Sidarta

Hermann Hesse · Capítulo 2 de 2 · parte 1/3

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Sidarta

S a N S a R a

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

JL OR muito tempo, Sidarta ia vivendo a vida do mundo c dos prazeres, sem todavia pertencer a ela. Seus sentidos, quase extintos no fervor dos anos passados em companhia dos samanai haviam voltado a agitar-se.

Sidarta saboreava a riqueza tanto como a volúpia e o poder. No fundo do coração, porém, continuava, mesmo assim, sendo um samana, como claramente percebera a inteligente Kamala. O que norteava a sua existência era ainda a arte de pensar, de esperar, de jejuar. Os homens do mundo, aqueles tolos, permaneciam estranhos a ele, assim como o próprio Sidarta sempre se sentia um estranho em seu meio.

Escoavam-se os anos. Agasalhado no conforto dessa vida, Sidarta mal e mal notava a sua fuga. Era rico. Havia muito que possuía casa própria. Dispunha de criados.

Adquirira um jardim fora da cidade, à beira do rio. ,X>s homens gostavam dele. Procuravam-no sempre que careciam de dinheiro ou de conselhos. Mas ninguém, a não ser Kamala, tinha intimidade com ele.

Aquela vigília sublime, nítida, que em outros tempos lhe coubera em sorte, nos dias que se seguiam ao sermão de Gotama e a separação de Govinda; aquela tensão de expectativa; aquele isolamento altivo, longe de doutrinas e de mestres; aquele estado 63

de desembaraçada presteza de ouvir a voz divina, cada vez que ela ressoava no âmago do próprio coração —

tudo isso transformara-se aos poucos em meras recordações, mostrando-se efêmero. Distante, quase inaudível, ficara o murmúrio da sagrada fonte que outrora jorrava bem perto dele, brotada da sua alma.

Era bem verdade que muita coisa que ele aprendera dos gamaria*, que lhe haviam ensinado Gotama e o brâmane, seu pai, mantive-ra-se viva em seu espírito por muito tempo ainda. A sobriedade, o gosto de pensar, as horas de meditação, o conhecimento secreto da própria personalidade, do eterno eu, qus não é nem corpo nem consciência, tinham-se conservado nele, mas um após outro desses bens haviam ficado soterrados, cobertos de poeira. Assim como um torno de oleiro, uma vez posto em movimento, prosse-gue girando, longamente, até que, aos poucos canse e se imobilize, assim continuavam a girar na alma de Sidarta as rodas do ascetismo, do pensar, do discernimento. Ainda andavam em giro, mas seu movimento tornara-se mais lento, hesitante, acercando-se do estado de imobilidade. Devagar, semelhante à umidade a penetrar o tronco moribundo de uma árvore, espalhando-se constantemente e fazendo com que ela apodreça, o mundo e a preguiça tinham tomado conta do coração de Sidarta. Em lento avanço, enchiam-lhe o espírito, que ficava lerdo, fatigado e violento. Seus sentidos, em compensação, vinham a ser muito ativos, sabidos, experientes,

Sidarta aprendera a fazer comércio, a dominar os homens, a divertir-se com a mulher; aprendera a usar roupas elegantes, a dar ordens à criadagem, a banhar-se em águas perfumadas; aprendera a comer pratos finos, preparados com esmero, inclusive peixes, carne e aves, doces e especiarias, e a beber vinho, o qual produz inércia e esquecimento; aprendera a jogar dados e xadrez, a contemplar bailarinas, a andar de Jiteira, a dormir num leito macio. Mas, sempre e sempre prosseguia sentindo-se diferente dos outros e superior a todos. Nunca cessara de observá-los um tanto ironicamente,

com

certo

desdém

sarcástico, precisamente aquele desdém com que os samanas

costumam encarar os homens do mundo. Cada vez que Kamasvami estivesse adoentado, ou se enfurecesse, melindrado, ou ainda se preocupasse com seus problemas comerciais, Sidarta olhava-o com uma expressão zombeteira. Apenas íenta, imperceptível-ínente, no curso das monções e das estações de safra, seu escárnio 64

tornara-se mais lasso, e menos intenso, o seu sentimento de superioridade. Lentamente também, em meio a seus tesourts sempre crescentes, o próprio Sidarta assimilara algo das atitudes peculia-res dos homens tolos, da sua ingenuidade e de seus receios. E, todavia, tinha inveja deles, tanto maior quanto mais se lhes assemelhava.

Invejava-lhes aquela única coisa que lhe faltava e que eles possuíam, a saber — a importância que logravam ligar à sua vida, a violência das suas alegrias e dos seus temores, a angustiada e, todavia, doce felicidade dos seus eternos namo-ricos. Essa gente apaixonava-se ininterruptamente por si mesma, por mulheres, por filhos, por honradas ou por dinheiro, por projetos ou por esperanças. Ele, porém, era incapaz de aprender isso, precisamente aquilo, aquela alegria infantil, aquela tolice ingênua. O que os homens lhe ensinavam era justamente o comportamento antipático, que ele mais abominava.

Com freqüência cada vez maior, ocorria-lhe, após uma noite passada em sociedade, não se levantar de manhã por sentir-se abatido e fatigado. Às vezes, chegava a irritar-se e impacientar-se, quando Kamasvami o entediava com as suas preocupações. Em outras ocasiões ria-se exageradamente ao perder no jogo de dados.

Sua fisionomia continuava mais inteligente e espirituosa do que a dos outros mas, raramente, estava risonha.

Uma a uma, assumia aquelas expressões que geralmente se encontram nos rostos de ricaços, os sinais do descontentamento, da morbidez, da indolência, do desânimo, da ausência de amor. Pouco a pouco, apossava-se dele o mal que acontece às almas dos ricos.

