Triste Fim de Policarpo Quaresma
Segunda Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
E foram. No caminho o General parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou:
—Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?
—Vai bem.
—Tem-lhe escripto?
—Ás vezes. Eu queria, General...
O General suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que começava a cahir, e perguntou:
—O que?
Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma ligeira, hesitação, respondeu de um jacto, com medo de perder a s palavras:
—Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vel-o.
O General esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabello e disse:
—Isso é difficil, mas você appareça lá, na repartição, amanhã.
E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros accrescentou:
—Estou com saudades delle, depois tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem nome...
—Vá lá amanhã.
D. Maricota appareceu na frente e falou agastada:
—Vocês não vêm!
—Já vamos, fez o General.
E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
—Aquelle Quaresma podia estar bem, mas foi metter-se com livros... É isto! Eu, ha bem quarenta annos, que não pego em livro...
Chegaram á sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas, furiosos retratos a oleo de Albernaz e da mulher; um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da mobilia não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço aos dansantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janella, Ricardo pôde ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; só de lá os curiosos, os serenos, podiam ver alguma cousa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O General contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...
A moça, a famosa filha do Lemos, dispoz-se a cantar. Foi ao piano, collocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ella cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem educada. Acabou. Palmas geraes, mas frias, soaram.
O Dr. Florencio que ficara atraz do General, commentou:
—Tem uma bella voz esta moça. Quem é?
—É a filha do Lemos, do Dr. Lemos da Hygiene, respondeu o General.
—Canta muito bem.
—Está no ultimo anno do Conservatorio, observou ainda Albernaz.
Chegou a vez de Ricardo. Elle occupou um canto da sala, agarrou o violão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar tragico de quem vai representar o Oedipo-Rei e falou com voz grossa: «Senhoritas, senhores e senhoras». Parou. Concertou a voz e continuou: «Vou cantar «Os teus braços», modinha de minha composição, musica e versos. É uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada». Seus olhos, por ahi, quasi lhe sabiam das orbitas. Emendou: «Espero que nenhum ruido se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão instrumento muito... mui...to dê li ca do. Bem».
A attenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebuado, macio e longo, como um soluço de onda; depois, houve uma parte rapida, saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro, a modinha acabou.
Aquillo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O General abraçou-o, Genelicio levantou-se e deu-lhe a mão, Quinota, no seu immaculado vestido de noiva, tambem.
Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu á sala de jantar. No corredor chamaram-n'o: Sr. Ricardo, Sr. Ricardo! Voltou-se. Que ordena minha senhora? Era uma moca que lhe pedia uma copia da modinha.
—Não se esqueça, dizia ella com meiguice, não se esqueça. Gosto tanto das suas modinhas... São tão ternas tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismenia para me entregar.
A noiva de Cavalcanti approximava-se e, ouvindo falar em seu nome, perguntou:
—Que é, Dulce?
A outra explicou-lhe. Ella aceitou a incumbencia: e, por sua vez, perguntou a Ricardo com a sua voz dolente:
—Seu Ricardo, quando é que o Sr. pretende estar com D. Adelaide.
—Depois de amanhã, espero eu.
—Vai lá.
—Vou.
—Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma carta...
E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.
III
GOLIAS
No sabbado da semana seguinte áquella em que a filha do General recebera como marido o grave e giboso Genelicio, gloria e orgulho do nosso funccionalismo publico, Olga casara-se. A cerimonia correra com a pompa e a riqueza acostumadas em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos parisienses de corbeille de noiva e outros pequenos detalhes chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de satisfação maior que as noivas communs. Talvez nem mesmo essa ella tivesse.
Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquelle acto, mas, apparentemente, nenhuma vontade extranha á sua influira para isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo medico, cheio de talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma larga estrada de triumphos nas posições e na industria clinica. Não tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal titulo um fóral de nobreza, equivalente áquelles com que os authenticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees. Apezar de ser seu pai um importante fazendeiro por ahi, em algum logar deste Brasil, o sogro lhe dera tudo e tudo elle aceitara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas, a receber homenagens de um villão que não roçou os bancos de uma Academia.
Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso titulo, o pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo titulo, mas pela sua simulação de intelligencia, de amor á sciencia, de desmedidos sonhos de sabio. Tal imagem que delle fizera, durara instantes em Olga; depois foi a inercia da sociedade, a sua tyrannia e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ella, de si para si, pensava que se não fosse este, seria outro a elle igual, e o melhor era não adiar.
Era por isso que ella não ia para a igreja, em virtude de uma determinação certa de sua vontade, embora sem perceber o constrangimento de um commando fora della.
Apezar da pompa, esteve longe de ser uma noiva magestosa. Não obstante as origens puramente européas, era pequena, muito mesmo, ao lado do noivo, alto, erecto, com uma physionomia irradiante de felicidade; e, desse modo, ella desapparecia dentro do vestido, dos véos e daquelles atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar, De resto, a tua belleza não era a grande belleza—aquella que nós exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas classicas.
No seu rosto, nada de grego, desse grego authentico on de pacotilha, ou tambem dessa magestade de opera lyrica. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua physionomia era profunda e propria. Não só a luz dos seus grandes olhos negros, que quasi cobriam toda a cavidade orbitaria, fazia fulgurar o seu rosto mobil, como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade, malicia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade.
Ao contrario do costume, não sahiram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro.
Quaresma não fora á festa, mandara o leitão e o perú da tradição e escrevera uma longa carta. O sitio empolgara-o, o calor ia passar, vinha a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous, era como se começasse a desertar da batalha.
O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. A visita de Ricardo veiu distrail-o um pouco, sem desvial-o comtudo, de seus afazeres agricolas.
Passou um mez com o Major, e foi um triumpho. A fama do seu nome precedia-o, de forma que todo o municipio o disputava e festejava.
O seu primeiro trabalho foi ir á villa. Ficava a quatro kilometros adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem, se assim se póde chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e descia morros, cortava planicies e rios em toscas pontes. A villa!... Tinha duas ruas principaes: a antiga, determinada pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veiu da ligação da velha com a estrada de ferro. Ellas se encontravam em T, sendo o braço vertical o caminho da estação. As outras partiam dellas, as casas juntavam-se urbanamente no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova, Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da rua Marechal Deodoro, partia a da Matriz, ia ter á igreja, ao alto de uma collina, feia e pobre no seu estylo jesuitico. Á esquerda da estação, num campo, a praça da Republica, a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas, ficava a Camara Municipal.
Em um grande parallepipeto de tijolo, cimalha, janella com sacadas de grade de ferro, puro estylo mestre de obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edificios da mesma natureza das pequenas communas francezas e belgas da idade média.
Ricardo entrou num barbeiro da rua Marechal Deodoro, salão Rio de Janeiro, e fez a barba. O figaro deu-lhe informações a villa e elle se deu a conhecer. Havia certos circumstantes, um delles tomou-o a seu cargo e dahi em pouco estava relacionado.
Quando voltou para a casa do Major já tinha convite para o baile do Dr. Campos, presidente da Camara, festa que teria logar na quarta-feira proxima.
Chegara sabbado e fora passeiar á villa domingo.
Tinha havido missa e o trovador assistiu a sahida. A concurrencia nunca é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquellas moças do interior, lymphaticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços, descendo silenciosas a collina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão e tedio. Foi na sahida da missa que lhe apresentaram o Dr. Campos.
Era o medico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de «aranha» com a sua filha, Nair, assistir o officio religioso.
O trovador e o medico estiveram um instante conversando, emquanto a filha, muito magra, pallida, com uns longos braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando elles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquelle rebento dos ares livres do Brasil.
Á festa do Dr. Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua victoria. Se bem que o Major tivesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquelle instrumento essencialmente nacional. As consequencias desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado as suas convicções patrioticas. Continuavam as suas idéas profundamente arraigadas, tão sómente elle as escondia, para não soffrer com a incomprehensão e maldade dos homens.
Gozava, portanto, a fulminante victoria de Ricardo, que indicava bem naquella população a existencia de um residuo forte da nossa nacionalidade a resistir ás invasões das modas e gostos estrangeiros.
Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O Dr. Campos, presidente da Camara, era quem mais o cumulava de homenagens. Naquella manhã até esperava um dos cavallos do edil, para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que ainda não tinha partido para o eito:
—Major, foi uma boa idéa vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir...
—Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são extranhas todas essas cousas.
—Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos offerecem, não devemos rejeitar, não acha?
—Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de commandar uma esquadra.
—Até ahi não vou. Olhe, Major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral a intellectual, entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: «Seu Ricardo, Você vai ser deputado», o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os threnos do instrumento? Ora, se não! Não se deve perder vasa, Major.
—Cada um tem as suas theorias.
—De certo. Outra cousa. Major: conhece o Dr. Campos?
—De nome.
—Sabe que elle é presidente da Camara.
Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança, O menestrél não notou o gesto do amigo e emendou.
—Móra daqui a uma legua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavallo passeiar com elle.
—Fazes bem.
—Elle quer conhecel-o. Posso trazel-o aqui?
—Pódes.
Um camarada do Dr. Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo o cavallo promettido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous, pois, além do Anastacio, que não era bem um empregado, mas aggregado, admittira o Felizardo.
Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham attenuado a temperatura.
Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre aquelle rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e passaros. Esvoaçavam tyês vermelhos, bandos de colleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das arvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no momento, parece que tinham sahindo á luz, não sómente para a fecundação vegetal mas tambem para a belleza.
Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fôra para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um simio. Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma apparencia de fraqueza muscular, não havia ninguem mais valente que elle a roçar. Com isto era um tagarella incansavel. De manhã, quando chegava, ahi pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do municipio.
O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado do norte do sitio, que o capão invadira. Obtido elle, o Major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervallos batatas inglezas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe quizera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando delle os principios volateis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miudos e folhas, elle removia para longe, onde então queimaria em coiváras pequenas.
Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos; mas promettia dar um rendimento maior ao plantio.
Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrahir. Ha quem cante, elle falava e pouco se incommodava que lhe dessem ou não attençâo.
—Essa gente anda accesa por ahi, disse Felizardo logo que o Major chegou.
Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, attendia-lhe a conversa, raras não. Anastacio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa postura hieratica de uma pintura mural thebana. O Major perguntou ao Felizardo:
—Que é que ha, Felizardo?
O camarada descançou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante:
—Negocio de politica... Seu Tenente Antonino quasi briga hontem com seu dotô Campo.
—Onde?
—Na estação.
—Porque?
—Negocio de partido. Pelo que ouvi: seu Tenente-Antonino é pelo governadô e seu dodô Campo é pelo senadô... Um sarcêro, patrão!
—E você, por quem é?
Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleiava o tronco a remover. Anastacio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador. Respondeu afinal:
—Eu! sei lá... Urubu pellado não se mette no meio dos coroados. Isso é bom p'r'o sinhô.
—Eu sou como você, Felizardo.
—Quem me dera, meu sinhô. Inda traz-antonte ouvi dizê que o patrão é amigo do marechá...
Afastou-se com o pau; e, quando voltou Quaresma indagou assustado:
—Quem disse?
—Não sei, não sinhô. Ouvi a modo de dizê lá na venda do hespanhol, tanto assim que doutô Campo tá inchado que nem sapo com a sua amizade.
—Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguem... Qual amigo!
—Quá! fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão tá é varrendo a testada.
Apezar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquella cabeça infantil a idéa de que elle fosse amigo do Marechal Floriano. «Conheci-o no meu emprego»—dizia o Major: Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia: «Quá! o patrão é fino que nem cobra».
Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquillo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Elle tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar máos momentos; os enthusiasmos delle, entretanto, junto á vontade de ser bom amigo, podiam illudil-o e fazel-o instrumento de algum perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve, porém, esqueceu-se e a preoccupação dissipou-se. Á tarde, quando foi jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de cogitações por parte delle.
D. Adelaide, sempre com a sua matinée creme e saia preta, sentava-se á cabeceira; Quaresma á direita e á esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a lingua do trovador.
—Gostou muito do passeio, Sr. Ricardo?
Não havia meio della dizer seu. A sua educacão de senhora de outros tempos, não lhe permittia usar esse plebeismo generalizado. Vira os pais, gente ainda fortemente portugueza, dizer senhor e continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.
—Muito. Que logar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é que se tem inspiração.
—E elle tomava aquella altitude de arroubo: uma physionomia de mascara de tragico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.
—Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
—Hoje acabei uma modinha.
—Como se chama? indagou D. Adelaide.
—«Os labios da Carola».
—Bonito! Já fez a musica?
Era ainda a irmã da Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo a boca; deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção:
—A musica, minha senhora, é a primeira coesa que faço.
—Has de nol-a cantar logo.
—Pois não, Major.
Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros sahiram a passeiar no sitio. Fôra essa a unica concessão que ao amigo fizera Polycarpo, no tocante ao regimen de seus trabalhos agricolas. Levava sempre o pedaço de pão, esfarelava em migalhas no gallinheiro, para ver a atroz disputa entre as aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquellas vidas, criadas, mantidas e protegidas para sustento da sua. Sorria para os frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito vivos e avidos, e demorava-se a apreciar a estupidez do perú, imponente, fazendo roda, a dar estouros presumpçosos. Em seguida, ia ao chiqueiro; assistia Anastacio dar a ração, despejando-a nos cochos. O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se difficilmente e solemnemente vinha mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento os bacurinhos grunhiam e grunhindo vinham com a mãe charfurdar-se na comida.
A avidez daquelles animaes era deveras repugnante mas os seus olhos tinham uma longa doçura bem humana que os fazia sympathicos.
Ricardo apreciava pouco aquellas formas inferiores de vida, mas Quaresma ficava minutos esquecido a contemplal-as numa demorada interrogação muda. Sentavam-se a um tronco de arvore; e Quaresma olhava o céo alto emquanto Coração dos Outros contava qualquer historia.
A tarde ia adiantada, A terra já começava a amollecer, pelo fim daquelle beijo ardente e demorado do sol. Os bambús suspiravam; as cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos o Major voltou-se. Padrinho! Olga!
Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar um para o outro, com as mãos presas. E vieram aquellas estupidas e tocantes phrases dos encontros satisfeitos: quando chegaste? Não esperava... É longe... Ricardo olhava embevecido com a ternura dos dous; Anastacio tirara o chapéo e olhava a «sinhasinha», com o o seu terno e vasio olhar de africano.
Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois passeou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou:
—Que dê teu marido?
—O doutor?... Está lá dentro.
O marido tinha resistido muito em acompanhal-a até ali. Não lhe parecia bem aquella intimidade com um sujeito sem titulo, sem posição brilhante e sem fortuna. Elle não comprehendia como o seu sogro, apezar de tudo um homem rico, de outra esphera, tinha podido manter e estreitar relações com um pequeno empregado de uma repartição secundaria, e até fazel-o seu compadre! Que o contrario se desse, era justo; mas como estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade nacional. Mas, em definitivo, quando D. Adelaide o recebeu cheia de um immenso respeito, de uma particular consideração, ele ficou desarmado e todas as suas pequenas vaidades foram tocadas e satisfeitas.
D. Adelaide, mulher velha, do tempo em que o imperio armava essa nobreza escolar, possuia em si uma particular reverencia, um culto pelo doutorado; e não lhe foi, pois, difficil demonstral-o quando se viu diante do Dr. Armando Borges, de cujas notas e premios ella tinha exacta noticia.
Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor, gozando aquelle seu sobrehumano prestigio, ia conversando pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, á proporção que conversava, talvez para que o effeito não se dissipasse, virava com a mão direita o grande annelão symbolico, o talisman, que cobria a phalange do dedo indicador esquerdo, ao geito de marquise.
Conversaram muito. O joven par contou a agitação politica do Rio, a revolta da fortaleza de Santa Cruz; D. Adelaide a epopéa da mudança, moveis quebrados, objectos partidos. Pela meia noite todos foram dormir com uma alegria particular, emquanto os sapos levantavam no riacho defronte o seu grave hymno á transcendente belleza do céo negro, profundo e estrellado.
Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal. Rasgou a cinta e leu o titulo. Era o «O Municipio», orgão local, hebdomadario, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia afastado; elle aproveitou a occasião para ler o jornaleco. Pôz o pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e desdobrou o jornal. Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam mollemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se «Intrusos» e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos no logar que moravam nelle—verdadeiros estrangeiros que se vinham intrometter na vida particular e politica da familia curuzuense, perturbando-lhe a paz e a tranquillidade.
