Simplesmente bipolar
Dedicatória
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Quando a criança entra no circuito, a ligação um dia sentida com
o cuidador – o “momento de união” de Duke – pode voltar sob a forma da mania. Behrman chegou a dizer que se sentia como que dotado de um poder mágico de atrair as pessoas, talvez porque o episódio maníaco reencenasse o vínculo que um dia ele teria desfrutado com a pessoa que cuidava dele, ainda que apenas momentaneamente. Para Fry, “eu adorava a emoção de saber que carregava centenas de pessoas comigo, que elas surfavam nas ondas da minha voz”. E quando os amigos, os colegas ou os novos conhecidos de uma pessoa maníaca refletem sobre como foi sua própria experiência, eles também evocam essa sensação de ser arrebatados, carregados pelo entusiasmo, pela vitalidade e pelo poder de persuasão do orador.
Talvez não seja à toa, nesse caso, que o investimento no futuro é
tão pronunciado, já que foi precisamente o futuro que se mostrou tão incerto, tão instável e precário para o filho do genitor maníaco-depressivo. Fry contrasta a mania, na qual “a gente faz planos para cem futuros”, com o “futuro sem futuro” da depressão. Quando Simon perguntou a uma de suas entrevistadas se, nos episódios de mania, ela já havia pensado que podia voar, ela respondeu: “Nunca
achei que poderia voar, mas nunca pensei que pudesse cair.”17
NATURALMENTE, ESSA CRENÇA nos poderes pessoais deve parecer atraente para quem duvida dos seus. Alguns programas de televisão, como o reality show “Dragon’s Den”, mostram regularmente que os investidores perdem o interesse nos candidatos a empresários que não demonstram autoconfiança. Mas onde fica a linha divisória entre a grandiloquência e o compromisso? Segundo a indagação da antropóloga Emily Martin, como é possível estabelecer com tanta facilidade uma distinção entre a pessoa aparentemente doente que diz “Eu posso mudar o mundo” e a pessoa aparentemente sã que diz “Posso construir uma empresa na Internet e fazer você enriquecer”?
Quando a revista Time exibiu em sua capa o editor Phil Graham,
as atividades empresariais deste pareceram elevar-se ao status de um ideal. Ali estava alguém perpetuamente atarefado, comprando jornais e revistas, ajudando a dirigir a Newsweek e o Washington Post, comprando seu próprio jato e adquirindo emissoras de televisão. Entretanto, como a mulher dele, Katharine Graham, descreveu em seu livro de memórias, essa energia aquisitiva era maníaca, e as fases eufóricas de seu marido tinham um contraponto em depressões terríveis, opressivas, que acabariam por levá-lo ao suicídio, alguns anos depois.
Jane Pauley, âncora do telejornalismo norte-americano,
documentou sua estranha transformação de consumidora modesta e criteriosa numa grande gastadora, que comprou uma casa de que não precisava e percorreu lojas e centros comerciais numa busca interminável de móveis e acessórios. Junto com isso vieram novas ideias e projetos, que ela apresentou animadamente a seu empresário. “Eu tinha energia, por um lado, e tinha ideias, muitas ideias. Um programa. Um livro. Uma revista” – e até sua própria linha de roupas. “Os sentimentos chegavam e partiam em disparada, à velocidade de um trem-bala, junto com as ideias,
seguidas por telefonemas que produziam planos de ação.”18
A mania, aqui, pode ser instigada pelo modo como a cultura
contemporânea molda a nossa autoimagem. As pessoas são incentivadas a se vender, a alardear suas realizações e a gerar mais e mais produtos ou derivados de sua identidade. Hoje em dia, uma celebridade pode ser efetivamente pressionada a lançar sua própria linha de roupas, seu programa de televisão ou seu perfume. Quando Pauley contou ao empresário que seus médicos diziam que ela estava tendo ideias demais, “ele compreendeu, mas me garantiu que, ainda assim, eram boas ideias”. Na verdade, poderíamos indagar quantos projetos criativos saem do papel, não apesar da mania de alguém, mas por causa dela.
Um maníaco-depressivo descreveu como finalmente se produziu
o seriado de televisão que ele havia concebido. “Esse tão esperado sucesso provocou meu primeiro episódio maníaco plenamente manifesto, embora na ocasião eu não soubesse o que era aquilo. E, quando algumas outras ideias minhas foram encomendadas, empenhei-me em convencer a alta direção da televisão britânica de que eu tinha o toque de Midas, sem me dar conta de que meu excesso de confiança era alimentado puramente pela mania, e não por uma capacidade real.” Mas será que a linha divisória é mesmo tão óbvia? Como prosseguiu ele: “O problema de ser maníaco é que, às vezes, a coisa pode funcionar, e, neste caso, o chefe de uma das maiores companhias da rede ITV [Independent Television] gostou da minha conversa e me deu um cargo de alto nível, com um enorme salário e verba para certas despesas.”
Embora a ocupação desse cargo tenha vindo a acabar mal,
quantas carreiras, podemos perguntar, recorrem a fases de euforia maníaca e as absorvem? Hoje em dia, receber um diagnóstico de transtorno bipolar significa, muitas vezes, receber uma folha de dados impressa, listando nomes de indivíduos que, segundo parece, realmente tiveram um toque de Midas: Alexandre o Grande, Einstein, Picasso, Mozart, Dickens, Greene, Lutero, Lincoln, Proust, Coleridge, Churchill, Balzac, Conrad, Shelley, Kipling e Newton, para citar apenas alguns. Brian Adams, acertadamente cético ante o que denomina “propaganda da doença maníaco-depressiva”, pergunta por que essas listas se concentram, invariavelmente, nos nomes dos que contribuíram para a cultura, e não nos dos que a prejudicaram, e indaga de onde vieram esses diagnósticos, dado que, no seu caso pessoal, foram necessários mais de vinte anos e meia dúzia de especialistas para que ele próprio fosse reconhecido
pela psiquiatria como maníaco-depressivo.19
Enfatizar a criatividade pública dos maníaco-depressivos é
também, claro, insensível e estigmatizante para com aqueles que não escrevem, não esculpem, não pintam nem conquistam reconhecimento mundial. Emily Martin relatou que, na reunião de 2000 da Associação Norte-americana de Psiquiatria, uma empresa farmacêutica efetivamente instalou no estande do Zyprexa um artista real, ao vivo, que trabalhou durante vários dias numa colagem que podia ser observada pelos participantes da conferência. Diante de sua enorme tela espalhavam-se tintas, colagens, tecidos e fibras, como que para mostrar não apenas que os sujeitos bipolares podem fazer coisas, mas também que os medicamentos não atrapalham. A criatividade se torna, num dos extremos, uma exibição circense, e no outro, uma propriedade localizável e comercializável da psique.
