Só o Amor Liberta

Célia Xavier de Camargo · Capítulo 3 de 4

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Só o Amor Liberta

— A senhora trabalhou muito hoje. Precisa…

— A senhora trabalhou muito hoje. Precisa relaxar um pouco. Aceita um copo de vinho?

Valéria ficou constrangida, julgando que seria indelicadeza recusar.

— Aceito. Só um pouquinho. Mas, e as correspondências?

— Não se preocupe. Eu mesmo entregarei em mãos. Tenho um jantar ainda hoje com empresários e pessoas do governo.

Carneiro entregou-lhe uma taça de vinho enquanto falava de como estava satisfeito com seus serviços, quanto era eficiente e como gostava dela. Valéria, nesse momento, percebeu que ele já tinha bebido.

Delicadamente, ela tomou um gole de vinho e respondeu:

— Agradeço-lhe, senhor, mas não faço mais do que cumprir minhas obrigações. Preciso ir agora — disse, fazendo menção de levantar-se.

O chefe, que se erguera para servir-se de nova dose de bebida e passava por detrás da poltrona onde Valéria estava sentada, impediu-a, inclinando-se e cheirando seus cabelos:

— Seu perfume é delicioso, Valéria.

Estendeu os braços para envolvê-la; mas quando ela sentiu o resfolegar dele no seu pescoço, seu hálito quente e o odor de bebida que tresandava, foi mais ágil. Levantou-se de um pulo e fugiu do abraço dele.

— Senhor Carneiro, é tarde e preciso ir para casa.

— Não, fique. Vamos jantar juntos para comemorar.

— Não posso. Lamento. E comemorar, o quê? Além do mais, o senhor disse que já tem um compromisso para esta noite — lembrou-o, como secretária eficiente, pensando que ele já tinha bebido demais e poderia se esquecer.

Assim dizendo, pegou a bolsa e saiu correndo do escritório. O coração batia forte no peito. Só ficou mais tranqüila ao ver-se em plena rua. Andou apressadamente por muitas quadras até que, cansada, resolveu parar um pouco para descansar.

Valéria sentou-se numa pequena praça. O que fazer? Não podia voltar para casa naquelas condições: completamente desequilibrada, nervosa, angustiada, lágrimas correndo pelo rosto, mãos trêmulas. Como justificar seu estado perante o marido e as filhinhas?

Estava entregue a si mesma, sem saber o que fazer, sem coragem para voltar para casa, quando uma senhora chegou de mansinho e sentou-se a seu lado no banco. Com delicadeza, ofereceu-lhe um lencinho:

— Posso ajudar, moça?

Valéria virou-se, viu uma mulher desconhecida e sentiu vergonha de estar chorando em plena praça. Aceitou o lenço, assoou o nariz e enxugou as lágrimas, depois murmurou:

— Obrigada. Agradeço sua atenção. Estou realmente desesperada, mas ninguém pode me ajudar.

— Quem sabe? Não há problema sem solução, minha filha. Confie em Deus. Olhe, está vendo aquele pequeno portão, ali na frente?

Valéria olhou e viu um portãozinho de ferro.

— Sim.

— Pois bem. Nesta noite, ali mesmo, temos um trabalho de ajuda aos sofredores e aflitos. Quer participar? Asseguro-lhe que se sentirá muito bem. Sua privacidade será respeitada. Se não quiser falar, não será obrigada. Terá, no entanto, um ambiente tranqüilo para se acalmar e depois voltar para sua casa. O que acha?

Valéria, que não queria mesmo retornar para o lar naquelas condições, aceitou.

Adélia, a nova amiga, conduziu-a. A casa era antiga, com paredes brancas e as janelas com detalhes em azul. Na frente, uma placa com o nome: "Centro Espírita Amor e Paz".

Valéria gostou do nome e pensou que sempre tivera curiosidade de entrar num centro espírita, sem nunca ter coragem. Tinha chegado a hora.

Atravessaram a rua e entraram. Além do portão, surpreendente e lindo jardim surgiu cheio de arbustos e flores. Uma música suave tocava, levando Valéria a sentir inusitado bem-estar.

No salão, que caberia no máximo uma centena de pessoas, tudo era serenidade; os que ali já se encontravam mantinham-se em recolhimento íntimo. Tudo transpirava tranqüilidade e paz.

Adélia, em voz baixa, explicou à nova amiga que haveria uma palestra e, depois, o trabalho de aplicação de passes; em seguida, ela poderia, se assim o desejasse, conversar com alguém do Serviço de Atendimento Fraterno.

Durante a prece inicial e a palestra, Valéria sentiu grande emoção, sentimento esse que aumentou na hora do passe. Como se as comportas de sua alma não suportassem mais a pressão, chorou copiosamente.

Encerrada a reunião, como sentisse vergonha de conversar com uma pessoa estranha, foi introduzida numa pequena sala, no fundo, abrindo seu coração para Adélia, sua nova amiga e trabalhadora da casa. Quando terminou de falar, suplicou de forma comovente:

— Ajude-me, Adélia. Não sei o que fazer.

Com serenidade, a senhora, que a ouvira de forma atenta e respeitosa, considerou:

— Você me disse que nunca foi ligada a religião e que não tem o hábito de orar. No entanto, reconhece que o ambiente da nossa casa, a prece, a palestra e a aplicação de energias por meio do passe lhe fizeram muito bem. Tudo isso, Valéria, é o resultado da fé.

Prosseguiu falando, calmamente, de forma concisa e clara, do amparo de Deus que nunca abandona seus filhos e que grande parte das vezes as pessoas não percebem essa ajuda. Explicou sobre a necessidade de elevação do pensamento para sentirmos a proteção divina. Considerou que, provavelmente, seu patrão também estaria necessitado de ajuda, o que demonstrava com suas atitudes, e orientou-a a orar por ele.

— Quando pensar em seu patrão, ao invés de mandar-lhe pensamentos negativos, de desprezo, raiva e rancor, ore por ele. Ao entrar na empresa envie pensamentos bons para todos, especialmente para seu chefe, desejando-lhe um bom dia e o amparo de Deus para ele e sua família. Você verá a diferença, Valéria.

— Será? Justo para esse homem que me atormenta? — considerou.

— Experimente. Você vai se surpreender. E, para completar, sugeriu:

— Como você disse que nada conhece sobre Doutrina Espírita, se tiver interesse, venha estudar conosco. Garanto-lhe que vai gostar.

Despediram-se e Adélia deu-lhe de presente um exemplar de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Valéria agradeceu a gentileza e prometeu voltar.

Estava ótima. Uma sensação de bem-estar, de otimismo e de confiança a dominava por inteiro. Sentia-se fortalecida, segura, e com a sensação de que poderia resolver qualquer problema. Entrou em casa e todos perceberam que estava alegre e bem-disposta. Naquela mesma noite, antes de dormir, leu um trecho do novo livro e encantou-se. O Evangelho de Jesus surgia-lhe renovado e as explicações falavam-lhe de uma maneira que nunca tinha lido antes.

No dia seguinte, agiu como se nada tivesse acontecido. Conforme Adélia tinha sugerido, entrou fazendo uma prece e enviando bons pensamentos ao chefe e a todos os funcionários. Então, no escritório as coisas começaram a mudar como conseqüência da sua própria mudança de atitude.

Um fato novo aconteceu, que Valéria julgou ser obra do "acaso". Ao atender uma ligação telefônica, uma mulher desejava falar com o senhor Carneiro. Como ele não estivesse, perguntou o nome para ligar de volta assim que ele chegasse.

— Diga-lhe apenas que Norma telefonou. Sou a esposa dele.

— Ah! Pois não, dona Norma. Darei o recado.

Trocaram algumas palavras e houve uma imediata simpatia entre elas.

A partir daquele dia, Norma voltou a telefonar outras vezes; gostava de conversar com Valéria. Um dia, convidou-a para tomarem um lanche após o serviço. Valéria aceitou e, no horário combinado, encontraram-se na porta da empresa.

Dirigiram-se a uma elegante casa de chá, e conversaram bastante. Norma abriu o coração:

— Tenho muitos problemas com meu marido, Valéria. Ele gosta de beber e faz coisas que não deve. Não gosta que eu telefone, nem vá à empresa, talvez para se considerar mais livre. Não quer que eu veja as mulheres com as quais se relaciona.

Norma parou de falar, tomou um gole de chá, depois prosseguiu:

— Vou lhe confessar uma coisa, Valéria. Quando telefonei a primeira vez, e perguntei por meu marido, queria na verdade falar com você. Tinha ouvido alguns comentários maldosos, que afirmavam que meu marido estaria tendo um relacionamento com a secretária.

Valéria empalideceu. Abriu a boca para explicar-se, mas Norma não permitiu:

— Não, minha amiga, não se preocupe. Sei que meu marido não é um modelo de fidelidade conjugai. Sei que já manteve casos com várias das funcionárias da empresa. Por intermédio da sua voz, porém, aprendi a conhecê-la. Percebi a sinceridade de suas intenções, o carinho com que se refere ao seu marido, Mauro, e o amor que dedica às duas filhinhas.

— Asseguro-lhe, Norma, que entre o senhor Carneiro e mim nunca houve nada — afirmou Valéria.

— Eu sei, minha querida. Conheço, porém, meu marido de sobra para saber que ele não deixaria passar uma bela moça como você, sem tentar seduzi-la. Confesso que, antes de conhecê-la, fiquei com ciúmes. Depois, senti que poderia ter confiança em você, o que hoje se confirmou com nosso encontro. Você não me parece o tipo que aceita esse gênero de relação, Valéria.

— Tem razão, Norma. Jamais aceitaria uma situação ambígua como essa. Fui educada segundo padrões morais rígidos. Além disso, já tenho problemas suficientes na vida. Pode confiar em mim.

Norma percebeu uma expressão preocupada no rosto da outra e teve vontade de conhecer seus problemas. Queria ajudar, contudo

Valéria não parecia disposta a abrir-se. Resolveu deixar que o tempo se encarregasse de mostrar à nova amiga que ela também era digna de confiança.

Continuaram conversando. Norma contou como era sua vida ao lado do marido, e Valéria encheu-se de compaixão por aquela mulher tão rica e tão infeliz. Reconheceu que ambos estavam precisando de ajuda. Com delicadeza e "pisando em ovos", sugeriu:

— Norma, não sei o que você pensa sobre o assunto, mas estou freqüentando um lugar que me tem feito grande bem. E um centro espírita. Acho que tanto você quanto seu esposo estão precisando de ajuda.

Fez uma pausa, e perguntou:

— Você acredita "nessas coisas"?

— Não sou preconceituosa, se é o que você quer saber, Valéria. Estou aberta a tudo que possa mudar nossa vida. Devo dizer-lhe, inclusive, que já freqüentei outras religiões, sem encontrar o que procurava. Aceito qualquer coisa. O ambiente em casa é péssimo e meus filhos não suportam ficar dentro de casa. E eu, sinto enorme solidão. Conheço muita gente, mas não tenho amigas. No fundo, todos nós estamos sofrendo bastante. Sim, concordo que precisamos de ajuda.

— Então, a reunião é sexta-feira, às vinte horas.

— Ótimo. Passarei para buscá-la na saída do serviço. Tomamos um lanche e vamos para a reunião. Combinado?

— Combinado.

Capítulo 19

Mudanças importantes

"(...) somente é inabalável a fé que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade."

(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 19, ITEM 7)

 

Valéria e Norma chegaram à casa espírita meia hora antes do horário marcado para início da reunião. Ao entrar, Valéria logo procurou sua amiga Adélia, que a abraçou com imenso carinho. Depois, fez as apresentações:

— Norma, esta é Adélia, a amiga sobre a qual lhe falei e que tanto me tem ajudado. Adélia, esta é Norma, esposa do senhor Carneiro, o dono da empresa onde trabalho.

Adélia, gentil e sorridente, cumprimentou a nova freqüentadora, abraçando-a e dando-lhe as boas-vindas.

— Espero que goste da nossa casa, Norma. Fiquem à vontade. Tenho tarefa urgente e peço-lhes desculpas. Conversaremos após a reunião.

E, antes de se afastar, sugeriu:

— Valéria, deixo-lhe o encargo de orientar Norma e explicar-lhe como funciona a reunião. Mostre-lhe nossas instalações, com as quais você já está bem familiarizada, não é?

— Claro, Adélia. Deixe por minha conta.

Visitaram o salão de palestras, as salas de cursos, de atendimento, de aulas de moral cristã infanto-juvenil, a biblioteca, a livraria. Nesta última permaneceram mais tempo, pois Norma se encantou com os livros.

Dez minutos antes do início das atividades, dirigiram-se ao salão. Norma, assim como tinha acontecido com Valéria, também se encantou com a música suave que tocava, incentivando a elevação do pensamento, o bem-estar e a paz que o ambiente proporcionava.

