Só o Amor Liberta

Célia Xavier de Camargo · Capítulo 4 de 4 · parte 1/3

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Só o Amor Liberta

Os pais de Juliana ajudaram-na a se…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Os pais de Juliana ajudaram-na a se erguer e a levaram para o quarto, colocando-a na cama. Antero foi buscar o remédio, enquanto a mãe a abraçava, chorando também.

— Filha, tudo passa na vida. Você ainda vai ser muito feliz, acredite.

— Não vou tomar o remédio, mamãe. Pode prejudicar meu filho. Tenho de aprender a me controlar, enfrentar meus problemas sem precisar da ajuda de medicamentos.

A mãe concordou com a decisão da filha e foi fazer um chá calmante. Juliana tomou o chá, deitou-se e, aos poucos, os soluços foram diminuindo até cessarem de todo. Finalmente Juliana adormeceu e seu semblante se distendeu, mais sereno.

♦

Por alguns dias, Juliana permaneceu em casa, sem condição para sair e trabalhar. Não queria ver ninguém. Os pais de Renato vieram visitá-la, mas ela não os recebeu. Renato veio visitá-la, mas também não quis vê-lo. Era uma página virada em sua existência.

A vida seguia seu curso, inexorável. Com o passar dos dias, tudo foi voltando ao normal. Juliana, que nunca mais tinha se encontrado com o ex-noivo, ficou sabendo, por uma amiga, que ele tinha sido visto com uma moça. Fingiu não se abalar, afirmando tranqüila: "Desejo que ele seja feliz". No fundo, porém, sentiu uma fisgada de ciúme, que procurou abafar pensando em outras coisas.

Afinal, tinha muito por fazer. Teria de encher-se de ânimo para cuidar dos preparativos: comprar o enxoval do bebê, o bercinho, a cômoda, o carrinho, arrumar o quarto para esperar sua chegada e tantas outras coisas. Com o passar dos meses, a gravidez começou a aparecer e a barriga a crescer, conscientizando-a de que seria mãe de verdade. Ainda não sabia o sexo, mas a ultra-sonografia deixou-a emocionada. Era a primeira vez que via o seu bebê.

Quanto ao pai da criança, procurava nunca pensar nele. Na verdade, seu filho só teria mãe.

Certo dia, recebeu um recado do delegado Gonzaga para que comparecesse à delegacia.

Preocupada, Juliana compareceu no horário estipulado. Ao chegar, ficou sabendo o motivo: entre seis rapazes, teria de reconhecer se um deles tinha sido seu estuprador.

Juliana estava extremamente nervosa. Pensar que poderia rever o criminoso deixou-a em pânico. Enquanto aguardava, ficou sentada no gabinete do delegado. O mesmo rapaz que tomara seu depoimento ali estava. Notando-lhe o nervosismo, ele começou a conversar com ela, tentando acalmá-la.

— Não se preocupe, nem se sinta intimidada. Vocês não se encontrarão. Fique tranqüila.

O rapaz era simpático e de voz agradável. Parecia realmente querer ajudá-la.

— Mesmo assim, é difícil para mim.

Iniciada a conversação para passar o tempo, ela indagou polidamente:

— Você trabalha aqui faz tempo?

— Alguns anos. Comecei como office-boy. Depois, completei meus estudos e tornei-me escrivão.

— Mas você é bem jovem!

— Comecei muito cedo, ainda garoto. Além disso, não sou tão jovem assim. Tenho 26 anos.

— Pois não parece. Tem família? É casado?

— Não, sou solteiro. Moro com minha mãe e dois irmãos.

— Ah!

— E você? — ele perguntou — Lembro-me de que estava noiva. Casou-se?

Juliana balançou a cabeça, negativamente. Percebeu que o rapaz olhara disfarçadamente para sua barriga e entendeu o porquê da pergunta. No mesmo momento, ele deu-se conta do que estava acontecendo. Sentiu-se constrangido e penalizado diante da situação que ela estava atravessando.

— Desculpe-me. Não quis ser indiscreto.

— Não se preocupe. Estou acostumada com reações bem piores do que a sua. Há pessoas que, ao ficarem sabendo que eu não quis fazer aborto dessa criança, fruto de uma violência, não entendem nem aceitam minha decisão.

Os olhos do rapaz brilhavam de emoção ao fitá-la. Quando ele ia falar alguma coisa, o delegado entrou avisando:

— Está tudo pronto, Juliana. Vamos lá?

Ela olhou para o rapaz buscando ajuda. Ele entendeu e disse em voz baixa:

— Não se preocupe, Juliana. Tudo vai dar certo. Gonzaga e eu estaremos com você. Nada vai acontecer. Venha.

Caminharam por um corredor até uma porta fechada. O delegado abriu-a e entraram. O mobiliário constava de uma mesa e algumas cadeiras. Sentaram-se.

Numa das paredes, havia um grande vidro e, do outro lado, uma outra sala, completamente vazia. O delegado explicou:

— Por aquela porta vão entrar seis rapazes. Observe bem e diga-me se reconhece algum deles. Não temos pressa. Você terá todo o tempo necessário. Está pronta?

— Sim.

Logo em seguida os rapazes foram introduzidos, em fila. A uma ordem do delegado, permaneceram na posição em que tinham entrado, de lado. Após alguns minutos, a uma nova ordem, viraram-se de frente.

Juliana, trêmula e gelada, sentia o coração bater acelerado. Olhou para os homens que ali estavam do outro lado do vidro e se encolheu, assustada.

— Fique calma. Eles não podem vê-la — informou o delegado. Juliana examinou cada um deles, em ordem. Quando chegou ao quinto rapaz, levou um susto. Estava com outra roupa, mas era ele mesmo.

Gonzaga mandou que tirassem a camisa e se posicionassem de lado. Juliana não teve dúvida: era ele mesmo, o rapaz daquela noite e a tatuagem ali estava para confirmar.

— É ele, o quinto.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Saindo da sala, Juliana pôs-se a chorar, convulsivamente. Seus nervos estavam à flor da pele, sentia falta de ar. A vista do rapaz, as imagens daquela noite voltaram à sua mente, perturbando-a emocionalmente.

