Teoria quântica: estudos históricos e implicações culturais
O realismo de Einstein e sua crítica da Mecânica Quântica
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O realismo de Einstein e sua crítica da
Mecânica Quântica1
Christoph Lehner
1 Introdução
Poucos anos antes de suas mortes, o velho confidente de Albert Einstein, Michele Besso, deve ter-lhe escrito uma carta referindo-se a ele, de sua forma tipicamente entusiasmada, como um “gigante e velho amigo” (gewaltiger alter Freund). Einstein respondeu com seu próprio, não menos típico, sarcasmo:
Caro Michele,
Um velho amigo eu sou, mas à referência “gigante” só posso
adicionar “coitado” [nebbish], se você está familiarizado com
esta reveladora palavra de nossos antepassados. Ela expressa
uma mistura de compaixão e desprezo. Cinquenta anos de
ruminações conscientes não me trouxeram mais perto de uma
resposta para a pergunta: “O que são quanta de luz?” Hoje em
dia qualquer pé-de-chinelo pode achar que sabe, mas engana-
se.2
A citação dá a avaliação um tanto desoladora do próprio Einstein de
sua luta ao longo da vida com a Teoria Quântica3. Ilustra também de forma concisa dois aspectos desta luta, nos quais a presente contribuição se concentrará:
a) A busca de Einstein para o entendimento dos fenômenos
quânticos em um sentido forte, em oposição a uma mera
descrição empiricamente adequada.
b) A crítica de Einstein de que a Mecânica Quântica, como foi
formulada nos anos posteriores a 1925 (que obviamente é o
reino dos pés-de-chinelo do comentário de Einstein), não nos
oferece um entendimento do fenômeno, nesse sentido forte.
Estes dois aspectos estão fortemente conectados: é preciso ponderar o que estava envolvido para Einstein no elusivo conceito de “entendimento” na Física para avaliar a sua crítica do que ele próprio admitiu ser uma teoria de enorme sucesso.
A crítica de Einstein à Mecânica Quântica é naturalmente uma questão de grande interesse para o historiador interessado no pensamento dele, já que transcende as discordâncias técnicas com seus contemporâneos e concerne a suas ideias sobre o método e os objetivos da própria Física. Mas também é de grande interesse para físicos e filósofos da Física que se esforçam para a compreensão da Mecânica Quântica, já que se trata de um dos mais bem sucedidos e pensativos físicos da história e um dos pais da própria Teoria Quântica. No entanto, a crítica de Einstein era vista pela maioria de seus contemporâneos como a consequência de um ideal de ciência ultrapassado e somente nas últimas décadas filósofos e físicos a têm estudado mais de perto. Um importante papel neste desenvolvimento foi o trabalho de John S. Bell sobre a estatística de medições em estados emaranhados, que claramente demonstrou o conflito entre a Mecânica Quântica e as expectativas clássicas, e que foi construído a partir do exemplo que Einstein, Podolsky e Rosen propuseram em seu famoso experimento mental. Isto levou a um renovado interesse nas questões de fundamentos da Física Quântica, mas também ao próspero campo da preparação experimental e estudo dos estados emaranhados, exemplos paradigmáticos da estranheza do mundo quântico.
Atualmente, existe uma vasta literatura sobre a crítica de Einstein à Mecânica Quântica e a presente resenha não poderia tratar o tema em toda sua amplitude. Em vez disso, apresentarei o que vejo como o cerne da crítica de Einstein, um princípio metodológico que está na raiz de todos os seus argumentos relacionados ao entendimento da Mecânica Quântica. Este princípio é complementado por vários pressupostos físicos nos vários argumentos de Einstein, mas ele é mais geral que qualquer um destes pressupostos.
Pode-se argumentar que uma análise que buscasse encontrar um princípio básico simples para a disputa de Einstein com os vários defensores de uma leitura ortodoxa da Mecânica Quântica, necessariamente simplificaria as complexidades históricas e desconsideraria uma série de fatores não-teóricos que contribuíram para esta disputa. Embora, certamente, seja verdade que a história completa envolveu mais do que o debate abstrato entre duas posições teóricas, é igualmente certo que não se pode sequer começar a contar tal história completa sem compreender as questões teóricas em jogo. Por outro lado, defenderei que as questões filosóficas não podem ser compreendidas sem atenção ao contexto histórico concreto do debate.
2 A evolução inicial das visões de Einstein
O trabalho inicial de Einstein sobre Teoria Quântica foi acompanhado por sua esperança de finalmente chegar a uma teoria construtiva dos fenômenos quânticos, que a velha teoria quântica, antes de 1925, descrevia como um conjunto incompleto e um tanto ad hoc de condições quânticas. Einstein (1919c) explicou explicitamente o significado de “construtivo” em artigo de divulgação sobre a relatividade geral, escrito para o Times de Londres: nele, apresentou a distinção entre ‘teorias de princípio’, fundada em princípios gerais e bem confirmados empiricamente (como a termodinâmica, baseada na primeira e segunda leis da termodinâmica), e ‘teorias construtivas’, que constroem uma descrição da realidade física, a partir de partes simples, como os átomos da mecânica estatística de Boltzmann ou o campo eletromagnético da teoria de Maxwell do eletromagnetismo. Em sua comparação, Einstein deixou claro que, embora as teorias de princípio tivessem a vantagem de estar firmemente baseadas em conhecimento empírico, uma teoria física verdadeiramente fundamental deveria ser construtiva. As ideias de Einstein sobre como essa base construtiva para a Teoria Quântica poderia parecer não estão bem documentadas em suas publicações; elas têm que ser colocadas juntas a partir de observações marginais e algumas afirmações em sua correspondência. Uma vertente característica em seu pensamento era que uma modificação não-linear das equações de Maxwell poderia trazer vários benefícios: uma explicação da natureza quântica da radiação eletromagnética e uma explicação das propriedades do elétron. Por alguns anos, em volta de 1909, ele buscou vigorosamente construir tal teoria, até que desistiu temporariamente, passando a focar seus esforços na teoria relativística da gravitação, que se tornaria seu maior triunfo pessoal.
