Visões do Brasil: estudos culturais em geografia

Francine Barthe-Deloizy · Capítulo 8 de 11

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Visões do Brasil: estudos culturais em geografia

Capítulo 7Relações entre Capoeira e Internet: táticas de territorialização no espaço urbano de Salvador, BahiaAngelo Serpa, Henrique Araújo e Sérgio Borges

Relações entre Capoeira e Internet:

táticas de territorialização no espaço

urbano de Salvador, Bahia

 

Angelo Serpa, Henrique Araújo e Sérgio Borges

Introdução

A pesquisa intitulada “Relações entre Capoeira e Internet: Táticas de territorialização nos bairros populares de Salvador, Bahia” foi desenvolvida como parte integrante de um projeto maior sobre a apropriação sócio-espacial dos meios de comunicação nos bairros populares da cidade contemporânea, que vem sendo realizado desde 2007 no Departamento de Geografia da Universidade Federal da Bahia, no âmbito das atividades do Grupo Espaço Livre de Pesquisa-Ação. Neste contexto, partimos da premissa de que a relação entre lugar e mídia produz o espaço urbano na contemporaneidade, a partir de táticas e discursos próprios aos agentes e grupos que compõem as diferentes iniciativas nos bairros populares da capital baiana. Busca-se proceder a uma análise fenomenológica e praxeológica das trajetórias culturais dos agentes e grupos que produzem e reproduzem ideias alternativas de cultura, apreendendo a composição dos lugares onde estes grupos atuam, bem como a inovação que modifica estes lugares ao atravessá-los, por sua abrangência de atuação (Certeau, 2003).

De especial interesse é o entendimento das práticas cotidianas de apropriação dos meios de comunicação por estes agentes e grupos como do tipo “tática”, que podem apresentar continuidades e permanências. Através destas práticas estes agentes vão traçar “trajetórias indeterminadas” que parecem não guardar coerência com o “espaço construído, escrito e pré-fabricado onde se movimentam. São frases imprevisíveis num lugar ordenado pelas técnicas organizadoras de sistemas”. (Certeau, 1994, p. 97) Busca-se, em suma, compreender como os lugares se refletem nessas iniciativas e como essas iniciativas encontram rebatimento nos respectivos lugares de ocorrência.

Com esta nova pesquisa, buscávamos levantar, no universo virtual da Internet, comunidades, perfis e blogs relacionados com a Capoeira, identificando os agentes e grupos que se apropriam deste meio de comunicação específico nos bairros de Salvador. Partíamos da ideia que seria possível espacializar os agentes e grupos responsáveis pela apropriação do universo virtual da internet na capital baiana, analisando suas táticas de territorialização no espaço urbano. Ressalte-se que esta territorialização baseia-se em um processo de apropriação espacial a um só tempo funcional e simbólico, nos termos colocados por Lefebvre (2000). Nestes termos, a apropriação/territorialização inclui o afetivo, o imaginário, o sonho, o corpo e o prazer, que caracterizariam o homem como espontaneidade, como energia vital. (Seabra, 1996)

Nos últimos anos, vem se estabelecendo em Salvador uma relação mais intensa entre a Capoeira e seus grupos com o universo virtual da internet, mais especificamente através do Orkut, uma rede virtual de comunidades filiada ao Google, criada em 19 de Janeiro de

2004. 1 Esta ferramenta vem sendo utilizada como veículo de comunicação e informação a serviço desta prática cultural, num processo de apropriação sócio-espacial de um veículo de comunicação virtual por uma cultura de “identidade nacional”.

A Capoeira é uma tradição popular de matriz africana que surge no Brasil, mais precisamente no período colonial, como um instrumento de luta e liberdade para os negros escravizados, particularmente expressiva em cidades como Salvador, Rio de Janeiro e Belém do Pará. A “arte-luta”, representada pelos movimentos das danças e rituais dos negros, constituiu-se em um modo de resistência, manifestado inicialmente em praças, áreas portuárias, próximo às

igrejas ou das estalagens onde viviam os escravos “de ganho”. 2 (Röhring-Assunção, 2004, p. 366)

A sua história é marcada pelas perseguições policiais aos praticantes, comumente chamados de “vagabundos” e considerados “perigosos” para o restante da sociedade. Para Oliveira e Leal (2009), a segunda metade do século XIX foi um período marcado por campanhas em favor da migração européia, como também pela violenta repressão às práticas culturais de matriz africana, confirmando o projeto de “embranquecimento” cultural do Brasil.