Ao ver seu estado, o delegado levou-a para sua sala e pediu que o assistente lhe trouxesse um copo de água.

— Está mais calma? Você nos prestou um grande serviço, Juliana. Aquele rapaz é velho conhecido da polícia. De boa família, rico, vive nas ruas em virtude das drogas. De outras vezes já esteve envolvido em casos graves, mas sempre conseguiu se safar, porque o papai interfere, usando suas ligações políticas. Chama-se Luciano de Castro.

O criminoso agora tinha um nome: Luciano. Juliana não sabia se ficava contente por ele ter sido preso, ou se lamentava o fato, pois seria mais difícil esquecer. Era como se agora ele estivesse mais perto dela.

Como ela estivesse ainda muito nervosa e sem condições de dirigir, Gonzaga pediu ao assistente que levasse Juliana de volta para casa.

O rapaz perguntou onde tinha ficado o carro. Juliana explicou, entregando-lhe a chave. Ele foi buscar o veículo e parou em frente à delegacia, onde Juliana o aguardava. Fizeram o trajeto em silêncio. Diante da casa, estacionou o carro, desceram e o rapaz entregou à Juliana as chaves. Ela agradeceu a gentileza e somente então se lembrou:

— Você tem sido tão gentil comigo e nem ao menos sei seu nome.

— Francisco — informou sorridente.

— Francisco. Obrigada. Quer entrar, tomar um café?

— Não, Juliana. Agradeço-lhe o convite. Fica para outro dia.

— Então, mais uma vez, obrigada, Francisco. Boa noite.

— Boa noite.

Capítulo 25

Reencontro

"Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário enquanto estais com ele no caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil. "

JESUS (MATEUS, 5: 25 E 26)

Algum tempo depois, Juliana havia tirado uma tarde inteira para ir a um shopping center. Faltavam vários itens do enxoval do bebê e precisava fazer as últimas compras. Passando por uma sorveteria, pediu um sorvete de chocolate, seu preferido, e o saboreava olhando as vitrinas, quando se deteve diante de uma loja infantil decorada lindamente. De todos os produtos ali expostos, o que mais chamou sua atenção foi um belo carrinho em tons de rosa — agora já sabia que era uma menina! — bem no estilo e marca que estava procurando. Nisso, ouviu alguém dizer perto do seu ouvido: — É lindo!

Virou-se para ver quem tinha falado e levou um susto. Ficou parada, em pânico. O sorvete e as sacolas caíram de suas mãos. Era ele! O maldito!

Notando que ela estava em choque, o rapaz estendeu os braços, dizendo em voz mansa:

— Por favor, não vou lhe fazer mal algum. Só desejo conversar. Falar com você.

Em pânico, incapaz de ouvir e entender direito o que ele dizia, Juliana começou a gritar:

— Socorro! Socorro! Acudam!

O rapaz, que se abaixara e tentava pegar as sacolas de compras que estavam no chão, suplicava:

— Por favor, não grite. Só quero conversar. Deixe-me pegar... Os transeuntes, porém, ouvindo o barulho começaram a parar e, ao ver uma grávida apavorada, a gritar por socorro, julgaram que o rapaz tentava roubá-la.

Alguém gritou: pega ladrão! E o rapaz, percebendo o perigo, saiu em disparada, desceu a escada rolante e logo desapareceu no meio da multidão.

Nesse momento, um moço abre caminho no meio do povo para ver o que estava acontecendo e depara com a jovem mulher grávida, em prantos, enquanto duas mocinhas recolhiam as compras caídas no chão.

— Juliana! O que houve?

Ela levantou a cabeça ao ouvir a voz conhecida.

— Francisco! É você? Ajude-me!

Notando que a gestante estava fraca, quase desmaiando, o rapaz envolveu-a com os braços e conduziu-a para uma mesinha ali perto, ao mesmo tempo em que ordenava, dirigindo-se aos curiosos:

— Não se preocupem. Podem ir agora. Eu a conheço e tomo conta dela. Obrigado. Obrigado.

Os curiosos foram se dispersando. As duas garotas que estavam com as compras seguiram a ambos; depois, colocaram as sacolas numa mesa que ele tinha escolhido. Francisco agradeceu-lhes a gentileza. Acomodou Juliana numa cadeira e sentou-se defronte dela. Pediu uma água à garçonete, depois a examinou preocupado:

— Está bem, Juliana? Não se machucou? O que aconteceu? Com olhar esgazeado, ela lançou um olhar para os lados, como se esperasse ver aquele rapaz de novo. Os transeuntes tinham se dispersado e não havia mais ninguém por ali. Assustada, ainda com o coração aos saltos, ela informou, apertando a mão dele sobre a mesa:

— Era ele, Francisco.

— Ele, quem?

— Ele! Luciano. Aquele monstro que me agrediu.

A garçonete trouxe uma garrafinha de água e dois copos. Francisco pôs um pouco de água num copo e deu-o para Juliana, colocando-o nas mãos dela, que mal o conseguia segurar. Enquanto ela tomava um gole, Francisco prosseguiu tentando entender o ocorrido:

— Ele estava aqui? Você o viu? Luciano falou com você?

— Sim! Ele está solto? Pensei que estivesse na cadeia, que é lugar de criminosos!

Com expressão compungida, Francisco confirmou:

— Sim, ele está solto. Foi julgado, mas como é dependente, o advogado conseguiu que fosse encaminhado a um hospital para tratamento. Mas o que Luciano queria?

— Não sei. Fiquei apavorada ao vê-lo. Lembro-me apenas de que ele disse que queria falar comigo.

— Quando cheguei, as pessoas falavam em tentativa de roubo. É verdade? Ele tentou roubá-la?

— Não. Fiquei com tanto medo que comecei a gritar e as compras caíram da minha mão. Ele tentou recolher as sacolas do chão.

A expressão de Juliana era de desespero, suas mãos tremiam.