Que diabo queria dizer aquillo? Ia deitar fóra o jornaleco, quando lhe pareceu ler seu nome entre versos. Procurou o logar e deu com estas quadrinhas:
Quaresma do coração!
Deixa as batatas em paz
Deixa em paz o feijão.
Quaresma, meu cocumby!
Volta á mania antiga
De redigir em tupy.
O Major ficou estuporado. Que vinha ser aquillo? Porque? Quem era? Não atinava, não achava o motivo o fundo de semelhante ataque. A irmã approximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo: «Lê isto, Adelaide».
A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa c solicitude. Ella tinha aquella ampla maternidade das solteironas; pois parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher pelas dores do outros. Emquanto ella lia, Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com politica? E coçava os cabellos já tanto encanecidos.
D. Adelaide disse então docemente:
—Socega, Polycarpo. Por isso só?... Ora!
A afilhada leu tambem os versos e perguntou ao padrinho:
—O Sr. se metteu algum dia nessa politica daqui?
—Eu nunca!... Vou até declarar que...
—Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a irmã:
—Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
O doutor e Ricardo chegavam de fóra e encontraram os tres nessas considerações. Notaram a alteração de Quaresma. Estava pallido, tinha os olhos humidos e coçava successivamente a cabeça.
—Que ha, Major? indagou o troveiro.
As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo depois contou o que ouvira na villa. Acreditavam todos que o Major viera para ali no intuito de fazer politica, tanto assim que dava esmolas, deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuia remedios homeopathicos... O Antonino affirmara que havia de desmascarar semelhante tartufo.
—E não desmentiste? perguntou Quaresma.
Ricardo affirmou que sim, mas o escrivão não quizera acreditar nelle e reiterara os seus propositos de ataque.
O Major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de accordo com seu genio, incubou nos primeiros tempos a impressão, e, emquanto estiveram com elle os seus amigos, não demonstrou preoccupação.
Olga e o marido passaram no «Socego» cerca de quinze dias. O marido, ao fim de uma semana, já parecia cançado. Os passeios não eram muitos. Em geral, os nossos logarejos são de uma grande pobreza do pittoresco; ha um ou dous logares celebres, assim como na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade historica.
Em Curuzú, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas leguas da casa de Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro. O Dr. Campos já travara relações com o Major e, graças a elle, houve cavallos e silhão que tambem permitisse á moça ir á cachoeira.
Foram de manhã, o Presidente da Camara, o doutor, sua mulher e a filha de Campos. O logar não era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze metros de altura, despenhava-se em tres partes, pelo flanco da montanha abaixo. A agua estremecia na quéda, como que se enrodilhava e vinha pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma aboboda de arvores. O sol coava-se difficilmente e vinha faiscar sobre a agua ou sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as incrustações daquelle salão fantastico.
Olga pôde ver tudo isso bem á vontade, andando de um para outro lado, porque a filha do presidente era de um silencio de tumulo e o pae desta tomava com o sou marido informações sobre novidades medicinaes: Como se cura hoje erysipela? Ainda se usa muito o tartaro emetico?
O que mais a impressionou no passeio foi a miseria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ella tinha dos roceiros idéa de que eram felizes saudaveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta agua, porque as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquelle sapê sinistro e aquelle «sopapo» que deixava ver a trama de varas, como o esqueleto de um doente. Porque ao redor dessas casas, não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão facil, trabalho de horas. E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Porque? Mesmo nas fazendas, o espectaculo não era mais animador. Todas soturnas, baixas, quasi sem o pomar olente e a horta succulenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ella não pôde ver outra lavoura, outra industria agricola. Não podia ser preguiça só ou indolencia. Para o seu gasto, para uso proprio, o homem tem sempre energia para trabalhar. As populações mais accusadas de preguiça, trabalham relativamente. Na Africa, na India, na Cochinchina, em toda parte, os casaes, as familias, as tribos, plantam um pouco, algumas cousas para elles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e tambem a sua piedade e sympathia por aquelles parias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbaticos!...
Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades mezes e annos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remedio. Aquillo era uma situação do camponez da idade média e começo da nossa; era o famoso animal de La Bruyére que tinha face humana e voz articulada...
