Triste Fim de Policarpo Quaresma
Segunda Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Como deu o bacuráo,
Uma perna no cantinho
Outra no galho de páu.
Este bacuráo que entrava ahi satisfazia particularmente ás aspirações de Quaresma. A observação popular já começava a interessar-se pelo espectaculo ambiente, já se emocionava com elle e a nossa raça deitava, portanto, raizes na grande terra que habitara. Elle a copiou e mandou ao velho poeta de S. Christovão. Felizardo dizia que Mané Candieiro era um mentiroso, pois todas aquellas caçadas do caitetus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento poetico, principalmente no desafio: o moleque é bom!
Elle era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e fortes, um tanto amollecidas pelo sangue africano.
Quaresma procurou descobrir nelle aquella odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços; mas, sinceramente, não a encontrou.
Com auxilio de Mané Candieiro, foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fructeiras daquelle velho sitio abandonado ha quasi dez annos. Quando o serviço ficou prompto, elle viu com tristeza aquellas velhas arvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali... Pareciam soffrer e elle se lembrou das mãos que as tinham plantado ha vinte ou trinta annos, escravos, talvez, banzeiros e desesperançados!...
Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdescesse, e o renascimento das arvores como que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tyês vermelhos, com o seu pio pobre, especie de ave tão inutil e tão bella de plumas que parece ter nascido para os chapéos das damas; as rolas pardas e caboclas em bando, mariscando, no chão capinado; pelo correr do dia, eram os sanhassús a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens de colleiros; e de tarde como que todos elles se reuniam, piando, cantando, chilreando, pelas altas mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma.
Não durou muito essa alegria. Um inimigo appareceu inopinadamente, com a rapidez ousadissima de um general consumado. Até ali elle se mostrara timido, parecia que sómente mandava esclarecedores.
Desde aquelle ataque ás provisões de Quaresma, logo afugentadas, não mais as formigas reappareceram; mas, naquella manhã, quando contemplou o seu milharal, foi como se lhe tirassem a alma, e ficou sem acção e as lagrimas lhe vieram aos olhos.
O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez de criança, crescera cerca de meio palmo acima da terra; o Major até mandara buscar o sulphato de cobre para a solução em que ia lavar a batata ingleza a plantar nos intervallos dos pés.
Toda a manhã, elle ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho, oscillando ao vento: naquella, elle não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe! A modo que e obra de gente, disse Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terriveis hymhopteros, piratas infimos que lhe cahiam em cima do trabalho com uma rapacidade turca... Era preciso combatel-os. Quaresma poz-se logo em campo, descobriu as aberturas principaes do formigueiro e em cada uma queimou a formicida mortal. Passaram-se dias: os inimigos pareciam derrotados; mas, certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrellada, Quaresma ouviu uma bulha exquisita, como se alguem esmagasse as folhas mortas das arvores... Um estalido... E era perto... Accendeu um phosphoro e o que viu, meu Deus! Quasi todas as larangeiras estavam negras de iminensas saúvas. Havia dellas ás centenas, pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam; nada de atropellos, de confusão, de desordem. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas cortavam as folhas pelo peciolo; cá em baixo, outras serravam-nas em pedaços e afinal eram carregadas por terceiros, levantando-as acima da descomunal cabeça, era longas fileiras pelo trilho limpo, aberto entre a herva rasteira.
Houve um instante de desanimo na alma do Major. Não tinha contado com aquelle obstaculo nem o suppuzera tão forte. Agora via bem que era a uma sociedade intelligente, organizada, ouzada e tenaz com quem se tinha de haver. Veio-lhe então á lembrança aquella phrase de Saint-Hilaire: se nós não expulsássemos as formigas ellas nos expulsariam.
O Major não estava lembrado ao certo se eram essas palavras, mas o sentido era, e ficou admirado que só agora ella lhe ocorresse.
No dia seguinte, tinha recobrado o amino. Comprou ingredientes e eil-o mais o Mané Candieiro, a abrir picadas a fazer esforços de sagacidade, para descobrir os reductos centraes, as panellas dos insectos terriveis. Então era como se os bombardeassem: o sulpheto queimava, estourava em tiros seguidos, mortiferos, lethaes!
E dahi em diante, foi uma batalha sem treguas. Se apparecia uma abertura, um olho, logo se lhe applicava a formicida, pois do contrario, nenhuma plantação era possivel, tanto mais que extinctos os das suas terras, não tardariam os formigueiros das visinhanças ou dos logradouros publicos a deitar caniculos para o seu terreno.
Era um supplicio, um castigo, uma especie de vigilancia a dique hollandez e Quaresma viu bem que só uma autoridade central, um governo qualquer, ou um accôrdo entre os cultivadores, podia levar a effeito a extincção daquelle flagello, peor que a saraiva, que a geada, que a secca, sempre presente, inverno ou verão, outomno ou primavera.
