Simplesmente bipolar

Darian Leader · Capítulo 1 de 1 · parte 1/3

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Simplesmente bipolar

Dedicatória

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Para L, S e Y

Sumário

 

Simplesmente bipolar

 

Notas

Agradecimentos

Sobre o autor

SE O PERÍODO PÓS-GUERRA foi chamado de “era da ansiedade”, e as décadas de 1980 e 1990 de “era dos antidepressivos”, vivemos agora em tempos bipolares. Um diagnóstico que antes se aplicava a menos de 1% da população teve um aumento drástico, estimando-se que quase 25% dos norte-americanos sofram de alguma forma de bipolaridade. Medicamentos para estabilizar o humor são prescritos rotineiramente para adultos e crianças, sendo que as receitas para crianças aumentaram 400% desde meados dos anos 1990, enquanto os diagnósticos globais tiveram uma alta de 4.000%. A pergunta atual não é “Você é bipolar?”, mas “Qual o seu grau de bipolaridade?”.

Celebridades como Catherine Zeta-Jones, Stephen Fry, Jean-

Claude van Damme, Demi Lovato, Adam Ant, Tom Fletcher e Linda Hamilton falam de seus problemas de bipolaridade, e tanto autobiografias quanto livros de autoajuda inundam o mercado. Carrie Mathison, agente da CIA no seriado Homeland, e Pat Solitano, o ex-professor do filme O lado bom da vida, são retratados como bipolares, e o transtorno chega a ser mencionado até mesmo no desenho infantil Scooby-Doo.

Enquanto isso, os manuais de administração de empresas

advogam o cultivo de certo grau de mania, a fim de participar do mercado, e os executivos são efetivamente instruídos a praticar uma euforia maníaca para aumentar as vendas e a produtividade. Uma imagem da mídia retrata o magnata Ted Turner como um comandante naval furiosamente resoluto, e adverte que ele parou de tomar lítio, de modo que é melhor os seus concorrentes abrirem o olho! Em Hollywood, os astros visitam seus psiquiatras na companhia de seus agentes, os quais se certificam de que a medicação funcione para manter a mania em nível baixo, porém não muito baixo: mais do que em qualquer outro lugar, ali assistimos ao uso de um regime de medicamentos que se ajuste sob medida aos

requisitos da carreira e do estilo de vida.1

A confiança, a euforia e a energia que caracterizam as fases

iniciais da mania parecem adequar-se muito bem aos estímulos à realização, à produtividade e ao nível intenso de compromisso exigidos pelas empresas de hoje. Num mundo de competição feroz, no qual a estabilidade no emprego e a segurança vêm se desgastando progressivamente, os funcionários têm que provar seu valor, trabalhando por períodos cada vez mais longos e professando uma confiança sempre mais extasiada em seus projetos e produtos. Os inevitáveis dias de licença, decorrentes da exaustão e do abatimento, não são vistos como prova de que há algo errado, mas quase como parte do perfil do cargo.

Ao mesmo tempo, as próprias características que a psiquiatria

clássica atribuía ao acesso maníaco emergem como as metas do desenvolvimento pessoal. Livros e terapias de autoajuda promovem as ideias de autoestima e de uma autoconfiança e bem-estar acentuados. Nada é impossível, dizem-nos, devemos seguir nossos sonhos. E, se antigamente o sintoma principal da mania era definido como a busca compulsiva do estabelecimento de uma ligação com outros seres humanos, hoje em dia isso é quase uma obrigação: se você não está no Facebook ou no Twitter, você deve ter algum problema. O que antes eram sinais clínicos de psicose maníaco-depressiva transformou-se na meta das terapias e do treinamento de estilo de vida.

Entretanto, além das novas incitações ao comportamento

“maníaco”, os portadores de depressão maníaca descrevem as terríveis fases depressivas e estados pesadelares de agitação que acompanham seus episódios. Os sentimentos de poder, confiança e conexão com o mundo que caracterizam a mania fazem a pessoa sentir-se extra-ordinariamente viva, ao mesmo tempo em que a deixam mais perto que nunca da morte. O paradoxo da bipolaridade já foi observado repetidas vezes: pergunte a um sujeito maníaco-depressivo se ele apertaria um botão para fazer sua bipolaridade desaparecer, se isso fosse possível, e muitos dirão que não. No entanto, pode ser que essas mesmas pessoas acabem sistematicamente internadas, depois de dilapidarem suas economias em desvarios de compras, de magoarem a família por abandono ou negligência ou de arriscarem a vida em algum ato desventurado de heroísmo ou hedonismo.

Como podemos entender essa nova onipresença de eus

bipolares? Será que os altos e baixos da bipolaridade são consequência das mudanças na situação econômica, com os surtos continuados de energia substituindo a imagem mais tradicional do exercício estável de uma profissão? E, além do discurso quase sempre superficial sobre a “mania” no trabalho, haverá de fato uma bipolaridade real, a mesma que um dia os psiquiatras chamaram de psicose maníaco-depressiva? Talvez a bipolaridade pareça combinar com os ritmos estranhos e convulsivos da vida no começo do século XXI, mas, como qualquer pessoa que já tenha passado pela experiência da depressão maníaca pode dizer, trata-se de uma coisa séria.

 

CEM ANOS ATRÁS, o termo “bipolar” era excepcionalmente raro. Foi usado na psiquiatria pela primeira vez no final do século XIX, mas ganhou destaque a partir da década de 1980, até se tornar uma palavra corriqueira nos anos 1990. Como se deu essa nova popularidade? Todos os historiadores da psiquiatria fizeram a mesma observação quanto a isso. Foi exatamente quando as patentes dos antidepressivos populares de maior vendagem começaram a expirar, em meados da década de 1990, que, de repente, o transtorno bipolar tornou-se o beneficiário dos vastos orçamentos de comercialização da indústria farmacêutica.

Surgiram sites na Internet para ajudar as pessoas a se

diagnosticarem, e artigos em revistas e suplementos de jornais, todos fazendo referência ao transtorno bipolar como se ele fosse uma realidade – e quase todos eram financiados, na totalidade ou em parte, pela indústria farmacêutica. Questionários da Internet permitiam o autodiagnóstico em poucos minutos e, para muitas pessoas, foi como se suas dificuldades finalmente tivessem nome. Do mesmo modo que, nos anos 1980, tanta gente havia enfim compreendido que sofria de “depressão”, na nova década o termo “bipolar” tornou-se o rótulo para designar o sofrimento sentido por uma nova geração.

