Triste Fim de Policarpo Quaresma

Lima Barreto · Capítulo 3 de 5 · parte 2/3

Páginas do PDF

Triste Fim de Policarpo Quaresma

Primeira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

—Não, disseram os dous.

—É divertido. Arranjem dez crianças, uma mascara de velho, uma roupa estrambolica para um dos Srs. que eu ensaio.

O dia chegou. A casa do General estava cheia. Cavalcanti viera; e elle e a noiva, á parte, no vão de uma janella, pareciam ser os unicos que não tinham interesse pela folia. Elle, falando muito, cheio de trejeitos no olhar; ella, meio fria, deitando de quando em quando, para o noivo, um olhar de gratidão.

Quaresma, foz o Tangolomango, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do General, pôz uma immensa mascara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de baculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram em côro:

Uma mãe teve dez filhos
Todos os dez dentro de um pote:
Deu o Tangolomango nelle
Não ficaram senão nove.

Por ahi, o major avançava, batia com o baculo no assoalho, fazia: hu! hu! hu! as crianças fugiam, afinal elle agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando, pela quinta estrophe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista, escura e cahiu. Tiraram-lhe a mascara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.

O accidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo folk-lore. Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção lhe veiu ao fim de algumas semanas de estudo.

Quasi todas as tradições e canções eram estrangeiras; o proprio Tangolomango o era tambem. Tornava-se, portanto, precizo arranjar alguma cousa propria, original, uma creação da nossa terra e dos nossos ares.

Essa idéa levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéa traz outra, logo ampliou o seu proposito e eis a razão porque estava organizando um codigo de relações, de cumprimentos, de cerimonias domesticas e festas, calcado nos preceitos tupys.

Desde dez dias que se entregava a essa ardua tarefa, quando (era domingo) lhe bateram á porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabellos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastacio tambem, e o compadre e a filha, pois eram elles, ficaram estupefactos no limiar da porta.

—Mas que é isso, compadre?

—Que é isso, Polycarpo?

—Mas, meu padrinho...

Elle ainda chorou um pouco. Enxugou as lagrimas e, depois, explicou com a maior naturalidade:

—Eis ahi! Vocês não têm a minima noção das cousas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.

O seu compadre Vicente, a filha e D. Adelaide entreolharam-se, sem saber o que dizer. O homem estaria doido? Que extravagancia!

—Mas, Sr. Polycarpo, disse-lhe o compadre, é possivel que isto seja muito brasileiro, mas é bem triste, compadre.

—De certo, padrinho, accrescentou a moça com vivacidade; parece até agouro...

Este seu compadre era italiano de nascimento. A historia das suas relações vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fôra fornecedor da casa de Quaresma ha vinte e tantos annos. O Major já tinha as suas idéas patrioticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de vel-o suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de europeu recem-chegado. Mas um bello dia, ia Quaresma pelo largo do Paço, muito distrahido, a pensar nas maravilhas architectonicas do chafariz do mestre Valentim, quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquella simplicidade d'alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma preoccupação séria. Não só de onde em onde, soltava exclamações sem ligação com a conversa actual, como tambem, cerrava os labios, rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu collega, estando disposto a matal-o, pois perdera o credito e em breve estaria na miseria. Havia na sua affirmação uma tal energia e um grande e extranho accento de ferocidade, que fizeram empregar o Major toda a sua doçura e persuasão para dissuadil-o do proposito. E não ficou nisto só: emprestou-lhe tambem dinheiro. Vicente Coleoni poz uma quitanda, ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, veiu a ter aquella filha, que foi levada á pia pelo seu bemfeitor. Inutil é dizer que Quaresma não notou a contradicção entre as suas idéas patrioticas e o seu acto.

É verdade que elle não as tinha ainda muito firmes, mas já fluctuavam na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciencia como tenues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais de vinte annos, veleidades que não tardariam tomar consistencia, e só esperavam os annos para desabrochar em actos.

Fora, pois, ao seu compadre Vicente e á sua afilhada Olga que elle recebera com o mais legitimo ceremonial guaytacaz, e, se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não tel-o. Estava até á mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.

—Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre elle os seus olhos muito luminosos.