Não obstante essa luta diaria, o Major não desanimou e pôde colher alguns productos das plantações que tinha feito. Se por occasião das fructas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda ella foi, quando viu partir para a estação em successivas carretas, as aboboras, os aipins, as batatas doces, em cestos cobertos com saccos cozidos. Os fructos, em parte, eram de outras mãos; as arvores não tinham sido plantadas por elle; mas aquillo não, vinha do seu suor, da sua iniciativa, do seu trabalho!
Elle ainda foi ver aquelles cestos na estação, com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a gloria, e para a victoria. Recebeu o dinheiro dias depois, contou o e esteve deduzindo os lucros.
Não foi á roça nesse dia; o trabalho de guarda livros roubou o de cultivador. A sua attenção, já um tanto gasta, não lhe favorecia a tarefa das cifras, e só pelo meio do dia, pôde dizer a irmã:
—Sabes qual foi o lucro, Adelaide?
—Não, menor do que o dos abacates?
—Um pouco mais.
—Então... Quanto?
—Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando syllaba por syllaba.
—O que?
—Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil quinhentos.
D. Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura que fazia, depois, levantando o olhar:
—Homem, Polycarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito dinheiro... Só com as formigas!
—Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo, levantar a agricultura, aproveitar as nossas terras feracissimas...
—É isto... Queres sempre ser a abelha mestra... Já viste os grandes fazerem esses sacrificios... Vê lá se fazem! Historias... Mettem-se no café que tem todas as protecções...
—Mas, faço eu.
A irmã prestou mais attenção a costura, Polycarpo levantou-se, foi até á janella que dava para o gallinheiro. Fazia um dia fosco e irritante. Elle concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou:
—Oh! Adelaide! Aquillo não é uma gallinha morta...
A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até á janella e verificou com a vista:
—É... É já a segunda que morre hoje.
Após esta leve conversa, Quaresma voltou á sua sala de estudos. Meditava grandes reformas agricolas. Mandara buscar catalogos e ia examinal-os. Tinha já em mente uma charrúa dupla, um capinador mecanico, um semeador, um deslocador, grades, tudo americano, de aço, dando o rendimento effectivo de 20 homens. Até então, não quizera essas innovações; as terras mais ricas do mundo, não precisaram desse processos que lhe pareciam artificiaes, para produzir; estava, porém, agora disposto a empregal-os como experiencia. Aos adubos, no entretanto, o seu espirito resistia. Terra virada, dizia Felizardo, terra estrumada; parecia o Quaresma uma profanação estar a empregar nitratos, phosphatos ou mesmo estrume commum, numa terra brasileira... Uma injuria!
Quando se convencesse de que eram necessarios, parecia-lhe que todo o seu systema de idéas ia por terra e os moveis de sua vida desappareceriam. Estava assim a escolher arados e outros «Planets», «Bajacs» e «Brabants» de varios feitios, quando o seu pequeno copeiro lhe annunciou a visita do dr. Campos.
O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão, e o seu grande corpo. Era alto e gordo, pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos, quasi á flôr do rosto, uma testa média e recta: o nariz, mal feito. Um tanto trigueiro, cabellos corridos e já grisalhos, era o que se chama por ahi um caboclo, embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera em Curuzú, era da Bahia ou de Sergipe, habitava, porém, o logar ha mais de vinte annos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher e á sua actividade clinica. Com esta, não gastava grande energia, mental: tendo de côr uma meia duzia de receitas, elle, desde muito, conseguira enquadrar as molestias locaes no seu reduzido formulario.
Presidente da Camara, era das pessoas mais consideraveis da Curuzú, e Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela sua affabilidade e simplicidade.
—Ora, viva Major! Como vai isto por ahi? muita formiga? Lá em casa já não ha mais.
Quaresma respondeu com menor enthusiasmo e jovialidade, mas comente com a alegria communicativa do doutor. Elle continuava a falar com desembaraço e naturalidade:
—Sabe o que me traz aqui, Major? Não sabe, não é? Preciso de um pequeno obsequio seu.
O Major não se espantou; sympathizava com o homem e abriu-se em offerecimentos.
—Como o Major sabe...
Agora a sua voz era doce, flexivel, subtil; as palavras cahiam-lhe da boca adocicadas, dobravam-se, colleavam-se:
—Como o Major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A victoria é nossa. Todas as mezas estão comnosco, excepto uma... Ahi mesmo, se o Major quizer...
—Mas, como? se eu não sou eleitor, não me metto, nem quero metter-me em politica? perguntou Quaresma ingenuamente.
