A babá gótica
Capítulo 2
− Por quê? Ela diz que ela é bruxa, depois fada
e agora é princesa. E você é o príncipe encantado! –
Analice concluiu engolindo o riso.
Lourenço estava furioso. A insinuação de algo
entre ele e aquela bruxa era inaceitável.
− Que droga! Eu estava falando sério com você
e agora você resolve me zoar!
− Vai ver você está atraído por ela... sei lá, pode
ter uma queda por... achar sexy meninas góticas...
− Para, tá? Você venceu. Fica com a
Vandinha[2]! Mas eu vou ficar de olho! Se ela fizer
qualquer coisa suspeita...
− Querido, − começou agora totalmente séria –
se ela fizer qualquer coisa, eu vou ser a primeira a
reconhecer o erro de demiti-la sumariamente.
− Importa-se se eu investigar?
− Investigar?
− É, investigar. O que você sabe sobre essa
maluca?
− Foi recomendada e eu tenho o currículo.
− Pode me dar?
− O quê?
− O currículo.
− Pra quê?
− Eu disse que vou investigar.
− Garoto, eu estou te estranhando...
Analice realmente não podia entender o
comportamento do enteado. Ele nunca fora tão
desconfiado nem hostil. Ficou seriamente
preocupada. Será que ele tinha razão? Será que era
alguma espécie de pressentimento?
− Tá, tudo bem. Investigue. Faça o que você
achar melhor. Mas me fale se achar qualquer coisa,
tá?
− Tá.
CAPÍTULO 8
QUEM ERA A BABÁ
Começou por procurá-la no Google, nas redes Lourenço começou a investigar imediatamente.
sociais. Foi uma total decepção. Ela não tinha perfil
em nenhuma rede social. Isso por si só era estranho.
Que garota de dezenove anos no planeta Terra não
teria pelo menos um perfil nas redes sociais?
Teria que ser radical. Sentiu-se estranhamente
obcecado. Era uma ideia fixa. Ele tinha que descobrir alguma coisa que fizesse Analice
despedi-la. Por isso, naquela radiante manhã de
sábado, ele olhou para o azulão do céu e pensou em
todas as possibilidades que um rapaz de dezenove
anos normal pensaria: praia, piscina do
condomínio, jogar futebol com os amigos, sair com
a namorada. Mas já não era um garoto normal
desde que resolvera estudar medicina. Tirando as
férias de verão, raramente ia à praia, ou à piscina.
Seus amigos do colegial já o consideravam um
chato, um nerd pior a cada dia, que só pensava em
estudar. Até para os colegas de Medicina, ele era
dedicado demais: o estraga-prazeres que estava
sempre lembrando a todos que tinham uma prova
ou seminário na próxima semana e que precisavam
estudar, que ele precisava estudar. Por fim, a
namorada do colegial o dispensara após o primeiro
trimestre da faculdade, reclamando que ele só tinha
tempo para os estudos e nunca para ela. E ele nem sequer tentara argumentar, pois ela estava certa. Ele
não tinha mesmo tempo para namorar e nem queria.
Passou a ficar com uma garota ou outra sem
compromisso, normalmente após as provas do
bimestre.
Então ao que ele renunciaria naquela manhã
para bancar o detetive e se dedicar ao mistério da
babá gótica? Aos estudos. Sentia-se culpado, como
sempre se sentia quando decidia usar seu final de
semana com outra coisa que não fosse estudar. Mas
estranhamente animado, como se aquilo fosse um
propósito nobre ou algo assim. Era algo que valeria
a pena. Por quê? Porque se tratava da segurança de
sua irmãzinha, claro. Claro. Claro. Era só isso.
Foi até o endereço do currículo. Era um prédio
no Recreio dos Bandeirantes, não tão distante de
onde eles moravam, na Barra. Olhou para o
condomínio do lado de fora − tão luxuoso quanto
aquele em que ele morava. Por que aquela menina trabalhava de babá? Não fazia nenhum sentido...
Nem a história de Psicologia... Primeiro a pessoa se
forma em uma universidade, depois se procura a
experiência prática... era o normal... E babá?
Ele pediu ao porteiro para interfonar, dizendo
que era relativo ao trabalho dela. Mas o que o
porteiro disse foi bem curioso:
− Dona Lucinda não mora mais aqui não. Faz
pra mais de um ano. Só o pai dela mora aqui.
