A babá gótica
Capítulo 4
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
− Amor vincit ominia! [4]– Ela prosseguiu se
divertindo muito.
− Sério. Para! Agora! – exaltou-se e acabou
segurando o dedo dela com uma das mãos e
tapando-lhe a boca com a outra. Mas algo
semelhante a uma leve descarga elétrica que sentiu
ao tocá-la o fez soltá-la em seguida.
Ela riu e ele viu que estava debochando dele.
− O que você disse? Me amaldiçoou?
− Coisas aleatórias – disse francamente,
resolvendo não ir adiante com sua atitude de troça.
− Eu não falo latim. Aprendi algumas frases e
palavras para assustar caras como aqueles lá fora.
Todo mundo sabe que rituais em filmes de terror
são feitos em latim e assusta bastante, né? Devia ter
visto a sua cara! Eu só sobrevivo nessa vizinhança
porque já criei fama de bruxa... Mas sempre
aparece um grupo novo para tentar me provocar...
− E o golpe de luta?
− Fiz umas aulas de jiu-jitsu quando era
criança. Meu pai achava bonitinho. Depois que me
mudei pra cá, comecei a ver alguma utilidade
nisso...
− É por isso que se veste desse jeito também? –
perguntou em tom de compreensão como que
achando uma explicação lógica para o maior
mistério da babá. – Para assustar a vizinhança
incômoda? – Mas assim que falou lembrou-se do
que o porteiro do prédio dela disse sobre a
transformação dela ter se dado naquela época e ter
sido o motivo para a briga com o pai.
− Não.
− Então por quê? – insistiu, mesmo intuindo
que ela não lhe responderia com a verdade.
− Eu sou assim agora. É minha identidade...
− Secreta? – gracejou com um sorriso.
− Por que é tão difícil aceitar que uma pessoa queira se expressar dessa maneira?
Ele pensou por alguns minutos. Já havia
conhecido caras e garotas roqueiros, góticos antes.
Mas simplesmente ela não passava autenticidade.
Parecia algo forçado, uma identidade secreta, como
ele disse jocosamente. Era como se ela estivesse
disfarçada... Se morassem nos Estados Unidos, ele
pensaria que se tratava de alguém do programa de
proteção a testemunhas. Mas não existia esse tipo
de coisa no Brasil. Mas algo pareceu clarear em sua
mente e lhe deu uma grande satisfação: porque ele
agora tinha quase certeza de que o que o
incomodava nela – o fato de ser gótica – na verdade
não era real. Ela não era assim, ele podia sentir. A
irmã não lhe dissera algo sobre ela ser uma bruxa
disfarçada? E se ela realmente tivesse dado à
menina alguma pista da verdade? Meias verdades,
disfarçadas como ela?
Sim, aquilo era forçado. Talvez ela tivesse assumido aquilo para irritar o pai, chamar a
atenção... Mas não era o mesmo motivo que levava
todos os tribalistas a adotarem uma tribo? Chamar a
atenção dos pais? Da sociedade? Querer pertencer a
um grupo? Isso! Grupo! Contudo, ela andava
sozinha até onde ele pôde verificar. Então qual o
objetivo de pertencer a uma tribo, se você não anda
com ela?
− Você tem um grupo?
− Ãh?
− Um grupo? Amigos como você? Você sai
com uma galera gótica? Vocês vão a shows do Iron
Maiden, Sepultura? Sei lá. Coisas que os góticos
fazem... Vão a cemitérios...?
− Lá vem você com essa história de cemitério
de novo!
− Então me diz. O que você faz nas suas horas
de folga?
Ela queria muito dizer que não era da conta dele. Mas o rapaz era insistente e parecia decidido a
não ir embora até conseguir satisfazer suas
curiosidades sobre ela.
− Embora não seja da sua conta, eu passo todo
o meu tempo livre estudando.
− Estudando? – perguntou incrédulo enquanto
seu olhar percorria o quarto à procura de livros, o
que realmente encontrou. Vários deles, de várias
disciplinas e outros de ficção, todos entulhados em
pilhas no chão, num canto do quarto, logicamente
por causa da falta de estante ou móveis no sentido
geral.
− É. Eu disse que vou fazer vestibular no final
do ano. Pretendo cursar Psicologia.
− Ã-hã. Mas e o lazer? Você não tem nem
televisão aqui! – disse reparando mais uma vez na
carência total daquele cômodo.
− Não ligo para televisão. E eu assisto a alguns
desenhos com a Ana Beatriz... Mas prefiro ler.
Se não fosse aquela aparência singular, ela seria
boa demais para ser verdadeira, pensou Lourenço
com um suspiro.
− Então nunca sai com seus amigos? – insistiu.
− Eu... não tenho amigos – concluiu ela meio
hesitante.