—Exactamente por isso, disse o doutor com voz forte: e em seguida brandamente: a secção funcciona na sua vizinhança, é ali, na escola, se...
—E dahi?
—Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o Major quer responder (é melhor já) que não houve eleição... Quer?
Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavaignac e respondeu claramente, firmemente:
—Absolutamente não.
O doutor não se zangou. Pôz mais uncção e maciez a na voz, adduziu argumentos: que era para o partido, o unico que pugnava pelo levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexivel; disse que não, que lhe eram absolutamente antipathicas taes disputas, que não tinha partido e mesmo que tivesse não iria affirmar uma cousa que elle não sabia ainda se era mentira ou verdade.
Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre cousas banaes e despediu-se com o ar amavel, com a jovialidade mais sua que era possivel.
Isto se passou na terça-feira, naquelle dia de luz fosca e irritante. Á tarde houve trovoada, choveu muito. O tempo só levantou na quinta-feira, dia em que o Major foi surprehendido com a visita de um sujeito com um uniforme velho e lamentavel, portador de um papel official para elle, proprietario do «Socego», conforme mesmo disse o tal homem fardado.
Em virtude das posturas e leis municipaes, rezava o papel, O Sr. Polycarpo Quaresma, proprietario do sitio «Socego» era intimado, sob as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e capinar as testadas do referido sitio que confrontavam com as vias publicas.
O Major ficou um tempo pensando. Julgava impossivel uma tal intimação. Seria mesmo? Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assignatura do Dr. Campos. Era certo... Mas que absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na extensão de mil duzentos metros, pois seu sitio dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de oitocentos metros—era possivel!?
A antiga corvéa!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sitio. Consultando a irmã, ella lhe aconselhou que falasse ao Dr. Campos. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com elle dias antes.
—Mas és tolo, Polycarpo. Foi elle mesmo...
A luz se lhe fez no pensamento... Aquella rede de leis, de posturas, de codigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de taes caciques, se transformava em pôtro, em polé, em instrumento de supplicios para torturar os inimigos, opprimir as populações, crestar-lhes a iniciativa e a independencia, abatendo-as e desmoralizando-as.
Pelos seus olhos passaram num instante aquellas faces amarelladas e chupadas que se encostavam nos portaes das vendas preguiçosamente; viu tambem aquellas crianças maltrapilhas e sujas, d'olhos baixos, a esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquellas terras abandonadas, improductivas, entregues ás hervas e insectos damninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, activo e trabalhador, sem animo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas mãos—este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do relampago; e só se apagou de todo, quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara.
Vinha viva e alegre. Contava pequenas historias de sua vida, a viagem proxima do papai, á Europa, o desespero do marido no dia em que sahiu sem annel, pedia noticias do padrinho, de D. Adelaide e, sem desrespeito, recommendava á irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de arminho da «Duqueza».
A «Duqueza» era uma grande pata branca, de penas alvas a macias ao olhar, que, pela lentidão e magestade do andar, com o pescoço alto e o passo firme, merecera de Olga esse appellido nobre. O animal tinha morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas duzias de patos, levara a «Duqueza» tambem. Era uma especie de paralysia que tomava as pernas, depois o resto do corpo. Tres dias levou a agonizar. Deitada sobre o peito, com o bico collado ao chão, atacada pelas formigas, o animal só dava signal de vida por uma lenta oscillação do pescoço em torno do bico, espantando as moscas que a importunavam na sua ultima hora.
Era de ver como aquella vida tão extranha á nossa, naquelle instante penetrava em nós e sentiamo-lhe o soffrimento, a agonia e a dôr.
O gallinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou gallinhas, perús, patos; ora sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando, matando, até reduzir a sua população a menos de metade.
E não havia quem soubesse curar. Numa terra, cujo Governo tinha tantas escolas que produziam tantos sabios, não havia um só homem que pudesse reduzir, com as suas drogas ou receitas aquelle consideravel prejuizo.
Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador enthusiastico dos primeiros mezes; entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propositos. Adquiriu compendios de veterinaria e até já tratava de comprar as machinas agricolas descriptas nos catalogos.
Uma tarde, porém, estava á espera da junta de bois que encommendara para o trabalho do arado, quando lhe appareceu á porta um soldado de policia com um papel official. Elle se lembrou da intimação municipal. Estava disposto a resistir, não se incommodou muito.
Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da collectoria, cujo escrivão, Antonio Dutra, conforme estava no papel, intimava o Sr. Polycarpo Quaresma a pagar quinhentos mil réis de multa, por ter enviado productos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos impostos.
Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento voou logo para as cousas geraes, levado pelo seu patriotismo profundo.
A quarenta kilometros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas? Depois de Turgot da Revolução, ainda havia alfandegas interiores?