Depois de experimentar a decepção de praxe na agência local
do Centro de Serviços de Avaliação e Orientação no Emprego, Brian Adams indagou: “O que eu estava esperando: uma varinha de condão para me lançar numa nova guinada de vida, num emprego em que a minha doença maníaco-depressiva se enquadrasse perfeitamente?” Não há propaganda que chegue perto de ser útil nesse caso. “‘Bem, sr. Adams’”, escreveu ele, “‘depois de examinarmos o seu perfil psicológico, a sua experiência profissional, a sua experiência de vida, os seus interesses, aptidões, marcas de nascença e tamanho dos sapatos, as folhas de chá, a sua psicose e a sua aparência geral, cremos poder encaminhá-lo para treinamento como Alexandre o Grande.’”
A PROPAGANDA BEM-INTENCIONADA em torno da depressão maníaca descortina uma outra questão. Nos estados maníacos, as pessoas tendem a acreditar que são poderosas, capazes e dotadas de habilidades que a maioria dos indivíduos não possui. Aliás, uma das primeiras perguntas feitas a uma paciente minha, quando de sua hospitalização, foi: “Você acredita que um dia será uma artista famosa?” Considerando-se que a maioria dos artistas deve ter alimentado esse tipo de crença num ou noutro momento, podemos imaginar que uma pergunta mais apropriada seria: “Você é uma artista famosa?” – se bem que, no caso de minha paciente, isso teria causado ainda mais confusão, visto que ela era, de fato, uma artista famosa.
Listar grandes realizadores, de Alexandre a Picasso, espelha de
forma curiosa o problema clínico da presunção grandiloquente que se supõe requerer tratamento. E isso nos leva a um aspecto crucial da doença maníaco-depressiva. Embora alguns sujeitos psicóticos possam afirmar que são Cristo ou Napoleão, é comum se mostrarem perfeitamente satisfeitos na execução de trabalhos subalternos, como as tarefas da cozinha ou da lavanderia. É muito improvável que se apresentem num congresso eclesiástico ou num quartel militar. No entanto, na depressão maníaca, a pessoa pode realmente reservar uma suíte no Hotel Claridge ou tentar reservar uma mesa diariamente no restaurante The Ivy.
O que acontece aí, no nível da identidade? A resposta talvez
esteja na comparação entre as manias e as depressões. Nas fases deprimidas, a pessoa se vê como sem valor e sozinha, e, nas fases maníacas, como sumamente capaz e poderosa. Mas será que a chave não está no fato de ela ver a si mesma dessas maneiras, já que isso pressupõe um ponto de vista externo que foi internalizado? Sua autoimagem constituiu-se a partir desse ponto de vista, como se percebe quando Terri Cheney descreve os altos e baixos de seus estados de humor como regidos pelas visões mutáveis que o pai tem dela.
Muitos anos atrás, a psicanalista Frieda Fromm-Reichmann e
seus colaboradores afirmaram que a constelação da depressão maníaca envolve, com frequência, a aspiração a uma posição social mais elevada, que a criança foi designada para conquistar para sua família. Oriunda de grupos minoritários, por força de sua situação religiosa, econômica ou étnica, a criança recebe a tarefa de conquistar prestígio num mundo adverso. “Nesse contexto”, escreveram os autores, “o maníaco-depressivo arca muito precocemente com o ônus das expectativas familiares de que se saia melhor do que os pais, a serviço do prestígio da família e do clã.”
A criança é coagida a se ajustar a padrões de comportamento
impossivelmente elevados, baseados em como os pais creem que “os outros” devem vê-la. Assim, há uma sensação de uma autoridade impessoal, um “eles” eternamente evocado diante da criança, que tem de superar o prestígio dessas pessoas. O peso dos ideais morais e materiais pode ser esmagador em tais casos. O filho de uma mãe que dizia que a família havia deixado suas raízes num país e se mudado para outro unicamente em benefício dele, e que afirmava que “o céu é o limite”, veio mais tarde a ser hospitalizado, após um episódio maníaco em que acreditou que seu carro
decolaria como um avião.20
O ideal materno foi capaz de impeli-lo para a mania, mas não de
estabilizá-lo nem de fornecer um arcabouço seguro para a sua vida. A identidade que o menino foi pressionado a assumir – querendo ou não – era falsa e precária, e podemos assinalar a frequência com que os sujeitos maníaco-depressivos são descritos como crianças obedientes e respeitosas, pois isso também sugere a presença de um ideal a que a criança se conforma, em vez de questioná-lo. A descrição dos antecedentes sociais feita por Fromm-Reichmann não precisa ser aceita literalmente, mas sua ênfase nesse impacto dos ideais na depressão maníaca acerta o alvo em cheio. Também lança luz sobre o fato de que os episódios depressivos e as fases maníacas podem decorrer não de fracassos, mas de sucessos sociais. Quando a criança enfim chega ao ponto que se esperava que alcançasse, não pode haver uma satisfação real, uma vez que este sempre foi o ideal de outra pessoa.
No caso de Andy Behrman, os episódios maníacos comumente
envolviam embarcar em aviões para fazer voos aleatórios ou com o intuito de voar ao redor do mundo. Embora a compactação das distâncias seja um traço comum da depressão maníaca – na qual a separação geográfica parece banal e tudo pode afigurar-se muito próximo –, é difícil não estabelecer uma ligação entre isso e o fato de que ele ia receber o nome de um astronauta, o primeiro norte-americano “a orbitar a Terra”, mas a missão deste foi adiada no dia do nascimento de Behrman. “Na infância, naturalmente, presumi que eles tinham grandes expectativas em relação a mim”, escreveu, e fantasiava dar a volta ao redor do planeta. Num episódio apavorante, “senti-me trancado dentro de um globo igual àquele com o qual cresci, mostrando todos os continentes e países em
relevo”.21
PASSANDO AGORA a outro dos temas da mania, por que as compras desenfreadas e a extravagância? A pessoa maníaca é capaz de gastar somas enormes em roupas, imóveis, obras de arte ou objetos para os quais, mais tarde, talvez olhe intrigada, no que Brian Adams chamou de “après-mania”. Num programa de televisão sobre a falência, perguntou-se a uma mulher como havia conseguido gastar seu alto salário do centro financeiro de Londres e acabar terrivelmente endividada. Em que tinha gastado o dinheiro: férias, automóveis, casas? – perguntou o entrevistador. Não, respondeu a mulher, acanhada: ela gostava “daqueles camarões graúdos”. Isso poderia ser entendido como um tropo para indicar um estilo de vida luxuoso, mas, quando a pessoa é maníaco-depressiva, a referência pode ser absolutamente literal. Pode-se esbanjar fortunas no que se afigura como idiossincrasias aos olhos de outros. Gastar o dinheiro que não se possui é um traço tão comum nos estados maníacos que a indústria das finanças tem lançado iniciativas para ajudar os sujeitos maníacos a negociarem uma saída de suas dívidas pós-episódios.