Como um véu, qual névoa fininha, a fadiga envolvia Sidarta, lentamente, tornando-se mais densa dia a dia, mais turva de mês em mês, mais pesada de ano em ano.

Assim como um belo vestido se desgasta com o tempo, e com o tempo desbotam as suas belas cores, assim como nele se criam rugas, e os debruns se tornam puídos, e a fazenda em alguns lugares começa a desfiar, assim envelhecera também aquela vida diferente que Sidarta iniciara, depois de separar-se de Govinda. Enquanto os anos se escoavam, perdera seu brilho e seu colorido.

Rugas e manchas apareciam nela e, no seu fundo, ainda ocultos, porém de quando em quando exibindo o semblante feio, repousavam o nojo e a desilusão. Sidarta não notou nada disso. Apenas percebeu que silenciara aquela voz clara, firme,' que outrora 65

ressoava .em seu coração e o norteara continuamente no apogeu da sua existência.

O mundo apanhara-o nas suas malhas, o prazer, a cobiça, a inércia e, finalmente, também aquele vício que sempre se lhe afigurara o mais estúpido de todos: a avareza. Também a posse, os bens materiais, a riqueza haviam-se apoderado dele, cessando de representar para ele um brinquedo, uma bagatela e transformando-se em grilhões e cargas. A essa derradeira dependência, à mais vil de todas, chegara Sidarta por um caminho curioso e pérfido: pelo jogo de dados. Desde aqueles dias em que, no fundo do coração, desistira de ser somaria, dedicava-se ele com sempre crescente fervor e paixão a esse jogo

por dinheiro ou objetos preciosos. Antigamente tomara parte

nele

com

bom

humor,

indolentemente,

considerando-o um hábito peculiar aos tolos. Como jogador, era temido. Poucas pessoas arriscavam-se a enfrentá-lo, devido às apostas muito altas e ousadas que ele costumava fazer. O que o impelia a jogar era a tristeza da sua alma. Perder dinheiro, dissipá-lo, causava-lhe certa alegria mesclada de raiva. De nenhum outro modo podia-se manifestar mais clara e cinicamente o desdém que Sidarta sentia pela riqueza, ídolo dos comerciantes. Por isso, jogava por somas elevadas, inexorável, odiando-se a si mesmo, fazendo moda do seu ardor. Ganhava ou desperdiçava milhares de moedas, perdia jóias, perdia uma casa de campo, tornava a ganhar, a perder.

Aquele medo, o receio terrível, angustiante, que o acossava, enquanto lançava os dados, preocupado com, o enorme valor da parada, aquele pavor irresistível —

Sidarta adorava-o, procurava renová-lo uma e outra vez, intensificá-lo mais e mais, levá-lo ao auge, porquanto era unicamente essa sensação que ainda lhe proporcionava algo parecido com a felicidade, um quê de ine-briamento, uma fagulha de elevação em meio à sua vida saturada, preguiçosa, insípida. E após uma perda vultosa, invariavelmente intentava obter novos tesouros.

Entregava-se ao comércio com redobrado afã. Com severidade sempre maior, obrigava os devedores a resgatarem as suas dívidas, uma vez que desejava prosseguir jogando, esbanjando, manifestando o seu menosprezo à riqueza. Chegava a irritar-se quando a má sorte o perseguia.

Mostrava-se impaciente com pagadores morosos. Já não tinha a antiga generosidade para com os mendigos.

Abandonara o prazer que antes sentia ao dar ou emprestar dinheiro a quem 66

o implorasse. O mesmo Sidarta que jogava fora dez mil moedas numa só parada e ainda se ria do prejuízo, tornava-se mais e mais duro, mais e mais mesquinho nos negócios. De noite, acontecia-lhe sonhar com o dinheiro!

E cada vez que o abominável feitiço se desfazia, cada vez que, ao examinar o seu rosto no espelho da alcova, o encontrava envelhecido e desfigurado, cada vez que o acossavam o asco e a vergonha, voltava ele a fugir, a refugiar-se novamente na jogatina, a entregar-se outra vez ao aturdimento da volúpia, do vinho, e saindo dele, a obedecer de novo aos instintos que o mandavam ganhar fortunas e acumular tesouros. Na insensatez desse círculo vicioso, afadigava-se, desgastava-se, estragava a sua saúde.

Certa noite, um sonho serviu-lhe de admoestação.

Acabava de passar a tarde em companhia de Kamala, no lindo parque da mulher. Haviam conversado, sentados ao pé de uma árvore, e Kamala proferira algumas frases pensativas. Atrás das suas palavras escondia-se a mágoa e a lassidão. Pedira a Sidarta que lhe falasse de Gotama.

Não se cansara de ouvir o que o companheiro lhe contava a seu respeito, descrevendo a pureza do olhar do Buda, a calma e a beleza de sua boca, a bondade do seu sorriso, o sossego do seu andar. Por muito tempo, insistira

com

Sidarta

para

que

lhe

narrasse

particularidades acerca1 do Augusto. Com um suspiro, dissera Kamala:

— Um belo dia, talvez daqui a pouco, também eu aderirei a esse Buda. Darei o meu parque de presente a ele e tomarei refúgio na doutrina de Gotama.

Em seguida, porém, provocara o desejo de Sidarta.

