Simplesmente bipolar
Dedicatória
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
No estado maníaco, o mundo parece generoso e clemente. Está
tudo ali para ser tomado e desfrutado. Na verdade, é como se a pessoa fosse despojada de sua própria estrutura sociossimbólica, tanto religiosa quanto econômica. Desaparecem a ética de trabalho que é peculiar ao meio de origem daquela pessoa, o pudor ou a inibição compatíveis com sua cultura, e até, vez por outra, as proibições dietéticas de sua religião. Seu senso de vitalidade e energia parece proporcional a essa perda: à medida que se desfaz das limitações das forças que a moldaram, ela “renasce”, e o mundo parece radicalmente novo e promissor.
Mas, assim como a dívida para com a própria origem e história
pode se suavizar subitamente no episódio maníaco, ela retorna com força na fase depressiva. Nessa hora, a pessoa fica tão aprisionada que, às vezes, literalmente não consegue se mexer. Quando os amigos bem-intencionados de Adams lhe diziam para sair mais, para procurar fazer umas caminhadas, o que não percebiam era que ele não conseguia nem sequer passar do portão da frente, a tal ponto estava paralisado. Se na euforia maníaca a pessoa pega alguma coisa sem pagar, agora ela paga, sem a menor dúvida. Não há como anular a dívida sem que ela retorne em suas formas letais, incapacitantes.
Se na mania a pessoa tem a sensação radiante de já não ser
julgada, de já não ser responsável, nas depressões o julgamento retorna de maneira violenta, estraçalhante. O fato de inúmeros sujeitos maníaco-depressivos relatarem, em suas fases depressivas, que remoem mentalmente todas as coisas ruins que fizeram, mesmo depois de anos, mostra que qualquer acontecimento da vida, por mais trivial que seja, pode ser recrutado para acrescentar força ao julgamento condenatório. Se na mania a fala da pessoa pode se deslocar de um tema para outro com facilidade e fluência, na depressão as palavras podem ficar limitadas à mera repetição infindável de uma única frase: “Eu sou um babaca.”
Pensemos um pouco mais, neste ponto, no elo entre gastar e
roubar. Um homem maníaco-depressivo descreveu que saía para furtar lojas toda vez que suas expectativas eram destroçadas. “Eu ficava irado, com ódio, como se as coisas tivessem sido destruídas para mim. Roubar era como que me vingar.” Note-se que a ênfase, aqui, é em como as coisas eram destruídas para ele, e não em como ele mesmo as teria destruído. Os furtos tinham começado na escola, onde ele sempre havia tirado coisas de outras crianças que possuíam mais do que ele, as crianças ricas que vinham de casas melhores, de famílias melhores que a sua.
A lógica subjacente sugere que roubar estava ligado à própria
questão de sua identidade: “Se não posso ser um deles, vou tirar algo deles.” A paciente que falou de seus desvarios de compras como “acessórios não ativados” era guiada pela mesma equação. O homem com quem estava envolvida, e que acabava pagando a conta dos seus gastos, vinha de uma classe e uma cultura a que ela sempre havia aspirado, apesar da barreira de sua própria origem mais modesta. Se as roupas que ela comprava eram imagens de quem ela poderia ser para esse homem nas festas sofisticadas e nas partidas de polo que imaginava, através da criação da dívida ela também o fazia pagar.
No caso de Behrman, ele trabalhava para um pintor de Nova
York, a princípio cuidando de suas relações públicas e, posteriormente, assumindo mais e mais as funções de seu empresário. O pintor era bem-sucedido, confiante e rico – qualidades pelas quais Behrman sentia-se atraído. Em pouco tempo, ele se mancomunou com um dos assistentes do pintor, falsificando quadros, vendendo-os como originais e chegando até a assinar pessoalmente as obras. No caso de Stephen Fry, sua farra inicial de gastos foi financiada por cartões de crédito roubados, tirados das próprias famílias inglesas que ele havia admirado e respeitado. Se ele portou as insígnias do avô em seu ato de “reinvenção”, convém não esquecermos que esse era o avô que, na Hungria, tinha sido fascinado por tudo que era inglês, usando roupas de tweed e gravitando para uma imagem que era incompatível com sua cultura judaica. Tanto em Behrman quanto em Fry encontramos um eco da fórmula “Se não posso ser eles, vou roubar deles”.
A LIGAÇÃO ENTRE gastar e roubar também pode ser examinada por outro ângulo. As duas coisas visam as posses, e a psiquiatria antiga assinalou com frequência o interesse dos sujeitos maníaco-depressivos pela aquisição de coisas, quer na forma de objetos adquiridos em compras desenfreadas, quer na de objetos acumulados durante a internação hospitalar. Como observou Griesinger, seus pacientes colecionavam, acumulavam e furtavam. Seria para negar ou compensar alguma perda que houvessem
vivenciado em épocas passadas?33
Certamente existem muitos casos em que a mania é
desencadeada depois de uma perda, e a negação tem sido vista,
com frequência, como o mecanismo principal.34 Ao mesmo tempo, entretanto, perder alguém que amamos faz-nos confrontar o que ele era para nós e o que éramos para ele. Além do tema óbvio da negação, talvez haja a preocupação mais profunda com a proteção da pessoa amada, mesmo depois de ela nos deixar ou morrer. Afinal, ela existe psiquicamente para nós, mesmo quando já não está presente, e impedir que sofra algum dano pode explicar parte do altruísmo da mania.
Nos episódios maníacos, Patty Duke corria a cidade inteira,
tomada pela premência de pôr tudo o que possuía, de lenços de papel a brincos, em cofres bancários. Quando notamos a frequência com que os sujeitos maníaco-depressivos falam de regar demasiadamente as plantas, podemos imaginar que o mesmo objetivo de reparação esteja em jogo: o de manter em segurança alguma coisa. Os onipresentes fenômenos obsessivos de arrumar e ordenar também podem ser vistos, neste ponto, como esforços para garantir que as coisas estejam no lugar certo, isto é, protegidas de danos.
Portanto, há na mania um verdadeiro dilema de equilibrar a
preservação e a destruição. Há algo que deve ser protegido da raiva do sujeito ou de suas tendências autodestrutivas. Em vez de lutar com a mescla confusa e turbulenta de amor e ódio, destruição e admiração, o maníaco-depressivo opta por uma solução mais extrema e, em última análise, mais coerente: separar categoricamente amor e ódio, para que um não contamine o outro. Isso significa, efetivamente, que o mundo do maníaco-depressivo é povoado por demônios e anjos. Ou é abundantemente cheio, ou é desesperadamente vazio.