Às vezes, essas compras desenfreadas são descritas como
farras egoístas e narcísicas nas quais o sujeito não demonstra a menor consideração pela família ou pelos amigos, os quais, não raro, depois têm que pagar a conta. Contudo, quanto mais ouvimos relatos sobre o ocorrido, mais nos apercebemos de que há um certo altruísmo, uma lógica sacrificial atuando nesses desvarios, e, a rigor, o sujeito maníaco tanto pode doar bens quanto adquirir novas posses. Durante seus episódios maníacos, Vivien Leigh tinha de ser mantida longe de lojas sofisticadas, como a Cartier e a Asprey, mas era muito comum seus gastos envolverem a compra de presentes para o elenco e a equipe técnica das produções em que estava atuando. Nesse caso, adquirir e doar tinham o mesmo peso. Ao falar sobre sua experiência com a depressão maníaca, John Mulheren Jr., um corretor de Wall Street, descreveu que colocava vinte mil dólares em envelopes e os distribuía aos desfavorecidos na rua Bowery, num bairro pobre de Manhattan.
Um de meus pacientes, ziguezagueando por Londres durante
um episódio maníaco, ouviu a história complicada de um motorista de táxi e, redirecionando o carro para seu banco, deu-lhe no ato as economias de sua vida inteira, “por compaixão”. Para Lizzie Simon, “é uma sensação muito boa fazer algo por alguém, alguma coisa que gostaríamos que fizessem por nós. É tão bom que é
completamente inebriante.”22 Para citar outro exemplo, um homem me visitou para uma primeira consulta em estado maníaco. Quando abri a porta, entregou-me de imediato um cheque, informando que tinha de correr para se encontrar com alguém, e por isso não poderia ficar, mas ali estava o pagamento, o qual, por ter julgado muito pequeno, ele havia multiplicado por dez. Nunca mais tornei a vê-lo, mas sua mulher me telefonou, não muito depois, para ter certeza de que eu não descontaria o cheque.
Os projetos empreendidos pela pessoa maníaca são diretamente
relacionados, muitas vezes, com a correção de injustiças ou com algum ato de proteção. Kay Redfield Jamison descreveu sua compra de vários estojos de primeiros socorros contra picadas de cobra com a ideia de ter sido escolhida para alertar o mundo sobre a proliferação de cobras venenosas no vale de San Fernando. Ao comprar os estojos, disse ela, “eu estava fazendo todo o possível para me proteger e proteger as pessoas queridas”. Quando foi atormentada por pensamentos referentes à “morte lenta e dolorosa de todas as plantas verdes do mundo”, ela assinalou que, como estas morriam uma após outra, “não pude fazer nada para salvá-las”. Um de meus pacientes gastava somas consideráveis ajudando outras pessoas, e apoiava os projetos delas com tamanha energia e entusiasmo que quase nunca se lembrava de tomar as precauções necessárias em qualquer empreendimento comercial. E Spike Milligan era célebre por seu trabalho com instituições beneficentes que procuravam proteger as espécies animais ameaçadas de extinção em todo o mundo.
Os gastos maníacos desenfreados precisam ser sempre
examinados com critério, uma vez que, por trás da atividade aparentemente egoísta, esse altruísmo pode ser o verdadeiro motor dos dispêndios. Outra paciente descreveu que costumava ir de loja em loja, gastando milhares de libras em roupas que depois permaneciam confinadas em sacolas e caixas. Artigos que ela havia cobiçado e que só se permitia comprar em estado maníaco? De modo algum, explicou: as roupas eram como uniformes, “os trajes das pessoas que eu poderia ser”. Mas eram as roupas com que ela imaginava que o homem a quem dera um lugar tão central em sua vida gostaria de vê-la: “Eram objetos que invocavam o potencial do que eu poderia ser para ele.” Depois dos episódios de compras desenfreadas, disse ela, “sempre fico com um guarda-roupa de acessórios não ativados”.
Esses acessórios cênicos existiam como parte de um teatro que
era menos destinado a ela do que a Ele, como se a paciente desempenhasse o papel de personagens da fantasia desse homem. Portanto, os gastos estavam menos relacionados com ela do que com a imagem que ela queria criar para outra pessoa, como se, mais uma vez, um ideal regesse suas ações, um ideal que moldava seu comportamento e sua aparência. O aspecto externo desse controle foi evocado em outra descrição das farras maníacas de gastos: “É como ver outra pessoa assumir o controle da nossa vida.” Existe mais alguém ali, quase que literalmente.
Quando Stephen Fry vestia ternos sofisticados e tomava
coquetéis no Ritz e no Savoy, durante seu primeiro episódio maníaco, passou pelo que chamou de “uma fantástica reinvenção de mim mesmo”. Fry descreveu essa reinvenção em termos precisos: “Não só eu era um cara de dezessete anos tentando parecer uma combinação de Wilde, Coward, Fitzgerald e Firbank, como era um sujeito de dezessete anos num terno de estilo Gatsby, com colarinho engomado de ponta virada, fumando cigarros coloridos com uma piteira de âmbar.” Mas de onde tinham vindo aqueles colarinhos? Na verdade, eram uma herança de seu querido avô materno, Martin Neumann, um judeu húngaro apaixonado por tudo que vinha da Inglaterra: justamente a imagem da qual Fry queria se apropriar naqueles momentos.
Assim como essa reinvenção era paga com o uso de cartões de
crédito roubados, podemos indagar se a imagem que ele criava não estava ligada à fantasia de outra pessoa. Afinal, seu avô também havia ansiado por ser um cavalheiro inglês. Como diz o protagonista do primeiro romance de Fry, ele “só existe com roupas emprestadas”. O aparente egoísmo dos furtos que financiavam as orgias de gastos, portanto, encobria um altruísmo mais profundo e talvez inconsciente, ou, no mínimo, uma identificação. Anos depois, ao visitar a casa em que seus avós tinham morado, para um programa de televisão, ele se colocou no lugar exato em que um dia seu avô tinha posado para uma foto, segurando a filha no colo – a mãe de Fry. Ao se posicionar no lugar do avô, Fry comentou que
isso era um “pesadelo freudiano”.23
Também poderíamos pensar, neste ponto, nas grandes gorjetas
que os sujeitos maníacos deixam em bares e restaurantes, quase invariavelmente. Será que o fazem para criar uma imagem ampliada do eu, para se tornarem mais valorizados e benquistos, ou, ao contrário, para devolver alguma coisa ao outro, talvez a fim de pagar um outro tipo de dívida?