Depois de 1915, quando encontrou as equações de campo da relatividade geral após uma longa e árdua luta, duas mudanças teriam uma profunda influência no desenrolar dos acontecimentos:
Em 1913, Niels Bohr havia aplicado a Teoria Quântica ao modelo de Rutherford do átomo. Essa combinação ousada de dois novos empreendimentos teóricos - a Teoria Quântica e a Física Atômica -propeliu a Teoria Quântica de uma especialidade teórica um tanto obscura para a vanguarda da pesquisa em fundamentos da Física. Isto impressionou tanto Einstein que 35 anos depois ele escreveu em suas Notas autobiográficas:
Que esse fundamento inseguro e contraditório [da velha teoria
quântica] fosse suficiente para permitir a um homem, com o
instinto e a sensibilidade únicos de Bohr, descobrir as leis
principais das linhas espectrais [...] pareceu para mim como um
milagre – e até hoje parece para mim um milagre. Esta é a
forma mais elevada de musicalidade na esfera do pensamento.
(EINSTEIN, 1949, p. 45-47)
É plausível assumir que o sucesso de Bohr reacendeu o interesse de Einstein na Teoria Quântica. Em 1916, este publicou seu artigo sobre a emissão e a absorção de radiação pelo átomo de Bohr, conectando o novo modelo à sua velha especialidade, a hipótese do quantum de luz. Retornarei ao trabalho de Einstein sobre Teoria Quântica adiante. Antes, discutirei um segundo desenvolvimento de importância menos óbvia para as visões de Einstein sobre a Mecânica Quântica.
O sucesso da relatividade geral confirmou a convicção de Einstein na sensatez de um programa construtivo que baseasse a Teoria Quântica em uma teoria de campo; já em 1919, ele propôs uma modificação da relatividade geral com o objetivo de derivar elétrons como soluções das equações de campo. (EINSTEIN, 1919a) Este programa levaria, eventualmente, ao programa da teoria de campo unificado, no qual Einstein começou a trabalhar nos anos 20 e pelo resto de sua vida. Naquele momento, todavia, ele foi confrontado com muito ceticismo sobre sua abolição radical da realidade física do espaço e tempo. Colocado no centro das atenções da sociedade pela espetacular confirmação de suas previsões a respeito do desvio da luz do sol, mas por outro lado criticado vigorosamente pela Matemática de difícil compreensão e pela dificuldade de se intuir sua teoria, respondeu com uma série de artigos defendendo a sensatez física e epistemológica de sua teoria, tanto para seus colegas quanto para o público em geral. Isto o obrigou a pensar detidamente sobre os fundamentos e os métodos da Física e muitos dos seus mais importantes artigos filosóficos foram escritos nestes anos. (EINSTEIN, 1918c, 1918d, 1919b, 1919c, 1920, 1921)
Na próxima seção, argumentarei que, nesses anos, sob a influência dominante de sua experiência com a relatividade geral, as visões maduras de Einstein sobre a natureza e o método da Física foram formadas, especialmente seu chamado ‘realismo’, o princípio metodológico central na base da sua crítica à Mecânica Quântica. No restante desta contribuição, tentarei mostrar o quão profundamente este ponto de vista sobre a Física influenciou a posição de Einstein em relação à Mecânica Quântica e à pretensão desta de ser a nova base da Física.
3 O realismo de Einstein
A mais conhecida citação de Einstein sobre a Mecânica Quântica é indubitavelmente sua máxima “Deus não joga dados”, expressa em uma carta a Max Born, seu colega e amigo de longa data, que se tornou um de seus principais oponentes na disputa sobre o estatuto
da Mecânica Quântica4. Max Born foi um dos criadores da mecânica matricial e lhe é creditada a primeira formulação da interpretação estatística da Mecânica Quântica em seu trabalho sobre o tratamento mecânico ondulatório do processo de espalhamento. (BORN, 1926) Como muitos depois dele, Born viu o indeterminismo como a quebra fundamental da Mecânica Quântica em relação à Física clássica e entendeu a crítica de Einstein à Mecânica Quântica, como um preconceito contra a possibilidade de uma
Física radicalmente indeterminista.5 Esta leitura tornou-se, em larga medida, a visão-padrão sobre a posição de Einstein: o velho revolucionário que matou o espaço e o tempo absolutos agora tornou-se conservador, agarrando-se teimosamente a suposições metafísicas antiquadas. Entretanto, este é um mal-entendido em relação à posição de Einstein, talvez compreensível do ponto de vista de Born e seu orgulho em ter feito com o determinismo o que Einstein fez com o espaço absoluto, mas demasiado simplista para fazer justiça à avaliação feita por Einstein da Mecânica Quântica. E
embora historiadores da ciência com sensibilidade filosófica6 tenham apontado que as visões de Einstein eram muito mais complexas (e muito mais bem fundamentadas), a caricatura ainda se impõe fora da pequena comunidade dos estudiosos de Einstein.
