Visões do Brasil: estudos culturais em geografia
Capítulo 9A paisagem sonora da Ilha dos Valadares: percepção e memória na construção do espaçoMarcos Alberto Torres e Salete Kozel
A paisagem sonora da Ilha dos
Valadares: percepção e memória na
construção do espaço
Marcos Alberto Torres e Salete Kozel
Introdução
Ilha dos Valadares, município de Paranaguá, Paraná, Brasil. Um lugar marcado pelas pessoas que tocam, dançam e divertem-se com o fandango, uma manifestação cultural de música e dança presente nas comunidades tradicionais do litoral Norte do Paraná e litoral Sul de São Paulo. Os instrumentos musicais utilizados no fandango são fabricados artesanalmente com uma madeira denominada “caxeta” (Tabebuia cassinoides (Lam.) D.C.), sendo
eles: a rabeca (Figura 1), a viola (Figura 2) e o adufo (Figura 3).
Além desses instrumentos há também os tamancos (Figura 4), que são utilizados pelos homens que dançam o fandango, denominados “batedores” por cumprirem a função de marcar os ritmos das músicas com as batidas de seus tamancos de sola de madeira, sobre o tablado de madeira, base onde acontecem as danças.
Figura 1 – Rabeca
Foto: Flavio Rocha, 2006
Figura 2 – Violas em construção
Foto: Maria Fernanda Cordeiro, 2006
Figura 3 – Adufo
Foto: Flavio Rocha, 2006
Figura 4 – Tamancos de fandango sobre o tablado de madeira
Foto: Flavio Rocha, 2006
Entre os praticantes de fandango que habitam a Ilha dos Valadares, algo que chama a atenção é o fato de a maioria deles ser oriunda de outras localidades. O fandango, por sua vez, faz parte de suas
vidas, sendo que eram comuns entre os povos caiçaras,1 até por volta da década de 1970, os pixilhões, ou pixiruns, que consistiam em mutirões organizados para a colheita ou preparo da terra, seguidos de um baile de fandango oferecido pelo dono das terras, aos amigos que participavam do trabalho. Atualmente, devido às predominantes relações urbanas de trabalho, o pixilhão deixou de existir, e o fandango acontece apenas nos ensaios dos grupos, e em bailes organizados por associações, clubes, ou até mesmo pelo poder público, como o baile que acontece uma vez por mês durante todo o ano no Mercado do Café da cidade de Paranaguá, organizado pela prefeitura do município.
As águas do rio Itiberê separam Valadares do centro urbano da cidade de Paranaguá, e a ponte sobre esse rio é o principal canal de ligação entre os dois lugares. A passagem de automóveis sobre a
ponte é proibida,2 o que contribui para que Valadares possua uma
paisagem sonora3 diferente da cidade que está do outro lado das
águas, visto que a paisagem sonora 4 lo-fi da cidade comporta sons específicos de um centro urbano, como os motores dos meios de transporte e buzinas, dentre outros, que se somam aos advindos dos aparelhos de som das lanchonetes concentradas próximo ao início da ponte, que reproduzem de maneira concomitante as músicas que tocam nas principais rádios FM’s da cidade. Já na paisagem sonora hi-fi da Ilha dos Valadares é possível ouvir os sons da natureza, como os sons das águas do rio que a banha, os sons dos pássaros, do vento, além, é claro, dos sons das pessoas que caminham e conversam, e das bicicletas que por lá circulam. Aos finais de semana é possível ainda ouvir em algumas residências sons de rabecas ou violas sendo afinadas ou tocadas. Além da paisagem sonora, é perceptível também o ritmo de vida mais lento que envolve sua população, o que concede ao visitante a impressão de que se “voltou no tempo”, ou ainda que se esteja em um lugar muito distante de qualquer centro urbano. As pessoas que circulam pelas ruas estreitas da ilha a pé ou de bicicleta, o cheiro das águas e os sons da natureza e das pessoas caminhando e/ou conversando, são alguns dos elementos constituintes dessa paisagem. Nos finais de semana, compondo essa paisagem, é comum ver senhores carregando suas violas, rabecas ou adufos, e senhoras trajando vestidos coloridos, todos se dirigindo a algum ensaio ou baile de fandango.
A Ilha dos Valadares enquanto lugar de moradia dos tocadores5 de fandango deve ser pensada a partir da origem e da formação de seu povo, sua gênese, e sua paisagem. Para isso, a atenção deve estar voltada a cada indivíduo, ao grupo e ao que os une, e a cada detalhe da paisagem do lugar.
Quando um lugar é pensado por meio da sua cultura, mais características são atribuídas à sua identidade. A cultura, definida por Claval como “a soma dos comportamentos, dos saberes, das técnicas, dos conhecimentos e dos valores acumulados pelos indivíduos durante suas vidas e, pelo conjunto dos grupos de que fazem parte” (Claval, 2001, p. 63), imprime na paisagem suas marcas, ao passo que traz em si as marcas da paisagem. Ao pensar a paisagem sonora, deve-se levar em conta a diversidade de sons presentes num lugar, e a relação destes com a cultura e com o lugar. É na paisagem sonora que estão, além dos sons artificiais produzidos por máquinas e motores, as línguas, com seus diferentes sotaques e gírias, e as músicas. Estes elementos são produtos e produtores da paisagem sonora e esta age na memória das pessoas e nos significados e valores que as pessoas atribuem aos lugares.