− Ah, então ela não mora mais com o pai. Está
morando com a mãe?
− Ixi! A mãe dela é falecida!
Como a minha. Foi impossível para Lourenço
não sentir a identificação com a situação da garota
e, por mais que não quisesse ser simpático com ela
em nada, sentiu um nó no peito. Ele sabia bem o
que era perder a mãe. Talvez por isso ela tivesse
ficado maluquinha e virado gótica? Nem todo
mundo aguentava do jeito que ele aguentou. Não que ele fosse tão forte, mas se sentia afortunado
porque o pai tinha sido ótimo nos piores momentos
e Analice fora um anjo também. Mas
imediatamente rejeitou sua simpatia ou piedade
pela moça. Precisava manter-se firme em seu
propósito de tirá-la da vida da irmã e ficar com
peninha não ia ajudar.
− Ela foi morar sozinha. Deu um desgosto
danado pro seu Josué... – continuou o porteiro
parando de repente, pensando se não estava falando
demais, se não ia prejudicar a moça no tal emprego.
– Mas tô falando demais... Dona Lucinda é moça
de bem.
Lourenço tinha ouvido tudo atentamente e
ficado feliz pela indiscrição do porteiro, tinha que
fazê-lo falar mais.
− Puxa. É mesmo? A gente bem que queria
ajudar a Lucinda lá no trabalho, com os problemas
dela, sabe... – mentiu descaradamente. − Mas ela é tão fechada... Se eu pudesse saber mais... Por que
será que ela saiu de casa? O senhor sabe?
O porteiro coçou a cabeça e olhou para os
lados. Parecia querer contar, mas queria certificar-
se de que ninguém os escutava. Com um gesto
chamou Lourenço para o lado do balcão da
portaria, de onde, de fora do prédio, ninguém os
veria.
− A moça Lucinda era uma menina linda! Ô!
Os rapazes do prédio ficavam atrás dela o tempo
todo. Bonita, bem vestida, com um cabelo lindo!
Uma formosura! Era meio metida, sabe? Não dizia
nem bom dia nem boa noite pra ninguém! Andava
com um bando de meninas iguais a ela: bonitas,
bem arrumadas e todas metidas. Aí, do dia pra
noite, ela mudou. Cortou aquele cabelo lindo,
começou a usar umas roupas esquisitas! Ficou toda
de preto! – falou em tom de lamento movendo a
cabeça para um lado e para o outro. – Mas você é amigo dela, né? – disse preocupado em estar
falando mal da garota para alguém que a considere.
− Tudo bem. Pode ser sincero. Também acho
horrível o jeito que ela se veste.
Aliviado pelo que o outro disse, o porteiro se
sentiu animado a continuar falando:
− Ela trabalha vestida desse jeito, é?
− Fazer o quê! – respondeu Lourenço sem
conseguir evitar a ironia.
− Pois é, foi de repente que ela se transformou.
− Foi a morte da mãe?
− Não, a morte da mãe foi bem antes. Eu nem
trabalhava aqui. Eu ouvi dizer que por causa da
morte da mãe que ela ficou metida e... daquele
jeito que era.
− Então foi assim? Sem motivo?
− Motivo deve ter tido. Eu é que não sei. Só sei
o que eu observo e o que eu ouço aqui na portaria.
A menina mudou. E não foi só nas roupas. Começou a ficar mais mansa, de olhar baixo, mais
humilde, triste, mas mais atenciosa e passou a me
dar bom dia.
− Não entendi. Então ela ficou melhor ou pior?
− Na figura, pior. No trato, melhor. Mas logo
depois se mudou. Eu sei porque o pai desceu atrás
dela aos gritos. Foi uma discussão danada. Ela só
estava levando uma malinha e uma mochila.
− Nossa! Mas o que ela dizia pro pai?
− Que tinha que fazer... que precisava fazer
alguma coisa, não sei... Mas é urgente que você
precisava falar com ela?
− É, mais ou menos. É um recado da minha
mãe. Ela trabalha para ela. Eu poderia subir e falar
com o pai dela? – atreveu-se Lourenço.
