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Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 6 de 7 · parte 3/3

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Capítulo V

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Os factos tentavam convencel-o, mas elle affastava todas as suspeitas ruins com a vara magica do amor e da esperança. Não; Laura era um anjo. Só a impaciencia de tranquillidade e de virtude lhe povoava a imaginação de pavores. Toda esta irritabilidade que simulava estreiteza ou perversão moral, todo o egoismo absorvente que reduzia o marido a uma simples commodidade da mulher, d'uma passividade completa, tudo isso eram apenas o resultado necessario d'um mau estado physiologico, d'enfadonhos incommodos de gravidez. Mas, terminados elles, quando Laura fosse mãe, a generosidade, os carinhos e a caridade haviam de desabrochar na sua alma e a vida seria então para Claudio o eden que nas attribulações do erro sonhára e se propozera conquistar. Esperasse; a sua hora chegaria.

E assim tudo perdoava a Laura, abdicando sempre, perante o dominio da esposa, dos seus mais pequenos desejos e das suas ambições mais nobres, tomando por motivos de bom quilate as razões que para desvanecer suspeitas amargas lhe eram suggeridas por um amor ainda flamejante, e porventura por um ardor de sensualidade que não attingira ainda a sua inevitavel e satanica consumpção.

Para alliviar o enfado de Laura, começaram a reunir-se á noite em casa de Claudio os antigos frequentadores do palacio dos Albuquerques. Vieram as classicas mezas de jogo com os seus castiçaes de prata, os cinzeiros e o panno verde, accenderam-se as vélas do piano para ouvir as walsas e as marchas em que as meninas fidalgas mostravam o esmero da sua educação, entre a assistencia circularam os taboleiros com bolos e chicaras de chá levados nos braços hirtos dos creados, em bom aprumo, envergando a casaca bem assente.

Laura sentia então um suave contentamento que lhe dava uma expressão de felicidade; via ali uma reproducção fiel do viver de seus paes, toda a sua vaidade vibrava quando algum mais intimo lhe vinha dizer que os seus serões já tinham fama de elegantes na cidade.

Na meza, porém, é que punha os seus maiores cuidados. O arranjo das flores, a combinação do jantar, o serviço, o modo de pôr e tirar os pratos, a maneira de servir os vinhos, tudo isso era objecto de longas reflexões e consequentes recommendações severas aos creados. Se havia algum convidado, o que bastas vezes succedia, os cuidados redobravam e não deixava de perguntar ao marido pela sua impressão.

—Que te pareceu?

—Muito bem, respondia invariavelmente Claudio.

—Dizes-me sempre isso!... Não me ajudas em cousa alguma!...

A frivolidade invadira-lhe a casa com todo o seu cortejo de fainas ociosas e estereis trabalhos em que a vida se dissipa sem o minimo valor moral. Todos os sonhos de caridade, de trabalho, de honestidade, de modestia e de affastamento das cousas mundanas esvaiam-se deante das mesquinhas exigencias de Laura a quem parecia ter cedido completamente.

Não cedera, apenas esperava. Todas as ambições geradas na cruz do remorso permaneciam vivazes, bem arreigadas no fundo da sua alma, esperando a hora de saciar-se. Cedia levado pela convicção de que era seu dever dar tranquillidade á esposa proxima a ser mãe, sacrificando-se n'esta abdicação ao culto da maternidade, mas intimamente contando os dias que o separavam da hora da redempção. Nem poderia esquecer os propositos com que se casára: lá estavam a lembrar-lh'os as visitas a Villalva, que Laura supportava com mal dissimulado aborrecimento.

D'ahi voltava sempre com uma tristeza inquieta que o tornava silencioso e distrahido. Porventura a sua vida teria naufragado sem remedio? O dever que impozera á sua vontade como norma de existencia e satisfação da consciencia havia de curvar-se á fragilidade d'uma mulher?

A duvida voltava a apossar-se do seu espirito, mas o desalento era breve, terminando sempre em uma cega confiança na transformação de Laura. Toda a sua fundamental frivolidade lhe parecia então uma transitoria meninice, e, resignado, esperava ancioso as dôres que, fazendo a mãe, accenderiam na sua alma as fachos do amor divino.

Quando viu approximar-se esse momento, exultou. Era a libertação de toda a agitação vazia em que consumira quasi um anno. Laura aprenderia nos labios côr de rosa do filho a piedade e o sacrificio. Não mais coraria de desespero quando os mendigos lhe calcassem o jardim; havia de preferir á banalidade fastidiosa dos seus serões entre os convivas o silencio da alcova singela compassadamente cortado pelo embalar da berço. Só estranhava o borburinho que lhe ia em casa e as andadas de D. Maria Francisca, já interrogando o medico, já segredando com a parteira.

—Olhe, doutor, parece que agora sentiu umas picadas mais para o lado esquerdo... Que me diz?

—Isso não significa nada, minha senhora.

E ia ao pé da filha, a dizer-lhe que não era nada, tinha respondido o medico.

Voltava instantes depois.

—Oh, doutor, não acha que isto vae a demorar-se. Se a examinasse... O dr. Xavier, um indio que estudou lá fóra, disse-me que em Paris...

—Ora, Paris!... Em Paris, respondeu o doutor que era um rude e singelo descrente de medicinas, em Paris as mulheres teem filhos como em Portugal. Até devem ter menos que a população diminue.

