A babá gótica

Adriana Igrejas · Capítulo 1 de 7

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A babá gótica

Capítulo 2

− Por quê? Ela diz que ela é bruxa, depois fada

e agora é princesa. E você é o príncipe encantado! –

Analice concluiu engolindo o riso.

Lourenço estava furioso. A insinuação de algo

entre ele e aquela bruxa era inaceitável.

− Que droga! Eu estava falando sério com você

e agora você resolve me zoar!

− Vai ver você está atraído por ela... sei lá, pode

ter uma queda por... achar sexy meninas góticas...

− Para, tá? Você venceu. Fica com a

Vandinha[2]! Mas eu vou ficar de olho! Se ela fizer

qualquer coisa suspeita...

− Querido, − começou agora totalmente séria –

se ela fizer qualquer coisa, eu vou ser a primeira a

reconhecer o erro de demiti-la sumariamente.

− Importa-se se eu investigar?

− Investigar?

− É, investigar. O que você sabe sobre essa

maluca?

− Foi recomendada e eu tenho o currículo.

− Pode me dar?

− O quê?

− O currículo.

− Pra quê?

− Eu disse que vou investigar.

− Garoto, eu estou te estranhando...

Analice realmente não podia entender o

comportamento do enteado. Ele nunca fora tão

desconfiado nem hostil. Ficou seriamente

preocupada. Será que ele tinha razão? Será que era

alguma espécie de pressentimento?

− Tá, tudo bem. Investigue. Faça o que você

achar melhor. Mas me fale se achar qualquer coisa,

tá?

− Tá.

CAPÍTULO 8

 

QUEM ERA A BABÁ

 

Começou por procurá-la no Google, nas redes Lourenço começou a investigar imediatamente.

sociais. Foi uma total decepção. Ela não tinha perfil

em nenhuma rede social. Isso por si só era estranho.

Que garota de dezenove anos no planeta Terra não

teria pelo menos um perfil nas redes sociais?

Teria que ser radical. Sentiu-se estranhamente

obcecado. Era uma ideia fixa. Ele tinha que descobrir alguma coisa que fizesse Analice

despedi-la. Por isso, naquela radiante manhã de

sábado, ele olhou para o azulão do céu e pensou em

todas as possibilidades que um rapaz de dezenove

anos normal pensaria: praia, piscina do

condomínio, jogar futebol com os amigos, sair com

a namorada. Mas já não era um garoto normal

desde que resolvera estudar medicina. Tirando as

férias de verão, raramente ia à praia, ou à piscina.

Seus amigos do colegial já o consideravam um

chato, um nerd pior a cada dia, que só pensava em

estudar. Até para os colegas de Medicina, ele era

dedicado demais: o estraga-prazeres que estava

sempre lembrando a todos que tinham uma prova

ou seminário na próxima semana e que precisavam

estudar, que ele precisava estudar. Por fim, a

namorada do colegial o dispensara após o primeiro

trimestre da faculdade, reclamando que ele só tinha

tempo para os estudos e nunca para ela. E ele nem sequer tentara argumentar, pois ela estava certa. Ele

não tinha mesmo tempo para namorar e nem queria.

Passou a ficar com uma garota ou outra sem

compromisso, normalmente após as provas do

bimestre.

Então ao que ele renunciaria naquela manhã

para bancar o detetive e se dedicar ao mistério da

babá gótica? Aos estudos. Sentia-se culpado, como

sempre se sentia quando decidia usar seu final de

semana com outra coisa que não fosse estudar. Mas

estranhamente animado, como se aquilo fosse um

propósito nobre ou algo assim. Era algo que valeria

a pena. Por quê? Porque se tratava da segurança de

sua irmãzinha, claro. Claro. Claro. Era só isso.

Foi até o endereço do currículo. Era um prédio

no Recreio dos Bandeirantes, não tão distante de

onde eles moravam, na Barra. Olhou para o

condomínio do lado de fora − tão luxuoso quanto

aquele em que ele morava. Por que aquela menina trabalhava de babá? Não fazia nenhum sentido...

Nem a história de Psicologia... Primeiro a pessoa se

forma em uma universidade, depois se procura a

experiência prática... era o normal... E babá?

