Só o Amor Liberta
Jairo devolveu a pergunta, irritado
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Como acha que estamos nos sentindo?
— Por que acha que tudo isso aconteceu? Digo, a morte de Carlinhos e tudo o mais? — contra-atacou o repórter, sem parecer ter ouvido a pergunta do dono da casa.
Naquele instante, Jairo se lembrou de todas as reflexões que tinha feito desde a morte do filho e, com muita gravidade, considerou:
— Por falta de educação. Nossa sociedade não foi educada para a paz. As famílias não se preocupam em passar valores morais para os filhos, conscientizando-os de que devem agir de forma diferente, respeitando o próximo.
— De quem é a culpa, então? Do governo? — indagou outro.
— De todos nós. Do governo também, claro, por não fazer a parte que lhe cabe. Mas, a culpa é de cada um de nós, pelas atitudes que tomamos, pelo comportamento que assumimos perante o semelhante. Cada pessoa é uma potência em si mesma e dela depende modificar o mundo em que vive.
— Por que você levou Carlinhos àquele jogo?
— Ele nunca tinha assistido a uma partida no campo e gostava muito de futebol. Acreditando que fosse seguro, eu o levei, contra a opinião de minha esposa, que não desejava que ele fosse.
O repórter virou-se para Marta:
— É verdade que a senhora não queria que Carlinhos fosse ao campo?
— Sim. É verdade.
— Por que, dona Marta?
— Não sei ao certo. Não gosto de futebol. Mas não foi só por isso. Na verdade, tive a impressão de que alguma coisa iria acontecer. Estava com o coração apertado e sentindo uma angústia muito grande.
— A senhora acha que tudo isso já estava previsto, então?
— Não sei. Não posso responder a essa pergunta.
— Jairo, quais foram as últimas palavras de seu filho?
O pai ficou pensativo. Buscando na memória, voltou no tempo até o momento em que ele e Carlinhos estavam no campo, sentados na arquibancada, e ele percebia a emoção do filho diante do estádio repleto. Lembrou-se de que perguntou se Carlinhos estava gostando, e a resposta dele veio nítida à sua mente:
Papai, eu jamais vou esquecer este dia em toda a minha vida. Obrigado. Aconteça o que acontecer, papai, lembre-se de que este é o dia mais importante da minha vida.
Jairo enxugou uma lágrima e completou:
— Não me lembro quais foram as últimas palavras de meu filho, porém estas foram as mais significativas.
Marta olhou para o marido, espantada, e começou a chorar. O repórter ficou parado, sem ação. Depois, voltou a perguntar:
— Interessante. Novamente surge a idéia de que algo estava previsto. Como se Carlinhos soubesse o que estava para acontecer. Vocês acreditam nisso?
Jairo ergueu-se, irritado e descontente.
— Não acreditamos em nada! Agora, basta! Vejam o estado de minha esposa! Tenham piedade!
Os repórteres insistiram mais um pouco, porém Jairo e Marta deixaram a sala, e a mocinha indicou-lhes a porta da casa.
Nos aposentos do casal, Marta continuava chorando. Jairo, diante da janela, as mãos nos bolsos, olhava o céu que se descortinava sem dizer uma palavra. Afinal, rompendo o silêncio, ela indagou:
— Jairo, você nunca tinha me falado sobre as últimas palavras de Carlinhos.
Ele virou-se lentamente, fitando a esposa.
— Na verdade, não foram as últimas palavras dele, Marta, porém as mais importantes.
— Por que nunca me contou?
— Você nunca quis saber.
Marta enxugou os olhos, pensativa. Era verdade. Sempre que o marido tentava falar sobre aquele dia, relatar como tudo acontecera, ela se recusava a ouvir. Mas agora era diferente. Tinha de saber.
— Acredita que ele sabia que ia morrer?
— Não sei. Pode ser.
Permaneceram calados por algum tempo. Depois, Marta voltou a perguntar, um tanto constrangida:
— Você acredita em vida após a morte? Isto é, acha que nosso filho pode estar em algum lugar?... Ele era um garoto tão especial!
Jairo deixou-se cair na poltrona com a cabeça entre os braços. Nunca tinham falado sobre esse assunto. Ambos não eram ligados a religião.
— Eu não sei, Marta. Mas gostaria muito de poder acreditar.
— E se procurássemos saber?
— Como assim? Com quem?
— Bem, existem pessoas que acreditam que os mortos continuam vivos e se comunicam conosco, você sabe.
— Sei. Os espíritas. É uma possibilidade.
— Sim! Minha amiga Flora é espírita. Podemos procurá-la.
— Está bem. Faça o que achar melhor.
Aquela noite eles dormiram mais tranqüilos. Tinham resolvido buscar informações com Flora, e uma suave esperança começou a luzir em seus corações.