A ironia é que, nos casos em que as drogas antidepressivas

claramente não funcionavam, passou-se a afirmar que isso advinha de uma prescrição equivocada. Na verdade, esses pacientes eram bipolares, mas suas mudanças sutis de humor haviam escapado à atenção do médico que receitara a medicação. Entre 20 e 35% dos indivíduos diagnosticados com depressão na assistência primária de saúde passaram a ser vistos como portadores do transtorno bipolar. Como assinalou o psiquiatra David Healy, em vez de tentar produzir antidepressivos mais eficazes, a indústria optou por comercializar uma nova marca – um novo conjunto de transtornos, chamado

“bipolar” –, em vez de um novo medicamento.2

Essa colonização exigiu uma proliferação de categorias

bipolares. O transtorno bipolar tipo I foi comumente igualado à clássica doença maníaco-depressiva, mas o transtorno bipolar tipo II baixou drasticamente o limiar, exigindo meramente um episódio depressivo e um período de produtividade aumentada, inflação da autoestima e redução da necessidade de sono. Logo se seguiram os transtornos bipolares II,5, III, III,5, IV, V e VI. A ênfase crescente nas oscilações de humor, e não nos processos subjacentes, significou que um número cada vez maior de pessoas pôde ser abarcado no âmbito do transtorno bipolar. Hoje em dia, existe até o “bipolar leve”, o que significa que o paciente “reage intensamente às perdas”. Esse afrouxamento dos limites do diagnóstico gerou uma expansão colossal do mercado farmacêutico e lançou um convite generalizado a que os consumidores se vissem como bipolares.

Chegou-se até a inventar uma categoria – o transtorno bipolar

tipo III – para designar aqueles cuja bipolaridade tinha sido revelada pelos antidepressivos. Tomar antidepressivos como Prozac intensificava os estados maníacos, mostrando com isso o diagnóstico verdadeiro e indicando que era necessário tomar um novo remédio, para estabilizar as oscilações de humor. É fato que, depois de iniciarem tratamento com uma droga antidepressiva, milhares de pessoas experimentaram estados de agitação angustiante e um fluxo acelerado de pensamentos invasivos, mas é claro que há uma grande diferença entre ver esses estados como efeitos isolados do medicamento ou como uma situação nuclear que o remédio simplesmente revelou.

O coelho tirado da cartola foi o anticonvulsivante valproato de

sódio (Depakote), que recebeu uma patente para uso no tratamento da mania exatamente na época em que as patentes anteriores dos antidepressivos estavam expirando. Assim como a depressão tinha sido ativamente promovida no mercado como um transtorno por parte daqueles que ofereciam uma cura química para ela, agora o transtorno bipolar foi embrulhado e vendido junto com seu remédio. O lítio havia funcionado para alguns indivíduos, e não para outros, mas, sendo um elemento que ocorre na natureza, não podia ser patenteado. O valproato foi inicialmente proclamado como o medicamento mais inteligente e confiável, aquele que finalmente estabilizaria os altos e baixos do sujeito bipolar. A ele juntou-se rapidamente uma nova geração de drogas antipsicóticas, como a olanzapina, então licenciada para uso no transtorno bipolar.

Muitas pessoas acharam o valproato útil, assim como muitas

acham que devem sua vida à dose certa de lítio, mas o problema aqui é que a nova cartografia da doença mental cobrou um preço alto. Quanto mais aumentaram os diagnósticos de bipolaridade, mais a antiga categoria da doença maníaco-depressiva se perdeu, ou, na melhor das hipóteses, tornou-se confusa. Um diagnóstico antes específico foi transformado num espectro cada vez mais vago de transtornos, e houve ainda um erro crucial aqui, que a psiquiatria dos primórdios, anterior ao século XX, havia assinalado na própria criação dos termos que depois viriam a ser equiparados ao rótulo “bipolar”.

Na década de 1840, os psiquiatras franceses Jean-Pierre Falret

e Jules Baillarger haviam introduzido os termos “loucura circular” e

“loucura de forma dupla”.3 Os livros-padrão de história costumam afirmar que esses conceitos transformaram-se então na “insanidade maníaco-depressiva”, assim conceitualizada por Emil Kraepelin e depois apropriada pela psiquiatria ocidental como “transtorno bipolar”. Na verdade, porém, os argumentos fundamentais formulados por Falret e Baillarger foram exatamente o inverso dos de Kraepelin, bem como, a rigor, dos de psiquiatras posteriores. Suas categorias diagnósticas pretenderam mostrar que os altos e baixos não eram, em si mesmos, constitutivos da nova entidade que eles estavam tentando descrever. Seu trabalho criterioso almejava separar um tipo específico de “loucura” daquilo que parecia ser mania e depressão em outros transtornos.

Isso reflete com muita exatidão o que encontramos clinicamente.

Sob as condições certas – ou erradas – qualquer pessoa pode tornar-se barulhenta, agitada, irrequieta, hiperativa e até perigosa. Se um paranoico, por exemplo, acha que tem uma mensagem importante para transmitir à humanidade e é bloqueado em suas tentativas de divulgá-la, pode ficar desesperado. Inibir ou impedir o esforço de transmitir uma verdade de gravidade global ou nacional pode produzir uma agitação que frequentemente é confundida com mania. Pense, por exemplo, nos efeitos de ser continuamente deixado em espera nas ligações para uma central telefônica e, em seguida, ser sistematicamente mal interpretado por seus atendentes. A mescla de raiva e aparente incoerência que isso produz é um dos sentidos clássicos do termo “mania”.

Do mesmo modo, uma pessoa esquizofrênica pode ficar

exultante e, em seguida, vivenciar um estado terrível de abatimento e desespero. Pode tornar-se barulhenta e falastrona, passando de um assunto para outro com visível descontrole. O sono e a alimentação podem ser progressivamente negligenciados, e talvez ela tenha a ideia de que é capaz de influenciar outras pessoas com o pensamento, por exemplo. Hoje, esses fenômenos são rotineiramente encontráveis nas descrições do transtorno bipolar, sendo desprezadas ou esquecidas as distinções e diferenciações feitas pelos psiquiatras anteriores.

Jean-Étienne Esquirol, predecessor de Falret e Baillarger, tinha

feito todo o possível para tirar do termo “mania” o que via como seu significado frouxo e informal, e ao longo do século XIX a palavra se distinguiu dos estados de euforia, excitação e confusão mental agitada. Na verdade, observou-se que o abandono progressivo do cerceamento físico nos manicômios coincidiu com a diminuição do uso desse termo. Quanto menos o paciente era efetivamente impedido de se mexer, menos era descrito como “maníaco”, o que sugeria que o termo, com muita frequência, tinha um sentido reativo: o sujeito tornava-se maníaco precisamente por ser obstruído ou contido de algum modo.