Aqui, como observou Melanie Klein, o esforço está em manter os
traços negativos e positivos separados uns dos outros. Será possível que a mania, em si, seja o que acontece quando eles se aproximam demais? Como explicou uma paciente maníaco-depressiva, seus episódios maníacos eram desencadeados quando “havia uma coisa em que era ruim demais pensar, um conflito conflitante demais”. Na impossibilidade de simbolizar as ideias conflitantes como conflito, elas são cindidas. Talvez seja por isso que a raiva e a frustração são tão importantes nesse caso. “Quando não resta mais nada além da raiva”, dizia uma paciente, “ela se transforma em exultação.” Para ela, os episódios maníacos eram “raiva destilada”. Perguntada sobre o que precipitava esses episódios, ela respondia de imediato: “É quando fico com raiva de alguém de quem gosto.”
A cisão entre amor e ódio pode assumir diversas formas. Outra
paciente descreveu as oscilações de humor de sua mãe como tão insuportáveis que era mais fácil pensar que ela tinha não uma, e sim duas mães. E já que tinha uma mãe boa e outra má, ela podia dirigir o amor para uma e o ódio para a outra. Duke descreveu como costumava rezar, pedindo a Deus que sua mãe em depressão aguda saísse do quarto e fosse “a mamãe que ela era na semana passada”.
Essa ideia modula a concepção muito simplista do “mundo como
seio” na depressão maníaca. Afirmou-se que as euforias maníacas repetem a experiência de ser amamentado(a) no seio gratificante, e que as depressões repetem a vivência do seio frustrante. Mas, se a oferta parece interminável na mania e esvaziada na depressão, em vez de ver isso apenas como o reflexo de um seio doador de leite e um seio seco ou ausente, será que não se trata do próprio esforço, como assinalou Klein, de rejeitar o fato de que o seio é doador e não doador, gratificante e frustrante ao mesmo tempo? Ele é “todo
oferta” ou “nenhuma oferta”, em vez de ser “tudo e nada”.35
A DEPRESSÃO MANÍACA é o esforço de separar, de manter uma diferenciação elementar no lugar de um conjunto mais confuso e mais penoso de contradições. E talvez seja esse o verdadeiro sentido da bipolaridade: não a alternância de estados de humor que grande parte da psiquiatria contemporânea anseia tanto por caracterizar como patológica, mas a busca, por parte do indivíduo, de uma bipolaridade primária, de uma cisão basal dos traços. Quando os pesquisadores discutem onde terminam as alternâncias de humor do cotidiano e começa a bipolaridade, perdem de vista um aspecto crucial: o de que a depressão maníaca tem a ver, precisamente, com o esforço de criar extremos, de criar um mundo de opostos. Portanto, não faz sentido tentar encontrar bipolaridade nas oscilações de humor, a menos que isso seja o que a própria pessoa está tentando fazer.
O que parece constituir extremos de conduta na psicose
maníaco-depressiva, portanto, são maneiras de purificar os extremos: o cinza tem que ser separado em branco e preto. Nas palavras de Terri Cheney, “a mania não dá apenas o desejo de extremos, mas dá a energia para buscá-los”. Os binários devem manter-se distintos, e a bipolaridade é menos um pêndulo de humores que um esforço de manter dois polos separados. Cheney nos diz que a mania é mais do que uma “doença” – é um modo de pensar: “O mundo devia ser de um jeito ou de outro…” “Ou os homens nos faziam sentir segurança, ou nos faziam sangrar.
Quando não eram deuses, eram vilões…”36
Podemos ver a bipolaridade aí como uma espécie de solução.
Uma paciente descreveu a eclosão de um episódio maníaco depois de ver no metrô uma mulher parecida com sua mãe, lendo um livro intitulado Espíritos angelicais. Para ela, isso era uma contradição, pois os anjos eram bons, mas ela sempre havia pensado em sua mãe como um “espírito”, quando a mãe era possuída por uma força maléfica. Logo, os “espíritos angelicais” tinham que se manter separados, e fundi-los era impossível. Os muitos pares binários que emergiram na fase maníaca subsequente poderiam ser vistos como maneiras de manter a separação entre os dois.
Outra paciente descreveu que, quando hospitalizada, havia
“usado símbolos” para recuperar o equilíbrio. A luz do sol era ruim, mas a escuridão da noite era boa. Depois, ela havia usado esses termos para gerar conjuntos, a fim de que todas as coisas ruins fossem “simbolizadas” pela luz do sol, e todas as coisas boas, pela escuridão. Então, dado que ela ficava acordada a noite inteira, o bom e o mau podiam ser separados. Ela tentava dormir exatamente nos pontos em que as barreiras entre a luz e a escuridão eram mais fluidas: no pôr do sol e no amanhecer.
Poderíamos relembrar aqui Spike Milligan e o Carvalho dos
Duendes. Em vez de sentir uma mescla de tristeza e raiva, talvez, ao encontrar o trabalho de restauração da árvore maculado pela asa quebrada da fada, ele foi lançado num redemoinho de desespero. O mal não podia contaminar o bem. Para Milligan, isto era decisivo: os dois traços tinham que se manter categoricamente separados.
Essa separação pode ser vista como um modo de tratar a
questão da responsabilidade que evocamos antes. A asa quebrada significou que Milligan havia falhado e que suas dívidas não tinham sido zeradas. Nesse momento, a responsabilidade o atingiu como um trem-bala. Aquilo não era culpa de vândalos ou de uma criança descuidada, mas dele, e a magnitude da culpa que sentiu nessa hora sugere que ela foi o veículo de alguma outra coisa vinda do passado de Milligan ou de sua família.
Qualquer situação que envolva violência e ódio pode acionar
esse tema da responsabilidade e, com ele, a importância de proteger o Outro de danos. Como disse um paciente: “Não é tanto a agressão, mas o fato de que as pessoas vão pensar que a agressão foi minha.” Existe um horror de ser visto como violento, como se fosse preciso manter a qualquer preço um ideal de pacifismo. Os atos altruístas visam garantir esse ideal, donde qualquer sugestão de hostilidade ou falha pode ser devastadora: confrontaria a pessoa com uma responsabilidade que nunca pode ser inteiramente assumida.