Havia entre os dous uma grande affeição. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no economico nas demonstrações affectuosas. Adivinhava-se, entretanto, que a moça occupava-lhe no coração o logar dos filhos que não tivera nem teria jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, não escondia a sua affeição tanto mais que sentia confusamente nelle alguma cousa da superior, uma ancia de idéal, uma tenacidade em seguir um sonho, uma idéa, um vôo emfim para as altas regiões do espirito que ella não estava habituada a ver em ninguem do mundo que frequentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a commum ás moças de seu nascimento. Vinha de um pendôr proprio, talvez das proximidades européas do seu nascimento, que a fizeram um pouco differente das nossas moças.

Fora com um olhar luminoso e prescrutador que ella perguntara ao padrinho.

—Então padrinho, lê-se muito?

—Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo.

Vicente fôra com D. Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta segurança, elle que antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar—que diabo! Não, não era possivel... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos—uma alegria de mathematico que resolveu um problema, de inventor feliz!

—Não se vá metter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.

—Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso violencias...

Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. O Major fez as apresentações.

—Já o conhecia de nome, Sr. Ricardo, disse Olga.

Coração dos Outros encheu-se de um alviçareiro contentamento. A sua physionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a sua cutis que era reseccada e de um tom de velho marmore, como que ficou macia e joven. Aquella moça parecia rica, era fina e bonita, conhecia-o—que satisfação! Elle que era sempre um tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que condição fossem, animava-se, soltava a lingua, amaciava a voz e ficava numeroso e eloquente.

—Leu então os meus versos, não é, minha senhora?

—Não tive esse prazer, mas li, ha mezes, uma apreciação sobre um trabalho seu.

—No «Tempo», não foi?

—Foi.

—Muito injusta! accrescentou Ricardo. Todos os criticos se atêm a essa questão de metrificação. Dizem que os meus versos não são versos... São, sim; mas são versos para violão. V. Ex. sabe que os versos para musica têm alguma cousa de differente dos communs, não é? Não ha, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam outra metrica e outro systema, não acha?

—De certo, disse a moça. Mas parece-me que o Sr. faz versos para a musica e não musica para os versos.

E ella sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso, emquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os seus olhinhos vivos e meudos de camondongo.

Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:

—O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o violão.

—Eu sei, padrinho. Eu sei...

—Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a serio essas tentativas nacionaes mas, na Europa, todos respeitam e auxiliam... Como é que se chama, major, aquelle poeta que escreveu em francez popular?

—Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francez popular; é o provençal, uma verdadeira lingua.

—Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, respeitado? Eu, no tocante ao violão, estou fazendo o mesmo.

Olhou triumphante para um e outro circumstante: e Olga dirigindo-se a elle, disse:

—Continue na tentativa, Sr. Ricardo, que é digno de louvor.

—Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um bello instrumento e tem grandes difficuldades. Por exemplo...

—Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Ha outros mais difficeis.

—O piano? perguntou Ricardo.

—Que piano! O maracá, a inubia.

—Não conheço.

—Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionaes possiveis, os unicos que o são verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados, daquella gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta linda terra. Os caboclos!

—Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.

—De caboclo! Que é que tem? O Lery diz que são muito sonoros e agradaveis de ouvir... Se é por ser de caboclo, o violão tambem não vale nada—é um instrumento do capadocio.

—De capadocio, major! Não diga isso...

E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpreza, espantada, sem atinar, som explicação para aquella inopinada transformação de genio do seu padrinho, até ali tão socegado e tão calmo.




III

A NOTICIA DO GENELICIO

—Então quando se casa, D. Ismenia?

—Em Março. Cavalcanti já está formado e...

Afinal a filha do General pôde responder com segurança á pergunta que se lhe vinha fazendo ha quasi cinco annos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para dahi a tres mezes. A alegria foi grande na familia; e, como em tal caso, uma alegria não podia passar sem um baile, uma festa foi annunciada para o sabbado que se seguia ao pedido da pragmatica.

As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente. Parecia que ella lhes ia deixar o caminho desembaraçada, e fôra a irmã quem até ali tinha impedido que se casassem.

Noiva havia quasi cinco annos, Ismenia já se sentia meio casada. Esse sentimento junto á sua natureza pobre fel-a não sentir um pouco mais de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ella, pão era negocio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéa, uma pura idéa. Aquella sua intelligencia rudimentar tinha separado da idéa de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: «Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar»... Ou senão: «Você preciza aprender a pregar botões, porque quando você se casar...»