O presente trabalho apresenta uma síntese da pesquisa realizada pelos autores entre os anos de 2007 a 2009 na Ilha dos Valadares.
Contou com a participação de cinco mestres6 de fandango, sendo quatro originários de localidades distintas, e um da própria Ilha dos Valadares. Os tocadores selecionados para a pesquisa foram:
- Gerônimo dos Santos: com 64 anos de idade, é natural da Ilha
do Borrachudo (Paraná), onde viveu até os vinte anos de idade
até mudar-se para a Ilha dos Valadares. Toca viola e integra o
grupo Pés de Ouro desde o ano 1999.
- Nemésio Costa: 59 anos de idade, natural da Vila Fátima,
município de Guaraqueçaba no estado do Paraná. Mudou-se
para a Ilha dos Valadares há vinte e dois anos. Integra o grupo
Pés de Ouro, no qual toca viola ao lado do amigo Gerônimo dos
Santos.
- Eloir Paulo Ribeiro de Jesus: também conhecido como Pôro,
com 40 anos de idade, vive na Ilha dos Valadares desde 2003.
Antes de mudar-se para Valadares vivia na cidade de
Paranaguá, junto com sua mãe, num bairro próximo ao centro
da cidade. Morou também em Curitiba por seis anos e em
Brasília por um ano e meio. Integrante da Associação
Mandicuéra de Cultura Popular, é o responsável por tocar adufo
no grupo de fandango da associação;
- Eugênio dos Santos: 83 anos de idade, natural de
Guaraqueçaba, Paraná. Mudou-se para Valadares aos vinte
anos de idade. No fandango, foi tocador de viola e dançador. É
conhecido entre os moradores da Ilha por ter ensinado os
toques de viola e as danças a outros fandangueiros, e também
por ter construído em seu terreno a casa de fandango, que por
muito tempo foi local de diversão dos fandangueiros da Ilha dos
Valadares. Parou de tocar fandango e frequentar os bailes em
virtude de uma doença que contraiu que resultou na perda do
movimento das pernas e dificuldade nos movimentos das mãos.
- Romão Costa: com 80 anos de idade, é o único dos
entrevistados que nasceu e sempre viveu na Ilha dos
Valadares. É fundador e integrante do Grupo Folclórico Mestre
Romão, no qual dança e ensina aos mais jovens as marcas e
as batidas do tamanco.
A pesquisa buscou estabelecer relações entre a paisagem sonora e
elementos do universo simbólico 7 de cada morador entrevistado, a partir de suas percepções e memórias acerca da Ilha dos Valadares enquanto espaço de moradia e espaço de representação, e a relação desta com suas localidades de origem, bem como com as localidades que ainda estabelecem contato. A paisagem sonora foi utilizada como subsídio à obtenção das paisagens da memória de cada entrevistado, na busca das representações que os mestres possuem acerca da Ilha dos Valadares, o que implica em uma apropriação específica do espaço e remete às ações que se estabelecem e se exercem nele, o que faz de Valadares um lugar que, mesmo próximo de um espaço urbano, comporta práticas tradicionais como o “fazer fandango”, que envolve os mestres que refazem a prática aprendida ao longo de suas vidas, refeitas e rememoradas em Valadares, fazendo dessa ilha um lugar familiar.
Percepção, memória e linguagem: a construção
do universo simbólico
Nos indivíduos repousam diferentes olhares e diferentes representações acerca do lugar. Seus olhares estão baseados em suas experiências e vivências, armazenadas e (re)significadas em suas memórias. Cassirer desenvolve a ideia de memória simbólica como sendo o “processo pelo qual o homem não só repete sua experiência passada, mas também reconstrói essa experiência. A imaginação torna-se um elemento necessário da verdadeira lembrança”. (Cassirer, 1994, p. 89) Como elementos constitutivos da memória, Michael Pollak pontua primeiramente os acontecimentos vividos pessoalmente, e posteriormente os acontecimentos vividos pela coletividade à qual a pessoa se sente pertencer. (Pollak, 1992, p. 02)
Sendo a imaginação um fenômeno individual, vemos aqui a importância de se buscar no indivíduo respostas para a construção simbólica, que é erigida em partes no indivíduo e em partes no coletivo. Dessa forma, entende-se que os fenômenos que ocorrem no indivíduo são as sensações e as percepções, e no coletivo a construção simbólica, mediada pela imaginação e memória que se constroem no indivíduo e no grupo, resultando no espaço abstrato concebido da vida cultural.
Segundo Merleau-Ponty, “perceber no sentido pleno da palavra, que se opõe a imaginar, não é julgar, é apreender um sentido imanente ao sensível antes de qualquer juízo”. (Merleau-Ponty, 2006, p. 63) A percepção do espaço inicia-se a partir da leitura da paisagem. É da paisagem que o indivíduo extrai suas percepções acerca do lugar, ao passo que (re)significa seus elementos.
As lembranças (instâncias da memória), ao passo em que são compartilhadas, contribuem na formação e reafirmação da cultura e do lugar. Paul Claval afirma que “o sentido de identidade de muitas coletividades sociais está ligado às paisagens da lembrança e da memória”. (Claval, 2002, p. 22) As experiências com os elementos do espaço e com os grupos de convívio proporcionam o contato com o passado, e também a construção de identidades e a apropriação, construção e organização do espaço.