Defendo esta posição com uma testemunha-chave: Wolfgang Pauli, apelidado de “a consciência da física”. Sendo ele próprio um dos vigorosos defensores da Mecânica Quântica, certamente não era condescendente com Einstein. Apenas um ano antes da morte de Einstein, ele e Max Born travaram mais uma vez um debate bastante acalorado sobre a Mecânica Quântica, após a contribuição de Einstein para o Festschrift de Born, no qual criticara a Mecânica Quântica com um experimento mental discutido mais à frente (seção 7). Pauli, que na época estava em Princeton com Einstein, interveio para aplainar as crespas ondas. Ele escreveu para Born:
Em particular, Einstein não considera o conceito de
“determinismo” tão fundamental quanto se costuma sustentar
(como ele falou-me enfaticamente muitas vezes). [...] o ponto de
partida de Einstein é mais “realista” do que “determinista”, o que
significa que seu preconceito filosófico é diferente.7
Não surpreendentemente, é o conceito de realidade que está no coração do argumento de Einstein-Podolsky-Rosen (EINSTEIN; PODOLSKY; ROSEN, 1935) e é Mecânica quântica e realidade o título de um segundo artigo no qual Einstein apresentou uma versão mais simples do argumento. (EINSTEIN, 1948) No desenrolar de nossa discussão, encontraremos muitas evidências da preocupação de Einstein com a realidade que a Mecânica Quântica descreveria. Mas qual é o realismo que consiste no “preconceito filosófico” de Einstein? Pauli, que queria banir todas as imagens da descrição dos fenômenos atômicos, considerou-o como a tentativa ingênua e antiquada de continuar fazendo modelos mecânicos intuitivos na tradição da física do século XIX e, assim, o resultado de sua avaliação quanto à posição de Einstein não é mais positivo que o de Born. Mais tarde, comentadores de orientação mais filosófica concentraram-se na crítica de Einstein ao positivismo lógico e igualaram sua posição com a de um realismo epistemológico tradicional, que defende dever ser a ciência uma imagem fiel de “como as coisas realmente são”, uma verdade independente do observador, que transcende nosso conhecimento empírico. (HOLTON, 1968) Tanto os positivistas lógicos, quanto os defensores da interpretação de Copenhagen da Mecânica Quântica, gostavam de rotular esta posição de “realismo ingênuo”, implicando mais uma vez que isto significava um apego a ideias ultrapassadas sobre a possibilidade do conhecimento científico. Mas esta rejeição ignorava que Einstein, o estudante entusiasta de Hume, Mach e Poincaré, certamente não era ingênuo quando se tratava da epistemologia da
ciência 8. Ele aprendera, há tempos, a lição do empirismo e positivismo de que ciência não é simplesmente uma imagem do “mundo lá fora”; e não esqueceu esta lição em sua velhice, como mostra a seguinte citação:
O “real” não nos é dado de maneira alguma imediatamente,
somente as experiências dos seres humanos nos são dadas.
[...] A postulação do ”real” como algo que existe
independentemente da minha experiência é uma totalidade de
construções intelectuais [...]. Nossa confiança no sistema de
crença sobre a realidade repousa apenas no fato que aqueles
conceitos e relações [postos como reais] estão em uma relação
de correspondência com nossa experiência; este é o único
fundamento para a “verdade” de nossas afirmações.
(EINSTEIN, 1951)
Einstein contrasta acentuadamente seu ponto de vista com o de Herbert Samuel, para quem a realidade é aquilo “lá fora” que a ciência deveria retratar. A verdade da ciência não está em ser uma imagem fidedigna de uma realidade independente da mente, mas no seu sucesso em contabilizar nossas experiências (aqui está o empirismo de Hume e Mach); e, de maneira mais importante para nossos propósitos, a própria realidade não é o “lá fora” independente da mente da epistemologia cartesiana, mas uma construção intelectual, posta pela ciência (aqui está o convencionalismo de Poincaré).
Se o realismo de Einstein não é um simples realismo epistemológico, o que é então? O que pode significar ser um realista sobre um construto intelectual? Arthur Fine havia proposto que Einstein “enteoriza” o realismo, significando que o realismo de Einstein não é uma tese epistemológica sobre a relação entre a ciência e a realidade independente da mente, mas sim uma tese metodológica sobre a correta estrutura interna da ciência e a escolha de seu aparato metodológico. Fine (1986, p. 86-111) vê o realismo de Einstein em um conjunto de requisitos para uma teoria fundamental satisfatória: a teoria deve falar sobre objetos independentes de observação, deve representá-los em um quadro espaço-temporal, deve consistir de leis deterministas. Fine também adicionou algumas exigências secundárias que não são tão centrais para Einstein.