Ao terminar a reunião, Norma estava fascinada com tudo: a palestra, o passe, o ambiente fraterno e aconchegante. Pela primeira vez, tinha podido encontrar realmente Jesus. Lembrava-se das muitas igrejas que tinha freqüentado. Em todas elas havia o culto exterior da religião, sem o apelo à razão. Entrara em templos cujo objetivo primordial era o dinheiro, nos quais a atenção que se recebia era proporcional aos recursos que se tivesse; em alguns, a gritaria era tamanha que a deixava aturdida, como se, para conversar com Deus, fosse necessário elevar o tom de voz para fazer-se ouvido; em outros, sentiu ambiente de paz, de harmonia e a elevação das intenções, contudo, como as orações fossem realizadas em língua estranha ao seu entendimento, reconheceu-se incapaz de acompanhá-las; em muitos desses templos utilizavam recursos exteriores para atingir o bem-estar e a paz que desejavam, como indumentárias, incensos perfumados, gestos estudados e repetição de palavras e frases. Nunca, porém — mesmo em suas viagens pelo mundo -, tinha deparado com uma reunião tão singela, tão desprovida de aparatos e ao mesmo tempo tão pródiga de resultados e com tal apelo à razão. A mensagem de Jesus Cristo surgia diferente; ao mesmo tempo que falava de coisas velhas, já bastante conhecidas, vestia-se com uma roupagem nova, encantadora, fascinante. Incrível! Era como se nunca tivesse ouvido as lições evangélicas antes. Por isso, estava maravilhada; experimentava enorme bem-estar e tranqüilidade, alimentados por bons pensamentos e pelo desejo de melhorar e de aprender.

A palestra tinha sido tão esclarecedora, que nem sentiu necessidade de conversar com alguém. Entendeu que a felicidade depende da própria pessoa, que pode fazer-se infeliz ou venturosa, conforme seu comportamento. Que era necessário aprender a aceitar o próximo, exercitando a compreensão, a tolerância, a paciência e o amor. Estava disposta a fazer tudo isso. Queria estudar e aprender. Começaria a freqüentar o grupo de estudos junto com Valéria.

Depois da reunião, dirigiram-se à livraria. Norma tinha visto alguns livros que desejava adquirir. Comprou várias obras, algumas por orientação de Valéria, que, por sua vez, a tinha recebido de Adélia, e outras cujos títulos e assuntos a interessaram.

Ao deixar Valéria em seu lar, Norma estava completamente diferente.

— Agradeço-lhe, Valéria, a oportunidade que você me proporcionou hoje de conhecer algo diferente. Como lhe afirmei antes, já li bastante sobre religião e freqüentei muitos templos. Nunca, porém, encontrei o que senti hoje, naquela casa simples e despojada. Obrigada, amiga, pela sugestão. Valeu a pena. Olhe, pretendo participar do grupo de estudos com você!

— Ótimo. Iremos juntas. Quer entrar um pouco? Faço um café e apresento-lhe minha família.

— Adoraria. Mas fica para outro dia. Hoje, sinto que preciso ficar quieta num canto para pensar, colocar em ordem meus pensamentos. Amanhã conversaremos. Além disso, tenho muita coisa para ler. Boa noite!

Valéria estava feliz. A satisfação de Norma era muito gratificante. Ela tinha a sensação de que estava no caminho certo e que suas vidas iriam mudar, para melhor.

Alguns dias depois, Valéria estava trabalhando, entretida na leitura de um documento, quando Norma entrou na sala. Surpresa, Valéria cumprimentou a amiga:

— Bom dia, Norma! Você por aqui? O que a trouxe tão cedo à empresa?

— Bom dia, minha querida! Vim conversar com meu marido, e desejo que você esteja presente.

A secretária "tremeu nas bases". Não sabia o que Norma tinha em mente.

— Norma, o que você vai fazer? — indagou-lhe, cheia de medo.

— Não se preocupe. Relaxe!

Norma piscou um olho e, sorridente, entrou na sala do marido, que a recebeu com estranheza.

— O que houve, Norma? Você não costuma vir ao meu ambiente de trabalho.

— E verdade. Porém, José, hoje é um dia diferente. Lembra-se daquela conversa que tivemos ontem à noite?

— Lembro. Mas o que tem a ver nossa conversa com sua vinda aqui?

— É que tomei a liberdade de trazer, para que você conheça, a pessoa da qual lhe falei, que me tem ajudado muito, o que melhorou nosso relacionamento.

— Sim! Terei imenso prazer em conhecê-la. Mande entrar.

— Ela já está aqui, querido. E Valéria, sua secretária. Carneiro, ao perceber a presença da funcionária, que se mantivera discretamente no fundo da sala para não incomodá-los, sentiu-se constrangido. O sangue afluiu em seu rosto.

Norma notou que ele não estava à vontade e fingiu não ter percebido, mostrando-se alegre e descontraída:

— Tinha certeza de que ia surpreendê-lo, querido. Mas... não nos convida para sentar?

Recompondo-se, ele tomou pé da situação, tratando as duas como visitas.

— Sem dúvida! Sentem-se, senhoras. Desejam tomar alguma coisa? Um café, um suco, uma água?

— Eu quero uma água e um café — pediu Norma.

Valéria fez menção de se levantar para atender ao pedido, como de hábito, porém o chefe a interrompeu:

— Não, dona Valéria. Sente-se. Pedirei pelo telefone.

Levantou o fone e pediu à copeira que trouxesse água e três cafés. Depois, virando-se para Valéria, indagou-lhe:

— Mas então é a senhora que está acompanhando minha esposa ao centro espírita? Não conhecia essa sua inclinação, dona Valéria. Nunca me disse nada.

— Porque aqui só tratamos de assuntos de serviço, senhor Carneiro.

— E verdade, é verdade. Norma fala maravilhas desse lugar que tem freqüentado!

— E você prometeu me acompanhar, querido, na próxima reunião. Lembra-se? — disse Norma.

— Prometi e irei, querida, não se preocupe. Mas, dona Valéria, o que a fez interessar-se por essas coisas?

— Bem, senhor Carneiro, eu estava com muitos problemas e precisando de ajuda. Aconteceu, simplesmente. Encontrei uma senhora que me ajudou e sugeriu-me freqüentar o centro. Aceitei, e estou ótima.

— Muito bem. Muito bem. Temos bastante o que conversar. Quem sabe marcaremos uma ocasião para isso?

Visivelmente incomodado, fez uma pausa e depois, dirigindo-se à esposa, suplicou:

— Agora, querida, infelizmente preciso trabalhar. Se me der licença, tenho ligações urgentes a fazer. Desculpe-me.

Norma entendeu a mensagem e ergueu-se. Apesar da pressa do marido em livrar-se delas, no fundo sentia-se muito satisfeita.

— Estou indo, querido, tenha paciência. Só vim mesmo para apresentar-lhe Valéria, minha melhor amiga. Eu o verei na hora do jantar. Até mais tarde!

Saíram as duas e Valéria a acompanhou até a outra sala, fechando a porta. Depois, abraçaram-se, sorridentes:

— Então, você conseguiu mesmo falar com seu marido! E se ele não tivesse aceitado? — considerou Valéria.

— Conversamos bastante ontem, Valéria. Ele reconhece que, desde que comecei a freqüentar o centro espírita, as coisas em casa melhoraram muito. Tenho feito prece por ele quando dorme, conforme aprendi no centro. José reduziu a ingestão de bebidas alcoólicas e o relacionamento dele com nossos filhos, que não toleram bebida, melhorou bastante também. Meu marido reconhece que não está bem e que precisa de ajuda, aceitando acompanhar-me na próxima reunião. E tudo o que mais quero!

— Vou orar para que tudo dê certo! — disse Valéria, animada.

— Confio em Deus. Vai dar certo, Valéria. Até outro dia! — despediu-se Norma, contente.

Ao ficar sozinha, a secretária tentou trabalhar, voltar sua atenção para o documento que estava lendo, entretanto a conversa que tinham tido não lhe saía da cabeça.

Meia hora depois, o senhor Carneiro a chamou.

— Pois não, senhor. Deseja alguma coisa?

— Dona Valéria, por obséquio, traga-me a pasta de contratos. Ela saiu e voltou com uma volumosa pasta, depositando-a sobre a mesa do patrão. Ele a abriu e começou a folhear os documentos. De repente parou e, fitando-a, observou:

— Jamais pensei que a senhora pudesse se interessar por esses assuntos, dona Valéria.

— Por que, senhor Carneiro?

— Bem, não me parece o tipo. É centrada, equilibrada, racional. Ao contrário de minha esposa, que é dada a misticismos e que vive à cata de novidades.

Com leve sorriso, Valéria retrucou:

— Pois Norma me parece bastante racional e equilibrada, senhor Carneiro. O fato de ter-se interessado anteriormente por várias religiões é positivo, pois indica um desejo imenso de encontrar a verdade, a razão de ser da existência do ser humano e o porquê de todas as coisas.

— Não creio. Conheço-a muito bem e sei que está sempre em busca de coisas novas. Norma é fútil, e o interesse dela pela Doutrina Espírita não vai durar muito, acredite.

Valéria ficou pensativa durante alguns momentos, depois ponderou:

— Certamente o senhor deve conhecê-la bem mais do que eu. No entanto, tenho opinião bem diversa a respeito de sua esposa. Vamos ver. Só o tempo vai mostrar quem tem razão. Deseja mais alguma coisa, senhor?

— Sim. Explique-me a senhora, que julgo tão séria. Por que se interessou por essa doutrina? Vocês acreditam na reencarnação, segundo ouvi dizer. Só isso?

— De forma alguma. A reencarnação é um dos fundamentos do Espiritismo, que nos mostra a justiça e a bondade do Criador. Nossa doutrina abrange ciência, filosofia e religião. Melhor, porém, seria se o senhor mesmo lesse O Livro dos Espíritos, obra que contém toda a base da Doutrina Espírita. Nele poderá verificar a verdade do que lhe afirmo.

— Onde posso encontrar esse livro?

— Nas boas livrarias da cidade. A propósito, tenho aqui comigo um exemplar e poderei lhe emprestar, se o senhor quiser.

— Aceito seu oferecimento. Obrigado.

Valéria saiu por instantes e retornou com um livro nas mãos.

— Aqui está, senhor Carneiro. Leia, e depois, se o senhor desejar, conversaremos a respeito. Ainda não sou grande conhecedora da Doutrina Espírita, mas posso indicar-lhe alguém que tire suas dúvidas.

— Obrigado.

Valéria retornou para sua sala, mergulhando no serviço. Naquele dia, o chefe não a chamou mais, e nos dias seguintes não tocaram mais no assunto, mantendo relações estritamente profissionais.

Na sexta-feira, dia da reunião no centro espírita, Valéria e Carneiro estavam no escritório estudando as modificações que seriam implantadas nas cláusulas de um contrato, quando Valéria notou que o chefe a olhava de forma diferente. Aliás, percebera que ele a estava tratando de maneira mais cortês, mais delicada e com mais respeito.

Sentiu-se um pouco constrangida, porém se manteve calada. Ao encerrar aquele serviço, antes que ela saísse para digitar o novo texto, Carneiro comentou:

— Dona Valéria, não conversamos mais sobre aquele assunto, mas asseguro-lhe que tenho lido o livro que me emprestou e que estou realmente impressionado pela lógica, pela seriedade e pela grandeza com que são abordados todos os temas. Estou modificando meus conceitos antigos e agradeço-lhe por ter-me aberto os olhos. E toda uma proposta de mudança de vida e de comportamento que se nos depara naquelas páginas.

— Sem dúvida. A medida que nossa visão se alarga, podemos identificar nossos erros, e tentar mudar — concordou ela.

Ele abaixou a cabeça, contrafeito.

— Agora percebo melhor como tenho errado na vida. Tem razão a senhora em dizer que temos de mudar. Peço-lhe perdão pela maneira como agi com a senhora, dona Valéria, tratando-a de maneira grosseira e tentando seduzi-la.

Também constrangida, ela se justificou:

— Desculpe-me, senhor Carneiro. Quando falei da necessidade de mudança, não queria em absoluto referir-me ao senhor. Pensava em mim mesma e nos erros que tenho cometido. Não me cabe julgar os atos de outrem. A responsabilidade pelos seus atos é da sua estrita competência.

— Essas palavras denotam sua generosidade. Sei que não contou à Norma o que aconteceu entre nós. Poderia tê-lo feito e não o fez. Por quê?

Valéria fitou-o com serenidade, explicando:

— Por que o faria? Não vejo motivo para isso. Todos nós temos fraquezas e reconheço que aquele foi apenas um momento de invigilância, em razão de o senhor ter bebido um pouco mais. Só isso.

— Obrigado, dona Valéria. É generosa. Sinto que não guardou ressentimento por mim. Agradeço-lhe profundamente. Bem, hoje à noite também irei à reunião. Peço-lhe apenas um favor: não conte à minha mulher que estou lendo sobre Espiritismo. Quero surpreendê-la.

— Claro. Pode ficar descansado, senhor Carneiro.

Saindo da sala do chefe, Valéria sentia-se emocionada e envolta em intensa sensação de bem-estar e tranqüilidade. Agradeceu mentalmente a Jesus o amparo que estava recebendo. Tudo caminhava melhor do que poderia esperar.

Após o expediente, Valéria foi até uma lanchonete nas imediações da empresa e tomou um lanche rápido. Ela também tinha combinado com o marido e as filhas irem todos à casa espírita.

Mauro estava curioso para conhecer o local que Valéria vinha freqüentando ultimamente, o qual ela reconhecia como responsável pela mudança que se operara no seu comportamento. Tornara-se mais tranqüila, mais paciente, mais equilibrada. Então, convidou-o para acompanhá-la.

— E as meninas? Não temos com quem deixá-las! — lembrou Mauro, pesaroso.