— Você percebe a gravidade da situação, Francisco? Ele sabe que estou grávida, talvez tenha até me seguido... Será que não terei paz?

— Calma, Juliana. Pode ter sido apenas uma coincidência. Como o fato de nós dois termos nos encontrado aqui, neste local e nessa mesma hora. Não se desespere. Vou avisar o Gonzaga e procurar manter aquele delinqüente sob vigilância para que não a aborreça mais. Está bem?

Ela concordou com um gesto de cabeça. Ficaram ambos, calados e pensativos, de mãos dadas sobre a mesa. De repente, Juliana comentou:

— Analisando melhor o que aconteceu, agora com mais tranqüilidade, penso que talvez ele não quisesse me agredir; seu rosto estava diferente, sua voz suplicante...

Francisco ouviu-a falar e com serenidade considerou:

— Quem sabe? Talvez esteja arrependido. O tempo que passou em tratamento pode tê-lo feito pensar melhor, refletir sobre o mal que lhe fez e desejar repará-lo.

— Acha realmente possível?

— Por que não? Acredito que todos nós já erramos muito e temos recebido de Deus a oportunidade de reparar o mal praticado. São fases de aprendizado necessárias ao nosso progresso.

Revoltada, ela reagiu:

— Como assim? Eu nunca fiz mal a ninguém nesta vida. E, no entanto, você sabe tudo o que sofri sem merecer. Quando ouço falar em Deus, fico pensando: que Deus é esse? Um carrasco sem piedade? Onde Ele estava quando aquele miserável me agarrou e me levou para o mato?

De repente, ela se deu conta que se inflamara, aumentando o tom de voz e calou-se, olhando em torno para ver se alguém ouvira. Todavia, o movimento tinha diminuído, e poucas pessoas estavam ainda ali na praça de alimentação, pois era quase hora de fechar o shopping. Respirando fundo, mais tranqüila, ela olhou para Francisco que a fitava, compreensivo.

— Talvez este não seja o momento nem o lugar para falarmos de coisas tão sérias, Juliana.

— Não, por favor, Francisco. Desculpe-me. Continue. Estou interessada em ouvir o que tem para me dizer.

— Então, vamos lá! Tudo depende da visão que tenhamos do mundo e de Deus, Juliana. Certamente você não fez mal algum nesta vida, porém poderá tê-lo feito em outras.

Com expressão levemente irônica, Juliana interrompeu-o:

— Está por acaso querendo sugerir a idéia de reencarnação? Francisco fitou-a, sério, demonstrando que não estava a brincar:

— Tem outra idéia melhor? Se pensar com seriedade sobre o assunto, vai perceber que é a única coisa que pode explicar as diferenças que existem entre as pessoas, sejam elas sociais, individuais, culturais ou morais.

— Mas isso é um absurdo!

— Ao contrário. É a chave que nos faz entender a justiça divina. Se nós sofremos hoje é porque geramos sofrimento no passado. Com nossas ações, colocamos em movimento a Lei de Causa e Efeito. O mau uso do livre-arbítrio nos leva a enfrentar as conseqüências de nossos atos e a responsabilidade que assumimos perante o nosso próximo e perante Deus.

Francisco fez uma pausa, analisando a reação dela.

— Já ouviu falar em livre-arbítrio?

— Claro. É quando podemos fazer escolhas. Você se esquece, porém, de que eu não tive escolha.

— Talvez não, naquele momento, mas certamente exerceu seu direito de escolha antes.

— Lá vem você de novo com essas idéias. Quer dizer que se alguém nasceu cego nesta vida é porque fez alguém perder a visão no passado? Você realmente acredita nisso, não é?

— Tem alguma outra sugestão? O Evangelho diz que é melhor entrarmos na vida sem um olho do que ele vir a ser causa de queda para nós.

— É a lei do olho por olho, dente por dente, de Moisés. Isso faz do seu Deus um ser cruel e vingativo, não acha?

— De forma alguma. Penso que isso quer dizer que recebemos sempre de acordo com o que semeamos. Quem planta, colhe. Não vejo nisso crueldade e vingança, mas justiça e eqüidade. Além do mais, Deus é nosso Pai, e como pai quer o melhor para nós, seus filhos.

Assim, quando recebemos o sofrimento, não devemos enxergá-lo como vingança ou punição, mas como oportunidade de reeducação que o Senhor nos concede para nosso aprendizado. Estamos sempre aprendendo, com a dor e o sofrimento, a nos tornarmos criaturas melhores, mais pacíficas, mais ordeiras, mais humildes, menos egoístas, menos orgulhosas e mais fraternas e solidárias.

A medida que Francisco falava, Juliana percebeu que um sentimento misto de admiração e respeito por ele nascia em seu íntimo. A ironia e o pouco caso desapareceram do seu rosto.

— Talvez você tenha razão, Francisco. Confesso que nunca pensei nesse assunto, mas gostei de ouvir você falar. E um mundo novo que se abre para mim. Percebi que leva a sério esse negócio de Deus. Qual a sua religião?

— Sou espírita.

— Logo vi. Para falar de reencarnação e dessas coisas você só poderia ser espírita mesmo.

— Engana-se. As grandes religiões antigas e as atuais existentes no mundo, como o Budismo, o Hinduísmo e outras, pregam a idéia das vidas sucessivas. Apenas os cristãos ignoram essa realidade, apesar dos ensinamentos que Jesus nos deixou. Olhe, o assunto é vasto e complexo. Se quiser saber mais, tenho livros que posso lhe emprestar. São bastante esclarecedores.

— Gostaria muito. Agora, com a gravidez avançando, não vou poder sair muito de casa e terei tempo para me dedicar à leitura.

— Está combinado. Levarei alguns livros para que se inteire melhor do assunto. E então, está mais calma? — perguntou ele, olhando-a com carinho.

— Sim. Foi muito bom tê-lo encontrado, Francisco.

— Quer tomar um lanche? Um sorvete? Afinal, o seu caiu no chão.

— Não, obrigada. Perdi a vontade. Fica para outro dia. Agora preciso ir. Já é tarde.