A todo instante e a toda hora, lá vinha aquelle—«porque, quando você se casar...»—e a menina foi se convencendo de que toda a existencia só tendia para o casamento. A instrucção, as satisfações intimas, a alegria, tudo isso era inutil; a vida se resumia numa cousa: casar.

De resto, não era só dentro do sua familia que ella encontrava aquella preoccupação. No collegio, na rua, em casa das familias conhecidas, só se falava em casar. «Sabe, D. Maricota, a Lili casou-se; não fez grande negocio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa»; ou então: «A Zezé está doida para arranjar casamento mas é tão feia, meu Deus!...»

A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéas, o nosso proprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para aquelle cerebrozimho; e, de tal forma casar-se se lhe representou cousa importante, uma especie de dever, que não se casar, ficar solteira, tia, parecia-lhe um crime, uma vergonha.

De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afecto, na sua intelligencia a idéa de casar-se incrustou-se teimosamente como uma obsessão.

Ella não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho mal feito, mas galante, não muito baixa nem muito magra e a sua apparencia de bondade passiva, de indolencia de corpo, de idéas e de sentidos era até um bom typo das meninas a que os namorados chamam—bonitinhas. O seu traço de belleza dominante, porém, eram os seus cabellos: uns bastos cabellos castanhos, com tons de ouro, sedosos até ao olhar.

Aos dezenove annos arranjou namoro com o Cavalcanti, e á fraqueza de sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou.

O pai fez má cara. Elle andava sempre ao par dos namoros das filhas: «Diga-me sempre, Maricota—dizia elle—quem são. Olho vivo!...» É melhor prevenir que curar... Póde ser um valdevinos e...» Sabendo que o pretendente á Ismenia era um dentista, não gostou muito. Que é um dentista? perguntava elle de si para si. Um cidadão semi-formado, uma especie de barbeiro. Preferia um official, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e elle accedeu.

Começou então Cavalcanti a frequentar a casa na qualidade de noivo paisano isto é, que não pediu, não é ainda official.

No fim do primeiro anno, tendo noticia das difficuldades com que o futuro genro lutava para acabar os estudos, o General foi generosamente em seu soccorro. Pagou-lhe taxas de matriculas, livros e outras cousas. Não era raro que após uma longa conversa com a filha, D. Maricota viesse ao marido e dissesse: «Chico, arranja-me vinte mil réis que o Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia».

O General era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretenção marcial, não havia no seu caracter a minima falha. Demais, aquella necessidade de casar as filhas ainda o faziam melhor quando se tratava dos interesses dellas.

Elle ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para evitar despezas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo o dia; e assim o namoro foi correndo até ali.

Enfim—dizia Albernaz á mulher, na noite do pedido, quando já recolhidos—a cousa vai acabar. Felizmente, respondia-lhe D. Maricota, vamos descontar esta lettra.

A satisfação resignada do General era porém, falsa; ao contrario: elle estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro momento azado, lá dizia elle:

—É um inferno, esta vida! imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho que casar uma filha!

Ao que Castro interrogava:

—Qual dellas?

—A Ismenia, a segunda, respondia Albernaz e logo accrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos.

—Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malicia, aprendi a receita. Porque não fizeste o mesmo?

Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazens, ás lojas de louça, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa, porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundancia e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento.

Na manhã do dia da festa commemorativa do pedido, D. Maricota amanheceu cantando. Era raro que o fizesse: mas nos dias de grande alegria, ella cantarolava uma velha aria, uma cousa do seu tempo de moça e as filhas que sentiam nisto signal certo de alegria corriam a ella, pedindo-lhe isto ou aquillo.

Muito activa, muito diligente, não havia dona de casa mais economica, mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. Logo que despertou, pôz tudo em actividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota fôram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos quartos, emquanto ella e Ismenia iam arrumar a mesa, dispol-a com muito gosto e esplendor. O movel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria de D. Maricota era grande; ella não comprehendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e deshonroso para a familia. A sua satisfação não vinha do simples facto de ter descontado uma letra, como ella dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de familia.

Ella arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indifferente.