− Poder, podia. Mas Seu Josué tá viajando a
trabalho. Só volta na semana que vem.
− Ah, tudo bem.
− Ela não tem celular? – perguntou o porteiro.
− Não está atendendo − mentiu rapidamente.
Lourenço se despediu agradecendo pela atenção
e saiu de lá desdobrando o currículo, de uma
página, da moça, que estava enfiado no bolso da
calça jeans. Viu um número de celular. Ligou
movido por um impulso inexplicável. Quando
ouviu a voz dela do outro lado do aparelho,
sobressaltou-se e desligou imediatamente. O que
estava fazendo? Que diabos estava fazendo? Não só
ligando para ela, mas ali, atrás de um endereço,
investigando? Tinha que estudar! Ou então
descansar! E estava brincando de detetive!
Respirou fundo e tentou organizar seus
pensamentos até chegar ao local onde tinha
estacionado o carro. Foi para casa decidido a
esquecer tudo e deixar para lá. Porém, as palavras
do porteiro o deixaram intrigado. E ela tinha
mentido sobre o endereço no currículo! Aquilo era
grave. Ou não era? Precisava contar a Analice. Quem esconde onde mora, esconde alguma coisa...
Ele passou um fim de semana bem angustiante.
As horas em seu quarto com a cara nos livros
estavam sendo bem pouco produtivas. Pouco se
concentrava, preocupado com sua irmãzinha nas
mãos da garota bizarra. Pelo menos era o que dizia
a si mesmo. Ou talvez estivesse intrigado com a
história que o porteiro lhe contou. De qualquer
forma, o que o distraía era ela − a esquisitinha a
que ele se recusava a chamar pelo nome, mesmo
em pensamento. Ela era um mistério. O problema
era que ele queria desvendá-la.
Acabara resolvendo não falar com Analice
ainda sobre o endereço. Primeiro descobriria onde a
maluca estava morando. Precisava segui-la. E mal
podia esperar até segunda para isso. Não passaria a
semana no alojamento da faculdade. Teria que
voltar para casa ao menos na segunda. Ou até que
descobrisse tudo. Enquanto isso, ele tinha que se concentrar naqueles malditos capítulos de
histologia!
CAPÍTULO 9
BANCANDO O DETETIVE
trabalho. Não passou por lá. Ela precisava achar Ele a seguiu. Esperou que saísse do
que ele estava na faculdade a semana toda.
Ele a viu sair do prédio e ir até o ponto de
ônibus duas quadras adiante. Dirigiu devagar,
temendo que ela o visse. Nunca tinha feito nada
assim antes e pegou-se perguntando se estaria
ficando louco. Onde esperaria se o ônibus dela
demorasse? Por sorte ele logo veio. E agora? Será que conseguiria dirigir o tempo todo atrás do
ônibus? Conseguiria ver quando ela saltasse? Que
roubada! Precisava tentar!
O trânsito estava péssimo. Como sempre. Não
tinha visto o destino do ônibus. Não tinha a menor
ideia de para onde estava indo. Depois de meia
hora de um trajeto lento por causa do trânsito,
começou a desesperar-se. Aquilo só podia ser uma
obsessão para a qual não atinava com a razão. O
trajeto ainda durou mais quarenta minutos até que a
viu saltar. E agora? Estava em um daqueles bairros
nas imediações do centro do Rio de Janeiro, talvez
Catumbi... Ela andava e tomou a rua da esquerda
subindo. Se continuasse a segui-la de carro, a
velocidade a que precisaria ir logo chamaria a
atenção dela e ela o veria. Resolveu estacionar no
início da rua e esperar no carro até que ela estivesse
a uma distância segura para segui-la.
A rua era mal iluminada e as casas antigas e mal preservadas davam um aspecto decadente ao
lugar e ele de repente acordou para o perigo que
poderia representar aquele bairro. Temeu por seu
carro ainda novinho, presente de seu pai quando
passou para a faculdade de Medicina. Somente uma
insanidade temporária poderia explicar seus atos
naquele momento.
Lourenço observou alguns moradores sentados
em calçadas conversando. Mas o jeito deles
causou-lhe medo. Parecia que estava entrando em
um mundo diferente. A pobreza era evidente.