— Não há problema, querido. Marcela e Roberta ficarão junto com outras crianças em uma sala especial, onde receberão aula de moral cristã, que se realiza no mesmo horário, enquanto assistimos à palestra. Como não terei tempo de ir para casa, você e as meninas me aguardarão na pracinha; o endereço já lhe entreguei. Certo?

Afastado o obstáculo, no horário aprazado Mauro e as garotas tomaram o ônibus que os levaria ao endereço indicado. Quando chegaram à pequena praça, Valéria já os esperava. Abraçaram-se com amor e alegria por estarem juntos.

— Aonde vamos, mamãe? E longe? — indagou Roberta, curiosa.

— Não, filhinha. E ali mesmo! Olhe, é naquele portão de ferro pintado de azul.

Atravessaram a praça e entraram nas instalações do centro. Pouco tempo depois, Norma e Carneiro chegaram. Foi com imensa satisfação que se cumprimentaram. Valéria apresentou o chefe e a esposa dele ao marido e às filhas.

Os homens não estavam à vontade. O ambiente era novo para eles, estavam ali pela primeira vez e sentiam-se deslocados. Logo, porém, começaram a conversar entre si, encontrando pontos em comum.

Após a reunião, sentiam-se ótimos. As crianças adoraram a aula. Os homens igualmente estavam com expressão diferente: mais tranqüilos e serenos.

O ambiente estava tão bom que Carneiro sugeriu que fossem comer uma pizza.

— Vocês aceitam? Será bom conversarmos mais um pouco, Mauro.

— Sem dúvida. Acho que será ótimo para todos nós. Além disso, amanhã é sábado e as meninas não têm aula. Portanto, hoje, excepcionalmente, podem dormir mais tarde.

As garotas vibraram com o novo programa.

No restaurante, puderam trocar idéias, conversando sobre o tema da palestra e seus desdobramentos no cotidiano de cada um. Carneiro mostrava um conhecimento sobre Doutrina Espírita que deixou Norma perplexa.

— Você está me surpreendendo, José! Onde foi que aprendeu tudo isso?

Ele deu risada, respondendo com bom humor:

— Há muito tempo conheço Espiritismo — afirmou, lançando para Valéria um olhar cúmplice.

Norma, com ar de incredulidade, retrucou:

— Conte a verdade, José! Você tinha preconceito contra essa doutrina. Não podia nem ouvir falar. Confesse!

— Está bem. Está bem! Andei lendo alguma coisa no escritório, graças à dona Valéria que me emprestou O Livro dos Espíritos.

— Ah, bom! Agora posso entender essa sabedoria repentina. Todos caíram na risada. O ambiente era fraterno e amigo. Ao saírem do restaurante, lamentaram ter de se separar. Assim, combinaram que, na semana seguinte, repetiriam a dose.

Naquela noite as duas famílias tiveram sono tranqüilo e cheio de paz.

E nós que, da espiritualidade, havíamos trabalhado intensamente para que tudo se resolvesse de maneira benéfica para todos os envolvidos, vibramos de satisfação.

Capítulo 20

Novos tempos

"E sucedeu que, estando ele em casa, à mesa, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e seus discípulos. Ora, vendo isto os fariseus, perguntavam aos discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? Mas Jesus, ouvindo disse: Os sãos não precisam de médico, e, sim, os doentes."

JESUS (MATEUS, 9: 10 A 12)

Novos tempos se descortinavam trazendo prenúncios de paz. Com certeza, toda mudança pede confiança e determinação, esforço e perseverança. Nossos amigos, amparados pelos servidores do bem que, da espiritualidade, velavam por eles, puderam dar novo impulso à vida que levavam.

Despertando para a realidade maior, acrescentavam conhecimentos e responsabilidades, que precisavam aproveitar, mostrando-se dignos da ajuda recebida.

Vários adversários desencarnados, ligados às duas famílias, foram socorridos, instalando-se uma nova era de paz, em que teriam condições de sedimentar os valores conquistados, as informações recebidas e, por intermédio da terapêutica espírita, adquirir maior dose de equilíbrio e maturidade emocional e espiritual.

Nessa nova fase, uma das primeiras preocupações de Carneiro, conhecendo as dificuldades de Mauro, seu novo amigo, foi de providenciar-lhe uma oportunidade de emprego. Não em sua empresa, naturalmente, já que, de modo geral, evitava vincular amizade com negócios profissionais. Não que fosse errado, longe disso. Visava com essa atitude preservar o relacionamento, uma vez que não desejava que o beneficiado se sentisse preso a ele por gratidão. Desse modo, julgou mais conveniente mandar o currículo de Mauro para um velho amigo, proprietário de uma indústria, para que, na medida do possível, o encaixasse entre seus funcionários. Tudo isso sem o conhecimento de Mauro para não gerar expectativas que poderiam não se confirmar. E tal manobra deu tão certo que o amigo lhe respondeu afirmando que precisava exatamente de alguém com o perfil de Mauro, e tanto isso era verdade, que entraria imediatamente em contato com ele.

Alguns dias depois, Mauro telefonou para Carneiro, radiante. Após os cumprimentos e troca de amabilidades, disse:

— Carneiro, estou ligando para fazer-lhe um convite: aceita almoçar em nossa casa no domingo?

— Sem dúvida, Mauro! Com o maior prazer. Tenho certeza de que Norma também ficará encantada. Mas, existe algum motivo especial?

— Sim. Muito importante. Arrumei um emprego!

— Excelente! Então, temos mesmo de comemorar.

— Com certeza! É numa indústria de componentes eletrônicos e, como você sabe, essa é minha área. Estou muito feliz!

Mauro falou o nome da empresa e perguntou:

— Carneiro, você conhece o proprietário? Estranhei ser chamado porque não mandei meu currículo para essa empresa.

— Ah, compreendo. Mas Valéria enviou, Mauro! Ela não lhe contou? Sua esposa trouxe alguns exemplares de seu currículo aqui no escritório e, de passagem, eu vi sobre a mesa dela. Pediu-me algumas sugestões, que eu dei, e uma das empresas de que me lembrei naquele momento foi a de Paulo Evaristo, que é amigo de muitos anos e excelente pessoa. Parabéns, meu caro! A empresa é sólida, bem conceituada e o proprietário considerado um bom patrão. Você está muito bem colocado, acredite.

— Então, devo a você essa alegria, Carneiro. Obrigado.

— Não, não. Você não me deve nada. Conseguiu o emprego por seus próprios méritos. Nada tive a ver com isso.

— Pois então, temos mais a comemorar: a sua sugestão! Estaremos esperando você e toda a sua família no domingo. Certo? Antes disso, porém, nos veremos na reunião de sexta-feira. Um abraço, amigo. Tenha um bom dia!

Carneiro despediu-se. Sentia-se intimamente bastante satisfeito. Não sabia o que fazer para agradar aos novos amigos. Em relação à Valéria, reconhecia-se um pouco culpado pela sua conduta passada, no entanto sabia que ela não pensava mais no assunto. Generosa, ela lhe havia perdoado, com isso demonstrando superioridade moral. Curioso que, vez por outra, vinham-lhe à mente algumas cenas estranhas: via-se, satisfeito, entrando com seu exército em uma aldeia devastada pela guerra; entre os sobreviventes que ali estavam cheios de ódio e de humilhação, e que se curvavam à sua passagem, notava uma jovem de tez morena, bastos cabelos negros que lhe caíam em cascata até a cintura. Parava o cavalo e ela erguia a fronte altiva; imediatamente sentia-se mergulhar naqueles olhos negros e profundos que o fitavam com repugnância, enquanto grande atração o dominava. Poderoso, tomou-a a seu serviço, conquanto lhe notasse a rejeição. O interessante é que nessa jovem, embora o envoltório fosse diferente, reconheceu Valéria, por quem sentira idêntica atração desde o primeiro momento. Com o conhecimento espírita já adquirido, entendeu perfeitamente que esse fato fazia parte de um passado distante; ao mesmo tempo, sentia, inconscientemente, que ele e Valéria tinham tido outros encontros em épocas diferentes, criando elos e compromissos que geraram responsabilidade de parte a parte. Agora, surgia a oportunidade de reparar os erros cometidos e terem um relacionamento saudável e equilibrado. Carneiro estava consciente disso e da importância de se regenerar. Deus lhe havia concedido essa nova aproximação, que ele pretendia aproveitar. Até entendia que, embora o relacionamento entre ele e Valéria fosse cortês, ela procurava manter sempre certa distância, como se, temerosa, aguardasse que as mudanças fossem corroboradas pelo tempo.

Carneiro sabia que tinha errado muito, por isso aceitava tudo com humildade e resignação, esperando que o tempo pudesse modificar o relacionamento entre eles. Com relação a Mauro, de quem se sentia devedor, e em quem reconhecia o chefe daquela pequena aldeia destroçada, incomodava-o o desemprego. Agora sentia alívio por ter ajudado a resolver esse problema, com a graça de Deus.

Também a situação em seu lar se acomodara. Seu relacionamento com a esposa melhorara bastante, e os filhos — em quem reconhecia valentes moradores da aldeia mortos no combate — mostravam-se mais acessíveis depois que ele abandonara o vício de beber. É bem verdade que o fumo ainda se lhe constituía num problema. Mais do que da bebida, sentia falta do cigarro, mas procurava, apesar de tudo, manter-se firme em seus propósitos de parar de fumar, reduzindo gradualmente a dependência.

Tudo tinha ficado muito claro em sua mente e ele agora conseguia entender perfeitamente as dificuldades de relacionamento que tivera a vida toda com a esposa, com os filhos e com os empregados.

A existência não tinha se transformado num céu sem nuvens, todavia Carneiro enfrentava os desafios da vida com firmeza, escorado nas lições evangélicas e nos conhecimentos espíritas.

Dentre os que mais estranharam sua mudança estavam seus subordinados. Ele tornara-se menos grosseiro e arrogante, mais afável e cortês; procurava ser justo e evitava demissões. De modo geral, o pessoal passou a relacionar o início das atividades de Valéria no cargo de secretária com as mudanças do patrão. Mesmo porque, quando em dúvida sobre alguma decisão, Carneiro sempre solicitava a opinião de Valéria, que respeitava bastante, não fazendo segredo da influência dela em suas decisões. Ainda aqui o passado se fazia presente. Espírito forte e combativo, ela sempre o havia influenciado, muitas vezes de maneira negativa, gerando compromissos graves para ambos. Agora, tinham a oportunidade de reparar uma parte desses erros, ajudando aqueles mesmos comandados que ora surgiam como operários da fábrica.

Dessa forma, a situação de todos, como um todo, melhorou muito, e, em vista disso, os colegas passaram também a respeitá-la, reconhecendo-lhe o equilíbrio, a ponderação das atitudes e a justeza nas decisões, quase sempre a favor dos empregados.

Carneiro tinha muitas outras imperfeições íntimas para trabalhar, porém uma das mais difíceis para ele era a sexualidade. Temperamento fogoso e sensual, até essa época vivera pensando prioritariamente nisso. Diga-se de passagem, não deixava passar oportunidade de um relacionamento mais íntimo quando a ocasião se apresentava. Toda mulher bonita e atraente era, potencialmente, sua presa.

O fato de conhecer a Doutrina Espírita, felizmente, fê-lo começar a pensar diferente, a analisar a responsabilidade que assumia perante seus atos e a temer-lhe as conseqüências, segundo a Lei de Causa e Efeito. Sempre utilizara o livre-arbítrio sem qualquer limite, usando e abusando de suas condições em busca do prazer puramente instintivo e material. Agora, tinha aprendido que todo relacionamento gera vínculo e comprometimento, por menor que seja.

Passava em revista seu comportamento anterior e sentia-se envergonhado. Desejava mudar, crescer, melhorar. Não que tivesse se libertado do problema, de forma alguma. A tendência ainda era muito forte nele, mas agora, ao ter um mau pensamento em relação a uma mulher, imediatamente tentava se corrigir.

Todos na fábrica percebiam sua mudança, pois parará de assediar as funcionárias.

Como conseqüência, a convivência com a esposa tornou-se muito melhor e mais agradável. Norma reconhecia-lhe o esforço e ajudava-o, dando-lhe sustentação e confiança. Através do Evangelho no Lar, que passaram a fazer semanalmente, o ambiente doméstico modificou-se sensivelmente, o que atraiu os filhos para a pequena reunião, intuitivamente compreendendo os jovens que dali provinham os recursos que geravam a harmonização da família.

Também na residência de Valéria e Mauro, com o amparo e a assistência dos benfeitores espirituais, tudo caminhava bem. Afastado o fantasma do desemprego, ganhando bem e suprindo as necessidades da família, Mauro tranqüilizou-se, passando a dedicar-se mais à área do labor no bem, que tanto apreciava. Dessa forma, a casa espírita ganhou excelentes trabalhadores na pessoa dos novos amigos, que se engajaram no serviço com boa vontade, determinação e amor aos sofredores.

Certamente, os problemas desse grupo de espíritos não estavam resolvidos, porque viriam outros em conseqüência de necessidades regeneradoras que a vida se encarregaria de lhes apresentar no momento propício, em virtude dos compromissos assumidos ainda na espiritualidade, por ocasião do planejamento reencarnatório. Todavia, o conhecimento espírita mostrava-se poderosa alavanca que lhes possibilitaria melhores condições para vencer.