Sem amigos? Ah, lá estava ele sentindo pena
dela de novo. Bingo! Era falsa! Aquela identidade
gótica era falsa! Só podia ser! Quem se veste para
entrar em uma tribo e não tem tribo? Para que se
expressar e se identificar como parte de algo se não
se é parte de nada? Lourenço sentiu uma felicidade
inexplicável tomar conta dele. Porque ele havia
começado a decifrar a garota. Sim, havia um
mistério ali. E ele iria descobrir qual era. Mas ele
tinha certeza agora de que ela não era gótica coisa
nenhuma! Aquilo era um disfarce. Pra quê? Por
quê? Ele não sossegaria enquanto não descobrisse...
− Então, deixa eu ver se eu entendi: você virou gótica, mas do tipo solitária, não tem nenhuma
galera de preto com quem andar... fazendo... coisas
de... góticos. Brigou com seu pai e saiu de casa
para morar em um bairro pobre e perigosíssimo, em
um pardieiro. Aí resolveu trabalhar como babá por
dois anos para depois fazer vestibular e estudar
Psicologia. É, realmente isso faz muito sentido! –
concluiu irônico. Aquilo não fazia o menor sentido.
− Minha vida é problema meu!
− Quando afeta a vida da minha irmã passa a
ser meu!
− Mas que droga! Não acha que está
exagerando nesse papel de irmão mais velho e
protetor? Isso não te dá o direito de me seguir, de
estar na minha casa a essa hora da noite! Seu pai e
Analice sabem que está aqui?
Claro que não. Ele sabia que estava errado. Ele
sabia que aquilo era um absurdo. No entanto, não
conseguiu dominar os impulsos que o levaram àquelas ações, o que justificava como intuição,
embora nunca antes tivesse levado aquele tipo de
coisa a sério. Podia ser um pressentimento ruim em
relação à babá e ele tinha a obrigação de seguir
seus instintos pelo bem de Ana Beatriz.
Ele não respondeu e Lucinda pôde interpretar
seu silêncio como um não. Em vez disso ele a
encarava. Os olhos de ambos contemplavam-se em
silêncio. Estavam muito próximos, com seus rostos
a um palmo um do outro. Lucinda sentiu-se meio
tonta e reconheceu que se sentia atraída pelo futuro
médico. E aquilo era péssimo. Era um desastre.
Não podia se sentir atraída por aquele mauricinho
mandão e intrometido. Sentiu-se desconcertada por
flagrar-se olhando para os lábios dele. Eram lábios
grossos e... Chega! Mentalmente impôs-se
disciplina e afastou-se dele cruzando os braços,
numa postura que indicava que estava impaciente,
esperando que ele fosse embora.
Lourenço quase bufou de alívio quando ela deu
os passos para trás para se afastar. Pensamentos
sobre feitiçaria o atormentavam de novo, pois eram
uma explicação bem mais plausível para a maneira
como ele se perdia dentro daqueles olhos azuis do
que a outra explicação mais lógica, contudo
inaceitável, que ele queria trancar no fundo de sua
alma.
− Por favor, vai embora. – Ela pediu séria e
aborrecida, fazendo Lourenço pensar se ela tinha
compartilhado o mesmo desconforto que ele
quando ficaram se olhando.
− Tudo bem. Boa noite.
Ele saiu e bateu a porta. Lucinda jogou-se de
costas na cama e soltou um longo suspiro de alívio.
Parecia que aquela última criança, a última missão
seria a mais árdua. Uma provação a mais pela qual
ela teria que passar. Era sempre tão simples: a mãe,
o pai (quando o casal não era divorciado), às vezes uma avó, ou tia. Nunca um irmão adulto bonitão e
desconfiado. Será que ele continuaria a segui-la?
Investigaria sobre sua vida? E se ele descobrisse? O
que ela faria se ele descobrisse toda a verdade? E
ele acreditaria na verdade?
CAPÍTULO 10
A MENINA LISÂNIA
para se obrigar a ir para a faculdade e só voltar para Lourenço travou uma luta interna consigo mesmo
casa no final de semana. Sua vontade era estar lá
todos os dias para olhar nos olhos da babá, vigiar
seu comportamento com a irmã e ter certeza de que
ela não lhe faria mal. Também queria ter tempo
para investigar mais sobre ela. As respostas que ela
lhe deu não explicaram coisa alguma. O mistério permanecia e ainda não fazia nenhum sentido para
ele aquela história sobre a moça. Decidiu que o
próximo passo da investigação seria a escola onde
ela estudou. Assim, ao longo da semana, dividiu
seu tempo no alojamento da universidade entre os
livros e seu laptop com sua pesquisa na Internet.
No currículo havia o nome da escola onde ela
se formou no ensino médio. Ele leu tudo no site da
escola, pesquisou fotos, e tudo mais na rede que
estava ligado ao nome da instituição. O fato mais
relevante e surpreendente no ano em que a babá se
formou foi a morte de uma estudante de sua classe.
Em uma matéria online de um jornal dizia que
“Lisânia Afonso Paiva, dezessete anos, cursando o
terceiro ano doensino médio na citada escola,
cometeu suicídio após uma briga com o
namorado.” A notícia mencionava o fato de que a
menina sofria de depressão e tomava remédios
controlados. Também comentava que houve um escândalo no cemitério durante o funeral da
menina, pois a mãe desta teria passado mal com um
ataque de nervos e gritara com algumas pessoas
presentes. Segundo o artigo, Lisânia se enforcou
em seu próprio quarto.