Ele levantou-se também, segurando-a pelo braço e afirmando com naturalidade:

— Não permitirei que volte sozinha. Vou levá-la.

No carro, Juliana sentia uma agradável sensação de segurança ao lado dele. Era com prazer que o observava dirigindo com calma em meio ao trânsito sempre caótico da grande cidade. Quando ele estacionou defronte da sua casa, Juliana permaneceu alguns segundos sem descer, calada, pensando. Notando que ela queria dizer-lhe alguma coisa, o rapaz esperou calmamente. Afinal, tomando coragem, Juliana perguntou:

— Francisco, e o meu caso? Como se explica o fato de ter enfrentado uma situação tão dramática de violência, e ainda, por cúmulo, ficar grávida? E o bebê que vai nascer, o que tem a ver com isso?

Ele desligou o motor, apagou as luzes e virou-se para ela. No escuro Francisco podia ver-lhe o rosto tenso, a ânsia de entender o seu problema, a angústia que essa situação lhe causava.

— Estava esperando que me perguntasse isso, Juliana. Na verdade, a vida se incumbe de nos aproximar das pessoas com as quais precisamos nos reajustar. Somos em parte responsáveis pelo que as pessoas as quais prejudicamos ou desencaminhamos no passado se tornaram hoje.

Juliana balançou a cabeça, confusa.

— Não sei. Confesso que sinto dificuldade de entender essa lógica. E a criança que vai nascer?

— Esse espírito que se prepara para fazer sua entrada no mundo certamente tem a ver com vocês. Pode fazer parte das suas ligações do passado, ou das ligações dele, ou companheiros que se associaram por afinidade a você ou a ele.

— Como assim?

— Bem, nós atraímos para o nosso campo vibratório, por meio: do princípio da sintonia aqueles que têm afinidade conosco, seja pelas nossas qualidades ou pelas nossas imperfeições. Se nós pensamos no bem, atraímos espíritos bons; se procuramos o mal ou os vícios, atrairemos os que pensam como nós. Entendeu? Por isso, teremos sempre as companhias que desejarmos.

— Se entendi bem, essa alma pode ser de um viciado, como aquele criminoso? E se é viciado, pode nascer com problemas?

Percebendo que uma ruga de preocupação surgia na testa de Juliana, Francisco procurou modificar o tom da conversa, tranqüilizando-a:

— Não se preocupe, Juliana. Confie em Deus. Ele sempre sabe o que faz. Pense que esse filho vai trazer, a você e aos seus, muita alegria.

— Espero! Gostaria de saber mais sobre esse assunto. Achei extremamente interessante. Poderíamos voltar a falar disso outro dia?

— Claro. Estou à sua disposição, Juliana. Aqui estão suas chaves. Ela lançou-lhe um olhar intrigante e comentou, com um sorriso:

— Você é uma caixinha de surpresas, Francisco! Ah! Não se esqueça dos meus livros. Obrigada e boa noite.

Francisco sentiu uma emoção diferente dentro de si, enquanto o coração parecia querer pular fora do peito.

— Boa noite, Juliana.

Enquanto ele aguardava, na calçada, para vê-la entrar, Juliana parou no portão, virou-se, e perguntou interessada:

— Francisco, naquele dia em que eu compareci à delegacia para fazer o reconhecimento do rapaz, nós estávamos conversando e falávamos sobre minha situação. Lembra-se? Você ia me dizer alguma coisa quando o delegado entrou na sala. Fiquei curiosa. O que era?

Ele baixou a fronte e balançou a cabeça, concordando. Quando a levantou, Juliana viu que Francisco estava comovido. Seus olhos umedeceram-se e um brilho diferente surgiu neles. Lentamente, o rapaz deu alguns passos vencendo a distância que os separava, aproximou-se dela, segurou com delicadeza sua mão, depois disse pausadamente:

— Queria lhe dizer que, ao saber que você se decidiu pela vida, não interrompendo a gravidez, apesar das circunstâncias, despertou em mim uma enorme admiração e imenso respeito por você. Era isso.

Em seguida, Francisco beijou-lhe a mão, emocionado. Depois deu meia-volta e caminhou para o ponto de ônibus, com as mãos nos bolsos das calças, sem se voltar.

Juliana ficou parada, sob o impacto do momento, incapaz de falar, vendo-o se afastar.

Depois sorriu, respirou fundo e entrou. Também estava emocionada.

Capítulo 26

Reconciliação

"Não julgueis, afim de não serdes julgados; porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se-á convosco a mesma medida de que vos tenhais servido para com os outros. "

JESUS (MATEUS, 7: 1 E 2)

Depois daquele dia no shopping e do encontro horrível com Luciano, que a deixou extremamente assustada, Juliana não conseguia se esquecer dele. Afinal, ele estava por perto, e esse fato a tornou insegura e cheia de preocupação. Apesar das palavras do seu amigo Francisco, continuava sentindo mágoa, repugnância e indignação contra aquele homem que a marcara de forma tão profunda, gerando desequilíbrio em sua vida e destruindo-lhe a esperança de felicidade.

Na manhã seguinte, como prometera, Francisco levou os livros na casa dela, antes de ir para a delegacia, deixando o pacote com a mãe, dona Helena.

Juliana ainda dormia. Ao acordar, encontrou o embrulho de papel pardo em sua mesa de cabeceira. Revirou-o nas mãos procurando uma identificação. Nada. Nem anotação, nem remetente. Surpresa e intrigada, ela rasgou o papel, encontrando dois livros:

O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos, ambos de Allan Kardec.

Sorriu. Francisco cumprira a promessa.

Imediatamente abriu o primeiro ao acaso, e leu: "Não julgueis para não serdes julgados. Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra". Leu os itens de 11 a 13, referentes a esse assunto e constantes do capítulo 10.

Pensativa, folheou algumas páginas e seus olhos caíram sobre um trecho que falava a respeito da indulgência, e leu, desse mesmo capítulo, o item 17: "Sede indulgentes para com as faltas dos outros, quaisquer que sejam. Julgai com severidade apenas vossas próprias ações e o Senhor usará de indulgência para convosco, do mesmo modo como a usastes para com os outros."

