Triste Fim de Policarpo Quaresma

Lima Barreto · Capítulo 3 de 5 · parte 3/3

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Triste Fim de Policarpo Quaresma

Primeira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Olha-se para elle com o odio dissimulado com que assassino plebeu olha para o assassino marquez que matou a mulher e o amante. Ambos são assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o nobre e o burguez trazem o ar do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o seu humilde collega de desgraça.

Assim, quando surge numa secretaria alguem cujo nome não lembra sempre o titulo de sua nomeação, apparecem as pequeninas perfidias, as maledicencias ditas ao ouvido, as indirectas, todo o arsenal do ciume invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor do que ella.

Amam-se ou antes supportam-se melhor aquelles que se fazem celebres nas informações, na redacção, na assiduidade ao trabalho, mesmo os doutores, os bachareis, do que os que têm nomeada e fama. Em geral, a incomprehensão da obra ou do merito do collega é total e nenhum delles se póde capacitar que aquelle typo, aquelle amanuense, como elles, faça qualquer cousa que interesse 06 extranhos e dê que falar a uma cidade inteira.

A brusca popularidade de Quaresma, o seu successo e nomeada ephemera irritaram os seus collegas e superiores. Já se viu! dizia o Secretario. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa! Pretencioso! O director, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não cogitasse do caso para lhe infringir uma censura. O collega archivista era o menos terrivel, mas chamou-o logo de doido.

O Major sentia bem aquelle ambiente falso, aquellas allusões e isso mais augmentava o seu desespero e a teimosia na sua idéa. Não comprehendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades, essa má vontade geral; era uma cousa innocente, uma lembrança patriotica que merecia e devia ter o assentimento de todo o mundo; e meditava, voltava á idéa, e a examinava com mais attenção.

A extensa publicidade, que o facto tomou, attingiu o palacete de Real Grandeza, onde morava o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros das empreitadas de construcções de predios, viuvo, o antigo quitandeiro retirara-se dos negocios e vivia socegado na ampla casa que elle mesmo edificara e tinha todos os seus remates architectonicos do seu gosto predilecto: compoteiras na cimalha, um immenso monogramma sobre a porta da entrada, dous cães de louça, nos pilares do portão da entrada e outros detalhes equivalentes.

A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto, tinha um razoavel jardim na frente, que avançava pelos lados, pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro, onde pelo calor os passaros morriam tristemente. Era uma installação burgueza, no gosto nacional, vistosa, cara, pouco de accordo com o clima e sem conforto.

No interior o capricho dominava, tudo obedecia a a uma fantasia baroca, a um ecletismo desesperador. Os moveis se amontoavam, os tapetes, as sanefas, os bibelots e, a fantasia da filha, irregular e indisciplinada, ainda trazia mais desordem áquella collecção de cousas caras.

Viuvo, havia já alguns annos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa e a filha, quem o encaminhava nas distracções e nas festas. Coleoni aceitava de bom coração esta doce tyrannia. Queria casar a filha, bem e ao gosto della, não punha, portanto nenhum obstaculo ao programma de Olga.

Em começo, pensou em dal-a a seu ajudante ou contra-mestre, uma especie de architecto que não desenhava, mas projectava casas e grandes edificios. Primeiro sondou a filha. Não encontrou resistencia, mas não encontrou tambem assentimento. Convenceu-se de que aquella vaporosidade da menina, aquelle seu ar distante de heroina, a sua intelligencia, o seu fantastico, não se dariam bem com as rudezas e a simplicidade camponias de seu auxiliar.

Ella quer um doutor—pensava elle—que arranje! Com certeza, não terá ceitil, mas eu tenho e as cousas se accommodam.

Elle se havia habituado a ver no doutor nacional, o marquez ou o barão de sua terra natal. Cada terra tem a sua nobreza; lá, é visconde; aqui, é doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito acceitavel comprar a satisfação de ennobrecer a filha com umas meias duzias de contos de réis.

Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propositos da menina. Gostando de dormir cedo, tinha que perder noites e noites no Lyrico, nos bailes; amando estar sentado em chinellas a fumar cachimbo, era obrigado a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de modas, atraz da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns grampos e um frasco de perfume.

Era engraçado vel-o nas lojas de fazendas cheio de complacencia de pai que quer ennobrecer o filho, a dar opinião sobre o tecido, achar este mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de sentimento daquellas cousas que se adivinhava até no pagal-as. Mas elle ia, demorava-se e esforçava-se por entrar no segredo, no mysterio, cheio de tenacidade e candura perfeitamente paternaes.