Lourenço sentiu uma descarga de adrenalina ao
ler aquela matéria, a sensação assustadora de que a
morte da tal Lisânia tinha alguma coisa a ver com...
Lucinda. Era a primeira vez que em seus
pensamentos se referia a ela pelo nome e aquilo o
assustou. O que queria dizer? Por que não podia
continuar internamente chamando-a de a
esquisitinha, a aberração, a maluca ou,
simplesmente, a babá? De qualquer forma, que
conexão podia haver entre Lucinda e Lisânia?
Teriam sido amigas? Bem, explicaria a garota pirar
e começar a se vestir de preto, se sua melhor amiga
tivesse morrido tão tragicamente... Mas seria uma
explicação muito simples. E ele sentia que havia algo mais...
Continuou a pesquisar, mas não descobriu
muito além disso. Sentiu-se frustrado ao ver que
tinha esgotado o poder de investigação através do
Google. Teria que se arriscar mais uma vez e ir
atrás. Ir ao colégio. Precisava fossar, cavar e
desenterrar a verdade. Passou a semana ansioso
pela sexta-feira, quando só tinha aulas pela manhã e
poderia ir logo para casa.
Ao invés de ir para casa, no entanto, foi direto
para a escola. Passara a semana toda pensando em
como faria para conseguir informações na escola.
Sabia que eles não lhe revelariam nada sobre o
suicídio ou sobre Lucinda diretamente. Mas
precisava tentar.
Chegou à escola bem no início da tarde. Na
secretaria, contou uma história sobre estar ajudando
a mãe a encontrar uma boa escola para sua irmã
mais nova. Mentiu sobre a série da irmã. Disse que ela iria para o ensino médio. Assim, começou a
fazer perguntas sobre o ensino médio e falou que
teve uma prima que estudou lá e por isso sabia que
a escola era boa. Ele mencionou o nome da suposta
prima, para ver se a coordenadora que conversava
com ele enquanto lhe mostrava a escola se
lembraria de algo a respeito dela:
− Lucinda Antunes.
− Ah, sim! Era uma menina muito inteligente!
E era linda! Como é que ela vai? Participava de
tudo na escola. Fazia teatro, as aulas de dança, os
meninos eram loucos por ela...
O porteiro também havia lhe dito algo sobre os
rapazes gostarem dela. O que fazia suspeitar que
ela tivesse uma aparência bem diferente da que
tinha agora, pelo menos na opinião dele.
− Bem. A Lucinda até queria vir aqui comigo,
sabe, rever a escola. Mas ela disse que traz uma
tristeza por causa do que aconteceu com aquela menina, a Lisânia...
− Ah, meu Deus! Você sabe sobre isso, é? –
comentou alarmada. Mas pareceu se tranquilizar ao
ver que aquilo provavelmente não o faria desistir da
matrícula da irmã na escola, já que ele já sabia
sobre o ocorrido.
− É, pois é. Lucinda não falou em outra coisa
naquele ano. Foi um grande choque.
− É, horrível. Mas vocês sabem que não teve
nada a ver com a escola, né? A menina sofria de
depressão. Andava com uma turma tão barra
pesada... E aquele namorado dela!
− Barra pesada?
− É, sua prima não lhe contou? Lisânia andava
com um grupo de góticos. Gostava de coisas
pretas...
− Sei – comentou Lourenço muito atento e
intrigado com o que aquela informação poderia
significar. – Mas a Lucinda...
− A Lucinda era uma menina normal. Até acho
tocante da parte dela ainda sentir tristeza por aquela
menina. As duas não tinham nada a ver.
− É mesmo? Do jeito que ela fala com tristeza,
pensei que fossem amigas...
− De jeito nenhum. A Lucinda tinha um...
grupo... seleto de amigas. Lisânia era a
esquisitinha, coitada. Mas olha, esta é a nossa
quadra. Ali atrás temos uma piscina olímpica. Quer
ver?
Lourenço notou que ao falar de Lucinda, ela
escolhia as palavras com cuidado para não ofender.
Era evidente que Lucinda era alguma espécie de
patricinha esnobe, uma garota popular, enquanto
Lisânia era a excluída. Notou também, que ela quis
mudar de assunto. Agradeceu, mas dispensou o
restante do tour pela escola, dizendo que já estava
satisfeito. Pegou o papel com as informações sobre
a matrícula e foi embora.
Saiu de lá muito pensativo. Elas não eram
amigas. Lucinda não era gótica e parecia inclusive
fazer pouco de quem era. Então, o que mudou?
Uma garota gótica morre e ela resolve tomar seu
lugar? Assumir sua personalidade? Por quê? Ele
não estava gostando nada daquela história, porque
estava se parecendo muito com enredos de
suspense sobre garotas perturbadas. E esses enredos
levavam sempre a assassinatos. Seria Lucinda uma
psicopata? Esquizofrênica?
Ele ficou preocupado. Muito preocupado.