Interessada, Juliana voltou algumas páginas e, no início do capítulo, leu o título: "Bem-aventurados os que são misericordiosos". Mergulhou na leitura. Vez por outra parava, meditando nas palavras que lia; de outras vezes, não tendo entendido direito, voltava e relia os trechos que mais a tinham tocado, refletindo sobre o tema.

Assim, as idéias de perdão, de reconciliação com os adversários, de indulgência, aos poucos foram calando em seu coração, como chuva mansa e benéfica que, ao cair sobre o solo ressequido e árido é rapidamente assimilada, fertilizando-o. A leitura, ao mesmo tempo que lhe proporcionava conhecimentos (reconhecia que os textos faziam abordagens sobre o Evangelho de Jesus de uma forma inusitada e lógica como jamais tivera oportunidade de ver), trazia-lhe profunda sensação de bem-estar e tranqüilidade.

Nos dias subseqüentes, fazia suas tarefas, ajudava a mãe nos serviços domésticos, depois mergulhava na leitura que tanto a atraía, mostrando-lhe um mundo novo e insuspeitado, onde a imagem daquele Deus de que Francisco falava passou a ter a conotação de verdadeiro Pai, segundo os ensinamentos evangélicos.

Apaixonou-se pela obra O Livro dos Espíritos. Reconhecia nos textos um repositório de idéias e notícias fascinantes que muito a encantaram, fazendo com que todos os fatos da vida passassem a ter lógica, objetivo e justiça. Ela e Francisco passaram a se encontrar com mais freqüência, para discutir pontos que Juliana não havia entendido bem ou sobre os quais tinha dúvidas.

Algum tempo depois, Juliana estava em casa entregue às suas ocupações. Era um dia típico de outono: céu azul, temperatura amena e um lindo sol a brilhar deixando a tarde ainda mais bonita.

Havia na casa um jardim interno, escondido de olhares indiscretos por alto muro e bela vegetação. Era o lugar de que Juliana mais gostava e onde costumava ficar quando o tempo permitia. Sentada num banco de madeira, com uma caixa de costuras ao lado, ela terminava de pregar botões e colocar fitas em algumas peças do enxoval do bebê.

De súbito, parou o que estava fazendo, com nítida sensação de que havia mais alguém no jardim. Virou-se, e não viu nada. Bobagem! Devo ter-me enganado. Esse muro é tão alto!

Voltou os olhos para a costura e absorveu-se naquilo que estava fazendo. Alguns minutos depois, novamente teve uma sensação estranha, como se um vulto tivesse passado a alguns metros dela. Inquieta, perguntou:

— Quem está aí?

Nada. Levantou-se do banco e repetiu a pergunta:

— Quem está aí? Se há alguém, que apareça.

Depois de alguns segundos de espera, um tufo de folhagens se agitou e um vulto surgiu por detrás dele.

— Sou eu.

Ao ouvir a voz, Juliana virou-se, e a costura caiu de sua mão.

Meu Deus! É ele!

Era o criminoso. Apavorada, sentiu que o sangue lhe fugia do rosto e uma sensação de dormência a dominou. Pensou que fosse desmaiar.

Assustado, o rapaz aproximou-se, segurando-a e evitando que caísse na grama. Ajudou-a acomodar-se no banco e suplicou:

— Por favor, só quero conversar! Não me mande embora, Juliana.

— O que você quer aqui? — perguntou ela num fio de voz.

— Já disse. Quero falar com você.

— Pois eu não quero falar com você. Nada temos para conversar. Se meus pais ou a empregada perceberem qualquer movimento estranho, chamarão a polícia. E se alguém o pegar aqui você vai preso.

— Ninguém sabe que estou aqui.

— Vou gritar e alguém virá me socorrer — afirmou ela, tentando aparentar firmeza, apesar do medo que sentia.

— Não tem ninguém dentro de casa. Sua mãe e seu pai estão trabalhando e a empregada já foi embora. Por favor, não quero fazer-lhe mal algum. Escute o que tenho para lhe dizer.

Vendo que ele estava a par dos movimentos da casa, e que não tinha como evitá-lo, ela concordou:

— Muito bem. Diga rápido o que deseja e vá embora.

— Posso me sentar?

Ela fez um gesto de assentimento e Luciano sentou-se delicadamente na outra ponta do banco. Nem sabia como começar. Tinha tanta coisa para dizer e agora a voz não lhe saía. Ao ver que ele não falava, Juliana, que até aquele momento evitara fitá-lo, arriscou um olhar disfarçado. O rapaz tinha a expressão triste e parecia emocionado. Afinal, criando coragem, ele começou a falar:

— Juliana, quero desculpar-me por ter agido de maneira tão agressiva e tão sórdida naquele dia. Não, não diga nada. Deixe-me falar. Sei que nada justifica meu ato, mas deixe-me dizer-lhe como me sinto. Depois, pode falar o que quiser.

Luciano fez uma pausa como se procurando as palavras, depois continuou:

— Nasci em um lar — se é que se pode chamar aquilo de lar — muito rico. Meu pai é de família tradicional e sempre teve poder e dinheiro. Desde criança acostumei-me a fazer tudo o que queria e a ter todos os meus desejos satisfeitos. Os problemas que eu criava eram sempre resolvidos por ele. Qualquer coisa que eu fizesse, meu pai acertava com dinheiro, comprando o silêncio das pessoas.

Ele parou de falar para tomar fôlego, e Juliana murmurou:

— Eu sei. Seu pai tentou esse método conosco também.