Esses personagens, que não se reuniram por acaso na esfera terrena mas foram aproximados pela vida, que busca juntar afetos e desafetos do passado para o devido entendimento e harmonização, estavam aparelhados para o sucesso da encarnação.

Graças à bondade divina, nossos amigos teriam uma fase de tranqüilidade e paz, para fixação dos novos conhecimentos, e oportunidade de crescimento espiritual, amadurecendo os sentimentos.

A área sexual, das mais antigas e importantes conquistas do ser imortal a caminho da evolução, também é a que lhe propicia maiores dificuldades.

Com a finalidade de procriação para o povoamento do planeta, Deus concedeu ao homem também o prazer no ato sexual, de modo a ganhar-lhe o interesse e a colaboração necessária a seus propósitos.

Com o passar do tempo e o progresso conquistado, o ser humano saiu da área puramente instintiva, desenvolvendo as sensações e lançando-se ao prazer puramente material.

Longo período decorreu até que aprendesse, no despertar da consciência, a distinguir o bem do mal, sublimando as sensações e transformando-as gradativamente em sentimentos.

Nessa época, passou a dar maior valor aos vínculos afetivos. Despertou-se nele o interesse pela família, passando a proteger a prole.

Dentro desse processo evolutivo, a sexualidade sempre desempenhou importante função, ajudando o homem, mas também sendo motivo de quedas fragorosas, gerando-lhe profundos comprometimentos na área afetiva.

Pouco a pouco, o ser imortal se espiritualiza, ganhando novas luzes e amadurecendo emocionalmente. De forma lenta e gradual, liberta-se da canga das paixões inferiores que o prendem ao solo, buscando as alturas pela elevação dos sentimentos, especialmente o amor em sua maior pureza, que lhe constitui a meta sublime de ascensão. E a evolução, que atinge todas as áreas do conhecimento humano, influencia a ciência, a filosofia e a religião. Esse avanço ético-moral, que foi plantado pelo Cristo há dois mil anos, permanece como bússola norteadora para o homem, indicando o rumo que lhe compete trilhar.

Os nobres valores evangélicos instalam-se, pouco a pouco, mudando os usos, costumes e tradições, regendo a legislação dos países, transformando socialmente os povos, gerando sociedades mais livres, mais fraternas e mais justas.

O avanço é lento, gradativo, mas constante.

No esforço ascensional, o maior desafio do espírito é vencer a si mesmo, dominando suas tendências inferiores e transformando imperfeições em virtudes.

A modificação moral é obra que se realiza no íntimo de cada ser, pelo esforço constante, em que a vontade de vencer a si próprio surge como condição prioritária e indispensável.

Para alcançar essa vitória, porém, podemos contar sempre com o amparo de Deus, que por meio de seus mensageiros — generosos benfeitores que nos orientam, protegem e fortalecem no curso das existências -, oferece-nos o necessário estímulo para as mudanças que precisamos realizar em nós.

Assim, diante das imperfeições, dos defeitos ou dos vícios, jamais desanimar, trabalhando sem cessar para vencer a si mesmo.

A sensualidade é um dos grandes problemas que ainda conservamos como espíritos imperfeitos, o qual pode ser equacionado ao influxo do amor e da elevação dos sentimentos.

Desse modo, diante de relacionamentos que envolvam a área dos sentimentos, notadamente a sexualidade, mantenhamos o maior equilíbrio possível, lembrando que a regra sempre é a do respeito ao semelhante, consoante a advertência de Jesus de que devemos fazer aos outros tudo o que gostaríamos que os outros nos fizessem.

Dramas comoventes e dores indescritíveis campeiam atualmente na sociedade pelo desrespeito ao direito do próximo. Imensa quantidade de pessoas se comprometeu na área afetiva, através do tempo, criando elos que não podiam manter, fazendo promessas que não pretendiam cumprir, enganando, espoliando e traindo seres que confiavam cegamente nelas. Em razão desse comportamento desequilibrado, infinidade de seres sofre hoje na Terra pelos desregramentos de ontem: muitos apresentam enfermidades adquiridas em virtude da inconseqüência dos relacionamentos fortuitos; outros voltam ao palco do mundo mostrando as condições do corpo espiritual danificado, trazendo no veículo físico as marcas de um passado de degradação e de erros, seja no aparelho genésico seja em qualquer outra parte do corpo, inclusive no cérebro, comprometido pelas loucuras de antanho.

Outros mais renascem desajustados com o meio em que vivem, com sérias inversões da polaridade sexual para aprenderem a respeitar o sexo oposto.

Os que não valorizaram o instituto familiar retornam para uma vida de solidão, desejando ardentemente um lar que não conseguem obter.

Mulheres que desvirtuaram a sublime função da maternidade cometendo aborto nascem desejando ardentemente uma maternidade, sem conseguir concretizar seu anseio. Em outros casos, são obrigadas a passar pelo mesmo sofrimento que geraram, ficando grávidas, não conseguindo levar a termo a gestação e sofrendo o processo abortivo que tanto buscaram no passado.

Ainda outras, dependendo da gravidade e das condições que trazem no perispírito, são levadas a sofrer elas próprias o aborto, na frustração de serem despejadas do claustro materno, sentindo na própria pele a dor que geraram anteriormente a seus filhos.

E as marcas emocionais permanecem por longo tempo, provocando também remorso lancinante, só amenizado com o reconhecimento da própria culpa e conseqüente arrependimento. Depois, partirão para a reparação dos erros cometidos, ajudando aqueles que prejudicaram no pretérito, o que lhes trará a regeneração perante a própria consciência, perante o semelhante e perante Deus. Só assim conseguirão a paz que tanto buscam, candidatando-se a um futuro mais feliz.

Desse modo, diante de um problema que envolva a sexualidade, lembrar-se de manter o equilíbrio das emoções, não se deixando levar pelas tendências instintivas, e procurar sempre a elevação do pensamento, pela prece, pela leitura edificante, pelo estudo e pelas boas obras, para ter o amparo dos bons espíritos.

Perante qualquer relacionamento que se delineie, colocar-se no lugar do outro e pensar: se isso estivesse acontecendo comigo ou com minha irmã, eu gostaria?

Em caso de dúvida, sempre remeter o pensamento a Jesus e ao seu Evangelho, procurando refletir: qual seria a atitude do Mestre em idêntica situação?

Dessa maneira, encontraremos a medida exata do que podemos e do que não devemos fazer, comportando-nos como pessoas dignas e úteis à sociedade em que vivemos.

Capítulo 21

Preparativos

"O homem nem sempre é punido, ou completamente punido em sua existência presente, mas nunca escapa as conseqüências de suas faltas. A prosperidade do mau é apenas momentânea; se não for punido no hoje, o será no amanhã, e, sendo assim, aquele que sofre está expiando os erros do seu passado. A infelicidade, que à primeira vista nos parece imerecida, tem, pois, sua razão de ser, e aquele que sofre pode sempre dizer: "Perdoai-me, Senhor, porque errei. "

(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 5, ITEM 6)

Abrindo os olhos, ainda sonolenta, Juliana reconheceu o próprio quarto. Espreguiçou-se, feliz. Ansiosa, fez mentalmente as contas. Faltavam exatos trinta dias para seu casamento. Nesse instante, deu-se conta de que o tempo era curto e havia muitas providências a tomar.

Levantou-se rápido e foi para o banheiro cantarolando. Tomou banho, arrumou-se cuidadosamente e, após conferir com satisfação a imagem no espelho, pegou a pequena lista de prioridades para o dia, organizada na noite anterior, colocou-a na bolsa e saiu do quarto.

Agradável aroma de café recém-coado inundava a casa toda. Na cozinha, a mãe acabava de arrumar a mesa. Cumprimentou-a com um beijo:

— Bom dia, mamãe!

— Bom dia, minha filha. Dormiu bem?

— Otimamente! Demorei um pouco a adormecer procurando lembrar tudo o que precisava fazer hoje.

— Então se apresse ou chegará atrasada ao serviço. Faltam quinze minutos para as oito.

— E verdade, mamãe. Vou comer algo rapidinho. Sentou-se, preparou uma xícara de café com leite, passou manteiga na metade de um pãozinho e comeu com prazer.

Olhou o relógio e levantou-se, apressada. Foi até a estante, pegou a bolsa, as chaves do carro e, dando um beijo na testa da mãe, despediu-se:

— Tenha um bom dia, mamãe. Ah! Não se esqueça de falar com a costureira. Ela precisa marcar a prova do meu vestido de noiva.

— Não esquecerei, filha. Vá com Deus!

Juliana tirou o carro da garagem e tomou o rumo da empresa onde trabalhava. O fluxo de veículos era intenso naquele horário e o exercício da paciência no trânsito, uma necessidade. Quando isso acontecia, para não se estressar, procurava lembrar-se de coisas boas, dos momentos felizes e, sempre, como era natural, do noivo, Renato. Era a solução que encontrara para não ficar nervosa e irritada com os engarrafamentos, tão comuns na grande capital, e, assim, nem ver o tempo passar.

Com o trânsito parado, fez uma ligação no celular para o noivo. Conversaram um pouco e ela explicou que estava retida no trânsito. Renato, felizmente, já estava no escritório de engenharia que dividia com um amigo, Danilo.

— Já lhe disse que eu a amo, querida? Não concebo mais a vida sem sua presença. Você é a luz do meu caminho. Não vejo a hora de estarmos casados e unidos para sempre — dizia ele, carinhoso e bem-humorado.

— Eu também, meu amor. Só vivo para você e aguardo com ansiedade a hora de estarmos finalmente juntos, aproveitando as nossas merecidas férias. Por falar nisso, já conseguiu escolher o terno?

— Ainda não. Estou me esforçando, pode crer. Não se preocupe.

— Olha lá, não vá me deixar esperando na porta da igreja por não saber que roupa usar — brincou ela.

— Pode ter certeza de que estarei na igreja na hora combinada. Quanto a você, só Deus sabe! O atraso das noivas é conhecido.

— Chegarei no horário, garanto. Não correrei o risco de perder você. Vou desligar, querido. Os carros estão começando a se movimentar. Ainda bem! Até mais tarde. Um beijo.

— Outro. Tenha um bom dia, querida.

Realmente os veículos tinham começado a rodar, e Juliana desligou o aparelho. Contente, ria sozinha. Nada podia alterar seu bom humor nessa fase que antecedia o casamento.

Meia hora depois, estava na empresa. A financeira localizava-se bem no centro da cidade, o que dificultava seu acesso.

Juliana teve dia agitado e cheio de serviço. Mal teve tempo de engolir alguma coisa na hora do almoço. Para não perder tempo, pediu um sanduíche e um suco numa lanchonete ali perto. A tarde, ao encerrar-se o expediente, estava cansadíssima e irritada. O bom humor, que ela julgava eterno, fora para o espaço. Não tinha feito nada do que programara fazer; as providências que ia tomar, aproveitando a hora do almoço, ficaram somente no papel.

Tirando o carro do estacionamento, lembrou-se de que precisava passar numa loja e comprar alguns materiais que estavam faltando para terminar de confeccionar as lembrancinhas do casamento. Lembrou também que essa loja costumava ficar aberta até mais tarde em virtude do grande movimento de fregueses.

Um pouco mais animada, estudando o trajeto, resolveu estacionar o carro numa avenida, cortando caminho por uma pequena rua transversal, pouco conhecida e sem movimento, que daria acesso à loja aonde pretendia ir. Esse expediente economizaria tempo e dinheiro, pois chegaria rapidamente à loja atravessando a viela, e não teria de gastar combustível dando uma grande volta.

Satisfeita com sua esperteza, chegando ao local, ela estacionou o carro, e entrou na pequena rua deserta.

Ao dar os primeiros passos, sentiu um calafrio de medo. A viela era escura, quase sem iluminação. Teve desejo de desistir, deixando a compra para o dia seguinte. Juliana, porém, tinha temperamento forte, era corajosa, decidida, e não se intimidou, continuando a caminhar. Apressou o passo. À sua frente, para incentivá-la, como no final de um túnel, via as luzes da avenida e da loja que ficava bem na esquina.

Que bom! Como imaginei, está aberta!

Juliana não percebeu que um rapaz, na avenida, encostado num poste, perto do local onde deixara o carro, a observava, interessado. Quando ela entrou na pequena rua, ele a seguiu. Não tinha andado muito, quando se sentiu agarrada por um braço forte enquanto a outra mão lhe tapava a boca, arrastando-a para um canto escuro, entre dois prédios.

Apavorada, sem poder reagir, ouviu alguém murmurar:

— Não grite nem faça nenhum movimento, ou morre aqui mesmo. Estou armado.

Ele apenas sussurrava no seu ouvido. A jovem sentiu seu hálito, o cheiro de tabaco, de suor, de sujeira e um cheiro estranho, que não sabia precisar, extremamente desagradável. Sentiu nojo.

Nisso, o frio do metal tocou seu pescoço. Com os olhos arregalados de pavor e o coração disparado, sentiu que ia morrer. O homem segurou-a com brutalidade e, juntando-lhe as mãos, a amarrou. Em seguida, arrastou-a pela viela de volta para o carro, ameaçando matá-la se fizesse um gesto, um grito ou se chamasse atenção de qualquer modo. Já na avenida, pegou as chaves, abriu a porta e empurrou-a para dentro do veículo.

