Transviado

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 6 de 7 · parte 2/3

Páginas do PDF

Transviado

Capítulo V

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A velhinha entrou, sentou-se, e erguendo os olhos negros, a brilhar na face rugosa toucada de cabellos brancos, esperou um instante que o filho começasse. Claudio, tremulo e pallido, não sabia o que dizer; sentia sobre si o peso e o terror d'um grande crime a confessar perante o tribunal supremo. Foi á janella, voltou, dirigiu-se á mesa de trabalho, pegou n'uma faca de cortar papel, pousou-a immediatamente, e n'estes movimentos inconscientes e desconnexos dava pasto á sua agitação sem poder articular uma palavra.

Queria confessar á mãe toda a sua vida e pedir-lhe perdão das suas culpas. Seria o primeiro passo para a regeneração e para a virtude.

—Então que me queres? resolveu-se por fim a velhinha a perguntar, vendo o silencio do filho e começando a sentir certo mysterio n'esta longa pausa.

—Eu queria, minha mãe... queria dizer-lhe... que, se fosse da sua vontade... se fosse da sua vontade... já lhe tenho dado tantos desgostos...

—Que tens tu? disse ella levantando-se ao vêr a angustia do filho. Senta-te, senta-te aqui, tu não estás bem.

Claudio sentou se e proseguiu, olhando vagamente, sem se atrever a fitar a mãe:

—Queria dizer-lhe que, se fosse da sua vontade, talvez me casasse...

—Oh! Claudio! respondeu ella abraçando-o. Deus Nosso Senhor ouviu as minhas orações...

E, nos braços um do outro, afogaram em lagrimas e soluços a agonia, dissipando-a. A confissão que havia de ser longa, encerrara-se n'estas rapidas palavras; o coração sentira o que os labios não souberam dizer.

Não tardou a resposta de Jorge.

«O casamento e a mortalha no ceu se talha», começava elle. Esse é que era o preceito antigo e authentico sobre casamentos. Que se deixasse Claudio de theorias que já uma vez lhe tinham provado mal e que agora mesmo não podiam prometter-lhe cousa alguma.

Que tinha feito muito bem em acabar com os amores de Emilia, se o inquietavam, e que tambem lhe não dizia que deixasse de casar com Laura, se gostava d'ella; mas que ficasse bem certo que nem o primeiro caso era motivo para os exaggerados remorsos de que se deixára possuir nem devia pôr no casamento tão extraordinarias esperanças que o futuro não as podesse satisfazer. Conhecia muito bem o Albuquerque pae, que a cada passo encontrava em Lisboa; era um dissipador, mas um cavalheiro, excellente homem.

Não conhecia egualmente a mulher que quasi nunca vinha a Lisboa, mas ouvira que era uma senhora de muito tino e que toda se dedicára á administração da casa.

Quanto á rapariga, nada lhe diria senão que era muito bonita, porque ninguem sabe o que está dentro do coração d'uma menina que ainda não conheceu nem póde conhecer o que seja a vida do casamento com todos os seus trabalhos e obrigações. O tempo lhe diria a sua sorte.

Ia partir immediatamente para Albergaria; guardava para a sombra dos platanos, que tanto apreciava, a discussão de todos esses pontos que a Claudio pareciam tão obscuros e que para elle eram tão limpidos como agua da fonte.

Em poucos dias tinha ajustado o casamento de Claudio com Laura. Restavam só os cuidados de ordem material, o enxoval da noiva e a installação da casa, para o que se calculou que quatro mezes seriam bastantes.

Claudio deixava o palacio de Albergaria, ia viver em Coimbra. A mãe voltava a Villalva, separando-se do filho com a mágoa e a resignação que era propria da doçura do seu caracter mas ao mesmo tempo contente por ir acabar onde vivera a sua melhor vida, dando largas aos habitos de simplicidade, ao genio laborioso e á caridade constante. O filho promettia ir vel-a todas as semanas.

A casa escolhida pelos noivos era na estrada da Beira, a pequena distancia do palacio dos Albuquerques. Sobre uma elevação, recolhida no meio d'uma pequena quinta que descia em largos taboleiros vicejantes de jardins, de hortas e de pomares, dominava todo o valle, triste nas tintas sombrias do olivedo que o cobria. Em frente, atravez uma pequena garganta, entre duas collinas, as aguas do rio e os salgueiros mimosos, balouçando-se, lançavam um brando alento de movimento e frescura sobre a morna placidez do valle. Aqui e além, erguiam-se os choupos, corajosamente, brandindo ao vento as tenues folhas.

Á festa da natureza quiz Claudio associar os primores da arte; aos moveis do palacio de Albergaria juntou o bric-à-brac que Jorge lhe enviou de Lisboa.

Elle mesmo veio ajudal-o a dispôr quadros e louças, tapeçarias e bronzes, cogitando artificios para dar relevo á belleza dos objectos.

O ninho era tentador para a mais delicada sensualidade; o proprio Albuquerque, que na frequencia da gente fina adquirira auctoridade em materia d'armador, exclamava contente nos serões do seu palacio, entre os lentes que vinham tomar-lhe o chá:

—A casa fica linda; o rapaz tem muito gosto!...

Quando chegou a hora de se separar da mãe, Claudio sentiu pela primeira vez a apprehensão da inanidade de todo o esforço em que com tanto enthusiasmo e tão boas aspirações se empenhára.