Olhou para o relógio e viu que eram dez e meia da
noite. Depois, viu adiante de onde a esquisitinha
caminhava um grupo de rapazes em roda, de pé na
calçada, gargalhando e falando alto, enquanto
algum aparelho de celular tocava um funk. Alguns
fumavam e Lourenço teve a impressão de que não
era exatamente cigarro.
Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui? E como ela pode viver aqui? Parecia
incompreensível, principalmente depois de ver
onde ela morava antes. A briga com o pai devia ter
sido muito feia mesmo! Só muito orgulho para
alguém que vivia onde ela vivia ir viver ali! Ele
queria voltar, mas precisava ver em que casa ela ia
entrar.
Súbito, gelou quando a viu passar pelo grupo.
De onde estava não conseguiu ouvir direito, mas
percebeu que mexiam com ela. Ele a ouviu dizer
algo como “me deixe em paz” e alguma coisa que o
fez suspeitar que aquela não era a primeira vez que
ela passava por aquele tipo de situação. Será que
ela sofria aquilo todos os dias? Sem pensar ou
refletir seus passos se apressaram. Corria para
resgatá-la sem nenhuma preocupação mais com
permanecer incógnito ou bom-senso, já que ele era
um e eles, pelo menos cinco.
Chegando mais perto pôde ver que um deles a havia prendido pelo pulso. Eles soltavam risos
sardônicos e insultos. Alguns ele pôde ouvir:
− Bruxinha esquisita!
− Vampira!
− Vadia escrota!
− Maluca!
Parecia que todos queriam fazer uma gracinha
em relação à aparência dela. Lourenço estava quase
lá! O coração aos pulos. Nenhuma reflexão, apenas
ódio pelo que estavam fazendo com ela. O que era
bem estranho considerando a maneira como ele
próprio a tratou. E sentiu-se mal ao se enxergar
naquele comportamento bárbaro. Antes de alcançar
o local exato, mas já bem próximo, estacou ao vê-la
torcer o braço do rapaz que a detinha, para em
seguida com as mãos erguidas soltar imprecações,
amaldiçoando-os com palavras como se fosse
realmente uma bruxa fazendo seu vodu. E em...
latim? Aquilo era latim?
Fosse como fosse, Lourenço ficou lá parado a
poucos passos deles em completo espanto, tanto
devido ao golpe preciso que ela havia dado no
rapaz para libertar-se quanto pelas palavras
incompreensíveis. Em meio a um eloquente
discurso em língua morta que fez com que os
rapazes se dispersassem com caras de medo
evidente, Lourenço apenas entendeu algumas
palavras: as que se pareciam com português e que
provavelmente foram as mesmas entendidas pelos
jovens do grupo e as mesmas que fizeram com que
cada um deles procurasse o caminho de casa –
infidelium, imundus, mortuum, diabolus, calamitas,
sepulcrum, tumulus, lacrima, infernum. Não
precisava ser nenhum gênio para deduzir que o que
ela dizia não era nada bom. O último a se afastar
deixou no ar seu grito após fazer o sinal da cruz: Ih,
eu hein! Sai pra lá, bruxa!
Então Lourenço adiantou-se e passou pelo grupo alcançando-a. Ela estava tão transtornada,
caminhando afogueada, quase correndo, que
demorou ainda alguns segundos para notá-lo.
Quando o fez, olhou para ele em perfeito pasmo.
Deu outra olhada para trás, para se certificar de que
o grupo realmente havia se dispersado. Segurou
firme Lourenço pelo braço e puxou-o. Parecia
decidida a ganhar uma distância segura daqueles
rapazes antes de falar com o futuro médico. Parou
apenas quando chegaram ao portão do cortiço onde
morava e então o encarou.
− Pronto. Estou em casa. Era isso que você
queria ver? Onde eu moro? Foi por isso que me
seguiu?
Ele olhou para a construção e achou o lugar um
lixo. Sentiu pena dela. Pela segunda vez. Tomado
de repente de sentimentos ternos, teve que armar-se
novamente da postura cínica que adotara com ela,
antes que ele... o quê? A mulher era uma bruxa! Ou pensava que era! Aquelas palavras em latim? O que
foi aquilo? Invocando o demônio? Ridículo! Ele
não acreditava em demônio! Nem em bruxas! Mas
parecia que ela sim!