Capítulo 11
Novos conhecimentos
"Aquele que concentra seus pensamentos na vida terrena é como um homem pobre que perde tudo o que possui e se desespera, ao passo que aquele que crê na vida futura é semelhante a um homem rico que perde uma pequena soma sem se perturbar. "
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 2, ITEM 6)
Na manhã seguinte, Marta telefonou para sua amiga Flora, e combinaram um encontro para aquela mesma tarde. Era sábado e teriam tempo livre. Flora ficou muito satisfeita com a ligação de Marta. Por ocasião do falecimento de Carlinhos, condoera-se da tragédia que se abatera sobre o lar da amiga e, desde que recebera a trágica notícia e também durante todo o velório, não tinha se afastado do casal, procurando ajudá-los. Na impossibilidade de fazer alguma coisa, já que o fato era irreversível, tentava consolá-los com sua simples presença como se dissesse: Se precisarem de mim, estou aqui. Foi com profunda tristeza que acompanhou o féretro até a sepultura e que se despediu dos amigos, após o enterro, no cemitério já vazio.
Depois, nos dias subseqüentes, tinha tentado falar com Marta e Jairo, sem resultado. Sentiu que os amigos estavam fugindo dela, evitando sua presença; era como se a dor deles fosse tão grande, tão intensa, que precisavam ficar sozinhos, isolados de todos. Sabia que essa reação deles não era apenas com ela; outros amigos comuns reclamavam também. Então, Flora resolveu aguardar, consciente de que só o tempo poderia amenizar-lhes o sofrimento.
Assim, ao leve toque da campainha, foi com imensa alegria que abriu a porta para receber os amigos. Abraçaram-se, trocaram algumas palavras gentis e, depois, conduziu-os até a sala de estar.
Havia dois meses Flora não os via. Achou-os emagrecidos, pálidos; naquele breve período haviam envelhecido anos.
— Que satisfação recebê-los aqui em casa! Estava com saudades.
— Sabe como é, Flora, depois da morte de nosso filho, perdemos o chão — justificou-se Marta, com lágrimas.
— Entendo perfeitamente o que estão sentindo, Marta. Porém, a vida continua e precisam prosseguir vivendo. Tenho certeza de que Cadinhos não gostaria de vê-los tristes e desanimados.
Jairo trocou um olhar com Marta e disse:
— É exatamente por causa dele que estamos aqui hoje, Flora. Sabemos que é espírita e gostaríamos que, se possível, nos desse algum esclarecimento. Diga-me, o que acontece com aqueles que morrem? Você falou como se nosso filho continuasse vivo. Existe essa possibilidade?
Com firmeza e seriedade, Flora considerou:
— Sem dúvida, Jairo. Em primeiro lugar, a morte é uma ilusão. Não existe a morte. Aqueles que partem desta vida para outra realidade continuam vivos, mais vivos do que nós, uma vez que a verdadeira vida é a espiritual.
— Mas... como assim? — gaguejou ele.
— Normalmente, as pessoas pensam que o corpo físico é tudo. Na verdade, o corpo de carne é apenas uma vestimenta que o espírito usa durante um certo período e que abandona quando não serve mais.
Somos todos espíritos, ou almas, criados por Deus, transitoriamente vestindo um corpo. Não é o corpo que pensa, que aprende, que ama. É o espírito. O corpo material só tem vida orgânica. Jairo estava perplexo.
— Mas, o que você está nos dizendo é impressionante!
— No entanto, é a mais pura verdade.
— E de onde lhe vem essa certeza? — indagou Marta.
— Da reflexão, do estudo, da análise dos fatos da vida e da própria natureza.
— Explique-se melhor — pediu Jairo.
Flora pareceu concentrar-se, como se estivesse procurando as palavras, e prosseguiu:
— Alguma vez vocês já pensaram por que teríamos sido criados? De onde viemos? Para onde vamos? O que estamos fazendo aqui na Terra? Sim, porque certamente o Criador deve ter um propósito. Se nós, meros habitantes deste planeta, seres imperfeitos, nada fazemos sem um objetivo, quanto mais Deus, que é todo amor, sabedoria, misericórdia, bondade, justiça e muito mais! Enfim, Ele, que é a suprema perfeição, teria criado o universo, e a nós, seres inteligentes, sem uma finalidade?
O casal trocou um olhar surpreso, como se jamais tivesse cogitado essas coisas. Jairo abriu um sorriso tímido.
— Flora, desculpe nossa ignorância. Marta e eu nunca fomos muito "ligados" em religião, você sabe. Somos católicos por tradição, porém raramente vamos à igreja. Agora, você nos abre um mundo novo no qual jamais pensamos. Quer dizer então que a vida continua depois da morte?!...
— Com certeza! Todavia, estranho seu espanto, Jairo, uma vez que a religião católica, à qual você afirma pertencer, prega a imortalidade! A única diferença, nesse caso, em relação à Doutrina Espírita, é que o Catolicismo admite um destino inexorável, sem possibilidade de mudança para as criaturas. Aqueles que morrem vão para o céu, para o inferno ou para o purgatório, segundo o bem ou o mal que plantaram aqui na Terra, enquanto nós acreditamos que aqueles que partem desta vida para outra apenas mudam de endereço. Continuam vivendo, mais ou menos da mesma maneira que o faziam aqui, uma vez que ninguém se transforma de repente. A vida espiritual é uma continuidade da existência terrena, na qual prosseguimos aprendendo e evoluindo rumo à perfeição. Carlinhos deve estar sendo muito bem amparado, recebendo amor e carinho de amigos e familiares que partiram antes. Provavelmente, está com a vovó Efigênia.