Uma das maneiras mais frequentes de salvaguardar os outros é
idealizá-los, e é impressionante ver como isso ecoa nos livros de memórias de sujeitos maníaco-depressivos. Ao lermos escritos dos que foram rotulados de “esquizofrênicos”, é comum vermos uma crítica aos sistemas dominantes de valores, ao passo que, nos textos dos maníaco-depressivos, encontramos menos crítica do que endosso. Páginas de desapontamento com profissionais de saúde mental e com medicamentos são quase invariavelmente seguidas por frases como estas:
“Então encontrei o melhor de todos os médicos.”
“Então encontrei o melhor de todos os terapeutas.”
“Então descobri o remédio perfeito.”
Em muitos aspectos, o texto de Jamison, por exemplo, é uma
apologia do lítio, com uma idealização da “Ciência” e dos bons médicos. A montanha-russa de sua vida sempre termina no louvor a um médico, um remédio ou um terapeuta. Sem negar o valor desses agentes, é tentador supor que não foi simplesmente o médico ou o remédio que a ajudou, mas a função real da própria idealização. Por outro lado, é de fato extraordinário que alguém que conheceu tantos profissionais, leu tantos livros e teve tantos encontros com o sistema de saúde mental ainda consiga se proteger atrás da ideia de que a “Ciência” soluciona os problemas.
Enquanto os sujeitos esquizofrênicos frequentemente
questionam as estruturas de poder, os maníaco-depressivos podem investir alguma pessoa ou órgão de uma autoridade irrepreensível. Fromm-Reichmann e seus colegas assinalaram que qualquer terapeuta que trabalhe com a esquizofrenia precisa respeitar no paciente a necessidade de certo grau de “isolamento, ceticismo e independência em relação aos valores convencionais”. Na depressão maníaca, ao contrário, “o terapeuta deve ajudar [o paciente] a romper sua dependência da família ou dos substitutos dela e a reavaliar as convenções familiares”. O maníaco-depressivo não desistiu de sua crença no Outro. A ênfase, portanto, no dizer desses autores, deve incidir em questionar as convenções, minar as idealizações da autoridade que já se encontram em ação.
Tais idealizações também podem funcionar como uma forma
artificial de dívida. Quando Jamison nos diz que “a dívida que tenho para com meu psiquiatra é indescritível”, podemos ler essa afirmação em termos literais. A idealização pode ser um modo de construir uma dívida. Se a depressão maníaca gira em torno de uma foraclusão da dívida, faz sentido criar uma nova dívida, especialmente se ela for sentida como enorme. Às vezes, a sensação de endividamento perante uma autoridade pode ajudar a estabilizar a depressão maníaca, e seria precipitado fazer campanha contra as idealizações sem refletir devidamente sobre a
sua função em cada caso individual.37
Isso também pode estar ligado à busca generalizada da
perfeição, tal como vivida por inúmeros sujeitos maníaco-depressivos. Confrontada com a incoerência de um pai ou uma mãe, com o limbo apavorante de não saber se será amada ou ignorada da próxima vez que o/a vir, a criança pode construir um ideal de perfeição pessoal e parental. Se a perfeição pessoal implica a identificação com uma imagem ideal, compatível com o que a criança imagina que o pai ou a mãe quer que ela seja, a perfeição parental significa que as oscilações desse próprio pai ou mãe são negadas. Com grande frequência, essa operação é posteriormente realizada, na vida, mediante o uso de substitutos parentais, de modo que o sujeito descobre que alguém é a encarnação do olhar coerente e benevolente: um médico, um terapeuta, um amigo. Em geral, há uma pequena distância entre ele e essa pessoa, o que permite que a idealização se perpetue. Afinal, o excesso de proximidade significaria uma decepção inevitável.
Quando as coisas não vão bem, pode haver um esforço de
apelar para esse ideal, que pode assumir a forma de um homem ou mulher perfeitos, ou, em certos casos, da “perfeição” de uma casa ou um objeto. Duke descreve que fazia o máximo para criar refeições ou férias perfeitas para sua família, mas sentia uma raiva cada vez maior quando esse ideal ficava comprometido. “Eu tinha expectativas de que tudo fosse perfeito, expectativas que nunca poderiam ser realizadas.” No entanto, em vez de as coisas serem simplesmente falhas ou deficientes, eram catastróficas: “Já que a ocasião não podia ser o que eu esperava, seria uma merda. Então, eu fazia com que fosse uma merda.” Ela rasgava a decoração, quebrava pratos ou esfaqueava a bancada da cozinha com um facão. Ao que se seguiam os seus esforços para consertar, para
tornar tudo perfeito outra vez.38
SE A MANIA pode ser um modo de tentar separar o bom e o mau, temos uma pista do que acontece quando a euforia começa a diminuir. Com grande frequência, a pessoa se acalma através de uma forma concentrada de ódio, em geral sob a forma de uma ideia paranoide. Depois da alegria e do entusiasmo de suas fases maníacas, um paciente pensava, enojado, num homem que havia agido mal com ele e afundado sua empresa, anos antes. Embora esses pensamentos fossem intensamente desagradáveis, ainda assim eles o estabilizavam: “Penso naquele rato de cinco em cinco minutos”, dizia ele, construindo fantasias de vingança e repassando-as mentalmente, num suceder interminável.
Em outro caso, uma mulher com episódios maníacos descreveu
como sua sede de bebidas e drogas transformava-se numa fantasia homicida quando a euforia “entrava em recesso”. No início, sua agressão era dirigida contra alguém com quem houvesse lidado durante o dia. Depois vinha a ânsia de álcool e drogas, a qual, com o avançar da noite, passava para fantasias em que ela cravava o salto do sapato no rosto de uma mulher que ela soubera haver maltratado um gato. Ocorre que a paciente soubera da conduta dessa mulher mais de um ano antes, porém isso só vinha à tona nessas ocasiões, em suas fantasias de vingança.
Talvez pareça que essas ideias negativas precisam ser tratadas
à parte, e de fato é comum se prescreverem medicamentos para aliviá-las, mas é importante reconhecer seu valor funcional. Por mais dolorosas que sejam, elas podem proteger a pessoa de algo muito pior. Adams descreveu sua obsessão crescente com o acesso a uma escada de incêndio, durante a produção de uma peça: “Certo de que eu tinha razão e de que todos os outros estavam errados, aquela era uma causa de que eu não podia abrir mão, fossem quais fossem as consequências para mim.” Embora isso tenha levado a desentendimentos com outros membros da equipe, talvez seu valor último tenha sido terapêutico.