Onde ia? Para que tanto movimento? Que buscava? Que valia á sua vida a riqueza e o ninho que architectára n'esse valle que agora lhe parecia estranho? Sonhára uma companheira para a sua vida... Onde estava? Laura? Afigurava-se-lhe uma mulher alheia. Desconhecia-a.

Varrido e abandonado já o palacio de Albergaria, n'essa pequena sala de Villalva, só com sua mãe, via em torno os montes escalvados, em baixo o estreito campo a que déra todos os seus cuidados, ao longe um retalho da varzea cortada pelo rio. Tarde de primavera, suavidade e silencio, só cortado pela voz guthural do lavrador que animava o jugo! Era a hora de jantar, a ultima refeição que teria em commum com sua mãe antes de partir para essa jornada mysteriosa, que tão ardentemente desejára e que agora quasi aborrecia.

Ia dormir a Coimbra, na sua nova casa.

No dia seguinte, á uma hora da tarde, era o casamento. Dos seus amigos e dos seus parentes só Jorge o acompanharia; a mãe e a irmã não consentiram, por timidez e acanhamento, em deixar os seus campos. De resto, os Albuquerques, incluindo Laura, mal se referiram a essa falta, muito promptos em acceitar todas as escusas. Intimamente temiam que lhes viessem manchar a festa com a sua rudeza.

Ao fim d'essa derradeira refeição, aproximou-se da mãe para a abraçar pela ultima vez antes de se casar. A lembrança de todo o passado que lhe enchia o peito trasbordou em largos soluços e lagrimas abundantes. Choraram unidos estreitamente, trocando um prolongado beijo, sem articular uma só palavra, n'uma supplica fervorosa e muda de felicidade em que se confundiam mágoas, esperanças e um infinito affecto. Depois, Claudio, abrindo os braços, com um gesto de resolução, deixou a mãe:

—Adeus!

—Adeus!

Foram as unicas palavras que em voz sumida se ouviram; e saiu descendo o caminho, sem olhar para traz, dirigindo-se á carruagem que o esperava em baixo.

A meia encosta, veio juntar-se-lhe, correndo e querendo acompanhal-o, o cão de guarda da lavoura.

—Chama-o, chama-o, disse Claudio para um creado que estava perto.

—Leão, Leão, aqui! gritou o creado.

O cão parou hesitante e contrafeito. Por fim obedeceu.

Claudio seguiu, juntando, no coração opprimido, esta caricia ás fundas dores que o trespassavam.

A este tempo, em casa dos Albuquerques, o movimento e a confusão eram completos. Rolos de tapetes, vasos de flores, escadas, louças, creados em mangas de camisa, mulheres do campo transportando cestos com ramos de hera e de loureiro, um ininterrompido cruzar de vozes dando ordens e pedindo objectos, tudo redemoinhava em volta de D. Pedro que corria de salão para salão querendo dirigir toda a esmerada ornamentação do palacio.

—Olha esse lustre!... Cuidado com as cortinas!... Esses vasos vem ou não vem?!... Então o tapete?... Assim... pela direita... está bem! mais acima!

O tiroteio não cessava, tentando cada um desembaraçar-se da sua tarefa n'uma desordem activa e alegre.

Ao cair da noite estava tudo completo; a casa guarnecida de verdura e de flores, coberto o chão de tapetes a amortecer todos os ruidos, as vellas postas profusamente nos candelabros e nas serpentinas para se accenderem no dia seguinte.

Nos aposentos de Laura e D. Maria Francisca, pelas cadeiras, pelas camas e pelos sofás estendiam-se rendas, plumas, flores e vestidos fôfos e ondeantes. A um canto da janella uma costureira apertava a cintura d'uma saia de seda que se espraiava pelo chão sobre um lençol de linho e que a modista mandára larga, errando a medida.

Para o casamento estavam convidados alguns parentes da Beira e uns fidalgos de Lisboa, companheiros de D. Pedro em S. Carlos, nas touradas e nos clubs.

Começavam agora a chegar em char-à-bancs, que os transportavam da estação do caminho de ferro, os da Beira com bahús de folha envernisada, mal fechados e ligados com cordas delgadas, os de Lisboa com grandes malas de couros macios, afivelladas com ferragens brancas e polidas como prata.

O Albuquerque recebia os hospedes, conduzindo-os aos seus quartos e mostrando-lhes em seguida as salas mal illuminadas, para não desmanchar os preparativos da festa, ouvindo com desvanecimento os elogios.

—Um palacio, uma palacio! Estás aqui como um principe!

D. Maria Francisca tomava as damas a seu cargo e recebia-as nos seus aposentos.

Pelas dez horas da noite caira tudo em relativa tranquillidade, os hospedes de Lisboa acantonados nas mezas de whist e as senhoras no quarto de D. Maria Francisca, mexendo e remexendo com a sua natural curiosidade o enxoval e as prendas de Laura, discutindo, apreciando e fazendo comparações com outros casamentos nobres a que tinham assistido.

—Vaes ser muito feliz! diziam com denguice para Laura.

—Parece-me muito bom rapaz, respondia D. Maria Francisca. Creio que ha-de saber estimal-a... E agora hão-de dar-me licença, que são horas de preparar a meza. Quero deixar tudo prompto hoje; se lá não vou abaixo, os creados não fazem nada. Uns estupidos!...

—Oh! tia, eu vou ajudal-a, respondeu uma das meninas recemchegadas.

E seguia D. Maria Francisca para a sala de jantar.

Claudio veio tambem, mas demorou-se pouco. Tinha umas ultimas cousas a regular na sua nova casa. Laura não procurou prendel-o, absorvida como estava pelos cuidados dos seus vestidos novos e de se mostrar bella e fidalga no dia que lhe diziam ser o maior da sua vida.