—Mas, minha filha, dizia ella, até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece ahi uma mosca morta.

—Mamãe, que quer que eu faça?

—Não é bonito rir-se muito, andar ahi como uma serigaita, mas tambem assim como você está! Eu nunca vi noiva assim.

Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tomava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em cahir naquelle doentia lassidão que lhe era propria.

Veiu muita gente. Além das moças e as respeitaveis mães, acudiram ao convite do General, o Contra-Almirante Caldas, o Dr. Florencio, engenheiro das Aguas, o Major honorario Innocencio Bustamante, o Sr. Bastos, guarda-livros, ainda parente de D. Maricota, e outras pessoas importantes. Ricardo não fôra convidado porque o General temia a opinião publica sobre a presença delle em festa seria; Quaresma o fôra, mas não viéra; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.

Ás seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismenia, cumprimentado-a, não sem um pouco de inveja no olhar.

Irene, uma alourada e alta, aconselhava:

—Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.

Tratava-se do enxoval. Todas ellas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam ao par.

A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:

—Eu, hontem, vi na rua da Constituição um dormitorio de casal, muito bonito, você porque não vai ver, Ismenia? Parece barato.

A Ismenia era a menos enthusiasmada, quasi não respondia ás perguntas; e, se as respondia, ora por monosyllabos. Houve um momento em que sorriu quasi com alegria e abandono. Estephania, a doutora, a normalista, que tinha nos dedos um annel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidencia. Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quizesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e disse alto:

—Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...

Ella alludia á resposta que, á sua confidencia, Ismenia tinha dado com parcimonia: qual o que!

Todas ellas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solenne, dentro de um grande fraque preto.

—Então, Dr. acabou, heim? dizia este a geito de um cumprimento.

—É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os embargos—fui de um heroismo!...

—Conhece o Chavantes? perguntava um outro.

—Conheço. Um chronico, um pandego...

—Foi seu collega?

—Foi, isto é, elle é do curso de medicina. Matriculamo-nos no mesmo anno.

Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de attender a este e já era obrigado a ouvir a observação de outro.

—É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a cabeça no Dever e Haver. Hoje, torço a orelha e não sai sangue.

—Actualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente Cavalcanti. Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cumulo! Um curso difficil e caro, que exige cadaveres, apparelhos, bons professores, como é que particulares poderão mantel-o? Se o Governo mantem mal...

—Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabens. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando!

—Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.

—Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.

—Boa carreira.

Nos intervallos da conversa, todos elles olhavam o novel dentista como se fosse um ente sobrenatural.

Para aquella gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era homem e mais alguma cousa sagrada e de essencia superior; e não juntavam á imagem que tinham delle actualmente, as cousas que porventura elle pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava nella de modo algum; e aquelle typo, para alguns, continuava a ser vulgar, commum, na apparencia, mas a sua substancia tinha mudado, era outra differente da delles e fora ungido de não sei que cousa vagamente fóra da natureza terrestre, quasi divina.

Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os menos importantes. O General ficara na sala de jantar, fumando, cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com elle o Contra-Almirante Caldas, o Major Innocencio, o Dr. Florencio e o Capitão de Bombeiros Segismundo.

Innocencio aproveitou a occasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assumpto de legislação militar. O Contra-Almirante era interessantissimo. Na marinha, por pouco que não fazia pendant com Albernaz no Exercito. Nunca embarcara a não ser na guerra do Paraguay, mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era delle. Logo que se viu 1° Tenente, Caldas foi aos poucos se mettendo comsigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem amigos nos altos logares, se esqueciam delle e não lhe davam commissões de embarque. É curiosa essa cousa das administrações militares: as commissões são merecimento, mas só se as dá aos protegidos.

Certa vez, quando era já Capitão Tenente, deram-lhe um embarque em Matto Grosso. Nomearam-no para commandar o couraçado «Lima Barros». Elle lá foi, mas, quando se apresentou ao commandante da flotilha, teve noticia que não existia no rio Paraguay semelhante navio. Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal «Lima Barros» fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguay. Consultou o commandante.

—Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia immediatamente para a flotilha do Rio Grande.