Como no dia seguinte fosse passeiar ao roçado do padrinho, aproveitou a occasião para interrogar a respeito o tagarella Felizardo. A faina do roçado ia quasi no fim; o grande trato da terra estava quasi inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a collina que formava a lombada do sitio.
Olga encontrou o camarada cá em baixo, cortando a machado as madeiras mais grossas; Anastacio estava no alto, na orla do mato, juntando, a ancinho, as folhas caidas. Ella lhe falou.
—Bons dias, sá dona.
—Então trabalha-se muito, Felizardo?
—O que se póde.
—Estive hontem no Carico, bonito logar... Onde é que você mora, Felizardo?
—É d'outra banda, na estrada da villa.
—É grande o sitio de você?
—Tem alguma terra, sim, senhora, sá dona.
—Você porque não planta para você?
—Quá sá dona! O que é que a gente come?
—O que plantar ou aquillo que a plantação der em dinheiro.
—Sá dona tá pensando uma cousa e a cousa é outra. Emquanto planta cresce, e então? Quá, sá dona, não é assim...
Deu uma machadada; o tronco escapou: collocou-o melhor no picador e, antes de desferir o machado, ainda disse:
—Terra não é nossa... E frumiga?... Nós não tem ferramenta... isso é bom para italiano ou allamão, que Governo dá tudo... Governo não gosta de nós...
Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas partes, quasi iguaes, de um claro amarellado, onde o cérne escuro começava a apparecer.
Ella voltou querendo afastar do espirito aquelle desacordo que o camarada indicara, mas não pôde. Era certo. Pela primeira vez notava que o self-help do Governo era só para os nacionaes; para os outros todos os auxilios e facilidades, não contando com a sua anterior educação e apoio dos patricios.
E a terra não era delle? Mas de quem era então, tanta terra abandonada que se encontrava por ahi? Ella vira até fazendas fechadas, com as casas em ruinas... Porque esse acaparamento, esses latifundios inuteis e improductivos?
A fraqueza de attenção não lhe permittiu pensar mais no problema. Foi vindo para casa, tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava.
Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquelle perdera um pouco da sua morgue; havia mesmo occasião em que era até natural. Quando ella chegou, o padrinho exclamava:
—Adubos! É lá possivel que um brasileiro tenha tal idéa! Pois se temos as terras mais ferteis do mundo!
—Mas se esgotam, Major, observou o doutor
D. Adelaide, calada, seguia com attenção o crochet que estava fazendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga intrometteu-se na conversa:
—Que zanga é essa, padrinho?
—É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de adubos... Isto é até uma injuria!
—Pois fique certo, Major, se eu fosse o senhor, adduziu o doutor, ensaiava uns phosphatos...
—De certo, Major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar violão não queria aprender musica... Qual musica! Qual nada! A inspiração basta!... Hoje veio que é preciso... É assim, resumia elle.
Todos se entreolharam, excepto Quaresma que logo disse com toda a força d'alma:
—Sr. doutor, o Brasil é o paiz mais fertil do mundo, é o mais bem dotado e as suas terras não precisam emprestimos para dar sustento ao homem. Fique certo!
—Ha mais ferteis, Major, avançou o doutor.
—Onde?
—Na Europa.
—Na Europa!
—Sim, na Europa. As terras negras da Russia, por exemplo.
O Major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triumphante:
—O Sr. não é patriota! Esses moços...
O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações sobre o violão. Á noite, o menestrel cantou a sua ultima producção: «Os labios da Carola». Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do Dr. Campos; mas ninguem alludiu a isso. Ouviram-mo com interesse e elle foi muito acclamado. Olga tocou no velho piano de D. Adelaide; e, antes das onze horas, estavam todos recolhidos.
Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, deitado, poz-se a ler um velho elogio das riquezas e opulencias do Brasil.
A casa estava em silencio; do lado de fora, não havia a minima bulha. Os sapos tinham suspendido um instante a sua orchestra nocturna. Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinario! pensou. Da despensa, que ficava junto a seu aposento, vinha um ruido extranho. Apurou o ouvido e prestou attenção. Os sapos recomeçaram o seu hymno. Havia vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia á outra, num dado instante todas se juntaram num unisono sustentado. Suspenderam um instante a musica. O Major apurou o ouvido; o ruido continuava. Que era? Eram uns estalos tenues; pareciam que quebravam gravetos, que deixavam outros cahir ao chão... Os sapos recomeçaram; o regente deu uma martellada e logo vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas cinco paginas. Os batrachios pararam; a bulha continuava. O Major levantou-se, agarrou o castiçal e foi á dependencia da casa donde partia o ruido, assim mesmo como estava, em camisa de dormir.
Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma ferroada no peito do pé. Quasi gritou. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme sauva agarrada com toda a furia á sua pelle magra. Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no assoalho, lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão, cujos recipientes tinham sido deixados abertos por inadvertencia. O chão estava negro, e carregadas com os grãos, ellas, em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade subterranea.
Quiz afugental-as. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e cada vez mais o exercito augmentava. Veiu uma mordeu-o, depois outra, e o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não poude aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cahir.
Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu daquelle infimo inimigo que, talvez, nem mesmo á luz radiante do sól, o visse distinctamente...
IV
«PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»
D. Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro annos mais que elle. Era uma bella velha, com um corpo médio, uma tez que começava a adquirir aquella patina da grande velhice, uma espessa cabelleira já inteiramente amarellada e um olhar tranquillo, calmo e doce. Fria, sem imaginação, de intelligencia lucida e positiva, em tudo formava um grande contraste com o irmão; comtudo, nunca houve entre elles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ella não entendia nem procurava entender a substancia do irmão, e sobre elle em nada reagia aquelle ser methodico, ordenado e organizado, de idéas simples, medias e claras.
Ella já attingira aos cincoenta e elle para lá marchava; mas ambos tinham ar saudavel, poucos achaques, e promettiam ainda muita vida. A existencia calma, doce e regrada que tinham levado até ali, concorrera muito para a boa saude de ambos. Quaresma incubou as suas manias até depois dos quarenta e ella nunca tivera qualquer.
Para D. Adelaide, a vida era cousa simples, era viver, isto é, ter uma casa, jantar e almoço, vestuario, tudo modesto, medio. Não tinha ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara principes, bellezas, triumphos, nem mesmo um marido. Se não casou foi porque não sentiu necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ella sempre se sentiu completa.
O seu aspecto tranquillo e o socego dos seus olhos verdes, de um brilho lunar de esmeralda, emolduravam e realçavam naquelle interior familiar a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão.
Não se vá suppor que Quaresma andasse transtornado como um doido. Felizmente não. Na apparencia até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se examinassem os seus habitos, gestos e attitudes logo se havia de ver que o socego e a placidez não moravam no seu pensamento.
Occasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao longe o horizonte, perdido em scisma; outras, isso quando no trabalho da roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o olhar no chão, demorava-se assim um instante, coçando uma mão com a outra, dava depois um muchocho, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação ou uma phrase.
Anastacio em taes instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O antigo escravo não os sabia mais fixar, e nada dizia; Felizardo continuava a contar a fuga da filha do Custodio com o Manduca da venda; e o trabalho marchava.
Inutil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a não ser no jantar e nas primeiras horas do dia elles viviam separados. Quaresma na roça, nas plantações, e ella superintendendo o serviço domestico.
As outras pessoas de suas relações não podiam tambem notar as preoccupações absorventes do Major, pelo simples motivo de que estavam longe.
Ricardo havia seis mezes que não lhe visitava e da afilhada e do compadre as ultimas cartas que recebera, datavam de uma semana, não vendo aquella ha tanto tempo, quanto ao trovador e aquelle desde quasi um anno, isto é, o tempo em que estava no «Socego».
Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo approveitamento de suas terras. Os seus habitos não foram mudados e a sua actividade continuava sempre a mesma. É verdade que deixara de parte os instrumentos de meteorologia.
O hygrometro, o barometro e os outros companheiros não eram mais consultados e as observações registradas num caderno. Dera-se mal com elles. Fosse inexperiencia e ignorancia das bases theoricas delles, fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia baseado em combinações dos seus dados, sahiam erradas. Se esperava tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava chuva, lá vinha secca.
Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus apparelhos, com aquelle grosso e cavernoso sorriso de troglodyta:
—Quá patrão! Isso de chuva vem quando Deus qué.