− Não vai dizer nada? – inquiriu ela ao notar o
atordoamento dele.
− Posso entrar?
Não era isso que ela esperava ouvir, mas
entendeu que ele estava tenso, talvez por causa da
cena que presenciara e era melhor que
conversassem em paz. Ela abriu o portão e
sussurrou um pedido para que ele não fizesse
barulho, algo sobre a senhoria não entender.
Lourenço sentiu as batidas de seu coração
acelerarem-se ou pela proximidade com que ela
sussurrou as palavras em seu ouvido, ou por causa
da entrada clandestina no quarto da moça, algo que
tinha um sabor de aventura que ele não provava há
muito tempo.
Logo que entraram no cubículo onde ela
morava, Lourenço tomou consciência da miséria
em que ela vivia e sentiu o peito confrangido. Pena
dela de novo? E o espaço pequeno parecia não ser o
suficiente para os dois. Ambos pareciam nervosos.
Podiam pôr a culpa no incidente com o grupo de
jovens hostis na rua, mas a tensão no ar era mais do
que isso. Era primordialmente hormonal. Nada
poderia apagar o fato de que ali naquele espaço
mínimo, fechado, estavam dois jovens de dezenove
anos – um homem e uma mulher. Depois,
comportamental. O relacionamento dos dois desde
o começo havia sido estabelecido entre farpas.
Após alguns segundos de silêncio embaraçoso e
olhares diretos e desconcertantes, Lourenço
resolveu quebrar o silêncio e o feitiço que os olhos
dela pareciam, por vezes, exercer sobre ele:
− Você mentiu sobre o endereço no currículo. –
A voz saiu amena, quase carinhosa. Nada do jeito que ele queria. Ele queria ter sido rude e mordaz
como quando a conheceu. O que havia de errado
com ele?
− Eu não menti. É o endereço da minha casa.
Só que não estou morando lá. Temporariamente.
Mas vou voltar – disse calmamente.
− Por quê?
Lucinda tinha ficado muito calma até aquele
momento, mas aquele playboy estava começando a
irritá-la! Que abuso! Ele a estava seguindo! Mas
quem ele pensava que era?
− Não é da sua conta! Quem te deu o direito de
me seguir? Eu achei que você era um ocupado
estudante de medicina! Dona Analice disse que
nem vinha para casa aos finais de semana às vezes.
Só para estudar! Então o que está fazendo aqui
numa segunda-feira à noite? Não tinha que estar
com a cara nos livros?
Ai! Aquela tinha doído. Porque ela estava certíssima. O que diabos ele estava fazendo ali?
− Não posso estudar tranquilo sabendo que
minha irmã está nas mãos de uma maluca que
mentiu no currículo sobre seu endereço! Quem
mente esconde alguma coisa! Então, se você quer
que eu te deixe em paz, vai ter que me dar algumas
respostas, ou vou ter que continuar te seguindo para
descobrir seus segredos sórdidos! – despejou
satisfeito por ter respondido à pergunta dela e a
suas próprias dúvidas tão satisfatoriamente.
− Segredos sórdidos? – soltou em meio a uma
gargalhada forçada. – Isso é ridículo!
− Então responde. Responde tudinho que eu te
perguntar e eu te deixo em paz!
− Sério?
− Vai depender das respostas. Se você for
honesta, pode ser...
− Muito bem. Manda ver. Vou responder. Por
alto. Não sou obrigada a dar detalhes pessoais, que julgo que não são da sua conta.
− Por que saiu da casa de seu pai e está
morando aqui?
− Nós brigamos.
− Só isso? – perguntou frustrado pela resposta
tão vaga, sem nenhum detalhe.
− É pessoal. Entre mim e meu pai e não vou te
contar. Eu nem te conheço, garoto!
Lourenço não gostou da resposta, mas isso não
o impediria de continuar perguntando.
− Se brigaram, como disse que vai voltar para
casa logo?
− Ele veio aqui e a gente meio que se entendeu.
Eu falei com ele que vou voltar.
− Ótimo. Então pega as suas coisas que eu te
levo lá. Este lugar é horrível.
− Não agora. Eu vou voltar no final do ano. Nós
não estamos totalmente bem, eu meio que tô
pensando no assunto...