O casamento foi á uma hora da tarde, na capella do palacio.

Desde o meio dia havia um incessante rodar de carruagens, que entravam o largo portão de ferro coroado pelo brazão dos Albuquerques e iam parar em frente dos degráus do palacio alcatifados e ladeados de vasos com hortensias.

Os cocheiros, na almofada, voltavam-se para traz, recebiam ordem de regressar á noite, esperavam que o creado da casa, fardado de verde e branco, batesse a portinhola, e saiam dentro das suas librés de emprestimo, mal ajustadas, conduzindo os cavallos magros, cobertos de arreios baços, em que só brilhavam as ferragens amarellas, excepcionalmente polidas, para aquelle dia, tentando honrar os creditos da cocheira.

Nas salas, as casacas negras e brunidas entre vestidos de seda, muitas rendas, algumas joias, e um rumor de vozes abafadas na timidez de indiscrição e no respeito da solemnidade. Só os convidados de Lisboa destacavam por fallarem alto, trazerem casacas usadas e macias, amoldando-se bem ao corpo, e sapatos com visiveis signaes de terem servido muitas vezes; passeavam e conversavam livremente com damas e cavalheiros, e os da terra olhavam-n'os estudando elegancia, confrontando-se com elles e procurando aprender aquella maneira tão facil de dar o nó na gravata que muito cubiçavam.

O Albuquerque entrou sorridente, com Laura pelo braço; Claudio deu por sua vez o braço a D. Maria Francisca. Juntos os convidados aos pares, cada cavalheiro dando o braço á sua dama, poz-se o cortejo a caminho da capella, saindo a porta principal e atravessando pelo jardim. Na rua, o povo apinhava-se nas grades que vedavam a quinta, espreitando por entre as arvores.

—Tão linda! Parece um anjo... exclamavam, confundindo em vágas remeniscencias a noiva e as creanças que viam nas procissões com grandes azas de pennas brancas e vestidos estrellados de lantejoulas.

A cerimonia na capella foi breve; dentro d'uma hora o cortejo regressava ao palacio. Houvera lagrimas ao verem os paes abraçar a filha, mas a missa em seguida ao casamento e os gracejos com que os mais alegres commentavam a situação tinham desvanecido essas sombras passageiras; quando sairam da capella, todos vinham risonhos.

O lunch era ás tres horas; no breve intervallo que medeava entre o casamento e a refeição, os convidados dispersaram-se em grupos pelas salas e pelos jardins, n'aquella molleza que é caracteristica da gula esperando a hora de saciar-se.

Geralmente discutia-se a grandeza e o viver dos Albuquerques. Os commentarios divergiam.

Entre dois parentes de Vizeu sentados á sombra d'uma olaia, podia surprehender-se o seguinte dialogo:

—É uma grande casa! Vê tu que riqueza ahi está e que gente aqui vem!

—Já foi melhor. Deve muito.

—Deixa lá! Tem uma grande casa... Só em Cercosa recebe ainda para cima de cem moios de milho, fóra o trigo, o centeio, o vinho e o azeite.

—Pois sim... mas que importa isso? Á Misericordia deve perto de trinta contos e disse-me outro dia o Nunes, que é lá o cartorario, que tem mais de quatro annos de juro em atrazo e é uma cruz para lhe apanhar um vintem. Só quando estão ameaçados de qualquer penhora é que se mexem. Olha que ha mais de quarenta annos que este homem não faz senão gastar dinheiro!...

—Mas a casa é muito grande, tem muitos recursos. Quanto não vale isto aqui? e os bens de Pombal?

—Está tudo hypothecado ao Credito Predial e quem lá vae é alma que caiu no inferno. Não se sae de lá mais. Lembra-te do que aconteceu ao marquez de Cannaes. Foi tudo! Ficaram sem nada!

—Mas agora tem os genros para o ajudarem...

—Só se fôr isso!... Este rapaz dizem que tem boa casa.

Mais adeante, dois lentes de direito, passeiando de braço dado á beira do lago, commentavam differentemente, em tom malicioso.

—Hein!? Que sorte! Dá cabo da fortuna dos paes, refresca com o casamento, arruina-se outra vez, e agora casa as filhas ricas.

—Elle merece-o, que nos tem dado muito boas festas. Não ha ninguem para receber como este homem. Nasceu para isto!... Acabou-se.

—Mas não podem ir longe... Já por ahi ha procurações para penhora, vindas de Lisboa, sem conta.

—O que eu admiro é como este rapaz aqui veiu cair. Foi meu condiscipulo e era o avêsso de todas estas cousas. Retraído, muito modesto...

—Então?! Está rico, quiz afidalgar-se...

—Não, não é este homem d'isso. Gostou da rapariga, os paes haviam de lh'a metter á cara, e caiu.

—Pois olhe que, se elle é como você diz, não me parece que vá lá muito bem. Esta gente gosta de gastar e de luxar.

—Não, não! A Laura é muito boa menina!

—Boa!... Historias! As meninas são todas boas, mas, quando se habituam a viver á larga, não ha quem as ature. Isto de fidalgos é muito boa gente para gozarmos com elles; de portas a dentro o caso é outro.

Claudio estava aturdido com todo aquelle rumor, que tanto contrariava os seus habitos, e enfadado. As suas preoccupações andavam muito longe da alegria em que a excitação das viandas e o calor dos vinhos lançavam os convidados.