O barometro aneroide continuava a um canto a dansar o seu ponteiro sem ser percebido; o thermometro de maxima e minima, legitimo Casella, jazia dependurado na varanda sem receber um olhar amigo; a caçamba do pluviometro estava no gallinheiro e servia de bebedouro ás aves; só o anemometro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no alto do mastro, como se protestasse contra aquelle desprezo pela sciencia que Quaresma representava.
Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido, embora tendo deixado de ser publica, lavrava occultamente. Havia no seu espirito e no seu caracter uma vontade de acabal-a de vez, mas como? Se não o accusavam, se não articulavam nada contra elle directamente? Era um combate com sombras, com apparencias, que seria ridiculo acceitar.
De resto, a situação geral que o cercava, aquella miseria da população campestre que nunca suspeitara, aquelle abandono de terras á improductividade, encaminhavam sua alma de patriota meditativo a preoccupações angustiosas.
Via o Major com tristeza não existir naquella gente humilde sentimento de solidariedade, de apoio mutuo. Não se associavam para cousa alguma e viviam separados, isolados, em familias geralmente irregulares, sem sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto, tinham bem perto o exemplo dos portuguezes que, unidos aos seis e mais, conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importancia, lucrar e viver. Mesmo o velho costume do moitirão já se havia apagado.
Como remediar isso?
Quaresma desesperava...
A tal affirmação de falta de braços pareceu-lhe uma affirmação de má fé ou estupida, e estupido ou de má fé era o Governo que os andava importando aos milhares, sem se preoccupar com os que já existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia duzia de cabeças de gado, fossem introduzidas mais tres, para augmenter o estrume!...
Pelo seu caso, elle via bem as difficuldades, os obices de toda a sorte que havia para fazer a terra productiva e remunerada. Um facto veiu mostrar-lhe com eloquencia um dos aspectos da questão. Vencendo a herva de passarinho, os maus tratos e o abandono de tantos annos, os abacateiros de suas terras conseguiram fructificar, fracamente é verdade, mas de forma superior ás necessidades de sua casa.
A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a terra, sempre mãe e sempre virgem. Tratou de vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria comprar por preços infimos. Com decisão foi ao Rio procurar comprador. Andou de porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que procurasse um tal Sr. Azevedo no Mercado, o rei das fructas. Lá foi.
—Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos!
—Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela duzia cinco mil réis.
—Em porção, o Sr. sabe que...
—É isso... Emfim, se quer mande-os...
Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôz uma das mãos na cava do collete e quasi de costas para o Major:
—É preciso vel-os... O tamanho influe...
Quaresma os mandou e, quando lhe veiu o dinheiro, teve a satisfação orgulhosa, de quem acaba de ganhar uma grande batalha immortal. Acariciou uma por uma aquellas notas encardidas, leu-lhes bem o numero e a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma meza e muito tempo levou sem animo de trocal-as.
Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça, o custo dos caixões, o salario dos auxiliares e, após esse calculo que não era laborioso, teve a evidencia de que ganhara 1$500, mil e quinhentos réis, nem mais nem menos. O Sr. Azevedo tinha-lhe pago pelo cento a quantia com que se compra uma duzia.
Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e elle viu naquelle ridiculo lucro objecto para maior contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.
Foi, portanto, com redobrada actividade que se poz ao trabalho. Para o anno, o lucro seria maior. Tratava-se agora de limpar as fructeiras. Anastacio e Felizardo continuavam occupados nas grandes plantações; contratou um outro empregado para ajudal-o no tratamento das velhas arvores fructiferas.
Foi, pois, com o Mané Candieiro que elle se pôz a serrar os galhos das arvores, os galhos mortos e aquelles em que a herva damninha segurava as suas raizes. Era arduo e difficil o trabalho. Tinham ás vezes que subir ás grimpas para a extirparão do galho attingido; os espinhos rasgavam as roupas e feriam as carnes; e em muitas occasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada.
Mané Candieiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de caça; mas cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a cantar trovas roceiras, ingenuas, onde com surpreza o Major não via entrar a fauna, a flora locaes, os costumes das profissões roceiras. Eram vaporosamente sensuaes e muito ternas, mellosas até; por acaso lá vinha uma em que um passaro local entrara; então o Major escutava.