Talvez estivesse na hora de falar com Analice.
Voltou para casa transtornado. Chegou por volta
das 15h e encontrou Danúzia passando roupas na
área de serviço. Deu-lhe um beijo para
cumprimentá-la como sempre fazia. Sabia que
Lucinda estava no quartinho estudando, esperando
a hora de ir buscar Ana Beatriz. Mas não se animou
a ir até lá falar com ela. Falar o quê? Não havia sentido em continuar fazendo-lhe acusações sem
provas. Mas estava com medo. Quem era aquela
garota afinal de contas?
Foi direto para o seu quarto, depois tomou um
banho e ligou a televisão para se distrair um pouco.
Sentia-se extenuado. A única coisa que poderia
fazer era ficar de olho. Mais nada. Sim. Bastava de
bancar o detetive, de pesquisas, nada de segui-la.
Só ficaria de olho. Sentiu-se até mais leve depois
de tomar essa decisão. Ele é que ficaria
esquizofrênico se continuasse fazendo aquelas
conjeturas sombrias sobre a babá.
E então ele ouviu o grito. Na verdade, dois. Um
era apenas um grito. O outro dizia não. Levantou-
se instintivamente de um salto e correu para a área
de serviço. Danúzia estava com a mão no peito e
tinha levado um susto também.
− O que foi isso, Danúzia?
− Oh, meu pai! A moça deve ter cochilado de novo enquanto estuda!
− Como assim?
− A Lúcifer grita quando dorme! “Deve ser os
pesadelo” do inferno! É a segunda vez que ela me
assusta assim!
Lourenço não se contentou com a explicação e
entrou no quartinho. A porta estava destrancada.
Esperou vê-la acordada do pesadelo e assustada.
Mas surpreendeu-se ao verificar que ela ainda
estava dormindo. Ela se revirava na cama gemendo
como quem sente dor. Havia um livro aberto virado
com a capa para cima, acima da cabeça dela, sobre
o travesseiro. Ele ficou sem ação. O que devia
fazer? Acordá-la?
Outro grito. E ela murmurava:
− Sofro! Me ajude! Eu sinto o seu sofrimento!
Me tira daqui! Vem comigo! Temos que sair daqui!
Por favor!
Os murmúrios eram tão chorosos que ele conseguiu perceber a dor contida neles. Ele tinha
que acordá-la! Abaixou-se e suspendeu-a
colocando seus braços por trás das costas dela e
sentando-se na beirada da cama, sacudiu-a. Como
ela ainda não acordasse, passou sua mão pelo rosto
dela e deu-lhe leves tapinhas na face.
− Ei, Lucinda! Acorde! Acorde!
Ela abriu os olhos e inspirou o ar de uma
golfada só pela boca, como alguém prestes a se
afogar emerge da água. O azul daqueles olhos
arregalados revelaram tanta dor que ele sentiu pena
dela. De novo. Tinha que admitir que seus
sentimentos em relação a ela eram muito confusos.
Ora sentia pena e simpatia por ela, ora sentia medo
e horror. Mas não dizem que os bons dormem o
sono dos justos? Ela teria pesadelos por ser má?
Lentamente ela pareceu tomar consciência de
onde estava e do que acontecia. Soltou-se do abraço
dele e endireitou-se sentada na cama.
− Desculpa. Eu gritei?
− Bastante. – Ele admitiu muito sério e
inquisidor.
− Devo ter cochilado enquanto estudava.
Sociologia pode ser chato às vezes – comentou
forçando um sorriso e tentando suavizar o
embaraço da situação.
− Você costuma ter pesadelos?
− Costumo – confessou.
Ele queria perguntar por quê. Sobre o quê. Mas
não o fez.
− Além de gritar, você falou. Era como se
estivesse em um lugar ruim com outra pessoa...
− Não me lembro. Desculpe – mentiu. E ele
percebeu que era mentira.
− Você está bem?
− Estou. Obrigada.
− Tá. – Ele disse saindo do quartinho.
Mistério. Ele odiava aquela sensação de mistério. Iria ficar louco se não obtivesse algumas
respostas. Por que não podia fazer como Analice e
seu pai que só se importavam com que ela fizesse o
trabalho de babá? Por que tinha que se atormentar
assim?
Voltou ao seu quarto para pesquisar sobre
distúrbios do sono e pesadelos. Leu algumas
explicações sobre luta do inconsciente entre o ego e
o superego, sobre desejos e angústias reprimidas.
Ela estaria reprimindo quem era realmente debaixo
de todas aquelas roupas pretas? Estresse ou trauma
eram outros fatores apontados. Trauma por causa
da morte de Lisânia? Mas não eram amigas...
Estresse de quê? Chegou a achar explicações com
causas espirituais, mas estas ele ignorou. Não
acreditava em nada daquilo.
Tinha vontade de perguntar a ela. Mas ela
responderia? Ele sabia que ela escondia alguma
coisa.
CAPÍTULO 11
MUITAS
PERGUNTAS
Lourenço insistiu em levar Lucinda de carro até sua Naquela noite, depois que Analice chegou,
casa. Argumentou sobre o lugar ser perigoso.