NÃO DEVEMOS SUBESTIMAR essa dimensão interpessoal na depressão maníaca. Por mais egoístas que possam parecer os atos da pessoa, há sempre mais alguém no horizonte. Tem-se observado, muitas vezes, que o maníaco tenta empolgar outras pessoas com algum esquema ou projeto, frequentemente com sucesso. Isso tem menos a ver com uma iniciativa privada ou uma busca solitária do que com um esforço mais amplo e abrangente, talvez tendo como objetivo um benefício social. Colegas, amigos e investidores podem ser procurados, e coisas reais podem acontecer – e acontecem.
Às vezes há um descompromisso com determinado projeto e,
passadas algumas horas ou dias, o sujeito embarca em outro. Mas também pode haver um foco sério e contínuo, quer a iniciativa se afigure plausível ou bizarra a terceiros. Um de meus pacientes havia trabalhado na Jaguar, em certa época, e, durante uma reunião, ocorreu-lhe que o segredo do sucesso num dado mercado seria substituir a famosa e conhecida logomarca pela de outro animal selvagem. Muitos anos depois, ele pôde relembrar isso com um sorriso, mas, na época, tinha sido uma convicção absoluta: ele sabia que aquela era a coisa certa a fazer, e só teria de convencer o alto escalão a trabalhar com a mente aberta.
O crucial para ele, durante os episódios maníacos, era garantir a
confiança que os outros tinham nele, o que talvez se ligue a outro fenômeno estranho que encontramos, com extraordinária frequência, na depressão maníaca. Muitos de meus pacientes compararam sua experiência, em certas ocasiões, ao filme O show de Truman, no qual um personagem vive num mundo artificial, transmitido como um reality show pela televisão. Eles descrevem o mundo a seu redor como uma construção artificial, como um teatro ou um set de filmagem, criado para testá-los ou estudá-los. “É uma sensação de fazer parte de alguma coisa, de ser parte de um cenário maior”, como disse um homem, depois que sua mania se acalmou. “A vida era um jogo, ou um teste.”
Embora seja possível encontrar uma ideia comparável de
realidade na esquizofrenia, o fascinante aqui é que esse “Show de Truman” da depressão maníaca é sempre benigno. “Ninguém é quem parece ser, mas isso é empolgante. Eles me submetem a testes, vão para um nível ainda mais alto, nós provamos nossa capacidade, passamos em testes, como num jogo que a gente vai decifrando.” Em outras formas de psicose, a pessoa pode ter a sensação constante de ser tapeada por aqueles que a cercam, mas isso é predominantemente ausente nos estados maníacos. No entanto, se a realidade fosse uma montagem encenada como num palco teatral, certamente se esperaria que fosse ameaçadora, não?
Será que isso não nos dá outra pista sobre a depressão
maníaca? O altruísmo, a lógica sacrificial e a natureza benigna do mundo observador, tudo isso sugere que, para o sujeito maníaco-depressivo, a crença num Outro bondoso, num mundo generoso e cheio de dádivas, tem de ser preservada a qualquer preço. “Tem a ver com a bondade”, como me disse um amigo maníaco-depressivo. “São anjos, e não demônios.” Nada pode macular a visão beatífica, e, se algo a macula, eles seguem adiante depressa, convencidos da
bondade e da harmonia fundamentais de sua realidade.24
Se na esquizofrenia há a ideia de que tudo é encenado, o agente
responsável por isso não quer que a pessoa saiba que se trata de um truque. Para o maníaco-depressivo, entretanto, todos estão nisso juntos: eles sabem que sabemos, numa cumplicidade curiosa e quase reconfortante. De modo similar, na esquizofrenia, o mundo circundante pode se tornar ameaçador ou persecutório, passando de bom a mau com rapidez e pavor. No entanto, para o maníaco-depressivo, essa transição não é muito fácil e é bloqueada pelo que constitui a psicose maníaco-depressiva. O próprio hífen dessa denominação encarna o que a doença tenta fazer: criar uma separação entre dois estados. O bom e o mau têm que ser mantidos separados, custe o que custar.
Tomemos novamente o exemplo de Kay Redfield Jamison, cujos
escritos sobre a depressão maníaca foram tão influentes. Logo no início de seu livro de memórias, Uma mente inquieta, ela aponta o que talvez viesse a se transformar no momento formativo de sua infância. Ela estava brincando do lado de fora quando um jato, na base militar em que a família morava, começou a entrar em parafuso, descontrolado. O piloto poderia ter se ejetado e salvado a vida, mas preferiu tentar conduzir o avião, para que caísse fora do parquinho em que Jamison e outras crianças brincavam. A cena voltou a assombrá-la repetidas vezes e, embora decerto represente o que poderia ser interpretado como o primeiro contato de uma criança com a morte, será que também não mostra exatamente o tema do sacrifício que vimos discutindo?
O piloto abriu mão da própria vida para salvar outras pessoas,
“transformado num ideal causticamente vivo e completamente impossível do que se pretendia dizer com o conceito de dever”. O episódio fundiu a imagem do altruísmo, de um ideal e um sacrifício. Evitou-se a violência contra a criança e, se forçarmos um pouco, poderíamos supor que a ideia subjacente seria proteger outra pessoa de suas próprias tendências destrutivas, ou, pelo menos, de um colapso que também seria autoengendrado. Como afirmou Melanie Klein, se o pavor do esquizofrênico é o desmoronamento do seu próprio eu, para o maníaco-depressivo o pavor é o desmoronamento do Outro. Aliás, a antiga psiquiatria havia notado o cuidado dos sujeitos maníaco-depressivos para não ferir outras pessoas, mesmo quando provocados. Quando Patty Duke atirava pratos em seus filhos, durante os episódios maníacos, sua mira era
sempre boa o bastante para saber como não acertá-los.25
Como uma das pacientes maníacas da psicanalista Edith
Jacobson explicou, embora ela devorasse tudo, nada acontecia com ninguém nem com coisa alguma: eles continuavam seguros. Aqui, a preocupação central é o dano causado aos objetos do sujeito. Contudo, devemos fazer uma pausa para esmiuçar a ideia de desejos destrutivos. É inegável que a criança vivencia raiva e ódio pelo pai ou pela mãe a quem ama. Mas será realmente esta a raiz de tais temas na depressão maníaca? Uma paciente que tinha sido hospitalizada diversas vezes, por causa de episódios maníacos, explicou-me que, em seus primeiros anos de vida, sentira-se um “fantoche” da mãe, fazendo o que ela mandava e sentindo pavor de qualquer condenação ou censura. Imaginava com frequência a morte da mãe, porém menos como a execução de uma vingança do que como a única forma de libertação. “Eu só poderia ser eu se a mamãe morresse”, afirmou. Em seguida, essa ideia gerava uma culpa intensa e devastadora, e produzia comportamentos destinados a agradar ou aplacar a mãe.