— Imagino que sim. Sinto-me muito envergonhado por tudo isso. A verdade é que cresci sem conhecer limites e tendo todos os meus desejos realizados. Ainda adolescente, nada mais era novidade para mim. Não consegui estudar, fazer uma faculdade, mas meu pai providenciou-me um diploma. Viajei pelo mundo todo, tive os mais belos carros, e tudo o que o dinheiro pode comprar. Como ansiasse por emoções novas, mergulhei nos vícios. Primeiro foi o álcool, porta de acesso a drogas mais fortes, até que já não tinha mais o que me satisfizesse. Meus pais, assustados, talvez percebendo tardiamente a educação que tinham me dado, começaram a negar-me dinheiro. Passei a pegar, além do dinheiro, tudo o que podia dentro de casa para vender: carros, obras de arte, as jóias de minha mãe, objetos valiosos, aparelhos eletrônicos, roupas, tênis, tudo. Acabando com as coisas de valor que existiam em nossa casa, passei a roubar na rua. Tornei-me um ladrão no verdadeiro sentido da palavra. Não havia o que me fizesse parar.

O rapaz fez nova pausa. Juliana o olhava agora com mais interesse percebendo sinceridade em suas palavras. Ele prosseguiu:

— Até que aquela noite... Eu estava completamente drogado e ainda precisando de mais dinheiro para satisfazer o vício. Quando a gente começa, não há o que chegue. Por isso a ataquei. Eu a vi, tão desprotegida e tão frágil, entrar naquela ruela, que não resisti. Enfim... você sabe o que aconteceu.

Ele colocou as mãos sobre o rosto como se tentasse expulsar imagens indesejáveis. Depois de alguns segundos, recompondo-se, continuou:

— Você acreditaria se lhe dissesse que me lembro de poucas coisas daquela noite? Não estou querendo me justificar, mas só mostrar a quais extremos um ser humano pode chegar sob o efeito da droga. Bem, alguns meses depois eu fui preso e encaminhado para um hospital onde teria de me submeter a um tratamento de desintoxicação. Era a primeira vez que isso acontecia. Fiquei louco! Pirado! A fase de abstinência é extremamente dolorosa. Passei dias e dias de sofrimento inconcebível. Aos poucos, comecei a melhorar. A terapia psicológica ajudou-me bastante. Nunca tinha aceitado esse tipo de tratamento e reconheço que foi muito benéfico.

Ele parou novamente de falar, virou-se para Juliana e contou:

— Foi só aí que percebi tudo o que tinha feito. Um atendente do hospital — por coincidência, amigo de um colega seu, da empresa onde trabalha -, que sabia da minha história e tudo o que tinha feito, contou-me sobre a sua gravidez. Aquilo mexeu comigo. Eu ia ter um filho! Comecei a pensar mais, a refletir sobre minha vida, sobre tudo o que já tinha aprontado. Conversava sobre isso com o psicólogo, que me ajudou bastante, esclarecendo-me e abrindo-me a mente para outras idéias. Então, resolvi mudar. Não posso dizer que esteja livre da dependência porque ainda é cedo, mas até agora estou conseguindo vencer. Participo de um grupo de apoio para egressos do hospital, nos encontramos todas as semanas e falamos de nossos problemas, dificuldades e obstáculos; fazemos um balanço de nossa existência, nos auto-analisamos para saber como somos realmente e o que desejamos da vida. Então, depois de muito pensar — apesar do medo que eu sentia da sua reação ao ver-me -, resolvi procurá-la. Confesso que a tenho visto muitas vezes, escondido. Tenho acompanhado quando sai de casa, e visto nosso filho, digo, nossa filha, crescer junto com sua barriga. Aquele dia no shopping não queria assustá-la. Só conversar com você.

Pela primeira vez, Juliana abriu a boca.

— Eu entendi. Embora tivesse ficado assustada, entendi.

— Agradeço-lhe. Eu precisava expor minha vida, falar das minhas dificuldades, dos meus problemas, enfim... Sei que nada justifica meu ato, o crime que pratiquei contra você, mas quero poder reparar o mal que lhe fiz. Meu pai queria procurá-la, pagar tudo, responsabilizar-se pela criança que vai nascer e que, afinal, será seu neto, mas não permiti. Disse a ele que eu cuidaria disso. Sei como ele é prepotente, orgulhoso e egoísta. Acabaria magoando ainda mais você e sua família. Entende?

Juliana estava séria e compenetrada ao responder:

— Entendo. Contudo, não precisa se preocupar. Minha filha terá tudo o que precisa. Não somos ricos, porém trabalhamos e temos condição de dar-lhe o necessário sem que você precise se preocupar. Não se sinta obrigado a nada.

O rapaz sorriu, melancólico.

— Juliana, você não entendeu. Não estou me dispondo a ajudar por obrigação, embora a tenha como pai. Quero ajudar por prazer, por amor. Não me negue esse prazer, que é um direito.

— Ah! Vai começar com exigências? — ela retrucou, com ironia. Luciano respirou fundo, explicando com delicadeza:

— Não me entenda mal. Não estou fazendo exigências agora, nem farei no futuro. Gostaria apenas, se você me permitir, de poder conhecer nossa criança quando ela nascer, dar-lhe presentes, vê-la crescer, brincar com ela.

Juliana notou que a voz do rapaz estava embargada pela emoção e que ele não conseguia continuar. Enxugando as lágrimas e tomando fôlego, fazendo um tremendo esforço sobre si mesmo, ele suplicou:

— Por favor, Juliana, não me negue essa oportunidade. Mudei muito, estou mantendo-me longe do vício, exatamente porque a vida me acenou com essa expectativa de ser pai, de ter um objetivo na vida, coisa que até agora eu não tinha nem sabia o que era. Atualmente, desejo crescer, ser alguém para que minha filha se orgulhe de mim. Quero passar o melhor para essa criança que ainda nem nasceu e que já é tão importante na minha vida. Por favor, tenha piedade!

Juliana, também emocionada diante do que ouvira, lembrou-se de tudo o que já lera nos últimos dias, das conversas com Francisco, das informações que tivera por intermédio da literatura espírita. Parecia-lhe que tudo o que aprendera tinha uma finalidade: era prepará-la para este momento, de modo que ela soubesse como agir na hora certa, tendo a compreensão necessária e aproveitando a oportunidade para o exercício do perdão.