Até ahi elle ia bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam bastante, as visitas, as collegas da filha, suas mães, suas irmães, com seus modos de falsa nobreza, os seus desdens dissimulados, deixando perceber ao velho empreiteiro o quanto estava elle distante da sociedade das amigas e das collegas de Olga.

Não se aborrecia, porém, muito profundamente; elle assim o quizera e a fizera, tinha que se conformar. Quasi sempre, quando chegavam taes visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da casa. Entretanto, não lhe era sempre possivel fazer isso; nas grandes festas e recepções tinha que estar presente e era quando mais sentia, o velado pouco caso da alta nobreza da terra que o frequentava. Elle ficara sempre empreiteiro, com poucas idéas além do seu officio, hão sabendo fingir, de modo que não se interessava por aquellas tagarelices de casamentos, de bailes, de festas e passeios caros.

Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e sempre perdia. Chegou mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e muito, mas não foi isso que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos—uma ninharia! A questão, porém, é que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez que Coleoni deu com isso, pareceu-lhe simples distracção do distincto jornalista e do famoso advogado. Um homem honesto não ia fazer aquillo! E na segunda, seria tambem? e na terceira?

Não era possivel tanta distracção. Adquiriu a certeza da trampolinagem, calou-se, conteve-se com uma dignidade não esperada em um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar outra vez e o passe foi posto em pratica, Vicente accendeu o charuto e observou com a maior naturalidade deste mundo:

—Os Srs. sabem que ha agora, na Europa, um novo systema de jogar o poker?

—Qual é? perguntou alguém.

—A differença é pequena: joga-se com seis cartas, isto é, um dos parceiros, sómente.

Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar e a ganhar, despediu-se á meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns commentarios sobre a partida e não voltou mais.

Conforme o seu velho habito, Coleoni lia de manhã os jornaes, com o vagar e a lentidão de homem pouco habituado á leitura, quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal.

Elle não comprehendeu bem o requerimento, mas os jornaes faziam tanta troça, cahiam tão a fundo sobre a cousa, que imaginou o seu antigo bemfeitor enleiado numa meiada criminosa, tendo praticado, por inadvertencia, alguma falta grave.

Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha, mais dahi quem sabe? Na ultima vez que o visitou elle não veiu com aquelles modos extranhos? Podia ser uma pilheria...

Apezar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. Havia nelle não só a gratidão de camponez que recebeu um grande beneficio, como um duplo respeito pelo major, oriundo da sua qualidade de funccionario e de sabio.

Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquelle sagrado respeito dos camponezes pelos homens que recebem a investidura do Estado; e, como, apezar dos bastos annos de Brasil, ainda não sabia juntar saber aos titulos, tinha em grande consideração a erudição do compadre.

Não é, pois, de extranhar que elle visse com magna o nome de Quaresma envolvido em factos que os jornaes reprovavam. Leu de novo o requerimento, mas não entendeu o que elle queria dizer. Chamou a filha.

—Olga!

Elle pronunciava o nome da filha quasi sem sotaque; mas, quando fallava portuguez, punha nas palavras uma rouquidão singular, e salpicava as phrases de exclamações e pequenas expressões italianas.

—Olga, que quer dizer isto? Non capisco...

A moça sentou-se a uma cadeira proxima e leu no jornal, o requerimento e os commentarios.

—Che! Então?

—O padrinho quer substituir o portuguez pela lingua tupy, entende o senhor?

—Como?

—Hoje, nós não falamos portuguez? Pois bem: elle quer que daqui em diante falemos tupy.

—Tutti?

—Todos os brasileiros, todos.

—Ma che cousa! Não é possivel?

—Póde ser. Os tcheques tem uma lingua propria, e foram obrigados a falar allemão, depois de conquistados pelos austriacos; os lorenos, francezes...

—Per la madona! Allemão é lingua, agora esse acugêlê, ecco!

—Acugêlê é da Africa, papai; tupy é daqui.

—Per Baccho! É o mesmo... Está doido!

—Mas não ha loucura alguma, papai.

—Como? Então é cousa de um homem bene?

—De juizo, talvez não seja; mas de doido, tambem não.

—Non capisco.

—É uma idéa, meu pai, é um plano, talvez á primeira vista absurdo, fóra dos moldes, mas não de todo doido. É ousado, talvez, mas...