O mesmo se aplicava à depressão. Como sabiam Falret e

Baillarger, qualquer um podia ficar abatido e mal-humorado. Aliás, não era isso uma das próprias consequências de ter sua atividade “maníaca” cerceada durante muito tempo? No entanto, os abatimentos da nova entidade clínica que eles estavam descrevendo eram diferentes. Havia menos insistência num tema ou queixa únicos, menos fixação num objeto singular – como a perda de um ente querido – do que na melancolia. Este último termo refere-se não a um estado de tristeza ensimesmada, porém a uma forma específica de psicose em que a pessoa fica presa num ataque implacável de autorrecriminação e autopunição, que ela frequentemente alardeia para os que a cercam.

O que os psiquiatras da Europa continental mostraram foi que os

altos e baixos do humor não constituíam, por si sós, a estrutura maníaco-depressiva que eles estavam procurando circunscrever. Tratava-se menos de euforia e abatimento que da qualidade desses estados, da relação entre eles e, o que é mais importante, dos processos de pensamento subjacentes. Houve um esforço para ir além dos caprichos das oscilações de humor e do comportamento superficial, a fim de descobrir as motivações latentes da doença maníaco-depressiva e investigar a diferença que poderia haver entre elas, a melancolia e outras categorias diagnósticas.

Infelizmente, esses esforços de classificação foram solapados

por Kraepelin, que afirmou que a mania e a melancolia, vistas juntas ou individualmente, eram ambas parte da mesma “doença”. Os altos e baixos que tinham sido desenredados com tanto cuidado pelos psiquiatras franceses foram amontoados na categoria nova e exageradamente inclusiva que Kraepelin foi o primeiro a promover, e que até hoje ainda é largamente promulgada pelos textos-padrão da corrente dominante da psiquiatria ocidental como “transtorno bipolar”. No entanto, se quisermos ter esperança de diferenciar a verdadeira doença maníaco-depressiva das muitas formas de transtorno bipolar que inundam o mercado dos diagnósticos, precisaremos voltar ao projeto original de distinguir suas euforias e depressões daquelas encontradas em outros tipos de estrutura

psíquica.4

 

RECONHECER OS PROBLEMAS do diagnóstico do transtorno bipolar também esclarece o embaraço de multiplicar diagnósticos e medicamentos para uma mesma pessoa. Recentemente, um paciente me explicou que tomava lítio para a mania, olanzapina para a psicose, desmetilfenidato para o transtorno de atenção e sertralina para a depressão, como se seu próprio ser tivesse sido dividido na mesa de um anatomista. A antiga psiquiatria ridicularizaria tal dissecação, reconhecendo que existe uma doença chamada psicose maníaco-depressiva, a qual inclui a mania e, com frequência, as depressões, e que não se pode dividir a pessoa dessa maneira e receitar um medicamento para cada sintoma, como se eles fossem desvinculados uns dos outros.

Mas essa atomização, hoje em dia, com seu regime fragmentado

de prescrições, constitui mais a regra do que a exceção. Em seu livro de memórias, Electroboy, o negociante de obras de arte Andy Behrman detalhou as 32 pílulas e cápsulas que tomava todos os dias, aos 34 anos de idade: Risperdal, um antipsicótico; Depakote, estabilizador das variações de humor; Neurontin, anticonvulsivante; Klonopin, para a ansiedade; BuSpar, também para a ansiedade; Ambien, para facilitar o sono; e mais três medicamentos para neutralizar os efeitos colaterais dos outros: Symmetrel, para a síndrome de Parkinson; Propanolol, para os tremores; e Benadryl, para a rigidez muscular. Tudo isso era resultado de anos de “tentativa e erro”, como se o importante fossem as partes da

pessoa, e não o todo.5

Corpo e psique são hoje vistos como agregados, com a

intervenção psiquiátrica visando atingir sintomas isolados e promover um treinamento do estilo de vida, para acrescentar ou retirar do eu aspectos desejados ou indesejados. A escritora norte-americana Lizzie Simon, que recebeu um diagnóstico de transtorno bipolar na adolescência, viria mais tarde a percorrer o país para conversar com outras pessoas que haviam passado por experiências similares. Quando um de seus entrevistados lhe diz “Sou simplesmente bipolar, não há mais nada acontecendo comigo”, o faz nesse contexto de uma estrutura médica e cultural que divide incessantemente, que sempre busca mais sintomas para segregar e extirpar, sem reconhecer a ligação entre eles.

Isso significa que os profissionais de saúde preocupam-se quase

exclusivamente com a dosagem precisa dos remédios, buscando o exato equilíbrio medicamentoso que possa funcionar para o paciente e alcançar o melhor equilíbrio emocional. É possível que os efeitos dos medicamentos, seus efeitos colaterais e suas compatibilidades sejam discutidos com minúcia. Talvez os pacientes se sintam envolvidos e cuidados nessas interações, mas há algo que está na cara e ninguém quer ver: a conversa inteira gira em torno do que os remédios os fazem sentir, e não do que sentiam originalmente, antes de ingerirem as drogas.

Depois que se entra no mercado farmacêutico, não raro há

pouca esperança de retorno, pois as prioridades do tratamento concentram-se na busca do coquetel que funcione melhor. No entanto, as pessoas diagnosticadas com transtorno bipolar têm a taxa mais alta de não observância das recomendações médicas dentre os grupos de pacientes, fato este que gera uma retórica interminável, dirigida aos pacientes por médicos e grupos de apoio, sobre a importância de tomar a medicação. Por que essa desobediência? Será que se deve aos desagradáveis efeitos colaterais dos remédios?

É verdade que o lítio e outros medicamentos estão longe de ser

a solução mágica: a pessoa pode se sentir desligada de si mesma, apática ou estranhamente ausente. Pode haver aumento de peso e toda sorte de outros problemas, que mais alguns remédios procurarão regular. Por outro lado, há pessoas que têm poucos desses efeitos colaterais e não protestam contra esses regimes. Mas ocorre que as informações sobre os efeitos colaterais de certas drogas, ou sobre a inexistência de efeitos, aliás, são notoriamente duvidosas. É sabido que as pessoas mais pobres são menos propensas a reclamar de efeitos colaterais do que as mais ricas, e que os médicos só informam as agências reguladoras sobre efeitos adversos em um em cada cem casos. Como observou David Healy, isso faz com que, hoje em dia, rastrear uma encomenda enviada pelo correio seja mais preciso do que monitorar os efeitos de uma medicação que talvez tenhamos de tomar diariamente, pelo resto da

vida.6

Há também a possibilidade de que a não observância da

orientação médica se deva à atração de estar nos estágios iniciais da mania e à negação de seus efeitos devastadores. O episódio maníaco pode dar à pessoa a sensação de estar autenticamente viva e conectada com o mundo, de haver descoberto sua verdadeira identidade pela primeira vez. Abrir mão disso pode ser difícil e, nos intervalos entre os episódios maníacos, ou entre eles e os episódios depressivos, também pode haver esquecimento da agonia trazida pela excitação maníaca ou da dor dilacerante da fase depressiva.

