Uma trajetória da Arquivística a partir da Análise do Discurso
Considerações finais
O percurso histórico-discursivo da Arquivística é fundamental, uma vez que fornece bases para os estudos de ordem teórico-epistemológica na área. A Arquivística, em seu caráter teórico, é bastante discutida, porém pouco fundamentada em termos históricos e conceituais. Procuramos tratá-la enquanto um domínio com possibilidades científicas, ainda que determinadas pela condição de existência dos arquivos institucionalizados.
Os estudos históricos em Arquivística tendem ao cronológico e descritivo, em um universo particular à própria disciplina. Ou seja, a contextualização histórica não é uma prática comum aos estudos teórico-epistemológicos das disciplinas relacionadas à informação e aos documentos. No caso da Arquivística, esses estudos são bastante escassos, sobretudo em língua portuguesa.
Esforços dessa ordem tendem à naturalização e ao status disciplinar da Arquivística, isto é, tratam a teoria de modo evolutivo e contínuo, e a disciplina, como um espaço aberto, passível de interpretação não só no que se refere à sua teoria, mas também ao seu lugar conceitual e histórico. Assim, o espaço aqui discutido não se encontra fechado.
Identificaram-se duas vertentes no núcleo da disciplina Arquivística, uma preocupada com a manutenção e replicação de conceitos previamente estabelecidos, com características profissionalizantes. Ainda que a nomenclatura se modifique, o conceito e a compreensão permanecem os mesmos. Existe uma mudança aparente e discursiva, porém não constitui uma modificação de terreno real. Por outro lado, tem-se uma perspectiva que irá inovar a partir da década de 1980, aplicando a análise funcional e contextual como prática central em todas as funções arquivísticas. Essa abordagem demonstra, no seu centro, características democráticas, a busca pela socialização dos arquivos e pela superação dos modelos preestabelecidos e da compreensão física dos conceitos arquivísticos, pois os documentos passam a ser produzidos e geridos eletronicamente.
A discussão do percurso espanhol mostrou alguns caminhos da Arquivística local, circunscrevendo seu campo de atuação e o âmbito no qual os arquivos são tratados. Um país com relação direta com os países latino-americanos e com o Brasil, em que a conexão entre o contexto estatal e o aparelho ideológico dita as condições de existência da teoria e da prática arquivística.
As mudanças ocorridas no início do século XIX demarcaram o aparecimento dos arquivos modernos na Espanha. A influência francesa perpetua-se ao longo do século XIX, com o aparecimento da Escuela Superior de Diplomática, incidindo diretamente no perfil dos arquivistas espanhóis, para além daquela época.
O século XX, marcado por instabilidades político-econômicas e pela ditadura franquista, vivenciará dificuldades na ampliação conceitual da Arquivística no país. A situação só começa a alterar-se com a redemocratização, a partir do final da década de 1970.
O discurso produzido pela Arquivística espanhola versará por um viés que apoia as questões metodológicas e técnicas, em detrimento das questões conceituais e epistemológicas, ainda que tenha produzido, mais recentemente, textos voltados para a discussão de teorias.
Proliferam, ao longo dos anos de 1980 e 1990, manuais e obras voltados para a discussão dos parâmetros metodológicos e científicos da Arquivística, endossando a acepção de que a disciplina, na Espanha, por sua condição de existência, estabelece-se de forma tecnicista e voltada para questões eminentemente histórico-culturais, reflexos de uma prática arquivística iniciada no século XIX.
Como foi discutido ao longo do Capítulo 4, o Canadá apresentou-se como um território fértil para a discussão e a aplicação de ideias inovadoras em seus arquivos, visando melhor representar e permitir o acesso aos documentos de arquivos.
O modo como a Arquivística foi construída no país, com a proximidade com a História e com a importância dada pelos governos locais aos documentos de arquivo, provou-se benéfico para o desenvolvimento teórico da disciplina, ainda que esta só inicie seu percurso teórico de maneira ascendente a partir dos anos de 1960. As décadas seguintes representam o crescimento de uma profissão, em primeira instância, e de um universo de discussão teórico-prática, em segunda instância.
A realidade do discurso pós-moderno/funcional defendido por Cook e Nesmith e outros autores, para além das fronteiras canadenses, apresenta uma interpelação profunda com as discussões de Hurley e outros a respeito do funcionalismo ou não das funções nucleares da Arquivística. A função e a análise funcional assumem, na prática e na teoria canadense, outro patamar, tratando-se de uma mudança de terreno da disciplina. As relações entre Canadá, Austrália e, mais recentemente, África do Sul têm se mostrado campo fértil para a discussão de metodologias para o tratamento de arquivos.
O panorama histórico-discursivo do Canadá apresenta-se de modo profundamente diferente daquele da realidade espanhola. Assim, a dinâmica institucional e ideológica estabelece pontos de “choque” com a realidade europeia, possibilitando uma análise discursivo-histórica interessante sobre como a máquina discursiva funciona na Arquivística.