Apresentando o realismo de Einstein desta forma, pode-se fazer este realismo parecer menos ingênuo, mas ele ainda parece um tanto carregado de preconceito: Einstein se apega a um conjunto de exigências a priori sobre a física e está disposto a descartar todo o bem-sucedido campo da Mecânica Quântica porque este não se encaixa nessas exigências. Tentarei fornecer um contexto histórico para as convicções metodológicas de Einstein, que mostrará que elas não são a priori, mas sim que resumem as lições que ele achou ter aprendido de seus próprios sucessos em Física teórica e que também estreitará a noção, um tanto vaga, de um conjunto de requisitos que Fine propôs para um único princípio fundamental (com alguns corolários), que proponho chamar de o realismo construtivo de Einstein. Por último, esta contextualização histórica fará com que as exigências de Einstein pareçam muito mais plausíveis, enquanto preceitos metodológicos gerais, mesmo à luz da Física contemporânea.
O contexto a ser olhado, como anunciado acima, é o período “filosófico” de Einstein, depois da publicação da Teoria da Relatividade geral, época em que ele conceituou e defendeu os princípios metodológicos que o levaram a seu maior sucesso teórico. E não há melhor lugar para começar, senão com a correspondência entre ele e Moritz Schlick, que havia escrito uma das primeiras análises filosóficas da relatividade geral: o artigo Raum und Zeit in der gegenwärtigen Physik (Espaço e tempo na física contemporânea). Einstein havia elogiado a sua “insuperável
clareza de redação e organização”.9 Alguns meses depois, Einstein estava estudando o livro, versão ampliada do artigo, e teceu um comentário sobre a crítica de Schlick ao positivismo de Mach. Schlick havia acrescentado um novo capítulo - Relações com a filosofia - que Einstein também achou excelente. Lá, Schlick defendeu um conceito mais amplo de realidade física, para além das sensações imediatas de Mach, e defendeu que é mais satisfatório também chamar de ‘reais’ os eventos físicos que não são diretamente perceptíveis. A resposta de Einstein ilustra de maneira linda sua própria visão sobre a questão do realismo, por isso vou citá-la por completo:
Sua concepção contrasta com a de Mach de acordo com o
seguinte esquema:
Mach: Reais são somente as sensações.
Schlick: Reais são sensações e eventos (de natureza física).
Parece-me que a palavra “real” é entendida de duas maneiras
diferentes, dependendo se é dita sobre sensações ou sobre
eventos, isto é, questões de fato, no sentido da física.
Se duas pessoas fazem física independentemente uma da
outra, elas criarão sistemas que certamente concordam no que
diz respeito às sensações (os “elementos” no sentido de Mach).
Os construtos intelectuais que ambas imaginam para conectar
estes “elementos” podem diferir vastamente. Os dois construtos
também não precisam concordar no que diz respeito aos
“eventos”, porque estes certamente pertencem aos construtos
conceituais. Reais no sentido de serem “irrefutavelmente dados
na experiência” são somente os “elementos” e não os
“eventos”.
Porém, se designarmos como “real” o que é ordenado por nós
no esquema do espaço e tempo, como você fez em sua
epistemologia, então, sem dúvida, são principalmente os
eventos que são reais.
O que agora designamos “real” na física é, indubitavelmente, o
“ordenado espaço-temporalmente”, e não o “dado
imediatamente”. O dado imediatamente pode ser uma ilusão.
Inversamente, o ordenado espaço-temporalmente pode ser um
conceito estéril, que não contribui para a elucidação das
conexões entre os dados imediatamente. Eu gostaria de propor
aqui uma separação clara dos conceitos.10
Einstein está propondo aqui uma clara distinção entre uma realidade fenomênica, como a base epistemológica do nosso conhecimento (aquilo que é irrefutavelmente dado na experiência), e uma realidade física dos eventos ordenados espaço-temporalmente, que é uma construção intelectual (com a qual duas pessoas – ou cientistas – não precisam concordar). Por que Einstein propõe esta distinção? Apenas para uma clarificação metodológica? Eu prefiro supor que ele, que em frase célebre chamou a si mesmo de um “oportunista epistemológico”, tinha uma questão concreta de Física na mente. E não é difícil imaginar o que isso poderia ser em 1917.
A relatividade geral tinha dilacerado de uma maneira até então inimaginável a congruência entre a postulada estrutura espaço-temporal fundamental de uma teoria física e as nossas intuições pré-teóricas sobre espaço e tempo (ou talvez apenas nossas intuições moldadas pelas teorias anteriores). Einstein tinha que defender tal escândalo, não apenas contra os filósofos - que protestavam que as leis do espaço e tempo não constituíam questão a ser decidida pela ciência empírica -, mas também contra muitos físicos - que se ressentiam de que os fundamentos da Física tornaram-se cada vez mais removidos para um nível abstrato e não-intuitivo da Física-Matemática. (É nesta situação que ele encontrou apoio no convencionalismo de Henri Poincaré, cujo postulado era de que os fundamentos da ciência não são leis empíricas nem necessidades a priori, mas convenções livres, escolhidas por conta da simplicidade e da coerência da estrutura teórica). Contra essa crítica, Einstein poderia argumentar que a separação entre os fundamentos da teoria e os fatos empíricos não era meramente uma perda, mas também a base para um novo e poderoso princípio metodológico: o princípio da covariância geral. A intenção deste princípio era tirar das coordenadas qualquer significado físico enquanto medida da distância espacial e temporal. No entanto, não significava, como popularmente, mas de modo equivocado, se achava que agora “tudo é relativo”. Pelo contrário, a particular força da covariância geral é a descoberta de uma nova estrutura de invariância por trás dos fenômenos.
