sua pessoa; jorrava e prosseguia jorrando, invisível, sem nada ter que ver com a vida de Sidarta.
E momentos houve em que ele se assustou de tais pensamentos, desejando que lhe fosse dado, também a ele, participar apaixo-nadamente, de todo o coração, daquelas ocupações cotidianas, infantis. Almejava viver realmente, gozar realmente, agir realmente, ao invés de restringir-se ao papel de um mero espectador.
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Mas, volta e meia ia visitar a formosa Kamala. Estudava a arte de amar. Exercitava-se no culto das delícias, no qual, mais do que em nenhum outro, os atos de dar e de tomar fun-dem-se nunx só. Conversava com a moça, aprendia
dela, aconselhava-a e recebia, por sua vez, conselhos.
Ela o compreendia melhor do que Govinda jamais o compreendera, uma vez que tinha maior afinidade com ele.
Certa feita, disse-lhe Sidarta.
— Tu és como eu. ÉS diferente dos outros seres humanos.
És Kamala, e nada mais. No teu íntimo há calma e asilo, e a qualquer instante podes retirar-te dali, para estares a sós contigo mesma, assim como eu também o sei fazer.
Poucos homens têm essa faculdade e, todavia, não há nenhum que não possa gozar dela.
— Nem todos são inteligentes — replicou Kamala.
—- Não — continuou Sidarta — essa não é a razão.
Kamasvami é tão inteligente quanto eu e, todavia, não encontra nenhum refúgio no seu íntimo, ao passo que outras pessoas o conseguem, embora não tenham mais siso do que uma criancinha. Olha, Kamala, a maioria das criaturas humanas é como folha arrancada, a flutuar e revolver-se no ar, até ir ao chão. Outras, porém, parecem-se com os astros que andam rmma órbita fixa, sem que nenhum vento possa alcançá-los, e têm em si próprios sua lei e sua rota. Entre todos os eruditos e samanas, com os quais travei contato, um único era assim, um homem perfeito, que jamais poderei esquecer.
É aquêie Gotama, o Sublime, o criador da doutrina que conheces. Dia a dia, milhares de discípulos ouvem essa doutrina; hora por hora, obedecem aos seus preceitos.
Mas, todos eles são folhas arrancadas, uma vez que não possuem em si a doutrina e a lei.
Kamala olhou-o com um sorriso:
— Novamente andas falando dele — disse. — Voltaste a ter idéias de samana.
Sidarta calou-se e ambos deram-se ao jogo do amor, a um dos trinta ou quarenta jogos diferentes que Kamala conhecia.
Seu corpo era flexível, como o do jaguar ou como o arco de um caçador. Quem aprendesse dela o amor saberia grande número de prazeres e de mistérios. Por muito tempo, Kamala brincava com Sidarta, atraindo-o, afastando-o de si, cingindo-o 61
com os braços, regozijando-se da sua maestria, até que ele des-cansasse a seu lado, vencido e exausto.
Inclinando-se sobre ele, a hetera espreitou-lhe demorada-mente a fisionomia e os olhos fatigados.
— Tu és o melhor amante — disse então, pensativa —
que já tive em toda a minha vida. És mais forte, mais desem baraçado, mais dócil do que qualquer outro. Muito bem assimi-laste a minha arte, ó Sidarta. Um dia, quando eu for mais velha, gostaria de ter um filho teu. E, todavia, meu caro, és ainda um óamana. Apesar de tudo não me amas. Não amas a ninguém. Não é?
— Pode ser que seja assim — respondeu Sidarta, lassa-mente. — Sou igual a ti. Tampouco sabes amar. De outra forma, nunca serias capaz de fazer do amor uma arte.
Possi velmente, criaturas como nós não poderão jamais amar. Os outros homens, por tolos que sejam, têm essa faculdade. Nisso reside o seu segredo.
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