—Tem uns modos este doutor... ia dizer D. Maria Francisca á parteira. Já estou arrependida de não ter mandado vir de Lisboa o dr. Xavier. Sempre é outra cousa!...

—Oh, sr.a D. Amelia (era o nome da parteira) talvez seja melhor passar outra vez as mãos pelo sublimado. Esteve agora ahi a mexer nesses vestidos e o dr. Xavier disse-me que era preciso muito cuidado. O sublimado sempre! Para a mais pequenina cousa!...

—Deixe lá, minha senhora! Tenho assistido a muita mulher. Isto com a ajuda de Deus Nosso Senhor...

—Oh, doutor, voltava D. Maria Francisca a perguntar ao medico, as dores parece que são tão distantes...

—Não se afflija v. ex. a, ellas apertarão.

—Que homem, que modos estes! E dizem que é bom medico! Ai, Senhor, tomára já isto passado!

Claudio olhava este espectaculo surprehendido, vagueando pelas salas e pelos corredores. O que?! Pois o nascimento era este vil receio da morte e esta ridicula fé nas cousas que hão-de salvar o corpo? Não havia uma religião que libertasse de tantos e tão mesquinhos cuidados elevando a alma em extasis divinos? Não era toda a maternidade, desde o parto e o berço até á formação completa do homem, o modo providencial de pagarmos a divida d'amor e de carinhos que a existencia de cada individuo significa? E, sendo assim, porque tamanha pressa em cuidar do corpo e de passageiras dôres que a resignação, tirada da consciencia d'uma missão sublime, curaria melhor que todas as medicinas? Ainda aqui as aspirações da sua alma vinham bater contra a mais extrema pobreza moral; o desgosto perturbava a piedade que a afflicção da esposa lhe despertava.

No quarto de Laura ouviu-se um grito afflictivo. Fez se um silencio d'anciedade. Os gritos repetiram-se, lancinantes, e, após uns curtos momentos, os vagidos d'uma creança pozeram a casa em alvoroço.

—Felicissima! veio o medico dizer a Claudio. Muitos parabens! É um rapaz!... Adeus que não tenho aqui que fazer. Muito socego é que a doente precisa.

—Muito obrigado, muito obrigado, respondia Claudio acompanhando o medico até á porta.

O medico saiu e Claudio correu apressado ao quarto de Laura. Queria vêr a sua physionomia illuminada de contentamento, queria vêr os primeiros clarões d'essa aurora. Era que a sua alma havia de expandir-se nas auras d'uma vida nova.

Entrou cautelosamente, pé ante pé.

—Entre, entre, disse com affouteza D. Maria Francisca, que estava sentada á cabeceira da cama de Laura. Venha vêr o seu morgado. Muito gordinho e lindo como um anjo!

Claudio aproximou-se da creança, tumefacta e vermelha, apertada em faixas brancas, mas logo a deixou para se dirigir a Laura.

Beijou a mulher timidamente, humildemente, com uma uncção religiosa. Não era o corpo enfermo que os seus labios tocavam, era a imagem em que a graça de Deus incarnára.

—Como te sentes? murmurou.

Ella entreabriu os olhos e, n'uma contracção de repugnancia e odio, respondeu:

—Ai, meu Deus! Que horror!

E os olhos cerraram-se novamente. Não houve uma palavra para o filho, nem um gesto de ternura, nem o mais leve movimento que não significasse um fastio mortal.

Claudio ficou de pé, immovel, esperando ainda d'aquella massa inerte envolvida em finissimo linho uma vibração que viesse confirmar as suas esperanças de tantos mezes.

Só uma gélida mudez lhe respondia. Saiu do quarto de Laura esmagado de desalento.

Embora! No seu espirito procurava razão para justificar o estado moral de Laura e continuar a esperança que até alli tinha mantido.

Era uma reacção natural do corpo fatigado pela dôr physica, mas, quando a saude voltasse, com ella viriam os affectos de mãe e o ardor de sentimento em que todos os sacrificios são recebidos, na alma ávida de amor, como favores do destino.

Todavia, pensava, que singular perversão a do genero humano! Não acontecia o mesmo com os animaes. N'elles, o instincto materno dominava todas as dores e tanto era o zelo que, nos primeiros tempos immediatamente ao parto, a aproximação das mães era perigosa; havia uma resurreição de instinctos bravios a proteger os recemnascidos.

Porque não seria assim para as mulheres? Que degeneração de sentimento as podia levar a abandonar os filhos logo ao nascer, friamente, sem um grito do coração offendido? Não, não podia ser assim.

Laura soffria apenas uma crise passageira; em breves dias havia de operar-se a transformação milagrosa do ser frivolo e egoista na esposa e mãe profundamente generosa, consagrada com uma intima felicidade, á existencia alheia.

Essa transformação porém não vinha. Deccorriam os dias, as forças voltavam, e Laura continuamente se lamentava. Não podia dormir uma hora descançada! dizia. Era impossivel restabelecer-se com a creada a entrar-lhe no quarto a cada instante, para que désse de mamar á creança!