Atraíra-o a si no jogo amoroso, com fervor e ao mesmo tempo com aflição, mesclando mordidas e lágrimas, como se quisesse tirar dos prazeres fúteis, efêmeros, a última gota de doçura. Jamais Sidarta percebera com tamanha clareza a afinidade que existe entre a volúpia e a morte. Depois, quedara-se ao lado de Kamala, e sob os olhos da am^da, nas comissuras da sua boca, deparar a-se-lhe, nítida como nunca antes, aquela escritura fatí-dica, de linhas fininhas, de ru^as ligeiras, uma escritura a evocar a idéia de outono e ds velhice. E, de fato, o próprio Sidaría, apenas entrado na casa dcs quarenta, também já notara alguns fios brancos em meio à cabeleira negra. O formoso rosto de Kamala revelava cansaço, aquela fadiga que acomete a quem tenha dado uma longa caminhada, sem destino promissor; revê-67

lava cansaço, o começo do declínio, a angústia secreta, ainda não professada, talvez nem sequer consciente, o medo da velhice, o medo do outono, o medo da morte inevitável. Entre suspiros, Sidarta despedira-se da amiga, com a alma cheia de desgosto c de ocultos temores.

Mas, a seguir, passara a noite em casa, tomando vinho e contemplando bailarinas. Perante os comensais, fingira aquela superioridade que já cessara de existir. Bebêra muito. Bastante tarde, depois da meia-jioite, recolhera-se a seu leito, exausto e todavia excitado, a ponto de chorar e de desesperar. Por longas horas procurara em vão conciliar o sono, com o coração a transbordar de mágoas que lhe pareciam insuportáveis, de náusea que o transia como o gosto fastidioso, repugnante, do vinho, como a música insôssa, adocicada, como o sorriso demasiado meigo das dançarinas, como a fragância excessivamente forte dos seus seios e penteados. Mas, muito mais do que todo o resto causavam-lhe asco a sua

própria.pessoa, os cabelos perfumados, o bafo de vinho que sua boca exalava, a flacidez e o mal-estar da sua pele. Assim como um homem empanturrado de comida e bebida prefere os espasmos do vômito aliviador, assim desejava Sidarta, nessa noite de insônia, lançar para fora de si, num imenso jato de enjôo, aquele prazeres, aqueles hábitos, aquela vida absurda e livrar-se de si mesmo.

Não

conseguira

adormecer

senão

de

madrugada, quando na rua, em frente da sua casa na cidade, já começavam as primeiras atividades. Foi nesse instante que teve um sonho.

Numa gaiola de ouro, Kamala guardava um passarinho canoro, muito raro. A visão do bichinho apareceu diante de'

Sidarta. O pássaro, que normalmente cantava nas primeiras horas do dia, parecia mudo. Como esse fato lhe chamasse a atenção, ele aproximou-se da gaiola e viu que o passarinho jazia no chão, morto, enrijecido.

Retirou-o; por um momento segurou-o na mão e, em seguida, atirou-o na calçada da rua.

Mas logo se assustou terrivelmente. O coração doía-lhe como se ele houvesse jogado fora não só o cadáver da ave, como também tudo quanto fosse bom e tivesse valor.

Despertou bruscamente. Sentia-se invadido de profunda tristeza. Atormentava-o a impressão de ter levado uma existência vil, miserável, insensata. O que lhe sobrava não tinha nem 68

vida, nem encanto. Não valia e pena guardá-lo. Via-se isolado, desprovido de tudo, qual náufrago atirado a uma praia erma.

Cismando sombriamente, encaminhou-se a um dos jardins que lhe pertenciam. Fechou a porta a chave.

Sentou-se à sombra de uma mangueira. Era-lhe como se a morte tivesse tomado conta do seu coração. Com pavor na alma, sentado, imóvel, percebia que algo morria nele, definhando, acercando-se do fim.

Aos poucos, conseguia concentrar os seus pensamentos.

Espiritualmente, tornou a percorrer todo o caminho da sua existência, desde os primeiros dias de que se lembrava. Já se sentira, por acaso, realmente feliz?

Invadira-o, alguma vez, a sensação de verdadeira delícia? Ah, sim! isso se dera diversas vezes. Na sua meninice, saboreara tal dita, sempre que os brâmanes lhe tribu-tavam elogios, ou quando ele, garoto mais precoce do que os seus coetâneos, se distinguia na recitação dos poemas sagrados, nos debates travados com os eruditos e no serviço dos sacrifícios.

Nessas ocasiões, tivera certeza, no fundo da sua alma, de que à sua frente estendia-se o caminho da sua vocação e os deuses aguardavam a sua chegada. E mais tarde, na adolescência, quando a meta cada vez mais fugaz, cada vez mais elevada, de todas as suas meditações o afastara do grupo de seus compe-tidores e o colocara numa categoria superior, naqueles dias em que se atormentava no empenho de descobrir o significado do Brama, quando cada conhecimento obtido apenas provocava nele nova sede, sentira, por sedento, por dolorido que andasse, sempre esse mesmo impulso:

"Avante! Avante! Tu és eleito!"

Essa voz íntima, ele ouvira-a no momento em que abandonara o lar paterno e escolhera a vida de samana e, novamente, ao separar-se dos samanas, a fim de

dirigir-se ao Homem Sublime, e ainda quando dele se apartara, para tomar rumos incertos.

Quanto tempo não decorrera, sem que a voz secreta ressoasse em seu íntimo, sem que ele galgasse altura alguma? Como se tornara plano e desinteressante o caminho que trilhava, fazia muitos anos, sem perseguir nenhum objetivo grandioso, sem sede nem exaltação, saturado e, todavia, insaciável! Durante todos esses anos, inconscientemente se esforçara, ansiara por ser uma criatura igual às demais, igual àqueles tolos e, apesar disso, levara uma vida muito mais triste, muito mais pobre do que eles, que tinham propósitos e preocupações diferentes. Todo aquele mundo dos Kamasvamis afigurava-se-lhe como um mero brin-69

quedo, num bailado que se contemple, uma comédia.

Sòment?

Kamala lhe fora cara, só ela possuía valor — mas isso também não mudara? Tinha ele ainda necessidade dela?