As manias posteriores dessa paciente visaram proteger outras
pessoas ou aspectos do ambiente. Portanto, o desejo de morte contra a mãe não era realmente um vetor do ódio, mas a condição lógica da emancipação dela própria. Outro sujeito maníaco-depressivo descreveu que, quando sua mania ganhava força, ele era movido por pequenos atos de bondade: “Eu saía para ajudar pessoas.” Explicou como se tornou “perito em se identificar com outras pessoas”, com a dor delas. Na mania, como observou Terri Cheney, mesmo quando ela estava tomando uma taça de vinho, seu coração se condoía das pobres uvas que tinham sido esmagadas para produzi-lo. Descortina-se de repente a falta que há no mundo, e toda pessoa que passa por perto pode se afigurar um poço de tristeza. Eugen Bleuler relatou um caso em que o paciente comoveu-se a tal ponto com a aflição de um inseto solitário avistado na calçada que entrou numa padaria e comprou um doce grande, no qual deixou a pobre criatura.
O arco da mania inclui esse objetivo de proteger outra pessoa, o
que pode então estender-se a atos e projetos beneficentes, como a proteção de animais ou a preservação do meio ambiente. Quando
Spike Milligan viu o famoso “Carvalho dos Duendes”,26 uma árvore de novecentos anos que existe nos Kensington Gardens, em Londres, e na qual o escultor Ivor Innes entalhara figuras do reino das fadas, ficou apreensivo ao perceber como as esculturas estavam lascadas e descascando. Norma Farnes descreveu que ele recrutou uma equipe de ajudantes e convenceu a Rentokil a preservar a árvore e a British Paints a fornecer a tinta impermeável,
como parte de sua missão de resgate.d
Orgulhoso do sucesso da restauração, ele levou Farnes para ver
a árvore em sua glória renovada. A poucos metros do carvalho, “o rosto dele passou do horror a uma tristeza inefável”. Parte de uma das asas de fada entalhadas no tronco tinha sido arrancada. Voltando ao escritório, Milligan passou três dias e três noites trancado, sem se comunicar com ninguém, recusando qualquer comida, acabrunhado por um desespero insuportável. Quando enfim saiu de lá e Farnes o questionou sobre essa depressão, Milligan evocou todo o cuidado que fora investido na restauração da árvore, só para vir alguém e quebrar a asa. “Só quero escrever roteiros e livros, poesia e música, para tornar o mundo um lugar melhor.”
ISSO SE COADUNA com outro traço peculiar da depressão maníaca. Enquanto hoje uma pessoa maníaco-depressiva que se queixe de estar desenvolvendo uma sintomatologia obsessiva provavelmente receberá um novo medicamento para eliminá-la, como a clomipramina, a antiga psiquiatria assinalava que os sintomas obsessivos eram, na verdade, um sinal positivo. Muitas vezes se desenvolviam nos intervalos entre as fases e consistiam em dúvidas – “Será que fechei a torneira?” – e em tipos diferentes de atividades de ordenação.
Isso é interessante, já que os sintomas obsessivos podem ser
entendidos como formas de evitar prejuízos a terceiros, como um tratamento mínimo das tendências destrutivas do sujeito. Afinal, reconhecer a coexistência do amor e do ódio é uma proposta assustadora. Nas palavras de Patty Duke, “é difícil imaginar que a gente tenha raiva da mãe, que odeie a mãe”. Se odiamos e amamos, será que isso não significa que corremos o risco de perder o amor do outro, justamente por causa do nosso ódio?
O ódio, nesse caso, é muito destrutivo não apenas pelo fato de o
sujeito estar ameaçado, mas por causa desse risco portentoso de perda. Embora os primeiros estudos sobre os sentimentos ambivalentes tenham tendido a enfatizar o fator quantitativo – quanto ódio havia –, eles deixaram escapar o fato crucial de que a importância maior do ódio se dá quando ele entra em conflito com um ideal. A criança que agride o pai ou a mãe, ou que bate num irmão, só pode se sentir culpada e com raiva dela mesma quando registra que o comportamento violento significa a perda da imagem ideal que ela quer ter para os pais e, portanto, o risco de perder o amor deles.
O Homem dos Ratos, paciente de Freud, era dominado por atos
e rituais compulsivos, como tirar uma pedra da calçada, por medo de que um transeunte pudesse tropeçar nela, e depois colocá-la de volta, por medo de que a carruagem de sua amada batesse nela. Assim, cada parte do ritual de retirar e devolver a pedra visava evitar um dano a outra pessoa, mas a própria oscilação continha o crime e seu apagamento.
É comum essas compulsões passarem despercebidas, diluindo-
se em traços de caráter. Theodor Reik descreve um paciente que era torturado pela angústia de causar algum dano a seu filho pequeno. Isso tivera início num dia em que ele se perguntara se havia batido com a maçaneta da porta na cabeça do menino, ao entrar num cômodo. A partir daí, tomou precauções para se certificar de que jamais acontecesse algo desse tipo, mas ficou preocupado com o que seus amigos pensariam se o vissem levantar o braço, no meio de uma frase, para medir a distância exata da porta. Assim, passou a falar animadamente, fazendo gestos largos com os braços, apontando para objetos próximos, ou abrindo os braços numa paródia de sentimentos extravagantes. Na verdade, esses gestos eram recursos de medição disfarçados: a nova animação radiante era, na verdade, o disfarce de desejos hostis e a
proteção do paciente contra eles.27
A sintomatologia obsessiva, com suas procrastinações, rituais e
dúvidas, mostra que a proximidade entre o amor e o ódio, entre a preservação e a aniquilação, não pode ser satisfatoriamente resolvida. Incapaz de escolher, a pessoa constrói sintomas que mantêm o conflito numa espécie de estase, na qual os desejos hostis costumam ser mantidos fora da consciência, mas retornam nos rituais e ideias compulsivos. A solicitude exagerada do obsessivo tanto esconde quanto carrega o vetor da destruição.