Aqui também poderíamos pensar nas muitas brigas que Spike
Milligan teve com instituições, em particular com a loja Harrods ou com a BBC. “Não deixe esses sacanas se safarem”, dizia, despejando energia e tempo em disputas sobre a brancura de envelopes brancos ou em causas maiores, como salvar árvores ou espécies locais ameaçadas. Devemos recordar que o trabalho de campanha permite que se faça não apenas o “bem”, mas também que se construa um inimigo: não se trata apenas de lutar por uma causa, mas de lutar contra algum órgão ou indivíduo. Esse novo perseguidor pode ajudar a moderar a mania.
Criar perseguidores é uma solução pela simples razão de que
põe a “maldade” fora do eu, organizando-a e separando-a do que quer que se considere “bom”. Embora isso possa gerar toda sorte de brigas com vizinhos, lojas ou instituições, também pode assumir
a forma mais banal da limpeza da casa.39 Seria difícil encontrar um caso de depressão maníaca em que essa atividade não tenha um lugar importante, ou, a rigor, encontrar um livro de memórias em que ela não seja mencionada. Embora isso possa ser interpretado como um ato de reparação do corpo materno, simbolizado pela casa, será que também não devemos vê-lo como um modo de criar uma divisão binária elementar, de separar o bom e o mau, o sujo e o limpo, numa cisão que surtiria efeito sobre a intensidade da raiva depressiva?
Era comum Vivien Leigh decidir que toda a sua propriedade
campestre em Notley tinha que ficar impecável, e ela então se empenhava numa maratona de limpeza e polimento. Em Nova York, durante um episódio maníaco, ela começou a catar a sujeira imaginária de um tapete até ser finalmente sedada. Behrman passava o aspirador em seu apartamento de forma implacável, centímetro por centímetro, sentindo uma estranha satisfação quando todo o pó e a sujeira eram retirados. E, durante um período de hospitalização, Brian Adams fez campanha para que a direção do fundo de assistência à saúde adotasse uma limpeza apropriada.
A sintomatologia obsessiva pode ser vista aqui sob um novo
prisma. Com certeza, limpar e arrumar podem constituir maneiras de lidar com a dúvida, como vimos antes, mas também podem ser um modo fundamental de manter as coisas separadas. Assim como duas características têm que ser cindidas na mania, a limpeza pode ter por objetivo diferenciar o limpo do sujo. É outra maneira de dividir o espaço e criar uma fronteira entre duas coisas, para que elas não se contaminem mutuamente.
A história da campanha de Adams é uma prova bastante trágica
do abismo cada vez maior entre os administradores da saúde e os pacientes. Após uma série de cartas entre as partes, um funcionário do fundo de assistência concluiu: “Consideramos que, de modo geral, o pavilhão é mantido limpo num padrão mais que satisfatório. Todavia, compreendo que, do ponto de vista do consumidor, talvez nem sempre pareça ser assim.” Que estranho, observou Adams, que as pessoas que aparentemente sofrem de doenças que levam sua visão da realidade a ser considerada falha sejam informadas de que, de fato, o tapete imundo só está imundo do ponto de vista delas, com isso reforçando a própria separação entre “realidade” e “fantasia” que a sua internação hospitalar pretende corrigir.
SE ÀS VEZES as ideias paranoides anunciam o fim de um episódio maníaco e podem exercer um papel protetor, do que elas protegem, afinal? Jamison fala num “nível quase arterial de agonia” em suas fases depressivas, “uma dor implacável e incessante” que, em alguns casos de psicose maníaco-depressiva, podem levar ao suicídio. Vimos que essas fases de baixa podem ser entendidas como uma desforra, na qual o retorno do sentimento de dívida da pessoa passa a ser sentido em todos os cantos da mente e em cada músculo do corpo.
A psicanálise, nesse ponto, cometeu muitas vezes o erro de
combinar a melancolia com a mania, porém as melancolias sem mania são bem diferentes das fases depressivas da depressão
maníaca.40 Como assinalou Behrman: “Ao contrário do que acredita a maioria dos psiquiatras, a depressão da psicose maníaco-depressiva não é a mesma que os deprimidos unipolares relatam. … Minhas depressões assemelhavam-se a tornados – episódios acelerados que me levavam a fúrias sombrias de pavor.” Essa diferença talvez se reflita no fato de a expressão “psicose maníaco-melancólica”, embora usada no fim do século XIX, nunca ter se tornado corrente, como se houvesse, em algum nível, um registro de que não havia uma equiparação simples entre a melancolia e os tipos de depressão aqui examinados.
Para Jamison, suas depressões eram temperadas por “períodos
de um terrível e frenético desassossego”. Seus pensamentos ficavam “encharcados de sons e imagens medonhos de decadência e agonia”. O “caráter mortífero” das imagens da fumaça e das chamas do desastre aéreo que ela testemunhara quando criança estava sempre presente, “entrelaçado de algum modo com a beleza e a vitalidade da vida”. Sua mente girava incessantemente em torno do tema da morte. “Eu ia morrer, que diferença fazia alguma coisa? A vida era curta e sem sentido, para que viver?” Exausta, ela mal conseguia levantar da cama de manhã. Descreveu que “arrastava a mente e o corpo exauridos por um cemitério local, remoendo ideias sobre quanto tempo cada um de seus habitantes teria vivido, antes do momento derradeiro”. “Tudo era um lembrete de que tudo
acabava no necrotério.”41
Para Milligan,
A dor é extrema
Mil invernos sombrios
crescem em minha cabeça
Em meus ouvidos
o som dos
futuros mortos.42
Aqui, a ênfase recai no caráter transitório e sem sentido de nossa
vida. O esforço e as realizações humanos nada são, já que todos nos transformaremos em pó. O brilho da vida esmaece de repente, quando o espectro da mortalidade invade os pensamentos do maníaco-depressivo. Isso é bem diferente da depressão do melancólico, que gira em torno de ideias de ruína moral, espiritual ou corporal. Na melancolia, a pessoa se enfurece consigo mesma, irradiando uma ladainha de autorrecriminações e se queixando sem parar de algum pecado ou erro cuja culpa é sua.
É óbvio que o sentimento de culpa está presente na depressão
maníaca, mas há também algo diferente. Embora o melancólico possa se queixar de estar arruinado ou destruído, ele atribui o processo destrutivo a si mesmo, ao passo que o maníaco-depressivo coloca esse processo fora de si. É a diferença entre “eu destruí o Outro” e “o Outro me destruiu”. Ainda que as ideias de desvalia e decadência possam estar presentes em ambos, a ênfase é diferente. Do mesmo modo, enquanto o melancólico com frequência sente culpa por algum ato ocorrido no passado, é interessante notar que o sujeito maníaco-depressivo não raro situa a catástrofe no futuro. Algo terrível vai acontecer.
