A arte de enganar a natureza: contracepção, aborto e infanticídio no início do século XX

Prefácio

 

É interessante que, apesar de todas as medidas burocráticas que cercam uma defesa de tese – formulários e mais formulários para preencher – nunca se tenha pensado em anexar as argüições feitas pela banca aos documentos que a comprovam. Do ponto de vista da história da antropologia, e de outras ciências, isso é uma pena; do ponto de vista da tese de Fabiola, que rendeu dois livros, é a perda de um percurso exemplar. Lembro perfeitamente daquela tarde na qual ficamos, seus primeiros leitores, horas a fio fazendo observações sobre o trabalho, observações às quais ela respondeu de uma fina maneira: e, como quem não quer nada, foi anotando, refletindo, reescrevendo mentalmente, acho, e aqui está um dos resultados dessa conversa. Lembro isso como um pé de página importante sobre o trabalho de pesquisa, pois são raros os intelectuais que sabem ouvir uma discussão de seu trabalho e se aproveitar bem dela. O primeiro resultado de sua reflexão já está circulando há algum tempo no livro Uma Ciência da Diferença: sexo e gênero na medicina da mulher.

Sobre este, só posso dizer que é mais do que bem-vindo e tentar convencer alguma leitora, ou leitor, reticente de porque vale a pena editar mais um trabalho sobre a atuação da corporação médica em nosso país. A primeira razão é histórica: Fabiola resgata, numa leitura extremamente cuidadosa, um conjunto de documentos – as teses defendidas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro – que é crucial para o desenvolvimento do trabalho de inúmeros outros pesquisadores. Eu gostaria de ter tido essa pesquisa à disposição quando estava fazendo minha própria tese de doutorado – como sei que outros pesquisadores da nossa história médica vão fazê-lo. A segunda razão é que, se hoje parece obsoleto falar em ‘medicalização’ da sociedade, o poder pelo qual essa corporação se sente ungida é mais do que nunca presente: "o juiz interroga como um homem, o médico como um Deus", diz um dos autores daquelas teses em 1852. Que sirva de exemplo dessa auto-unção o debate recente e presente na sociedade norte-americana - ainda não na nossa, na qual apenas um representante do Ministério Público se dispôs a enfrentar o problema - a respeito da intervenção médica na correção do sexo de recém-nascidos qualificados como 'intersexuados'. A literatura já reunida sobre o assunto em outros países mostra o repúdio com o qual os que sofrem os efeitos dessa prática mutiladora vêm enfrentando essa corporação que se quer divina. Outros exemplos estão presentes todos os dias nos jornais: as propostas de clonagem, as tecnologias de reprodução assistida -e as já banais cirurgias plásticas. O título deste livro - A Arte de Enganar a Natureza: contracepção, aborto e infanticídio no início do século XX - poderia, assim, ser também uma sutil descrição do trabalho daqueles médicos porque, como Fabíola mostra bem, não é que eles não gostem de enganar a natureza, não gostam é que outros o façam.

Mas há outras razões para recebermos bem este trabalho, e aqui vou mencionar apenas mais duas. Uma, é que sem estar preocupada com os estudos subalternos tão em voga no mundo acadêmico contemporâneo, Fabíola vai mostrando, com paciência e ciência, que os médicos estão 'respondendo' a alguma coisa: há uma vida pulsando fora desses textos de medicina que exige que eles tomem posição - para não perder a sua. Essa vida não é, claro, o tema do livro, mas ela está lá, presente todo o tempo, apontando a razão de tais discussões tão acaloradas nas sociedades de medicina, nos jornais, nas teses, nos processos. É como se houvesse uma interlocutora impávida, negando essas razões da ciência médica no mesmo tom peremptório com que ela as enunciava.

A outra é que, pela primeira vez, vejo o tema da honra ser discutido em relação às mulheres - tema que mereceria outro estudo, e que é mencionado aqui na análise dos processos e das teses sobre o infanticídio. Seria interessante associar essa análise à dos crimes passionais, feitas na mesma época, já que nos dois casos - o dos homens que matam as mulheres que os 'desonraram', e o das mães que matam os filhos porque foram 'desonradas'- a lógica aceita é de que "a honra se lava com sangue". Sangue de mulher num caso, sangue de criança no outro. Lógica 'sacrificial' que, creio, valeria a pena explorar mais, tanto no discurso médico como no discurso jurídico.

Paro por aqui para não estragar o prazer da leitura de outras perspectivas possíveis, mas aviso aos leitores que há muitos outros caminhos que Fabíola vai apontando ao longo desta obra: leia-se com atenção sua recuperação de um clássico do positivismo brasileiro, o livro de Tito Livio de Castro, e suas implicações para a teoria feminista contemporânea.

 

Mariza Corrêa

Antropóloga, professora do Departamento de Antropologia da

Unicamp e pesquisadora do Pagu - Núcleo de Estudos de

Gênero