D. Maria Francisca tinha creado os filhos. A sadia animalidade da sua robustez comprazia-se nas suavissimas caricias da amamentação; o calor das creanças junto aos seios em que pousavam as pequeninas mãos, comprimindo-os ligeiramente, fôra sempre para ella um instinctivo prazer, desprendido de quaesquer razões moraes. Para a filha, porém, era differente. A filha fôra e continuava a ser um objecto de luxo que queria conservar em todo o seu brilho e belleza. Por isso, ouvindo os queixumes de Laura, invariavelmente lhe dizia:

—Toma uma ama! Tu não queres crer que és muito fraca...

—Mas o Claudio tem dito sempre que não quer...

—Lá vens tu com o Claudio! O Claudio ha de fazer o que o medico lhe disser. Pensas que os maridos gostam muito de vêr as mulheres magras e velhas antes de tempo?

Interrogaram o medico, na presença de Claudio. O medico respondeu:

—Olhem, minhas senhoras, isto de crear os filhos é conforme a vontade de cada um. Quando se tem n'isso grande empenho, fazem-se das fraquezas forças, e elles criam-se. Agora quem quer ter descanso...

—O que eu não comprehendo, interrompeu Claudio que a conversação contrariava extremamente, é como uma mulher tem forças para crear um filho no ventre durante nove mezes e trazel-o a este mundo sadio e forte, e não não tem forças para em seguida o amamentar durante um anno. Muita gente devia morrer entre os pobres que não tivessem para pagar a quem lhe creasse os filhos!

—Sim, observou D. Maria Francisca, eu posso fallar porque creei os meus... Quem não tem outro remedio, ou seja forte ou fraca, cria os filhos; mas quem é fraca, tem meios e teima em os criar faz muito mal. Nem mesmo ás creanças é util. Pois se ellas podem ter um leite bom para que hão de estar a mamar um leite fraco? Não é verdade, doutor?

—Até certo ponto... respondeu o medico. Mas lá isso, diga-se com franqueza, não sei o que é o cuidado das mães! As creanças parece que medram só com o calôr da cama. Por melhores que sejam as amas, sempre são madrastas.

Claudio applaudia, mas D. Maria Francisca instava pela vinda d'uma ama. Era uma necessidade. Só se Claudio tinha muito gosto em vêr a mulher tisica!...

Ao fim de pouco tempo, estava contractada a ama. Não houve razões, nem instancias, nem um confessado desgosto e pezar que pozessem barreiras ao egoismo de Laura e a levassem a ceder aos desejos do marido. E Claudio via com espanto, que em breve se transformaria em aversão, o filho entregue a braços estranhos.

Seguiu-se o baptisado. Como de costume, D. Maria Francisca veiu discutil-o com a filha e por deferencia que ella julgava um requinte de delicadeza, quiz ouvir tambem Claudio. Já tinha combinado com Laura o caracter da festa e o numero dos convidados, baptisado ás cinco horas da tarde, jantar em seguida e depois uma pequena reunião dos intimos. Preferiria um grande baile, mas a casa não o comportava e a disposição dos moveis não era adequada á dança. Fica assim uma reunião mais escolhida, concluia ella, como teu pae gosta. Com o pretexto da casa, escusamos de convidar os gebos que não sabem vestir uma casaca e não vêm ahi senão para comer.

Claudio não concordava; não queria festa alguma. O baptisado, dizia, é um sacramento e deve ser dado com a placidez e o recolhimento de quem tem consciencia do que faz. Não foi instituido para patuscadas.

—Ora que idéas!... respondia a sogra. Haviam de julgar que cairam em miseria ou que tem muito pouco gosto em ter um filho. Nada, nada, deixemo-nos de excentricidades, vamos andando assim, que foi sempre o costume cá de casa. Que diria o Claudio se visse o baptisado do José?!... Durante oito dias tivemos em casa vinte e sete hospedes! O conde de Palhares, que veiu cá de propósito, disse-me que os bailes do Farrobo não tinham mais grandeza.

—Coitado, murmurava, dirigindo-se á Laura, é muito bom rapaz mas ha de ressentir-se sempre d'aquella vida na aldeia.

—Se a mamã soubesse o desgosto que tenho com isso...

A vontade de Laura e de D. Maria Francisca prevaleceu.

Tomando por singela obediencia as complacencias com que até então Claudio se tinha sujeitado aos habitos e vicios da mulher, D. Maria Francisca, que as ausencias do marido e a docilidade do capellão tinham convencido de que todo o dominio lhe pertencia, começava agora a mandar em casa da filha como em sua propria. Por isso, passando de leve sobre as observações do genro, dispoz tudo para o baptisado conforme o desejava.

Claudio começava a viver sob uma impressão de pavor que crescia á maneira que via perderem-se todas as suas esperanças. A cada instante se refugiava no seu gabinete, procurando o silencio e o isolamento em que poderia encontrar-se só e bem de frente com a tristeza da sua vida.

Quando chegou o dia do baptisado, sentia-se mais do que nunca opprimido. Quasi não fallava; respondia por monosyllabos, se o interrogavam.

—O sr. dr. Claudio, dizia um velho lente de theologia para D. Maria Francisca, vê-se mesmo que está doido de felicidade! Não diz uma palavra, vae todo entregue ao pensamento no filho.