Esta descoberta não foi trivial, como mostra a longa luta de Einstein com a questão da covariância das equações de campo para o
campo gravitacional. 11 Após a descoberta no final de 1915, no entanto, Einstein pôde anunciar que todas as entidades fundamentais na relatividade geral eram, agora, grandezas com covariância geral. O fato de que as próprias equações de campo têm covariância geral significa que a estrutura gravito-inercial (a união dos efeitos gravitacionais e inerciais, requerida pelo princípio da equivalência) não é dada por uma determinação a priori, como ocorria com o espaço absoluto newtoniano, mas sim através de um campo evoluindo dinamicamente que interage com a matéria, da mesma forma que o campo eletromagnético. Não se tratava apenas de uma descoberta física, mas também de uma novidade conceitual, como mostra a comparação com a teoria anterior, conhecida como Entwurf (esboço): nesta teoria, não estava claro o quanto da estrutura espaço-temporal era dada a priori e o quanto dela era causada dinamicamente; e Einstein lutou por um longo tempo para esclarecer essa divisão, buscando propriedades de invariância das equações de campo.
Agora, com a covariância geral, essa divisão é simples: qualquer sistema de coordenadas é igualmente admissível para a descrição do espaço-tempo. Portanto, somente entidades covariantes, como tensores e vetores, definidas independentemente de uma escolha específica do sistema descritivo (coordenado), podem ser consideradas como definidas objetivamente. As leis fundamentais (como as equações de campo) só podem ser definidas em tais objetos invariantes. A propriedade de invariância matemática da covariância geral torna-se, portanto, uma marca da objetividade no sentido de independência do observador. Por outro lado, medições físicas não revelam essas próprias entidades objetivas, mas suas representações nos sistemas de coordenadas locais, que são grandezas não-invariantes. Tais medições não são menos reais, mas são reais em um sentido diferente: sua realidade é fenomênica, dependente de um observador situado de uma maneira específica. Se medirmos a força gravitacional na superfície da Terra, esta medição faz perfeito sentido, mas ela depende da especificação do referencial de repouso, ou seja, no caso, o aparelho de medição está fixo em relação à superfície da terra.
A associação de invariantes descritivos com a realidade objetiva tornou-se um padrão metodológico na Física moderna, sendo a base conceitual não só da relatividade geral, mas de todas as teorias de calibre, também em suas formas quânticas. Ela também permeia a própria Mecânica Quântica, desde a sua formulação como teoria da transformação por London, Dirac e Jordan, que também está baseada na distinção entre fatos físicos e suas representações em diferentes sistemas de referência (aqui, as diferentes bases do que logo seria chamado espaço de Hilbert). Como tal, essa associação também se tornou um tema bem tratado na história e filosofia da Física moderna. (NORTON, 1992) Por outro lado, a associação de entidades dependentes da descrição com uma realidade fenomênica não criou muita comoção. Desta forma, olharei para um exemplo marcante do uso que o próprio Einstein fez desta associação: a interpretação dos símbolos de Christoffel da métrica do espaço-tempo a partir do campo da força gravitacional. Os símbolos de Christoffel descrevem como o movimento geodésico em uma dada métrica desvia de um movimento que é “linear” em um dado sistema de coordenadas. Eles, portanto, dependem essencialmente (não apenas covariantemente) da escolha do sistema de coordenadas. Por esta razão, a interpretação de Einstein (e a afirmação relacionada de que a energia do campo gravitacional é dada por uma grandeza dependente de coordenadas) foi criticada
até mesmo pela maioria dos adeptos da relatividade geral12; e nas modernas apresentações livres de coordenadas da relatividade geral, o ponto de Einstein é ignorado, na maior parte das vezes. Mesmo assim, a interpretação de Einstein faz sentido físico. Trata-se exatamente do ponto do princípio da equivalência, que foi a intuição original de Einstein que o levou à relatividade geral, segundo o qual o campo gravitacional é inteiramente dependente da escolha do sistema de referência: um observador em repouso na superfície da terra sente o campo gravitacional da Terra, ao passo que um observador em queda livre (como em um satélite que circunda a terra) sente “gravidade zero”. O próprio princípio da equivalência foi uma questão central para os críticos da relatividade geral, que argumentavam que Einstein confundira a diferença essencial entre o campo inercial fictício e o campo gravitacional real. Para nós, é especialmente interessante como Einstein respondeu a esta crítica:
Em primeiro lugar, devo salientar que a distinção “real” versus
“não-real” não pode ser muito útil aqui. [Einstein refere-se a
uma discussão anterior, sobre como a energia na física clássica
é uma grandeza que depende da escolha do referencial.] Em
vez de distinguir entre “real” e “não-real”, façamos uma
distinção mais clara entre grandezas que são inerentes ao
próprio sistema físico (independente da escolha das
coordenadas) e grandezas que dependem do sistema de
coordenadas. Seria imediatamente plausível requerer que a
física devesse introduzir em suas leis apenas grandezas do
primeiro tipo. No entanto, acontece que esse caminho não é
realizável na prática, como já foi mostrado pelo
desenvolvimento da mecânica clássica.