Ele olhou em torno, vigilante. Ninguém tinha percebido nada. Deu partida no carro e saíram.

— Sabe que esses vidros escuros são uma boa? Ninguém vê o que se passa dentro de um carro — comentou irônico.

Juliana olhou para o homem. Somente agora podia vê-lo melhor. Era um rapaz novo, de boa aparência, embora malvestido e sujo. Os olhos injetados pareciam os de um louco. Deveria estar drogado.

Ele não me parece estranho. Onde já o teria visto?

Tentou conversar enquanto ele dirigia:

— Por favor, moço. Deixe-me ir! Pode ficar com o carro, mas solte-me. Tenho algum dinheiro na bolsa, relógio, anéis. Pode ficar com tudo, mas solte-me, por piedade!

— Cale a boca! Não pretendo machucá-la. Se for boazinha, não correrá perigo algum.

— Meus pais estão me esperando. Eles ficarão preocupados se eu não chegar, e chamarão a polícia.

O rapaz soltou uma gargalhada.

— A polícia não poderá fazer nada por você. Agora, cale-se. Deixe-me dirigir em paz. O trânsito está infernal.

Juliana achou melhor ficar quieta. O rapaz parecia muito nervoso com o movimento do trânsito naquela hora do rush.

Levou-a para fora da cidade. Estavam rodando, pelos cálculos de Juliana, havia uma hora, quando, chegando perto de um bosque de pinheiros, ele parou o carro, desceu e, dando a volta, abriu a porta, agarrou-a pelo braço e obrigou-a a descer sem se impressionar com o pavor estampado nos olhos dela.

— Agora, gatinha, vamos dar uma volta.

— Não! Por caridade! Deixe-me ir! — implorava ela, aos gritos, chorando.

— Pode gritar. Aqui ninguém vai ouvi-la.

Com o coração aos saltos, desesperada, Juliana gritava, esperneava, mas ele continuava a arrastá-la para o bosque, em meio à escuridão da noite.

Naquele momento, Juliana não conseguia pensar em nada. Só em si mesma. Olhou para o céu, onde infinidade de estrelas luzia à distância, indiferentes à sua situação e ao perigo que estava correndo. As únicas testemunhas não podiam socorrê-la.

Tomando consciência, a um leve movimento, sentiu o corpo todo doer. Abriu os olhos lentamente. Só viu galhos de árvores e achou que estava sonhando. Tentou levantar-se, mas uma dor lancinante obrigou-a a deitar-se de novo. Apalpou o chão e pegou folhas secas. Estranhou. Não estava em sua cama. Procurou refazer mentalmente seus passos e, finalmente, se lembrou de tudo.

Não estou sonhando!

Caiu novamente em pranto convulsivo. As imagens brutais voltaram-lhe à mente, trazendo humilhação, medo e dor.

Depois de algum tempo, foi se acalmando e reconheceu que estava com vida, graças a Deus. Olhou em torno. Estava sozinha no meio do mato e não sabia quanto tempo teria transcorrido, mas era muito tarde, pois as primeiras luzes da manha surgiam clareando levemente o lugar.

Refletindo sobre sua situação, decidiu procurar ajuda. Precisava sair dali. O criminoso poderia voltar e concluir o que não tinha feito, isto é, tirar-lhe a vida. Lembrou-se de uma frase que ouvira na televisão: todo criminoso volta sempre ao local do crime.

Definitivamente, não poderia continuar ali, mesmo porque tinha medo de animais, de bichos e de insetos que com certeza haveria em grande quantidade naquele lugar.

Com grande esforço, tentou colocar-se de pé. Despencou novamente. A dor era insuportável, como se estivesse ferida por dentro. Apalpou-se e percebeu que estava se esvaindo em sangue. Não poderia perder tempo. Já que não conseguia ficar de pé, resolveu arrastar-se no meio do mato. Felizmente, ele a desamarrara.

Assim, com grande dificuldade, gemendo e chorando, arranhando-se nas pedras e nos galhos caídos no chão, conseguiu aproximar-se da estrada. Ao ver o asfalto, muniu-se de coragem e, num esforço inaudito, colocou-se de pé, caminhando alguns passos, escorada nos troncos das árvores.

Quando chegou ao acostamento, viu as luzes de um carro que se aproximava. Levantou o braço, gritando por socorro. Todavia, o esforço foi demais para ela. As forças lhe faltaram e não viu mais nada, mergulhando novamente na inconsciência.

Despertou num leito de hospital. Olhou em torno e viu duas pessoas estranhas: um rapaz e uma moça. Tentou movimentar o braço e não conseguiu. Gemeu e, em seguida, viu o rosto de sua mãe, surpreso e aliviado, inclinado sobre ela:

— Oh! Minha filha, que bom que acordou! Como está se sentindo?

— O que aconteceu?

Os dois jovens se aproximaram do leito, satisfeitos e emocionados. A mãe respondeu, perguntando com suavidade:

— Você não se lembra?

Juliana fez um gesto negativo com a cabeça.

— Você sofreu uma violência, minha filha, mas está tudo bem. Foi encontrada numa estrada por Leandro e Meire, que a socorreram trazendo para este hospital. Desde esse dia, eles têm sido incansáveis em nos ajudar. São grandes amigos nossos.

Juliana olhou os dois jovens, agradecendo.

— Há quanto tempo?...

— Quinze dias, minha filha.

— Tudo isso? Por quê?

A mãe olhou para os jovens, indecisa. Não sabia se podia contar toda a verdade para a filha.

— Bem, minha querida, você estava machucada e passou por uma cirurgia. Entrou em coma e... Enfim, seja bem-vinda, minha filha!

— Estou começando a me lembrar. E meu carro?

— Não se preocupe com ele, Juliana. Isso é o de menos. A polícia está procurando o criminoso, mas até agora nada. Não existe pista alguma.

Meire aproximou-se, lembrando com carinho:

— Você terá tempo para saber de tudo, Juliana. Agora, seria melhor descansar um pouco. Está muito debilitada.

Os demais acompanhantes concordaram. Leandro, com senso prático lembrou:

— Vou avisar a enfermeira que Juliana acordou.

Ele apertou a campainha e, em seguida, uma enfermeira entrou no quarto.

— Chamaram?

— Sim, temos novidades. Veja! Juliana acordou! — disse a mãe, emocionada.

— Que bom! Como está, Juliana?

— Bem.

— Ótimo. Vou avisar o médico.

Quando uma enfermeira chegou para verificar a pressão e a temperatura da paciente, Juliana já estava dormindo de novo. O médico entrou no quarto, sorridente.

— Ora, então nossa Juliana acordou, dona Helena?

— É verdade, doutor Bruno. Conversou conosco, só que já caiu de novo no sono! — informou a mãe, lamentando.

— Não se preocupe, dona Helena, é natural que isso aconteça. Ela está muito fraca, sem energias. Esse fato, porém, denota que está se recuperando. Quando acordar, me chamem sem falta.

Despediu-se. Após a saída do médico, Leandro, Meire e Helena lembraram que precisavam comunicar a novidade aos familiares, parentes e amigos. Helena telefonou para o marido, dando-lhe a boa-nova.

Quinze minutos depois, Antero entra no quarto de hospital, ansioso. Cumprimenta os jovens, aproxima-se do leito onde Juliana ainda dorme e, passando a mão pelos cabelos da filha, pergunta para a esposa:

— Como ela está, Helena?

— Muito bem. Conversou conosco e agora está dormindo de novo, mas o doutor Bruno disse que é normal. Estamos esperando-a acordar.

Duas horas depois, Juliana desperta e logo vê o rosto do pai inclinado sobre ela.

— Papai...

— Minha filhinha! Que bom que você voltou para nós. Ela sorriu de leve, balançando a cabeça:

— Vocês não se livrarão de mim tão fácil.

Nesse momento, a porta abriu e o médico entrou. Tratava-se de um senhor de cabelos grisalhos, fisionomia simpática e olhos serenos.

— Ora, vejam! Resolveu acordar, não é? Seja bem-vinda ao nosso mundo, Juliana — brincou, já pegando o estetoscópio para examiná-la. — Podem dar licença?

Os demais saíram deixando-o a sós com a paciente.

— Meu nome é Bruno, Juliana. Você não me conhece, mas eu a conheço bem. Estivemos juntos todos estes dias.

— Como estou, doutor?

— Diga-me você. Como se sente?

— Acho que estou bem. A cabeça está um pouco confusa...

— E natural. Aos poucos voltará ao normal. Sente dor?

— Sim. Doutor, o que aconteceu comigo? Ninguém quis dizer nada.

O médico sentou-se na beirada da cama e explicou de maneira sucinta:

— Vou lhe contar a verdade, pois você irá se lembrar mesmo. Quando a trouxeram, seu estado era muito grave, Juliana. Você ficou muitas horas sem receber socorro. Tinha perdido muito sangue e seus sinais vitais estavam em franco declínio. Foi submetida a uma cirurgia reparadora.

— Cirurgia reparadora?

— Sim, você ficou bem machucada. Teve um problema após a cirurgia e entrou em estado de coma, ficando na Unidade de Terapia Intensiva por vários dias. Mas melhorou e foi trazida para o quarto, onde poderia ficar com a família. Em relação à cirurgia, você está bem, tenho-a examinado diariamente. Um pouco de dor é normal, especialmente quando quiser se levantar. Enfim, está em franca recuperação, especialmente agora que voltou à consciência. Mas, teremos tempo para conversar. Está com fome?

— Um pouco.

— Ótimo. Vai uma feijoada?

Ao ver a surpresa e o sorriso que aflorou no rosto dela, retificou:

— Estou brincando! Queria mesmo ver como fica sorrindo. Parabéns! Tem um sorriso lindo! Vou mandar trazer-lhe um caldo leve. Amanhã logo cedo estarei aqui. Até logo.

Antes que o médico saísse, uma cara diferente e gorda assomou à porta.

— Bom dia, doutor. Soube que a nossa paciente acordou e vim tomar-lhe o depoimento.

Assustada, Juliana repetiu:

— Depoimento?

Ao mesmo tempo, o médico recusou de maneira firme:

— Impossível, delegado. A minha paciente não está em condições de falar sobre o acontecido.

— Voltarei amanhã, então. Apavorada, Juliana perguntou ao médico:

— Por que depoimento?

— Você foi vítima de um estupro, roubaram seu carro, e a polícia precisa conhecer a sua versão dos fatos, como as coisas se passaram, já que não há ninguém de testemunha.

— É verdade. Não disse ao senhor que estou confusa?

— Isso passa. Fique certa, porém, que só falará quando achar que está preparada. Certo?

— Certo. Obrigada, doutor. Até amanhã, então.

— Até amanhã.

Capítulo 22

Voltando à vida

"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados."

JESUS (MATEUS, 5: 5)

Com a mudança das condições da paciente, o médico aconselhou às pessoas que permaneciam mais com ela no hospital que relaxassem um pouco. Juliana estava bem e ele deixaria uma enfermeira atenta, assistindo-a.

Desse modo, naquela noite, a paciente ficou algum tempo sozinha, aos cuidados da enfermeira que, a espaços regulares, vinha vê-la. Meire e Leandro tinham ido para a faculdade. Dona Helena aproveitou para ir descansar em casa, tomar um banho, fazer uma refeição e verificar como estavam as coisas, no que foi acompanhada pelo marido.

Juliana cochilava quando a porta se abriu de mansinho. Um rapaz aproximou-se do leito sem fazer barulho. Era bonito, alto, tez morena. Juliana sentiu a presença de alguém e abriu os olhos.

— Minha querida, como está? Senti tanta saudade!

— Renato!

Só naquele momento ela lembrou-se do noivo. Meu Deus! E o nosso casamento? — pensou.

Tudo lhe parecia tão distante! Começou a chorar. Sentia-se culpada por estar causando transtornos a ele. Afinal, tinham projetado o casamento havia meses. Como ficaria?

— Perdoe-me... — balbuciou.

— O que é isso, querida? Você não teve culpa!

— Se eu não tivesse ido àquela loja nada disso teria acontecido. E agora? Estávamos a poucos dias do nosso casamento! Os convites já haviam sido enviados. Como vai ser?

Ele afastou-se, buscando o vão da janela, onde ficou olhando para fora, fixando o vazio.

— Você ouviu minha pergunta? — tornou a indagar.

Com expressão tensa, denotando certo constrangimento, ele respondeu a contragosto:

— Infelizmente, não vamos mais nos casar, Juliana. Não agora. Lembrando-se da sua situação, ela questionou:

— O que aconteceu naquela noite mudou alguma coisa para você? Não quer mais se casar comigo, é isso?

Vendo-lhe a expressão de sofrimento no rosto, ele contemporizou:

— Não, querida, não é isso. E que na data prevista não dará mais tempo. Mesmo porque já avisamos os convidados de que não haveria casamento, isto é, nem sabíamos se você... enfim...

— Se eu sobreviveria?

— Juliana, ninguém sabia o que ia acontecer. Você estava em coma, os médicos não sabiam se ia voltar à consciência. E se isso acontecesse, quando poderia ocorrer. Entende?

Com um gesto de cabeça, Juliana demonstrou que compreendia.