Essas são questões que não se deve ignorar, pois nos obrigam a

pensar na relação da pessoa com os fenômenos da depressão maníaca, e não, simplesmente, em quanto os medicamentos são bons ou maus. Em vez de perguntar se um medicamento modera a aceleração das ideias ou a agitação desesperadora, devemos indagar quais são essas ideias, na verdade, e como vieram a dominar o sujeito. Quando alguém gasta uma fortuna num desvario de compras, devemos perguntar o que comprou e por quê. Se o indivíduo diz que tem um plano infalível para uma nova empresa global, devemos perguntar qual é ela e como a ideia lhe ocorreu. Esse trabalho demorado e detalhado é a única maneira de sabermos mais sobre a doença maníaco-depressiva. Enquanto as drogas visam controlar e administrar o comportamento, a abordagem analítica almeja compreendê-lo e, esperamos, usar essa compreensão para encontrar novas maneiras de ajudar a pessoa situada numa fronteira estreita de experiências, que podem ser, ao mesmo tempo, apavorantes e empolgantes, cheias de afirmação de vida e totalmente letais.

 

COMECEMOS PELA MANIA. Se dissociarmos o termo dos estados de inquietação, desespero e turbulência que, no passado, tantas vezes ele foi usado para descrever, o que descobriremos? Para Andy Behrman, que documentou com riqueza de detalhes as espirais da depressão maníaca, sua mente “fervilha de ideias e necessidades que mudam rapidamente; minha cabeça fica abarrotada de cores brilhantes, imagens fantásticas, ideias bizarras, detalhes nítidos, códigos secretos, símbolos e línguas estrangeiras. Quero devorar tudo: festas, gente, revistas, livros, música, arte, cinema e televisão”.

Para Behrman, estar num episódio maníaco “é como ter os

óculos de grau mais perfeitos para ver o mundo. Tudo tem contornos precisos … meus sentidos ficam tão aguçados, eu me sinto tão desperto e alerta, que meus cílios roçando o travesseiro soam como uma trovoada”. Para Terri Cheney, a advogada maníaco-depressiva de Beverly Hills que abandonou um emprego de excelente remuneração para se dedicar à defesa da saúde mental, a mania “acende todas as terminações nervosas. A mais ínfima sensação parece uma erupção vulcânica.” A pessoa se pergunta se algum dia já ouviu, tocou ou enxergou, tão diferente é sua nova percepção do mundo. É como se ela houvesse renascido, como se esse fosse o seu primeiríssimo dia de vida.

Para Stephen Fry, que escreveu sobre “a liberdade, a

expansividade, a energia e o otimismo” da mania, “somos os reis do mundo, não há nada fora do nosso alcance, a sociedade é lenta demais para nossa mente acelerada, tudo está ligado numa rede de cor, criatividade e sentido gloriosos”. Uma nova confiança sustenta o sujeito maníaco. “Você realmente consegue correr mais depressa”, disse um maníaco-depressivo. “Que espécie de doença faz algo assim? Isso mostra o que há dentro de nós, aquilo de que somos capazes. Todos temos os sentidos muito embotados. O que quer que seja uma pessoa maníaca, ela está viva.” E essa vitalidade absoluta turbina a fala. Falar torna-se fácil, as palavras saem com uma nova fluência, já não há silêncio. Como diz Terri Cheney, “eu queria falar, precisava falar, as palavras exerciam tamanha pressão no céu da boca que era como se eu tivesse de cuspir para

respirar”.7

Abundam ideias e projetos, nada parece impossível, e o sujeito

maníaco pode embarcar num sem-número de esquemas criativos ou empresariais, gastando grandes somas que, não raro, pegam emprestadas com familiares, amigos ou bancos. O futuro parece muito promissor, cheio de certezas de sucesso, riqueza e realização. Nesse caso, a empolgação é volitiva, imbuída do sentimento inflamado de ter um objetivo.

As barreiras usuais que impedem a pessoa de correr riscos

desaparecem. Nenhum adversário ou obstáculo parece invencível ou insuperável. Tudo corre tão bem que, em alguns casos, um novo estilo de vida pode se cristalizar, quase da noite para o dia, com frequência para consternação e perplexidade de familiares e amigos. De uma quitinete modesta, o sujeito maníaco pode se mudar para um apartamento suntuoso no West End, região nobre de Londres, vestindo-se e fazendo refeições como um milionário. As contas são pagas em dinheiro, com enormes gorjetas deixadas em cafés e restaurantes, e a pessoa entabula conversas quase em qualquer lugar, como se todos fossem grandes amigos ou amantes em potencial.

Os encontros e as propostas sexuais podem se multiplicar, mas,

em geral, sem grande desejo de que perdurem. À medida que abundam essas mudanças em relação à vida pré-maníaca, as outras pessoas podem se tornar presentes demais: surgem atritos com parceiros sexuais, com companheiros de trabalho ou bancos que querem seu dinheiro de volta, com amigos que ficam fartos do que parece ser uma conduta narcísica e autoindulgente, e com interlocutores que se cansam de funcionar como caixas de ressonância para esquemas e projetos grandiosos. A euforia maníaca adquire um toque de angústia. Pequenos empecilhos são amplificados, desencadeando iras e explosões violentas. Aumentam as ideias paranoides. E, nesse ponto, as coisas mostram ter ido longe demais.

Como explicou um dos entrevistados de Lizzie Simon: “Eu tinha

a sensação de estar num trem de carga. Não conseguia guiá-lo.

Não conseguia fazê-lo parar.”8 É uma imagem apavorante. O escritor escocês Brian Adams resumiu essa curva da mania em seu brutal livro de memórias, The Pits and the Pendulum [“Os fossos e o pêndulo”]. Após uma noite de farra e cantorias no pub local, ele voltou para casa e fez um chá, sentindo-se alegre, ainda cantando, mas, “de repente, comecei a aplaudir com movimentos largos, batendo as palmas das mãos com toda a força que tinha: devagar, com violência, de maneira incontrolável”. Logo ele estava cortando os braços e o rosto com um estilete. A euforia temporária havia escalado para algo de um horror indizível. Como disse um de meus pacientes, a mania parece um foguete que dispara roncando no espaço, esplêndido, irrefreável, e depois se desintegra em erupções de fogo, fumaça e detritos, como a explosão daquele malfadado ônibus espacial, que ele vira pela televisão quando criança.