Ás nove horas da noite dançava-se e ria-se desprendida e folgadamente; toda a frieza solemne se tinha partido ao contacto do sangue escandecido. Só Claudio se conservava affastado, ao lado de Laura, supportando como um estranho o prazer alheio, intimamente dominado d'uma religiosa tristeza, meditando na vida virtuosa a que ia consagrar-se, o coração tumido de angustias passadas e de esperanças futuras.

Ao bater da meia noite, julgou ter cumprido o seu dever de assistencia e saiu com Laura para a sua nova casa. Os convidados acompanharam-n'os até ao portão do jardim, a musica deixou de se ouvir por um momento, as salas ficaram desertas, repetiram-se os abraços e as lagrimas que de manhã se tinham visto na capella, ouviram-se alguns beijos e a festa proseguiu redobrando de animação.

Os primeiros dias passados na pequena casa da estrada da Beira foram para Claudio d'uma infinita doçura. Do governo da casa não havia a cuidar; D. Maria Francisca mandára com a filha uma velha creada da sua confiança, para tudo dirigir e regular sem que a paz e felicidade dos noivos fosse perturbada.

Longas horas no jardim entre flores, pequenos passeios a pé pelos caminhos menos frequentados, colhendo plantas e admirando a natureza, passeios de carruagem pelas margens do rio, e o serões em casa dos Albuquerques, ora jogando, ora conversando: n'isto se consumiam os dias.

Claudio sentia-se bem. Acceitava todos estes gozos da sensualidade e da indolencia como um premio de virtude, pensando quanto o amor era bello na consciencia tranquilla pela satisfação das convenções do mundo, e comparando o presente com esse passado que a ventura d'agora mais carregava de crimes e remorsos.

Emprehendia a educação do espirito de Laura, admirando com pasmo e veneração a sua ingenuidade e louvando a Deus por lhe ter concedido tão precioso bem. Aquella sim, aquella seria boa, porque era simples.

Confundindo a estupidez, a inexperiencia e a futilidade com a candura, tomando por singeleza d'alma, prompta a desabrochar em sentimento christão, o que era apenas estreiteza de intelligencia e de coração, Claudio communicava-lhe todos os seus planos de vida.

Ella ouvia-o, de ordinario silenciosa, fundamentalmente alheia a toda a profundeza de pensamento; elle ficava contente, tomando esse silencio por um tacito assentimento e interpretando a mudez como uma forte e serena energia. Exultava; a esposa tranformar-se-ia n'uma mulher superior.

Foram a Villalva. Laura pouco disse á mãe de Claudio. A unica coisa que lhe permitiu uns momentos de conversação foram as imagens do oratorio e particularmente uma imagem da Senhora do Carmo. Havia uma outra egual no collegio, em Lisboa, e tinha com ella muita devoção. A velhita louvou intimamente os sentimentos religiosos da sua nova filha e repetia:

—Assim é bom, assim é bom... É o que n'esta vida me tem valido e ajudado nas minhas afflicções.

Voltou-se para o filho, sem uma palavra sobre a sua situação. Instinctivamente affastava uma ociosa confissão de desejos e aspirações tão carinhosamente sentidas que nenhumas palavras saberiam traduzil-as.

Perguntava pelas cousas da casa e referia o que na ausencia de Claudio se tinha passado. Que visse elle o que precisaria em Coimbra, que já começava a haver alguma hortaliça no Serrado de Baixo e o azeite que tinha levado talvez não fosse do melhor.

Tinha vindo um rendeiro do Amial pagar a renda, era preciso experimentar o vinho que havia de precisar de trasfega, e o José, o creado, não tinha geito nenhum para isso. O melhor seria Claudio ir lá passar um dia para vêr todas essas coisas, mesmo porque o dr. Azevedo, de Albergaria, lhe tinha dito que precisava fallar com elle por causa dos fóros de Sernadas. Claudio prometteu voltar dentro de pouco dias. Partiu, com grande allivio de Laura a quem as attenções do marido pela mãe começavam a enfadar e que se sentia estranha áquella atmosphera. Não lhe queria bem nem mal; ignorava-a. Por vicio de educação, por temperamento e inclinação hereditaria estava realmente destinada a ignoral-a perpetuamente.

Em vão Claudio, saindo de Villalva, lhe mostraria o campo em que tantas horas tinha trabalhado, as arvores e as flôres que plantára por suas mãos. Tudo lhe parecia uma simples mania; e cautelosamente a occultava nos salões do pae, para não dar ensejo ao riso das antigas amigas, que lhe mordia a vaidade, amesquinhando o marido.

Ao fim d'um mez de vida idyllica, o contentamento do mavioso casal da estrada da Beira foi subitamente perturbado por um incidente doloroso.

Uma noite, pelas tres da madrugada, Claudio despertou aos gemidos de Laura.

—Que tens, minha filha, que tens?... perguntou ancioso.

Ella continuava gemendo, sem responder, e elle insistia em tom afflictivo:

—Dize, dize-me, minha filha, por quem és... Que tens tu?

Por fim, cedendo aos rogos do marido, respondeu arrastadamente.

—Ai! meu Deus!... Ha uma hora que não durmo. Não posso parar com dores n'um dente, d'este lado... E indicava com a mão.

—Se tu fosses ao dentista pedir o elixir...

—A esta hora?! perguntou Claudio surprehendido.

—Sim... sim... não posso esperar.

N'um instante, Claudio estava na estrada, correndo ladeira abaixo, a caminho da cidade. Ao pé de Laura ficára a creada que se offerecia, suavisando a voz, para aquecer uma pinguinha d'agua, segundo ella dizia. Talvez um chásinho...