Ele pediu ao porteiro para interfonar, dizendo

que era relativo ao trabalho dela. Mas o que o

porteiro disse foi bem curioso:

− Dona Lucinda não mora mais aqui não. Faz

pra mais de um ano. Só o pai dela mora aqui.

− Ah, então ela não mora mais com o pai. Está

morando com a mãe?

− Ixi! A mãe dela é falecida!

Como a minha. Foi impossível para Lourenço

não sentir a identificação com a situação da garota

e, por mais que não quisesse ser simpático com ela

em nada, sentiu um nó no peito. Ele sabia bem o

que era perder a mãe. Talvez por isso ela tivesse

ficado maluquinha e virado gótica? Nem todo

mundo aguentava do jeito que ele aguentou. Não que ele fosse tão forte, mas se sentia afortunado

porque o pai tinha sido ótimo nos piores momentos

e Analice fora um anjo também. Mas

imediatamente rejeitou sua simpatia ou piedade

pela moça. Precisava manter-se firme em seu

propósito de tirá-la da vida da irmã e ficar com

peninha não ia ajudar.

− Ela foi morar sozinha. Deu um desgosto

danado pro seu Josué... – continuou o porteiro

parando de repente, pensando se não estava falando

demais, se não ia prejudicar a moça no tal emprego.

– Mas tô falando demais... Dona Lucinda é moça

de bem.

Lourenço tinha ouvido tudo atentamente e

ficado feliz pela indiscrição do porteiro, tinha que

fazê-lo falar mais.

− Puxa. É mesmo? A gente bem que queria

ajudar a Lucinda lá no trabalho, com os problemas

dela, sabe... – mentiu descaradamente. − Mas ela é tão fechada... Se eu pudesse saber mais... Por que

será que ela saiu de casa? O senhor sabe?

O porteiro coçou a cabeça e olhou para os

lados. Parecia querer contar, mas queria certificar-

se de que ninguém os escutava. Com um gesto

chamou Lourenço para o lado do balcão da

portaria, de onde, de fora do prédio, ninguém os

veria.

− A moça Lucinda era uma menina linda! Ô!

Os rapazes do prédio ficavam atrás dela o tempo

todo. Bonita, bem vestida, com um cabelo lindo!

Uma formosura! Era meio metida, sabe? Não dizia

nem bom dia nem boa noite pra ninguém! Andava

com um bando de meninas iguais a ela: bonitas,

bem arrumadas e todas metidas. Aí, do dia pra

noite, ela mudou. Cortou aquele cabelo lindo,

começou a usar umas roupas esquisitas! Ficou toda

de preto! – falou em tom de lamento movendo a

cabeça para um lado e para o outro. – Mas você é amigo dela, né? – disse preocupado em estar

falando mal da garota para alguém que a considere.

− Tudo bem. Pode ser sincero. Também acho

horrível o jeito que ela se veste.

Aliviado pelo que o outro disse, o porteiro se

sentiu animado a continuar falando:

− Ela trabalha vestida desse jeito, é?

− Fazer o quê! – respondeu Lourenço sem

conseguir evitar a ironia.

− Pois é, foi de repente que ela se transformou.

− Foi a morte da mãe?

− Não, a morte da mãe foi bem antes. Eu nem

trabalhava aqui. Eu ouvi dizer que por causa da

morte da mãe que ela ficou metida e... daquele

jeito que era.

− Então foi assim? Sem motivo?

− Motivo deve ter tido. Eu é que não sei. Só sei

o que eu observo e o que eu ouço aqui na portaria.

A menina mudou. E não foi só nas roupas. Começou a ficar mais mansa, de olhar baixo, mais

humilde, triste, mas mais atenciosa e passou a me

dar bom dia.

− Não entendi. Então ela ficou melhor ou pior?

− Na figura, pior. No trato, melhor. Mas logo

depois se mudou. Eu sei porque o pai desceu atrás

dela aos gritos. Foi uma discussão danada. Ela só

estava levando uma malinha e uma mochila.

− Nossa! Mas o que ela dizia pro pai?

− Que tinha que fazer... que precisava fazer

alguma coisa, não sei... Mas é urgente que você

precisava falar com ela?

− É, mais ou menos. É um recado da minha

mãe. Ela trabalha para ela. Eu poderia subir e falar

com o pai dela? – atreveu-se Lourenço.