A depressão maníaca envolve uma separação mais extrema
entre amor e ódio, e o esforço de evitar danos às pessoas queridas – ou a negação da própria responsabilidade nisso – talvez esteja por trás do episódio maníaco. Será por acaso que os dois volumes das memórias de Stephen Fry se iniciam por uma alusão a um gesto reparador? A primeira linha de The Fry Chronicles [“As crônicas de Fry”] diz: “Preciso realmente parar de pedir desculpas, o que não melhora nem piora as coisas.” Em Moab is My Washpot [“Moabe é a bacia em que me lavo”], lemos, logo no início, uma história curiosa sobre a proteção de Fry a um garotinho chamado Bunce, que ele conheceu no trem para seu colégio interno. E os Agradecimentos, no final do livro, encerram-se com a justificativa “… só posso dizer
Desculpem-me e Obrigado”.28
Nesse ponto, os excelentes livros de Fry podem nos ajudar a ter
uma compreensão maior das questões do sacrifício, da reparação e da dívida na psicose maníaco-depressiva. Logo no começo de Moab, ele escreve sobre seu vício em açúcar, iniciado com uma paixão infantil pelo cereal Sugar Puffs. “A mesa do café da manhã é o lugar onde foram plantadas as sementes de minha tristeza. Tenho a convicção de estar certo ao localizar ali o meu primeiro vício” – um vício que passaria do cereal para os doces e para a cocaína. O avô de Fry era especialista no cultivo de beterraba e, quando a perspectiva de outra guerra afigurou-se provável, com o fechamento das rotas marítimas das Índias Ocidentais e da Austrália, o governo britânico o convidou a supervisionar a produção nacional. Ele se mudou de sua cidade natal, Surany, na Hungria – absorvida pela Tchecoslováquia em 1920 –, para Bury St. Edmonds, em Suffolk, na Inglaterra. Essa transferência salvou-lhe a vida: os membros da família Neumann que permaneceram em Surany foram dizimados pelos nazistas.
Como diz Fry: “Se não fosse pelo açúcar, eu nem teria nascido,
e, no entanto, por pouco ele também não me matou.” O açúcar “deu-me a vida, mas cobrou um preço – uma adesão escravizante. Viciar-me nele e viciar-me em ser viciado no vício”. A predileção pelos cereais deslocou-se para os doces, no tempo da escola, e ele furtava dinheiro para poder comprá-los na doceria do vilarejo, lugar proibido aos estudantes. Fry ficou fascinado e extasiado com o novo mundo que a confeitaria lhe abriu: “a dose extra de açúcar dos doces, a animação luminosa e ofuscante das embalagens”, que embrulhavam cachimbos de alcaçuz e cigarros de coco, elementos que viriam a coalescer em sua paixão posterior pelo fumo e na imagem de Sherlock Holmes e seu cachimbo. Como observou Fry: “Agora todos os elementos estavam presentes. Açúcar. Pó branco. Tabaco. Desejo. Falta de dinheiro. O proibido.”
Ao descrever mais adiante seu problema com os limites, Fry
observou que: “Enquanto o Pinóquio tinha o Grilo Falante, eu tinha meu avô húngaro. Ele morreu quando eu estava com dez anos e, desde o dia em que se foi, tive a incômoda consciência de que olhava aqui para baixo e lamentava o que o livro de orações chamaria de meus múltiplos pecados e iniquidades.” Se esse avô o via “furtar, mentir e trapacear”, era com um olhar que não conseguia impedi-lo de praticar seus delitos, talvez pela simples razão de que aquilo era incoerente. Fry cita o avô dizendo que um judeu húngaro é a única pessoa capaz de entrar numa porta giratória atrás de outro indivíduo e sair na frente dele, aforismo este que é posto na boca de algum personagem em todos os romances de Fry, com exceção de um.
Se essa relação com o avô foi crucial, o que ela pode nos dizer
sobre a depressão maníaca como tal? A cadeia traçada por Fry é absolutamente convincente: açúcar – cereal – doces – furtos – pó branco, usado, no dizer dele, não para intensificar, mas para reduzir sua euforia. Podemos notar que o cereal escolhido por ele foi, de fato, o único que realmente continha a palavra “açúcar” no nome – Sugar Puffs –, e que talvez não tenha sido à toa que Fry tenha evocado o icônico Jeremy Bear, personagem símbolo do cereal, quando, anos depois, encontrou tempo em sua agenda ocupadíssima para fazer dois programas de televisão sobre os ursos do Peru. Célebre por sua paixão por computadores Mac, Fry nos diz também que: “O vovô ficava espiando, disso eu sabia. Era a
minhoca enorme em todas as maçãs deliciosas que eu roubava.”e
Em seguida, Fry descreve como se reinventou em seu primeiro
episódio maníaco, e seria puritanismo não reconhecer nisso a identificação com seu avô. Mesmo décadas depois, no programa The Jonathan Ross Show, ele usou a mesma expressão, dizendo ao apresentador que tinha “se reinventado”, e que ficava “feliz por ver um homem idoso voltar mais uma vez”. Assim como o avô de Fry havia adorado tudo que era britânico, bancando “o inglês” nas brincadeiras infantis e vestindo calções de golfe e roupas de tweed sempre que possível, Fry observou, a seu próprio respeito, que “simplesmente pareço feito de tweed”, e destacou a ironia de que ele, um judeu húngaro, viesse a ser a própria encarnação e representação do anglicismo.
Mas qual seria o contexto dessa identificação? Afinal, todos têm
identificações profundamente arraigadas com membros da família. Então Fry não deixa claro, ao dizer que deve sua vida ao açúcar, que sem o açúcar não teria existido? A estrutura global de sua vida é uma dívida. Podemos lembrar aqui que a palavra “mania” vem do grego μανία, termo geralmente traduzido por “loucura” ou “frenesi”, mas cuja forma plural evocava os espíritos identificados por Pausânias com as Eumênides, cuja função era justamente perseguir
aqueles que não tinham pagado suas dívidas.29
ASSIM, O FATO de os sujeitos maníacos contraírem na prática dívidas imensas, bem diante dos olhos de familiares e amigos, adquire um novo sentido. Com isso a pessoa mostra diretamente estar endividada, e o lado altruísta e sacrificial dos episódios maníacos pode ser uma tentativa de quitar essa dívida, ou, ao contrário, de anulá-la. Aqui, a chave é que o maníaco não tem consciência de nenhum senso de dívida até depois do episódio. Levar isso a sério significa que o esforço para pagar as dívidas empíricas da pessoa pode significar, para ela, em muitos casos, apenas recomeçar o ciclo inicial.