A partir da década de 1930, a capoeiragem deixa de ser considerada “entrave” para o desenvolvimento da nação, período marcado por muitas transformações no universo da Capoeira no Brasil, como afirmam Oliveira e Leal no livro Capoeira, identidade e gênero, de 2009. Nessa época, a Capoeira adquiriu outra significação que não a associada ao mundo do crime. Ela passa a ser considerada como uma luta genuinamente brasileira, através de estudos inovadores sobre os negros no Brasil, substituindo a categoria “raça” pela categoria “cultura”, como é o caso dos trabalhos dos cientistas sociais Arthur Ramos, Edson Carneiro e Gilberto Freyre.

Conforme Fonseca (2008), “com a chegada de Getulio Vargas ao poder, a partir de 1930, aprofundando-se ao longo do Estado Novo, passa a operar um novo processo de construção da identidade nacional”. (Fonseca, 2008, p. 9) É no bojo desse processo, que a figura do mestiço deixa de ser vista de modo negativo e a Capoeira passa a ser considerada prática lícita, deixando de figurar no Código Penal em 1937.

Após mais de meio século de criminalização, a Capoeira desfruta hoje de certo reconhecimento como uma prática fundamental no processo de formação da identidade brasileira, o que justificou sua titulação como bem artístico e cultural, registrado pelo patrimônio nacional. Desde julho de 2008, a Capoeira passou a fazer parte do registro dos bens culturais brasileiros, tombada como patrimônio imaterial do Brasil, com base em sua historiografia e importância para a identidade nacional pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (Oliveira; Leal, 2009).

Ao longo de sua história, a Capoeira demonstra uma forte ligação com os estados da Bahia e do Rio de Janeiro. Em sua trajetória, seus praticantes desenvolvem um processo de reinvenção e criação de identidades particulares, expressas através das novas modalidades criadas, como a Capoeira Regional e a Capoeira Angola:

A partir de 1932 – ano em que foi fundada a primeira academia

de Capoeira no Brasil, em ambiente fechado – Manoel dos Reis

Machado (Mestre Bimba), na Bahia, consagrou a Capoeira

como uma luta, sob a denominação de Luta Regional Baiana,

bastante agressiva. Alguns outros mestres, porém, adotaram a

corrente de Vicente Ferreira Pastinha (Mestre Pastinha) e

formaram o Centro Esportivo da Capoeira de Angola, com ritmo

cadenciado e com movimentos mais dançantes. A partir desses

estilos, vão se formar os dois grandes grupos da Capoeira do

país: a Regional e a Angola. (ELIA, 2006, p. 20)

Outras nomenclaturas vêm surgindo mais recentemente: Capoeira Contemporânea, Angonal ou Atual, como uma tentativa de unificação das modalidades anteriores. Segundo Oliveira e Leal (2009), a história da Capoeira apresenta a peculiaridade de ser uma dinâmica cultural em reinvenção constante, “um fenômeno inusitado de representação da identidade nacional às avessas”, pois exprime o paradoxo “de ser uma arte marginalizada pelos diversos projetos nacionais e ao mesmo tempo um instrumento incomparável de divulgação da história e da cultura brasileira pelo resto do mundo”. (Oliveira; Leal, 2009, p. 55)

Para alcançar os resultados apresentados neste capítulo, foram realizadas dez entrevistas com participantes ativos das comunidades virtuais ligadas à Capoeira, pré-selecionadas através

de pesquisas feitas no 3 Orkut . As entrevistas foram realizadas nos bairros de Itapuã, Calabar, Bonfim (Ponta de Humaitá), Ondina, Santo Antônio Além do Carmo e Stella Maris, mais especificamente nas sedes dos grupos de Capoeira ou em colégios/escolas, nos quais são oferecidos cursos de Capoeira pelos Mestres (e, em

alguns casos, Contra-Mestres) das comunidades pesquisadas4 (Ver

Figura 1, mapa de localização).

Optou-se pelas entrevistas com os Mestres e Contra-Mestres dos grupos de Capoeira (em detrimento de entrevistas com um maior

número de praticantes5 ligados aos grupos mapeados), em função da liderança que exercem em suas respectivas localidades de atuação e por exercerem também papel preponderante na disponibilização de conteúdos na rede mundial de computadores.

 

Figura 1

Mudança de significados

Na visão de alguns Mestres, a Capoeira, antes considerada um “mal social”, é revalorizada dentro de outra lógica, a partir das estratégias de resistência dos grupos existentes na cidade:

Hoje, a Capoeira é tombada como patrimônio imaterial cultural

do Brasil, mas não foi sempre assim, ela foi reprimida, seus

praticantes foram reprimidos, e minha infância foi cheia de

repressão, porque eu era capoeirista, no entanto eu nunca fui

malandro. (Mestre Máximo)

A partir da sistematização do ensino de Capoeira nas escolas, ela passa a ser ministrada em escolas públicas e privadas em praticamente todos os bairros da cidade:

a gente costuma dizer que a Capoeira deixou de ser um

esporte, uma luta do negro, pra se tornar um esporte do branco.