As experiências pessoais definem o primeiro contato com o mundo. É a experiência corporal que fornece a base à imaginação e à reconstrução/rememoração de fatos do passado. Por meio da experiência corporal pode-se perceber uma paisagem e resignificá-la a cada novo contato. Para Ecléa Bosi, cada imagem formada por um indivíduo é mediada pela imagem sempre presente do seu corpo, e o “sentimento difuso da própria corporeidade é constante e convive, no interior da vida psicológica, com a percepção do meio físico ou social que circunda o sujeito”. (Bosi, 1994, p. 44) Dessa forma, o que se tem início nas experiências corporais culmina na construção da percepção, que se vincula às experiências compartilhadas entre as pessoas de um mesmo convívio social. A percepção e a memória integram o complexo das relações sociais e espaciais, e interagem nelas. Ambas, percepção e memória, são elementos de cada indivíduo e também da coletividade.
O fato de os mestres entrevistados serem oriundos de distintas localidades conduz à reflexão acerca das vivências de cada um. O presente trabalho considerou as práticas vividas em seus lugares de origem e a relação destas com o cotidiano vivido em Valadares, pois participam da construção identitária na Ilha dos Valadares.
Lowenthal declara que “o passado é parte integrante de nosso sentido de identidade. […] A identificação das fases anteriores da vida de si mesmo é crucial não só para a integridade, mas também para o bem-estar”. (Lowenthal, 1998, p. 79)
No passado, mesmo em localidades distintas, os mestres mantinham um mesmo modo de vida marcado pela agricultura e pela pesca, o que caracteriza a base da cultura caiçara. Além destes elementos, a vida com forte ligação com a água, a qual concedia não apenas parte da alimentação, mas também o contato com outras localidades e a comunicação com outras comunidades, identificava-os enquanto portadores de um mesmo modo de viver e agir. Por ser uma ilha, Valadares proporcionou a seus primeiros moradores, oriundos de outras localidades litorâneas, a continuidade do contato com as águas para alimentação, transporte e comunicação.
Além da familiaridade que a paisagem da Ilha dos Valadares proporcionou aos mestres de fandango que nela chegaram para habitá-la, o fandango, um dia praticado nos lugares de onde vieram, e agora refeito e compartilhado em Valadares, é um dos elementos culturais que os une na Ilha.
Um estudo da paisagem que comporte as experiências individuais e o universo simbólico cultural deve considerar também a comunicação estabelecida entre as pessoas que compõem essa cultura. Para isso, o estudo deve contemplar as percepções e as memórias, experienciadas individualmente e construídas no indivíduo e na coletividade, e a linguagem, que media a comunicação estabelecida entre os seres humanos.
No plano da paisagem sonora, a linguagem ganha destaque nas distintas línguas e sotaques, que se apresentam nas falas dos diferentes povos. Na linguagem encontramos os significados para cada coisa e para cada fato experienciado. Por meio dela a comunicação se estabelece e os valores culturais são construídos e repassados. É através da linguagem que se torna possível representar uma coisa distante fisicamente, ou ainda reapresentar um fato vivido.
Ao congregar pessoas oriundas de diferentes localidades, mas que mantinham semelhanças no modo de vida, a Ilha dos Valadares tornou-se o local de comunicação e compartilhamento das histórias de vida de cada um, além de ser o local onde novas histórias passaram a ser construídas pelo grupo que veio habitá-la. O compartilhamento das memórias se faz no diálogo entre as pessoas, nos fandangos realizados na Ilha, e no dia a dia de cada um dos seus moradores.
Na paisagem da Ilha dos Valadares, a qual comporta os valores culturais dos seus habitantes, estão expressos em seu complexo a percepção e a memória de seu povo, o que é fundamental para a construção do espaço e da identidade de cada um. Esses elementos somam-se à linguagem e interagem entre si, encontrando-se no universo simbólico, que se apresenta como base para os sentidos e significados, e para as relações existentes entre a paisagem sonora e a cultura.
Os procedimentos metodológicos
Com o intuito de trazer à tona elementos que estão presentes nas subjetividades das pessoas que fizeram de Valadares seu lugar de moradia, e os elementos construídos coletivamente na significação da Ilha, foram feitas observações por meio de participações em bailes e ensaios dos grupos de fandango, e coletadas entrevistas e mapas mentais. Assim, aspectos que fogem do campo visual da paisagem da Ilha dos Valadares passaram a ser revelados. As paisagens sonoras ganharam evidência, e elementos que compõem o universo simbólico da cultura caiçara apareceram, possibilitando o estabelecimento das relações entre paisagem e cultura.
O modo de entrevista utilizado foi o de entrevistas semiestruturadas, que combinam perguntas abertas e fechadas, por proporcionarem maior flexibilidade na execução das perguntas, possibilitando ao entrevistado desinibição para falar. Os entrevistados comportaram-se com naturalidade, sem demonstrarem preocupação com o tempo de duração da entrevista, ou mesmo com o que ou como responder as questões a eles colocadas, e isso vai ao encontro do que é proposto por Boni e Quaresma (2005, p. 75), que afirmam que “a entrevista deve proporcionar ao pesquisado bem-estar para que ele possa falar sem constrangimento de sua vida […] e quando isso ocorre surgem discursos extraordinários”.