Analice estranhou, Humberto estranhou, Lucinda
estranhou mais ainda. Só Ana Beatriz não
estranhou e da cama, onde já deveria estar
dormindo, gritou entre risinhos alegres:
− Enço vai levar Lucinda!
Lourenço se irritou com a irmã, porque teve a
impressão e a quase certeza de que a irmãzinha se
divertia com a situação, achando que sua profecia
infantil e maluquinha de “viveram felizes para
sempre” estava de algum modo se realizando.
− Dorme, Ana Bia! – Ele gritou. Não tinha mais
ânimo de ir até o quarto dela mandá-la dormir,
coisa que todos os membros da família já haviam
feito pelo menos duas vezes, sem contar a babá.
Lucinda agradeceu, dispensou, recusou, mas ele
insistiu. Muito. Ela avisou que tinha que ir à casa
de uma conhecida antes. Ele ainda insistiu para
levá-la lá e depois para casa. Analice e Humberto
entreolharam-se pasmos. Pareciam que iam
começar a acreditar em Ana Beatriz a qualquer
momento. Para não correr o risco de ser rude,
Lucinda foi obrigada a aceitar.
Ambos desceram no elevador do prédio em silêncio e desconforto. Quando chegaram à
garagem do prédio, Lourenço se encaminhou para
seu carro sendo seguido por ela. Ele abriu a porta
do carona para ela entrar primeiro, o que ela achou
de um cavalheirismo incrível, coisa que ela julgava
totalmente extinta nos rapazes do Rio de Janeiro.
Agradeceu tomada de uma emoção nova. Aquilo se
parecia muito com se importar, cuidar... Há tanto
tempo que ela não se permitia ter alguém que
fizesse aquilo por ela...!
Tão absorta estava em sua surpresa pelas
maneiras do jovem estudante, que ela mal percebeu
quando ele deu a partida.
− Por que insistiu tanto em me dar uma carona?
Você nem gosta de mim – despejou, resolvendo
que queria ser sincera e manter o clima de
confronto e hostilidade que se instalara entre os
dois, porque a outra opção era muito perigosa.
Sentir ternura, gratidão... Não podia gostar dele. Nem um pouquinho.
Ele pareceu se divertir com o comentário dela
por um instante. Sorriu.
− Já ouviu dizer que temos que ter os amigos
por perto e os inimigos mais perto ainda?
− Ah, então é isso? – Ela comentou sem deixar
escapar uma pontada de decepção. Mas o que ela
esperava? Que ele estivesse gostando dela? Que ele
a tratasse como uma moça normal naquelas roupas?
− Onde é que você tem que ir? – mudou
bruscamente de assunto.
Ela lhe disse o endereço, nada satisfeita, porque
ele estava se intrometendo descaradamente em sua
vida, vigiando-a como quem vigia um inimigo e
nem se dava ao trabalho de disfarçar. Suas visitas
todas as sextas-feiras a Noemi eram particulares. E
pouca gente entenderia, aceitaria ou respeitaria
aquilo se soubessem o que ela fazia lá. Como ela
faria para se livrar dele?
Prosseguiram o trajeto em silêncio e entre
olhares fortuitos e inevitáveis um para o outro. Ao
chegar ao local, a uma rua calma em um bairro do
subúrbio, em frente a uma casa antiga, Lucinda
agradeceu, saltou e tentou despachar o rapaz
através da janela do carro:
− Olha, muito obrigada mesmo! Mas eu estou
bem. Daqui eu pego um ônibus para casa.
− De jeito nenhum. O combinado é que eu te
levaria em casa.
− Mas tenho a minha vida, meus
compromissos! Preciso fazer esta visita.
− E eu disse que ia esperar. Você mora num
lugar muito perigoso e tem que recitar maldições
em latim para afugentar vagabundos – disse com
surpreendente bom humor.
− Mas não há necessidade. Você não pode me
levar para casa todos os dias! Eu voltei sem você a
semana toda.
− Vou dar um jeito nisso!
Ele falou com tanta confiança, que Lucinda se
assustou. O que aquele rapaz ia fazer? Não podia
voltar da faculdade para casa todos os dias para
pajeá-la! Ou podia?
− Como assim? Agora você vai ser a babá da
babá?
Por mais inesperado que fosse, ele riu. E riu
gostoso. Lucinda se sentiu desarmada com aquela
risada, como se alguma coisa dentro dela estivesse
derretendo.
− Posso perguntar a natureza dessa sua visita
aí?
− Claro que não! Não é da sua...
− Conta – Lourenço falou a palavra junto com
ela. – E não podia me contar, só por gentileza, já
que estou sendo tão protetor e me servindo de seu
motorista por esta noite?
Ele disse aquilo de modo tão encantador que ela teve vontade de contar. Tudo. Tudinho. Toda a
verdade. Mas não podia... O que ele pensaria dela?