Um paciente do psicanalista Abraham Brill descreveu sua euforia
maníaca exatamente em termos dessa anulação: “Tornei-me muito bem-humorado. Parecia que todo o senso de responsabilidade tinha me abandonado, e eu me senti muito livre e feliz. Durante a vida inteira eu me sentira constrangido, preso, escravizado pela situação e pelas circunstâncias, e então foi como se eu renascesse para uma vida nova, um outro mundo em que as pessoas eram muito diferentes do que tinham sido.”
O exemplo de Brill é particularmente esclarecedor, visto que
esse paciente, na verdade, fora responsabilizado pela morte do irmão mais novo, quando criança. A irmã havia tentado fritar um ovo na lareira, causando um incêndio, e o menino morrera nas chamas. A mãe culpara o paciente de Brill por não haver ficado em casa com o irmão nem tê-lo levado consigo ao sair. A mania foi desencadeada após um acidente de trabalho em que o braço dele foi esmagado, tendo depois que ser amputado. Ao olhar para o membro pendente e os dedos mutilados, ele havia pensado: “Esse cara está estraçalhado mesmo.” Antes de se iniciar a mania propriamente dita, o paciente vivenciou uma curiosa dissociação: “A minha mente era eu, e o sujeito machucado era uma espécie de irmão fraco pelo qual, de algum modo, eu era parcialmente responsável.”
Essa questão da responsabilidade talvez esteja por trás dos
temas mais imediatos de hostilidade e destruição que encontramos na depressão maníaca. Se há um esforço para proteger o Outro da própria violência e mantê-lo seguro, não haverá também um problema da responsabilidade que se desloca entre as partes? Fry devia sua vida ao açúcar e ao avô que escapou dos nazistas, mas que dizer da dívida do avô para com aqueles que ele não pôde salvar e que foram deixados para trás? No caso de Kay Redfield Jamison, o ato de sacrifício do piloto criou uma dívida para aqueles a quem ele salvou, uma dívida que talvez também possa ter evocado a questão da responsabilidade por uma morte numa ocasião anterior, na própria história familiar dela.
Em caso após caso, constatamos um dilema quanto à
responsabilidade no nível das gerações anteriores. Muitas vezes, foi o pai ou a mãe do maníaco-depressivo que vivenciou a perda trágica de um filho, um irmão ou um dos pais, e a responsabilidade por essa morte permaneceu sem solução. Em suas fases depressivas, uma mulher fazia pesquisas infindáveis na Internet para encontrar imagens de bebês deformados, e remoía tudo que tinha feito de errado na vida. A ideia de que os outros pudessem pensar mal dela era insuportável. Quando na fase maníaca, ela se sentia intensamente poderosa e ajudava profissionais aspirantes de sua área de trabalho a abrirem seus próprios negócios.
Seus episódios maníacos eram desencadeados nos momentos
em que os produtos desenhados por ela eram lançados, nos momentos em que “eu trazia alguma coisa ao mundo”. Quando menina, ela entreouvira uma conversa em que ficara sabendo que sua mãe tinha sofrido o aborto espontâneo de um bebê, descrito como “só braços e pernas, tudo misturado”. Pudemos notar que, nas fases maníacas, ela ajudava aqueles em quem pensava como crianças, ao passo que, nas fases depressivas, sua preocupação com imagens de bebês deformados nunca era conscientemente ligada a suas ruminações sobre as coisas ruins que tinha feito. A questão da responsabilidade pela morte não podia ser diretamente formulada a ela, tal como não podia sê-lo a sua mãe, a qual, por outro lado, responsabilizava a filha por tudo.
Os clínicos que trabalham com a psicose maníaco-depressiva às
vezes afirmam que há sempre uma preocupação com a morte em seus pacientes, porém é menos a morte como tal do que a questão da responsabilidade por ela. Isso não deve ser reduzido aos desejos de morte que uma criança possa ter em relação ao pai ou à mãe, pois envolve a relação dos próprios pais com o que eles perderam. A culpa que não pode ser aplacada nem inscrita numa geração persegue a geração seguinte, do mesmo modo que as dívidas são transmitidas. Mas essa dívida não é quitada. Não se cristaliza como paranoia (“o responsável é o Outro”) nem como melancolia (“sou eu o responsável”); fica, antes, numa gangorra entre os altos e baixos do sujeito maníaco-depressivo. Se a responsabilidade se vai na mania, ela retorna na depressão.
Será que isso também não nos ajuda a explicar as curiosas
oscilações em torno do senso de identidade na depressão maníaca? Uma das perguntas verbalizadas com mais frequência é se a “doença” é uma espécie de corpo estranho, ou se, na verdade, é uma parte intrínseca do eu. A pessoa seria realmente ela mesma, depois da proposta excisão química de sua mania? Os altos e baixos revelam ou escondem quem ela realmente é? Deve a depressão maníaca ser vista como algo que constitui o eu, ou algo que o compromete? A notável ubiquidade dessas perguntas talvez faça eco à incerteza subjacente sobre uma responsabilidade. Não saber se as manias e depressões fazem ou não parte de nós reflete a dificuldade do não saber se a responsabilidade é nossa ou de outra pessoa. E o pensamento mais comum, depois de um episódio maníaco, não é precisamente “O que foi que eu fiz?”?
Talvez a mania envolva uma foraclusão do sentimento
consciente de culpa e dívida. Ao seduzir o namorado de sua melhor amiga, Cheney achou que “havia alguma coisa errada nisso, terrivelmente errada, mas o quê, exatamente, eu não conseguia lembrar. Ele era lindo, estava disponível, o que mais importava?” A dívida para com a amiga foi apagada naquele momento. Como disse Patty Duke: “Quando se é maníaco, não há consequências.” É notável saber pelos sujeitos maníacos o quanto eles se horrorizam ao reconstituir o que fizeram na fase maníaca. Os contatos e as propostas sexuais feitos a cônjuges ou parceiros dos melhores amigos parecem totalmente naturais nessa ocasião, e só depois ganham seu peso e consequências plenos. A promiscuidade na mania costuma ser vista como um simples exemplo da desinibição generalizada, mas, além dela, será que não demonstra uma abolição temporária das barreiras de culpa que regulam as relações sociais?