Diante daquele rapaz que ali estava, ajoelhado a seus pés, humilhado diante da própria consciência, pedindo-lhe ajuda, Juliana considerou em voz pausada:

— Luciano — era a primeira vez que o chamava pelo nome -, Jesus disse certa vez que aquele que estivesse sem pecados que atirasse a primeira pedra. Diante disso, quem sou eu para julgar?

O moço ergueu a fronte, com os olhos brilhantes e úmidos, incapaz de acreditar naquela felicidade.

— Então você me perdoa, Juliana?

— Já perdoei, Luciano.

Ele teve ímpeto de levantar-se e abraçá-la, mas se conteve. Sem saber como expressar sua alegria, o rapaz tomou a mão dela, segurando-a entre as suas, e ali, com extremo carinho, depositou um terno e delicado beijo orvalhado de lágrimas.

— Obrigado.

Juliana sentiu nesse instante uma felicidade imensa, como se tivesse tirado de seus ombros um peso enorme. Sentia-se leve, cheia de paz e de harmonia. Intuitivamente, tinha certeza de que, com aquele gesto de perdão, um grande problema fora resolvido.

♦

Na espiritualidade, nós, os amigos que acompanhávamos o desenrolar da cena, também nos regozijávamos pelo feliz desfecho.

O caso não estava resolvido, muitas coisas ainda iriam acontecer, e a solução dependeria da boa vontade e do desejo de acertar das partes envolvidas.

Juliana tinha razão. Um sério desentendimento de vida anterior estava caminhando para uma solução satisfatória.

Cerca de 300 anos antes, quatro pessoas envolveram-se em sério compromisso, ficando responsáveis perante a lei divina. Esse drama relato de forma resumida:

Lívia, de 14 anos, menina boa e prendada, estava apaixonada por Pietro, um rapaz do vilarejo onde moravam, na Itália. Todavia, Berta, amiga de Lívia, morria de ciúme e inveja, pois amava o mesmo rapaz e não se conformava por ter sido preterida. Envolvendo-se em vibrações negativas, cultivando revolta e ódio, planejou um crime contra Lívia. Convenceu Guido, um amigo seu, a ajudá-la. Rapaz sem escrúpulos e havia anos interessado em Lívia, Berta sabia que Guido aceitaria de bom grado participar da trama. Assim, combinaram que Guido prepararia uma armadilha para Lívia, levando-a para um lugar isolado e onde se incumbiria de desonrá-la, para que a jovem ficasse em suas mãos, o que foi feito conforme o planejado. Naquela época, esse fato equivalia à mais completa desonra, passando a moça a ser desprezada por toda a sociedade, caso o homem responsável não se casasse com ela. Quando Pietro ficou sabendo do que tinha acontecido, rompeu o noivado com Lívia, que, ao contrário do que Guido esperava, jamais o aceitou. Apesar de repudiada pela família e pela sociedade, ela manteve-se firme; uma senhora muito idosa que morava num casebre no meio do mato abrigou e ajudou Lívia até o nascimento do bebê. Alguns meses depois, mais fortalecida, a jovem mãe preferiu desaparecer da região com seu filho, passando o resto da vida solitária sem nunca ter se casado. Ninguém mais soube dela. Após longo tempo e várias experiências reencarnatórias, já em outro nível de progresso, o pequeno grupo teve a oportunidade de voltar, renascendo para o reajuste necessário.

Berta, a amiga autora intelectual do crime, era Juliana; Pietro retornou como Luciano; Guido, em outro nível evolutivo e desejoso de reparar o mal praticado outrora, como Francisco. E a doce Lívia, tão sofredora, viria para os braços daquela que a prejudicara no passado e que agora seria mãezinha dedicada, e teria por pai aquele que a tinha desonrado e que agora lhe daria tudo o que lhe tinha tirado antes, ou seja, uma vida digna. Cresceria sob a assistência amorosa de Luciano, o antigo noivo Pietro, por quem fora abandonada e de quem era credora.

Berta, agora em outro nível de entendimento e evolução, inconscientemente sabe que "precisa" ter aquela criança, conquanto produto da violência. Essa a razão que leva Juliana a enfrentar a sociedade, os amigos, a família, o noivo, para ter sua filha. Intuitivamente, ela sabe a importância daquela criança em sua vida, e mostra que já havia aprendido a valorizar a vida, como bênção de Deus.

Tudo poderia ter acontecido de maneira mais tranqüila, visto que estava previsto que a vida se encarregaria de aproximar Juliana, Francisco e Luciano para a necessária reparação. No entanto, a situação se complicou em virtude da vida desregrada e viciosa de Luciano, levando-o a cometer uma violência contra Juliana. Felizmente, a presença de Francisco, que viera para amparar, foi fundamental. Transmitindo, no momento certo, conhecimentos espíritas para Juliana, ajudou-a na decisão que teria de tomar, perdoando a Luciano.

Como podem perceber, mesmo nos mais intrincados relacionamentos, nada acontece por acaso.

A bondade e misericórdia de Deus nos socorrem em todas as circunstâncias, por meio da providência, e a vida, mediante a Lei de Causa e Efeito, se incumbe de aproximar os participantes do drama para o aprendizado e o amadurecimento que se faz imprescindível, visando à reconciliação dos envolvidos.

Certamente, os criminosos terão de saldar seus débitos contraídos perante aqueles que prejudicaram e perante a sociedade. Não obstante, uma visão mais humana e evangélica deve nortear nosso julgamento: qual a criatura que pode se considerar isenta de culpas? Especialmente considerando os conhecimentos que a Doutrina Espírita nos favorece, enfatizando a lei das existências sucessivas, necessárias ao aprendizado e ao progresso do espírito? Pelas inúmeras experiências terrenas que já tivemos, no tempo e no espaço, construímos vivências boas e ruins, fizemos amizades e desafetos, ajudamos e prejudicamos pessoas.