− Poder, podia. Mas Seu Josué tá viajando a

trabalho. Só volta na semana que vem.

− Ah, tudo bem.

− Ela não tem celular? – perguntou o porteiro.

− Não está atendendo − mentiu rapidamente.

Lourenço se despediu agradecendo pela atenção

e saiu de lá desdobrando o currículo, de uma

página, da moça, que estava enfiado no bolso da

calça jeans. Viu um número de celular. Ligou

movido por um impulso inexplicável. Quando

ouviu a voz dela do outro lado do aparelho,

sobressaltou-se e desligou imediatamente. O que

estava fazendo? Que diabos estava fazendo? Não só

ligando para ela, mas ali, atrás de um endereço,

investigando? Tinha que estudar! Ou então

descansar! E estava brincando de detetive!

Respirou fundo e tentou organizar seus

pensamentos até chegar ao local onde tinha

estacionado o carro. Foi para casa decidido a

esquecer tudo e deixar para lá. Porém, as palavras

do porteiro o deixaram intrigado. E ela tinha

mentido sobre o endereço no currículo! Aquilo era

grave. Ou não era? Precisava contar a Analice. Quem esconde onde mora, esconde alguma coisa...

Ele passou um fim de semana bem angustiante.

As horas em seu quarto com a cara nos livros

estavam sendo bem pouco produtivas. Pouco se

concentrava, preocupado com sua irmãzinha nas

mãos da garota bizarra. Pelo menos era o que dizia

a si mesmo. Ou talvez estivesse intrigado com a

história que o porteiro lhe contou. De qualquer

forma, o que o distraía era ela − a esquisitinha a

que ele se recusava a chamar pelo nome, mesmo

em pensamento. Ela era um mistério. O problema

era que ele queria desvendá-la.

Acabara resolvendo não falar com Analice

ainda sobre o endereço. Primeiro descobriria onde a

maluca estava morando. Precisava segui-la. E mal

podia esperar até segunda para isso. Não passaria a

semana no alojamento da faculdade. Teria que

voltar para casa ao menos na segunda. Ou até que

descobrisse tudo. Enquanto isso, ele tinha que se concentrar naqueles malditos capítulos de

histologia!

CAPÍTULO 9

 

BANCANDO O DETETIVE

 

trabalho. Não passou por lá. Ela precisava achar Ele a seguiu. Esperou que saísse do

que ele estava na faculdade a semana toda.

Ele a viu sair do prédio e ir até o ponto de

ônibus duas quadras adiante. Dirigiu devagar,

temendo que ela o visse. Nunca tinha feito nada

assim antes e pegou-se perguntando se estaria

ficando louco. Onde esperaria se o ônibus dela

demorasse? Por sorte ele logo veio. E agora? Será que conseguiria dirigir o tempo todo atrás do

ônibus? Conseguiria ver quando ela saltasse? Que

roubada! Precisava tentar!

O trânsito estava péssimo. Como sempre. Não

tinha visto o destino do ônibus. Não tinha a menor

ideia de para onde estava indo. Depois de meia

hora de um trajeto lento por causa do trânsito,

começou a desesperar-se. Aquilo só podia ser uma

obsessão para a qual não atinava com a razão. O

trajeto ainda durou mais quarenta minutos até que a

viu saltar. E agora? Estava em um daqueles bairros

nas imediações do centro do Rio de Janeiro, talvez

Catumbi... Ela andava e tomou a rua da esquerda

subindo. Se continuasse a segui-la de carro, a

velocidade a que precisaria ir logo chamaria a

atenção dela e ela o veria. Resolveu estacionar no

início da rua e esperar no carro até que ela estivesse

a uma distância segura para segui-la.

A rua era mal iluminada e as casas antigas e mal preservadas davam um aspecto decadente ao

lugar e ele de repente acordou para o perigo que

poderia representar aquele bairro. Temeu por seu

carro ainda novinho, presente de seu pai quando

passou para a faculdade de Medicina. Somente uma

insanidade temporária poderia explicar seus atos

naquele momento.

Lourenço observou alguns moradores sentados

em calçadas conversando. Mas o jeito deles

causou-lhe medo. Parecia que estava entrando em

um mundo diferente. A pobreza era evidente.