Ou ela dele?

Não se dedicavam ambos a um jogo sem fim? Era esse um desígnio para o qual se precisasse viver? Não, nunca!

Esse jogo chamava-se Sansara,10 um brinquedo para criança, agradável talvez para quem o usas&e uma vez, duas, dez vezes. Mas, para que recomeçá-lo sempre e sempre?

Nesse instante, Sidarta deu-se conta de que o jogo terminara, de que jamais poderia voltar a fazer parte dele. Um calafrio perpassou em seu corpo. Sentiu que algo acabava de morrer na sua alma.

Durante todo esse día permaneceu sentado ao pé da mangueira, recordando-se do pai, recordando-se de

Govinda, de Gotama. Fora realmente necessário que ele os abandonasse a todos, para converter-se num Kamasvami? Ainda se mantinha sentado, quando caiu a noite. Enquanto levantava os olhos e deparava com as estrelas, pensou: "Aqui estou, ao pé da minha mangueira, no meu jardim." E esboçou um leve sorriso, ao ponderar se era necessário, importante e certo, e não apenas um briquedo tolo possuir uma mangueira e um jardim?

Resolutamente, pôs fim àquele estado d^ coisas.

Também aquilo cessara de viver no seu coração. Ergueu-se do chão.

Despediu-se da árvore, despediu-se do parque. Já que nesse dia se abstivera de todos os alimentos, sentia-se acossado por uma fome violenta. Vieram-lhe à memória a casa na cidade, a alcova, o leito, a mesa posta. Com um sorriso fatigado, sacudiu-se, para desembaraçar-se de tudo aquilo.

Nessa mesma noite, Sidarta abandonou o seu jardim.

Saiu da cidade e nunca mais voltou. Kamasvami, que acreditava que o sócio tivesse sido raptado por salteadores, mandou fazer pro-longadas investigações.

Kamala, porém, não empreendeu nenhuma busca. Ao ser informada do desaparecimento de Sidarta, nem sequer se admirou. Não soubera ela sempre que isso um dia aconteceria? Não era ele um samana, um homem sem raízes, um peregrino? E fora -na última tarde que passaram juntos qus 1° Sansara: as vicissitudes do mundo, da vida e da morte da existência humana; a instabilidade e a efemeridade das coisas; a agitação do mundo; a vaidade e a inquietude da vida humana. (N. do T.)

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à dor que lhe causava a perda, regozijava-se por tê-lo apertado ao peito, com tanto ardor, naquela hora derradeira, para que Sidarta mais uma vez a possuísse e penetrasse inteiramente.

Qundo lhe comunicaram que ele sumira, acercou-se da janela, onde mantinha preso numa gaiola de ouro um pássaro raro. Abriu a portinha, retirou a ave e permitiu-lhe que escapasse. Por muito tempo, acompanhou com os olhos o passarinho que esvoaçava. A partir desse dia, nunca mais recebeu visitas. Mantinha cerrada a sua casa.

Depois de algumas sema-nas, porém, verificou que estava grávida, em conseqüência do ultimo contato com Sidarta.

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À BEIRA DO RIO

caminhava pela íloresta, já muito longe da cidade. Tinha certeza de uma única coisa: que nunca mais poderia voltar atras, que essa vida que levara por longos anos, pertencia ao passado, definitivamente, que a saboreara, chupando até a última gota, até enjoar. O pássaro canoro com o qual sonhara estava morto. Morto estava o pássaro que cantara no âmago da sua alma. Por todos os lados, enredara-se no Sanfara.

Impregnara-se completamente de nojo e de morte, assim como uma esponja absorve a água, até ficar cheia.

Sentía-se abarro-tado de desânimo, de mal-estar, de agonia. Em todo o vasto mundo já não existia nada que o

pudesse atrair, que fosse capaz de causar-lhe alegria e de trazer-lhe conforto.

O que ele almejava mais do que tudo era não saber nada que lhe dissesse respeito, era encontrar sossego, estar morto.

Oxalá que um raio se abatesse sobre ele, matando-o!

Quem lhe dera que um tigre o devorasse! Ah, se houvesse um vinho, um veneno que conseguisse atordoá-lo! Existia, por acaso, alguma sordidez com que ele se não houvesse poluído, alguma tolice, algum pecado que se tivesse omitido de cometer, algum vazio da alma jamais experimentado por seu espírito? Seria possível ainda continuar a viver, aspirar o ar uma e outra vez, expeli-lo nova-72

mente, sentir fome, comer, dormir, deitar-se ao lado de uma mulher? Não se haviam esgotado as variantes do circuito? Ainda não estaria alcançando o fim de tudo isso?

Sidarta chegou ao grande rio, que passa pela selva, o mesmo rio que um balseiro o ajudara a transpor, quando o então jovem vinha da cidade habitada por Gotama. Ali se deteve.

Indeciso, permanecia de pé, à beira d'água. Estava debilitado pela fome e pelo cansaço. Para que prosseguir na caminhada?

Em que direção? Com que destino? Não, já não o aguardava nenhum destino. Nada mais havia a não ser o profundo e doloroso desejo de livrar-se daquele pesadelo confuso, vomitar esse vinho nojento, acabar com tal vida miserável, ignominiosa.

Por cima da ribeira inclinava-se uma árvore, um coqueiro.

Sidarta encostou o ombro na madeira. Agarrando-se ao tronco, cravou os olhos nas verdes águas que corriam lá em baixo, sempre e sempre. Almejava de todo coração desprender-se, afogar-se naquele rio, em cuja superfície se espelhava um vazio tremendo, qual reflexo do pavoroso vazio de sua própria alma.