[A Física] não pode ser feita sem o sistema de coordenadas e
portanto tem que usar, junto com as coordenadas, grandezas
que não podem ser entendidas como os resultados de
medições definíveis. De acordo com a relatividade geral, as
quatro coordenadas do contínuo espaço-temporal são até
parâmetros escolhidos de maneira completamente livre,
desprovidos de qualquer significado físico independente. Parte
dessa liberdade também afeta aquelas grandezas que usamos
para descrever a realidade física (os componentes do campo).
[...] Assim, não se pode dizer nem que o campo gravitacional
em um ponto seja algo “real”, nem que seja algo “meramente
fictício”. 13
A grandeza empírica mensurável “campo gravitacional” não pode ser expressa como uma entidade puramente objetiva, pois sua medição depende essencialmente do estado do observador. Mas isso não a faz fictícia. Pelo contrário, é parte do que chamo realidade fenomênica de um observador especificamente situado.
'Eventos Físicos'
Invariante Objetivo (independente
(independente de de observador)
coordenada) descrição realidade
Exemplo: tensor metrico
'Eventos Machianos'
Relativo (dependente Fenomênico
de coordenada) (dependente do
descrição observador) realidade
Exemplo: campo gravitacional
Figura 1 - Realidades objetiva e fenomênica
Afirmo, então, que este é o ambiente teórico específico para a distinção de Einstein entre os dois significados de realidade, na carta para Schlick. Os ‘elementos machianos’ de que Einstein fala em sua carta para Schlick são reais nesse sentido fenomênico; os
‘eventos físicos’ são reais no sentido objetivo (Figura 1). Mas esses dois conceitos de realidade são bastante independentes de qualquer afirmação epistemológica a respeito da relação da Física com o ‘mundo real’. O que Einstein aborda não é o problema cartesiano, mas a metodologia da Física: dentro da Física, é preciso distinguir entre o que a teoria afirma serem fatos objetivos (independentes da descrição) e fatos fenomênicos (dependentes da descrição). Evidentemente, essa distinção é meramente analítica e não impõe qualquer restrição sobre as teorias físicas. Mas ela motiva um princípio substancial, isto é, a seguinte exigência metodológica: somente fatos objetivos (dados pelos invariantes da descrição) podem entrar nas leis fundamentais da Física.
Pode-se chamar a essa exigência de o realismo metodológico de Einstein, tendo em mente que não tem muito a ver com o realismo
epistemológico com o qual os filósofos têm se preocupado. 14 O fundamento desse princípio metodológico não é o fato de que a Física é, em qualquer sentido, ingenuamente realista, uma ‘imagem da realidade’, mas sim uma teoria de invariantes, cujo objetivo é construir uma estrutura simples e coerente por trás da multidão vertiginosa de fenômenos. O princípio é bem semelhante aos princípios regulativos de Kant e mais tarde, em sua vida, Einstein iria reconhecer essa afinidade com um filósofo que ele inicialmente
não gostava muito, enquanto defensor do conhecimento 15 a priori . O
ponto importante é que o realismo metodológico de Einstein não faz quaisquer afirmações sobre a realidade, além de sua invariância. Este é o ponto em que minha leitura de Einstein difere substancialmente de outras propostas, como as de Arthur Fine e Don Howard, que pensam que o realismo de Einstein implica determinismo ou separabilidade, respectivamente.
4 A Teoria Quântica do átomo
Os anos que se seguiram à proposta do modelo atômico de Bohr viram a ascensão rápida da Teoria Quântica para uma teoria cada vez mais complexa e sofisticada da microfísica e Einstein estava profundamente envolvido em seu desenvolvimento. Mesmo assim, ele estava insatisfeito com a falta de compreensão fundamental dos processos responsáveis pelos fenômenos quânticos. Havia um crescente corpo de evidência de que algumas suposições fundamentais, que formavam a base de toda a Física, teriam que ser abandonadas, mas não ficara claro quais modificações seriam necessárias para dar conta do estranho mundo dos quanta. Einstein reconhecera, há muito tempo, os problemas que a dualidade da luz introduzira para a mecânica e a eletrodinâmica, mas também na física atômica não havia no horizonte um relato consistente da dualidade de estados estacionários e saltos quânticos.