No que diz respeito ao cenário brasileiro, observou-se maior desenvolvimento da disciplina nos últimos dez anos. Foi apresentado um panorama da teoria arquivística e como ela foi ou não agregada à teoria e à prática brasileira. Assim, intentou-se demarcar o campo histórico-conceitual da Arquivística no Brasil, pois por ele estabelece-se a discursividade da disciplina.
Objetivou-se, na pesquisa que originou este livro, filiar-se a essa trajetória, uma vez que é improvável qualquer teoria desligar-se do seu contexto discursivo e de seu momento no contínuo do espaço– tempo.
Ainda, ao longo dos dois capítulos iniciais, foram abordados aspectos históricos e conceituais da Análise do Discurso, intentando contextualizar as práticas e as teorias da disciplina, para com isso facilitar a compreensão de seus conceitos, que são metodológicos. Por meio dessas noções, trabalhou-se o discurso da Arquivística. Além disso, demarcadas as filiações teóricas, procurou-se não silenciar em relação a nenhum dos aspectos teóricos que contribuíram para a construção da Análise do Discurso filiada à obra de Michel Pêcheux.
Através dos conceitos e do percurso teórico-metodológico da Análise do Discurso, foram realizadas as análises, utilizando a noção de representação arquivística como um recorte para a compreensão da discursividade estabelecida na Arquivística.
Como qualquer outra produção textual, essa análise encontra-se interpelada pelo poder, pela ideologia e por sua própria historicidade, afastando-se da aparente neutralidade e esterilidade/naturalização a que o próprio discurso do gênero científico tenta se prender.
O reconhecimento de uma dualidade constitutiva da linguagem, isto é, do seu caráter ao mesmo tempo formal e atravessado por entradas subjetivas, sociais e históricas, provoca um deslocamento nos estudos de fenômenos extralinguísticos, levando às análises discursivas.
Quando se procedeu à análise, tendo como base o recorte conceitual e o recorte geográfico, percebeu-se uma disciplina em construção, com características comuns a outras áreas, em especial a das Ciências Sociais.
Percebeu-se também que o discurso teórico tem reflexo direto no desenvolvimento (ou não) de práticas voltadas para o tratamento dos arquivos, e estabeleceu-se um percurso histórico e conceitual da Arquivística nos contextos estudados.
A Arquivística, ainda que constitua uma área recente, apresentou, em seu estágio inicial e no desenvolvimento posterior, saltos teóricos e práticos, à medida que ocorriam mudanças institucionais, sociais ou paradigmáticas, que começam a acontecer a partir da década de 1980, uma vez que o campo entra em crise, seja pela descentralização administrativa, seja pela produção eletrônica de documentos.
Os rearranjos metodológicos e o desenvolvimento de novas políticas, como no caso da macroavaliação, buscam preservar de maneira mais eficiente documentos considerados essenciais, para os direitos e deveres fundamentais de determinada sociedade, sem cair na dicotomia reducionista dos valores primários/secundários.
Se em algum momento da história da área a proveniência era compreendida de maneira restrita e o papel do arquivista resumia-se ao de guardião documental, hoje, ainda que a “santidade” da prova paire sob algumas políticas advindas de países europeus, a realidade é que a Arquivística precisa caminhar para além de sua perspectiva moderna.
Foram feitas considerações, com um viés histórico-dicursivo, a respeito do percurso da Arquivística. Essa é uma das características fundamentais da Análise do Discurso, que pode contribuir para desvendar e demonstrar relações que se estabelecem entre áreas do saber, posições ideológicas ocupadas em determinada conjuntura. Também permite focar determinada instituição ou política, ou determinado grupo social que percebe o arquivista ou o descreve.
Em nosso gesto de leitura, buscamos reconhecer padrões, desvendar posições e, no estudo do arquivo da própria Arquivística, reconhecer a disciplina em termos teóricos e institucionais. Um arquivista ou estudioso de Arquivística que conhece a história da sua área está muito mais bem preparado para ampliar e redefinir aspectos de sua atuação, e é só por meio de estudos históricos que se podem provocar mudanças e ampliações em seu campo teórico.
O espaço discursivo nunca é fechado, sempre é passível de novas análises e novas percepções. Estudos de ordem epistemológica são fundamentais para a Arquivística, filiada à Ciência da Informação, à História e outras disciplinas, porém, sem perder seu caráter específico.
Percebeu-se que existe um caminho reformista na área, e talvez seja esse o caminho para a teoria arquivística. A reforma e a redefinição encontram-se, em maior ou menor grau, em todas as tradições, porém sem uma sistematização ou estudos que identifiquem as diferenças e semelhanças entre as diferentes abordagens reformistas. Assim, estudos futuros poderão ampliar o horizonte de análise e focar especificamente como se dá, em quais lugares e situações o “reformismo” ocorre na Arquivística.