No entanto, ela notou uma frieza tão grande no noivo que ficou decepcionada. Sempre carinhoso, Renato não a tinha beijado, nem lhe dirigira aquelas lindas palavras de amor que dizia quando se encontravam. Algo tinha mudado. Munindo-se de coragem, Juliana respirou fundo e disse:

— Quero que saiba, Renato, que não é obrigado a casar-se comigo. Compreendo que a situação mudou desde aquele dia em que conversamos pela última vez, lembra-se? Para mim o tempo não passou e parece que aconteceu ainda ontem.

— Porque você estava em coma e é natural que se sinta assim — interrompeu-a ele.

— É verdade. Lembro-me como se fosse hoje. Eu estava num engarrafamento e sentia-me tão feliz que nada daquilo me incomodava, a irritação dos motoristas, as buzinas estridentes, os palavrões, nada. Liguei para você, conversamos. Você disse que me amava loucamente e que não via a hora de estarmos juntos para sempre.

O rapaz olhou para a noiva. Ela parecia tão frágil, tão indefesa naquela cama de hospital, que ele se emocionou.

— Lembro-me sempre desse dia. Nada mudou entre nós, querida. O casamento será adiado por algum tempo até você se recuperar. Só isso. Não se preocupe.

Juliana permaneceu calada, pensativa. Depois perguntou num fio de voz:

— Você ainda me ama?

Renato, que parecia alheio, levou um susto.

— Claro que eu a amo. Você tem alguma dúvida?

Juliana sorriu levemente e não respondeu. O rapaz agitou-se, incomodado, e apressou-se em se despedir:

— Querida, não quero cansá-la. Voltarei amanhã quando estiver melhor. Ah, meus pais mandaram-lhe um abraço e lhe desejam feliz recuperação. Amanhã eles virão lhe fazer uma visita. Boa noite!

— Boa noite!

O noivo saiu e Juliana não conteve as lágrimas. Estava convicta de que Renato não a amava mais. Lembrou-se do relacionamento de ambos antes do acontecido, do carinho, das atenções, do amor sempre presente. Agora, Renato estava distante, frio e alheio. Como quinze dias poderiam ter feito tanta diferença?

A enfermeira assomou à porta e encontrou-a em prantos. Assustou-se.

— O que houve, Juliana? Pensei que fosse ficar feliz com a visita do noivo!

— Sinto que o mundo está ruindo à minha volta — murmurou. Havia uma dor tão profunda na sua voz e tanta tristeza e desesperança no olhar, que a enfermeira se comoveu.

— Não chore, Juliana. Você está bem, todos estão felizes. Se você teve uma briguinha com o noivo, isso acontece. Logo passa.

— Ele não me ama mais. Ele não me ama mais — repetia ela, mais para si mesma.

Juliana chorava copiosamente e nada conseguia diminuir seu sofrimento. Diante do descontrole da paciente, a enfermeira rapidamente consultou o médico, que mandou aplicar-lhe um sedativo. Após a injeção, ela mergulhou novamente no sono.

No dia seguinte, o movimento de visitantes era intenso: familiares, amigos, colegas de serviço, todos queriam vê-la.

Quando o médico chegou, o tumulto era tão grande que ele foi taxativo. Só os acompanhantes permaneceriam no quarto. Juliana precisava mais do que nunca de tranqüilidade para se recuperar.

Os pais de Renato também compareceram trazendo um lindo ramalhete de flores. Helena e Antero levaram o casal para uma sala ali perto, pequena e aconchegante, onde poderiam conversar. Justificaram a ausência do filho, alegando que ele tinha um projeto urgente para entregar, e cujo prazo estava se esgotando; que ele viria assim que concluísse o trabalho. Ansiosos, queriam resolver logo o problema do casamento, mas os pais de Juliana se mantiveram discretos, cordiais e ponderados.

Helena e Antero, que tinham sido informados, pela enfermeira, da crise que Juliana teve depois da visita do noivo, acharam melhor dar tempo ao tempo. Para eles, a única coisa que contava era o bem-estar da filha. O resto era secundário. Assim, Helena ponderou:

—Temos de deixar que eles resolvam. Não devemos interferir. E Juliana, no momento, ainda não está em condições de decidir nada. Vamos aguardar.

O casal trocou um olhar, concordando. Logo em seguida despediram-se, para alívio de Helena e Antero.

O delegado também compareceu. Queria falar com Juliana. Helena imediatamente se posicionou ao lado da filha, para defendê-la:

— Minha filha precisa de sossego, delegado. Não pode pretender incomodá-la agora, enferma como está.

Juliana interferiu, concordando:

— Pode deixar, mamãe. Conversarei com ele. Quero saber o que tem a me dizer. Se precisar, chamarei.

Assim que ficaram a sós, o delegado puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do leito.

— Todos me chamam de Gonzaga. Não se preocupe, Juliana. Só pretendo fazer-lhe algumas perguntas.

— Pode falar, doutor Gonzaga.

— Conte-me como tudo aconteceu.

Juliana relatou como tinha resolvido fazer compras numa loja e resolvera estacionar o carro na avenida próxima, cortando caminho pela pequena rua transversal.

— Sei qual é. Você tinha visto o rapaz que a abordou?

— Não. Só quando ele me agarrou pelas costas e tapou minha boca.

Nesse instante, Juliana começou a ficar agitada e o delegado acalmou-a:

— Fique tranqüila. Tudo já passou. Como era o rapaz? Conseguiu vê-lo bem?

— Não naquele momento. Estava escuro e ele se mantinha às minhas costas. Só pude vê-lo quando entramos no carro.

— Descreva-me. Como era ele?

— Bem, ele era um rapaz de boa aparência, embora malvestido e sujo. Pele clara, cabelos loiros penteados para cima, espetados. Olhos claros, verdes talvez.

— Altura?

— Talvez um metro e oitenta, mais ou menos.

— Algum detalhe especial que tenha chamado sua atenção?

— Como assim, delegado?

— Um tique nervoso, uma mancha na pele, uma marca de nascença. Essas coisas são importantes para identificar o criminoso.

— Nada. Não me lembro de nada.

— Está bem. Se lembrar, me avise. Quando estiver melhor, marcarei um horário para tomar seu depoimento. Obrigado, moça. Fico feliz que esteja se recuperando. Até logo.

Alguns dias depois, Juliana teve alta e pôde retornar ao lar, cercada pelo carinho dos familiares e amigos. Cheios de alegria, entraram em casa; ao abrir a porta do seu quarto, Juliana chorou de emoção.

Ainda precisava de cuidados, de repouso e de medicação calmante para dormir, mas o fato de estar no seu ambiente dava-lhe mais segurança. As imagens do acontecido assomavam-lhe sempre à memória e, nesses momentos, ela entrava em crise; agitava-se e gritava, em profundo desespero. Não raro tinha sono tumultuado e acordava em pânico, chorando e gritando, com os olhos esgazeados.

A mãe corria para perto dela e abraçava-a, fazendo com que voltasse à realidade.

— Calma, filhinha, já passou. Você está aqui em casa, conosco. Calma.

Aos poucos, ela serenava, e voltava a dormir, depois de nova dose de remédio.

Com o passar dos dias, as crises foram se espaçando e Juliana já conseguia até sorrir.

Na semana seguinte, tinha horário marcado com o médico. Compareceu ao consultório. Ele a examinou, cuidadosamente. Depois, fez algumas perguntas.

— Como está se sentindo, Juliana?

— Bem, doutor. As dores diminuíram e estou andando bem melhor.

— E a menstruação?

— Ainda não veio, doutor.

— É normal. Sempre que o organismo é agredido, ou sofre um abalo, ocorre um descontrole nas regras. E, no seu caso, além da violência, você foi submetida a uma cirurgia.

Conversaram mais um pouco e marcaram o retorno dela para a semana seguinte. Na despedida, o médico, lembrou:

— Se houver mudanças, me avise. E como ficou com a polícia?

— Irei prestar depoimento amanhã cedo.

— Muito bem. Mantenha-se equilibrada, serena. E importante tomar um tranqüilizante antes. Se precisar de mim, estarei à sua disposição, Juliana. Passe bem. Até logo, dona Helena.

Juliana saiu do consultório médico e, caminhando na rua, uma desagradável sensação de que estava esquecendo algo importante vinha-lhe à mente.

— O que foi, minha filha? Parece tensa.

— Nada, mamãe. Tenho a sensação de que preciso me lembrar de algo, e não consigo.

— Qualquer hora você acabará se lembrando. Esqueça. A recordação virá quando menos esperar. Esta é a primeira vez que você sai de casa, filha. Vamos a um shopping! Veremos lojas bonitas e tomaremos um lanche, como você sempre gostou de fazer.

Juliana concordou. Mãe e filha passaram horas agradáveis conversando e se divertindo, esquecendo um pouco dos problemas. Helena sabia que a filha estava tensa com a ida à delegacia no dia seguinte.

Naquela noite, Juliana demorou a conciliar o sono. Sentia que algo estava lhe escapando. Sempre aquela incômoda sensação de uma lembrança que foge.

Afinal dormiu, mas teve sono agitado. Despertou no meio da noite em pânico, banhada em suor.

— Calma, filhinha, isso passa. Estou aqui com você — disse o pai, abraçando-a com carinho.

— Sempre a mesma cena, papai. Aquele homem horrível me arrastando para o meio do mato. Procuro esquecer, mas não consigo.

— Não seria melhor telefonar para o delegado avisando que você não pode comparecer, filha?

Juliana pensou um pouco e resolveu:

— Não, papai. Tenho de enfrentar meus fantasmas. Não posso continuar fugindo do problema. Acho que vou aceitar a ajuda daquele psicólogo que o doutor Bruno indicou.

— Ótimo. Tenho certeza de que lhe fará bem, filha. Agora durma um pouco. Ficarei aqui a seu lado.

Na manhã seguinte, Juliana se dirigiu à delegacia junto com seus pais. O delegado a fez entrar, com gentileza. Depois, solicitou a um investigador que ali estava:

— Tadeu, sirva um café para o casal.

Juliana sentou-se. Nunca tinha entrado numa delegacia. Viu um rapaz que estava trabalhando num computador e que continuou na sala. Sentiu-se mal com a presença dele.

O delegado Gonzaga sentou-se do outro lado da mesa, sorridente.

— Bem, vamos começar. Você vai repetir aqui o que me disse no hospital, está bem Juliana? Pode começar.

— Ele vai ficar aqui? — questionou, olhando constrangida para o rapaz, que continuava trabalhando.

— É preciso, Juliana. Ele vai anotar tudo o que você disser. Depois, você vai ler o depoimento e assinar, se estiver tudo conforme.

Certo? Muito bem. Comece do começo. Terminava o expediente na empresa. O que você fez?

Juliana começou a contar e envolveu-se com o relato, esquecendo-se de que havia uma terceira pessoa na sala.

— Quando parou na avenida, notou alguém por perto?

— Várias pessoas, o trânsito era intenso, mas não vi ninguém em especial.

— Continue. Você entrou na ruela e...

— Senti um arrepio de medo. Quis retroceder, mas decidi prosseguir.

— Interessante. Já tive ocasião de perceber esse fato inúmeras vezes. É como se a pessoa fosse alertada de algum perigo iminente. Se déssemos mais atenção a esses avisos, nos livraríamos de muitos acontecimentos funestos.

Juliana fitou o delegado sem saber o que dizer. Ele tinha razão. Se ela tivesse ouvido sua voz interior, nada teria acontecido.

— Desculpe-me a interrupção. Continue, Juliana. Você prosseguiu...

— Sim. De repente, senti um braço forte me agarrando enquanto a outra mão me tapava a boca.

Ela começou a ficar agitada, nervosa. Gonzaga percebeu.

— Relaxe, Juliana. Aceita uma água? Um café? Quer parar um pouco? Não temos pressa.

— Aceito uma água, por favor. Não, não quero parar. Quanto antes acabar, melhor.

Discretamente, o rapaz do computador levantou-se e trouxe um copo com água, colocando-o à frente dela. Juliana tomou alguns goles, respirou fundo e disse para o delegado:

— Podemos continuar.

— Ótimo. Vamos em frente.

Aos poucos, ela foi relatando tudo como tinha acontecido. O trajeto no meio do trânsito intenso, suas súplicas para que ele a deixasse ir embora, a parada na estrada em local isolado perto de uma mata. Contou como ele a arrastara pelo mato, afastando-se da estrada. Como a espancara porque não parava de gritar.

Parou de falar por alguns momentos, concluindo:

— Depois não me lembro de mais nada.

— Você foi estuprada. Não se lembra de nada?

— Não. Devo ter desmaiado. Ele batia minha cabeça no chão, repetidas vezes, me dava socos no rosto...

— Então você não viu mais nada. E depois?

— Acordei sem ter noção de onde estava, o que tinha acontecido e quanto tempo se passara. Entrei em pânico. Sentia dores lancinantes no corpo todo, especialmente na região de baixo. Percebi que estava sangrando e entendi que precisava buscar ajuda. Ele não estava mais por ali, tudo estava quieto. Só ouvia o barulho dos animais noturnos, o que me deixava apavorada.

Contou como tentou se levantar várias vezes, mas as dores eram insuportáveis e não conseguia. Então, resolveu se arrastar, se ferindo em galhos, pedras e asperezas do solo, até que chegou à estrada. Vendo as luzes de um veículo que se aproximava, levantou-se com esforço inaudito e ergueu um dos braços. Em seguida, perdeu os sentidos de novo.