Mais uma vez, foi Einstein (1916) quem apontou uma consequência perturbadora do sucesso da teoria de Bohr. Ele conseguiu mostrar que a distribuição de energia de Planck para a radiação do corpo negro podia ser derivada do modelo atômico de Bohr, com o auxílio de algumas suposições simples sobre a probabilidade de emissão e absorção de radiação. Ele pôde ainda mostrar (EINSTEIN, 1917) que a radiação emitida tinha que ter um momento definido, ou seja, que ela era emitida em uma direção específica e não como uma onda esférica, tal como era descrito pela teoria eletrodinâmica clássica. Esta foi uma ruptura bastante radical com a visão clássica, na qual um corpo emite radiação continuamente a uma determinada taxa em todas as direções. No modelo de Einstein, haveria atos individuais de emissão em direções específicas que estariam distribuídas apenas estatisticamente (como o próprio Einstein comentou, isto era semelhante à lei do decaimento radioativo). Seria o próprio ato da emissão fundamentalmente indeterminístico? Hoje em dia, esta parece ser uma conclusão bastante plausível, já que temos uma teoria de enorme sucesso que determina as probabilidades de tais eventos elementares e nada mais do que as probabilidades. Einstein, contudo, não estava pronto para abandonar o determinismo. O que teria feito a hipótese de uma lei genuinamente estatística inaceitável para Einstein? O relato-padrão defende que o comprometimento de Einstein com o determinismo seria uma crença conservadora, profundamente enraizada que ele não se dispôs a abandonar em face do aumento das evidências contrárias. Quero argumentar, no entanto, que a atitude de Einstein para com o determinismo é (1) mais complexa que uma simples crença dogmática e (2) motivada pelo que ele acreditou ter aprendido de seu bemsucedido trabalho anterior sobre os fundamentos da mecânica estatística e teoria do espaço-tempo.
Einstein considerava que sua contribuição central para a física estatística nos anos 1902-1904 fora o esclarecimento do conceito de probabilidade que entrava na definição estatística da entropia de Boltzmann: S = k lnW. Ele explicou a probabilidade de um estado termodinâmico, como a fração de tempo que o sistema permanece naquele estado, em média, durante sua evolução dinâmica complexa. Isto implica que um sistema em equilíbrio não permanece simplesmente em seu estado mais provável (o estado de mais alta entropia), mas que também alcança outros estados com uma probabilidade expressa pela entropia destes. Assim, o estado do sistema flutuaria em torno do estado de equilíbrio de certa maneira bem definida. Esta teoria de flutuações em torno do equilíbrio levou Einstein a suas mais importantes contribuições, não somente em mecânica estatística (movimento browniano), mas também na nascente Teoria Quântica. O sucesso desses trabalhos deu apoio aos aspectos ainda controvertidos da mecânica estatística de Boltzmann: a segunda lei da termodinâmica não seria uma lei exata, mas apenas uma regularidade estatística, e as grandezas termodinâmicas macroscópicas não nos dariam sempre uma descrição exata do estado objetivo do sistema. Para um sistema de energia definida, por exemplo, o microestado (a especificação das posições e velocidades de todas as suas moléculas) tem que estar em uma região específica do espaço de estados (a superfície de energia), já que a energia total é simplesmente a soma de todas as energias das moléculas. Porém, um sistema a uma dada temperatura não tem uma energia definida, mas somente sua energia média é especificada. Desta forma, seu microestado também não está especificado em uma determinada região do espaço de estados e pode-se somente dizer que apresenta alta probabilidade de estar próximo da superfície energética definida pela energia média.
Isto confirmou para Einstein uma clara divisão entre os estatutos das descrições microscópica e macroscópica de um sistema físico: somente os microestados e suas dinâmicas – cuja realidade foi demonstrada dramaticamente em 1905 pela predição de Einstein sobre o movimento browniano – fornecem uma determinação completa e objetiva de um sistema físico. A macrodescrição e suas leis termodinâmicas são somente descrições incompletas, regularidades estatísticas aproximadas, derivadas da lei dos grandes números. Grandezas macroscópicas, tais como temperatura e entropia, são médias temporais definidas somente no limite de tempo infinito, de forma que para sistemas realísticos suas definições são apenas aproximadas.
Esta divisão adquiriu peso adicional com o desenvolvimento da Teoria da Relatividade de Einstein. Quando ele anunciou que “o fisicamente real no Weltgeschehen [os acontecimentos do mundo] (em oposição ao que depende da escolha de um sistema de referência) consiste das coincidências no espaço-tempo e nada
mais”16, isto teve uma implicação importante para a mecânica estatística. Dado que o fisicamente real (no sentido discutido na seção anterior) é dado pela estrutura quadrimensional atemporal dos eventos no espaço-tempo, todos os eventos tanto no passado como no futuro existem objetivamente. Assim, não haveria a possibilidade de um futuro aberto que permitiria uma genuína indeterminação de eventos futuros. Qualquer lei dinâmica probabilística é, portanto, necessariamente uma descrição incompleta de eventos futuros. Esta observação exacerba a tensão entre a direcionalidade da termodinâmica e a ausência de direção do tempo na mecânica, que preocupava os defensores da mecânica estatística no século XIX. Einstein resolveu esta tensão invocando a distinção entre as realidades objetiva e fenomênica discutidas na seção anterior. Tanto a direcionalidade temporal, quanto a indeterminação de processos macroscópicos, são partes da realidade fenomênica e assim não estão em conflito com a atemporalidade da realidade objetiva.