Como era possivel fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos? Se ao monopolio dos atravessadores do Rio se juntavam as exacções do Estado, como era possivel tirar da terra a remuneração consoladora?
E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais tetrico, mais sombrio, mais lugubre; e anteviu a epoca em que aquella gente teria de comer sapo, cobras, animaes mortos, como em França os camponezes, em tempos de grandes reis.
Quaresma veiu a recordar-se do seu tupy, do seu folk-lore, das modinhas, das suas tentativas agricolas—tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil.
Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessario refazer a administração. Imaginava um Governo forte, respeitado, intelligente, removendo todos esses obices, esses entraves, Sully e Henrique IV, espalhando sabias leis agrarias, levantando o cultivador... Então sim! O celleiro surgiria e a patria seria feliz.
Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar á estação, e lhe disse:
—Seu patrão, amanhã não venho trabaiá.
—Por certo; é dia feriado... A Independencia.
—Não é por isso.
—Porque então?
—Ha baruio na Côrte e dizem que vão arrecutá. Vou p'r'o mato... Nada!
—Que barulho?
—Tá nas foias, sim sinhô.
Abriu o jornal e logo deu com a noticia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e intimado ao Presidente a sahir do poder. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás; um Governo forte, até á tyrannia... Medidas agrarias... Sully e Henrique IV...
Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao interior da casa, nada disse á irmã, tomou o chapéo, e dirigiu-se á estação.
Chegou ao telegrapho e escreveu: «Marechal Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já.—Quaresma».
V
O TROVADOR
—De certo, Albernaz, não é possivel continuar assim... Então, mette-se um sujeito num navio, assesta os canhões p'ra terra e diz: sai d'ahi seu presidente; e o homem vai sahindo?... Não! É preciso um exemplo....
—Eu penso tambem da mesma maneira, Caldas. A Republica precisa ficar forte, consolidada... Esta terra necessita de Governo que se faça respeitar... É incrivel! Um paiz como este, tão rico, talvez o mais rico do mundo, é, no emtanto, pobre, deve a todo o mundo... Porque? Por causa dos Governos que temos tido que não têm prestigio, força... É por isso.
Vinham andando, á sombra das grandes e magestosas arvores do parque abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto intervallo, continuou:
—Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por ahi, que o não chamasse de «banana» e outras cousas... Sahia no Carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um intruso.
—E era um bom homem, observou o Almirante. Amava o seu paiz... Deodoro nunca soube o que fez.
Continuavam a andar. O Almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos os lados, accendeu o cigarro de palha e retomou a conversa:
—Morreu arrependido... Nem com a farda quiz ir para a cóva!... Aqui para nós que ninguem nos ouve: foi um ingrato; o Imperador tinha feito tanto por toda a familia, não acha?
—Não ha duvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa: estavamos melhor naquelle tempo, digam lá o que disserem...
—Quem diz o contrario? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias? um Rio Branco?
—E mais justiça mesmo, disse com firmeza o Almirante. O que eu soffri, não foi por causa do velho, foi a canalha... Demais, tudo barato...
—Eu não sei, disse Albernaz com particular accento, como ha ainda quem se case... Anda tudo pela hora da morte!
Elles olharam um instante as velhas arvores da Quinta Imperial, por onde vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre amores tão soberbas, tão bellas, tão tranquillas e seguras de si, como aquellas que espalhavam sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam que medravam sentindo-se em terra propria, dellas, da qual nunca sahiriam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. O sólo sobre a qual cresciam, era dellas e agradeciam á terra extendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem, para dar á boa mãe, frescura e protecção contra a inclemencia do sol.
As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas, quasi beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se inclinavam, de um lado e outro da aléa, e cobriam a terra com uma ogiva verde...
O velho edificio imperial se erguia sobre a pequena collina. Elles lhe viam o fundo, aquella parte de construcção mais antiga, joannina, com a torre do relogio um pouco afastada e separada do corpo do edificio.
Não era bello o palacio, não tinha mesmo nenhum traço de belleza, era até pobre e monotono. As janellas acanhadas daquella fachada velha, os andares de pequena altura impressionavam mal; todo elle, porém, tinha uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco commum nas nossas habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente viver, não para um instante, mas para annos, para seculos... As palmeiras cercavam-n'o, erectas, firmes, com es seus grandes penachos verdes, muito altos, alongados para o céo...
Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do seu mister e funcção.
Albernaz interrompeu o silencio:
—Em que dará isto tudo, Caldas?
—Sei lá.
—O homem deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o Custodio... hum!
—O poder é o poder, Albernaz.
Vinham andando em demanda á estação de S. Christovão. Atravessaram o velho parque imperial transversalmente, desde o portão da Cancella até á linha da Estrada de Ferro. Era de manhã, e o dia estava limpido e fresco.
Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de sahirem da Quinta, deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz teve vontade de acordal-o: camarada! camarada! O soldado levantou-se estremunhado: e, dando com aquelles dous officiaes superiores, concertou-se rapidamente, fez a continencia que lhes era devida e ficou com a mão no bonet, um instante firme, mas logo bambeou.
—Abaixe a mão, fez o General. Que faz você aqui?
Albernaz falou em tom rispido e de commando. A praça, falando a medo, explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. A força se recolhera aos quarteis; elle obtivera licença para ir em casa, mas o somno fôra muito e descançava ali um pouco.
—Então como vão as cousas? perguntou o General.
—Não sei, não sinhô.
—Os homens desistem ou não?
O General esteve um instante examinando o soldado, Era branco e tinha os cabellos alourados, de um louro sujo e degradado; as feições eram feias: mallares salientes, testa ossea e todo elle anguloso e desconjuntado.
—Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.
—Do Piauhy, sim sinhô.
—Da capital?
—Do sertão, de Paranaguá, sim sinhô.
O Almirante até ali não interrogara o soldado que continuava amedrontado, respondendo tropegamente. Caldas, para acalmal-o, resolveu falar-lhe com doçura.
—Você não sabe, camarada, quaes são os navios que elles têm?
—O «Aquidaban»... A «Lucy».
—A «Lucy» não é navio.
—É verdade, sim; sinhô. O «Aquidaban»... Um bandão delles, sim, sinhô.
O General interveio então. Falou-lhe com brandura, quasi paternal, mudando o tratamento de você para tu, que parece mais doce e intimo quando se fala aos inferiores:
—Bem, descança, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te o sabre e estás na ignacia.
Os dous generaes continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na plataforma, da estação. A pequena estação tinha um razoavel movimento. Um grande numero de officiaes, activos, reformados, honorarios moravam-lhe nas cercanias e os editaes chamavam todos a se apresentar ás autoridades competentes. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio de continencias. O General, era mais conhecido em virtude de seu emprego; o Almirante, não. Quando passavam, ouviam perguntar: «quem é este Almirante»? Caldas ficava contente e orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incognito.
Havia uma unica mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua filha Ismenia... Coitada!... Ficaria boa?
Aquellas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lagrimas, mas elle as reteve com força.
Já a levara a uma meia duzia de medicos e nenhum fazia parar aquelle escapamento do juizo que parecia fugir aos poucos do cerebro da moça.
A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrepido, apitando com furia e deixando fumaça pesada, pelos ares que rompia, afastou-o de pensar na filha. Passou o monstro, pejado de soldados, de uniformes e os trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam.
Bustamante appareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para apresentar-se. Trazia o seu velho uniforme do Paraguay, talhado segundo os moldes dos guerreiros da Criméa. A barretina era um tronco de cône que avançava para a frente; e, com aquella banda roxa e casaquinha curta, parecia ter sahido, fugido, saltado de uma téla de Victor Meirelles.
—Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorario.
—Viemos pela Quinta, disse o Almirante.
—Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me importa morrer, mas quero morrer combatendo; isso de morrer por ahi, á toa, sem saber como, não vai commigo...
O General falara um pouco alto e os jovens officiaes que estavam proximo, olharam-n'o com mal disfarçada censura. Albernaz percebeu e ajuntou immmediatamente:
—Conheço bem esse negocio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe, Bustamante, que, em Curuzú...
—A cousa foi terrivel, accrescentou Bustamante.
O trem atracava na estação. Veiu chegando manso, vagaroso, a locomotiva, muito negra, bufando, sumido gordurosamente, com a sua grande lanterna na frente, um olho de cyclope, avançava que nem uma apparição sobrenattural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e parou por fim.
Estava repleto, muitas fardas de officiaes, a avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares palravam alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados. Se falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de traz.
A cidade andava inçada de secretas, familiares do Santo Officio Republicano, e as delações eram moedas com que se obtinham postos e recompensas.
Bastava a minima critica, para se perder o emprego, a liberdade,—quem sabe?—a vida tambem. Ainda estavamos no começo da revolta, mas o regimen já publicara o seu prologo e todos estavam avisados. O chefe de policia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distincção de posição e talentos. Mereciam as mesmas perseguições do Governo um pobre continuo e um influente senador; um lente e um simples empregado de escriptorio. Demais surgiam as vinganças! mesquinhas, a revide de pequenas implicancias... Todos mandavam: a autoridade estava em todas as mãos.
Em nome do Marechal Floriano, qualquer official, ou mesmo cidadão, sem funcção publica alguma, prendia e ai de quem cahia na prisão, lá ficava esquecido, soffrendo angustiosos supplicios de uma imaginação dominicana. Os funccionarios disputavam-se em bajulação, em servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, ás occultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier Tinville.
Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a companhia, a todos esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto o hypocrita positivismo, um pedantismo tyrannico, limitado e estreito, que justificava todas as violencias, todos os assassinios todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessaria, lá diz elle, ao progresso e tambem ao advento do regimen normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com fanhosas musicas de cornetins e versos detestaveis, o paraizo emfim, com inscripções em escriptura phonetica e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!...
Os positivistas discutiam e citavam theoremas de mecanica para justificar as suas idéas de Governo, em tudo semelhantes aos khanatos e emirados orientaes.
A mathematica do positivismo foi sempre um puro falatorio que, naquelles tempos, amedrontava toda a gente. Havia mesmo quem estivesse convencido que a mathematica tinha sido feita e criada para o positivismo, como se a Biblia estivesse sido criada unicamente para a Igreja Catholica e não tambem para a Anglicana. O prestigio delle era, portanto, enorme.
O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter á praça da Republica. O Almirante, cozido com as paredes, seguiu para o Arsenal de Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel General. Penetraram no grande casarão, no meio do retinir de espadas, de tiques de cornetas; o grande pateo estava cheio de soldados, bandeiras, canhões, feixes de armas ensarilhadas, bayonetas reluzindo ao sol obliquo...
No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vai-e-vem de fardas, dourados, fazendas multicores, uniformes de varias corporações e milicias, no meio dos quaes os trages escuros dos civis eram importunos como moscas. Misturavam-se officiaes da guarda nacional, da policia, da armada, do exercito, de bombeiros e de batalhões patrioticos que começavam a surgir.
Apresentaram-se e, depois de tel-o feito ao Ajudante General e Ministro da Guerra, a um só tempo, ficaram a conversar nos corredores, com bastante prazer, pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos gostavam de ouvil-o.
O General porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque aprendia com elle alguma cousa de nomenclatura dos armamentos modernos.
Fontes estava indignado, todo elle era horror, maldição contra os insurrectos, e propunha os peores castigos.
—Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do Marechal, se os pegasse... ai delles!
O Tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era positivista e tinha da sua Republica uma idéa religiosa e transcendente. Fazia repousar nella toda a felicidade humana e não admittia que a quizessem de outra forma que não aquella que imaginava boa. Fóra dahi não havia boa fé, sinceriddae; eram hereticos interesseiros, e, dominicano do seu barrete phrygio, raivoso por não poder queimal-os em autos de fé, congesto, via passar por seus olhos uma serie enorme de réos confitentes, relapsos, contumazes, falsos, simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por ahi...
Albernaz não tinha tanta furia contra os adversarios. No fundo d'alma, elle os queria até, tinha amigos lá, e essas divergencias nada significavam para a sua idade e experiencia.
Depositava, entretanto, uma certa esperança na acção do Marechal. Estando em apuros financeiros, não lhe dando o bastante a sua reforma e a gratificação de organizador do archivo do largo do Moura, esperava obter uma outra commissão, que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o enxoval de Lalá.
O Almirante, tambem, tinha grande confiança nos talentos guerreiros e de estadista de Floriano. A sua causa não ia lá muito bem. Perdera-a em primeira instancia, estava gastando muito dinheiro... O Governo precisava de officiais de marinha, quasi todos estavam na revolta; talvez lhe dessem uma esquadra a commandar... É verdade que... Mas, que diabo! Se fosse um navio, então sim: mas uma esquadra a cousa não era difficil: bastava coragem para combater.
Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim que, para apoial-o e defender o seu Governo, imaginava organizar um batalhão patriotico, de que já tinha o nome «Cruzeiro do Sul» e naturalmente seria o seu commandante, com todas as vantagens do posto de coronel.
Genelicio, cuja actividade nada tinha de guerreira, esperava muito da energia e da decisão do Governo de Floriano: esperava ser sub-director e não podia um Governo sério, honesto e energico, fazer outra cousa, desde que quizesse pôr ordem na sua secção.
Essas secretas esperanças eram mais geraes do que se pode suppor. Nós vivemos do Governo e a revolta representava uma confusão nos empregos, nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações suppririam os titulos e habilitações para occupal-as; além disso, o Governo, precisando de sympathias e homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar, inventar, criar e distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.
O proprio Dr. Armando Borges, o marido de Olga e sabio sereno e dedicado quando estudante, collocava na revolta a realização de risonhos anhelos.