Eil-o a fazer malas para o Alto-Uruguay, onde chegou emfim, depois de uma penosa e fatigante viagem. Mas ahi tambem não estava o tal «Lima Barros». Onde estaria então? Quiz telegraphar para o Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado, tanto mais, que não andava em cheiro de santidade. Esteve assim um mez em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Um dia lhe veiu a idéa de que o navio bem poderia estar no Amazonas. Embarcou na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se ás altas autoridades da Marinha. Foi preso e submettido a conselho.

O «Lima Barros» tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguay.

Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generaes. Todos o tinham na conta de parvo, de um commandante de opereta que andava á cata do seu navio pelos quatro pontos cardeaes. Deixaram-n'o encostado, como se diz na gyria militar, e elle levou quasi quarenta annos para chegar de Guarda-Marinha a Capitão de Fragata. Reformado no posto immediato, com graduação do seguinte, todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referissem a promoções de officiaes. Comprava repertorios de legislação, armazenava collecções de leis, relatorios, e encheu a casa de toda essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, pedindo a modificação da sua reforma, choviam sobre os ministros da Marinha. Corriam mezes o infinito rosario de repartições e eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar. Ultimamente constituira advogado junto á justiça federal e lá andava elle de cartorio em cartorio, acotovelando-se com meirinhos, escrivães, juizes e advogados—esse poviléo rebarbativo do fôro que parece ter contrahido todas as miserias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos.

Innocencio Bustamante tambem tinha a mesma mania demandista. Era renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo voluntario da patria, possuindo honras de Major, não havia dia em que não fosse ao quartel general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia inclusão no Asylo dos Invalidos, noutro honras de Tenente-Coronel, noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver o dos outros.

Não se prezou mesmo de tratar do pedido de um maniaco que, por ser tenente honorario e tambem da Guarda Nacional, requereu lhe fosse passada a patente de major, visto que dous galões mais outros dous fazem quatro—o que quer dizer: Major.

Conhecedor dos estudos meticulosos do Almirante, Bustamante fez a sua consulta.

—Assim de prompto, não sei. Não é a minha especialidade o Exercito, mas vou ver. Isto tambem anda tão atrapalhado!

Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos que lhe davam um ar de commodoro ou de chacareiro portuguez, pois era forte nelle o typo luzitano.

—Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!

—Não ha mais gente que preste, disse Bustamante.

Segismundo por ahi aventurou tambem a sua opinião dizendo:

—Eu não sou militar, mas...

—Como não é militar? fez Albernaz com impeto. Os Srs. é que são os verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas?

—De certo, de certo, fez o Almirante cofiando os favoritos.

—Como ia dizendo, continuou Segismundo, apezar de não ser militar, eu me animo, a dizer que a nossa força está muito por baixo. Onde está um Porto Alegre, um Caxias?

—Não ha mais, meu caro, confirmou com voz tenue o Dr. Florencio.

—Não sei porque, pois tudo hoje não vai pela sciencia?

Fôra Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo calor:

—Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de xx e yy, em Curupaity, hein Caldas? hein Innocencio?

O Dr. Florencio era o unico paisano da roda. Engenheiro e empregado publico, os annos e o socego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sahir da escola. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de Albernaz, era raro que não viesse roda a tarde jogar o sólo com o General. O Dr. Florencio perguntou:

—O Sr. assistiu, não foi, General?

O General não se deteve, não, se atrapalhou, não gaguejou e disse com a maxima naturalidade:

—Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vesperas. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão, o Venancio...

Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janella da sala onde estavam, não se via nem um monte. O horizonte estava circumscripto aos fundos dos quintaes das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas lembrava tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já tinha desapparecido do horizonte e as tenues luzes dos bicos de gaz e dos lampeões familiares começavam a accender-se por detraz das vidraças.

Bustamante quebrou o silencio:

—Este paiz pão vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento, pedindo honras de Tenente Coronel, está no ministerio ha seis mezes!

—Uma desordem, exclamaram todos.

Era noite. D. Maricota chegou até onde elles estavam, muito activa, muito diligente e com o rosto aberto de alegria.

—Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao Chico, sim?

Albernaz sahiu fóra da róda dos amigos e foi até a um canto da sala, onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. Ouviu a mulher, depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto, nestes termos:

—Se não dançam é porque não querem. Estou pegando algum?