Provavelmente a desprezaria ainda mais, ou se
convenceria de vez de que ela era louca. Ser rude
novamente e dizer não, ou mentir? Ou contar meias
verdades... A verdade disfarçada e com poucos
detalhes não deixa de ser verdade, não é? Só omitir
as partes que a deixariam parecer louca?
− Noemi é uma amiga. Ela me ajuda a entender
algumas coisas que estão acontecendo na minha
vida. É muito pessoal. – Aquilo era o máximo que
ela poderia dizer.
− Tipo uma conselheira? Psicóloga? –
perguntou mansamente, solidário.
− Tipo assim. Você vai esperar aqui?
− Ela vai me convidar para entrar?
− Preciso falar com ela a sós.
− Vou esperar aqui – disse ligando o rádio do
carro numa estação que tocava rock.
− Obrigada – falou baixo, mas deveras
agradecida pela compreensão dele.
Lourenço observou quando ela tocou a
campainha. Viu-a entrar conduzida pela mulher
mais velha, aparentando uns cinquenta anos,
morena, magra e simpática. Quem seria? Noemi.
Sim, uma conselheira? Uma amiga? Uma
psicóloga? Ajudando a entender sua vida... O
trauma pela morte de Lisânia? E se ele
perguntasse? E se ele dissesse tudo o que sabia?
Que tinha investigado?
Olhando para a janela notou que as luzes da
sala foram apagadas, para em seguida uma outra
luz ser acesa. Só que essa outra luz era azul. Quem
é que tinha luz azul em casa? Seria algo do tipo
usado em sessões de hipnose? Queria muito sair do
carro e invadir aquela casa e ver o que estava
acontecendo. A tal Noemi podia ser uma bruxa
também! E as duas estavam fazendo alguma macumbinha básica juntas! Ou uma orgia? É! Luz
azulada... Alguns bordéis usam luzes coloridas...
Quem podia garantir que não havia mais ninguém
na casa? Rapazes... homens... ou a própria Noemi,
eca! Sua imaginação começou a galgar alturas e
cenas que o deixaram enojado. Seria possível que
ela fosse apenas uma vadiazinha...?
Pensou ainda na luz azul como mais um
artifício psicodélico para uma viagem no mundo
das drogas... mas as palavras firmes dela dizendo
que só gente burra usa drogas o tinham
convencido! Não, ela foi muito radical ao falar de
drogas... Não era a dela...
Ele estava enlouquecendo. Estava a ponto de ir
até lá... Um, dois, três... Começou a contar para se
acalmar e não fazer nenhuma loucura. O que ele
faria se entrasse abruptamente naquela sala e
encontrasse um cenário de perdição? Não podia
ser! Tentou se concentrar na letra da música que tocava na rádio “... então é bom valer a pena, então
é pra valer a pena, ou melhor não...” do grupo NX-
Zero. É, tinha que valer muito a pena fazer algo
assim...
A imaginação de Lourenço o torturou por
quarenta minutos, o tempo que durou aquela visita
até ver a babá despontar novamente porta a fora.
Ela entrou no carro parecendo mais relaxada, mais
em paz. E ele tinha medo de pensar em por que ela
estaria assim. A ideia de que ela tivesse passado
apenas por uma sessão de shiatsu era consoladora e
invadiu seus melhores pensamentos naqueles nada
felizes quarenta minutos e voltava agora, tal o
ânimo que ele encontrava na menina.
− Tudo bem? – Ele perguntou.
− Tudo! E você? Demorei muito?
− Não, imagina... – tentou dizer sem ser irônico
e quase conseguiu. – Qual é a da luz azul?
− Eu devia saber que ia ficar espiando...
− Não deu para deixar de notar... – falou em
postura defensiva.
− A luz azul ajuda!
Ajuda em quê? Não pôde acreditar que aquela
fosse a única resposta que ela lhe daria.
− Lucinda, hoje é sexta-feira. Podemos ir a
algum lugar em que possamos conversar? Podemos
parar em uma pizzaria ou bar?
− Conversar? – perguntou apavorada. Um bar
ou um restaurante com um rapaz bonito numa
sexta-feira à noite. Há dois anos aquilo era muito
comum e corriqueiro. Nada de mais. Agora, era
impensável. Com Lourenço, alarmante. Por quê?
Ele não a odiava? Não a considerava uma inimiga?
Mas por que o sinal de alarme para sexo oposto
continuava a tocar em sua cabeça? Talvez porque
ele acabasse de pronunciar seu nome pela primeira
vez? Ou pelo fato de que ela queria ouvi-lo dizer
novamente?
− É, Lucinda. Conversar. A não ser que prefira
conversar em seu quarto de novo. Mas achei meio
apertado lá e... a sua senhoria... enfim: podemos ir a
algum lugar?
− Claro – respondeu com uma firmeza que não
tinha. As intenções dele a apavoravam, porque ela
não entendia as atitudes paradoxais que ele tinha.
Ele a chamava de inimiga uma hora e era gentil e
cavalheiro na outra. Ora falava rudemente, ora era
doce e protetor. O que significava aquilo? O que
ele queria com ela?