E, embora o maníaco-depressivo possa se sentir sem valor e
desprezível, há menos fixação na autocensura e uma insistência menor em contar isso ao mundo. Essas características são cruciais para permitir o diagnóstico correto da depressão maníaca e para distingui-la da melancolia. Enquanto na melancolia a pessoa carrega a falha em seus próprios ombros, decidida em sua autodegradação e autopunição, na depressão maníaca a falha oscila. Nas fases depressivas, a pessoa percorre não apenas seus próprios erros e maus desempenhos, mas também os dos outros e as muitas maneiras pelas quais os outros a prejudicaram. Daí as fantasias comuns de vingança do maníaco-depressivo, ausentes na melancolia. Em suas terríveis depressões, Patty Duke se punia e responsabilizava os outros: “Minhas ideias variavam desde culpar os
outros até ansiar pela paz de espírito absolutamente inatingível.”43 É como se a raiva não pudesse ser inteiramente absorvida pela culpa, uma vez que a culpa não atinge a fixidez delirante que tem na melancolia.
Outra diferença é importante aqui. Muitas vezes, o sujeito
maníaco-depressivo pode se sentir paralisado durante a fase depressiva, como se até a mais simples decisão do cotidiano fosse impossível de ser tomada. Ao levantar da cama, ele se pergunta que roupa deve usar, o que deve comer, em que direção deve andar e que palavras deve proferir quando alguém o cumprimentar. Enquanto, na mania, as decisões simplesmente parecem tomar-se sozinhas, no estado depressivo tudo se congela, como se as decisões se transformassem em tarefas insuperáveis. “Não era que eu não pudesse decidir”, disse-me um paciente. “É que simplesmente já não havia nenhum ‘eu’ para tomar a decisão.”
Se o “eu” é tratado como um objeto pernicioso na depressão
melancólica, e por isso se faz muito presente, aqui ele é apagado. “Eu me sentia como se tivesse perdido a mim mesmo”, explicou um homem. “Só queria ficar quieto, retirar-me do mundo físico.” Uma mulher descreveu que “só queria ficar deitada. Eu simplesmente parava, como se houvesse um buraco no meio da minha alma”. Vivien Leigh, em suas piores fases de depressão, tinha a sensação de ser “como uma coisa, uma ameba, no fundo do mar”. É difícil não imaginar os atrativos do intenso sentimento de identidade experimentado durante a mania, ao contrastá-lo com esse vazio.
Se aqui as depressões são paralisantes, elas não são
necessariamente lentas. As depressões faiscantes e aceleradas que muitos sujeitos maníaco-depressivos experimentam talvez sugiram que a separação das características, que dissemos ser um objetivo da depressão maníaca, é inexequível. Mais uma vez, o termo “depressão maníaca” revela-se sugestivo: a depressão em si pode ser maníaca. Existe aí, é claro, uma grande variação clínica, mas o modelo simples do pêndulo, que envolve a oscilação de um estado para outro, deve ser questionado, como assinalaram muitos maníaco-depressivos. De fato, a psiquiatria do início do século XX observou que os chamados “estados mistos”, nos quais parecia haver um amálgama de mania e depressão, talvez fossem ainda mais frequentes do que a mania pura ou as baixas depressivas. Os sentimentos podem mudar do êxtase para o desespero em questão de segundos.
Um homem descreveu seus estados mistos “como um CD
pulando”. Incapaz de passar mais de trinta segundos sentado, ele vivenciava um sentimento agudo e devastador de frustração. “Isso é pior que qualquer depressão”, prosseguiu. “A gente não sabe dizer se está alegre ou triste.” Neste ponto, poderíamos observar que o horror dos estados mistos identifica-se com o fracasso de um binário – nem alegre nem triste –, o que indica, mais uma vez, que a produção de contrastes, de uma divisão, pode ser aquilo que a depressão maníaca visa como solução. Como disse outra pessoa maníaco-depressiva, desta vez ao encontrar um binário: “Os altos não são tão felizes e, na verdade, ‘altos’ e ‘baixos’ não são as palavras certas. Está mais para ‘veloz’ e ‘lento’.”
Jane Pauley descreveu que suas “marés de humor”, nesses
estados, “corriam nas duas direções ao mesmo tempo”. “Parecia uma miniatura de corrida de motocross acontecendo na minha cabeça.” Jamison descreveu as intensas fusões de “negros estados de ânimo e grandes paixões”. Questionou, com acerto, a rígida separação entre depressão e mania, escrevendo que “essa polarização de dois estados clínicos contraria tudo que sabemos sobre a natureza fervilhante e oscilante da doença maníaco-depressiva”, e questionou a possibilidade de a mania ser simplesmente uma forma extrema de depressão – ideia inicialmente veiculada pelos discípulos de Freud. Com efeito, Kraepelin, cujo trabalho serviu para popularizar a ideia de “insanidade” maníaco-depressiva, pôde concluir que seria incorreto dizer que uma pessoa é maníaca ou depressiva. Essa descrição é “totalmente artificial e arbitrária”.
De fato, nossa argumentação sugere que, se a depressão
maníaca é um esforço para separar e diferenciar polaridades, os estados mistos poderiam ser vistos como o estado psíquico básico original, e não como uma espécie de subproduto patológico. A rígida separação evocada por Jamison talvez seja, precisamente, o que o sujeito maníaco-depressivo busca, mas, na maioria dos casos, não consegue criar. Cheney assim descreveu, brilhantemente, a experiência dos estados mistos: “Eu ficava cheia de uma energia irrequieta e não dissipada, que não tinha para onde ir, fazendo-me querer explodir e quebrar alguma coisa, de preferência algo que se espatifasse e tilintasse em mil pedacinhos reconfortantes.” Havia nisso toda a energia da mania, mas não a euforia. Ela sentia uma necessidade desesperada de bater em alguma coisa, mas, quando de fato bateu no homem com quem estava numa dada ocasião, lamentou-o no mesmo instante: tinha de bater em alguma coisa,
mas “nunca pretendi que fosse em você”.44
A única coisa que dava a Cheney alguma sensação de alívio era
o som de vidro ou porcelana quebrando, e ela espatifava uma xícara após outra. “Poucas coisas”, escreveu, “são fortes o bastante para sobreviver a esse choque mortal da mania e da depressão. Não o amor, com certeza. O amor é frágil demais: é uma janela panorâmica, implorando para ser estilhaçada.” Poderíamos ligar essa passagem a uma lembrança do segundo livro dela, na qual, arrasada pelo fato de o pai ter escolhido a mãe, e não a ela, para jantar fora, Cheney espatifou um espelho de corpo inteiro. Voaram cacos de vidro para todo lado e, naquele momento, ela soube que havia “assassinado a voz da minha mãe”, a voz que disse “não” à possibilidade de ela os acompanhar.