Laura nem lhe respondia, conforme os seus habitos de menina mimosa.

Entretanto Claudio batia á porta do dentista que veio á janella, ás escuras, a resmungar com somno. A estas horas!... É preciso ter muito pouco respeito pelo socego d'uma pessoa! Bem tolo é quem os atura.

—Quem é que está ahi? gritou de cima.

—O dr. Claudio...

—Ah! é v. ex.a. Eu vou abrir, respondeu apressadamente o dentista, moderando a impaciencia e esforçando-se por sorrir perante o freguez rico.

—Então?!... perguntou mal abriu a porta. Faça v. ex.a o favor de subir.

—Minha mulher está com uma dôr de dentes e eu vinha pedir-lhe aquelle elixir...

—Pois não! Eu dou-lh'o já...

E dirigiu-se a uma estante.

—Queira desculpar.

—Ora essa! É a nossa obrigação, não me falle v. ex.a n'isso... Se a dôr não abrandar á primeira applicação, renova o algodão no fim de meia hora...

—Eu sei, eu sei, respondia Claudio, apressando-se a descer a escada. Infelizmente já o tenho usado... Muito obrigado, sim? E desculpe...

—Não ha de quê. Sempre ás ordens de v. ex.a.

Claudio entrou em casa offegante. Correu ao quarto da mulher que, logo que o sentiu, se sentou no leito.

—Aqui está! exclamou elle risonho de contentamento por vêr satisfeita a vontade de Laura.

Com difficuldade applicou-se o remedio, porque mal se percebia uma sombra de carie no dente, e Laura adormeceu rapidamente n'um somno tranquillo.

Excitado pela inquietação e pelo movimento, o marido ficou passeiando na sala. Só tarde, pelas sete horas, a fadiga o dominou e adormeceu sobre um sofá, para não entrar no quarto e perturbar com os seus passos o somno da mulher.

Ás nove horas despertou, sentindo vozes e passos estranhos. O que seria? Ergueu-se sobresaltado. Laura estaria peor?

A creada velha, logo pela madrugada, mandára dizer á creada de quarto de D. Maria Francisca que prevenisse a sua senhora de que a menina tinha passado muito mal a noite. D. Maria Francisca soubera a noticia quando ás oito horas pediu o primeiro almoço e apressou-se a vir a casa da filha.

Mal penteada e mal vestida, com uns sapatos lassos e a góla do casaco desapertada deixando vêr o collo que as rugas começavam a sulcar, D. Maria Francisca, espavorida, perguntou subitamente ao genro:

—Então que foi, que foi?!...

—Uma dôr de dentes... Felizmente pude applicar-lhe o elixir...

—E agora como está?

—Deixei-a a dormir...

—Sósinha!... Que imprudencia!...

—É que estava tão socegada que eu não quiz aproximar-me d'ella com receio de a accordar.

Entraram no quarto.

Laura tinha dormido excellentemente depois do tratamento; nem sequer apresentava no rosto vestigios de ter soffrido o quer que fosse. Acercaram-se do leito pé ante pé e a mãe, em voz dorida, perguntou á filha, que não levantava a cabeça do travesseiro:

—Estás melhor, minha filhinha?

—Parece que agora estou melhor, mas passei muito mal a noite. Ai, que dôres, Santo Deus!

—O Alexander bem te disse, replicou a mãe em tom de mágoa e reprehensão, que esse dente precisava tratamento. Tu não quizeste e ahi tens as consequencias! Agora o remedio é voltar lá.

—A Lisboa?! perguntou Claudio com certa vivacidade e espanto.

—Sim, e quanto antes. Devem ir hoje mesmo antes que a dôr volte. É um soffrimento horroroso, horroroso!...

—Mas talvez aqui mesmo...

—Ai, pelo amor de Deus, não! Uns brutinhos!...

—É que o dentista foi tão amavel comigo que póde escandalisar-se...

—Não tenha medo. Ha-de fazer-lhe boa conta.

E voltando-se para a filha, a cortar a discussão que lhe parecia ociosa:

—Apósto que ainda não tomaste nada? perguntou.

—Não m'o trouxeram... respondeu Laura.

—Com estas cousas é que é necessario ter muito cuidado, disse D. Maria Francisca, voltando-se enfadada para Claudio e poisando o dedo sobre o botão da campainha.

Appareceu a creada.

—Então são quasi dez horas e esta menina sem ter tomado o leite!?... exclamou irritada.

—Oh, minha senhora, começou a creada a explicar, ainda agora deram nove horas no relogio lá de dentro e eu até vinha saber...

—Vamos, desembarace-se, deixe-se de historias. Traga o leite, traga o leite. E não fique lá quatro horas, conforme o seu costume, ouviu?... Isto quem as atura...

—Oh, minha filhinha, continuou para Laura, talvez umas bolachas de araruta... Deves estar tão fraca!...

—Não, mamã, não; não me falle em comer. Sabe Deus o que me custa o tomar leite!

O leite veiu, Claudio e D. Maria Francisca sairam para não incommodar a doente que durante todo este tempo não tivera uma palavra de gratidão pelos seus cuidados, e, satisfeito o estomago, Laura caiu n'um somno profundo, a refazer-se da interrupção da noite.

Ficou resolvida a partida immediata para Lisboa, apezar da ligeira opposição de Claudio que viu assim desmanchados todos os seus planos de tranquillidade e estudo. Uma necessidade! repetia a sogra. Não quizesse elle tomar a responsabilidade d'uma cousa d'essas.