— Minha avó! — exclamou Marta.
— Por que não? Sua avó é uma criatura extraordinária, lembro-me bem dela, Marta. Sempre foi muito boa, de sentimentos elevados e ajudava a todos os que a procuravam. Só fez amigos, todos sentiram sua falta. Está no mundo espiritual há vários anos, e demonstrava um carinho especial pelo bisneto. Acho natural que tenha se preocupado em recebê-lo na nova vida e em ampará-lo, já que os pais ficaram na Terra. Não é o que fazemos quando alguém viaja para algum lugar e tem parentes nessa cidade?
Marta estava comovida com a lembrança da avó querida. Seus olhos brilhavam de emoção.
— E verdade! E verdade! Você faz com que as coisas pareçam tão simples e lógicas! E como eles vivem?
— Da mesma maneira que aqui. Lá existem cidades, com casas, jardins, escolas e tudo o mais. Cadinhos, após adaptar-se à vida espiritual, com certeza fará amigos, irá à escola, terá divertimentos, brincadeiras e passeios, como qualquer criança.
— Tem certeza? E tudo tão inusitado!
— Como você mesma disse, é lógico. Acha que Deus teria nos dado todo o conforto aqui na Terra e, no Além, não tivesse nada? Na realidade, nossa vida aqui é que é uma cópia imperfeita de tudo o que existe por lá. Porque, repito, a verdadeira vida é a espiritual.
Jairo e Marta estavam perplexos, mas animados. Era muita informação de uma só vez. Trocaram um olhar, depois Jairo respirou fundo e perguntou:
— Onde podemos encontrar esses conhecimentos? Gostaríamos de saber mais sobre o assunto.
Flora sorriu:
— E fácil. A Doutrina Espírita coloca à nossa disposição uma quantidade enorme de informações que nos foram trazidas pelos espíritos superiores, e que um emérito professor francês codificou, adotando o pseudônimo de Allan Kardec, para não influenciar as pessoas com seu nome verdadeiro, uma vez que ele era muito conhecido na França, tendo já várias obras publicadas. Afirmo-lhes, porém, que a Doutrina Espírita nada inventou, nada criou. Apenas nos trouxe verdades eternas e reconhecidas desde a mais remota Antigüidade, mas que os homens da nossa época ignoravam. Vou emprestar-lhes alguns livros.
Flora pediu licença e foi até o interior da casa, voltando em seguida com dois volumes, que entregou ao casal.
— Aqui estão as obras sobre as quais lhes falei. De início, O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo, ambos de Kardec. O primeiro, porque nele encontrarão o embasamento lógico para os fenômenos da vida, e o segundo, porque traz a consolação de que estão precisando por intermédio da parte moral do Evangelho de Jesus. Estarei à disposição de ambos para qualquer esclarecimento que precisarem.
Jairo, mais afeito a leituras, abriu O Livro dos Espíritos e correu a vista pelo índice. Cada vez mais surpreso, à medida que lia arregalava os olhos.
— Estou impressionado. Aqui trata de assuntos muito sérios.
— Exatamente. Tenho certeza de que vão gostar. Leiam, e depois que se inteirarem do conteúdo, voltaremos a conversar. Se desejarem, poderemos até estudar juntos. Eu freqüento um curso num centro espírita que fica aqui perto.
— Vocês têm cursos? Nunca pensei! — disse Jairo.
— Eu sei o que você pensava, Jairo — afirmou Flora, sorrindo. — Julgava que Umbanda, Candomblé e outras seitas, que representam o sincretismo afro-brasileiro, fossem Espiritismo. Puro engano. Apesar do respeito que temos por todas as expressões religiosas, o Espiritismo é a doutrina codificada por Allan Kardec no século dezenove, na França. Fazemos cursos, sim, porque nossa doutrina baseia-se na razão, e liberta nossa consciência pelo estudo, alargando-nos a visão.
Nesse momento, a criada entrou na sala e avisou que o lanche estava sendo servido. Flora conduziu seus amigos até a copa, onde passaram o resto da tarde conversando, tomando chá e se deliciando com as guloseimas que lhes tinham sido carinhosamente preparadas.
Quando se despediram da dona da casa, Jairo e Marta estavam completamente diferentes de quando haviam chegado. Tinham o semblante mais tranqüilo e o coração cheio de esperança. E uma constatação surpreendente: naquelas horas haviam esquecido completamente suas tristezas. Era a primeira vez que isso acontecia desde a morte de Carlinhos.