Aqui talvez sua mania tenha sido uma forma de exclusão da
mãe, porém o que é mais notável no relato de Cheney é a fragilidade do amor. A mania é comumente acompanhada por um senso de amor disseminado, universal, mas nesse caso ele é descrito como uma mera “janela panorâmica” à espera de ser quebrada. Pela autobiografia de Cheney, sabemos que suas fases maníacas envolviam uma identificação com o pai entusiástico e cheio de energia. Empolgar-se com as maquinações dele tinha sido uma parte crucial de sua infância, e ficamos com a sensação de que seus entusiasmos eram um modo de criar uma distância da mãe. O amor pelo pai baseava-se nesses frágeis momentos compartilhados de animação, vitais para permitir uma fuga da mãe, porém, ao mesmo tempo, fadados a se desintegrar, como o ônibus espacial evocado por meu paciente.
Quanto mais frágil o amor, maior, talvez, a necessidade de
investir nele. E isso pode fazer parte do extraordinário senso de lealdade que encontramos na depressão maníaca. Por mais que sejam maltratados, injustiçados ou difamados por algum indivíduo significativo, os portadores da doença permanecem fiéis a ele, mesmo que outras pessoas do seu círculo sejam abandonadas por terem feito estragos muito menores. Assim como se haviam agarrado a um amor que os salvou de um espaço perigoso e apavorante, no qual poderiam ser abandonados a qualquer momento, esses indivíduos tentam desesperadamente garantir a existência de uma figura que encarne isso para eles, quer se trate de um amante, um médico ou um terapeuta.
Poderíamos assinalar aqui que separar dois traços que ficam
próximos demais nos estados mistos talvez seja a solução psíquica certa, mas, na verdade, não pode ter êxito. Por quê? Porque, como viram Klein e Lacan, para que se estabeleça certa paz na psique, o dois precisa passar para três – uma transformação dialética que, quase invariavelmente, produz o efeito de tristeza. Permanecendo num campo com dois termos, a pessoa tem poucas alternativas senão oscilar entre eles. Com três, é possível produzir-se uma significação e situar ou triangular uma perda na vida da pessoa.
Durante um episódio maníaco, uma mulher usou sua energia
para documentar meticulosamente o movimento de seus pensamentos. Além de muitas páginas de texto, ela produziu um diagrama de sua depressão maníaca: um globo com “suicídio” escrito no alto e “assassinato” embaixo. No equador havia uma linha fina de espaço seguro, mas a verdadeira segurança só podia ser alcançada ao unir os dois polos e o núcleo: “Os três precisam se juntar”, disse ela, “mas nunca consegui solucionar esse problema.” Depois ela passava horas tentando combinar três expressões faciais distintas na imagem de um único rosto, sem solução. A depressão maníaca, disse, “tem a ver com tentar elaborar um conflito”, manter separados dois estados, o que, em última instância, não é possível
sem alguma forma de mediação por um terceiro.45
PASSEMOS A UMA última questão: o caráter cíclico da depressão maníaca. Nesse aspecto, é revelador que até os pesquisadores de maior inclinação psicológica tenham apontado para uma base biológica subjacente. O psiquiatra Harry Stack Sullivan, por exemplo, embora reconhecendo as raízes psicodinâmicas da maioria das psicoses, sustentou que havia um substrato físico na depressão maníaca. A periodicidade das alterações de humor afigura-se tão intrigante e opaca, para muitos clínicos, que há um apelo ao corpo, como se isto, por si só, bastasse para responder à
questão do momento e do ritmo das manias e depressões.46
Mas é justamente esse impasse que fornece a pista. Indagar por
que um episódio começou na ocasião em que começou produz com tanta frequência uma ausência de resposta, que é como se nenhuma causa ou desencadeador se evidenciasse. Os estados de humor se alteram sem ligação aparente com qualquer causa externa. Mas aqui talvez a ligação esteja exatamente na impossibilidade de conexão. Os médicos dos anos 1940 descreveram o que Sándor Ferenczi, um discípulo de Freud, havia chamado de “reações de aniversário”, nas quais um sintoma físico aparece no aniversário de uma data significativa. A chave estava em que a pessoa não estabelecia nenhuma ligação entre essas datas. O sintoma aparecia, precisamente, porque a lembrança não
surgia.47
Uma mulher acordou, certa manhã, com uma dor lancinante nas
costas. Não conseguia se mexer e, nos meses seguintes, foi examinada por médicos e especialistas, no esforço de diagnosticar o que havia de errado e encontrar um remédio. Ela mencionou a um dos fisioterapeutas que a visitaram que vinha tendo pesadelos, e ele lhe sugeriu que entrasse em contato comigo para uma conversa. Tratou-se certamente de uma conversa, e não de uma análise, e uma das primeiras coisas que perguntei foi se a data em que ela acordara com a paralisia lhe era significativa. Ela pensou um pouco e respondeu que não.
Quanto aos pesadelos, tratava-se de variações em torno de um
único tema. Ela tentava fechar uma mala ou reunir sua bagagem, mas sempre falhava. Quando falou de sua história, os sonhos adquiriram uma ressonância especial. Quando criança, durante a guerra, fora forçada a tomar uma decisão que havia significado, efetivamente, deixar sua mãe, que ela passaria décadas sem ver. Não seriam os pesadelos, na verdade, encenações da impossibilidade de partir? A incapacidade de fechar as malas ou de reunir a bagagem significaria ela não poder ir a lugar nenhum.
Quando então voltamos à questão das datas, ela ficou
horrorizada e admirada ao se dar conta de que o dia em que acordara com a paralisia era exatamente o dia em que deixara sua mãe na guerra. A culpa pela partida havia gerado o sintoma, porém o mais notável, nesse caso, foi a impossibilidade inicial de ver qualquer significação na data, quando lhe fiz uma pergunta direta. Só depois do diálogo subsequente é que a ligação se tornou clara. O sintoma havia emergido no ponto exato em que ela não conseguira ligar duas coisas.