Por mais que quizesse, ella não podia julgar o acto do padrinho sob o criterio de seu pai. Neste falava o bom senso e nella o amor ás grandes cousas, aos arrojos e commettimentos ousados. Lembrou-se de que Quaresma lhe falara em emancipação; e se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de admiração pelo atrevimento do Major, não foi de certo o de reprovação ou lastima; foi de piedade sympathica por ver mal comprehendido o acto daquelle homem que ella conhecia ha tantos annos, seguindo o seu sonho, isolado, obscuro e tenaz.

—Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni.

E elle tinha razão. A sentença do archivista foi vencedora nas discussões dos corredores e a suspeita de que Quaresma estivesse doido foi tomando fóros do certeza. Em principio, o sub-secretario supportou bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o suppunham insciente no tupy, irritou-se, encheu-se, de uma raiva surda, que se continha difficilmente. Como eram cegos! Elle que ha trinta annos estudava o Brasil minuciosamente; elle que em virtude desses estudos, fôra obrigado a aprender o rebarbativo allemão, não saber tupy, a lingua brasileira, a unica que o era—que suspeita miseravel!

Que o julgassem doido—vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas affirmações, não! E elle pensava, procurava meios de se rehabilitar, cahia em distracções, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo dia, e a outra, na preoccupação de provar que sabia o tupy.

O Secretario veiu a faltar um dia e o Major lhe ficou fazendo as vezes. O expediente fôra grande e elle mesmo redigira e copiara uma parte. Tinha começado a passar a limpo um officio sobre cousas de Mato-Grosso, onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã, quando o Carmo disse lá do fundo da sala, com acccento escarninho:

—Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra.

Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupy que se encontravam na minuta, fosse pela allusão do funccionario Carmo, o certo é que elle insensivelmente foi traduzindo a peça official para o idioma indigena.

Ao acabar, deu com a districção, mas logo vieram outros empregados com o trabalho que fizeram, para que elle examinasse. Novas preoccupações afastaram a primeira, esqueceu-se e o officio em tupy seguiu com os companheiros. O Director não reparou, assignou e o tupinambá foi dar ao ministerio.

Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Que lingua era? Consultou-se o Dr. Rocha, o homem mais habil da secretaria, a respeito do assumpto. O funccionario limpou o pince-nez, agarrou o papel, voltou-o de traz para diante, pôl-o de pernas para o ar e concluiu que era grego, por causa dos yy.

O doutor Rocha tinha na Secretaria a fama de sabio, porque era bacharel em direito e não dizia cousa alguma.

—Mas, indagou o chefe, officialmente as autoridades se podem communicar em linguas estrangeiras? Creio que ha um aviso de 84... Veja, Sr. Dr. Rocha...

Consultaram-se todos os regulamentos e repertorios de legislação, andou-se de meza em meza pedindo auxilio á memoria de cada um e nada se encontrara a respeito. Enfim, o Dr. Rocha, após tres dias de meditação, foi ao chefe e disse com emphase e segurança:

—O aviso de 84 trata de orthographia.

Ü Director olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando as suas qualidades de empregado zeloso, intelligente e... assiduo. Foi informado que a legislação era omissa no tocante á lingua em que deviam ser escriptos os documentos officiaes; entretanto não parecia regular usar uma que não fosse a do paiz.

O Ministro, tendo em vista esta informação e varias outras consultas, devolveu o officio e censurou o Arsenal.

Que manhã foi essa no Arsenal! Os tympanos soavam furiosamente, os continuos andavam numa doubadoura terrivel e a toda a hora perguntavam pelo secretario que tardava em chegar.

Censurado! monologava o Director. Ia-se por agua a baixo o seu generalato. Viver tantos annos a sonhar com aquellas estrellas e ellas se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um escripturario!

Ainda se a situação mudasse... Mas qual!

O Secretario chegou, foi ao gabinete do Director. Inteirado do motivo, examinou o officio e pela lettra conheceu que fora Quaresma quem o escrevera. Mande-o cá, disse o Coronel. O Major encaminhou-se pensando nuns versos tupys que lera de manhã.

—Então o Sr. leva a divertir-se commigo, não é?

—Como? fez Quaresma espantado.

—Quem escreveu isso?

O Major nem quiz examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da distracção e confessou com firmeza:

—Fui eu.

—Então confessa?

—Pois não. Mas V. Ex. não sabe...

—Não sabe! que diz?

O Director levantou-se da cadeira, com os labios brancos e a mão levantada á altura da cabeça. Tinha sido offendido tres vezes: na sua honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de ensino que frequentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro estabelecimento scientifico do mundo. Além disso escrevera no «Prytaneu», a revista da escola, um conto—«A Saudade»—producção muito elogiada pelos collegas. Dessa forma, lendo em todos os exames plenamente e distincção, uma dupla corôa de sabio e artista cingia-lbe a fronte. Tantos titulos valiosos e raros de se encontrarem reunidos mesmo em Descartes ou Shakspeare, transformavam aquelle—não sabe—de um amanuense em offensa profunda, em injuria.

—Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de Benjamin Constant? Sabe o senhor mathematica, astronomia, physica, chimica, sociologia e moral? Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francezinho ahi, póde hombrear-se com quem tirou gráu 9 em Calculo, 10 em Mecanica, 8 em Astronomia, 10 em Hydraulica, 9 em Descriptiva? Então?!

E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava fuzilado.

—Mas, Sr. Coronel...

—Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda ordem.

Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fôra seu proposito duvidar da sabedoria do seu director. Elle não tinha nenhuma pretenção a sabio e pronunciara a phrase para começar a desculpa; mas, quando viu aquella enxurrada de saber, de titulos, a sobrenadar em aguas tão furiosas, perdeu o fio do pensamento, a fala, as idéas e nada mais sôbe nem pôde dizer.

Sahiu abatido, como um criminoso, do gabinete do Coronel, que não deixava de olhal-o furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem foi ferido em todas as fibras do seu ser. Sahiu afinal. Chegando á sala do trabalho nada disse; pegou no chapéo, na bengala e atirou-se pela porta afóra, cambaleando como um bebedo. Deu umas voltas, foi ao livreiro buscar uns livros. Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo Coração dos Outros.

—Cedo, hein Major?

—É verdade.

E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Ricardo avançou algumas palavras:

—O Major, hoje, parece que tem uma idéa, um pensamento muito forte.

—Tenho, filho, não de hoje, mas de ha muito tempo.

—É bom pensar, sonhar consola.

—Consola, talvez; mas faz-nos tambem differentes dos outros, cava abysmos entre os homens...

—E os dous separaram-se. O Major tomou o bonde e Ricardo desceu descuidado a rua do Ouvidor, com o seu passo acanhado e as calças dobradas nas canellas, sobraçando o violão na sua armadura de camurça.




V

O BIBELOT

Não era a primeira vez que ella vinha ali. Mais de uma dezena já subira aquella larga escada de pedra, com grupos de marmores de Lisboa de um lado e do outro, a Caridade e N. S. da Piedade; penetrara por aquelle portico de columnas doricas, atravessara o atrio ladrilhado, deixando á esquerda e á direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o angustioso mysterio da loucura; subira outra escada encerada cuidadosamente e fôra ter com o padrinho lá em cima, triste e absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia ás vezes, aos domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando Quaresma. Ha quanto tempo estava elle ali? Ella não se lembrava ao certo; uns tres ou quatro mezes, se tanto.

Só o nome da casa mettia medo. O Hospicio! É assim como uma sepultura em vida, um semi-enterramento, enterramento do espirito, da razão conductora, de cuja ausencia os corpos raramente se resentem, A saude não depende della e ha muitos que parecem até adquirir mais força de vida, prolongar a existencia, quando ella se evola não se sabe por que orificio do corpo e para onde.

Com que terror, uma especie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de inimigo invisivel e omnipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte, diziam.

No primeiro aspecto, não se comprehendia bem esse pasmo, esse espanto, esse terror do povo por aquella casa immensa, severa e grave, meio hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janellas gradeadas, a se extender por uns centos de metros, em face do mar immenso e verde, lá na entrada da bahia, na praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns homens calmos, pensativos, meditabundos, como monges em recolhimento e prece.

De resto, com aquella entrada silenciosa! clara e respeitavel, perdia-se logo a idéa popular da loucura; o escarcéo, os trejeitos, as furias, o entrechoque de tolices ditas aqui e ali.

Não havia nada disso; era uma calma, um silencio, uma ordem perfeitamente naturaes. No fim, porém, quando se examinavam bem, na sala das visitas, aquellas faces transtornadas, aquelles ares aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheiados e mergulhados em um sonho intimo sem fim, e via-se tambem a excitação de uns, mais viva em face á atonia de outros, é que se sentia o horror da loucura, o angustioso mysterio que encerra, feito não sei de que inexplicavel fuga do espirito daquillo que se suppõe o real, para se apossar e viver das apparencias das cousas ou de outras apparencias das mesmas.

Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifravel da nossa propria natureza, fica amedrontado, sentindo que o germen daquillo está depositado em nós e que por qualquer cousa elle nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora comprehensão inversa e absurda, de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não ha mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que elle vem a ser após.