Hoje em dia você chega nas escolas da Pituba, Ondina,

Amaralina, quase todas as escolas têm Capoeira. […] É como

se fosse a matéria Educação Física. (Paulo Bonfim)

Para alguns dos entrevistados, a Capoeira foi, ao longo deste processo, se modernizando, perdendo algumas de suas características originais, saindo das ruas e ganhando os palcos, com mudanças, inclusive, da indumentária utilizada, a partir do trabalho pioneiro de Emilia Biancardi, iniciando-se aí a chamada vertente “contemporânea”: “porque até então tanto a Regional, quanto a Angola jogavam de sapato e ela colocou uma indumentária colorida, uma calça, tirou a camisa do capoeirista, padronizou a roupa dos shows e levou isso para o palco, tirou da rua” (Mestre Aristides).

Analisando-se as entrevistas realizadas, é evidente que os grupos de Capoeira, através, sobretudo, da atuação dos Mestres, têm um grande significado para os locais onde atuam, graças aos trabalhos de inclusão social realizados com jovens. Muitos Mestres articulam projetos sociais nos bairros onde residem e/ou onde seus grupos estão inseridos: “meu trabalho social já tem 14 anos aqui dentro desse espaço (…) meu grupo foi o primeiro em Itapuã a montar um projeto social, para a gurizada aqui do Coqueirinho”. (Mestre Tosta)

O principal argumento para a articulação de um trabalho assim é o da alta incidência do tráfico e do consumo de drogas em determinadas localidades e a possibilidade de contribuir para a formação moral e ética das crianças e dos jovens, através da Capoeira, buscando-se minimizar também os índices de violência urbana e de criminalidade nos locais de atuação dos grupos:

O grupo aqui começou por causa do alto índice de drogas […]

pra tentar combater as drogas, porque é muita criança, muito

adolescente, passa pra ser menino de recado, aí ganha cinco,

ganha dez, e é fácil, aí vicia, aí quando a mãe fecha o olho, que

abre, o menino já tá dentro, como muito menino aqui. (Mestre

Malvina)

Em passado relativamente recente, a Capoeira era vista, como ressaltado na introdução deste capítulo, como uma prática criminosa e marginal, passando, progressivamente, por um processo de renovação/revalorização. Mesmo assim, nos dias atuais, os praticantes da Capoeira ainda sofrem com o estigma e o preconceito, isso mesmo depois de ter sido tombada como patrimônio cultural imaterial e se revelado como importante instrumento de inserção social e cultural em muitos bairros e cidades.

Dentro de Salvador existe um preconceito muito grande […] a

sociedade vê até hoje a Capoeira como coisa de malandro, de

moleque, até hoje se evita ir para um grande grupo, se a

Capoeira estiver na escola rica do menininho, o filhinho do

burguesinho participa, mas se não estiver na escolinha do

burguesinho, ele não participa, ele não vai buscar uma

academia, entendeu? Ele não vê a Capoeira com a importância

que ela tem, como instrumento de educação, de formação de

caráter e da personalidade. (Mestre Aristides)

Em entrevistas concedidas no âmbito desta pesquisa, Mestre Boca Rica, com 74 anos, e BibaRenata, com 19 anos, falam como começaram a praticar Capoeira e das dificuldades encontradas por eles para sua iniciação:

Gostei da Capoeira, aí falei com minha mãe, com meu pai, aí

eles, não, Capoeira não, negócio de malandro, de moleque,

eles falaram comigo, aí teve um tio que disse, não, deixa ele

fazer a Capoeira dele, ele é um menino direito e trabalhador,

deixa ele fazer a Capoeira dele. (Mestre Boca Rica)

Teve um dia que a Capoeira foi para o condomínio onde eu

morava, aí cheguei lá e vi um grupo treinando, sempre ficava na

janela vendo, na época eu não podia fazer, porque minha mãe

não queria que eu fizesse, por causa de uma galera que tava

fazendo. (BibaRenata)

Os 55 anos de diferença de idade entre ambos os entrevistados mostram que as dificuldades persistem, deixando assim evidentes o estigma e o preconceito relacionados com a prática da Capoeira em Salvador. O depoimento de BibaRenata, única representante feminina no universo de nossos entrevistados, demonstra também que a presença das mulheres entre os praticantes de Capoeira em Salvador ainda é pequena na atualidade, especialmente entre aqueles com maior graduação na hierarquia da dança-luta (Contra-Mestres e Mestres). As mulheres capoeiristas sempre representaram uma minoria entre os capoeiristas, embora Oliveira e Leal (2009) já registrem sua presença entre os praticantes de Capoeira no século XIX, na cidade de Belém do Pará.