Dentro de poucas horas, estava revolvida a casa, os corredores atulhados de malas e os guarda-roupas desfeitos. Os vestidos de Laura occupavam duas grandes caixas, tendo-se contado com todas as hypotheses, os theatros, os bailes, as visitas, os passeios, a chuva, o sol, o frio, a humidade e o calor. As bagagens de Claudio tambem não eram pequenas. Laura temia um pouco a apresentação do marido aos parentes elegantes da capital e vigiava e com particular cuidado que nada lhe faltasse; gravatas, calçado, abotoaduras, alfinetes, bengalas, luvas, chapéus, tudo ia combinado ponto por ponto para que não discrepasse das leis vigentes do janotismo.

Em Lisboa passaram quinze dias que para Laura foram d'uma completa felicidade. Á parte as breves horas que dedicaram ao dentista, todo o tempo se dispendeu em visitas, jantares, theatros e apresentação de Claudio á numerosa parentela fidalga. O marido agradava; no trajar e nos modos não destoava dos usos e costumes correntes e essa conformidade com a banalidade consagrada deixava Laura radiante de jubilo e vaidade.

Não succedia outro tanto a Claudio que, regressando a Coimbra e pensando no caminho percorrido, via com mágoa quanto os factos divergiam das aspirações, quanto a realidade se distanciava dos sonhos.

No fundo, inconscientemente, a esposa que elle desenhára no seu espirito e nas suas ambições era a imagem de sua mãe, a honestidade, o trabalho, a resignação e a caridade distillados dia a dia, gota a gota, marcando todos os passos e todos os movimentos da vida; o que o casamento lhe offerecia eram vaidades e impaciencias, occultando um egoismo sem limites, tanto mais cruel quanto era instinctivo e inconsciente.

Lembrava-se da noite em que Laura o fizera ir a correr procurar-lhe remedio para uma passageira dôr de dentes e comparava a com a serenidade que sua mãe mostrava nas dores physicas e moraes; lembrava-se da simplicidade de Villalva e comparava-a com a vida de infinitas necessidades a que entre gente fina se deixava arrastar.

D'esse confronto saia com umas vagas aprehensões de ter errado na maneira de realisar as suas aspirações moraes, mas breve esses temores se dissipavam. A candura de Laura venceria as fraquezas da educação. Era só o tempo necessario para a revelar e vêr desabrochar na sua consciencia as flores de suave perfume que lá dormiam em botão. A esperança reanimava-o.

Tardava, porém, essa almejada quietação na virtude. As futilidades absorventes succediam-se; a existencia consumia-se inutilmente. Laura não dispensava a companhia de Claudio a todas as refeições, em todos os passeios e nos serões passados em casa dos paes, prolongados serões em que a moleza dos estomagos replectos se espreguiçava pelas flexuosas cadeiras Luiz XV. Por amor, dizia ella, não queria desamparal-o um instante.

O certo era que a vida de Claudio se subordinára inteiramente á da mulher; todo o trabalho se reduzia a servil-a nos seus prazeres e nas suas necessidades, empregado a todo o instante nos mais frivolos misteres, em procurar um lenço que esquecera algures ou em transmittir ordens aos creados. Já em casa dos Albuquerques se dizia que a filha encontrára um excellente marido.

Aos primeiros incommodos da gravidez esta situação aggravou-se. Laura passava mal, constantemente enfadada, com um fastio permanente, ora no leito, ora recostada n'uma ottomana dos seus aposentos.

A presença de Claudio era então reclamada como um dever; não podia abandonar a esposa, cumpria-lhe servil-a em todos os seus caprichos como bom enfermeiro. Nos peiores dias, nem sequer lhe era permittido sair ao jardim; ficava em casa, inventando jogos para a distrair, a ella que com tudo se contrariava e aborrecia.

Uma vez, porém, teve a tentação de se affastar para seu prazer. Os jornaes annunciavam a chegada a Coimbra d'uma pianista notavel, Sophia Menther, que vinha dar um concerto, um unico. Claudio leu a noticia á mulher e perguntou:

—Queres lá ir?

—Deus me livre! respondeu ella irritadamente e accentuando a inconveniencia da pergunta. Estou lá em estado de cousa nenhuma! Como queres tu que eu me vista?

—Gostava muito de lá ir. Ha tanto tempo que não apparece por cá quem se possa ouvir...

—Mas vae tu...

—Talvez. Logo veremos. Conforme tu estiveres...

Chegou a noite e Laura estava com o seu habitual fastio, mas sem molestia alguma. Claudio não se conteve; foi ao concerto. Receiando os seus amuos, explicou que era só por uma ou duas horas quando muito, que o desculpasse. Tinha muita vontade de ouvir a pianista; precisava mesmo de se instruir.

Laura nada respondeu, contendo o seu despeito. Claudio saiu na persuasão de que a tinha deixado convencida e de que ella generosamente acquiescera aos seus desejos.

A pianista era notabilissima. Claudio não teve coragem de deixar o theatro até ao fim do concerto. Sentia-se enlevado nas visões tragicas de Beethoven, nos idyllios de Chopin, na attica serenidade de Mozart.

Era uma embriaguez para os seus nervos doentes, ainda magoados das mortificações moraes, uma agitação sádia e capitosa.

Recolheu a casa contente, sentindo em si uma vibração que o erguia da prostração morbida em que os azares do seu destino continuamente o traziam. Esperava encontrar Laura adormecida e abeirou-se do seu leito cautelosamente.