PARA EXPLORAR a experiência da mania, precisamos escutar com cuidado esses relatos, evitando as equações vagas da conduta ruidosa ou eufórica com a mania como tal. Vários temas parecem constantes aqui: a sensação do vínculo com outras pessoas e com o mundo; o dispêndio de dinheiro, que em geral a pessoa não tem; o grande apetite, seja de comida, sexo ou palavras; a reinvenção de si mesmo, a criação de uma nova persona, como se o sujeito fosse outro; a fluência verbal e o súbito pendor para os chistes e trocadilhos; o movimento em direção às ideias paranoides, aparentemente ausente no começo da curva maníaca.

Talvez o mais marcante nisso seja a ideia de uma interligação

das coisas. As cores, imagens, símbolos e códigos evocados por Behrman importam menos pelo que são do que por estarem interligados. Na mania, tudo parece deliberadamente ligado, de alguma forma, como se um imenso jogo de unir os pontinhos se completasse de repente, revelando uma figura que ninguém havia notado até então. Como descreveu Calvin Dunn, ativista norte-americano da luta pela saúde mental, em sua autobiografia Losing My Mind [“Perdendo a razão”], “era como se tudo significasse alguma coisa, cada som que eu ouvia e tudo o que via, e era como

se tudo fizesse sentido e se interligasse de algum modo”.9

Certa vez, contemplando um córrego nos jardins da

Universidade da Califórnia, em Los Angeles, a pesquisadora em psiquiatria e escritora Kay Redfield Jamison lembrou-se de uma cena da poesia de Tennyson. Dominada por “um senso imediato e inflamado de urgência”, correu a uma livraria à procura de um exemplar e, em pouco tempo, viu-se com mais de vinte livros nos braços. A imagem inicial da Dama do Lago abriu-se numa espiral, ligando-se a outros temas e títulos, desde A morte de Arthur, de Malory, até O ramo dourado, de Frazer, e a livros de Jung e Robert Graves. Tudo parecia relacionado e, reunido, conteria “uma chave essencial” do universo, enquanto ela “ia tecendo sem parar” a sua rede maníaca de associações.

A pessoa maníaca sente-se parte disso, maravilhosamente

ligada ao mundo, em vez de ser sua escrava ou sua serva. A exultação trazida pelo sentimento de vinculação precisa ser comunicada, detalhe este que serve para distinguir a verdadeira mania de estados de euforia em outros casos. O sujeito esquizofrênico pode desfrutar em silêncio de um estado de beatitude, sozinho em seu quarto, mas o maníaco-depressivo não apenas o vivencia como sente necessidade de compartilhá-lo com o mundo. Do mesmo modo, qualquer um pode entrar num estado de exuberância ou até de hiperatividade, sobretudo após uma experiência de perda, mas, embora isso possa ser diagnosticado como mania, ou como seu primo mais brando, a hipomania, a chave é se a pessoa tem ou não a sensação de que as coisas estão interligadas. Será que ela apenas adora o som do canto dos pássaros, ou será que, além de adorá-lo, acha que está ligado ao carro que acabou de passar ou ao artigo que ela leu de manhã no jornal?

Como se poderia explicar o poderoso sentimento de interligação

das coisas que é descrito com tanta precisão e coerência pelos sujeitos maníacos? Qual é, afinal, o meio de vinculação no nosso mundo? A resposta a essa pergunta talvez seja decepcionante em sua simplicidade: é a linguagem. São as palavras, as ideias e as associações entre elas que criam e moldam nossas realidades, e dependemos tanto das ligações quanto da inibição das ligações entre elas para conseguir pensar. Isso adquire o máximo de clareza quando as ligações entre as ideias surgem numa velocidade tal que o sujeito nem sequer pode reduzir seu ritmo ou detê-las. No que a psiquiatria chamava de “fuga de ideias”, um pensamento leva a outro, com persistência brutal e irreprimível.

Pense na brincadeira da Internet que permite constatar que

qualquer ator tem algum tipo de ligação com Kevin Bacon, o astro

de Footloose.a Todas as figuras da indústria cinematográfica revelam ter alguma ligação com ele, seja por uma associação direta, como ter trabalhado num de seus filmes, seja por meio de relações com alguém que tenha entrado em contato com ele. O sucesso espetacular desse jogo levou-o a se tornar parte do Google, e existe até um jogo de tabuleiro dedicado a essa busca curiosa. Uma propaganda de uma operadora de celular, por sua vez, adaptou o jogo para mostrar que o universo inteiro pode ser ligado a Bacon, por meio de associações verbais. Mas imagine se essa busca associativa não fosse exatamente uma distração ou um divertimento, e sim algo constante na vida da pessoa, algo que ela não conseguisse desligar. Como mostram o aplicativo do Google e os anúncios de celulares, a rede sociolinguística da linguagem e da cultura sempre fornecerá ligações. Não há trégua.

A vida, poderíamos dizer, depende de não indagarmos com

demasiada frequência de que modo estamos ligados a Kevin Bacon. Se fôssemos obrigados a seguir todas as associações, seríamos inevitavelmente esmagados pela vasta rede de ligações que existe ao nosso redor. Na mania, entretanto, a rede domina. Os psiquiatras oitocentistas observaram que a fala do sujeito maníaco parecia passar de uma palavra para outra sem grande consideração para com o conteúdo, como se as pontes entre as ideias viessem da própria linguagem, e não da deliberação consciente. “Que gravata bonita”, diz um paciente. “Eu queria me relacionar com alguém que fosse puro e tivesse olhos bonitos. Gosto de olhos bonitos. Gosto de mentiras.” A fala passa da gravata [tie] para “relacionar” [tie], para o “olho” [eye] e, em seguida, para a “mentira” [lie]. “Ter filhos é muito bom quando a pessoa não tem dores de parto. Há vidraças demais na janela.” Embora possa parecer que janelas e parto têm poucas coisas em comum, a “dor” [pain] do parto passa imediatamente para

a vidraça [pane] da janela.b10

Em contraste com esses exemplos de fala maníaca, a pessoa,

na fase depressiva, tem pouca coisa a dizer, e repete palavras com a mesma significação básica: ela é inútil, espiritualmente vazia, culpada de algum pecado terrível e inerradicável. Assim, parece haver um contraste entre a maneira como, nos estados maníacos, a pessoa fica à mercê de ligações acústicas e formais entre as palavras e o fato de ser o sentido ou a significação que as rege nos estados depressivos. Os primeiros pesquisadores observaram que, no estado de depressão, a ressonância entre as palavras – o movimento de “olho” [eye] para “mentira” [lie] e de “dor” [pain] para “vidraça” [pane] – quase nunca se evidenciava, como se a linguagem houvesse perdido sua vibração acústica.