A espacialização da Capoeira nos bairros de

Salvador

Os grupos de Capoeira e seus respectivos Mestres e professores estão inseridos em diversos espaços de Salvador, expandindo seu raio de atuação por muitos bairros da cidade: “O Camugerê, hoje, presta serviço na rede particular a 28 escolas, de Vilas do Atlântico a Brotas, Paripe, Pituba, Boca do Rio”. (Mestre Tosta) Dentre os grupos pesquisados, a maioria tem uma ou mais ramificações para além da localidade de origem, possibilitando, inclusive, um maior fluxo de informações entre eles em Salvador.

Muitas escolas particulares entendem a Capoeira como esporte e oferecem esta possibilidade a seus alunos como opção na matéria Educação Física. Isso abriu e vem abrindo novas portas para o mercado de trabalho da Capoeira e alguns Mestres têm aproveitado esta oportunidade como estratégia de sobrevivência

É mais difícil ainda, tem que ter conhecimento, a não ser

quando o cara trabalha em escola particular, aí o cara consegue

viver de Capoeira, como Mestre Caroço, Mestre Dalto e outros,

que dão aula prá gente de condição, mas prá gente que

trabalha em comunidade é difícil. (Mestre Malvina)

Com as dificuldades encontradas para sobreviver da Capoeira, apenas dando aulas nas sedes de seus grupos, muitos capoeiristas, sobretudo os Mestres, têm procurado instituições privadas, principalmente escolas, ou condomínios de classe média, para lecionar em busca de melhores condições financeiras:

Eu dou aula mais em escolas particulares, concentrado muito

em Stella Maris, colégio Interação, Acampamento dos Anjos,

sede do condomínio Petromar, condomínio Sol do Flamengo,

Coqueiros de Itapuã, na Pituba no colégio Nossa Infância, e em

Itapuã no colégio Marat. (Mestre Caroço)

Alguns grupos de Capoeira vêm expandindo seus limites territoriais para além dos locais de origem e se ramificando por toda a cidade de Salvador. Como já explicitado, isso se deve à introdução da Capoeira no universo das escolas públicas e particulares e à necessidade de Mestres buscarem alternativas de sobrevivência, consolidando, assim, novos locais de atuação na cidade.

Em alguns casos, os grupos atuam em diversos bairros pela grande quantidade de participantes com alta graduação (Mestres e Contra-Mestres), formando, assim, novos núcleos em seus próprios bairros ou em outras áreas da cidade e mantendo o nome do grupo do qual participa, como o grupo UNICAR, que, segundo Paulo Bonfim, atua “na Pedra Furada (seu local de origem), na Vasco da Gama, na Baixa da Égua e no Matatu de Brotas”.

Existe, por outro lado, uma relação muito forte de pertencimento ao espaço de atuação entre os grupos analisados. Segundo os Mestres, não há propriamente uma escolha do local de estabelecimento do grupo, mas sim uma intima relação de identidade com os bairros de origem: “Tem relação de identidade sim, eu nasci e fui criado aqui, meu Mestre me ensinou Capoeira aqui”. (Mestre Malvina)

Mestres e grupos passam, dessa maneira, a ser sinônimo dos locais onde atuam, pela relação criada entre eles através da Capoeira:

Existe, quando se fala de Capoeira em Ondina, Aristides,

quando se fala de Capoeira no Calabar, Mestre Cezar, de

Capoeira na Boca do Rio, Mestre Nô, entendeu? Na Cidade

Baixa, Bonfim, Mestre Angola, Mestre Um Por Um, então tem

esses expoentes, que são as pessoas que já militam nesses

locais e criaram essa relação de identidade. (Mestre Aristides)

Em muitos bairros, os capoeiristas, em sua grande maioria os Mestres, são tomados como referências, principalmente pela relação existente entre os grupos de Capoeira e os projetos de inclusão social, assim como pela relação de identidade criada entre o Mestre e o bairro através da convivência construída no cotidiano da localidade. Isso leva a população destes bairros de atuação dos grupos a, muitas vezes, elevar o Mestre a uma posição de referência (ética, moral, cultural) em seu local de atuação:

Você é o reflexo de onde você vive, de certa forma, salvo

exceções, dizem que se você quer conhecer um Mestre de

Capoeira, pergunte onde ele viveu e todo mundo vai falar como

ele é, isso é uma relação (…) o Mestre de Capoeira, isso aí eu

acredito que todo mundo pense assim, só se torna Mestre

quando a comunidade onde ele mora o reconhece e quando o

meio capoeiristico o consagra. (BibaRenata)

Percebe-se que as táticas de territorialização dos grupos de Capoeira na cidade se dão em função, sobretudo, do “enraizamento” da atuação dos Mestres (e Contra-Mestres) em cada localidade. Pode-se afirmar, inclusive, que a ramificação dos grupos em outros bairros depende sobremaneira do maior ou menor enraizamento dos grupos nos respectivos bairros de origem. São esses grupos “enraizados” nos lugares urbanos que vão construir de modo mais eficiente suas táticas de apropriação da internet (em especial do Orkut) para ampliar seu raio de atuação em outros recortes espaciais, extrapolando, muitas vezes, os limites da cidade de Salvador, como veremos na próxima seção.

A inserção da Capoeira no universo virtual

Com a informatização e a velocidade que permeia as relações interpessoais e a troca de informações no mundo contemporâneo, grupos de Capoeira vão se inserindo paulatinamente no assim chamado “universo virtual”. Neste contexto, eles vêm quebrando comportamentos tradicionalistas e intensificando a comunicação entre grupos através da rede mundial de computadores, principalmente como usuários dos sites de relacionamento (as redes sociais), a exemplo do Orkut, que possibilitam o encurtamento das distâncias entre grupos e Mestres:

Na realidade a internet veio facilitar pra gente a questão da

comunicação, a questão de você poder estar enviando convites,

não estar sempre ali tendo que ir na academia do cara pra ter

um contato com ele, evitando um grande deslocamento,

fazendo as coisas mais rápido. (Mestre Reginaldo)

Com o crescimento da Capoeira e sua rápida ramificação por diversos lugares, dentro e fora do Brasil, criou-se uma necessidade de comunicação entre Mestres do mesmo grupo ou de grupos diferentes, que estão no Brasil ou no exterior. A internet vai estreitar e intensificar este tipo de comunicação: “vejo que é uma grande ferramenta, sim, tanto é que todo meu contato quando fui a Paris, foi todo feito pelo MSN e Orkut” (Mestre Maximo). As pesquisas realizadas confirmaram que a internet é o meio mais utilizado para realização desses contatos, pela velocidade e por seu (relativo) baixo custo:

E, para nós, capoeiristas, fica muito mais fácil, porque a ligação

do Brasil para o exterior fica caro e é complicado, tanto eles

ligarem para cá, como a gente ligar para eles. Pela internet fica

muito mais fácil, utilizando o Orkut nos contatos, para estar

divulgando os eventos. (Paulo Bonfim)

A comunicação entre grupos vem sendo, portanto, intensificada, e isso se deve também à necessidade de divulgação dos diversos eventos de Capoeira pelos Mestres (rodas de Capoeira, batizados, reuniões, seminários, etc.). Dessa forma, a internet funciona também para os grupos como uma ferramenta de divulgação: “podem ser enviados projetos, convites de eventos de Capoeira, convites para rodas, convites para dar palestras e receber palestras, fazer reuniões, através do Orkut e do MSN”. (Mestre Caroço)

Com a facilidade encontrada atualmente para a divulgação e o acesso de imagens e vídeos, cresce também o interesse de grupos em disponibilizá-los na internet para divulgação e promoção da Capoeira, o que, por seu lado, vem atraindo novos praticantes:

Eu procurei saber como é que o pessoal do meu grupo

começou a praticar a Capoeira lá em Cingapura e no exterior

[…] eles tomaram conhecimento da Capoeira, naquele filme,

Esporte Sangrento, no Brasil é conhecido como Esporte

Sangrento, mas o nome é The strong, o mais forte, e eles

tomaram conhecimento através disso, alguns tomaram

conhecimento através da internet e começaram a praticar com

música de Capoeira e vendo algumas coisas na internet.