Os mapas mentais foram utilizados na perspectiva de auxiliar no levantamento de subsídios para a compreensão da relação entre paisagem sonora e cultura. Entendidos como “uma forma de linguagem que reflete o espaço vivido representado em todas as suas nuances, cujos signos são construções sociais” (Kozel, 2007, p. 115), os mapas mentais produzidos pelos fandangueiros foram coletados de modo a buscar em cada indivíduo, através de uma representação não-verbal, elementos que retratassem o espaço vivido e as memórias sobre os lugares de cada tocador de fandango entrevistado, como complemento às informações obtidas nas entrevistas, ou mesmo para apresentar mais subsídios que fossem pertinentes à análise.
O espaço não é somente apreendido através dos sentidos, ele
referenda uma relação estabelecida pelo ser humano,
emocionalmente de acordo com as suas experiências
espaciais. Assim o espaço não é somente percebido, sentido ou
representado, mas, também vivido. As imagens que as pessoas
constroem estão impregnadas de recordações, significados e
experiências. (Kozel, 2007, p. 117)
A metodologia Kozel foi aplicada na análise dos mapas mentais produzidos pelos entrevistados. Essa metodologia considera a interpretação das imagens com base em quatro etapas:
1. Quanto à forma de representação dos elementos na imagem;
2. Quanto à distribuição dos elementos na imagem;
3. Quanto à especificidade dos ícones;
4. Apresentação de outros aspectos ou particularidades.
As coletas de campo, compostas de entrevistas gravadas e coleta dos mapas mentais, compreenderam dois momentos, que ocorreram em dias distintos, com objetivos e dinâmicas conforme descritos abaixo:
Primeiro momento: coleta de informações pessoais e de lembranças acerca da Ilha dos Valadares e do lugar onde o entrevistado morava. Para as entrevistas, foi seguido o seguinte roteiro de perguntas:
1. Nome.
2. Idade.
3. Tempo de moradia na Ilha dos Valadares.
4. Em que lugar morava antes de morar em Valadares?
5. Como foi o dia da chegada em Valadares?
6. Qual a lembrança mais marcante vivida na Ilha dos Valadares?
7. Qual a lembrança mais marcante vivida no lugar de onde veio?
Após a gravação da entrevista foi entregue a cada entrevistado uma folha de papel A4 padronizada, contendo dois espaços pré-definidos de 18,5 cm por 13 cm cada um, e lhes foi pedido que fizessem em um dos espaços um mapa da Ilha dos Valadares, e no outro um mapa do lugar onde moravam. Juntamente com a folha era dada uma caneta, e cada entrevistado produzia as imagens, entregando-as ao concluir. Esses mapas mentais foram recolhidos no mesmo dia, logo após o término das entrevistas.
Segundo momento: coleta de informações sobre os sons que compõem a paisagem sonora da Ilha dos Valadares e do lugar onde moravam. Como no momento anterior, primeiramente foram feitas as gravações das entrevistas e em seguida a aplicação dos mapas mentais. Dessa vez, no entanto, as folhas para a produção das imagens foram deixadas com os entrevistados, para serem recolhidas somente no dia seguinte. As entrevistas basearam-se no seguinte roteiro de perguntas:
1. Dê exemplos de sons que existam na Ilha dos Valadares e que
goste.
2. Existe algum som na Ilha dos Valadares de que não goste?
Qual/quais?
3. Existem sons que goste que não haja na Ilha dos Valadares?
Quais?
4. Em outros lugares fora dos Valadares existem sons que não
gosta? Quais?
5. Nos bailes de fandango de onde morava, qual a música que
mais marcou sua vida? Favor cantar um trecho.
6. E entre as músicas tocadas nos bailes de hoje, qual a mais
marcante? (favor cantar o trecho da música) Por quê?
Após a gravação de cada entrevista, foram entregues duas folhas de papel A4 em branco para cada entrevistado, e lhes foi pedido que nelas fizessem dois desenhos: em uma das folhas, um desenho do lugar onde morava, e na outra, um desenho da Ilha dos
Valadares.8 As folhas foram deixadas com cada tocador, e somente no dia seguinte os desenhos foram recolhidos.
A escolha dos entrevistados deu-se com base em dois critérios: 1) ser tocador e formador de grupos de fandango e/ou repassador do fandango; 2) ser morador da Ilha dos Valadares. Além desses critérios, a escolha dos tocadores deu-se de modo que fossem contemplados todos os grupos de fandango existentes em
Valadares durante a pesquisa.9
Como exemplo da metodologia aplicada na análise dos mapas mentais, seguem as representações produzidas no segundo momento de coletas por Nemésio e Romão.
1. A primeira observação das imagens levou em conta as formas, sendo que os elementos selecionados foram: ícones, letras, mapas, linhas, figuras geométricas. Os ícones, tidos aqui como formas de representações gráficas através de desenhos; as letras como palavras que complementam as representações gráficas; e os mapas como forma de representação cartográfica que evidencia a espacialização do fenômeno representado. Dentre os elementos
selecionados nas Figuras 5 e 6 estão:
1.1 – Mapas e letras: Romão representou a ilha na Figuras 6, e, ao longo de sua imagem, inseriu informações da Ilha dos Valadares, como a quantidade de habitantes em 1936 e atualmente, e a extensão de terras secas que possui. Representou a saída do Rio da Vila no canto superior direito, desaguando no Rio Itiberê, que se encontra ao longo da lateral direita da imagem. Representou os manguezais, e também a área nos fundos do Mercado das Ostras. Representou também o Rio dos Correia, os campos de futebol no interior do Valadares, a praça e a ponte (que chamou de passarela).