Na egreja, porém, a imagem do Christo e a magestade do templo, juntando-se á febre do seu espirito, produziram-lhe um momento de oração ardente. Com uma supplica instante, fervorosa, acompanhava as palavras do padre, dirigindo se a um deus desconhecido que não via com os olhos do rosto mas que sentia na alma dominando o mundo. Intimamente repetia com o sacerdote: Omnem coecitatem cordis ab eo expelle, varre-lhe do coração toda a cegueira, disrumpe omnes laqeos Satanae, quebra-lhe todos os laços com Satanaz, aperi ei Dominé januam pietatis tuae, abre-lhe, Senhor, a porta da tua piedade, accipe lampadam ardentem et irreprehensibilem, recebe a lampada ardente e irreprehensivel, custodi baptismum tuum, guarda o teu baptismo, serva dei mandata, obedece aos mandamentos de Deus, ud habeas vitam aeternam, para que tenhas a vida eterna. Vade in pace et Dominus sit tecum, vae em paz e o Senhor seja comtigo.

A estas ultimas palavras os olhos toldaram-se-lhe de lagrimas. Vae em paz e o Senhor seja comtigo! repetia interiormente.

A dôr das amarguras do passado e a ambição da felicidade do filho confundiam-se n'um mesmo anceio. A consagração a Deus era plena, irrompia-lhe do coração. Vae em paz e o Senhor seja comtigo!

—E fique-se por aqui, dizia-lhe D. Maria Francisca ao entrar em casa, emquanto atravessavam o jardim. A Laura é muito fraquinha. Depois não sei o que é... Por mais cuidados que se tenha, os partos envelhecem muito. Lembra-se de vêr minha prima Luiza? Casou ha cinco annos, como sabe, e tem tres filhos. Via-a outro dia em Cercosa. Está uma velha! Não faz ideia. Fique-se por aqui, fique-se por aqui, que está muito bem. Demais, um rapaz!...

Claudio ouvia sem responder, pasmado do despejo da sogra. Sabia que havia muito quem assim pensasse, nunca imaginára que alguem se atrevesse a aconselhar-lh'o.

A sua regra era a do Evangelho: Crescei e multiplicai-vos. Crescei e multiplicai-vos para o trabalho e para a virtude, para que a verdade se derrame no mundo, para que a caridade e o amor cresçam alargando-se as relações na humanidade.

O seu desejo era ter muitos filhos, julgava que essa seria uma das condições do resgate das suas faltas passadas; formando para o bem numerosas almas christãs, havia de compensar os seus erros. A intervenção da sogra surprehendera-o e por isso se calára; mas, passado esse primeiro momento de surpreza, revoltava-se.

D. Maria Francisca, porém, é que não desanimava, posto que pelo silencio do genro ficasse suspeitando de que elle não acceitava o conselho. Á noite, conversando n'um pequeno grupo em que se encontravam Laura e Claudio, julgou conveniente repetir a instancia mas d'esta vez levando-a por outra via.

—Hoje, dizia para a sua velha amiga D. Maria do Amaral, já não ha nem póde haver casas nobres. Vem as partilhas e não ha fortuna que lhes resista. A abolição dos morgados acabou com toda a fidalguia que fazia tanto bem. Desgraçado de quem tem mais do que um filho!

—Pois o meu desejo é ter vinte, apressou-se Claudio a responder bruscamente, não tentando dissimular a sua irritação Que trabalhem! Foi assim que fizeram meus paes. Deus me livre de gente vadia!

Laura córou e D. Maria Francisca respondeu:

—Crédo! Que ideias! Nem parecem d'um rapaz fino como Claudio!...

A conversação ia visivelmente azedar-se e D. Maria do Amaral, com o fino tacto que adquirira na sua vida de mundanismo fidalgo, accudiu a interrompel a:

—Olha que o sr. Soares não tira os olhos de nós, disse para D. Maria Francisca. Está á nossa espera para a manilha; lá entende que por ser dia de festa não ha-de ficar sem partida.

E todos se levantaram.

—O meu Claudio, veiu dizer Laura ao marido quando mais tarde se recolhiam aos seus aposentos, foi hoje muito mau. Não gosto de o vêr assim. Fico muito zangada.

—Porquê?

—Ora, porquê?!...

—Talvez tu tambem não queiras ter mais filhos?...

—Ai, decerto que não! Um vá. Mais do que um, Deus me livre! Só o que eu soffri!...

—É a boa educação religiosa que vos dão n'esses collegios de beatas.

—Tomara-me eu lá! São umas santas...

—Ninguem te prende.

—Bom. Deixemo-nos de discussões que não estou para me inquietar.

—É melhor, é. Mesmo a unica cousa de que deves cuidar é de não te inquietares. Fazes bem. Has-de tirar-lhe bom proveito! exclamou já ao cerrar a porta e dirigindo-se ao seu gabinete.

Essa noite foi tormentosa para Claudio. As quatro paredes da sua cella asphyxiavam-n'o. Desceu ao jardim e passeiou até á madrugada, meditando no drama da sua desventura. A realidade apparecia-lhe sem attenuantes, as phantasiosas esperanças que por alguns mezes alimentára com uma tristeza resignada voavam como arremessadas ao longe pelo rebentar da metralha. Não queria ter mais filhos! Este pensamento obececava-o. Era a extrema perversão, o repudio completo de todas as leis naturaes, a cobardia e o egoismo, calcando e reprimindo toda a expansão da vida ingenua, um misero e constante terror, substituindo a alegria intensa do peito que canta com a natureza, dos ninhos das aves que adejam nas manhãs d'abril. E todavia era a sua sorte!... A maternidade não transformára Laura; pelo contrario, revelava-lhe o caracter. O amor de sacrificio não viera, mas, em logar d'elle, o egoismo redobrava, tornando-se indomavel.