Dois dias depois, voltaram a se encontrar. Marta e Jairo mostravam-se encantados com os livros e, como não poderia deixar de ser, cheios de questionamentos.
— Há muitas coisas que não conseguimos entender direito, Flora, certamente porque nos falta embasamento no assunto. Pensamos bem e gostaríamos de freqüentar aquele curso sobre o qual você nos falou. Será possível?
— Sem problemas. Sempre temos novas turmas começando. Vamos combinar um dia para vocês conhecerem a casa espírita. Isso é importante para saberem onde irão estudar. Se gostarem do ambiente e sentirem afinidade pelas pessoas, tudo ficará mais fácil.
— Interessante! — exclamou Marta.
— E essencial também. Se não gostamos do ambiente nem das pessoas com as quais iremos conviver, o trabalho em conjunto fica difícil. Não nos sentiremos bem. Amanhã é dia em que teremos uma palestra e depois, a aplicação de passes. Gostariam de ir?
— Claro. Com prazer — concordaram ambos.
— Ótimo. Como a reunião começa às vinte horas, eu e o Ronaldo passaremos às dezenove e trinta para pegá-los. É bom chegarmos antes para vocês irem se adaptando ao ambiente.
No dia seguinte, Marta e Jairo, acompanhados de Flora e Ronaldo, foram ao centro. Estavam cheios de expectativa, ansiosos. Nunca tinham entrado numa casa espírita e não sabiam o que iam encontrar lá.
Logo, porém, se tranqüilizaram. Era um salão normal de palestras, com as cadeiras enfileiradas simetricamente; na frente, ao centro, uma mesa coberta por uma toalha limpa e clara, na qual se via um arranjo de flores, uma jarra com água e um copo, e alguns livros. Atrás da mesa, na parede, apenas um quadro negro. Portanto, como Flora afirmara, era um local de estudos. O ambiente sereno, a música suave que se espalhava no ar encheu-os de bem-estar e paz, induzindo à elevação mental.
Iniciando a reunião, um homem no verdor dos anos fez uma prece. Conclamou os presentes a elevar o pensamento e, com palavras singelas, buscou a figura meiga de Jesus de Nazaré e solicitou seu amparo para todos os presentes e suas famílias, o que aumentou sobremaneira o bem-estar que já sentiam. Nunca tinham ouvido uma prece tão simples e ao mesmo tempo tão bela, em que a intenção e o coração da pessoa extravasavam na súplica, emocionando-os.
O tema da palestra programada para aquela noite era a necessidade de transformação moral, à luz do Evangelho do Cristo, para alcançar a felicidade futura que todos almejam, abordado com bastante competência pelo expositor, um senhor de cabelos brancos e fisionomia afável.
Acompanharam com interesse a exposição. Depois, tomaram passe e água fluidificada. Quando as atividades terminaram, Flora apresentou-os ao dirigente da casa, Euclides, falando sobre o desejo de ambos de iniciar os estudos oferecidos. O simpático senhor deu-lhes as boas-vindas e passou-lhes o dia e horário do início do curso. Algumas outras pessoas se aproximaram, risonhas e simpáticas. Eram amigos de Flora e de Ronaldo, que foram apresentados para os recém-chegados. Alguns iriam começar o Curso Básico de Espiritismo, como introdução ao estudo de O Livro dos Espíritos e Marta e Jairo já se sentiram entrosados com os novos colegas. Passaram alguns minutos agradáveis conversando, depois foram até a livraria, cuja porta dava para a entrada do salão, gastando mais algum tempo a examinar os livros.
— Estou impressionado — afirmou Jairo. — Nunca pensei que existissem tantas obras espíritas!
Ronaldo sorriu:
— E você ainda não viu nada, meu amigo. Aqui temos uma pequena amostra de títulos, porque nossa livraria é pequena.
Jairo escolheu alguns livros que lhe tinham sido recomendados por Ronaldo e, em seguida, despediram-se dos companheiros do centro. Por sugestão dos maridos, foram a um restaurante jantar. Estavam com fome e seria oportunidade de continuarem juntos, conversando.
Era tarde quando se separaram. Marta e Jairo entraram em casa com os pensamentos elevados e com excelente disposição de ânimo.
Capítulo 12
Superação do sofrimento
"Deus consola os humildes e dá a força aos aflitos que a imploram. Seu poder cobre toda a Terra e, por toda a parte, ao lado de cada lágrima, Ele colocou um alívio que consola. O devotamento e a abnegação são uma prece contínua e contêm um ensinamento profundo. A sabedoria humana reside nessas duas palavras. Possam todos os Espíritos sofredores entender esta verdade, ao invés de protestar contra as dores, os sofrimentos morais que aqui na Terra são a vossa herança."
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 6, ITEM 8)
Desse dia em diante, iniciou-se uma nova vida para o casal. Vincularam-se ao centro espírita e passaram a freqüentar os cursos oferecidos, aprendendo cada vez mais. Um ano depois estavam envolvidos com a assistência social e participando do trabalho com crianças e jovens na periferia da cidade. Felizes, tinham muitos amigos e vida ativa e movimentada.