Figura 5: Mapa mental produzido por Nemésio
Figura 6: Mapa mental produzido por Romão. 1.2 – Mapas, ícones e letras: Nemésio, em sua produção, destacou por meio dos ícones a igreja dos navegantes, o clube de fandango e canoas no Rio Itiberê. Foi também representada a ponte, o “mar de lá”, a Cotinga, assim como os bairros da ilha.
2. A segunda classificação considerou como as formas estão dispostas na folha ao formar a imagem. Para tanto as imagens foram classificadas quanto ao aparecimento horizontal, de forma isolada, dispersa, ou em perspectiva. Os mapas aqui selecionados apresentaram disposição horizontal.
3. A fase da análise das imagens quanto à especificidade dos ícones, além de proporcionar um aprofundamento da leitura, apresentou maiores subsídios para a interpretação da paisagem sonora percebida por cada entrevistado. Em cada categoria analisada, foram descritos os elementos encontrados, e citadas as imagens que os contém.
3.1 – Representação dos elementos da paisagem natural Água: ambas as imagens.
Manguezal: Figuras 5.
3.2 – Representação dos elementos da paisagem construída Ponte: ambas as imagens.
Campo de futebol: Figuras 6.
Clube, casa de fandango: Figuras 5.
Praça: Figuras 6.
Posto de saúde: Figuras 6.
Igreja: Figuras 5.
3.3 – Representação dos elementos móveis
Canoa: Figuras 5.
4. Apresentação de outros aspectos ou particularidades: dentro da proposta metodológica em questão, este tópico tem por objetivo fazer o levantamento e a análise das mensagens presentes nos mapas mentais.
Entre os aspectos evidenciados no grupo pesquisado, estão presentes ideias que remetem ao universo caiçara, como a presença constante das águas como canal de ligação entre as localidades, ou, fazendo contraponto com o coletado nas entrevistas, a água também como provedora de alimentos.
Cabe destacar também que nas representações nas quais aparecem as ilhas como figuras geométricas fechadas, como nas
Figuras 5 e 6, seus autores preocuparam-se em representar os canais navegáveis no entorno da ilha.
Ficaram evidentes também ícones que indicam elementos da cultura, como para a religiosidade, para a qual foram utilizados
ícones em forma de cruz, conforme representado na Figuras 5. Locais onde acontecem os bailes de fandango, como o clube de
fandango presente na Figuras 5, são ícones que representam a arte. Barcos e canoas também foram representados, indicando um modo de vida ligado à água.
Os objetivos propostos para a coleta dos mapas mentais nas duas etapas foram atingidos, já que na primeira etapa foram espacializados os lugares solicitados, e, no segundo momento, foram revelados elementos da cultura caiçara e elementos que possuem sonoridades peculiares, como casas, campos de futebol, clubes, praça, igreja e rodoviária.
Nas representações de seus locais de origem, com exceção das produções de Eloir, ficou clara a ligação entre estes lugares e o atual local de moradia, o que pode indicar um passado que não está superado, mas reconstruído em outra localidade, que é hoje Valadares.
Dessa forma, com base nas entrevistas e nas representações espaciais dos mapas mentais, foram exploradas as memórias recentes e antigas. Nelas o elemento comum registrado pelos entrevistados foi a água. Para os moradores mais antigos, as representações da Ilha dos Valadares apresentaram semelhanças
em suas formas, como demonstram as Figuras 5 e 6, nas quais Valadares aparece cercada por águas, o que pode indicar as memórias e as percepções de quem aprendeu a viver com o elemento água para alimentação, transporte, comunicação e economia.
Todavia, cabe ainda tecer relações entre os elementos evidenciados nos mapas mentais e os elementos presentes no universo simbólico caiçara, com os sons que os fandangueiros relataram em suas entrevistas. Dessa forma serão buscadas respostas acerca da possível relação entre a paisagem sonora e a cultura caiçara.
A paisagem sonora e a cultura caiçara
A Ilha dos Valadares guarda particularidades que avivam as memórias dos entrevistados, que contribuem para que se sintam pertencentes àquele lugar. O fandango, desde o início da pesquisa, era o elo entre as pessoas selecionadas. No entanto, outras características mostraram-se também comuns, e o fandango apresentou especificidades, dependendo da localidade de origem de cada entrevistado.
A paisagem sonora da Ilha dos Valadares aparece, por sua vez, contendo o fandango, mas portadora também dos sons da natureza, representada nos mapas mentais e retratada nas entrevistas pelas águas dos rios e dos mares, nos quais os caiçaras se locomoviam e pescavam. Além das águas, as entrevistas e os mapas mentais desvendaram elementos que produzem sons próprios, que, por sua vez, incorporam-se à paisagem sonora dos lugares citados, no caso, a Ilha dos Valadares e as localidades onde morava cada entrevistado antes de mudar-se para lá.
Os sons advindos da natureza podem ser descritos pelos mencionados sons das águas, dos pássaros, dos animais terrestres e dos insetos.