Durante dois dias, Claudio só trocou com a mulher as palavras indispensaveis; taciturno, nada fazia já para lhe occultar o seu desgosto que era profundo. Intimamente, mantinha talvez ainda uma derradeira esperança, que ella fizesse por amor d'elle, pela sua paz e alegria o que por instincto e instigação da consciencia não tinha podido alcançar. Laura porém conservava-se inteiramente estranha ao que se passava no espirito do marido; julgava-se offendida com o seu silencio. Pois não era uma santa, um anjo, como tantas vezes ouvira aos que a cercavam?!

A sua vaidade não lhe deixava um instante de hesitação. Claudio não podia ter d'ella o menor aggravo. Tudo o que elle fazia caia sob uma condemnação formal, completa. Demais, dera-lhe um filho, fizera por elle esse sacrificio. O filho não era para ella uma dadiva de Deus para melhor cumprir o seu destino no mundo; tinha sido uma tortura supportada por uma victima da sensualidade e do capricho d'um homem. A obliteração do senso moral consumara-se n'essa creatura a que a educação formalista, dando-lhe a apparencia externa, os modos, as palavras e os gestos da bondade, no intimo creára uma plena seccura de coração. Sem as luctas da vida em que se fórma e avigora a alma, repellia como uma offensa todo o esforço e toda a situação que não lhe lisongeasse sem reservas os seus desejos.

Entre Claudio e Laura começou uma verdadeira lucta, surda, sem explosões retumbantes, mas continuada e persistente, manifestando a cada momento uma divergencia de caracteres que, não logrando fundir-se, mutuamente tentavam dominar-se. Os creados, as visitas, o filho, os passeios, de tudo se tirava motivo para discussão que invariavelmente terminava por accentuar uma incompatibilidade de pensamento profunda.

Claudio queria os creados tratados como familiares, bondosamente, sempre propenso a excusar-lhes os erros e as faltas. Laura aborrecia-os e odiava-os cruelmente; batia-lhes por um prato que se partira, por uma fita que uma creada trazia mal posta, porque se demoravam em accudir ao seu chamado. Não havia mez em que algum não fosse substituido.

—Antes um pedaço de brôa, diziam, e o seu socego do que os regalos dos fidalgos. E iam-se embora, maldizendo da casa.

—São do nosso sangue, dizia Claudio á mulher admoestando a; tem as mesmas tentações de descanso e de folgar, os mesmos vicios, o mesmo afêrro aos seus habitos. É preciso tratal-os com caridade. São elles que nos servem, é sobre elles que lançamos todos os trabalhos pesados que não podemos ou nos repugna fazer.

—Pois governa-os tu! Eu é que não estou para isso. Se te incommoda ouvir os meus ralhos, tambem a mim me incommoda atural-os. O que elles são todos, concluia, enfurecendo-se, é uns demonios que não servem senão para me inquietar.

A primeira vez que Laura, depois de casada, tivera uma furia raivosa contra os creados, ficara de lembrança a Claudio.

Era sexta-feira da Paixão. Laura jejuára n'esse dia com todo o rigor que a egreja aconselha, tendo-se previamente informado com o confessor sobre as horas, quantidade e especie de refeição a que devia sujeitar-se, para alcançar todos os beneficios que d'ahi podessem provir-lhe.

Ás dez horas saiu para a sé, de carruagem, elegantemente vestida de negro, levando nas mãos um livro rico, presente do casamento que uma sua parente beata expressamente encommendára em Paris e onde vinha traduzido para francez o evangelho. Na egreja foi sentar-se proximo do pulpito, n'um banco que um conego, antigo frequentador do palacio do Albuquerque, se apressou a mandar-lhe offerecer pelo sachristão, mal a viu. Depois seguiu com grande recolhimento toda a cerimonia, lendo, a cabeça inclinada sobre o livro, erguendo-se apenas de longe em longe para olhar a cruz e o altar.

Á uma hora da tarde entrou em casa para tomar o magro alimento que lhe era permittido, mas ás quatro voltou a sair, sempre de carruagem, para ir vêr a procissão do enterro. Nova visita a casa ao anoitecer, logo seguida de immediato regresso á sé, para assistir ao officio de trevas e ao sermão da paixão. Tinha pressa, para não perder o logar que o conego promettera reservar-lhe.

Ouviu o officio, ouviu os córos e o orgão, pousando graciosamente o livro sobre os joelhos para se entregar a essa delicia, e ouviu por fim o sermão. Quando o pregador, um rapaz que tinha entrado havia pouco para a faculdade de theologia, terminando o discurso e procurando motivos de emoção, clamava no templo sombrio, pedindo um lençol para amortalhar o Christo morto na pobreza e no abandono, Laura, sentindo um fremito mais de temor que de piedade, bateu com a mão no rosto e enxugou duas lagrimas. Depois, deu o braço ao marido, saiu vagarosamente acompanhando a onda de povo que se dirigia á porta da egreja e entrou na carruagem.