Que estranho os dois eixos da linguagem – as palavras e os

sentidos – emergirem, na doença maníaco-depressiva, em forças alternadas, como se cada um tivesse que esperar sua vez para se apossar do sujeito! Na mania, é como se as palavras se desvinculassem de seus sentidos, para que as ligações acústicas pudessem ser seguidas, ao passo que, nas fases depressivas, as palavras seriam poucas e carregadas de um único sentido monolítico. “Sou um babaca”, “sou um babaca”, “sou um babaca”, como repetia sem parar um paciente meu para si mesmo, nas fases abatidas de sua depressão maníaca.

Clinicamente, as coisas são um pouco mais complicadas do que

sugeriria esse contraste. Os sujeitos maníacos não fazem apenas seguir livremente as palavras, visto que tendem a terminar nas mesmas ideias, palavras ou significações, como se fossem reconduzidos aos mesmos pontos num mapa. A gama de ideias, na verdade, pode ser bem restrita, e já houve até quem sugerisse não falar em “fuga de ideias”, mas em “fuga de palavras”, já que era a fala que parecia prosseguir de forma interminável, circunscrevendo um conjunto relativamente pequeno de interesses. Pesquisadores dos primórdios, como Falret, Hugo Liepmann e Ludwig Binswanger, mostraram que essa fuga de palavras seguia uma lógica oculta, que escapava ao observador displicente. A mania nunca era um fluxo de palavras puramente aleatórias, mas tinha coerência e estrutura reais, só que de um tipo que não costumava ser óbvio, a menos que se escutasse com muita atenção.

Para citar um exemplo, quando Norma Farnes visitou pela

primeira vez o comediante maníaco-depressivo Spike Milligan, para se candidatar ao emprego de sua assistente pessoal, notou que a sala estava gelada. “É”, retrucou ele, “eu detesto os americanos.” A resposta, aparentemente sem sentido, poderia ser tomada como um sinal de desatenção maníaca, como a impossibilidade de manter um diálogo ou de levar um pensamento até o fim. Na verdade, porém, como Farnes viria a saber, foi uma resposta absolutamente coerente. A candidata fizera um comentário sobre a temperatura da sala, e Milligan achava que os norte-americanos tinham inventado o aquecimento central. A cadeia implícita, portanto, era: está gelado – o aquecimento central não é suficiente – os americanos inventaram o aquecimento central – detesto os americanos. Farnes não questionou o silogismo dele, talvez prudentemente, dizendo-lhe que os romanos, e não os norte-americanos, é que tinham sido, em

última instância, os responsáveis pela invenção do aquecimento.11 SE O DISCURSO maníaco não é tão aleatório quanto pode parecer, o que caracteriza sua aparente digressão? Pensemos em quando começam os estados maníacos. Às vezes se diz que a mania é simplesmente desencadeada sem aviso prévio, como se surgisse inteiramente do nada; no entanto, muitas vezes a pessoa maníaca ou aquelas que a cercam intuem de antemão que há alguma coisa mudando, talvez anunciada pela falta de sono ou pela ansiedade. Quando começa a fuga de ideias, é muito frequente constatarmos que ela se inicia quando a pessoa se acha numa situação de diálogo, com colegas, numa reunião, numa conferência, num bar com amigos. É comum haver um toque de agressão ou antagonismo, como se um membro do grupo fosse hostil à pessoa. Mas aí acontece um fenômeno surpreendente.

Nas situações sociais, a maioria das pessoas acha que não diz a

coisa certa; que, por alguma razão, as palavras lhe escapam. Só mais tarde consegue imaginar o que poderia ou deveria ter dito, no famoso “esprit d’escalier” – só depois de terminar de descer a escada é que ela se dá conta. Mas o sujeito maníaco tem uma experiência diferente. Possui as palavras com que falar. A atriz Patty Duke referiu-se a seu “incrível domínio da linguagem” quando se encontra na fase maníaca. Como disse a acadêmica Lisa Hermsen sobre sua experiência pessoal com a mania, “eu encontrava as palavras e digitava as letras” – um sentimento repetidas vezes ecoado por sujeitos maníacos. No dizer de um de meus pacientes: “As palavras certas estavam bem ali, eu não precisava mais pensar.” E Cheney: “As palavras certas simplesmente dançavam no ar, acima da minha cabeça, e eu só tinha que puxá-las para baixo e

deixar que fluíssem pela minha caneta.”12

De repente, a pessoa maníaca fica apta a falar – uma situação

em geral negada a quase todos os outros indivíduos. Ela encontra na linguagem uma posição a partir da qual falar, e logo se seguem piadas, trocadilhos e réplicas que parecem fluir sem o menor esforço. Poderíamos até explicar a famosa euforia do maníaco exatamente como um efeito disso: o estado de ânimo se eleva por ele poder falar, e não o inverso. Não é o estado de humor que lhe permite falar, e sim a fala que libera o estado de humor. A mania, portanto, envolve um paradoxo evidente. A linguagem tem certa autonomia, com ligações ramificadas de uma palavra para outra, desdobrando-se diante do sujeito maníaco. Ao mesmo tempo, contudo, embora ele pareça escravo dessas ideias que fluem em disparada, possui um lugar na linguagem de onde pode articulá-las.

Talvez isso seja menos contraditório do que parece, à primeira

vista. Para começar, vamos observar a deriva, que tem início com o sujeito maníaco detendo uma posição e termina com ele sendo arrasado. Afinal, a mania envolve uma curva, um arco, e nunca é uma experiência homogênea. Além disso, poderíamos indagar o que é, na verdade, que confere à pessoa um lugar na fala. Se examinarmos as diferentes formas de fugas de ideias, não notaremos que todas têm uma coisa em comum? Por acaso todas não envolvem o reconhecimento do receptor, daquele a quem se dirige a palavra? Mesmo que o sujeito maníaco passe de um assunto para outro, com visível desconsideração pelo tema ou conteúdo, ele continua a falar com alguém. Quando Behrman caracteriza a mania pela formulação “O que você quer que eu faça agora?”, a chave está no “você”. Há uma sede insaciável de um receptor. Os sujeitos maníacos, ao contrário de outros, não falam sozinhos.

A pressão, nesse caso, não é simplesmente falar, mas falar com

alguém. Em algumas ocasiões, de fato, estudos sobre a doença maníaco-depressiva identificaram o impulso de buscar a relação com os outros como um sintoma central, e, como vimos, é revelador observar que esse, é claro, é também um dos imperativos sociais mais dominantes da nossa época. O isolamento e a interioridade são desestimulados, e somos instados a entrar em redes, manter contatos, estabelecer ligações. Há aí uma coesão entre o que a muitos pareceu ser o núcleo da bipolaridade e a essência da subjetividade moderna. O que um dia foi visto como sinal de doença é hoje identificado com uma norma positiva.