(Mestre Geni)

A partir dos vídeos e imagens, divulgados na rede mundial de computadores, muitos têm se apropriado da prática e da cultura da Capoeira: “tem muita gente se desenvolvendo através da internet, pesquisando, vendo jogo de Capoeira, buscando informações, muita gente vem se desenvolvendo assim”. (Mestre Geni)

Porém, muitos grupos de Capoeira vêm sendo segregados pela dificuldade que encontram em acessar a rede mundial de computadores: “infelizmente parece que todo mundo tem acesso a internet, mas não é todo mundo que tem acesso, a gente fala ‘pô, globalização’, mas não é todo mundo que tem esse acesso”. (Mestre Caroço) Com o aumento do uso da internet, para divulgação de trabalhos, envio de convites para palestras, batizados e eventos ligados à Capoeira, muitos grupos vêm enfrentando dificuldades para se inserir nesse contexto “virtual”:

Então isso tem prejudicado muitos capoeiristas, eu estou sendo

prejudicado por causa disso, muitos, eu quero ter contato e não

estou tendo, eu quero chamar um Mestre lá do Subúrbio e ele

não tem Orkut, tem Mestre também aqui por cima, que não tem

Orkut, e às vezes eu estou sem comunicação, sem o telefone

deles. (Mestre Caroço)

Alguns capoeiristas deixam, portanto, de participar de eventos importantes por conta dessa limitação. Muitos até têm acesso, em lan houses, na casa de parentes ou vizinhos, mas encontram dificuldades por não saberem como utilizar a internet como ferramenta, o que dificulta, segundo Mestre Aristides, “a troca de conhecimento, os convites e, principalmente, a divulgação dos eventos, é muito importante para os capoeiristas que eles estejam presentes nos eventos”.

Percebe-se, ao se analisar a Figura 1, que os grupos de Capoeira com comunidades mais ativas e dinâmicas no Orkut concentram-se no bairro de Itapuã, no centro antigo da cidade ou em áreas próximas, como no Calabar ou em Ondina. Há também uma concentração de sedes de grupos no Forte de Santo Antônio Além do Carmo, construído pelos colonizadores portugueses entre os anos de 1695 e 1703 e requalificado pelo poder público justamente para abrigar, desde 2006, o projeto “Forte da Capoeira”. O local abriga atualmente pátio para atividades, memorial alusivo aos grandes Mestres da Capoeira baiana e salas de aula. No Forte há ainda videoteca e biblioteca e um anexo para reunião e lazer dos

grupos Figuras 2a, 2b e 2c.

Figura 2 (a, b, c): Forte da Capoeira em Salvador.

Fonte: Os autores.

Embora os grupos de Capoeira se disseminem por todos os bairros da cidade, uma análise preliminar da espacialidade dos grupos na

Figura 1 sugere que são naquelas áreas da cidade melhor infraestruturadas (inclusive com melhor qualidade de serviços de acesso à rede mundial de computadores) onde vão se concentrar os grupos com comunidades mais ativas no Orkut, levantados através de nossas pesquisas, em detrimento de áreas mais carentes, como o Subúrbio Ferroviário de Salvador. Por outro lado, não basta ter a sede localizada em um bairro melhor infraestruturado em termos de rede de fibra ótica, por exemplo: é necessário, também, como vimos na seção anterior, que o trabalho dos Mestres esteja “enraizado” profundamente na localidade de origem dos grupos respectivos.

Pode-se afirmar também, que, hoje, a acessibilidade e a mobilidade dos grupos e praticantes de Capoeira na cidade são potencializadas, muitas vezes, em termos de maior ou menor acesso à rede mundial de computadores. Em passado recente, a liberdade dos adeptos da dança-luta de matriz africana (e sua mobilidade na cidade) se dava, sobretudo, em termos de possibilidades de ação e de visibilidade de suas práticas nos espaços públicos urbanos.

Considerações Finais

As pesquisas desenvolvidas permitiram evidenciar algumas tendências relativas ao processo de apropriação da internet (em especial do Orkut), por grupos de Capoeira, e de suas relações com os bairros de Salvador, que podem ser assim sintetizadas:

- A Capoeira deixa, ao longo de algumas décadas, de ser uma

cultura marginal, ao ser elevada à condição de manifestação

cultural internacional e de patrimônio imaterial brasileiro;

- A importância dos grupos de Capoeira em suas localidades de

atuação, exercendo um papel social e cultural relevante entre

crianças e jovens;

- Apesar de seu rico processo de resignificação, a Capoeira

ainda tem seus valores questionados pela sociedade na

contemporaneidade (estigma!);

- Em Salvador, Mestres saem de seus bairros de origem e

levam seus grupos para colégios e condomínios de classe

média em busca da sobrevivência através da Capoeira;

- Os grupos vêm se ramificando por toda a cidade de Salvador;

- Alguns bairros são tomados como “matrizes” pela relação de

identidade existente entre grupo e bairro ou Mestre e bairro;

- A comunicação entre os diferentes grupos de Capoeira foi

intensificada graças à utilização da internet, em especial do

Orkut, como veículo de transmissão e receptação de

informações;

- A apropriação da prática da Capoeira foi ampliada através do

universo virtual da internet;

- A internet e o Orkut funcionam, também, como um instrumento

segregador dentro do universo da Capoeira para aqueles

grupos com dificuldades de acesso a esta tecnologia.