A paisagem sonora percebida na Ilha dos Valadares pelos entrevistados mostrou especificidades que podem estar ligadas aos diferentes locais de moradia de cada um deles. Eugênio, Nemésio e Romão, que moram em áreas onde as ruas possuem calçamentos, e onde há certo fluxo de veículos automotores, citaram elementos que compõem sua paisagem sonora próprios do meio urbano, como as propagandas citadas por Romão, e os carros e motos citados por Eugênio e Nemésio. Para Eugênio Valadares é cidade, diferente da região de Guaraqueçaba onde morava que era sítio. Nas representações colhidas de Eloir e de Gerônimo por meio das entrevistas e dos mapas mentais, uma paisagem sonora mais próxima do natural foi retratada. Gerônimo denominou a região onde mora de “fundos da ilha”, e afirmou que os “barulhos” que existem em Valadares estão nas regiões próximas à ponte. Nos materiais de Eloir, ficaram evidentes os sons das matas, representados nos mapas mentais e relatados em suas entrevistas pelos sons dos animais que existem no interior da ilha. Para os demais entrevistados, a paisagem sonora natural foi uma evidência do passado, visto que mesmo os sons dos pássaros relatados por Romão eram de pássaros que estavam engaiolados na residência de seu filho. Na entrevista concedida por Eugênio, ao referir-se aos sons do lugar onde morava, ele explicou que os sons da natureza que ocorrem durante o dia diferem dos sons que ocorrem à noite, o que mostra sua percepção em relação às paisagens sonoras hi-fi e lo-fi. Para Nemésio, no entanto, os sons da paisagem sonora natural encontram evidências nos relatos sobre seu trabalho, no qual mantém contato direto com as águas e com comunidades distantes, onde os sons das águas e dos demais elementos da natureza podem ser percebidos, pela distância estabelecida entre as comunidades e a cidade.
Os sons dos meios de transporte que foram citados nas entrevistas não foram mencionados com reprovação. No entanto, duas categorias de meios de transporte foram lembradas: os meios de transporte aquáticos e os meios terrestres. Entre os aquáticos estão a canoa, a canoa de motor e o barco. Entre os terrestres os carros e as motos.
Os sons das pessoas também foram lembrados: Eugênio disse gostar do barulho de pessoas, e ainda citou o grito como um meio de comunicação usado antes do telefone; Eloir discorreu brevemente sobre o sotaque caiçara.
Os barulhos incômodos citados estão relacionados aos que passam por um processo de amplificação, visto que Romão citou as propagandas ambulantes que anunciam a venda de produtos. Eloir citou as músicas eletrônicas tocadas em discotecas, que produzem um som grave e repetitivo capaz de ser ouvido à distância, embora isso não exista em Valadares. Eloir citou também os aparelhos de som eletrodomésticos de alguns moradores da Ilha, que os ouvem em alto volume. O mesmo evento foi citado por Nemésio. Já Gerônimo citou o barulho dos bailes, pois para ele o baile é bom só quando se está lá para se divertir, mas não para morar próximo.
Sobre o fandango, todos discorreram com prazer, falando de suas lembranças, e também citando as experiências vividas com a música. Em suas falas ficou evidente a preocupação com o futuro do fandango em virtude da falta de interesse dos jovens em aprender. Entretanto, nenhum entrevistado relatou ter aprendido a tocar fandango com seus pais. Gerônimo, inclusive, expôs o quanto seu pai ficava irritado quando sabia que seus filhos tinham mexido na viola, o que contribuiu para que ele só fosse aprender a tocar viola depois de adulto.
O fandango, entendido aqui na perspectiva de Schafer, como um registro dos sons do passado (Schafer, 2001, p. 151), faz-se presente quando as marcas são tocadas por cada grupo. Segundo relato de Romão, não há fandangos novos, e, para Eugênio, mesmo quem escreve novas músicas, as faz sob as bases antigas. Eloir, ao lembrar do Sr. Squenine, morador da Ilha de Superagüi, explicou que o fandango fala do cotidiano, e o que muda nas letras de quem compõe novos fandangos hoje é que o cotidiano de hoje não é o mesmo dos antigos fandangueiros. Mesmo mantendo as bases do passado, Gerônimo afirmou ter aprendido o fandango observando, quando criança, e, depois de adulto, após tentativas, aprendeu a tocar viola e reproduzi-lo. Nos relatos de Romão, Nemésio, Gerônimo e Eugênio, desde a infância eles observavam o fandango que seus pais faziam, para somente depois passarem a tocar. Eloir, que não teve sua infância envolvida diretamente com o fandango, aprendeu nos bailes e ensaios na casa do mestre Eugênio, também observando, para depois partir para a prática com o instrumento.
A diferença entre o fandango do passado para o fandango da atualidade está na forma como acontece. Em todas as memórias relatadas, o fandango do passado estava ligado aos mutirões de trabalho. Atualmente, entretanto, o fandango acontece em bailes promovidos por clubes e associações, ou mesmo como apresentações. Dessa forma, não há mais a ligação direta com o trabalho, mas ainda hoje está viva essa experiência na memória de cada tocador e dançador entrevistado. Para Eloir, que se incorporou ao fandango depois de adulto, o domínio da história do fandango e dos códigos da cultura caiçara o faz sentir-se pertencente ao universo caiçara.