Sim, ele, Sidarta, estava no fim. Não se lhe descortinava outra solução que não a de extinguir-se a si mesmo, de quebrar o malogrado molde da sua existência, de jogar os cacos fora, bem longe, aos pés dos deuses que zombavam dele. Sentia que esse era o momento do grande vômito pelo qual ansiara: a morte, a dilapidação da forma odiada! Que os peixes devorassem o corpo de Sidarta, desse cão, desse louco, que engolissem esse cadáver depravado, podre, essa alma langorosa, violentada!

Quem lhe dera ser comido por peixes e crocodilos, ser dilace-rado pelos demônios!

Com o rosto crispado, fitava as águas. Contemplou a sua fisionomia no espelho e cuspiu nela. Terrivelmente fatigado, soltou a árvore. Empertigou-se um pouco, a fim de lançar-se numa queda vertical que o levasse ao ocaso definitivo. Com os olhos cerrados, deixou-se cair, rumo à morte.

Nesse momento, um som começou a vibrar nele, vindo de longínquas regiões da sua alma, de épocas passadas da sua existência gasta. Era uma única palavra, uma só sílaba que ele pronunciou inconscientemente, em voz insegura. Era a velhíssima palavra inicial e final de todas

as orações do bramanismo, o sagrado Om, que significa o Perfeito ou a Perfeição. E logo 73

que ouviu o Om a ressoar no seu íntimo, seu espírito, bruscamente acordado do sono, percebeu a estupidez do ato que ele ia cometer. Estremeceu. Então chegara àquele extremo; perdera-se a tai ponto; andara tão alucinado, tão néscio que chegara a almejar a morte, permitindo que aquela ânsia, aquele desejo próprio de uma criança crescesse nele. Quisera encontrar sossego, ao exterminar o próprio corpo. O que todos os tormentos daqueles últimos tempos, todas as desilusões, todo o desespero não haviam conseguido fazer, produzia-se naquele instante, quando o Om penetrava na sua consciência; em meio a sua miséria' e a seus equívocos, reconheceu-se a si mesmo.

— Om! — disse de si para si.

E, ao mesmo tempo, voltava-lhe o conhecimento do Brama, da indestrutibilidade da vida, das coisas divinas de que se es7

quecera.

Mas tudo isso durou apenas um instante, era como um raio. Estendeu-se ao pé do coqueiro, prostrado pelo cansaço.

Murmurando a palavra Om, deitou a cabeça na raiz da árvore e entregou-se a um sono profundo.

Dormiu calmamente, sem sonhar. Havia muito que não repousava assim. Ao despertar, depois de várias horas, parecia-lhe que dez anos tinham decorrido. Ouvia o

suave marulhar das águas. Não sabia onde estava e quem o levara até aquele lugar.

Abrindo os olhos, viu, pasmado, às árvores e o céu por cima da sua cabeça. Lembrou-se então da ribeira onde se achava e de como chegara até ela. Contudo, careceu de algum tempo para dar-se conta disso. Era-lhe como se o passado estivesse envolvido num véu, infinitamente distante, infinitamente remoto, totalmente desprovido de importância. Apenas tinha certeza de ter abandonado a sua existência precedente, a qual, no primeiro momento de recuperação dos sentidos, se lhe afigurava como uma encarnação longínqua, uma jornada anterior do seu eu atual; recordava-se também da sua intenção de jogar fora a vida, num acesso de asco e desgosto e, finalmente, lembrava-se de que recuperara a consciência de si mesmo à beira de um rio, sob um coqueiro, para em seguida, pegar no sono, com a sagrada palavra do Om nos lábios. Ao acordar, nesse instante, olhava o mundo como um recém-nascido. Em voz baixa proferiu novamente o Om, assim como fizera ao adormecer e tinha então a impressão 74

de que todo aquele sono prolongado não passava de uma

longa

e

ininterrupta

seqüência

de

Oms

pronunciados por ele, de uma penetração no Om, de uma fusão completa com o Perfeito, o Inominado.

Que sono maravilhoso! Jamais sono algum o refrescara tanto. Nunca se sentira tão novo, tão rejuvenescido. Ou, quem sabe, talvez tivesse morrido, perecendo, para ressuscitar logo depois sob um aspecto diferente? Mas não! ele se reconhecia a si mesmo; reconhecia as mãos, os pés, o lugar onde se encontrava; reconhecia a esse eu no seu peito, a esse Sídarta, homem teimoso, esquisitão.

E, todavia, era um Sidarta modificado, renovado,

surpreendentemente refeito, singularmente acordado, alegre, curioso.

Soerguerdo-se, viu à sua frente um vulto sentado. Era um estranho, um monge de trajes amarelos, com a cabeça raspada, na posição de quem medita. Sidarta olhou o homem, que não tinha cabelo nem barba, e não necessitou de muito tempo para verificar que o monge era Govinda, seu amigo de infância, o mesmo Govinda que procurara agasalho na proximidade do augusto Buda. Também Govinda envelhecera, mas seu rosto tinha ainda os mesmos traços, que revelavam zelo, lealdade, busca, angústia. Mas, quando Govinda, sentindo-se observado, abriu os olhos, notou Sidarta que o amigo não o identificara. Govinda parecia satisfeito em vê-lo acordado. Evidentemente estívera ali sentado, fazia muito tempo, a aguardar que o desconhecido despertasse.

— Dormi — disse Sidarta. — Como chegaste a este lugar?

— Dormiste, sim — respondeu Govinda — É perigoso dormir nesta região, onde há cobras em abundância e as feras da selva passam pelos caminhos. Eu, meu senhor, sou um discípulo do sublime Gotama, o Buda, o Saquia-Muni. Ao fazer uma peregrinação, ao longo desta estrada, descobri-te e percebi que estavas dormindo num lugar onde não convém descansar.