Medico e rico, pela fortuna da mulher, elle não andava satisfeito. A ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-n'o. Já era medico do Hospital Syrio, onde ia tres vezes por semana e, em meia hora, via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro, dava-lhe informações, o doutor ia de cama em cama, perguntando: como vai? Vou melhor seu doutor, respondia o syrio com voz gutural. Na seguinte, indagava: Já está melhor? E assim passava a visita; chegando ao gabinete receitava: doente n. 1, repita a receita; doente 5... quem é?... Quem é aquelle barbado... Ahn! E receitava.
Mas medico de um hospital particular não dá fama a ninguem: o indispensavel é ser do Governo, senão elle não passava, de um simples pratico. Queria ter um cargo official, medico, director ou mesmo lente da Faculdade.
E isso não era difficil, desde que arranjasse boas recommendações, pois já tinha certo nome, graças á sua actividade e fertilidade de recursos.
De quando em quando, publicava um folheto «O cobreiro, Etiologia, Prophylaxia e tratamento» ou «Contribuição para o estudo da sarna no Brasil»; e mandava o folheto, quarenta e sessenta paginas, aos jornaes que se occupavam delle duas ou tres vezes por anno; o operoso, Dr. Armando Borges, o illustre clinico, o proficiente medico da nossos hospitaes, etc. etc.
Obtinha isso graças á precaução que tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da imprensa.
Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que não havia nada de proprio, mas ricos de citações em francez, inglez e allemão.
O logar de lente é que o tentava mais; o concurso porém, mettia-lhe medo. Tinha elementos, estava bem relacionado e cotado na Congregação, mas aquella historia de arguição apavorava-o.
Não havia dia em que não comprasse livros, em francez, inglez e italiano; tomara até um professor de allemão para entrar na sciencia germanica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando estudante.
A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em bibliotheca. As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados. Ar noite, elle abria as janellas das venezianas, accendia todos os bicos de gaz e se punha á meza, todo de branco com um livro aberto sob os olhos.
O somno não tardava a vir ao fim da quinta pagina... isso era o diabo! Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances francezes, Goncourt, Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira que os tratados. Elle não comprehendia a grandeza daquellas analyses, daquellas descripções, o interesse e o valor dellas, revelando a todos, á sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daquelles personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa sciencia e a pobreza de sua instrucção geral faziam-n'o ver naquillo tudo, brinquedos, passatempos, falatorios, tanto mais que elle dormia á leitura, de taes livros.
Precisava, porém, illudir-se, a si mesmo e á mulher. De resto, da rua, viam-n'o e se dessem com elle a dormir sobre os livros?!... Tratou de encommendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com titulos trocados e afastou o somno.
A sua clinica, entretanto, prosperava. De commandita com o tutor, chegou a ganhar uns seis contos, tratando de um febrão de uma orphã rica.
Desde muito que a mulher lhe entrara na sua simulação de intelligencia, mas aquella manobra indecorosa, indignou-a. Que necessidade tinha elle disso? Não era já rico? Não era moço? Não tinha o privilegio de um titulo universitario? Tal acto pareceu á moça mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o aluguel de uma penna...
Não foi desprezo, nojo que ella teve pelo marido; foi um sentimento mais calmo, menos activo; desinteressou-se delle, destacou-se de sua pessoa. Ella sentiu que tinham cortado todos os laços de affeição, de sympathia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, emfim.
Mesmo quando noiva, verificara que aquellas cousas de amor ao estudo, de interesse pela sciencia, de ambições de descobertas, nelle, eram superficiaes, estavam á flor da pelle; mas desculpou. Muitas vezes nós nos enganamos sobre as nossas proprias forças e capacidades; sonhamos ser Shakespeare e sahimos Mal dos Vinhas. Era perdoavel, mas charlatão? Era de mais!
Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quasi indignidade?... Todos os homens deviam ser iguaes, era inutil mudar deste para aquelle...
Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande allivio, e a sua physionomia se illuminou de novo como se já estivesse de todo passada a nuvem que empanava o sol dos seus olhos.
Naquella carreira atropellada para o nome facil, elle não deu pelas modificações da mulher. Ella dissimulava os seus sentimentos, mais por dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro motivo; e a elle faltavam a sagacidade e finura necessarias para descobril-os sob o seu esconderijo.
Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quando estavam longe um do outro!...
A revolta veiu encontral-os assim; e o doutor, desde tres dias, pois ha tanto ella rebentara, meditava a sua ascenção social e monetaria.
O sogro suspendera a viagem á Europa, e, naquella manhã, após o almoço, conforme o seu habito, lia recostado numa cadeira de viagem os jornaes do dia. O genro vestia-se e a filha; occupava-se com sua correspondencia, escrevendo á cabeceira da meza de jantar. Ella tinha um gabinete, com todo o luxo, livros, secretaria, estantes, mas gostava pela manhã, de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe parecia mais clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever.