As diferenças musicais ficaram por conta das diferentes localidades em que aconteciam o fandango. Segundo Gerônimo, muitos fandangos do passado não são tocados atualmente. Entretanto, Romão afirma que todas as marcas de fandango são tocadas, pois acredita que existem somente as que seu grupo executa. Conclui-se com isso que o modo de tocar, inclusive algumas modas, estiveram restritas a certas localidades, o que proporcionou à Ilha do Valadares possuir a atual fusão de “muitos fandangos”. Contudo, cada tocador, ao executar uma marca, tem a possibilidade de recordar experiências do lugar de onde veio. (Carney, 2007, p. 132) Ao reunirem-se para tocar, é proporcionada, além do compartilhamento do momento destinado à diversão, a troca de informações sobre as experiências vividas. As memórias são compartilhadas e refeitas, ao passo que as músicas e as danças as evocam. A paisagem sonora criada pelo fandango é percebida pelos que o fazem, trazendo elementos conhecidos do passado, refeitos no presente, o que caracteriza uma paisagem sonora que identifica o lugar e apresenta seus elementos históricos, vivos na memória dos caiçaras.
As músicas citadas pelos entrevistados, que são canções dos fandangos tratando do cotidiano caiçara, versavam sobre os seguintes temas: 1 – namoros (citado por Eugênio, Nemésio e Eloir); 2 – natureza (citado por todos os entrevistados); 3 – amor ao local de origem (citado por Eugênio).
Os assuntos tratados nas músicas integram o universo simbólico caiçara, e quando cantadas podem transmitir imagens do lugar, e também podem servir como fonte primária para compreender a natureza e a identidade dos lugares. (Kong, 1995, p. 03) Desse modo, o fandango remete às memórias e ao modo de viver do caiçara. Os elementos do universo simbólico estão implícitos na paisagem sonora, cantada e retratada pelo fandango.
A memória e as representações acerca do lugar de moradia dos tocadores e dançadores entrevistados apresentaram características presentes na paisagem, que se incorporam à cultura na sua complexa cadeia de significados. Para Claval:
Já não se pode acreditar na possibilidade de invocar uma razão
universal para explicar a organização da realidade social. Por
isso se deve informar que regularidades aparecem na vida
social, que a percepção da paisagem e da realidade social é
uma construção social e que perspectivas semelhantes existem
nos grupos sociais. (Claval, 2002, p. 24-25)
O estudo acerca da linguagem, do mito, da arte e da religião, proporcionou a compreensão de elementos da cultura caiçara. As reflexões acerca da memória – fenômeno que ocorre no indivíduo e socialmente – apresentando-se juntamente com a imaginação, mediadoras da construção simbólica, culminaram para a inter-relação entre o universo simbólico caiçara e a paisagem sonora da Ilha dos Valadares. Fazer fandango permite que as lembranças sejam contadas, nas músicas ou nas rodas de conversa. É no contato com o lugar, nas experiências vividas, que a memória é exercitada, sendo alimentada e requerida através das lembranças. As sonoridades produzidas remetem a um lugar, vivido, experienciado, percebido, e armazenado na memória que, quando evocado, é refeito, re-significando o lugar onde se está. É a partir dos elementos da paisagem que a memória é evocada, e a paisagem sonora possui características da paisagem vivida, que evoca a memória, re-significa o lugar, e faz da Ilha dos Valadares um lugar familiar para os entrevistados.
Considerações finais
A paisagem sonora, compreendida como todos os sons de um ambiente (Schafer, 2001), deve abarcar também a música tocada e ouvida nos diferentes lugares. Entendida como um evento (ONG apud Pocock, 1989, p. 193), deve ser analisada dentro de um recorte de tempo maior que o destinado à paisagem visual, e está totalmente atrelada à memória. A música, dessa forma, integra a paisagem sonora, e é ainda um registro dos sons de uma época. (Schafer, 2001, p.151)
Wisnik (1989, p. 33) afirma ainda que a música organiza sons que o mundo oferece, e, para Blackin (apud Pinto, 2001, p. 224), a música é entendida como o som culturalmente organizado pelo homem. Segundo Levintin, “[…] o estudo da música tem uma importância central para a ciência cognitiva porque a música está entre as atividades humanas mais complexas, envolvendo percepção, memória, tempo, agrupamento de objetos, atenção e (no caso da performance) perícia e uma coordenação complexa da atividade motora”. (Levintin, 2006, p. 44) Desse modo, a música, sob a forma do fandango no presente trabalho, apresentou-se como importante elemento a ser considerado no levantamento das percepções e memórias dos entrevistados, assim como na busca da compreensão das construções espaciais tidas por eles, uma vez que são oriundos de diferentes localidades.
O presente trabalho buscou, nas percepções e memórias dos fandangueiros, explicações acerca da construção do espaço caiçara na Ilha dos Valadares, e a relação da paisagem sonora com a vida de cada entrevistado. Desse modo, as entrevistas e os mapas mentais foram utilizados para contrapor a Ilha dos Valadares atual aos lugares de vivência do passado de cada entrevistado. A paisagem sonora dos bailes de fandango, existente na memória de cada entrevistado e relatada por eles quando se referiram às lembranças de suas infâncias, contribuiu para que retomassem e refizessem, dentro de outro contexto, o fandango um dia vivido no passado, dentro de uma lógica atrelada ao trabalho, por meio dos pixilhões, porém agora sem relações com o trabalho e os mutirões, o que se apresenta como uma evidência para a relação entre a paisagem sonora, a memória e a cultura.
A preocupação de que o fandango tenha referências de suas origens apareceu nas falas dos entrevistados oriundos de outras ilhas, quando estes afirmam que muitas das marcas do passado não são tocadas, visto que os demais tocadores dos grupos desconhecem-nas. Nemésio e Gerônimo demonstraram vontade de que os colegas do grupo que integram aprendam as músicas que eram tocadas em suas localidades de origem. Tais evidências apontam para a aspiração de que a paisagem sonora criada no fandango evoque imagens de suas experiências do passado.