Lembravam-se sempre do querido filho, Cadinhos, sem dúvida, mas já não era com aquela dor e o desespero dos primeiros meses. Sentiam falta do filho, sim, no entanto tinham a convicção de que ele estava bem, feliz e adaptado à vida na espiritualidade e, consoante os conhecimentos recebidos, evitavam incomodá-lo com pensamentos negativos. Sabiam que, quando fosse possível, teriam notícias dele. Precisavam ter paciência e esperar.
Certo dia, Jairo começou a lembrar, mais do que nunca, de Cadinhos. Era como se ele estivesse ali na casa, com eles.
Era uma terça-feira, dia da semana consagrado ao Evangelho no Lar. Sentados em torno da mesa, após a leitura do texto evangélico, Jairo sentiu muita emoção e comentou com a esposa:
— Querida, hoje, de uma maneira muito forte estou sentindo a presença de Carlinhos aqui entre nós. E como se eu o estivesse vendo sentadinho naquela cadeira ali, participando da nossa reunião.
Marta, comovida, concordou com ele:
— Sinto a mesma coisa, Jairo. Tenho certeza de que nosso filhinho está aqui conosco.
Comentaram o texto do Evangelho e, depois, encerraram com uma prece, agradecendo o amparo do Alto e as visitas que porventura tivessem recebido naquela noite e, especialmente, a presença do filho querido.
Fizeram um lanche ligeiro e se recolheram mais cedo para dormir, continuando a sentir a mesma emoção.
Pouco depois, Jairo teve a sensação de ter passado por um sono e estar acordando. Levantou-se, olhou em torno e estranhou ao ver seu corpo deitado, adormecido. Viu o livro que estava lendo, e que escorregara de suas mãos, cair no chão. Ao seu lado, na cama, a esposa. Lembrou-se das informações que recebera e entendeu que estava desprendido em espírito, fora do veículo corpóreo. Não teve tempo, porém, de estudar a situação. Olhou para o lado direito e viu o filho parado, sorridente, se divertindo com a surpresa do pai.
— Carlinhos! Meu filho!
— Papai! Estou aqui, papai!
Aproximaram-se e trocaram um grande, um longo abraço, cheio de amor e saudade.
— Meu filho, que alegria! Bem que percebemos sua presença hoje à noite. Como você está? Está ótimo, posso ver. Mais crescido, mais bonito até.
Nesse instante, Marta, em espírito, aproxima-se também desprendida do corpo, surpresa. Entre lágrimas, abraça o filhinho com infinito amor:
— Meu filho! Meu querido filho! Quanta saudade! Deixe-me ver. Você está muito bem!
Conversam carinhosamente. Fazem perguntas e o garoto sorri:
— Estou muito bem mesmo, papai e mamãe. Estudo e aprendo bastante, como vocês. Vovó Efigênia é meu anjo bom e tem-me ensinado muito. Fico feliz com o rumo que as coisas tomaram. Vocês não imaginam quanto bem me fez se ligarem à casa espírita. Foi a vovó que se esforçou para que vocês buscassem ajuda com a tia Flora, porque minha situação aqui na espiritualidade era muito difícil. Eu estava sendo atingido pelo sofrimento de vocês. Tive várias recaídas, o que dificultou minha recuperação. Porém, tudo passou, estou bem e vocês também, isso é o que importa.
Num átimo, enquanto ouvia o filho falar, pelo pensamento de Jairo passou a idéia de que estava tudo bem, mas se não o tivesse levado ao campo nada teria acontecido e Carlinhos ainda estaria encarnado, com eles, em casa.
Passando a mão pelo braço do pai, Carlinhos considerou, mostrando que identificara o pensamento paterno:
— Paizinho, não se sinta culpado. Esqueça esses pensamentos porque ninguém teve culpa. O meu tempo tinha chegado ao fim. Eu precisava regressar à verdadeira vida. Por motivos que mais tarde saberemos, eu tinha de passar por isso. Não se sinta culpado. Tinha de acontecer.
Abraçam-se novamente. Fitando-os com muito amor, Carlinhos afirma, como que se despedindo:
— Papai! Mamãe! Continuem trabalhando e ajudando àqueles que precisam. Especialmente, se esforçando para divulgar a necessidade da paz e da fraternidade entre todas as pessoas. Vovó Efigênia contou que nós tivemos problemas em outras existências por incentivar a guerra, a violência. Agora, é o momento de reconstruir. Lembrem-se disso. Que Jesus os proteja sempre. Qualquer dia desses, eu levarei vocês para ver onde vivo. Até breve!
Cadinhos desapareceu com um aceno; Jairo e Marta acordaram no leito, debulhados em lágrimas, experimentando uma alegria intensa e indescritível, como nunca tinham sentido. Olharam um para o outro, e perceberam que ambos estavam se recordando de tudo o que tinha acontecido naquela noite memorável. Abraçaram-se e ficaram assim, mergulhados nas lembranças, sem trocar palavras desnecessárias.