E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quasi nunca acaba. Com o seu padrinho, como fôra? A principio, aquelle requerimento... Mas que era aquillo? Um capricho, uma fantasia, cousa sem importancia, uma idéa de velho sem consequencia. Depois, aquelle officio? Não tinha importancia, uma simples distracção, cousa que acontece a cada passo... E emfim? A loucura declarada, a tôrva e ironica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa... Emfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sahir, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como fôra doloroso aquillo? A primeira phase do seu delirio, aquella agitação desordenada, aquelle falar sem nexo, sem accordo com que se realizava fóra delle e com os actos passados, um falar que não se sabia donde vinha, donde sahia, de que ponto do seu ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um cataclysma, que o fazia tremer todo, desde os pés á cabeça, e enchia-o de indifferença para tudo mais que não fosse o seu proprio delirio.

A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam á matroca. Para elle, nada disso valia, nada disso tinha existencia e importancia. Eram sombras, apparencias; o real eram os inimigos, os inimigos terriveis cujos nomes o seu delirio não chegava a criar. A velha irmã, atarantada, atordoada, sem direcção, sem saber que alvitre tomar. Educada em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o irmão, ella não sabia lidar com o mundo, com negocios, com as autoridades e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiencia e ternura de irmã, oscillava entre a crença de que aquillo fosse verdade e a suspeita do que fosse loucura pura e simples.

Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se interessava, chamando a si interesses da familia e evitando a demissão de que estava ameaçado, transformando-a em aposentadoria, que seria delle? Como é facil na vida tudo ruir! Aquelle homem pautado, regrado, honesto, com emprego seguro, tinha uma apparencia inabalavel; entretanto bastou um grãosinho de sandice...

Estava ha uns mezes no Hospicio, o seu padrinho, e a irmã não o podia visitar. Era tal o seu abalo de nervos, era tal a emoção ao vel-o ali naquella meia-prisão, decaindo delle mesmo que um ataque se seguia e não podia ser evitado.

Vinham ella e o pai, ás vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram só os tres a visital-o.

Aquelle domingo estava particularmente lindo, principalmente em Botafogo, nas proximidades do mar e das montanhas altas que se recortavam num céo de seda. O ar era macio e docemente o sol faiscava nas calçadas.

O pai vinha lendo os jornaes e ella, pensando, de quando em quando folheando as revistas illustradas que trazia para alegrar e distrahir o padrinho.

Elle estava como pensionista; mas, embora assim, no começo, ella teve um certo pudor em se misturar com os visitantes.

Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar miserias; recalcou porém, dentro de si esse pensamento egoista, o seu orgulho de classe, e agora entrava naturalmente, pondo em mais destaque a sua elegancia natural. Amava esses sacrificios, essas abnegações, tinha o sentimento da grandeza delles, e ficou contente comsigo mesma.

No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicomio. Como em todas as portas dos nossos infernos sociaes, havia de toda a gente, de varias condições, nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a molestia passam tambem a sua razoura pelas distincções que inventamos.

Os bem vestidos e os mal vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e os bonitos, os intelligentes e os nescios, entravam com respeito, com concentração, com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem noutro mundo.

Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam; eram guloseimas, fumo, meias, chinellas, ás vezes livros e jornaes. Dos doentes uns conversavam com os parentes; outros mantinham-se calados, num mutismo feroz e inexplicavel; outros indifferentes; e era tal a variedade de aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o imperio da doença sobre todos aquelles infelizes, tanto ella variava neste ou naquelle, para se pensar em caprichos pessoaes, em dictames das vontades livres de cada um.

E ella pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como ella é mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como na variedade da vida a tristeza póde mais variar que a alegria c como que dá o proprio movimento da vida.

Verificando isso, quasi teve satisfação, pois a sua natureza intelligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu espirito fazia.

Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delirio parecia querer desapparecer completamente. Chocando-se com aquelle meio, houve logo nelle uma reacção salutar e necessaria. Estava doido, pois se o punham ali...

Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de satisfação por baixo do bigode já grisalho. Tinha emmagrecido um pouco, os cabellos pretos estavam um pouco brancos, mas o aspecto geral era o mesmo. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar, mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto secco e desconfiado. Ao vel-os disse amavelmente:

—Então vieram sempre... Estava a espera...

Cumprimentaram-se e elle deu mesmo um largo abraço na afilhada.

—Como está Adelaide?

—Bem. Mandou lembranças e não veiu porque... adiantou Coleoni.

—Coitada! disse elle, e pendeu a cabeça como se quizesse afastar uma recordação triste; em seguida, perguntou:

—E o Ricardo?