Todo esse acervo, que é conquista nossa, revive no presente, por meio das facilidades ou dificuldades que tenhamos de enfrentar, dos sofrimentos, dos obstáculos e das rejeições que precisemos suportar. Dentro da própria família, encontramos vínculos de amor e ódio, sabiamente colocados por Deus ao nosso lado para aprendermos a exercitar o perdão, a compreensão, a tolerância, a paciência, e, principalmente, o amor. As afinidades e rejeições que surgem em nosso carreiro são apenas oportunidades de aprendizado que o Senhor nos possibilita para refazermos nossos passos, desafios de convivência, que tornarão no futuro os elos mais fortes e duradouros, gerando felicidade, bem-estar e paz da consciência.

Assim, diante dos erros dos outros, que nos causam repulsa e horror, vejamos apenas a condição espiritual de irmãos nossos que ainda não tiveram a dádiva de aprender o que já sabemos hoje, e que, com o tempo, também eles se tornarão pessoas boas e úteis à sociedade.

Pense nisso!

Capítulo 27

Estranho comportamento

"Os Espíritos influem sobre nossos pensamentos e ações?'

"A esse respeito, sua influência é maior do que podeis imaginar. Muitas vezes são eles que vos dirigem."

(O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTÃO 459)

Sob profundo desânimo, Manuela sentou-se à mesa apoiando a cabeça com as mãos. Trazia o coração dilacerado; angústia e tristeza imensa a dominavam. As lágrimas rolavam de seus olhos, lavando-lhe o rosto.

As lembranças dos últimos acontecimentos vinham-lhe à memória sem que pudesse evitar. As brigas constantes, os desentendimentos sem motivos, o mal-estar que se instalara no lar, antes tão harmonioso e pacífico. O ambiente tornara-se insuportável. Seu filho Rodolfo, ou Rúdi, como carinhosamente era chamado por todos, antes um bom rapaz, amável e obediente, modificara-se por completo, tornando-se agressivo, cobrador, exigente. Agora, quando Rúdi a olhava, Manuela notava algo diferente em sua expressão, um ódio estranho em seus olhos. Era como se o filho, de alguma maneira, a julgasse culpada por alguma coisa que ela porventura lhe tivesse feito. Mas o quê? Sempre o tratara com amor! Em vão procurava na memória uma palavra, um ato, uma reação sua que pudesse ter gerado essa situação. Aliás, seu relacionamento com Rúdi sempre fora mais de amigo e companheiro que de mãe e filho. Entendiam-se. Completavam-se. Porém, do jeito que estavam as coisas, não sabia o que fazer nem a quem apelar. Sentia-se perdida.

De repente, Manuela sentiu um cheiro estranho atingindo seu olfato.

O feijão! Levantou-se da cadeira, enxugando as lágrimas no avental, enquanto corria até o fogão. Retirou a panela do fogo, irritada.

E essa agora! Matias vai chegar para o almoço e o feijão está queimado. Vamos ver o que posso fazer.

Com presteza, Manuela retirou o feijão da panela e colocou-o numa tigela, tendo o cuidado de não raspar o fundo para não contaminar o feijão com o cheiro de queimado. Depois, pegando outra panela, colocou azeite, um pouco de alho e cebola picadinhos, deixou fritar e acrescentou os grãos cozidos; em seguida, despejou um pouco de água, orégano e folhas de louro. Dentro em pouco, um odor agradável de tempero se espalhava pela cozinha. A urgência em terminar o almoço fez com que se esquecesse de seus problemas.

Quando Matias chegou e abriu a porta, respirou fundo exclamando:

— Hum! Que cheiro bom! Ainda bem!, pensou Manuela.

Enquanto Matias se dirigiu ao banheiro para lavar as mãos, ela colocou a mesa. A refeição consistia de arroz, feijão, couve refogada, bife e salada.

O marido, servindo-se de bife, perguntou:

— E Rúdi? Não vem almoçar?

Agora, com tudo pronto para o almoço, mais tranqüila, sentou-se. A pergunta do esposo fez com que se lembrasse dos problemas.

De cabeça baixa, ela continha as lágrimas. Um nó estrangulava-lhe a garganta e respondeu com dificuldade:

— Talvez não. Saiu bravo, batendo a porta. Nem sei se ele volta para casa.

Matias sorriu de leve, acalmando a esposa:

— Claro que volta, querida. Para onde ele irá? Brigas são normais em família! Logo estará aqui lhe pedindo desculpas. Não se preocupe.

Manuela não respondeu. Na verdade, Matias não tinha noção de como estavam as coisas. Ele não sentia o rancor do filho, seus olhares carregados de mágoa e ressentimento eram dirigidos particularmente a ela.

Mas mágoa de quê, meu Deus?

Não fazia sentido. Mudanças não acontecem de repente, e era o que tinha ocorrido com ele. O que fazer? A quem procurar? Se fosse problema de saúde, procuraria um médico; se problema mental, um psiquiatra...

Manuela parou com o garfo no ar. Uma idéia surgiu em sua mente. Sim! Por que não?

Virou-se para Matias, perguntando:

— O que você acha de nosso filho fazer uma terapia?

— Terapia? Com quem? Um psicólogo?

— Sim. Por que não?

— Rúdi é normal, Manuela. Não está doido. Não precisa de psicólogo nem de psiquiatra. Nosso filho está bem! Vai à escola, estuda, passeia, pratica esportes, namora... O que há de errado com ele? Além disso — e aí falou o seu lado prático —, essas coisas custam caro e não podemos pagar.

Manuela respirou fundo. Deveria ter imaginado que Matias não aceitaria nunca sua sugestão. Tinha cabeça dura e para ele problema emocional era "frescura", coisa de quem não tem o que fazer.

Acabou de comer calada. Depois, tirou os pratos da mesa e arrumou a cozinha, sem dizer uma palavra. Matias despediu-se, saindo para trabalhar, e ela ficou sentada, pensando. Não que não tivesse o que fazer. Ao contrário. Era costureira e tinha uma montanha de tecidos para cortar e costurar, porém não tinha ânimo nem vontade de nada, muito menos para confeccionar roupas. Era como se suas forças estivessem se esvaindo.

Continuar: parte 2 de 3