A descrição objetiva é dada pelos microestados. Sua dinâmica é determinística, garantindo a compatibilidade com a teoria da relatividade e sua completa especificação através de leis gerais. Macroestados, no entanto, são estados fenomênicos que dependem de um particionamento convencional do espaço de estados para sua definição. Suas leis (tais como a segunda lei da termodinâmica) não são fundamentais, mas são leis estatísticas que podem coexistir com a determinação fundamental da dinâmica. Esta identificação dos macroestados estatísticos com o sentido da realidade fenomênica, discutida na seção anterior, adquiriria importância central para a compreensão que Einstein tinha da Teoria Quântica. Há, porém, uma diferença importante entre os dois casos de estados fenomênicos (na relatividade e na mecânica estatística) que discutimos: na mecânica estatística, a descrição é incompleta, fornecendo apenas uma caracterização parcial do estado objetivo, ou seja, pode-se dizer que a relação entre descrição e estado é de umpara-muitos (cada descrição refere-se a muitos estados objetivos possíveis). As descrições não-invariantes da relatividade não são descrições incompletas neste sentido. Ao contrário, elas são “sobrecompletas”, cada estado de coisas objetivo pode ser descrito em diferentes sistemas de referência, de forma que a relação entre descrição e estado é de muitos-para-um. Podemos dizer que a descrição não é absoluta, mas relativa a um sistema de referência. Em ambos os casos, esta relação não é biunívoca (um-para-um), mas por razões diferentes. O princípio do realismo metodológico de Einstein implica em ambos os casos que a descrição não se refere a um estado objetivo e, portanto, não pode entrar em leis
fundamentais 17.
A descrição da emissão e absorção de radiação, que Einstein forneceu em 1916, só poderia ser para ele uma descrição fenomênica, apesar de seu sucesso, e não uma lei dinâmica fundamental. Einstein continuou buscando esta teoria fundamental. Na esperança de encontrar pistas para tal teoria, ele começou a desenvolver a ideia de um “experimento crucial” que decidisse sobre a natureza do ato de emissão de luz de um átomo, na esperança de esclarecer o aspecto mais misterioso do modelo atômico de Bohr: o salto descontínuo e instantâneo entre duas órbitas atômicas, que, aliás, de acordo com Bohr, deve produzir uma onda de luz estendida de frequência constante. (Não era apenas o mecanismo do salto que era obscuro, mas o fato de que ele deveria produzir uma onda de luz comparativamente imensa parecia completamente absurda.) Einstein propôs diversos experimentos durante os anos de 1920 que deveriam forçar uma resposta sobre se o ato de emissão seria
instantâneo ou espacialmente e temporalmente estendido18. Todavia, nenhum dos experimentos produziu a resposta inequívoca que Einstein esperava. Parece que o fracasso em elaborar experimentos que reforçassem o esforço construtivo fez Einstein cada vez mais cético quanto à possibilidade de uma abordagem indutiva para a desejada teoria fundamental.
Relativamente pouco é conhecido sobre as especulações teóricas de Einstein no período compreendido aproximadamente entre 1915 e 1925, já que ele não publicou suas ideias e parecia até relutante em discuti-las em sua correspondência. Um vislumbre interessante pode ser obtido de Hendrik A. Lorentz (1927) que, tanto em uma
carta a Einstein 19, quanto em uma palestra dada em Pasadena em 1921, relata sobre uma teoria da luz que Einstein tentativamente considerava na época. Nesta teoria, quanta e ondas de luz coexistiriam. Enquanto os quanta seriam partículas pontuais transportando pacotes de energia necessários para explicar os efeitos dos quanta de luz, seus movimentos seriam determinados por uma onda guia, de forma muito parecida como Louis de Broglie também imaginaria alguns anos mais tarde. Einstein nunca publicou um relato de suas ideias. Wigner relatou, a partir de discussões feitas na época em Berlim, que Einstein desistira da ideia da onda guia porque esta não daria conta dos processos de espalhamento: a correlação exata dos ângulos de espalhamento exigidos pela conservação de energia e momento não poderia ser causada por duas ondas que emanam em todas as possíveis direções de
espalhamento 20. Era um problema semelhante ao que iria também refutar a teoria BKS proposta logo depois (próxima seção). Todavia, este cenário explica o entusiasmo inicial de Einstein para os esforços construtivos de de Broglie e Erwin Schrödinger, bem como sua percepção aguda dos seus problemas fundamentais.
Em 1923, Einstein publicou um artigo intitulado A teoria de campos oferece possibilidades para a solução do problema quântico? (EINSTEIN, 1923d), em que enunciou pela primeira vez, de maneira detalhada e programática, a esperança que ele levaria pelo resto de sua vida: derivar as propriedades das partículas elementares e seus comportamentos quânticos a partir de uma teoria de campo unificado, que estenderia a relatividade geral e a eletrodinâmica maxwelliana. Einstein propôs no artigo que as condições quânticas deveriam ser entendidas como consequência de uma sobredeterminação das equações de campo da teoria unificada. Se a teoria contivesse mais equações diferenciais do que variáveis de campo independentes, nem todo conjunto de condições iniciais seria permitido. Desta forma, ele esperava explicar tanto a existência de partículas elementares com propriedades definidas, quanto sua dinâmica quantizada. O truque consistiria em encontrar as equações gerais de campo e Einstein esperava poder repetir o sucesso da Relatividade geral: uma vez que a correta estrutura matemática fosse encontrada (como a geometria riemanniana, no caso da relatividade geral), toda a teoria poderia ser desenvolvida a partir de algumas poucas suposições de grande generalidade (como o princípio da equivalência). Em retrospectiva, seus anos de luta com