Na manhã seguinte despertaram com a recordação clara do encontro com o filho querido, porém não conseguiram reter integralmente o teor da conversa que tiveram. Todavia, Jairo acordou com a convicção de que precisavam fazer alguma coisa para melhorar a sociedade.
Durante o café-da-manhã, comentaram sobre o encontro com Cadinhos, mantendo a mesma alegria e otimismo. Jairo, pensativo, falou para a esposa:
— Marta, depois de tudo o que aprendemos, das circunstâncias em que ocorreu a desencarnação de nosso filho, sinto que precisamos começar a conscientizar as pessoas da necessidade da paz. No íntimo, sinto que este é o desejo de nosso filho.
— Também penso assim, querido. No fundo, já trabalhamos nesse sentido, quando ajudamos crianças e jovens a vencer os vícios, quando orientamos as famílias a educar seus filhos com base nos preceitos evangélicos.
— Concordo com você. No entanto, sinto que nossa ação tem de ser mais direcionada por meio de palestras em escolas, em grupos da periferia, em clubes de mães e, também, aglutinando os jovens por meio do esporte, do lazer, da dança, da música e das artes de modo geral. E preciso dar-lhes também uma profissão, em que terão a oportunidade de ganhar seu próprio sustento, e crescer como pessoa. Estou com a cabeça repleta de idéias! É como se elas surgissem de repente, impulsionando-me para a frente, para o trabalho. Será importante criarmos um grupo de apoio e, para isso, teremos de contar com a Flora, o Ronaldo e com o pessoal da casa espírita.
O entusiasmo de Jairo era contagiante. Continuaram conversando. Na espiritualidade, Cadinhos, vovó Efigênia e outros amigos ali estavam satisfeitos e sorridentes. Com os pensamentos elevados ao Alto, agradeceram a Deus a nova oportunidade de trabalho que surgia e que seriam as sementes de bênçãos futuras.
Diante das adversidades, dos problemas e dos obstáculos que a vida nos apresenta, gerando não raro tristezas, amarguras, dores e sofrimentos acerbos, busquemos o Pai Maior, sabendo que Ele deseja sempre o bem de seus filhos e procuremos analisar e entender o que essa situação significa para nosso crescimento espiritual.
Se acreditamos que Deus é perfeição infinita, não podemos concebê-lo sem a totalidade de seus atributos, ou pelo menos, aqueles que já temos condições de identificar, isto é, Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom14. Se Deus é perfeito, tudo o que Ele faz é correto e está sujeito a leis naturais e imutáveis, porque provenientes do Criador. Então, tudo o que acontece se submete à Lei de Ação e Reação que vigora no universo.
Cristo ensinou que cada um receberá de acordo com as próprias obras. Plantando, colheremos. As sementes que lançarmos à terra do nosso coração produzirão as bênçãos ou os malefícios correspondentes às nossas ações.
14 O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 13, Petit Editora.
A Doutrina Espírita nos ensina que nossas aflições podem ser de duas espécies: relativas à existência atual ou às existências anteriores. Quando não encontramos razões para nosso sofrimento na vida presente, é porque elas se vinculam a encarnação anterior, caso contrário Deus não seria justo.
Desse modo, podemos entender a importância do conhecimento espírita, que nos aclara a mente e dilata os horizontes. Compreendemos, então, a necessidade de observar a lei, admitindo nossos erros e entendendo que somente a reparação poderá nos libertar do sofrimento. Assim, os desafios da existência são oportunidades que o Senhor nos concede para aprendizado e elevação, permitindo-nos também refazer relacionamentos afetivos danificados pela mágoa, pelo rancor ou pelo ódio.
Somente a vivência dos postulados cristãos mostrará que, intimamente, já incorporamos os ensinamentos morais evangélicos. E, somente estando em paz com nós mesmos é que poderemos auxiliar a sociedade em que vivemos, repassando, com nossos exemplos, a verdadeira paz e tranqüilidade para todos os que convivem conosco. Começando no ambiente familiar, pela melhoria das relações com os entes queridos; pelo exercício da paciência, da tolerância e do diálogo amigável, tornando a vida de todos mais agradável e carinhosa, modificando o tônus vibratório do nosso lar e gerando o conseqüente bem-estar de todo o grupo. Do ambiente doméstico, passaremos a entender e a respeitar os vizinhos, os colegas de trabalho, os transeuntes das ruas, os outros motoristas no trânsito, e em todos os lugares onde nós formos chamados a colaborar, inclusive na casa espírita. Nela nos portaremos como cristãos e espíritas que temos a honra de nos considerar.
O exercício da fraternidade, da solidariedade e do amor, como Jesus exemplificou, fará com que o ambiente a nosso redor se transforme, gerando emanações de luz. As bênçãos se espalharão e, por nosso exemplo, seremos agentes de mudança da sociedade em que vivemos, modificando os grupos dos quais façamos parte e estendendo, por meio das nossas vibrações, a paz e o amor entre todas as pessoas.