Olhou para o relógio e viu que eram dez e meia da

noite. Depois, viu adiante de onde a esquisitinha

caminhava um grupo de rapazes em roda, de pé na

calçada, gargalhando e falando alto, enquanto

algum aparelho de celular tocava um funk. Alguns

fumavam e Lourenço teve a impressão de que não

era exatamente cigarro.

Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui? E como ela pode viver aqui? Parecia

incompreensível, principalmente depois de ver

onde ela morava antes. A briga com o pai devia ter

sido muito feia mesmo! Só muito orgulho para

alguém que vivia onde ela vivia ir viver ali! Ele

queria voltar, mas precisava ver em que casa ela ia

entrar.

Súbito, gelou quando a viu passar pelo grupo.

De onde estava não conseguiu ouvir direito, mas

percebeu que mexiam com ela. Ele a ouviu dizer

algo como “me deixe em paz” e alguma coisa que o

fez suspeitar que aquela não era a primeira vez que

ela passava por aquele tipo de situação. Será que

ela sofria aquilo todos os dias? Sem pensar ou

refletir seus passos se apressaram. Corria para

resgatá-la sem nenhuma preocupação mais com

permanecer incógnito ou bom-senso, já que ele era

um e eles, pelo menos cinco.

Chegando mais perto pôde ver que um deles a havia prendido pelo pulso. Eles soltavam risos

sardônicos e insultos. Alguns ele pôde ouvir:

− Bruxinha esquisita!

− Vampira!

− Vadia escrota!

− Maluca!

Parecia que todos queriam fazer uma gracinha

em relação à aparência dela. Lourenço estava quase

lá! O coração aos pulos. Nenhuma reflexão, apenas

ódio pelo que estavam fazendo com ela. O que era

bem estranho considerando a maneira como ele

próprio a tratou. E sentiu-se mal ao se enxergar

naquele comportamento bárbaro. Antes de alcançar

o local exato, mas já bem próximo, estacou ao vê-la

torcer o braço do rapaz que a detinha, para em

seguida com as mãos erguidas soltar imprecações,

amaldiçoando-os com palavras como se fosse

realmente uma bruxa fazendo seu vodu. E em...

latim? Aquilo era latim?

Fosse como fosse, Lourenço ficou lá parado a

poucos passos deles em completo espanto, tanto

devido ao golpe preciso que ela havia dado no

rapaz para libertar-se quanto pelas palavras

incompreensíveis. Em meio a um eloquente

discurso em língua morta que fez com que os

rapazes se dispersassem com caras de medo

evidente, Lourenço apenas entendeu algumas

palavras: as que se pareciam com português e que

provavelmente foram as mesmas entendidas pelos

jovens do grupo e as mesmas que fizeram com que

cada um deles procurasse o caminho de casa –

infidelium, imundus, mortuum, diabolus, calamitas,

sepulcrum, tumulus, lacrima, infernum. Não

precisava ser nenhum gênio para deduzir que o que

ela dizia não era nada bom. O último a se afastar

deixou no ar seu grito após fazer o sinal da cruz: Ih,

eu hein! Sai pra lá, bruxa!

Então Lourenço adiantou-se e passou pelo grupo alcançando-a. Ela estava tão transtornada,

caminhando afogueada, quase correndo, que

demorou ainda alguns segundos para notá-lo.

Quando o fez, olhou para ele em perfeito pasmo.

Deu outra olhada para trás, para se certificar de que

o grupo realmente havia se dispersado. Segurou

firme Lourenço pelo braço e puxou-o. Parecia

decidida a ganhar uma distância segura daqueles

rapazes antes de falar com o futuro médico. Parou

apenas quando chegaram ao portão do cortiço onde

morava e então o encarou.

− Pronto. Estou em casa. Era isso que você

queria ver? Onde eu moro? Foi por isso que me

seguiu?

Ele olhou para a construção e achou o lugar um

lixo. Sentiu pena dela. Pela segunda vez. Tomado

de repente de sentimentos ternos, teve que armar-se

novamente da postura cínica que adotara com ela,

antes que ele... o quê? A mulher era uma bruxa! Ou pensava que era! Aquelas palavras em latim? O que

foi aquilo? Invocando o demônio? Ridículo! Ele

não acreditava em demônio! Nem em bruxas! Mas

parecia que ela sim!