Outras pesquisas realizadas no âmbito do Grupo Espaço Livre de Pesquisa-Ação demonstram que, comparados ao Orkut, os domínios virtuais não se tornam uma ferramenta para todos os grupos e movimentos culturais e artísticos nos bairros populares em Salvador, porque são, em geral, pagos para permanecer no ar. É através do Orkut que uma nova cultura “virtual” de articulação e encontro pode se desenvolver entre os praticantes da Capoeira em Salvador, estreitando laços e valorizando as relações e a troca de informações:

Hoje o pessoal está utilizando muito o Orkut, para comunicar

suas rodas. Na Capoeira a gente tem a cultura do convite.

Geralmente faz uma coisa formal e convida os colegas para vir

compartilhar o batismo, que é a cerimônia festiva da Capoeira e

ali acontece aquela integração, confraternização, tanto dentro

da roda como fora, e quando acabam as rodas acontecem as

mesas redondas: cada um troca suas informações, suas

experiências. (André,6 contramestre do grupo Vadiação

Capoeira de Itapuã)

As pesquisas aqui apresentadas demonstraram a existência de mais de uma dezena de comunidades ativas no Orkut, dedicadas à divulgação e ao intercâmbio de informações sobre a Capoeira em Salvador. Algumas destas comunidades mantêm fortes vínculos com determinadas áreas da cidade, como é o caso da UNICAR, cuja sede localiza-se na Cidade Baixa (na localidade da Pedra Furada), e do Grupo Camugerê, cuja origem está relacionada ao bairro de Itapuã e é liderada pelo Mestre Tosta. Os assuntos debatidos são os mais variados: música de capoeira que você mais gosta, qual é seu professor e onde você treina, o que significa ser discípulo para você, apelidos etc.

Mas é necessário também reconhecer que o acesso à rede mundial de computadores ainda é muito limitado entre os mestres e praticantes de Capoeira em Salvador, o que dificulta muitas vezes os contatos e a troca de informações entre os grupos. No Brasil, a proporção de domicílios com computador não supera a marca dos

36% (TIC Domicílios, dados de 2009 7). Na região Nordeste esse percentual é ainda mais baixo, não ultrapassando 18% (em comparação com a região Sudeste, com 45%, e a região Sul, com 43%, dados de 2009). Se considerarmos somente aqueles computadores com acesso à internet esses números caem, respectivamente, para módicos 27 e 13% (dados de 2009). Independente da faixa de renda, 30% dos brasileiros acessam a internet em casa e 54% em lan houses.

Na Bahia, o acesso à internet deu um salto relativo, entre os anos de 2003 e 2009, de acordo com Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), divulgada em setembro de 2009 pelo IBGE: 17,1% dos domicílios do Estado possuem computadores com conexão, em 2003 essa taxa era quatro vezes menor, de apenas 4,67%. Em Salvador, 33,4% dos imóveis têm acesso à rede mundial, em 2003 o percentual era de 11,7%.

Ainda assim, pode-se afirmar que em Salvador vem ocorrendo um estreitamento das relações entre os grupos de Capoeira bem como uma intensificação da comunicação entre eles, através da internet, evidenciada pela troca de informações e divulgação de eventos diversos, antes limitadas pelo relativo isolamento dos grupos/Mestres. Ficou explicito também que existe uma espacialização heterogênea dos grupos de Capoeira em Salvador, que atuam em diversas comunidades/bairros distintos, ramificando-se deste modo no espaço urbano e ampliando seus campos de atuação na cidade, no Brasil e no mundo. Ou seja, sua atuação perpassa três escalas, três recortes de análise, o internacional, o nacional e o local, evidenciados ao longo deste capítulo.

Referências

CERTEAU, Michel de. A Cultura no Plural. 3. Ed. Campinas-SP: Papirus, 2003.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. 2. Ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1994.

EGLE, Telma. Atividade que mistura luta e dança busca independência. Revista Problemas Brasileiros, São Paulo, n. 361, jan.-fev. 2004.

ELIA, Mariana da. Iê Capoeira. Jornal da UFRJ, Rio de Janeiro, n. 18, p. 20-21, Julho de 2006.