D. Maricota approximou-se dos amigos do marido e explicou:

—Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguem tira par, ninguem, tóca. Estão lá tantas moças, tantos rapazes, é uma pena!

—Bem; eu vou lá, disse Albernaz.

Deixou os amigos e foi á sala de visitas dar começo ao baile.

—Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!

E elle mesmo em pessoa ia juntando os pares: «Não General, já tenho par, dizia uma moça. Não faz mal, retrucava elle, danse com o Raymundinho; o outro espera». Depois de ter dado inicio ao baile, veio para a roda dos amigos, suado, mas contente.

—Isto de familia! Qual! A gente até parece bôbo, dizia. Você é que fez bem, Caldas; não se quiz casar!

—Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?

—Vamos jogar o sólo, convidou Albernaz.

—Somos cinco, como ha de ser? observou Florencio.

—Não, eu não jogo, disse Bustamante.

—Então jogamos os quatro de garancho? lembrou Albernaz.

As cartas vieram e tambem uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Florencio dar. Começaram, Albernaz tinha um ar attento quando jogava: a cabeça lhe cahia sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um Lord Almirante numa partida de «whist». Segismundo jogava com todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para fugir á fumaça. Bustamante fôra á sala ver as dansas.

Tinham começado a partida, quando dona Quinota, uma das filhas do General, atravessou a sala e foi beber agua. Caldas, coçando um dos favoritos, perguntou á moça:

—Então, D. Quinota, que dê o Genelicio?

A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muchocho e respondeu com falso máu humor:

—Ué! Sei lá! Ando atrás delle?

—Não precisa zangar-se, D. Quinota; é uma simples pergunta, advertiu Caldas.

O General que examinava attentamente as cartas recebidas, interrompeu a conversa com voz grave:

—Eu passo.

D. Quinota retirou-se. Este Genelicio ora o seu namorado. Parente ainda de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na familia. A sua candidatura era favorecida por todos. D. Maricota e o marido enchiam-n'o de festas. Empregado do Thesouro, já no meio da carreira, moço de menos de trinta annos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguem mais bajulador e submisso do que elle. Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. Quando sahia, remancheava, lavava tres ou quatro vezes as mãos, até poder apanhar o director na porta. Acompanhava-o, conversava com elle sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava este ou aquelle collega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava um ministro, fazia-se escolher como interprete dos companheiros e deitava um discurso; nos anniversarios de nascimento, era um soneto que começava sempre por—salve—e acabava tambem por—Salve! Tres vezes Salve!

O modelo era sempre o mesmo; elle só mudava o nome do ministro e punha a data.

No dia seguinte, os jornaes falavam do seu nome, e publicavam o soneto.

Em quatro annos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima.

Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente genio. Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros processos. Um dos que se servia, eram as publicações nas folhas diarias. No intuito de annunciar nos ministros e directores que tinha uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornaes longos artigos sobre contabilidade publica. Eram meras compilações de bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de autores francezes ou portuguezes.

Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande conta o seu saber e elle vivia na secção cercado do respeito de um genio, um genio do papelorio e das informações. Accresce que Genelicio juntava á sua segura posição administrativa, um curso de direito a acabar; e tantos titulos juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente ás preoccupações casamenteiras do casal Albernaz.

Fóra da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre physico fazia comico, mas que a convicção do alto auxilio que prestava ao Estado, mantinha e sustentava. Um empregado modelo!...

O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das mãos fazia-se um breve commentario ou outro, e no começo ouviam-se unicamente as falas sacramentaes do jogo; sólo, bólo, melhoro, passo. Feitas ellas jogava-se em silencio; da sala, porém, vinha o ruido festivo das dansas e das conversas.

—Olhem quem está ahi!

—O Genelicio, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?

Deixou o chapéo e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez azulado, todo elle trahia a profissão, os seus gostos e habitos. Era um escripturario.

—Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negocios.

—Vão bem? perguntou Florencio.

—Quasi garantido. O Ministro prometteu... Não ha nada, estou bem cunhado!

—Estimo muito, disse o General.

—Obrigado. Sabe de uma cousa, General?

—O que é?

—O Quaresma está doido.

—Mas... o que? quem foi que te disse?

—Aquelle homem do violão. Já está na casa de saude...

—Eu logo vi, disse Albernaz, aquelle requerimento era de doido.