Por isso, procurei acordar-te, e como percebesse que teu sono era bem profundo, separei-me dos companheiros, para ficar a teu lado. Mas, parece-me que eu mesmo adormeci, em vez de velar por ti. Desincumbi-me muito mal da minha missão. A fadiga tomou conta de mim. Mas agora, que despertaste, per mite que me afaste, para que possa alcançar meus irmãos.

75

— Agradeço-te, ó samana, o teres vigiado o meu sono —

disse Sidarta. — Vós, os discípulos do Augusto, sois muito gentis. Pois então, podes ir-te, se assim o quiseres.

— Vou-me embora, meu senhor. Que tua saúde continue boa. — Obrigado, samana.

Com um sinal de despedida, Govinda acrescentou:

— Adeus.

— Adeus, Govinda — disse Sidarta.

O monge estacou.

— Permite-me a pergunta, meu senhor: de onde conheces meu nome?

Sidarta sorriu.

— Conheço-te, ò Govinda, de quando mora vás na cabana de teu pai e de quando freqüentavas a escola dos brâmanes ç participavas dos sacrifícios, e de quando nos reunimos com os samanas, e daquela hora, no bosque Jetavana, em que procuraste agasalho na proximidade do Sublime.

— Então és Sidarta! — exclamou Govinda. — Agora te reconheço e não compreendo por que não o fiz logo. Sé bem-vindo, Sidarta. Folgo muito em reencontrar-te.

—• Também eu gosto de estar novamente contigo.

Vigiaste o meu sono. Mais uma vez te agradeço, se bem que não necessitasse de nenhum vigia. Aonde vais, meu amigo?

— Não tenho rumo certo. Nós, os monges, vagueamos sempre pela região, a não ser na estação das chuvas.

Vamos de um lugar a outro, vivendo segundo o ritual, propagando a doutrina, pedindo esmolas e prosseguindo na nossa jornada.

Sempre e sempre. E tu, Sidarta, onde vais?

Respondeu Sidarta:

—- Comigo acontece a mesma coisa, meu amigo. Ando sem rumo. Apenas vou caminhando. Seu um peregrino.

— Afirmas que és um peregrino — tornou Govínda —

e acredito nas tuas palavras. Mas, Sidarta, não leves a mal o que te digo; não tens a aparência de um peregrino.

Usas as roupas dos ricos; calças sapatos que convém a um cavalheiro distinto; e teu cabelo que cheira a água perfumada não se parece com o de um samana peregrino.

— Perfeitamente, meu caro, observaste tudo muito bem.

Teus olhos são deveras perspicazes. No entanto, não asseverei 76

ser um samana. Disse apenas que sou um peregrino. E

assim é de fato: encontro-me numa peregrinação.

_ Então és um peregrino — replicou Govinda. — Mas pouca gente faz romarias com trajes, sapatos e penteados dessa qualidade. Eu, que há muitos anos vivo peregrinando, nunca vi um peregrino igual a ti.

— Disso não duvido, amigo Govinda, Mas, justamente hoje topaste com um peregrino diferente, que veste

roupas e calças de outra espécie. Não te esqueças, meu querido: o mundo das configurações altera-se a cada instante. Perecíveis, suma mente perecíveis são os nossos trajes e os penteados dos nossos cabelos, assim como também os próprios cabelos e corpos. Eu uso as roupas de um homem rico. nisso tens razão. Uso-as, porque fui rico e ando penteado como os pândegos mundanais, uma vez que fiz parte deles.

— E agora, ó Sidarta, que és agora?

—• Não sei. Ignoro-o da mesma forma que tu. Apenas vou caminhando. Tenho sido um ricaço mas cessei de sê-lo.

Não faço nenhuma idéia do que serei amanhã.

— Perdeste a tua fortuna?

— Perdia-a, ou talvez ela tenha perdido a mim. Minha fortuna sumiu. A roda das configurações gira depressa, amigo Govinda. Onde ficou o brâmanc Sidarta? Onde o samana Sidarta? E onde está o ricaço Sidarta? As coisas efêmeras mudam rapidamente, meu caro Govinda. Bem o sabes.

Por muito tempo, Govinda fitou o amigo de infância. Seu olhar expressava dúvida. Em seguida, saudou-o, como se saúda um cavalheiro distinto, e foi-se embora.

Sempre sorrindo, Sidarta scguiu-o com os olhos. Ainda o amava, a esse homem leal, sempre preocupado. De resto, como poderia ter deixado de amar o que quer que fosse, pessoas ou objetos, nesse momento exato, nessa hora magnífica, após o sono milagroso, quando se sentia inteiramente penetrado do Oni?

Justamente nisso consistia o .feitiço que tomara conta dele, através da palavra sagrada e fazia com que ele sentisse amor a tudo e se enchesse de ternura para com todas as coisas que se lhe deparassem. E tinha a impressão de que a grave doença de que sofrerá até poucas horas antes manifestara-se precisamente na incapacidade de amar nada e ninguém.

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Ainda sorridente, Sidarta prosseguiu acompanhando com o olhar o monge que se afastava. O sono fortalecera-o consideravelmente. Mas, nesse momento, a fome torturava-o muito.

Fazia dois dias que não comia e os tempos em que estava acostumado a abster-se de alimentos pertenciam a um passado remoto. Melancòlicamente, e todavia com uma risada jovial, recordou-se daquela época distante.

Veio-lhe à memória que perante Kamala gabara-se de saber realizar três coisas, de dominar três artes, nobres, insuperáveis; jejuar, esperar, pensar.