Nas fases maníacas, Vivien Leigh costumava fazer um jogo de
salão chamado “Modos de matar bebês”, no qual seus convidados eram solicitados a fazer a mímica de maneiras inusitadas de se desfazerem de um filho indesejado. Dada a sua própria história – na qual houvera não só um irmão natimorto antes do nascimento dela, mas também, depois dela, gêmeos que não sobreviveram por mais de uma semana, sem falar no seu desapego pela filha e nos intensos sentimentos de ser indesejada com que ela mesma lutava –, o que poderia ter lhe permitido encenar essas fantasias de forma tão descontraída? Não seria a ideia de uma liberação temporária da dívida, da questão da responsabilidade por uma morte, que só chegava a imobilizá-la ao retornar, posteriormente, em suas fases
depressivas?30
E isto nos traz a outro ponto. Por mais fascinante que seja
encontrar ligações entre as memórias de Fry e sua obra ficcional, de nada adianta tentar uma psicobiografia, pela simples razão de que Fry já fez isso. Para muitas pessoas, assinalar os significantes fundamentais de sua existência levaria anos de análise, mas Fry parece ter acesso à cadeia açúcar-doces-cocaína com espantosa facilidade. Entretanto, ele faz mais do que isso. Também apresenta descobertas incrivelmente importantes e significativas como uma espécie de piada. Em vez de encarar essa postura como mera afetação ou modéstia, por que não ligá-la à própria estrutura da depressão maníaca, tantas vezes explorada por Fry?
Isso faz eco à experiência clínica. Os sujeitos maníaco-
depressivos podem chegar a estabelecer ligações fundamentais na terapia, as quais surtem pouco ou nenhum efeito, como se os lampejos de compreensão não tivessem valor real. Neste ponto, o que levou alguns clínicos a perderem a esperança de trabalhar com a psicose maníaco-depressiva talvez seja, de fato, uma pista sobre a própria lógica por trás dela. Na fase maníaca, os significantes que determinam a vida do sujeito são apenas palavras entre outras palavras, como se seu peso integral não fosse registrado. Podem ser atirados como meras piadas ou como comentários irreverentes. A depressão representa então o retorno desse peso, cujo impacto maciço fica ausente nas fases maníacas.
Esse descaso com as palavras que determinam nossa vida – o
que os psicanalistas chamam de o “simbólico” – talvez seja a própria assinatura da estrutura maníaco-depressiva, e explica por que é tão comum esses sujeitos serem capazes de encontrar laços novos e surpreendentes entre as palavras. Pensemos, por exemplo, na extraordinária destreza verbal de Oscar Wilde, de Fry ou de Sebastian Horsley. A linguagem pode ser revirada pelo avesso, analogias e justaposições deslumbrantes podem ser inventadas e descobertas. Para isso, a pessoa precisa ser capaz de circular pela linguagem, de não ser lastreada por significações – exatamente o que é invertido quando a mania se transforma em depressão. Nesse ponto, a pessoa fica esmagada sob um sentido unívoco: ela não tem valor, não é digna de ser amada, é pecaminosa. Enquanto, na mania, o sentido parece solto e sem amarras, na depressão ele é pesado e constritivo.
Vemos esse descaso com o simbólico no exemplo que
evocamos do empregado da Jaguar que sugeriu a mudança da logomarca da companhia. É claro que decisões desse tipo podem acontecer e de fato acontecem, às vezes mudando o futuro das empresas, mas, no caso em questão, o aspecto destacado foi o modo como meu paciente não se sentiu obrigado a honrar o vínculo de longa data entre a logomarca e a empresa. Os dois podiam ser separados, como que desligados um do outro com um pé de cabra. O peso do simbólico não se fazia sentir. O sujeito pode investir nas próprias palavras, mais do que nas significações básicas. Depois, porém, há um preço terrível a pagar – na fase depressiva. Portanto, a agonia depressiva é inteiramente justificada, é uma espécie de desforra. Como certa vez observou o psicanalista Edward Glover, a depressão maníaca é como uma hipertrofia e uma atrofia alternadas
da “consciência inconsciente”.31
O TEMA DA DÍVIDA esclarece muitos outros fenômenos da depressão maníaca. Um jornalista explicou que suas fases maníacas despertavam pouca atenção porque eram absorvidas num “turbilhão de trabalho”. Ele nunca dizia não a um pedido de uma matéria em seu campo específico e, nessas ocasiões, ficava sempre freneticamente atarefado. Embora possamos ver o trabalho como uma forma de ele usar sua “energia” maníaca de modo frutífero, será que a aceitação sistemática de todos os pedidos não mostra também a sensação de uma dívida não paga? Isso é algo que ouvimos com frequência dos sujeitos maníaco-depressivos, especialmente no mundo das comunicações: ainda que isso possa ir contra seu bom senso profissional, eles têm dificuldade de dizer não a um trabalho, por medo de decepcionar o Outro.
Talvez isso lance luz sobre a estranha proximidade entre gastar
e roubar nas fases maníacas. Já vimos que os desvarios de compras tendem a ser custeados com dinheiro tomado de empréstimo, sendo que esse socorro financeiro vem, em geral, depois do gasto em si. O sujeito maníaco despende um dinheiro que, na maioria dos casos, não possui. Mas essas compras desenfreadas também podem assumir a forma mais modesta de uma série de furtos. Como explicou Behrman: “Na maioria dos dias, preciso ser o mais maníaco possível, para chegar o mais perto que puder da destruição, para entrar num barato realmente bom – uma orgia de 25 mil dólares de compras, uma farra de quatro dias me drogando, ou uma viagem de volta ao mundo. Noutros dias, basta o simples barato de uma ida a uma loja da [rede de farmácias] Duane
Reade para roubar uma escova de dentes ou um vidro de Tylenol.”32
O que haveria em comum entre gastar e roubar? Num nível
imediato, quando o gasto ocorre sem que haja fundos para bancá-lo, pode-se interpretá-lo como uma forma de roubo, aliás incentivada pelos mercados contemporâneos, que dependem de que as pessoas gastem um dinheiro que não têm. Em outro nível, as duas atividades envolvem tirar algo de um lugar significativo, de uma determinada loja de departamentos ou butique. É como se a pessoa comprasse sem pagar, e é comum os sujeitos maníacos descreverem sua sensação de um mundo de fartura, de suprimentos, um mundo em que as coisas não acabam. Jamison escreveu que, em suas orgias maníacas de compras, “eu não conseguia me preocupar com o dinheiro nem se quisesse. E, assim, não me preocupava. O dinheiro viria de algum lugar; eu tinha aquele direito; Deus proverá.” A paciente de Jacobson dizia que “o mundo é tão rico que não tem fim”. Para Duke, na mania, “vamos ser milionários, e acreditamos nisso”. Nas palavras de um de meus pacientes, ao falar de cigarros, um dia: “O problema do cigarro é que a gente sempre tem mais.”