Ella escrevia e o pai lia; num dado momento elle disse:
—Sabes quem vem ahi, minha filha?
—Quem é?
—Teu padrinho. Telegraphou ao Floriano, dizendo que vinha... Está aqui, n'«O Paiz».
A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir do facto sobre as idéas e sentimentos de Quaresma. Quiz desapprovar, censurar; sentiu-o, porém, tão coherente com elle mesmo, tão de accordo com a substancia da vida que elle mesmo fabricara, que se limitou a sorrir complacente:
—O padrinho...
—Está doido, disse Coleoni. Per la madona! Pois um homem que está quieto, socegado, vem metter-se nesta barafunda, neste inferno...
O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca funebre e a cartola reluzente na mão. Vinha irradiante e o seu rosto redondo reluzia, excepto onde o grande bigode punha sombras. Ainda ouviu as ultimas palavras do sogro, pronunciadas com aquelle seu portuguez rouco.
—Que ha? perguntou elle.
Coleoni explicou a repetiu os commentarios que já fizera:
—Mas não ha tal, disse o doutor. É o dever de todo o patriota... Que tem a idade? Quarenta e poucos annos, não é lá velho... Póde ainda bater-se pela Republica...
—Mas não tem interesse nisso, objectou o velho.
—E ha de ser só quem tem interesse que se deve bater pela Republica? interrogou o doutor.
A moça que acabava de ler a carta que tinha escripto, mesmo sem levantar a cabeça, disse:
—De certo.
—É vêm você com as suas theorias, filhinha. O patriotismo não está na barriga...
E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes postiços mais falsificava.
—Mas vocês só falam em patriotismo? E os outros! É monopolio de vocês o patriotismo? fez Olga.
—De certo. Se elles fossem patriotas não estariam a despejar balas para a cidade, a entorpecer e desmoralisar a acção da autoridade constituida.
—Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações, os fuzilamentos, toda a serie de violencias que se vêm commettendo, aqui e no Sul?
—Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor fechando a discussão.
Ella não deixava de ser. A sympathia dos desinteressados, da população. inteira era pelos insurgentes. Não só isso sempre acontece em toda a parte, como particularmente, no Brasil, devido a multiplos factores, ha de ser assim normalmente.
Os Governos, com os seus inevitaveis processos de violencia e hypocrisias, ficam alheiados da sympathia dos que acreditam nelle; e demais, esquecidos de sua vital impotencia e inutilidade, levam a prometter o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e mudanças.
Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para os revoltosos; e Coleoni, estrangeiro e conhecendo, graças á sua vida, as nossas autoridades, calasse as suas sympathias num mutismo prudente.
—Não me vá comprometter, hein Olga?
Ella se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco, deitou-lhe o seu grande olhar luminoso e com os finos labios um pouco franzidos:
—Você sabe bem que eu não te comprometto.
O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do portão disse adeus a mulher, que lhe seguiu a sahida, debruçada na varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados.
Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das contingencias terrenas.
Ricardo vivia ainda na sua casa de commodos dos suburbios, cuja vista ia de Todos os Santos á Piedade, abrangendo um grande trato de area edificada, um panorama de casas e arvores.
Já não se falava mais no seu rival e a sua magua tinha assentado.
Por esses dias o seu triumpho desfilava sem contestação. Toda a cidade o tinha na consideração devida e elle quasi se julgava ao termo da sua carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo de obter.
Já publicara mais de um volume de canções; e, agora pensava em publicar mais outro.
Ha dias vivia em casa, pouco sahindo, organizando o seu livro. Passava confinado no seu quarto, almoçando café, que elle mesmo fazia, e pão, indo á tarde jantar a uma tasca proximo á estação.
Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que jantavam nas mezas sujas, abaixavam a voz e olhavam-n'o desconfiados; mas não deu importancia...
Apezar de popular no logar, não encontrara pessoa alguma conhecida durante os tres ultimos dias; elle mesmo evitava falar e, em sua casa, limitava-se ao «bom dia» e á «boa tarde» trocados com os vizinhos.
Gostava de passar assim dias, mettido em si mesmo e ouvindo o seu coração. Não lia jornaes para não distrahir a attenção do seu trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de ser mais uma victoria para elle e para o violão estremecido.
Naquella tarde estava sentado á meza, corrigindo um dos seus trabalhos, um dos ultimos, aquelle que compuzera no sitio de Quaresma—«Os lábios de Carola».
Primeiro, leu toda a producção, cantarolando: voltou a lel-a, agarrou o violão para melhor apanhar o effeito e empacou nestes:
Quando sorri meneando a ventarola.
Só se encontra a illusão que adoça a vida
Nos labios de Carola.
Nisto ouviu um tiro, depois outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os labios de Carola, onde encontrava a illusão que adoça a vida...