FONSECA, Vivian. A Capoeira Contemporânea: Antigas Questões, Novos Desafios. Recorde - Revista de História do Esporte, v. 1, n. 1, junho de 2008.

LEFEBVRE, Henri. e La production de l´espace . 4 édition. Paris: Anthropos, 2000.

OLIVEIRA, Josivaldo Pires de; LEAL, Luiz Augusto Pinheiro. Capoeira, identidade e gênero: ensaios sobre a história social da capoeira no Brasil. Salvador: EDUFBA, 2009.

RÖHRING-ASSUNÇÃO, Mathias. Capoeira e escravidão. Resenha do livro de Carlos Eugênio Líbano Soares. Afro-Ásia, Salvador, n. 31, p. 365-367, 2004.

SEABRA, Odete. A insurreição do uso. In: MARTINS, José de Sousa (Org.). Henri Lefebvre e o retorno à dialética. São Paulo: Editora HUCITEC, 1996.

VASCONCELOS, Pedro de Almeida. A aplicação do conceito de segregação residencial ao contexto brasileiro na longa duração. Cidades, v. 1, n. 2, p. 259-274, 2004.

1 O Brasil é o país com o maior número de membros. O Orkut tem tido grande repercussão no país, expressa no cotidiano das mais diversas classes sociais; é, sobretudo, uma ferramenta de acesso gratuito que proporciona a conexão e a proximidade (mesmo que virtual) entre pessoas para a comunicação cotidiana, além de permitir novos contatos e dar vazão à expressão de grupos minoritários. Esse fenômeno abre, portanto, uma via de manifestação para movimentos de resistência e sociabilidade.

2 Segundo Vasconcelos (2004, p. 267), “o desenvolvimento das atividades dos escravos de ‘ganho’ permitiu aos mesmos morar independentemente da residência do senhor, devendo trazer o rendimento combinado, e serem responsáveis por sua alimentação e abrigo. Nesse caso, caberia ao Estado o seu controle. Os libertos também deveriam resolver seu problema habitacional por sua própria conta”.

3 Para que fosse viabilizada essa pesquisa e pré-selecionar os entrevistados, foi criado um perfil no site de relacionamentos

http://www.orkut.com.br/Main#Home, através do qual pesquisamos os perfis e comunidades mais ativos no Orkut. Alguns perfis e comunidades de grupos se destacaram e foram selecionados, assim, os adicionamos a nossa rede de amigos através do envio de convites; posteriormente, fomos aceitos e passamos também a fazer parte das comunidades dos grupos e dos perfis. Entramos em contato com os moderadores das comunidades ou Mestres que lideram os grupos, para que pudéssemos marcar as entrevistas; os contatos foram feitos através do próprio Orkut, enviando e recebendo recados e depoimentos.

4 As entrevistas foram realizadas com Paulo Bonfim do grupo UNICAR (União Internacional de Capoeira Regional) da Pedra Furada, Mestre Tosta, do grupo Camugerê, na sede do grupo em Itapuã, Mestre Malvina, do grupo Calabar, Mestre Reginaldo, do grupo ACTB (Associação de Capoeira Toque de Berimbal), no colégio Lince no Jardim das Margaridas, Mestre Maximo, do grupo Mangangá, no Forte da Capoeira no Santo Antônio, Mestre Aristides, do grupo ACAL (Academia de Capoeira, Arte e Luta), na sede do grupo em Ondina, Mestre Caroço, do grupo Stella Maris, em sua casa em Stella Maris, Mestre Boca Rica, do grupo de Capoeira Angola, no Forte da Capoeira, onde se localiza a sede do grupo, Mestre Geni, do grupo Zambiacongo, também no Forte da Capoeira, BibaRenata (no momento, encontra-se sem grupo por motivos pessoais), em sua casa em Vilas do Atlântico.

5 “Estima-se que existam cerca de seis milhões de lutadores no Brasil, incluídos nesse número tanto os que fazem demonstração nas ruas como os que se dedicam à atividade em academias. São Paulo é o estado que tem mais academias – três mil –, enquanto o Nordeste, especialmente a Bahia, conta com o maior número de praticantes de rua registrados”. (EGLE, 2004, s/p)

6 Entrevistado por Karla Gomes Moraes, bolsista de Iniciação Científica do CNPq junto ao Grupo de Pesquisa Espaço Livre de Pesquisa-Ação (DGEO/MGEO-UFBA), no âmbito de suas pesquisas de campo relativas aos domínios virtuais de movimentos culturais e artísticos, realizadas entre agosto de 2007 e julho de 2008.

7 http://www.cetic.br/usuarios/tic/2009/tic-domicilios-2009.pdf