A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e alegria. Via-o já escapo á semi-sepultura da insania.

—Está bom, padrinho. Procurou papai ha dias e disse que a sua aposentadoria já está quasi acabada.

Coleoni tinha-se sentado. Quaresma tambem e a moça estava de pé, para melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no encarar. Guardas, internos e medicos passavam pelas portas com a indifferença profissional. Os visitantes, não se olhavam, pareciam que não queriam conhecer-se na rua. Lá fóra, era o dia lindo, os ares macios, o mar infinito e melancolico, as montanhas a se recortar num céo de seda—a belleza da natureza imponente e indecifravel. Coleoni, embora mais assiduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com satisfação que errava na sua physionomia, num ligeiro sorriso. Num dado momento aventurou:

—O Major já está muito melhor; quer sahir?

Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente:

—É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incommodar-te tanto, mas vocês que têm sido tão bons, hão de levar tudo isso para conta da propria bondade. Quem tem inimigos deve ter tambem bons amigos...

O pai e a filha entreolharam-se; o Major levantou a cabeça e parecia que as lagrimas queriam rebentar. A moça interveio de prompto:

—Sabe, padrinho, vou casar-me.

—É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos prevenil-o.

—Quem é teu noivo? perguntou Quaresma.

—É um rapaz...

—De certo, interrompeu o padrinho sorrindo.

E os dous acompanharam-n'o com familiaridade e contentamento. Era um bom signal.

—É o Sr. Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? fez Olga gentilmente.

—Então é para depois do fim do anno.

—Esperamos que seja por ahi, disse o italiano.

—Gostas muito delle? indagou o padrinho.

Ella não sabia responder aquella pergunta. Queria sentir que gostava, mas estava que não. E porque casava? Não sabia... Um impulso do seu meio, uma cousa que não vinha della—não sabia... Gostava de outro? Tambem não. Todos os rapazes que ella conhecia, não possuiam relevo que a ferisse, não tinham o que, ainda indeterminado na sua emoção e na sua intelligencia, que a fascinasse ou subjugasse. Ella não sabia bem o que era, não chegava a extremar na percepção das suas inclinações a qualidade que ella queria ver dominante no homem. Era o heroico, era o fóra do commum, era a força de projecção para as grandes cousas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros annos, quando as idéas e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não podia colher e registrar esse anhelo, esse modo de se representar e de amar o individuo masculino.

E tinha razão em se casar sem obedecer á sua concepção. É tão difficil ver nitidamente num homem, de 20 a 30 annos, o que ella sonhara que era bem possivel tomasse a nuvem por Juno... Casava por habito de sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar a sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu sem convicção ao padrinho:

—Gosto.

A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rapida, não convinha fatigar a attenção do convalescente. Os dous sahiram sem esconder que iam esperançados e satisfeitos.

Na porta ja havia alguns visitantes á espera do bonde. Como não estivesse o vehiculo no ponto, foram indo ao longo da fachada do manicomio até lá. Em meio do caminho, encontraram, encostada ao gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ella:

—Que tem, minha velha?

A pobre mulher deitou sobre elle um demorado olhar, humido e doce, cheio de uma irremediavel tristeza, e respondeu:

—Ah! meu sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado!

E continuou a chorar. Coleoni começou a commover-se; a filha olhou-a com interesse e perguntou no fim de um instante:

—Morreu?

—Antes fosse sinhasinha.

E por entre lagrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais, não lhe respondia ás perguntas; era como um extranho. Enxugou as lagrimas e concluiu:

—Foi cousa feita.

Os dous afastaram-se tristes, levando n'alma um pouco daquella humilde dôr.

O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a face do mar em pequenas ondas brancas. O Pão de Assucar erguia-se negro, hirto, solemne, das ondas espumejantes, e como que punha uma sombra no dia muito claro.

No Instituto dos Cégos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sahir daquellas cousas todas, da sua tristeza e da sua solemnidade.

O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no largo da Carioca. É bom ver-se a cidade nos dias de descanço, com as suas lojas fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os passos resoam como em claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhes as carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e gente. Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante brincam em velocipedes, atiram bolas e ainda mais se sente a differença da cidade do dia anterior.

Não havia ainda o habito de procurar os arrabaldes pittorescos e só encontravam, por vezes, casaes que iam apressadamente a visitas, como elles agora. O largo de S. Francisco estava silencioso e a estatua, no centro daquelle pequeno jardim que desappareceu, parecia um simples enfeite. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse á casa de Quaresma. Lá foram. A tarde se approximava e as toilettes domingueiras já appareciam nas janellas. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros; grupos de caixeiros com flores estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas anti-deluvianas ao lado de vestidos pesados de setim negro, envergados em corpos fartos de matronas sedentarias; e o domingo apparecia assim decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a ostentação dos tolos.