− Não vai dizer nada? – inquiriu ela ao notar o

atordoamento dele.

− Posso entrar?

Não era isso que ela esperava ouvir, mas

entendeu que ele estava tenso, talvez por causa da

cena que presenciara e era melhor que

conversassem em paz. Ela abriu o portão e

sussurrou um pedido para que ele não fizesse

barulho, algo sobre a senhoria não entender.

Lourenço sentiu as batidas de seu coração

acelerarem-se ou pela proximidade com que ela

sussurrou as palavras em seu ouvido, ou por causa

da entrada clandestina no quarto da moça, algo que

tinha um sabor de aventura que ele não provava há

muito tempo.

Logo que entraram no cubículo onde ela

morava, Lourenço tomou consciência da miséria

em que ela vivia e sentiu o peito confrangido. Pena

dela de novo? E o espaço pequeno parecia não ser o

suficiente para os dois. Ambos pareciam nervosos.

Podiam pôr a culpa no incidente com o grupo de

jovens hostis na rua, mas a tensão no ar era mais do

que isso. Era primordialmente hormonal. Nada

poderia apagar o fato de que ali naquele espaço

mínimo, fechado, estavam dois jovens de dezenove

anos – um homem e uma mulher. Depois,

comportamental. O relacionamento dos dois desde

o começo havia sido estabelecido entre farpas.

Após alguns segundos de silêncio embaraçoso e

olhares diretos e desconcertantes, Lourenço

resolveu quebrar o silêncio e o feitiço que os olhos

dela pareciam, por vezes, exercer sobre ele:

− Você mentiu sobre o endereço no currículo. –

A voz saiu amena, quase carinhosa. Nada do jeito que ele queria. Ele queria ter sido rude e mordaz

como quando a conheceu. O que havia de errado

com ele?

− Eu não menti. É o endereço da minha casa.

Só que não estou morando lá. Temporariamente.

Mas vou voltar – disse calmamente.

− Por quê?

Lucinda tinha ficado muito calma até aquele

momento, mas aquele playboy estava começando a

irritá-la! Que abuso! Ele a estava seguindo! Mas

quem ele pensava que era?

− Não é da sua conta! Quem te deu o direito de

me seguir? Eu achei que você era um ocupado

estudante de medicina! Dona Analice disse que

nem vinha para casa aos finais de semana às vezes.

Só para estudar! Então o que está fazendo aqui

numa segunda-feira à noite? Não tinha que estar

com a cara nos livros?

Ai! Aquela tinha doído. Porque ela estava certíssima. O que diabos ele estava fazendo ali?

− Não posso estudar tranquilo sabendo que

minha irmã está nas mãos de uma maluca que

mentiu no currículo sobre seu endereço! Quem

mente esconde alguma coisa! Então, se você quer

que eu te deixe em paz, vai ter que me dar algumas

respostas, ou vou ter que continuar te seguindo para

descobrir seus segredos sórdidos! – despejou

satisfeito por ter respondido à pergunta dela e a

suas próprias dúvidas tão satisfatoriamente.

− Segredos sórdidos? – soltou em meio a uma

gargalhada forçada. – Isso é ridículo!

− Então responde. Responde tudinho que eu te

perguntar e eu te deixo em paz!

− Sério?

− Vai depender das respostas. Se você for

honesta, pode ser...

− Muito bem. Manda ver. Vou responder. Por

alto. Não sou obrigada a dar detalhes pessoais, que julgo que não são da sua conta.

− Por que saiu da casa de seu pai e está

morando aqui?

− Nós brigamos.

− Só isso? – perguntou frustrado pela resposta

tão vaga, sem nenhum detalhe.

− É pessoal. Entre mim e meu pai e não vou te

contar. Eu nem te conheço, garoto!

Lourenço não gostou da resposta, mas isso não

o impediria de continuar perguntando.

− Se brigaram, como disse que vai voltar para

casa logo?

− Ele veio aqui e a gente meio que se entendeu.

Eu falei com ele que vou voltar.

− Ótimo. Então pega as suas coisas que eu te

levo lá. Este lugar é horrível.

− Não agora. Eu vou voltar no final do ano. Nós

não estamos totalmente bem, eu meio que tô

pensando no assunto...