—Está frio, disse para Claudio. E este cocheiro é tão descuidado... Nunca se lembra de trazer os escalfadores.

Quando passavam na estrada da Beira, batia a meia noite. Ao entrarem em casa, encontraram um silencio profundo e Laura dizia ao marido, já levemente irritada:

—Adormeceu tudo, pelo que vejo! Parece que ninguem sabia que eu tinha saido e jejuei todo o dia. Que desmaselo!

Ia entrando, desabotoava a capa ao transpor a porta do quarto, quando n'um movimento de surpreza, estacou.

A creada, fatigada de esperar, sentara-se n'uma cadeira e adormecera.

Laura approximou-se d'ella pé ante pé, para mais amargo lhe tornar o despertar, e n'um accesso de colera indiscriptivel começou a bater-lhe e a injurial-a.

—Canalha! Que porcaria! Quem ha de dormir agora aqui?! gritava. O meu regalo era pôl-a immediatamente no meio da rua.

Claudio não se atrevia a pronunciar uma unica palavra.

—E tu então calas-te?!... dizia-lhe a mulher. Que homem este!

Eram estes os fructos da lição que na egreja Laura acabava de receber? pensava Claudio. Era este o modo por que commemorava os soffrimentos de Christo? A surpreza turvava-o inteiramente e, como de costume, a imaginação espraiava-se buscando illusões, para retardar ainda por mais algum tempo a convicção de que a sua vida estava unida á mais cruel aridez do coração em que os seus sonhos de piedade christã tinham de se dissipar.

O filho era um acrescento ás vaidades de Laura. Entravam na sala as visitantes e logo a ama o preparava com rendas e fitas de seda para vir apresental-o. Choviam então as exclamações. Ai! Mas que belleza! Um mimo! Um apetite! E que gordinho!...

—É todo Albuquerque, diziam a meia voz as mais lisongeiras. É o retrato do avô.

Laura passava então momentos felizes. Não era o filho seu producto e propriedade, não vinham os elogios cair directamente sobre ella, juntando-se aos que em solteira ouvia sobre as suas graças e belleza?

A satisfação da vaidade continuava-se agora sob uma nova fórma e, despedidas as visitas, voltava risonha a contar a Claudio o que haviam dito a condessa dos Casaes e a prima Sarmento. Todos o acham um encanto, uma belleza!...

O marido ouvia; o contentamento da mulher despertava-lhe o desprezo que por ella começava a ter, lembrando-se da indifferença com que abandonára o filho a uma ama, da colera com que mandava affastal-o para que os seus chóros não a importunassem e principalmente do seu receio louco de ter novos filhos.

Comparava a mãe que idealisára, os olhos cavados e os braços doridos das longas vigilias a amamentar os filhos, com a imbecilidade risonha e paramentada que tinha deante de si; a convicção do naufragio das suas aspirações arreigava-se-lhe no espirito. Nem já o filho lhe podia reanimar esperanças O que seria d'elle creado n'aquelle ambiente?!..

Laura continuava sempre estranha ao que se passava no pensamento de Claudio.

A cada passo o contrariava, com a sêde de dominio e posse a que a tinham habituado os mimos dos paes, emquanto solteira, e que vira confirmados pela submissa obediencia com que o marido se curvára a todos os seus appetites durante os tempos de gravidez. Queria saber todos os seus passos, queria que nunca se separasse d'ella. Não tinha a liberdade de sair sem previamente lhe dizer onde ia e para que. Era um passeio em que procurava concentrar-se algumas horas na reflexão sobre a sua malograda existencia para o trabalho e para a virtude? Esperasse, que ella iria tambem. Eram negocios que tinha a tratar? Escusava de sair e de a deixar só, tudo se regularia por meio de cartas; e punham-se os creados em movimento. O amor em Laura não era o ardor de sacrificar-se á vida d'alguem, de viver para outrem, era a paixão de possuir e conservar só para si a vida d'um estranho que lhe trazia gozos e commodidades. Por isso dizia que tinha muito amor ao marido e ao filho, e tomou por ingratidão o descontentamento de Claudio, que percebia sem poder explical-o.

—Ah! a inconstancia dos homens! exclamava. O que eu lhe ouvi e o que agora vejo!...

Succederam-se longos mezes sem que a situação se modificasse apparentemente, porque no fundo ia-se cavando a extincção de todo o affecto conjugal. Era uma lucta surda, sem expansão ruidosa, mas constante, inevitavel, entre dois caracteres oppostos e entre duas maneiras de conceber a vida, o egoismo que se occulta em convenções de religião e de bondade, e a virtude que rudemente, por um trabalho assiduo, procura servir o proximo.

Ao fim de dois annos de casamento, Claudio não tinha uma hora sua, para os seus prazeres, para os seus estudos ou para o seu trabalho; a sua existencia estava completamente absorvida pelas exigencias de Laura, pelas suas recepções, pelas suas visitas, pelos cuidados e deligencias que lhe impunha, continuadamente a caminho da pharmacia ou do consultorio, se a mulher sentia o mais ligeiro cansaço ou se o filho se mostrava impertinente.