Isso representava tudo que então possuía. Servira-lhe de esteio sólido. Dera-lhe força e poder. Nos anos duros, laboriosos, de sua juventude, Sidarta assimilara essas três artes, só elas. Mas depois as perdera. A essa altura nenhuma delas pertencia-lhe: nem a arte de jejuar, nem a de esperar, nem a de pensar. Ele as trocara pelo que havia de mais vil e de mais efêmero no mundo, pelo prazer dos sentidos, pela vida amena, pelos bens materiais!

Realmente, o que lhe acontecera era curioso. Ao fim de tudo isso, assim lhe parecia, tornara-se de fato nm tolo como os outros homens.

Refletiu sobre a sua situação, O ato de pensar causava-lhe dificuldade. No fundo, nem sequer gostava de fazê-lo.

Mas, com algum esforço, conseguiu-o,

"Pois então — pensou — já que todas aquelas coisas passa-geiras me escorregaram por entre as mãos, acho-me novamente sob o sol, sozinho, como nos meus dias de infância. Nada possuo, nada sei fazer, nada posso realizar, nada aprendi. Não é mesmo estranho? Agora, que já não sou nenhum jovem, que meus cabelos já ficaram bem grisalhos, que minhas forças diminuem, volto à estaca zero, lá onde estive em criança!" Mais uma vez esboçou um sorriso. Sim, seu destino era deveras singular. Ele ia abaixo e novamente se encontrava nesta terra totalmente vazio, bobo, desamparado. Mesmo assim, sentia-se incapaz de afligir-se por isso. Antes pelo contrário, tinha vontade de dar uma gargalhada, de rir-se de si, de zombar desse mundo esquisito, estúpido, "Tu vais mesmo abaixo!" — disse de si para si, soltando uma risada e, ao pronunciar essas palavras, fixou a vista no rio.

Via que também o rio ia abaixo, sempre abaixo, sem que todavia cessasse de murmurar a sua alegre cantiga. Isso lhe agradava.

Olhou o rio, com um sorriso, como a um amigo. Eram essas realmente as mesmas águas nas quais quisera afogar-se,

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cutrora, fazia cem anos, ou acontecera aquilo apenas num sonho?

"A vida que levei foi deveras curiosa"— pensou — "e conduziu-me por caminhos estranhamente tortuosos.

Quando menino só tive que lidar com deuses e sacrifícios.

Quando

adolescente,

preocupei-me

exclusivamente com o ascetismo, com a filosofia, com a meditação, indo em busca do Brama e reve-renciando o que há de eterno no Átman. Quando moço, porém, acompanhei os penitentes; morei na selva; suportei o frio e o calor; aprendi a agüentar a fome; mortifíquei o meu corpo.

A seguir ocorreu-me o maravilhoso encontro com a doutrina do orande Buda e através dela cheguei ao conhecimento; senti que a percepção da unidade do Universo circulava em mim como o meu próprio sangue.

Mas coube-me abandonar também o Buda e sua sublime sabedoria. Fui ter com Kamala e graças a ela enfronhei-me nas delícias do amor; com Kamasvami estudei o comércio; acumulei dinheiro, esbanjei dinheiro; habituei-me a adorar o meu estômago e a adular os meus sentidos. Era preciso que eu vivesse assim por longos anos, sacrificando o meu espírito, esquecendo a arte de pensar, olvidando a unidade. Não parece de fato que, lentamente, trilhando estradas sinuosas, transformei-me de um homem numa criança e de um filósofo num tolo?

E, todavia, acho que esses desvios me fizeram um grande bem. O pássaro que antigamente cantava no meu peito não morreu ainda. Mas que jornada extraordinária! Careci passar por tamanha insensatez, por tantos vícios e erros, por um sem-número de

desgostos, desilusões, tristezas, só para voltar a ser criança e para começar de novo. E, apesar de tudo isso, fiz bem, agindo dessa forma. Meu coração está de acordo e meus olhos enxergam aquilo com prazer. Coube-me em sorte o pior desespero. Foi necessário que me degradasse até ao mais estúpido de todos os propósitos e pensasse no suicídio, para que me acontecesse a graça, para que eu ouvisse novamente o Om, para que me iossc dado dormir com calma e acordar refeito.

Tive de pecar, para que pudesse tornar a viver. Aonde me levará agora o meu destino? Meu caminho parece louco; faz curvas; talvez me conduza num. círculo fechado. Seja como for, vou segui-lo!"

Sentiu-se tomado de um bem-estar indizível.

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"Donde, ó meu coração — perguntou a si mesmo — veío-te tamanha alegria? Só daquele sono benéfico, prolongado, que tanto me refrescou? Ou da palavra Om que pronunciei? Ou do fato de eu ter logrado escapar, transformar essa fuga em realidade definitiva, voltar à liberdade, viver como uma criança sob o vasto céu? Ah, como me faz bem essa fuga, essa liberdade reconquistada! Como é belo e puro o ar que aqui se respira!

Naquela casa de onde me evadí, tudo cheirava a pomada, especiarias, vinho, abundância, preguiça! Como não odiei esse mundo dos ricaços, dos comilões, dos jogadores! Quanto não detestei a mim mesmo, por ter permanecido durante anos ali, naquele ambiente pavoroso! Assim me prejudiquei, privei-me, intoxiquei-me, maltratei-me, tornei-me velho e maldoso. Não, ao

contrário do que outrora gostava de imaginar, nunca mais terei a veleidade de ser um sábio! Mas uma coisa me saiu bem. Até me causa prazer. Estou contente que esse ódio com que me persegui chegou ao seu fim, da mesma forma que aquela vida insensata, enfadonha, que ievei! Felicito-te, ó Sidarta, por teres novamente uma boa idéia, após tantos e tantos anos de tolice, por teres realizado uma ação proveitosa. Ouviste o canto do pássaro no fundo do teu coração e obedeceste a ele!"