Na mais simples de suas formas, não é uma variação de humor
exatamente isto: a não ligação de uma ideia com outra? Quando acordamos num estado de ânimo sombrio e nervoso, às vezes nos damos conta, mais tarde, de que isso se deve a um telefonema que teremos de dar nesse dia, ou, quem sabe, a um sonho que tivemos durante a noite. Esse estado de humor não se dissipa enquanto não se estabelece a ligação. A escritora Rebecca West sempre entrava num clima de tristeza doloroso e pensativo ao ver cadeias de montanhas, e esse estado de ânimo só evaporou quando ela ligou sua reação aos gráficos da alta e da baixa dos preços das ações do cobre, que, durante sua infância, seu pai examinava com angústia no café da manhã.
A natureza anistórica de muitas descrições da depressão
maníaca corrobora essa ideia. A infância de Jamison é descrita como feliz e sem incidentes, nas mesmas páginas em que lemos sobre situações dramáticas e sobre um pai que poderia ser interpretado como visivelmente doente. Embora os dois fios estejam presentes, a ligação entre eles mostra-se ausente. No entanto, quanto mais a história é foracluída, mais as oscilações da depressão maníaca parecem arbitrárias e contingentes, como se o relógio do corpo atendesse somente pelo nome de biologia. Poderíamos, ao contrário, ver essas oscilações como resultado de uma dificuldade de inscrever a história, gravitando com frequência em torno de um ponto de impossibilidade em que algo não pode ser simbolizado ou psiquicamente elaborado.
Neste ponto, poderíamos pensar na morte dos ancestrais de
Stephen Fry no Holocausto, ou nas estranhas referências aos campos de concentração no livro de memórias de Andy Behrman. Este último, de fato, começa por uma espécie de lista de afazeres com 25 itens, que vão de “Salão de bronzeamento” e “Buscar lítio e Prozac” a “Comprar um cachorro”, mas incluem itens aparentemente incongruentes, como “Visitar Auschwitz” e “Fazer documentário sobre o Holocausto”. Fromm-Reichmann e seus colaboradores haviam enfatizado como se pode contar com o maníaco-depressivo para elevar o prestígio da família ou do clã num mundo hostil, guiado e oprimido pelos ideais de sucesso e integração. E porventura isso não é acompanhado, com frequência, pelo imperativo de esquecer a própria história, de se elevar acima do passado? E então, na depressão maníaca, ele retorna violentamente.
É o que vemos, de maneira bastante literal, no caso de Patty
Duke. Separada da família, em tenra idade, por um casal ansioso por administrar sua carreira de atriz, um dia ela foi informada de que seu nome teria que desaparecer. “A Anna Maria morreu”, disseram-lhe. “Agora você é a Patty.” Até sua linguagem e seu sotaque teriam de ser reformulados, enquanto ela era transformada numa menina-robô, instruída com precisão sobre o que dizer e fazer e obrigada a se exercitar várias horas por dia. “Fui privada de meus pais, privada do meu nome e, por fim, privada da minha religião, e eles ficaram com uma tábula rasa para fazer o que bem entendessem.” Não admira que tenhamos visto sua história retornar, anos depois, sob a forma de seus agudos altos e baixos.
Essa questão da história também fica clara no caso de Jane
Pauley. Seu primeiro episódio maníaco resultou, supostamente, da prescrição de um antidepressivo e um esteroide para tratar um ataque bizarro de urticária. Se, por um lado, essa explicação pareceu evidente, dado o fato de as duas drogas estarem associadas ao desencadeamento de episódios maníacos, por outro, Pauley não tinha como ficar inteiramente satisfeita. “Ocorreu-me a
ideia de descobrir em que eu estivera trabalhando no Datelinef na época em que a urticária reapareceu pela primeira vez. Reexaminando meus arquivos de computador de março de 1999, descobri uma dúzia de pastas com o mesmo nome: ‘Papai’.”
O contexto disso foi a participação dela num programa de
televisão intitulado Roots [“Raízes”], que examinou sua história familiar. Pauley se lembrou de haver pensado no pai na primeira noite que passou no hospital, e sua urticária tinha surgido, numa manifestação extremamente agressiva, quando ela estava lendo a autobiografia de Moss Hart, Act On [Ato um]. Sua curiosidade fora despertada por esse livro porque ele tinha estado na mesa de cabeceira de seu pai durante anos, e, quando enfim Pauley voltou à leitura do texto, após o surgimento de seus sintomas, a frase imediatamente seguinte ao ponto em que ela havia parado de ler dizia “Tive um ataque de urticária”. Ela se deu conta de que seus
sintomas estavam ligados ao luto pela morte do pai.48
A reconstrução que Pauley fez de sua história nos permite
compreender o surgimento de seus episódios maníacos, e o trabalho autobiográfico de autores como Cheney e Fry mostra que os ciclos aparentemente arbitrários da depressão maníaca nunca são acidentais. Há aí uma dificuldade de integrar a história, como se as ligações com o passado do sujeito não pudessem ser abarcadas de forma significativa. Daí a natureza aparentemente anistórica da depressão maníaca: às vezes, as oscilações de humor parecem provir do nada.
Se, em algumas ocasiões, elas podem ser claramente
correlacionadas com datas de aniversário – uma profunda depressão surgida no mês em que se perdeu um ente querido, muitos anos antes –, também são desencadeadas em momentos em que aparece na vida da pessoa um elemento não integrável, como uma fúria difícil de elaborar contra alguém querido, ou um lembrete de uma culpa que nunca foi adequadamente inscrita. Aqui, o denominador comum é um sentimento oscilante de responsabilidade, muitas vezes por uma morte, que é evocado nessas ocasiões, mas nunca pode ser inteiramente apreendido ou identificado com clareza. O problema de integrar esses elementos gera uma sensação disseminada de, precisamente, integração, quando na mania tudo faz sentido, tudo parece se ligar. Mas isso tende a resvalar de novo para um buraco, à medida que o arco da mania avança.