Somente assim nossa sociedade poderá se transformar para melhor, e nós viveremos num mundo mais pacífico, fraterno e igualitário.
Para que isso ocorra, entretanto, é imprescindível que cada um faça a sua parte. "O servo que souber da vontade do seu amo e que, entretanto, não estiver pronto e não fizer o que dele queira o amo, será rudemente castigado. Mas aquele que não tenha sabido da sua vontade e fizer coisas dignas de castigo menos punido será. Muito se pedirá àquele a quem muito se houver dado e maiores contas serão tomadas àquele a quem mais coisas se haja confiado" 15, assevera Jesus, alertando-nos para a responsabilidade que assumimos
15 Lucas, 12: 47 e 48. perante o conhecimento adquirido e as conseqüências geradas por nossos pensamentos, palavras e atos.
A sabedoria divina tem nos envolvido com bênçãos sem fim, tornando-nos a existência mais fácil, protegendo-nos das dificuldades, aparando-nos os problemas, fortalecendo-nos em momentos de aflição, consolando-nos nas horas de sofrimento. Todavia, essas dádivas têm um preço. Deus nos ajuda para que, por nossa vez, possamos ajudar a outros que necessitam mais. Assim como recebemos, temos de aprender a doar de nós mesmos.
É dessa forma que a humanidade cresce, amadurece e se aperfeiçoa... pelos esforços daqueles que mais têm em conhecimento, criatividade, elevação moral, e que servem de parâmetros para os que vêm atrás. Por essa razão, em todas as épocas, Deus sempre enviou missionários à Terra, que pudessem servir de modelo à população, ajudando-a na absorção de conceitos mais elevados e proporcionando novos saltos para o progresso. Jesus Cristo foi o mais elevado espírito que veio ao planeta trazer as leis de Deus, a benefício da humanidade.
Na atualidade, pelas bênçãos da Doutrina Espírita e das informações dos espíritos superiores, que Allan Kardec codificou, possuímos condições de transformar a sociedade. Basta que o desejemos e nos esforcemos para isso.
Todos nós estamos sendo chamados a colaborar, executando nossa parte e disseminando os valores do Evangelho de Jesus e as importantes revelações que o Consolador Prometido trouxe à Terra.
Nosso planeta, no futuro, será um mundo de paz, sem violência, agressividade, maldade, sem miséria, sem doenças. Onde cada um se preocupará com o próximo, de modo que nada lhe falte, e onde o amor direcionará nossas atitudes para o bem.
Pense nisso.
Capítulo 13
Momentos de decisão
"O aborto provocado é um crime, qualquer que seja a época da concepção?"
"Há sempre crime quando se transgride a Lei de Deus. A mãe, ou qualquer outra pessoa, cometerá sempre um crime ao tirar a vida de uma criança antes do seu nascimento, porque é impedir a alma de suportar as provas das quais o corpo devia ser o instrumento. "
(O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTÃO 358)
Caminhando pelas ruas, Marina observava os edifícios. O local era o pior possível: ruas feias, sujas, construções velhas e prédios pichados, caindo aos pedaços. Olhou novamente o pequeno papel amassado que tinha nas mãos e confirmou o endereço: Rua Santa Marta, 225. Por onde passava, porém, não havia nenhuma placa ou indicação com o nome das ruas. Pediu ajuda a um moço, que a informou:
— Siga reto e, na terceira travessa, vire à direita e já estará na rua que procura.
Marina estava tão nervosa que nem se lembrou de agradecer a gentileza do rapaz. Apressou o passo e, em dez minutos estava defronte ao número. Parou. Era um sobrado velho e de pintura indefinível. Não havia placa na porta. Mas o endereço estava certo, era aquele mesmo. Enchendo-se de coragem, entrou.
Na sala, escura e abafada, a secretária atendia de má vontade, mascando chicletes. Aproximou-se do balcão.
— Sou Marina Cintra e tenho hora marcada com o doutor Adelmo.
— Todas aqui têm a mesma hora marcada, moça. O atendimento é pela ordem de chegada.
— Quanto devo pagar?
A atendente disse o valor, que Marina não discutiu. Qualquer que fosse o preço, ela pagaria. Estava preparada.
— Há muita demora?
— E isso importa? Vai demorar, sim. Sente-se e espere. A próxima!
Diante do pouco caso da arrogante secretária, Marina achou melhor não dizer mais nada. Procurou um lugar vago e sentou-se, apesar da repugnância que lhe causou o sofá sujo, malcheiroso e esburacado. Sempre tinha primado pela limpeza e aquele lugar deixava-a horrorizada.
Olhou em torno. Contou mentalmente: seis mulheres aguardavam naquela sala, fora ela. Todas eram jovens; duas mal tinham entrado na adolescência. Só então se deu conta de que em todos os olhares havia o mesmo desespero, o mesmo medo, a mesma ansiedade. Entendeu perfeitamente a intenção da secretária quando disse e isso importa?". Ela não ignorava que cada uma das infelizes que estava ali tinha urgência em resolver seu problema, e não sairia sem solucioná-lo.