Immovel, os olhos abertos, junto das almofadas um lenço a indicar as muitas lagrimas que tinha chorado, Laura sentiu aproximar-se o marido e nem se moveu nem disse uma palavra.

—Que tens, perguntou Claudio ancioso, que tens?

Não respondia; todas as instancias e todos os carinhos eram vãos, baldada toda a mágua afflicta com que era interrogada. Uma convulsão de choro foi a sua unica resposta, ao cabo d'alguns minutos.

Claudio nem sequer se atrevia a pedir explicações dos modos de indifferença e aborrecimento com que a mulher o tratou durante todo o dia que se seguiu á noite do concerto. Por demais tinha aprendido com Emilia a colera que esse mutismo significa. Pensava apenas no seu triste destino, d'esta vez sem poder fugir a uma ponta de azedume que se lhe cravava no coração.

Não era senhor de si, não podia dispôr de duas horas para seu prazer e sua instrucção, para repousar, avigorando-os, os membros fatigados? Toda a obrigação se reduzia a servir Laura, os seus habitos e os seus caprichos, ainda mesmo aquelles que condemnava como uma perniciosa ociosidade? Esquecia as aspirações de virtude que o tinham levado ao casamento; o egoismo, calcado pelo dominio absorvente da mulher, revoltava-se em nome de direitos soberanos e infiltrava-lhe no peito um mau fermento. Lembrava-se de Albergaria e porventura passou-lhe pelo pensamento, rapidamente, uma onda de saudade.

Ao menos, lá, tinha o socego do seu palacio, a liberdade, a independencia, os carinhos protectores da mãe para lhe suavisar a cruz a que o prendera o amor de Emilia.

Aqui, nem isso; só, a todo o momento em face de uma mulher que constantemente o magoava com uma crueldade que a seccura do seu coração ignorava, todos os caminhos estavam vedados, o carcere era perfeito, o soffrimento sem esperança de remissão que não viésse d'aquella mesma que era a causa da sua dôr. Vinham, por instantes, alentos de energia e fé, clarões que varriam estas sombras.

Sob a meiguice de Laura, nos momentos em que o seu dominio se traduzia acariciando aquelle que era amado por ser objecto da sua posse, Claudio recuperáva animo. Não! errava; as exigencias da esposa eram as exigencias do dever. Precisava banir da alma os derradeiros impulsos do egoismo, abdicar de toda a liberdade, viver só e unicamente para a sua familia. Que lhe importava o resto?

Prazeres da intelligencia e do espirito, alegrias do corpo expandindo-se ao contacto da natureza, tudo eram vaidade de que lhe cumpria despojar-se perante a imagem hirta e sombria que a consciencia lhe apontava, repetindo-lhe com impassivel inflexibilidade a palavra dever. Era necessario viver para a sua familia: essa era a obrigação por excellencia para cumprir a qual se casára e a que espontaneamente havia de consagrar-se, tendo posto termo a um passado criminoso que não voltaria. Acceitasse pois sem trepidar o sacrificio de todos os desejos egoistas.

Claudio promettêra a sua mãe ir vêl-a todas as semanas. Essas visitas, á proporção que o caracter de Laura se revelava, começavam a tornar-se um problema inquietador.

Para Claudio eram a maior das alegrias; a presença da mãe e das serras de Villalva eram para o seu coração um magico lenitivo que apagava todas as dores sem o minimo esforço da razão e do pensamento.

Perante ellas sorria, como se bebesse, por um filtro mysterioso, a mocidade e a frescura. Não o comprehendia Laura e por isso sentia, com um vago ciume, como se lhe roubassem uma parte de qualquer cousa que lhe pertencia, os constantes cuidados do marido pelo que se passava em Villalva, a alegria e a impaciencia com que esperava o dia de lá ir, as pequeninas necessidades que inventava para servirem de pretexto a mais frequentes visitas. Convertia em tortura esse prazer singelo e bom.

Antecipadamente discutia-se o dia da visita; já não era sem receio que Claudio se aventurava a lembral-a, tendo percebido quanto a mulher se contrariava.

—Vamos amanhã?

—Amanhã, não. Temos que acompanhar á estação as Mendonças que vão para o Porto e vieram despedir-se.

—Ah! é verdade!... Depois de amanhã...

—Depois de amanhã tambem não. Disse-me hontem a mulher do dr. Ramos que queria vêr o nosso jardim e talvez cá viesse.

—No outro dia... mas faz-se tão tarde... E não sei o que por lá vae...

—O melhor é não te prenderes comigo. Vaes sósinho.

Estes dialogos eram frequentes; quasi se repetiam invariavelmente todas as semanas. Mal passava o domingo, era necessario começar a preparar o terreno para fazer a jornada a Villalva sem provocar a irritação de Laura.

O problema não tinha solução; estava destinado a manter-se indefinidamente nos termos em que o punham a contradicção do affecto de Claudio e da indifferença de Laura. Ou Laura acompanhasse o marido ou ficasse em Coimbra, essa visita era sempre toldada por inquietações.

A presença de Laura importava um retraimento de expansões que por completo prejudicavam toda a alegria; a sua ausencia obrigava Claudio a apressar-se no regresso e prejudicava do mesmo modo toda a alegria com a suspeita do descontentamento da esposa. Temia o mutismo em que se traduziam os seus frequentes despeitos; apavorava-se com esse espectro que lhe embargava toda a felicidade.