Poderia isso sugerir que a atual prevalência da chamada
“bipolaridade” não é um simples artifício da promoção comercial das novas categorias diagnósticas pelas empresas farmacêuticas? Vivemos numa era que da boca para fora valoriza a história, mas solapa continuamente os laços que temos com o passado. A narrativa das vidas humanas acha-se mais ou menos ausente na economia da assistência de saúde, na qual os sintomas são vistos como problemas a serem tratados localmente, e não como sinais de que há algo errado num nível mais fundamental. Será por acaso que o eletrochoque, visto como o horizonte de todos os outros tratamentos da depressão maníaca, é algo que atua essencialmente sobre a memória humana, como um modo de eliminar a história?
Poderíamos evocar, neste ponto, um trágico encontro visto num
documentário de televisão sobre a depressão maníaca. Uma mulher cuja mania fora desencadeada após o nascimento do primeiro filho, e que queria ter outro bebê, consultou um “especialista” e soube, aparentemente, quais eram seus riscos. Preocupava-se com a possibilidade de ter outro episódio maníaco grave, e embora, como telespectadores, não participemos da conversa entre ela e o médico, o psiquiatra fala com o apresentador do programa sobre os perigos do parto como evento desencadeante, e fala sobre as estatísticas de suicídio pós-parto. Vemos a mulher deixar o prédio e a ouvimos externar sua decisão de não ter outro filho, dados os riscos que isso envolveria.
O que não ouvimos são as razões do desencadeamento anterior
que ela sofreu, e podemos indagar se, caso elas tivessem sido adequadamente exploradas, teria sido possível formular uma estratégia que lhe permitisse evitar outro episódio maníaco por ocasião do parto. Em vez disso, é como se a vida dela fosse reduzida a um modelo estatístico, do qual se retirou todo o senso de história e sentido humanos. Os dados numéricos externos podem lhe informar quais são os seus riscos, sem as semanas e meses de diálogo que poderiam produzir um quadro mais verdadeiro, e que também lhe permitiriam modificar o destino ditado pela estatística.
Tais preconceitos encontram eco numa cena igualmente
perturbadora, na qual Jamison visitou uma faculdade de medicina para falar sobre a depressão maníaca. Indagados sobre qual seria sua escolha, se existisse um exame genético que previsse a depressão maníaca num filho seu, quase todos os alunos, internos e médicos presentes no auditório disseram que abortariam o feto. Como assinalou Emily Martin, isso sugere a existência efetiva de uma incompatibilidade entre a depressão maníaca e a vida
humana.49
Neste ponto, não devemos esquecer que, tradicionalmente, a
depressão maníaca era vista como a forma de psicose com maior probabilidade de se estabilizar e se resolver com o tempo, ao passo que, hoje em dia, tem quase a reputação inversa. Isso está ligado, sem dúvida, à abdicação dos esforços para compreender o mundo do maníaco-depressivo, em prol de uma abordagem que visa administrar e controlar uma doença aparentemente biológica. Já se argumentou, com efeito, que os índices de recuperação eram melhores na era anterior aos medicamentos, enquanto, na atualidade, é quase certo o diagnóstico de depressão maníaca levar a um regime pesado de medicamentos e, em muitos casos, a um prognóstico sombrio. Isso contrasta de modo marcante e maciço com a psiquiatria do passado.
Em vez de ficarmos cada vez mais exclusivamente obcecados
com o ajuste preciso da medicação, precisamos situar a vida do sujeito maníaco-depressivo no contexto, explorando os detalhes dos altos e baixos e resistindo à opção fácil de um apelo encobridor à biologia. A depressão maníaca deve ser criteriosamente distinguida de ideias vagas e inúteis de transtornos do espectro bipolar, e diagnosticada por meio dos temas que lhe são característicos: a fuga de ideias, o sentimento especial de ligação com o mundo, a oscilação de uma culpa e o esforço de criar uma separação categórica entre o bem e o mal. É inquietante que o próprio tempo necessário para fazer isso seja negado, em geral, até mesmo aos clínicos que desejam seguir essa abordagem. Encobrir e eliminar a história e a particularidade fazem eco às condições da própria depressão maníaca.
Não devemos subestimar aqui o peso da mercantilização do
transtorno bipolar. À medida que se multiplicam as referências a ele e que estudos pressupõem sua existência como uma categoria diagnóstica válida, ele vai se equiparando a uma entidade biológica imutável. Mais e mais pessoas passam a se ver como bipolares, sofrendo de um “transtorno” que segue seu próprio conjunto de regras, externamente classificadas. Um dos resultados disso é que se perde a especificidade de cada caso, como vimos no exemplo da mulher que se sentiu desanimada de ter outro filho, como se todos os casos fossem iguais. O sentido que cada indivíduo daria aos acontecimentos de sua vida desaparece, à medida que ele se torna apenas mais um exemplo de uma “doença”.
Sendo o tempo a mercadoria essencial dos dias atuais, e sendo
o “dar sentido” visto como uma perturbação irritante da assistência médica “científica”, as pessoas são privadas da oportunidade de explorar seu passado, no contexto de suas dificuldades atuais. Se a constelação do maníaco-depressivo inclui em si uma linha básica de fissura – a impossibilidade ou até a recusa do sujeito a se inscrever em alguma faceta de sua história –, o desprezo dessa dimensão pela sociedade só pode exacerbar seus problemas. Precisamos retornar a uma abordagem anterior e mais humana, que atente para a particularidade de cada caso e ofereça ao maníaco-depressivo a chance de assumir – ainda que da maneira mais lenta e dolorosa – o que puder ser assumido de sua história, e de encontrar um modo de conviver com o que ele não puder assumir.
a O jogo ficou conhecido como “Oráculo de Bacon”. (N.T.)
b Vale notar que, em todos os exemplos citados, os vocábulos da língua inglesa que permitem a ligação associativa são homófonos ou rimados. (N.T.)
c Numa alteração do título da famosa canção de Bart Howard, “Fly Me to the Moon”. (N.T.)
d A Rentokil é uma grande empresa de desinsetização e controle de pragas no Reino Unido; a British Paints é uma das maiores produtoras e distribuidoras inglesas de tintas na Europa. (N.T.)
e Vale lembrar que os computadores Macintosh são produzidos pela Apple [maçã]. (N.T.)
f Noticiário da rede de televisão NBC do qual Jane Pauley foi âncora por doze anos, ao lado de Stone Phillips. (N.T.)
Você terminou Simplesmente bipolar
Darian Leader
Livros como este
-
Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade
-
Depressão: clínica, crítica e ética
-
Psicologia da saúde: teoria, intervenção e pesquisa
-
Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
-
A saúde persecutória: os limites da responsabilidade
-
Cérebro: Uma Biografia
Depois do livro
Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.