Ele aquiesceu com a cabeça e ligou o motor do
carro. Alguns minutos depois estavam à mesa de
uma pizzaria. Resolver o que pedir foi fácil, porque
logo descobriram que ambos adoravam pizza
portuguesa. Lourenço reparou também nos olhares
desagradáveis que eram dados a Lucinda por conta
de sua aparência gótica. Ela chamava a atenção em
qualquer lugar aonde fosse. Aí que se deu conta de que provavelmente as pessoas estariam se
perguntando o que um cara como ele estaria
fazendo com uma garota como ela. Odiou todos por
olharem daquele jeito para ela e odiou-se porque
ele fazia o mesmo. Era sempre assim perto dela:
confuso e conflituoso.
Ela olhava para ele com o queixo apoiado nas
mãos, os cotovelos em cima da mesa. Nossa! Ele
realmente se sentia muito confuso quando
mergulhava no azul daqueles olhos. E eles olhavam
diretamente para ele naquele momento,
corajosamente, sem desviar o olhar, bem no fundo
de seus olhos. Sentia-se enfeitiçado. Não
compreendia aquela garota. Como poderia? Se tudo
que ela vestia e usava passavam uma mensagem,
mas seus olhos desmentiam tudo. Olhando para
eles via alguém que... bem, alguém que precisava
ser amada...
− O que você queria conversar? – perguntou quebrando o silêncio e o magnetismo perturbador.
Um garçom trouxe os refrigerantes e deu-lhe
tempo para procurar pelas palavras, decidir-se
sobre o que ia perguntar. E a decisão foi drástica: ia
abrir o jogo e perguntar o que quisesse. Assim que
o garçom se afastou, Lourenço começou a falar:
− Lucinda, eu queria pedir desculpas. Por tudo.
Pelo jeito que te tratei desde que nos conhecemos.
Eu não tenho sido nada legal com você. – Lourenço
não entendeu de onde tinham vindo aquelas
desculpas, quando tudo o que ele queria era
interrogá-la até obter todas as respostas... Mas
sentiu no momento em que começou a falar, que
eram sinceras. Ele realmente sentia-se mal pelo
jeito com que a tratara. A despeito de todas as suas
suspeitas loucas, tudo de que tinha certeza até o
momento era de que ela era uma garota que tinha
problemas, que era responsável e que era muito boa
com sua irmãzinha. Todo o resto era ficção, resultado de preconceito em relação à forma como
ela se vestia e se pintava.
Lucinda esperava por novos ataques,
interrogatórios, suspeitas, tudo. Menos aquilo.
Menos um pedido de desculpas tão espontâneo e
comovente. Sim, ela podia sentir a sinceridade nele.
Ele estava realmente pedindo desculpas.
− Desculpas aceitas. – Quem era ela para não
perdoar? Quem era ela para julgar? Ela agora sabia
bem o que a mágoa e a falta do perdão e
compreensão podiam fazer com uma alma. – Tudo
bem. Eu estou acostumada. Só estou meio curiosa,
pois não tem nem algumas horas você me tratou
como inimiga.
− Desculpa por isso também. Eu não estou
conseguindo me reconhecer. Desde que te
conheci... Sei lá. Nunca me julguei alguém
preconceituoso, mas o fato é que com você eu
tenho sido muito rude. Eu te julguei e condenei, sem conhecer. E continuo fazendo isso.
− Como assim?
− Eu amo minha irmã e quero o melhor pra ela.
E você... apesar de até agora tudo estar bem, me
assusta.
− Uau! – exclamou Lucinda, sentindo-se
nocauteada mais uma vez pela honestidade ácida
dele. – Você é o senhor Sinceridade!
− Me desculpa por isso, mas te chamei aqui,
porque queria conversar. Queria falar com você
tudo o que eu tô sentindo em relação a essa
situação, porque tá me incomodando muito.
− Tudo bem. Então...
O garçom chegou com a pizza e eles foram
servidos. A conversa agora seria entre garfadas.
Lucinda começou logo a comer, pois estava com
fome e entendia que era a vez dele de falar. Ele
queria falar, então que falasse.
− Você é estranha. Não é só por causa dessa coisa gótica, sei lá... – disse depois de engolir
algumas garfadas de pizza. – Acho que está sempre
escondendo alguma coisa. É isso que me perturba!
Não acredito em bruxas, mas tem gente que
acredita e faz maldades por causa disso. E o lance
da luz azul e do latim não ajudam muito a minha
mente a ficar sossegada, sabe?
Lucinda riu.
− E você fez comigo, sabe, a coisa do latim...
Ficou mexendo o dedo na minha cara e eu confesso
que fiquei apavorado.
− Só devemos pedir aos amigos coisas
honestas. O amor vence todas as coisas.
− O quê? – Lourenço ficou perplexo...
− Foi o que eu disse quando girei o dedo pra
você.
− E você fala de amigo e amor para um cara
que te seguiu à noite pensando o pior de você? –
Ele falou com o coração estranhamente acelerado, sentindo uma intensidade explosiva em seus
sentimentos cada vez mais confusos.
− Como eu lhe disse, não sei falar latim.