Só a mãe de Claudio ignorava quanto essas visitas custavam, porque o filho, para lhe poupar a tranquillidade dos seus ultimos annos, apparecia-lhe sempre sorridente de ventura, d'uma ventura que só pelo amor da mae se lhe mostrava na face mas que no intimo suspeitava que jámais seria o seu quinhão n'este mundo.

Os seus olhos resplandeciam de felicidade ao transpôr a estreita porta do casal de Villalva, para que as trevas do coração jámais se derramassem na luminosa paz d'essa velhinha que nas suas orações não cessava de pedir a Deus que ungisse o filho com as suas bençãos. Mas, voltadas as costas a esse sanctuario, logo a tristeza involvia Claudio como n'uma lugubre mortalha.

Á casa da estrada da Beira corriam os mendigos, attraidos pela fama de gente rica recentemente casada, esperando generosidades proprias de quem tem fé na recompensa divina.

Raro batiam á porta principal. Contornavam a casa e, segundo o seu velho costume, procuravam a porta de serviço, onde tinham probabilidades de encontrar alguem que os attendesse. Para isso passavam em frente das largas janellas da sala de jantar, vestidas de flores e trepadeiras a emoldurar o fulgor das pratas e as cores mimosas das louças da India, que se viam dentro, cobrindo as paredes em extensas prateleiras. Quando sentiam vozes na sala, começavam n'aquelle ponto as suas lacrimosas melopêas.

Laura contrariava-se com essas visitas. Aborrecia os mendigos cuja miseria e immundicie repugnava á sua esmerada elegancia; apressava-se a despedil-os recusando ou dando a esmola, a maior parte das vezes concedendo-a, por ser esse o meio mais rapido de os vêr sair.

Claudio tentava moderar essas impaciencias com palavras de sympathia pelos pobres, esperando despertar iguaes sentimentos no coração da mulher e associal-a aos seus impulsos de caridade, mas encontrava uma indifferença inabalavel.

Essa indifferença havia de transformar-se um dia n'uma explosão de maldade em que deviam naufragar todas as esperanças de conversão.

Regaladamente, banhada a sala pela luz brilhante que as sombras do arvoredo moderavam com uma vibração de frescura e os lilazes e as roseiras embalsamavam espargindo perfumes, Claudio almoçava com Laura, quando um mendigo entrou a cavallo n'um burro, um par de muletas cruzadas sobre o albardão esfarrapado, o corpo do animal ulcerado pelo attrito constante dos apparelhos que jámais deixava, ou pastasse pela beira dos caminhos ou conduzisse o seu miserando cavalleiro. O burro entrou, parou em baixo das janellas e, emquanto o mendigo começava rezando, elle, com esforço, estendendo os labios, procurava alcançar os ramos d'uma acacia que tinha em frente.

—Ah! é de mais!... exclamou nervosamente Laura dirigindo-se ao marido e apontando o mendigo. É preciso que ponhas termo a isto, d'outro modo não se póde parar n'esta casa!

—Deixa-os lá! Coitados! Precisam e não percebem mais...

—Qual precisam! Precisam menos do que nós. Que trabalhem! O que elles são é uns vadios, a viver a custa dos outros. Afinal morrem e estão ahi a cada passo a encontrar-lhes muito bom dinheiro.

—Isso são casos rarissimos. Lá apparece um que pôde fazer um mealheiro, mas a quasi totalidade d'esta gente passa fome. E ainda os que vem pedir serão os menos infelizes. Deus sabe o que soffrerão os que ficam por esses casaes!... Nós é que deviamos procural-os.

—Não faltava mais nada!... Ainda em cima de nos incommodarem a toda a hora e a todo o instante...

—Incommodar, não. Não gosto de te ouvir dizer isso. Temos obrigação de os ajudar. Até são bonitos!... Nos seus andrajos, nas suas rugas cavadas, n'estas barbas descuidadas, quanta vida, que dramas intimos de miseria physica e de miseria moral, quantas dores, quantos desejos calcados, quanta esperança enganada!

—E os que andam ahi pelas tabernas e pedem para ir beber, tambem te parecem muito bonitos?

—Tudo é miseria. Que importa que venha das enfermidades do corpo ou das enfermidades da alma? Não podemos distinguir. Bem diz o Evangelho: Dá a quem te pede.

—As phantasias que tu quizeres... disse Laura córando de colera e querendo terminar; eu é que não estou para aturar isto. Tenho cá os meus pobres que sei que são necessitados e não quero saber dos outros. D'aqui a pouco não ha gente decente que possa vir a esta casa. Sempre tudo entulhado com pobres. Deus sabe as doenças e a porcaria que elles trazem. Ainda queres agora que ponham os burros a pastar no jardim!... Eu é que não estou para aturar isto!... Para me consumir basta o que aturo aos brutinhos dos creados.

Claudio calou-se, não se atrevendo a insistir perante a irritação de Laura, e ficou scismando, com infinita mágoa, no caracter rebelde da esposa. Enganára-se? Essa educação religiosa das irmãs de Santa Ignez, em que tanto se fiára, seria unicamente uma série de formulas occultando a inanidade de sentimento? As devoções bastas, as orações, as missas, as confissões, os escrupulos em faltar aos preceitos ecclesiasticos nos dias de abstinencia seriam um habito, ainda uma singular especie de vaidade, a vaidade religiosa, coincidindo com um egoismo tenaz e uma implacavel sede de commodidades? A ingenuidade, a candura de Laura seria apenas a inexperiencia d'uma rapariga educada ao abrigo de todo o esforço e de toda a contrariedade, só para ostentar a gentileza da sua figura?

Continuar: parte 3 de 3