O gabinete em que reunira os seus livros, sonhando uma vida de benedictino, affagada pelos carinhos vigilantes da esposa, essa cella em que, lendo e pensando, havia de alcançar o conhecimento da verdade, que toda a vida fôra a sua ambição, para lhe conformar a existencia, estava hoje convertido n'uma simples sala onde cada dia, em trajes bem talhados por alfaiates de fama, ou aguardava a chegada dos convidados que vinham festejar os annos das pessoas de familia—os pretextos de festas multiplicavam-se,—ou pacientemente esperava Laura que, sem se dar pressa, rematava a toilette para passeiar de carruagem, ou se consumia em qualquer outro frivolo mistér.

Perdia-se o tempo e a fortuna soffria. Os tres a quatro contos de réis de renda que Claudio possuía e que em Albergaria lhe permittiam uma vida lauta, sob o governo burguez de sua mãe, nas mãos de Laura eram insufficientes para os seus habitos e costumes fidalgos. Era preciso um cocheiro e um trintanario, um jardineiro, um escudeiro, um hortelão, uma creada para o serviço de Laura, uma outra para a cosinha, uma outra para ajudante da cosinheira, mais outra para o serviço das roupas, mais outra para o filho, fóra o pessoal incerto de lavadeiras, de recoveiros, de engommadeiras e as innumeras gentes que frequentavam a cosinha da pequena casa da estrada da Beira.

Claudio calculava. Em dois annos tinha consumido quatro contos de réis além dos seus rendimentos. Era a ruina. Queixava-se a Laura.

—Tu bem sabes que não se póde viver com menos! respondia ella com vivacidade. Só se queres que eu lave a roupa e faça a cosinha...

—Não, mas tudo tem limites.

—Tem muita graça essas economias! Quem não quer gastar, não se casa. Ou então casasses em Villalva, com alguma rapariga de pé descalço. Não viesses procurar uma pessoa fina.

—Talvez não tivesse sido infeliz...

—Pois eu ainda mais feliz seria! Estava em casa de meus paes muito bem, não me faltava lá nada. Escusava de me vir metter n'este inferno.

Claudio calava-se perante os modos irritados da mulher. Por triste experiencia sabia que não lograria convencel-a, e fugia de violencias inuteis. Interiormente, porém, o desengano consumava-se e o desprezo crescia, illuminado de rapidos clarões de revolta.

Começava agora a manifestar-se d'uma maneira bem patente a sêde de libertar-se do jugo. Entrava n'um periodo de desespero. Os momentos de tranquillidade em que o espirito se lhe desanuviava e a alegria parecia voltar, e que d'ordinario eram os que passava conversando com antigos companheiros, já não significavam esperança; eram apenas o natural repouso das cogitações em que a sua infelicidade se revolvia, reacção do pensamento fatigado de tristeza e buscando espontaneamente uma atmosphera sã.

Intimamente, a desillusão era perfeita. Sabia que não podia esperar de Laura outra cousa que não fosse a futil existencia que até alli tinha levado; a educação, a estreiteza de espirito e uma vaidade sem limites venciam todas as tentativas de conversão que o marido tinha tentado, emquanto o habito de mandar e satisfazer todos os caprichos a tornava insolente e colerica perante a mais pequena contrariedade.

—Onde vaes? perguntava ao marido, vendo-o pegar na bengala e pôr o chapéu na cabeça.

—Passeiar e tratar umas cousas na baixa.

—Mas eu preciso sair tambem...

—Sae com o pequeno. Fica-te ahi a carruagem.

—Bons costumes! E muito delicados...

Claudio não respondia; continuava o seu caminho. Não tinha negocios alguns a tratar; o que queria era libertar-se d'aquelle ambiente que o suffocava, distrair-se em extensos passeios á beira do rio, na contemplação das aguas espelhadas e dos vergeis mimosos ou encontrando quem lhe fallasse de coisas ociosas que eram para o coração dorido um rapido refrigerio.

Bem sabia que por cada vez que desobedecia a Laura teria alguns dias de despeitado mutismo, mas a frequencia e a injustiça dos repetidos amuos haviam-n'o tornado indifferente a essa arma que a mulher usára com proveito nos tempos em que elle esperava vencel-a e conquistal-a pela doçura e pela paciencia. Agora penetrava-o o desengano e abandonava Laura ao proprio desespero, que era apenas o castigo da ruindade dos seus sentimentos.

Foi n'esta situação que uma manhã o vieram encontrar as peiores noticias de Villalva. A mãe mandava-o chamar; tivéra um novo ataque de paralysia e queria vêl-o. Claudio não se surprehendeu; ha muito esperava essa má nova. Via o declinar da sua velhinha, como lhe chamava, que já por duas vezes fôra acommettida de ligeiros insultos apopleticos; o proprio medico não lhe tinha occultado que era provavel que se repetissem e que constituiam, uma ameaça grave.

Claudio partiu na convicção de que ia vêr a mãe pela derradeira vez. Laura quiz acompanhal-o, não porque sentisse o menor respeito pela sogra, de cuja rudeza se envergonhava, ignorando o que n'ella havia de santo e de grande, mas porque julgava ser proprio de gente fina acompanhar o marido em occasião tão difficil. Elle, porém, instou e foi só; talvez exaggerassem o estado da mãe, de lá lhe mandaria noticias e depois se resolveria como fosse melhor. A verdade era que queria vêr-se sósinho com a mãe e affastar de si, nos seus ultimos momentos, tudo aquillo que podesse perturbar-lhe a concentração na saudade d'aquella que fôra a maior affeição da sua vida.