— Daí em diante eu já conheço os fatos. Leandro e Meire vinham de uma festa em cidade próxima e notaram alguém que pedia socorro. Pararam e, percebendo que seu estado era grave, chamaram a ambulância. Você teve sorte, garota, aquela é uma estrada secundária, de pouco movimento, e poderia levar muito tempo antes que alguém transitasse por ali. Sem contar que muitas pessoas nem param, achando melhor não se envolver.

O delegado fez uma pausa, olhando a moça ali à sua frente, depois disse:

— Bem, por hoje é só. Sei que foi muito difícil para você reviver os fatos, mas era absolutamente necessário, Juliana. Peço-lhe desculpas, mas faz parte do meu trabalho.

— Foi difícil, sim, doutor Gonzaga, mas agora me sinto mais aliviada. Como estão as investigações? O senhor tem idéia de quem possa ser o criminoso?

— Infelizmente não, Juliana. Temos alguns palpites, mas nada de concreto. Se você pudesse se lembrar de alguma coisa que nos ajudasse, algo de diferente nesse homem, uma peça de roupa, uma tatuagem, uma marca, qualquer coisa serve.

Ao ouvir essas palavras, Juliana finalmente se lembrou:

— Meu Deus! Como pude me esquecer? Sim, ele tinha uma tatuagem no ombro direito! Era isso o que eu estava tentando recordar e não conseguia. Ele estava com uma camiseta regata preta sob uma jaqueta jeans velha e suja, sem mangas, como um colete; então pude ver a tatuagem. Não era grande, no alto do braço.

— Como era essa tatuagem?

— Parece-me que era um animal. Talvez um crocodilo ou um dragão. Não posso afirmar com certeza. Não estava em condições de prestar atenção.

— Entendo. Muito bem, Juliana. Esse detalhe vai poder nos ajudar bastante, tenha certeza. Você está liberada agora. Qualquer notícia, eu volto a me comunicar com você. Obrigado. Tenha um bom dia.

Na sala de espera, o delegado declarou para o casal que aguardava impaciente, enquanto se despedia:

— Tivemos uma manhã produtiva. Juliana lembrou-se de um aspecto importante. Obrigado. Se tiver notícias, entrarei em contato.

Juliana voltou para casa mais tranqüila e bem mais aliviada.

Capítulo 23

Tomando decisões

"Em que momento a alma se une ao corpo?" "A união começa na concepção, mas só se completa no instante do nascimento. No momento da concepção, o Espírito designado para habitar determinado corpo se liga a ele por um laço fluídico e vai aumentando essa ligação cada vez mais, até o instante do nascimento da criança. O grito que sai da criança anuncia que ela se encontra entre os vivos e servidores de Deus. "

(O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTÃO 344)

Aos poucos, Juliana foi voltando à sua rotina. Recomeçou a trabalhar, sair de casa, fazer compras, ver as amigas e, especialmente, a encontrar-se com o noivo. Pelo visto, tudo parecia ter voltado ao normal. Todavia, algo dentro dela mudara. Não sentia mais a mesma satisfação nas coisas que fazia antes.

Quanto a Renato, embora continuasse a afirmar que a amava, o relacionamento entre eles era morno, para não dizer frio. Ele evitava ficar a sós com Juliana, procurando estar sempre no meio de pessoas, se cercando de gente. Nova data fora marcada para o casamento, que se realizaria dentro de dois meses. As famílias estavam felizes, esmerando-se em organizar os preparativos, dos quais os noivos não participavam.

Juliana, intimamente, sentia que o casamento não se realizaria.

Fazia algum tempo que vinha experimentando estranhas sensações. Sentia-se irritada, nervosa; diziam-lhe que era a falta da menstruação, que ainda não viera, porém que isso se resolveria em pouco tempo. Certo dia, Juliana passou mal na empresa, perdeu os sentidos e caiu no chão. Assustada, resolveu ir ao médico. Telefonou, e como era uma emergência, a secretária encaixou-a entre as consultas marcadas para aquele mesmo dia.

Quando ela entrou na sala, o médico a cumprimentou sorridente:

— Boa tarde, Juliana! Que prazer revê-la!

— Boa tarde, doutor Bruno.

— Sente-se, Juliana. Como tem passado? Alguma novidade? Os olhos da jovem se encheram de lágrimas, que não chegaram a cair.

— Não sei o que está acontecendo comigo, doutor Bruno. Ando nervosa, irritada, descontente e sinto algumas coisas estranhas. Hoje, pela manhã, tive um mal-estar no serviço e cheguei a desmaiar! O que pode ser isso, doutor?

O médico acalmou-a com sua voz serena:

— Fique tranqüila. Vou examiná-la.

Delicadamente, fez com que a paciente se deitasse na mesa de exames clínicos e começou a examiná-la. Vez por outra fazia alguma pergunta, que ela respondia.

— Está se alimentando direito, Juliana?

— Não, doutor. Não consigo comer nada. Se insisto, tenho até náuseas.

— Tem dormido bem?

— Muito bem. Durmo até demais. Tenho enfrentado dificuldade para sair da cama e ir trabalhar de manhã.

— Como está a urina?

— Normal.

Quando terminou o exame, ela indagou:

— E então, doutor?

— Aparentemente, você está saudável. Deve ter tido alguma queda de pressão em virtude do calor excessivo que tem feito nesses últimos dias. Vou pedir alguns exames de sangue e de urina. Quando estiverem prontos, retorne.

Juliana, ainda não satisfeita, voltou a inquirir o médico:

— O senhor acha que eu estou doente, doutor?

— Não, Juliana, ao contrário. Acho que você está bem saudável.

— Então, por que esse mal-estar que venho sentindo? O profissional fitou-a sério, e depois lhe disse:

— Juliana, gosto de você como se fosse uma filha, a filha que não tive. Durante aquele período passado no hospital, afeiçoei-me a você.

— Obrigada, doutor. Mas noto, pela sua expressão, que o senhor está analisando se deve me contar a verdade. Pode falar que vou saber entender e aceitar, doutor.

— Juliana, não gostaria de afligi-la sem motivo. Por isso solicitei os exames. Vamos aguardar.

Percebendo que estava certa, que o médico estava escondendo alguma coisa, reagiu enérgica:

— Não, doutor. Quero saber agora. O que está acontecendo comigo? Não sairei daqui enquanto não souber a verdade.

Ele respirou fundo, olhou-a fixamente e falou:

— Você está grávida.

Olhos arregalados, boca aberta, Juliana julgou não ter entendido.

— O que disse, doutor?

— Que você está esperando uma criança, Juliana.

— Não pode ser! Isso é alguma brincadeira de mau gosto?

— Acha que eu brincaria com você? Por isso pedi os exames, que vão confirmar meu diagnóstico.

Juliana começou a chorar, desesperada:

— Mas o senhor disse que minha menstruação não tinha vindo em virtude da cirurgia e de tudo o mais!

— Sim, e era verdade. Porém, suas regras já deveriam ter vindo. Juliana, procure manter a calma, ter um bebê não é o fim do mundo.

— Meu Deus! Doutor, o que eu faço? Meu casamento está marcado para breve, os preparativos sendo feitos. Agora, essa bomba? Como Deus foi fazer isso comigo?

Com o corpo todo a tremer, demonstrava um desespero enorme.

— Parece que minha cabeça vai explodir, doutor. O que vai ser da minha vida agora? Temo enlouquecer. De um tempo para cá, sinto que o mundo está desabando sobre mim.

Em vista do seu estado emocional, o médico ministrou-lhe um calmante. Depois, sentou-se na frente dela e, tomando suas mãos nas dele, considerou com imensa ternura:

— Juliana, minha filha, sei que foi um golpe muito forte, especialmente depois de tudo o que você passou. Mas, veja! Para tudo existe uma solução! Pode ser que seu noivo aceite essa criança...

— Conheço Renato, doutor. Não aceitará.

— Bem, existe uma saída que a lei lhe oferece. Quando a gestação é oriunda de um estupro, pode-se interromper a gravidez.

— Fora de cogitação, doutor. Minha consciência nunca aceitou o aborto. Tenho respeito demais pela vida para tomar tal atitude.

O médico sorriu com os olhos úmidos de emoção:

— Sinto um profundo respeito por você, Juliana, e suas palavras só fizeram aumentar minha admiração por sua pessoa.

Ela levantou os olhos vermelhos de chorar e a expressão era de uma imensa dor.

— Agradeço-lhe. Mas isso não resolve o meu problema, doutor.

— Eu sei e compreendo o que está sentindo. Aconselho-a a voltar para casa e refletir bem no que quer fazer. Coloque seus pais a par do que está acontecendo. Seja qual for sua decisão, terá de ter o apoio deles. Conte comigo em qualquer circunstância. Está bem?

Despediram-se com um grande abraço. Antes de Juliana sair, ele mostrou preocupação.

— Você veio sozinha? Quer que minha secretária a leve em casa? Não pode dirigir neste estado.

— Não, doutor. Já estou bem, pode crer. Até logo.

Saindo do consultório, Juliana pensou que teria de enfrentar momentos difíceis. O primeiro, seria contar a seus pais.

Ao entrar em casa, a mãe estranhou ao vê-la chegar tão cedo do trabalho, ao que ela deu uma desculpa, alegando que estava com dor de cabeça e saíra antes do horário.

— Vou descansar um pouco, mamãe. Quando o papai chegar, me chame, por favor.

— Certo. Então, vou preparar o jantar mais cedo.

Juliana fechou-se em seu quarto, jogou-se na cama e cobriu a cabeça com a colcha. Ali, quietinha, chorou bastante.

Quando Helena foi avisar que o jantar estava na mesa, estranhou vê-la com a cabeça coberta com o calor que estava fazendo. Não fez comentários, entendendo que alguma coisa estava acontecendo.

Juliana beijou o pai e sentou-se à mesa. O ambiente da sua casa, que sempre fora alegre e descontraído, tornara-se pesado e triste.

Helena notou que a filha mal tocara na comida, mas não disse nada. Quando terminaram a refeição, foram para a sala, como de hábito. Antes que o pai ligasse a televisão, Juliana informou, reunindo as forças:

— Preciso conversar com vocês dois.

— Sim, filha, pode falar. Seja o que for, sabe que pode contar comigo e com sua mãe — disse o pai, preocupado.

— Estou grávida.

— O quê?!... — disseram ambos ao mesmo tempo.

— Sinto-me desesperada! Nem por um momento pensei nessa possibilidade.

— Esse filho é do Renato? — gaguejou o pai.

— Claro que não, papai. Se fosse, não haveria problema. Renato e eu não tivemos relacionamento algum nesse período.

— Então...

— ... É um filho daquele miserável que estou esperando. Entendem meu desespero? O que será de mim agora? Minha vida está destruída.

Cobriu o rosto com as mãos a chorar convulsivamente. Os pais a abraçaram, também em lágrimas.

— Tem certeza, minha filha? — indagou a mãe.

— Hoje tive um desmaio no serviço, e fui ao médico. Doutor Bruno mandou fazer alguns exames, mas percebi que ele sabia o que estava acontecendo comigo. Apertei-o, e ele contou-me a verdade.

— Filha, ele pode ter-se enganado. Não seria o primeiro médico que erra. Olhe, acalme-se. Amanhã logo cedo vamos ao laboratório. Quem sabe tudo não passa de um engano?

— Eu "sinto" que estou grávida, mamãe. Helena, que tinha feito uma pausa, prosseguiu:

— E se estiver? Você teve relacionamento com Renato antes, não foi? Então, mesmo que esteja grávida, não se desespere. Pode ser que a criança seja do seu noivo e não daquele criminoso. Faremos um teste de DNA e tudo será esclarecido. Vamos! Não chore, minha querida. Relaxe. Vou buscar o remédio para que você possa dormir bem. Precisa descansar.

Com as ponderações da mãe, Juliana aos poucos se acalmou. Essa criança pode ser filho de Renato! Uma réstia de esperança surgiu em seu íntimo. Nem tudo estava perdido.

♦♦♦

Na manhã seguinte, Helena e a filha levantaram bem cedo e foram ao laboratório. A coleta do sangue teria de ser feita em jejum. Depois, como Juliana estivesse muito combalida, não foi trabalhar.

Passado o período de espera, ficaram prontos os exames; elas pegaram o resultado no laboratório e dirigiram-se ao consultório médico.

Como o doutor Bruno previra, o diagnóstico se confirmou. Juliana estava grávida.

Mãe e filha conversaram com o médico sobre o desejo de fazer o teste de DNA. A dificuldade é que Juliana não queria que o noivo ficasse sabendo.

— Fazer o teste sem o conhecimento de Renato não é difícil. Pode ser feito com um fio de cabelo, um pedaço de unha etc. O problema é que, se ele souber que você está grávida, também ficará em dúvida sobre a paternidade da criança, Juliana. Já pensou nisso? Você terá de contar a ele! Não vejo outra saída.

— Não posso, doutor. Não tenho coragem — disse a jovem, nervosa, roendo as unhas.

Com serenidade, mas firme, ele insistiu:

— Você não tem alternativa, Juliana. Mesmo porque, se resolver abortar, o tempo é curto.

— Isso eu não farei, doutor — reafirmou, decidida.

— Você poderá mudar de idéia. Se o filho não for de Renato, provavelmente ele exigirá que você tome essa decisão drástica. Por enquanto, fale com ele e explique a situação. Depois, voltaremos a conversar.