Assim se elogiava a si próprio. Sentia-se satisfeito consigo mesmo. Com manifesta curiosidade, escutava os resmungos do seu estômago acossado pelo fome.

Percebia nitidamente que, no decorrer dos meses e dos dias que acabavam de passar, es-vaziara até à última gota a taça da tristeza e do desgosto, para, em seguida, vomitar o conteúdo amargo, numa convulsão de desespero e morte. Estava bem assim. Ter-lhe-ia sido possível permanecer por muito tempo ainda ao lado de Kamasvami, ganhando e desperdiçando dinheiro, cevando o ventre e permitindo que sua alma morresse de sede. Talvez tivesse ele con-tinuado a habitar aquele inferno suave, confortável, se não lhe houvesse acontecido aquele momento de extrema desesperança, de completo desânimo, aquele momento derradeiro, quando, à beira das águas íorrentosas, estívera disposto a suicidar-se, O fato de ele ter experimentado tal sensação de profundo desa-lento, de asco total sem sucumbir a ela, o fato de terem sobre-vivido em seu íntimo o pássaro, a voz, a fonte jucunda, esse fato alegrava-o, tornava-o .risonho, fazia com que seu rosto, sob a cabeleira grisalha, irradiasse júbilo.

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"Que bom — assim pensou — provar tudo quanto se necessita conhecer! Em criança, já aprendi que a riqueza e os prazeres mundanais não nos trazem nenhum proveito. Há muito tempo sabia disso, mas somente agora cheguei a assimilar essa sabedoria. Hoje me compenetrei dela. Possuo-a não só na memória, senão nos olhos, no coração, no estômago. Ê uma bênção ter-se essa certeza."

Durante horas a fio, meditava acerca da transformação que nele se produzira. Com atenção, escutava a voz alegre do pássaro que cantava na sua alma. Mas como?

Aquele bichinho não estava morto? E a dor que ele, Sidarta, sentira pelo seu desaparecimento? Ora, o que morrera no seu íntimo era outra coisa, algo que havia muito desejava ser exterminado. Não era precisamente aquilo que ele quisera extinguir no ardor dos seus anos de penitência? Não era a sua própria personalidade, o seu eu mesquinho, angustiado, orgulhoso, com o qual travara uma luta de longos anos, que uma e outra vez triunfara sobre ele, que sempre ressuscitara, por mais que ele o abatesse, que lhe vedara

.a felicidade e lhe incutira o medo? O que encontrara a morte, até que enfim, nessa selva, na ribeira desse belo rio, não seria justamente esse eu? E não o reconduzirá essa mesma morte ao estado de criança, inspirando-lhe plena fé, livrando-o de qualquer temor, enchendo-o de júbilo?

Nesse instante, Sidarta começava a vislumbrar o motivo por que não conseguira vencer àquele eu, nem como brâmane, nem como penitente. O que o impedira fora o excesso de erudição, de versículos sagrados, de rituais, de sacrifícios, de ascetismo, de atividades e de ambições. Sempre se pavoneara com altivez; sempre

quisera ser o mais inteligente, o mais zeloso; sempre se empenhara em tomar a dianteira; sempre se exibira nos papéis de sábio, de intelectual, de sacerdote, de filósofo.

Nesse sacerdócio, nessa altivez, nessa erudição infiltrava-se o seu eu; ali se arraigara, crescera, enquanto ele, Sidarta, cria tê-lo aniquilado por meio de jejuns e mcrtificações. A essa altura, porém, redescobriu-o e também percebeu que a voz secreta tivera razão, e que nenhum mestre jamais teria sido capaz de salvá-lo Por isso, fora inevitável que ele se encaminhasse ao mundo, para perder-se na busca de prazeres, de poder, de mulheres,

de

dinheiro,

e

que

se

tornasse,

sucessivamente, comerciante, jogador de dados, beberrão e avarento, até que o sacerdote e o samana 81

que nele houvera estivessem mortos. Por isso coubera-lhe em sorte suportar todos aqueles anos sórdidos, suportar o nojo, o vazio, o absurdo de uma existência fastidiosa, inútil, até ao fim, até à amargura do desespero, até que o patusco Sidarta e o sovina Sidarta pudessem morrer por sua vez. E eles estavam mortos, realmente! Um Sidarta renovado despertava do sono Também ele envelheceria, também ele teria de falecer um dia.

Sidarta era efêmero, como efêmeras seriam quaisquer configurações. Nesse dia, porém, o novo Sidarta seníia-se jovem, era criança outra vez, estava cheio de alegria.

Eis os pensamentos que lhe vinham ao espírito. Sorrindo, prestava atenção às. queixas do estômago. Com sincera gratidão, ouvia os zumbidos de uma abelha, Satisfeito, contemplava a torrente do rio. Nunca água alguma lhe agradara tanto como aquela. Em nenhum outro momento

se lhe haviam comunicado de modo tão claro e lindo a voz e o símbolo do curso das águas.

Parecia-lhe que o rio lhe revelava algum segredo especial, alguma coisa ignota, que ainda o aguardasse.

'Nesse rio, quisera afogar-se.

Nesse rio, submergia o velho, o exausto, o desesperado Sidarta.

Mas o novo Sidarta, tomado de profundo amor a essas águas que lá corriam, resolvia não se separar de]as por muito tempo.

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O BALSEIRO

"HEI de permanecer junto a êsst rio! —

pensou Sidarta — É o mesmo que atravessei quando ia ter com os homens tolos. Naquela ocasião um balseiro simpático me transportou. Vou procurá-lo. Da sua cabana partia então o caminho que me conduziu a uma vida nova, a qual, por sua vez, já ficou velha e morreu. Que também desta vez o meu caminho, minha existência atual, renovada, comecem ali!"

Continuar: parte 2 de 3