—Mas não é só, General, accrescentou Genelicio, Fez um officio em tupy e mandou ao ministro.

—É o que eu dizia, fez Albernaz.

—Quem é? perguntou Florencio.

—Aquelle vizinho, empregado do Arsenal, não conhece?

—Um baixo, de pince-nez?

—Este mesmo, confirmou Caldas?

—Nem se podia esperar outra cousa, disse o Dr. Florencio. Aquelles livros, aquella mania de leitura...

—P'ra que elle lia tanto? indagou Caldas.

—Telha de menos, disse Florencio.

Genelicio atalhou com autoridade:

—Elle não era formado, para que metter-se em livros?

—É verdade, fez Florencio.

—Isto de livros é bom para os sabios, para os doutores, observou Segismundo.

—Devia até ser prohibido, disse Genelicio, a quem não possuisse um titulo academico ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?

—De certo, disse Albernaz.

—De certo, fez Caldas.

—De certo, disse tambem Segismundo.

Calaram-se um instante, e as attenções convergiram para o jogo.

—Já sahiram todos os trunfos?

—Contasse, meu amigo.

Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silencio. Cavalcanti ia recitar. Atravessou a sala triumphantemente, com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano, Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz metallica, apurando muito os finaes em s, começou:

A vida é uma comedia sem sentido
Uma historia de sangue e de poeira
Um deserto sem luz...

E o piano gemia.




IV

DESASTROSAS CONSEQUENCIAS
DE UM REQUERIMENTO

Os acontecimentos a que alludiam os graves personagens reunidos em tomo da mesa de sólo, na tarde memoravel da festa commemorativa do pedido de casamento de Ismenia, se tinham desenrolado com rapidez fulminante. A força de idéas e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado em actos imprevistos com uma sequencia brusca e uma velocidade de turbilhão. O primeiro facto surprehendeu, mas vieram outros e outros, de forma que o que pareceu no começo uma extravagancia, uma pequena mania, se apresentou logo em insania declarada.

Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a sessão da Camara, o Secretario teve que proceder á leitura de um requerimento singular e que veiu a ter uma fortuna de publicidade e commentario pouco usual em documentos de tal natureza.

O borborinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensavel ao elevado trabalho de legislar, não permittiram que os deputados o ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam proximo á mesa, ao ouvil-o, proromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes á magestade do logar. O riso é contagioso. O Secretario, no meio da leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o Presidente, ria se o official da acta, ria-se o continuo—toda a mesa e aquella população que a cerca, riram-se da petição, largamente, querendo sempre conter o riso, havendo em alguns tão franca alegria que as lagrimas vieram.

Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço, de trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa tristeza, ouvindo aquelle rir inoffensivo diante della. Merecia raiva, odio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava á mesa da Camara, mas não aquelle recebimento hilarico, de uma hilaridade innocente, sem fundo algum, assim como se estivesse a rir de uma palhaçada, de uma sorte de circo de cavallinhos ou de uma careta de clown.

Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nelle um motivo para riso franco e sem maldade. A sessão daquelle dia fôra fria; e, por ser assim, as secções dos jornaes referentes á Camara, no dia seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons.

Era assim concebida a petição:

«Polycarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funccionario publico, certo de que a lingua portugueza é emprestada ao Brasil; certo tambem de que, por esse facto, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das lettras, se vêm na humilhante contigencia de soffrer continuamente censuras asperas dos proprietarios da lingua; sabendo, além, que, dentro do nosso paiz, os autores os escriptores, com especialidade os grammaticos, não se entendem no tocante á correcção grammatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polemicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma—usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupy-guarany, como lingua official e nacional do povo brasileiro.

O supplicante, deixando de parte os armamentos historicos que militam em favor de sua idéa, pede venia para lembrar que a lingua é o mais alta manifestação da intelligencia de um povo, é a sua creação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do paiz requer como complemento e consequencia a sua emancipação idiomatica.

Demais, Srs. Congressistas, o tupy-guarany, lingua originalissima, agglutinante, é verdade, mas que o polysynthetismo dá multiplas feições de riqueza, é a unica capaz de traduzir as nossas bellezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos orgãos vocaes e cerebraes, por ser creação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização physiologica e psychologica para que tendemos, evitando-se dessa fórma as estereis controversias grammaticaes, oriundas de uma difficil adaptação de uma lingua de outra região á nossa organização cerebral e ao nosso apparelho vocal—controversias que tanto impecem o progresso da nossa cultura literaria, scientifica e philosophica.

Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida e conscio de que a Camara e o Senado pezarão o seu alcance e utilidade P. e E. deferimento».

Assignado e devidamente estampilhado, este requerimento do Major foi durante dias assumpto de todas as palestras. Publicado em todos os jornaes, com commentarios facetos, não havia quem não fizesse uma pilheria sobre elle, quem não ensaiasse um espirito á custa da lembrança de Quaresma. Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quiz mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era solteiro. Uma illustração semanal publicou-lhe a caricatura e o Major foi apontado na rua.

Os pequenos jornaes alegres, esses semanarios de espirito e troça, então! eram «de um encarniçamento atroz com o pobre Major. Como uma abundancia que marcava a felicidade dos redactores em terem encontrado um assumpto facil, o texto vinha cheio delle: o Major Quaresma disse isso; o Major Quaresma fez aquillo.

Um delles, além de outras referencias, occupou uma pagina inteira com o assumpto da semana. Intitulava-se a illustração: «O matadouro de Santa Cruz, segundo o Major Quaresma», e o desenho representava uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via á esquerda. Um outro referia-se ao caso pintando um açougue, «O açougue Quaresma»; legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro:

—O Sr. tem lingua de vacca? O açougueiro respondia: Não, só temos lingua de moça, quer?

Com mais, ou menos espirito, os commentarios não cessavam e a ausencia de relações de Quaresma no meio de que sahiam, fazia com que fossem de uma constancia pouco habitual. Levaram duas semanas com o nome do sub-secretario.

Tudo isto irritava profundamente Quaresma. Vivendo ha trinta annos quasi só, sem se chocar com o mundo, adquirira urna sensibilidade muito viva e capaz de soffrer profundamente com a menor cousa. Nunca soffrera criticas, nunca se atirou, á publicidade, vivia immerso no seu sonho, incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fóra delles, elle não conhecia ninguem; e, com as pessoas com quem falava, trocava pequenas banalidades, ditos de todo o dia, cousas com que a sua alma e o seu coração nada tinham que ver.

Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que a todos.

Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de extranho a tudo, ás competições, ás ambições, pois nada dessas cousas que fazem os odios e as lutas tinha entrado no seu temperamento.

Desinteressado de dinheiro, de gloria e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a candura e a pureza d'alma que vão habitar esses homens de uma idéa fixa, os grandes estudiosos, os sabios, e os inventores, gente que fica mais terna, mais ingenua, mais innocence que as donzellas das poesias de outras épocas.

É raro encontrar homens assim, mas os ha e, quando se os encontra, mesmo tocados de um grão de loucura, a gente sente mais sympathia pela nossa especie, orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da raça.

A continuidade das troças feitas nos jornaes, a maneira com que o olhavam na rua, exasperavam-no e mais forte se enraizava nelle a sua idéa. Á medida que engulia uma troça, uma pilheria, vinha-lhe meditar sobre a sua lembrança, pezar-lhe todos os aspectos, examinal-a detidamente, comparal-a a cousas semelhantes, recordar os autores e autoridades; e, á proporção que fazia isso, a sua propria convicção mostrava a inanidade da critica, a ligeireza da pilheria, e a idéa o tomava, o avassalava, o absorvia cada vez mais.

Se os jornaes tinham recebido o requerimento com facecias de fundo inofensivo e sem odio, a repartição ficou furiosa. Nos meios burocraticos, uma superioridade que nasce fora delles, que é feita e organizada com outros materiaes que não os officios, a sabença de textos de regulamentos e a boa calligrafia, é recebida com a hostilidade de uma pequena inveja.

É como se visse no portador da superioridade um traidor á mediocridade, ao anonimato papeleiro. Não ha só uma questão de promoção, de interesse pecuniario; ha uma questão de amor proprio, de sentimentos feridos, vendo aquelle collega, aquelle galé como elles, sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, ás olhadelas superiores dos ministros, com mais titulos á consideração, com algum direito a infringir as regras e os preceitos.

Continuar: parte 3 de 3