O fato de não existir novas marcas de fandango sugere que a paisagem sonora dos bailes de fandango, armazenada na memória de cada entrevistado e relatada por eles quando referiram-se às lembranças de suas infâncias, contribuiu para que Romão Costa, Gerônimo dos Santos, Nemésio Costa e Eugênio dos Santos retomassem o fandango, visto que cada um deles passou por um período sem fazer ou participar de fandango. A retomada do fandango com base em suas memórias apresenta-se como uma evidência para a relação entre paisagem sonora, memória e cultura.
Diante dessas reflexões, vale lembrar que este trabalho é fruto do olhar de um morador do continente, portador de um modo de vida urbano, que intentou aproximar-se da cultura caiçara e trazer à luz elementos para que esta seja pensada em seu contexto, revelando suas geografias. Para Almeida “a paisagem que nos expõe um narrador com olhar estrangeiro e descompromissado é distinto daquele outro quadro vivido, carregado de significados ligados a uma história, à produção social e simbólica dos seus habitantes”. (Almeida, 2003, p. 72) Aproximar-se das realidades coletivas, sem deixar de lado as realidades individuais, é o desafio que o geógrafo deve tentar superar, na busca da compreensão das dinâmicas existentes em cada lugar, em cada paisagem. Trabalhos que tenham como proposta uma abordagem cultural devem atentar para os diferentes olhares dos indivíduos, buscando similitudes, mas respeitando as individualidades.
Desse modo, a geografia aqui apresentada, que é dinâmica, aponta para novas formas de fazer fandangos, já não relacionadas aos fandangos de mutirão; novos modos de vida, quando comparados aos da cultura caiçara do passado; e novas paisagens sonoras, e requer sempre um olhar atento para a formação da(s) geografia(s) dos lugares, que está pautada em diferentes percepções e memórias.
Referências
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1 Caiçara é o termo utilizado para designar aqueles que habitam as regiões litorâneas do Brasil e que vivem em contato direto com a natureza através da pesca e das roças de subsistência. Para Diegues (2006, p. 15), a cultura caiçara é parte da cultura crioula ou cabocla, fruto do aporte cultural dos europeus, negros e índios.
2 Apesar da largura da ponte possibilitar a passagem de automóveis, a entrada de carros na ilha é proibida pelo fato de que a estrutura da ponte não suporta um tráfego intenso de veículos, o que restringe seu uso para pedestres, e abre exceção para os serviços de utilidade pública, como veículos oficiais, ambulâncias, carros da polícia, entre outros.
3 Murray Schafer utilizou o termo soundscape (paisagem sonora), conforme descrito no prefácio do seu livro “O ouvido pensante” (Schafer, 2001), para referir-se ao ambiente acústico. Nessa perspectiva, será entendida aqui como o conjunto de sons que compõem um lugar.
4 Os termos hi-fi e lo-fi (alta fidelidade e baixa fidelidade) são propostos por Murray Schafer, e podem ser aplicados para a compreensão da sobreposição dos sons que caracterizam distintas paisagens sonoras. Segundo Schafer (2001, p. 71, 72): “A paisagem sonora hi-fi é aquela em que os sons separados podem ser claramente ouvidos em razão do baixo nível de ruído ambiental. Em geral, o campo é mais hi-fi que a cidade, a noite mais que o dia, os tempos antigos mais que os modernos. Na paisagem sonora hi-fi, os sons se sobrepõem menos frequentemente. […] Em uma paisagem sonora lo-fi, os sinais acústicos individuais são obscurecidos em uma população de sons superdensa. […] Há fala cruzada em todos os canais, e para que os sons mais comuns possam ser ouvidos eles tem de ser intensamente amplificados”.
5 Tocador é o nome dado pela comunidade caiçara aos músicos que executam o fandango. Quando os tocadores são também repassadores das técnicas dos instrumentos, das batidas dos tamancos ou das danças a outras pessoas interessadas pela tradição, são também chamados de mestres.
6 A escolha dos mestres deu-se pelo fato de participarem da manutenção da cultura caiçara, partindo do pressuposto de que a imersão no meio sonoro concede maior percepção da paisagem sonora.
7 Na perspectiva de Ernst Cassirer, o homem é portador de um sistema simbólico, que é a capacidade de imaginação e inteligência simbólicas. Segundo ele, “não estando mais num universo meramente físico, o homem vive em um universo simbólico. A linguagem, o mito, a arte e a religião são partes desse universo”. (Cassirer, 1994, p. 48)
8 Para Romão Costa, pelo fato de ele não ter vivido em outra localidade além da Ilha dos Valadares, foi solicitado que ele fizesse no primeiro momento apenas o mapa da Ilha dos Valadares, para, no segundo momento de coleta, o desenho de Valadares no passado em uma folha, e em outra o desenho de Valadares atualmente. Entretanto, no desenho do segundo momento ele fez uma única representação da Ilha dos Valadares, mas que incorporava a história e as transformações nela ocorridas ao longo do tempo.
9 No início da pesquisa havia três grupos de fandango na Ilha dos Valadares: o Grupo Folclórico Mestre Romão, o grupo Pés de Ouro, e a Associação Mandicuéra de Cultura Popular. No final do ano 2008 foi criado o Grupo de Fandango Mestre Brasílio, com tocadores que também integram o Grupo Folclórico Mestre Romão.