D. Adelaide não estava só. Ricardo viera visital-a e conversavam. Quando o compadre de seu irmão bateu no portão, elle contava á velha senhora o seu ultimo triumpho:

—Não sei como ha de ser, D. Adelaide. Eu não guardo as minhas musicas, não escrevo—é um inferno!

O caso era de pôr um autor em maus lençóes. O Sr. Paysandon, de Cordova (Republica Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade, lhe tinha escripto, pedindo exemplares de suas musicas e canções. Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escriptos, mas a musica não. É verdade que as sabia de cór, porém, escrevel-as de uma hora para outra era trabalho acima de sua força.

—É o diabo! continuou elle. Não é por mim; a questão é que se perde uma occasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro.

A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A sua educação que se fizera, vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida, não podia admittir que elle preoccupasse a attenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, supportava a mania de Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela dedicação com que elle se houve no seu drama familiar. Os pequenos serviços e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo de Ricardo, que os desempenhara com boa vontade e diligencia.

Actualmente era elle o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo discipulo. É um trabalho arduo, esse de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gyria burocratica. Aposentado o sujeito, solemnemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e funccionarios para ser ultimada. Nada ha mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o calculo; e a cousa demora um mez, mais até, como se tratasse de mecanica celeste.

Coleoni era o procurador do Major, mas não sendo entendido em cousas officiaes, entregou ao Coração dos Outros aquella parte do seu mandato.

Graças á popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a resistencia da machina burocratica e a liquidação estava annunciada para breve.

Foi isso que elle annunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da filha. Pediram, tanto elle como D. Adelaide, noticias do amigo e do irmão.

A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou comprehendendo melhor; mas a sentira profundamente com o sentimento simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.

Ricardo Coração dos Outros gostava do Major, encontrara nelle certo apoio moral e intellectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir o seu canto, apreciavam como simples dilletantes: mas o Major era o unico que ia ao fundo da sua tentativa e comprehendia o alcance patriotico do sua obra.

De resto, elle agora soffria particularmente—soffria na sua gloria, producto de um lenço e seguido trabalho de annos. É que apparecera um creoulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era citado ao lado do seu.

Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto; e segundo: por causa das suas theorias.

Não é que elle tivesse ogeriza particular aos pretos. O que elle via no facto de haver um preto famoso tocar violão, era que tal cousa ia diminuir ainda mais o prestigio do instrumento. Se o seu rival tocasse piano e por isso ficasse celebre, não havia mal algum; ao contrario: o talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermedio do instrumento considerado; mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito que lhe cercava a pessoa, desmoralisava o mysterioso violão que elle tanto estimava. E além disso com aquellas theorias! Ora! querer que a modinha diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice!

E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante delle como um obstaculo imprevisto na subida maravilhosa para a sua gloria. Precisava afastal-o, esmagal-o, mostrar a sua superioridade indiscutivel; mas como?

A reclame já não bastava; o rival a empregava tambem. Se elle tivesse um homem notavel, um grande literato, que escrevesse um artigo sobre elle e a sua obra, a victoria estava certa. Era difficil encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão absorvidos em cousas francezas... Pensou num jornal, «O Violão», em que elle desafiasse o rival e o esmagasse numa polemica.

Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma, actualmente recolhido ao Hospicio, mas felizmente em via de cura. A sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor.

—Não pude ir hoje, disse elle, mas irei domingo. Está mais gordo?

—Pouca cousa, disse a moça.

—Conversou bem, accrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se.

—Vai casar-se, D. Olga? Parabens.

—Obrigada, fez ella.

—Quando é Olga? perguntou D. Adelaide.

—Lá para o fim do anno... Tem tempo...

E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações sobre o casamento.

E ella se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as considerações, impudentes e irritantes; queria fugir á conversa, mas voltavam ao mesmo assumpto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide, mais loquaz e curiosa que commumente. Esse supplicio que se repetia em todas as visitas, quasi a fazia arrepender-se de ter acceitado o pedido. Por fim achou um subterfugio, perguntando:

—Como vai o General?

—Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Elle deve andar bem, a Ismenia é que anda triste, desolada coitadinha!

D. Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha do General. Cavalcanti, aquelle Jacob de cinco annos, embarcara para o interior, ha tres ou quatro mezes e não mandara nem uma carta nem um cartão. A menina tinha aquillo como um rompimento; e ella, tão incapaz de um sentimento mais profundo, de uma applicação mais seria de energia mental e physica, sentia-o muito, como cousa irremediavel que absorvia toda a sua attenção.

Para Ismenia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado de existir. Arranjar outro era problema insoluvel, era trabalho acima de suas forças. Cousa difficil! Namorar, escrever cartinhas, fazer acenos, dançar, ir a passeios—ella não podia mais com isso. Decididamente, estava condemnada a não se casar, a ser tia, a supportar durante toda a existencia esse estado de solteira que a apavorava. Quasi não se lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz duro e fortemente osseo; independente da memoria delle, vinha-lhe sempre á consciencia, quando, de manhã, o estafeta não lhe entregava carta, essa outra idéa: não casar. Era um castigo... A Quinota ia casar-se, o Genelicio já estava tratando dos papeis; e ella que esperam tanto, e fôra a primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de todas. Parecia até que ambos estavam contentes com aquella fuga inexplicavel de Cavalcanti. Como elles se riam durante o Carnaval! Como elles atiraram aos seus olhos aquella sua viuvez prematura, durante os folguedos carnavalescos! Punham tanta furia no jogo de confetes e bisnagas, de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos, aquella marcha gloriosa e invejava para o casamento, em face do seu abandono.

Ella disfarçava bem a impressão da alegria delles que lhe parecia indecente e hostil; mas o escarneo da irmã que lhe dizia constantemente: «Brinca, Ismenia! Elle está longe, vai aproveitando»—metia-lhe raiva, a raiva terrivel de gente fraca, que corróe interiormente, por não poder arrebentar de qualquer forma.

Então, para espantar os máus pensamentos, ella se punha a olhar o aspecto pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores, e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem á sua natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquelle ruido de atabaques, e adufes, de tambores e pratos. Mergulhando nessa barulheira, o seu pensamento repousava e como que a idéa que a perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.

De resto, aquelles vestuarios extravagantes de indios, aquelles adornos de uma mythologia francamente selvagem, jacarés, cobras, jabotys, vivos, bem vivos, traziam á pobreza de sua imaginação imagens risonhas de rios claros, florestas immensas, logares de socego e pureza que a reconfortavam.

Tambem aquellas cantigas gritadas, berradas, num rytmo duro e de uma grande indigencia melodica, vinham como reprimir a magua que ia nella, abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão de gritos, mas para o que não lhe sobrava força bastante e sufficiente.

O noivo partira um mez antes do Carnaval e depois do grande festejo carioca a sua tortura foi maior. Sem habito de leitura e de conversa, sem actividade domestica qualquer, ella passava os dias deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe doce chorar.

Nas horas da entrega da correspondencia, tinha ainda uma alegre esperança. Talvez? Mas a carta não vinha, e, voltava ao seu pensamento: não casar.

D. Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismenia, commentou:

—Merecia um castigo isso, não acham?

Coleoni interveio com brandura e boa vontade.

—Não ha razão para desesperar. Ha muita gente que tem preguiça de escrever...

—Qual! fez D. Adelaide. Ha tres mezes, sr. Vicente!

—Não volta, disse Ricardo sentenciosamente.

—E ella ainda o espera, D. ADelaide? perguntou Olga.

—Não sei, minha filha. Ninguem entende essa moça. Fala pouco, se fala diz meias-palavras... É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala.

—É orgulho? perguntou ainda Olga.

—Não, não... Se fosse orgulho, ella não se referia de vez em quando ao noivo. É antes molleza, preguiça... Parece que ella tem medo de falar para que as cousas não venham acontecer.

—E os paes que dizem a isso? indagou Coleoni.

Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incommodo do General não é grande e D. Maricota julga que ella deve arranjar outro.

—Era o melhor, disse Ricardo.

—Eu creio que ella não tem mais pratica, disse sorrindo D. Adelaide. Levou tanto tempo noiva...

E a conversa já tinha virado para outros assumptos, quando a Ismenia veiu fazer a sua visita diaria á irmã de Quaresma.

Cumprimentou todos e todos sentiram que ella penava. O soffrimento dava-lhe mais actividade á physionomia.

As palpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e expansão. Indagou da saude de Quaresma e depois calaram-se um instante. Por fim D. Adelaide lhe perguntou:

—Recebeste carta, Ismenia?

—Ainda não, respondeu ella com grande economia de voz.

Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num dunkerque, veiu atirar ao chão uma figurinha de biscuit, que se esphacelou em innumeros fragmentos, quasi sem ruido.