Despediram-se. Juliana estava com o coração opresso. Como contar seu problema ao noivo? Entendeu, porém, que o médico tinha razão. Renato precisava saber, tinha o direito de saber. E se era necessário tomar uma decisão, que fosse o mais rápido possível.

Entrando em casa, enquanto a mãe se dirigiu à cozinha para preparar o almoço, Juliana pegou o celular e ligou para o noivo.

— Renato, eu preciso falar com você.

— Olá, querida! Precisa falar comigo? Está bem. Hoje à noite passarei na sua casa e jantarei com vocês. Depois, vamos ao cinema.

— Cinema? — ela estranhou.

— E. Lembra-se de que tínhamos combinado de assistir "aquele" filme?

— Ah! Não vai dar, Renato. Não estou com cabeça para isso. E também não posso esperar até a noite para falar com você. E urgente.

— Bem, se é tão urgente assim — disse, olhando para o relógio de pulso -, está quase na hora do almoço. Podemos fazer a refeição juntos. Que tal aquele restaurante pequeno e tranqüilo de sempre?

— Certo. São onze horas. Esperarei você lá às onze e trinta. Está bem para você?

— Combinado. Mas estou preocupado, Juliana. Não quer mesmo me adiantar nada?

— Não. Até lá.

Ainda era cedo, contudo Juliana dirigiu-se para o restaurante. Escolheu uma mesa e acomodou-se. Pediu um suco e ficou esperando. Um pouco depois da hora combinada, Renato chegou.

— Desculpe-me, querida. Estava atendendo a um cliente e não podia sair. Estou fazendo um projeto para ele e precisávamos combinar algumas adaptações.

Parou de falar e notou que a noiva não parecia bem. Segurou a mão dela sobre a mesa e percebeu que estava trêmula.

— Juliana, você está pálida. Aconteceu alguma coisa? Essa pressa em falar comigo... tem relação com nosso casamento?

— Diz respeito ao casamento, sim. Preciso falar...

— Depois, querida — interrompeu-a. — Antes, vamos almoçar. Estava mesmo com fome.

Renato chamou o garçom e fez os pedidos rapidamente. Conheciam o restaurante e tinham já suas preferências.

Depois, conversaram sobre amenidades. Tentando arrancar-lhe alguma coisa, ele perguntou como estava o serviço dela, como iam os preparativos para o casamento, se estava tudo certo. Ela respondeu dizendo que o serviço ia bem e que, quanto aos preparativos para o casamento, também acreditava que estavam caminhando a contento, pelo que sua mãe dizia. Falaram sobre o tempo e sobre muitas outras coisas. Nada, porém, que lhe desse alguma pista.

Quando o garçom trouxe os pratos, foi um alívio. Renato, como sempre, almoçou com satisfação, enquanto ela comeu pouco e com dificuldade.

Após terminarem, o garçom tirou os pratos, trouxe o café e era hora de enfrentar o assunto que os tinha levado até ali.

— Bem, Juliana, diga o que a preocupa. Noto você tensa, comeu pouco e está trêmula. Aconteceu alguma coisa?

Juliana pretendia fazer uma introdução, ensaiara algumas palavras enquanto esperava por ele, mas quando percebeu já tinha falado:

— Estou grávida.

Renato, que levava a xícara de café à boca, ficou parado, olhando para ela, incapaz de falar.

— Você ouviu? Estou grávida, Renato!

Ele pousou lentamente a xícara no pires, como se estivesse refletindo.

— Sim, ouvi. Mas, nós não...

— Esse é exatamente o problema. Tivemos relações antes do que me aconteceu.

— Mas esse filho pode não ser meu, Juliana!

— E verdade. Mas também pode ser seu — respondeu ela, jogando a dúvida no ar.

— O que você sugere?

— Que façamos um teste de DNA. É o único meio de podermos ter certeza.

— Está bem. Concordo. Mas, e se o filho não for meu? Você fará o aborto?

Juliana respirou fundo e respondeu:

— Uma coisa de cada vez. Veremos isso depois. Primeiro, o teste de paternidade. Vou marcar e depois aviso você.

Juliana ficou olhando para o noivo e ele para ela. Em nenhum momento ela notou que Renato estivesse preocupado com a situação dela. Só pensava nele.

— Não tem nada para me dizer, Renato? — perguntou, tentando conseguir uma reação dele.

— Não sei o que lhe dizer, Juliana. Estou em choque.

— Imagino. Eu também fiquei. Bem, tenho de ir agora. Até logo!

Ela saiu, deixando sentado no mesmo lugar o noivo, que fora incapaz de dizer-lhe uma palavra de carinho, de consolo, de ajuda. Naquele momento, tentando conter as lágrimas, Juliana chegou a desejar que o filho não fosse dele. Não desejava um pai tão insensível e egoísta para seu filho.

Capítulo 24

Enfrentando as adversidades

"A liberdade de consciência é uma conseqüência da de pensar?"

"A consciência é um pensamento íntimo que pertence ao homem, como todos os outros pensamentos. "

(O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTÃO 835)

Algum tempo depois, ficou pronto o exame de comprovação de paternidade. Apesar de extremamente ansiosa, Juliana não quis ver o resultado no laboratório. Controlou-se e, com o envelope a queimar-lhe as mãos, caminhou até uma praça, ali perto, escolheu um banco, onde se sentou automaticamente. O medo era tanto que seu corpo todo tremia. Quebrou o lacre do envelope e retirou as folhas cujas letras pareciam dançar diante de seus olhos. Concentrou-se, respirou fundo e leu o resultado.

Juliana ficou parada, em estado de choque, incapaz de ter uma reação. O teste só veio provar o que ela temia: o filho não era de Renato. Então, a criança era mesmo do desconhecido! Sem dúvida tinha refletido nessa possibilidade, durante noites e noites em que não dormira pensando no assunto, mas ver confirmadas suas suspeitas era terrível, mais do que isso, era monstruoso. Além de ter sofrido uma violência, carregar o resultado dessa violência parecia-lhe desumano.

Onde estava Deus quando permitiu que isso acontecesse?, pensava desesperada. Naquele momento, mais do que nunca precisava de alguém a seu lado, e estava sozinha, entregue a si mesma. Na verdade, Renato quis acompanhá-la, ansioso pelo resultado, no entanto ela não permitiu. Seus pais também se dispuseram a ir junto, mas Juliana não aceitou. Queria estar a sós quando visse o resultado do teste. Não gostava de expor suas emoções diante dos outros, especialmente do noivo. Agora, tinha dúvidas se agira corretamente. Sentia necessidade de alguém a seu lado que a abraçasse, que a consolasse, que a amparasse nesse momento difícil, e não havia ninguém.

O que fazer? Não tinha ânimo para sair do lugar. Olhar perdido ao longe, fisionomia atormentada, ela continuou sentada no banco da praça durante horas.

De repente, deu-se conta de que o celular estava tocando. Abriu a bolsa e atendeu. Era Renato.

— Juliana? Onde você está? Liguei várias vezes, mas você não atendeu!

— Oi, Renato. Não ouvi o telefone tocar.

— Pegou o resultado do teste?

— Peguei.

— E então? O que deu? Fala, Juliana, estou ansioso!

— Ainda não abri — mentiu, tentando ganhar tempo.

— Não acredito!

— Está lacrado. Vou ao médico. Lá ficarei sabendo.

O rapaz estranhou a reação da noiva. Afinal, mais do que ninguém, ela tinha pressa em conhecer o resultado. Ele ficou preocupado; notara a voz do outro lado estranha, diferente. Porém, naquele momento, não podia fazer nada, a não ser concordar. Respirou fundo tentando conter a irritação e a impaciência:

— Está bem, Juliana. Quando souber o resultado da paternidade, me avise. Afinal, sou parte interessada!

Juliana desligou o telefone sem despedir-se do noivo. Tinha tomado uma decisão. Aquilo que afirmara como desculpa lhe parecia a melhor solução: sim, iria ao médico. O consultório distava poucas quadras dali, e o doutor Bruno era a única pessoa que poderia ajudá-la naquele momento.

Como um autômato dirigiu-se à clínica. Não se deu conta do trajeto, nem de como atravessou as ruas. Chegando ao endereço, subiu até o quinto andar, caminhou até a sala do médico, abriu a porta e sentou-se. A secretária estranhou o comportamento da recém-chegada. Geralmente afável, naquele dia Juliana nem sequer a cumprimentou. Não tinha hora marcada nem perguntou se o médico podia atender; apenas tinha se acomodado sem dizer uma palavra, e continuava ali, alheia a tudo.

A secretária, sensível e delicada, que já tinha visto de tudo naquele consultório, percebeu que a moça estava emocionalmente perturbada. Conhecia sua história, os problemas que tinha enfrentado e achou que ela estava precisando de tempo para se recuperar de alguma coisa.

Uma hora depois, o médico chamou a assistente.

— E então? Parece que as consultas terminaram por hoje.

— Sim, doutor. Porém, tem uma moça aguardando. Parece que não está nada bem. É a Juliana.

O médico demonstrou surpresa no olhar.

— Juliana? Faça-a entrar!

A assistente saiu e, logo em seguida, Juliana entrou. Bruno tinha se levantado para cumprimentá-la, mas ela apenas estendeu o braço e entregou-lhe o envelope. Ao ler o resultado, o médico entendeu o estado emocional de sua paciente.

— Seu noivo já sabe?

— Não. Ainda hoje vou romper o nosso compromisso. Não tenho escolha.

— Não faça isso, Juliana. Dê-lhe uma chance de mostrar o que pensa. Pode ser que você se engane. Quem sabe? Ele pode surpreendê-la! Já tive ocasião de ver casos cujos resultados pareciam certos e que as pessoas se equivocaram em seus julgamentos — ponderou o médico.

Juliana abriu um sorriso triste e melancólico.

— Não no caso de Renato. Conheço-o muito bem para poder me enganar. Mas está bem, doutor, já que insiste. Vou tentar.

Em torno das vinte horas, Renato chegou. Vinha tenso, angustiado. Cumprimentou Antero e Helena, trocaram algumas palavras cordiais. Logo em seguida, Juliana entrou na sala e os pais saíram, deixando-os a sós.

Renato viu o envelope nas mãos dela e suplicou:

— Por favor, Juliana. Não me deixe mais nessa dúvida cruel. Sou eu o pai?

Calada, ela estendeu a mão e entregou-lhe o envelope. Depois, lentamente se dirigiu para o vão da janela, examinando a rua tranqüila, onde um vento leve agitava as copas das árvores.

Renato leu o resultado e caiu sentado no sofá, lívido.

— Meu Deus! E agora, Juliana?

De costas para ele, a moça continuou impassível como se não tivesse ouvido. Ele repetiu a pergunta:

— Juliana, o que vamos fazer?

Ela ainda permaneceu calada por alguns segundos. Depois, deixando o vão da janela, virou-se, fitou o noivo e devolveu-lhe a pergunta:

— Diga-me você, Renato. E agora? Como fica nossa situação? Nervoso e trêmulo, ele passava a mão pelos cabelos; os olhos vermelhos demonstravam grande agitação emocional. Ela continuou:

— Você aceitaria o filho de outro homem, sabendo que não tive culpa naquilo que me aconteceu, que fui apenas uma vítima?

Profundamente abalado, ele gaguejou:

— Não sei o que dizer, Juliana. Não me sinto preparado para ser pai. Começar uma vida de casado, com uma criança que nem sequer é meu filho. Você não pode exigir de mim tal coisa!

Renato fez uma pausa, olhando para a noiva que chorava silenciosamente, e depois prosseguiu mais esperançoso:

— Olhe, temos uma saída legal: a interrupção da gravidez. Andei me informando e a lei permite que se faça o aborto em casos como este.

Juliana balançou a cabeça:

— Sei disso, Renato. Mas não estou disposta a transformar-me numa criminosa para me casar com você. Se o preço é esse para ficar a seu lado, não pretendo pagar. É alto demais.

— A verdade é que você não me ama, Juliana. Se me amasse, faria esse sacrifício por mim. Você não entende? Ainda não existe uma vida! Esse bebê não é ninguém e você não o desejava!

— Engana-se, Renato — retrucou ela, incisiva. —A vida já existe e está pulsando dentro de mim. Essa criança, sim, é que não tem culpa de nada.

Os dois permaneceram em lados opostos da sala, calados, cada qual entregue aos próprios pensamentos. O ambiente da sala estava opressivo, tenso, irrespirável. Afinal, ele exigiu uma definição:

— Esta é sua última palavra? Não vai mudar de opinião?

— Não, Renato. Lamento. Não posso fazer o que você deseja. Perderia o respeito por mim mesma.

— Então nosso compromisso está desfeito? Nada de casamento, de festa, de viagem de núpcias, de uma vida a dois? — insistia ele.

— Nada. Lamento.

Completamente transtornado, Renato fez meia-volta e saiu batendo a porta. Antero e Helena, ao ouvirem o estrondo, entraram na sala e encontraram a filha chorando convulsivamente.

— Está tudo acabado. Tudo!

— Não se preocupe, filhinha. Nós estaremos sempre junto com você. Coragem. Confie em Deus.

Em prantos, ela repetia:

— Tudo acabado. O sonho de toda uma vida desapareceu, virou pó.