No entanto, na mania real é comum o impulso de estabelecer

ligações ir muito além das convenções da comunicação. Nos livros de memórias de sujeitos maníaco-depressivos, é notável a frequência com que há uma fala súbita e sugestiva que se dirige ao leitor, como se a narrativa pudesse e devesse ser interrompida por um apelo direto ao destinatário. É como aquele momento do filme Violência gratuita, de Michael Haneke, em que um dos homens que aterrorizaram uma família inocente vira-se de repente e se dirige diretamente à câmera. Tais recursos podem ser entendidos como um desdém pós-moderno pelas convenções narrativas, mas será que também não podemos ver neles um eco da necessidade que têm alguns sujeitos têm de apelar para seu público, de confirmar uma cumplicidade ou uma ligação? Quando a atriz Vivien Leigh, presa num agudo episódio maníaco, virou-se para falar diretamente com a plateia do teatro no meio da peça Tovarich, vemos a mesma necessidade de um receptor, a necessidade de criar e afirmar uma ligação com ele.

Como escreveu Patty Duke, nesses momentos “a capacidade de

sentir o que os outros sentem é quase mística. É uma comunhão mental, espiritual e física, ou até química, com as pessoas. Tenho a sensação de haver mandado alguma coisa para a plateia e sinto essa onda voltar para mim. É realmente uma energia. É uma coisa de verdade. Se você tivesse câmeras especiais, provavelmente poderia tirar uma foto dela. … É emocionante quando mando isso e eles o recebem. E compartilhamos esse instante infinitesimal de união.” Isso não provém da interação com outros atores de um filme ou de uma peça, mas do momento de impacto com a própria plateia, do momento em que é possível criar um efeito em outra pessoa, um momento não roteirizado nem programado de antemão.

Será que isso também não lança luz sobre a curiosa

promiscuidade de muitos sujeitos maníacos? Como assinalou Terri Cheney, “o sexo maníaco não é realmente uma relação sexual. É discurso, é apenas outra maneira de desafogar a necessidade insaciável de contato e comunicação. Em lugar de palavras, eu falava com a pele”. O sexo mantém o receptor ali, bem perto: o maníaco passa de um parceiro para outro como passaria de um interlocutor para outro. Cheney observou de maneira brilhante que a famosa hiperatividade da mania – o sacudir-se, o tamborilar ou bater os pés, o remexer-se – é, simplesmente, um conjunto de formas da

pressão para falar, para continuar falando.13

A necessidade da presença do receptor talvez pareça paradoxal,

já que as ideias e opiniões dele tendem a ser ignoradas ou encobertas pela fala do sujeito. Mas essa visível impaciência já é uma pista, por si só. Os estudiosos da fala maníaca sempre se impressionaram com a atração dos chamados “estímulos adventícios”, a referência súbita a detalhes aleatórios de algum aspecto do ambiente. Os detalhes de um projeto empresarial descambam para um comentário sobre o broche da ouvinte ou sobre a cor de uma cadeira próxima. Esses saltos semânticos têm sido interpretados de várias maneiras – desarticulação das vias associativas, ausência de uma ideia norteadora, dispersividade inata –, mas será que sua característica mais óbvia não é o fato de eles manterem o discurso em andamento e, desse modo, privarem o ouvinte da chance de responder?

A concentração exclusiva nos vínculos entre as palavras do

maníaco significa negligenciar essa dimensão crucial do efeito que elas têm no receptor. Os saltos envolvem uma excisão dos pontos de suspensão da fala, que são exatamente os momentos que dão à outra pessoa o espaço para responder. Mas o discurso maníaco paralisa o ouvinte, e o momento de responder ou o silêncio que precederia uma resposta não acontecem. Falar mantém a outra pessoa presente, mas dessa maneira muito específica, que tem o efeito de desarmá-la. As palavras exercem sua magia – por um tempo –, imobilizando o receptor e impedindo-o de qualquer resposta real, do tipo que possa trazer o risco de ele largar ou censurar o sujeito maníaco. Não admira que o ouvinte, além de ficar exausto, sinta-se frequentemente manipulado ou controlado.

É exatamente isso que distingue a depressão maníaca de outras

formas de psicose em que a pessoa pode construir um receptor virtual, distante ou interno. Tem que haver um ouvinte real bem ali, diante dela. No entanto, há algo de tênue, até desesperado, na maneira de o maníaco reter seu interlocutor, como se tivesse de conservá-lo ali a qualquer preço, como um humorista de boate que tem de manter a plateia permanentemente concentrada nele. Será por acaso que a doença maníaco-depressiva é tão comum no mundo dos comediantes?

Como percebeu Freud, estudar a mania significa pensar em

como funcionam os chistes. A explosão de trocadilhos e ditos espirituosos, descrita com tanta frequência pelos sujeitos maníacos, mostra como se cria um laço com os outros através das palavras. Quando contamos uma piada ou usamos de espirituosidade, em geral isso ocorre em situações de constrangimento ou ameaça. Se o sujeito está sozinho e isolado com outra pessoa, que melhor instrumento teria para trazê-la para o seu lado ou para torná-la menos ameaçadora?

As piadas unem e estabelecem vínculos, criando uma ligação

entre duas pessoas, em geral à custa de um terceiro, que é o alvo da piada. Também envolvem a culpa. Quando nos sentimos culpados por alguma coisa, talvez uma ideia sexual ou violenta dentro de nós, disfarçá-la como um chiste permite a experiência temporária de alívio, como se pudéssemos redistribuir o peso que sentimos. Não será por isso que a reação inicial mais comum, ao ouvirmos uma anedota, é pensarmos prontamente em a quem a contaremos depois? E, para quem a conta, há um sentimento de alívio, de sucesso, por uma fração de segundo, talvez acompanhado pela sensação calorosa de ser amado. A piada envolve a ideia de sua transmissão, de a passarmos adiante, quer pessoalmente, quer

através de um e-mail ou um telefonema.14

É por isso que, se você observar a plateia do cinema durante a

projeção de uma comédia, verá que as pessoas olham não só para a tela, porém umas para as outras, ao passo que, quando é um drama, o olhar permanece fixo na tela. Os chistes sempre envolvem um terceiro, como se o nosso afeto do riso dependesse de mais alguém rir e sancioná-lo. Ao descrever seu primeiro episódio maníaco, um executivo de empresa explicou: “Eu achava extasiante poder fazer as pessoas rirem no escritório. Era capaz de fazer até as pessoas do metrô darem risada. As piadas e suas tiradas finais simplesmente continuavam a surgir, de forma natural, sem parar.”