Em Villalva, esperava-o o dr. Carvalho. Não saira d'alli toda a noite, dizia, nem sairia emquanto Claudio não viesse. Escusava dizer-lhe, acrescentava, que o estado da doente era muito grave.

—Os annos são muitos, meu amigo, e isto não póde ir longe. É a sorte que a todos nos espera, e o dr. Claudio, como homem intelligente que é, deve ter coragem para se conformar com o destino.

Claudio apressou-se a cortar o enfadonho discurso do doutor.

—Posso fallar-lhe, não posso?

—Póde... Ella por emquanto está ainda bem. Mas não convém conversar muito. Sempre excita...

Claudio entrou no quarto da mãe. Estava deitada, os olhos semi-cerrados, unicamente acompanhada pela filha, que se sentava á cabeceira da cama.

A filha, quando viu o irmão, levou rapidamente o lenço ao rosto a occultar as lagrimas que lhe rebentaram n'uma contracção afflictiva. Depois, dominando-se, chamou baixinho:

—Minha mãe, minha mãe?

—O que é? respondeu a velhinha abrindo os olhos.

—Está aqui o Claudio.

—Ai, meu filho, respondeu ella procurando-o com a mão esquerda, que o braço direito estava completamente paralytico. Estou muito mal... É tempo de dar contas a Deus Nosso Senhor... E foi bom que cá viesses hoje...

Calou-se e fechou novamente os olhos. As palavras tardavam e a voz embaraçava-se.

—Está assim, disse a irmã de Claudio. Falla quando a chamam, diz meia duzia de palavras e depois fica outra vez n'esta somnolencia. Já não se lembra de que foi ella que te mandou chamar.

Por pouco tempo se prolongou esta agonia. Proximo da meia noite, a velhinha moveu-se no leito. Claudio perguntou:

—O que tem? Quer alguma cousa?

—Quero... quero... um caldo, respondeu confusamente.

A filha saiu para ir buscar o caldo e Claudio aproximou-se da mãe, a observal-a. Pareceu-lhe alterada a face; para vêr melhor, desvendou a luz que estava sobre a commoda, occulta por detraz d'um pequeno bahú de coiro, antiga herança da casa em que o pae guardava os titulos das suas propriedades.

—Luiza, Luiza! gritou chamando a irmã.

O rosto da velhinha moribunda congestionava-se e Claudio, ancioso, sem articular uma palavra, apenas poude apontar para elle.

Os dois filhos cahiram de joelhos chorando; em breves momentos, jazia inerte aquelle corpo que os animára com o seu alento e que lhes legava a eterna luz d'uma vida immaculada na caridade e no trabalho.

Houve certo rumor em toda a casa, dos creados que saiam a levar ordens para o enterro, a prevenir o parocho e os armadores. Depois, pelas duas horas, tudo caiu em silencio. Só Claudio e Luiza velavam o corpo da mãe, pallida e serena, vestida de negro, coroada de cabellos brancos, sobre o leito, mal illuminada pela luz dos castiçaes que ladeavam o crucifixo, em cima da commoda, convertida em altar.

Ás oito horas, começaram a chegar os visinhos que vinham com palavras de sentimento, e muitos com lagrimas, offerecer os seus serviços. Dirigiam-se a Claudio que os recebia na sala e a maior parte, ao sair, entrava no quarto e ajoelhava, rezando, junto do cadaver.

Laura chegou com o filho, proximo ao meio dia. Claudio abraçou-os, soluçando n'uma crise de lagrimas.

—Vae vel-a, disse para a mulher.

Na confusão do seu espirito perpassou a esperança d'um milagre. A mãe havia de converter a esposa; dos tristes despojos d'aquella que fôra uma santa emanaria, a transformar a alma ingrata, a humildade e o amor.

Todo o dia se passou recebendo as visitas da gente de Albergaria que correu a Villalva. O enterro foi á tarde. Quando chegou a noite, voltou a paz. Tudo parecia dormir.

No dia seguinte Claudio regressou a Coimbra. Tinha pressa de restituir a mulher á sua casa e ás suas commodidades. Sabia que ella não podia estar contente ali, servida por creados rusticos, e a sua presença perturbava-o.

Porquê? Não o sabia ao certo. A confusão do seu espirito era completa, tudo o que conscientemente sentia era uma fadiga extrema. Voltava a Coimbra, lá pensaria o que tinha a fazer. Entregou a casa á irmã e partiu.

Em Coimbra, sentiu-se ainda peior. Desde que lá tinha chegado, succediam-se sem interrupção as visitas de gente fina que vinha trazer-lhe consolações banaes, em palavras que no correr do dia ouvia innumeras vezes.

Breve voltou a Villalva. A Laura disse que precisava tratar de partilhas e regular os seus negocios, mas a verdade é que queria estar só com as suas saudades, as suas máguas e os seus degostos. Queria concentrar-se na meditação, tentar descobrir e vêr claro o estado da sua alma. Contrariedades, esperanças, desillusões e uma infinita saudade batiam-n'o sem cessar como o lebreiro persegue a caça. Fugiria? Resistiria? No seu pensamento ia pelejar-se mais uma temerosa batalha.