Pegou os restos de uma antiga revista de páginas desfolhadas e tentou fixar-se na leitura, já que teria de esperar. A sala não tinha ventilação e o calor era insuportável.
Com a revista nas mãos, o pensamento vagava sem rumo e não conseguia fixar-se na leitura. Com extrema dificuldade havia se decidido pela interrupção da gravidez. Não tinha saída. O rapaz com quem ela estava se relacionando, assim que soube da novidade, desapareceu.
Seus pais jamais admitiriam uma filha em casa com um bebê sem pai e dependente deles. Marina era de uma família muito pobre e cada um cuidava de si. Quatro pessoas trabalhavam: a mãe, empregada doméstica; o pai, ajudante de pedreiro, e os dois irmãos, que nunca quiseram estudar e, na falta de coisa melhor, iam para a roça como bóias-frias; isso quando havia serviço. E mesmo com todos trabalhando a renda familiar era insignificante, pois recebiam uma miséria no final do mês. Sendo a caçula e mimada pelos demais, só ela havia estudado, o que a colocava num nível diferente dentro da família. Seus amigos eram todos da classe média, e talvez essa fosse a causa de seus problemas.
Para poder sair com as colegas e freqüentar lugares melhores, tivera de "se virar". Todos diziam que ela era bonita, elegante, atraente, e resolveu tirar partido disso. Se Deus havia lhe dado aquele corpo bem-feito e aquele rostinho bonito, era deles que iria tirar seu sustento. Passou a trabalhar, então, como "garota de programa", procurando manter o máximo sigilo. Ninguém poderia desconfiar. Na cidade grande, onde ninguém se conhecia, isso era coisa fácil, e ela era cuidadosa em ficar sempre bem distante do bairro pobre onde morava.
Desde que tinha entrado nessa vida dupla, sempre soube se cuidar e nunca tivera problemas. No entanto, quando apareceu Adriano, rapaz charmoso e simpático, deixou-se envolver sentimentalmente e descuidou-se. Estavam juntos havia quatro meses quando percebeu que estava grávida.
O que fazer? Tentou falar com o namorado, mas ele não quis nem saber. Ficou irritado e alegou com frieza: como pode afirmar que esse filho é meu, Marina? Pode ser de qualquer outro!
Sentiu profunda mágoa e humilhação. Desde que eles estavam juntos, ela só fora dele, de ninguém mais. Pensava que Adriano a amasse, porém percebia, tarde demais, que ele apenas tinha se aproveitado dela. E a família? Como contar aos pais que estava grávida? Justo ela que só estudava, por quem os pais e os irmãos tinham se matado de trabalhar para dar melhores condições de vida? O bebê seria mais uma boca para alimentar naquela casa. Além disso, seus irmãos eram bons, mas violentos. Se soubessem, lhe dariam uma grande surra e não descansariam enquanto não acabassem com Adriano. E ela? Como manter seu padrão de vida? Como comprar as roupas, os sapatos, os produtos de maquiagem que estava habituada a ter? Sempre que chegava com algo novo em casa, alegava ser presente de amigas ricas, e todos na família acreditavam.
Marina respirou fundo. Diante desses pensamentos, um suspiro abafado saiu-lhe do peito opresso. Lembrou-se da vida que se acostumara a levar: bons restaurantes, lanchonetes finas, comida e bebida da melhor. Tudo isso fatalmente acabaria, caso essa gravidez prosseguisse, e ela se habituara a viver assim. Não, não podia permitir. Pensou bastante e decidiu. Faria o aborto.
Para isso, começou a buscar informações com as colegas de ofício e descobriu esse endereço onde estava agora. Por mais alguns dias prosseguiu aceitando convites para "programas", e juntou uma boa quantia que iria precisar, tanto para pagar o serviço quanto para sua recuperação, remédios etc.
Preparou tudo. Depois que marcou hora no médico, avisou a família de que havia sido convidada por Natália, uma amiga, para um passeio; iriam para uma fazenda, distante uns 50 quilômetros da cidade. Que não se preocupassem, ela ficaria bem. Iriam acompanhadas pelos pais de Natália, e, como se tratasse de um final de semana prolongado, só voltariam na segunda-feira. Depois, reservou vaga numa pensão, em bairro distante para não ser reconhecida e deixou tudo certo, pagando adiantado.
Na véspera da pretensa viagem, arrumou sua bagagem, uma mochila pequena na qual colocou algumas peças de roupas e, no dia seguinte, despediu-se dos pais e dos irmãos, ouvindo mil recomendações.
Saiu de casa levando tudo. Dirigiu-se primeiramente à pensão, deixando a mochila no quarto; depois, foi para a clínica médica, cujo endereço tinha em mãos.
E agora ali estava ela, aguardando a sua vez. Observando o movimento, estranhou que as pacientes entravam, mas não saíam pela mesma porta. Deduziu que deveria ter uma outra saída dando para a rua.