Esse homem achava que tinha de fazer as pessoas rirem, como

se isso fosse “quase um dever”, e a mania talvez seja um modo de tentar manter viva e animada a própria plateia, de manter um destinatário ou receptor bem ali, à frente do sujeito. Quando isso depara com dificuldades, constatamos uma angústia terrível, e as ideias paranoides começam a se acumular. Surge um reconhecimento, que se torna claro por meio de atritos e conflitos, de que “não há mais ninguém pensando igual a você”, no dizer do executivo. O sentimento de vínculo desmorona, e em seu lugar aparece o abismo da depressão, como se fosse multiplicada por dez mil a sensação de fracasso e vergonha de quando contamos uma piada e ela não surte o efeito desejado.

 

RETER UMA PLATEIA evoca um aspecto muito específico da infância, descrito por muitos sujeitos maníaco-depressivos. A mãe, o pai ou outro cuidador primário é alguém que apresenta oscilações de humor, em geral não anunciadas e assustadoras para a criança, que se sente alternadamente largada e adorada, com uma incoerência feroz. Essa gangorra dramática pode ser uma experiência cotidiana ou ocorrer na época do nascimento de um irmão, por exemplo. Em alguns casos, a mãe só consegue continuar próxima do filho quando se mantém uma situação de dependência completa. No momento em que a criança começa a afirmar sua independência, o amor materno desmorona. A estrutura pendular de algumas formas de psicose maníaco-depressiva, portanto, fica literalmente inscrita na criança.

Tais rupturas significam que a experiência mais básica dessa

criança é a de ser alvo de um grande investimento e, em seguida, alijada dele, num padrão que, mais tarde, ela pode repetir em suas próprias alternâncias de humor, nas quais ora se sente no centro do mundo, ora insuportavelmente abandonada e solitária. Da mesma forma, numa época posterior da vida, o sujeito pode buscar relações de dependência absoluta, como um modo de garantir o amor. Outra pessoa torna-se onipotente para ele, fonte de tudo o que é fornecido, e o mais ínfimo descaso ou frustração agiganta-se num sentimento de rejeição absoluta.

No livro de memórias de infância de Terri Cheney, ela descreve

os altos e baixos de suas oscilações de humor e chama a aflição que sentia de sua “Besta Negra”. Ao lermos sobre as invasões e os recuos dessa “besta”, é difícil não a vermos como um barômetro quase exato do prazer ou desprazer do pai de Terri com ela. A Besta que era capaz de fazer seu estado de humor despencar ou voar alto parece ser a encarnação do interesse do pai pela filha, da paixão deste por ela e de seu desapontamento quando a menina não ficava

à altura de seus ideais de realização escolar.15

De modo semelhante, Kay Redfield Jamison descreve a

exuberância maníaca de seu pai, seu “entusiasmo contagioso” e a “magia contagiante” de sua expansividade – exatamente as qualidades de algumas fases maníacas da própria Kay. Quando estava eufórica, ela “voava alto”, e é difícil deixar de notar que seu pai, que tinha sido piloto, dizia-lhe com frequência que “nós podemos voar”. Kay “plana” e “voa” num episódio maníaco,

cantando “Faça-me voar para as luas” [sic]c enquanto atravessa os anéis de Saturno. Embora o pai dela fosse sobretudo um cientista, “a cabeça e a alma dele acabavam pairando no céu”.

A insistência numa base genética da depressão maníaca

frequentemente obscurece esta lógica simples: a depressão maníaca de um dos pais ou avós é usada para explicar a da criança, como se uma sequência genética tivesse sido transmitida, em vez de cristalizada pela experiência real das interações dessa criança com tal sujeito. Como disse Patty Duke, seus filhos “não sabiam o que esperar”. Mesmo quando as coisas corriam de forma agradável, “nunca se sabia quando acabariam os bons momentos”. Quando a pessoa é valorizada e depois abandonada, esse ritmo mortificante pode se tornar o parâmetro de sua própria realidade, a menos que outra coisa intervenha e ofereça um caminho alternativo.

É comum vermos isso em pessoas cujo sucesso mundano

parece totalmente garantido e incontestável aos olhos de outras. Atores e humoristas célebres, de Spencer Tracy a Spike Milligan, passavam noites acordados, à espera do telefonema ou da carta que anunciaria sua derrocada. O estúdio os dispensaria, o banco declararia que não tinham um centavo, o empresário se cansaria deles. Os elogios, o sucesso e a admiração, em última instância, inscreviam-se muito menos do que as críticas e os fracassos, como se o único objetivo de uma elevação do estado de humor fosse a baixa que se seguia.

Por essa perspectiva, a mania perpetua o sentimento outrora

frágil de vínculo, aquele sentimento que foi tão excruciantemente descontínuo para a criança. A época do sentimento de profunda ligação com a mãe ou o responsável transforma-se na experiência do mundo inteiro: agora, tudo se interliga, o amor está em toda parte, há boas vibrações e possibilidades para o futuro. Quando Behrman se apresentou pela primeira vez no tribunal, para responder à acusação de falsificação de obras de arte, achou que poderia estabelecer uma ligação com todos os jurados, um por um. “Senti-me com poder suficiente para convencer qualquer um de

qualquer coisa”, escreveu.16 O maníaco também pode se impor repetidamente a outras pessoas, visitando-as ou telefonando a ponto de esgotá-las, como se seu lugar na afeição dos outros estivesse garantido. Como assinalou Kraepelin, ele quer desempenhar um papel nas coisas.

Esse esforço de vinculação reflete a maneira pela qual o sujeito

maníaco teria sido arrebatado pela euforia efusiva de um dos pais e contém tanto uma sensação de poder quanto uma fragilidade terrível. Fragilidade não só porque era inevitável que a fase de alta acabasse e ele perdesse seu lugar de companheiro querido, mas também, e de modo igualmente profundo, porque o entusiasmo e a vitalidade de tais momentos constituem-se não como experiências compartilhadas, mas como medidas desesperadas a serem tomadas para evitar o abandono. Não ser arrebatado resultaria em exclusão e isolamento, como se uma emoção tênue e falsa fosse o único fio de ligação entre filho(a) e pai/mãe.

Uma criança nessa situação tem uma opção de “pegar ou

largar”, na qual “pegar” pode referir-se à fase eufórica de uma mãe maníaco-depressiva, ou, em muitos casos, à do pai, a cuja euforia o(a) filho(a) recorre como proteção contra o estado depressivo da mãe. Quando não participa, a criança é dolorosamente excluída, e, quando entra na dança, sabe que, segundo a imagem evocada por meu paciente, o foguete se desintegrará. A inclusão alegre sempre traz em si essa sensação de bases falsas, e é interessante que observadores criteriosos da mania, como os psiquiatras Wilhelm Griesinger e Henri Ey, tenham notado que os sujeitos maníacos pareciam estar desempenhando um papel, ou fingindo, como se, em última análise, seu comportamento não se baseasse numa certeza ou convicção delirante.

Continuar: parte 2 de 3