Aprendi algumas frases e expressões que uso
nessas horas... – Lucinda justificou.
− Tá! Mesmo assim, continuo preocupado. Eu
não sei quem você é e isso me assusta...
− Por quê? Sua mãe, desculpe, madrasta, me
aceitou e seu pai também.
− Sinceramente eu não sei. Não tenho sossego.
Eu quero, eu preciso saber quem é você!
− Meu Deus! Seu Lourenço...
− Caramba! Eu tenho dezenove anos, pelo amor
de Deus! Não me chame de Senhor!
− Lourenço, eu realmente não estou
entendendo...
− Nem eu, Lucinda. Nem eu! E é isso que me
incomoda mais! Eu segui você, eu investiguei você,
eu fui ao seu prédio, à sua escola...
− Você o quê? – Indignação, surpresa e raiva
tomaram conta dela. Queria bater nele!
− Eu fui ao seu prédio. Conversei com o
porteiro. Depois pesquisei na Internet e fui à sua
antiga escola. Eu sei que sua mãe morreu e sei que
você brigou com seu pai depois que virou gótica e
aí saiu de casa. Sei que isso tem alguma relação
com uma garota que se matou na sua escola...
− Você não tinha esse direito... – falou entre
dentes, indecisa entre jogar o copo de refrigerante
na cara dele ou se levantar e ir embora.
− Eu sei. Assim como não tinha o direito de te
seguir naquele dia... Desculpe!
O tom de voz dele, contrito e suave,
desarmaram os ímpetos violentos que haviam
tomado Lucinda por alguns instantes.
− Se você pudesse conversar comigo, me contar
tudo, eu me sentiria melhor. Conhecendo você
melhor eu poderia confiar em você, entende?
− Não sei se posso ou quero te dizer alguma
coisa. Isso está passando muito dos limites... do que
se faz num emprego. Eu sou só a babá! E cuido
direito de sua irmã! O que você quer?
− Eu quero saber por que você se tornou gótica.
Eu quero saber qual a relação disso com a morte da
tal Lisânia. Eu quero saber por que você mora
naquele lugar miserável, quando seu pai é rico. Eu
quero saber por que você está trabalhando como
babá em vez de estar numa universidade. Eu quero
saber por que você tem pesadelos. Eu quero saber o
que exatamente você faz na casa da luz azul... –
Depois do discurso inflamado, sua última frase saiu
como um sussurro, uma confissão que fazia para si
mesmo naquele momento e que deixou escapar
para que ela ouvisse. – E... eu quero saber por que
você não tem um namorado.
Lucinda sentia seu coração galopar a cada frase
de Lourenço e a última arrancou dela um suspiro. Estava perdida! Sentiu-se zonza. Aquilo não podia
significar o que achava que significava.
− Você quer saber demais! Não vou te dizer
nada. Não é da sua conta – colocou-se na defensiva.
Demais, não podia responder a nenhuma daquelas
perguntas sem trair seu segredo. Simplesmente não
podia. − Pode me levar para casa agora?
Lourenço abaixou a cabeça derrotado e
aborrecido.
− Vamos terminar a pizza primeiro –
sentenciou sem dar margens para discussão.
Lucinda mostrou que concordava apenas
continuando a comer. Comeram em silêncio até o
último pedaço de pizza. Lucinda tirou algum
dinheiro da carteira, fazendo menção de pagar por
sua parte, mas Lourenço a impediu com um olhar
de censura e um gesto. Para não discutirem, ela
guardou o dinheiro de volta e abaixou a cabeça.
Voltaram em silêncio todo o caminho. Ele a deixou na porta de casa e despediram-se com um
olhar apenas. O dele era de contrariedade e o dela,
de teimosia. Ele queria verdades e ela se recusava a
lhe contar qualquer coisa. A relação dos dois
continuava conturbada e difícil.
CAPÍTULO 12
DESESPERO
− Você precisa mandar ela embora!
− De novo essa história,
Lourenço? – reagiu surpresa
Analice. – Pensei que você tinha se entendido com
ela. Se até carona tá dando pra moça... Insistindo
em levar ela em casa... – debochou a madrasta com
malícia.
− Eu quis levar ela para bater um papo com
ela...
− E...
− Não tem jeito. Não dá pra conversar com ela!
Ela é cheia de segredos! Tá escondendo muita
coisa! É por isso que ela tem que sair dessa casa!
Humberto que até então assistia ao telejornal na
tevê, girou a cabeça em direção aos dois que
estavam sentados à mesa de jantar. Não havia nem
quinze minutos que o rapaz chegara e convocara
solenemente aquela conversa com eles. Humberto,
a princípio, ignorou o convite e continuou olhando
para a telinha. Mas a coisa de segredos parecia
interessante. Desligou a tevê com o controle e virou
o corpo no sofá para estar de frente para eles.
− Como assim segredos? – perguntou
Humberto.
− Ela esconde coisas...
− Enço, ela tem direito a ter uma vida
particular. Ela é só a babá. Você não pode querer
que ela vá te eleger como confidente... – criticou
Analice, que achava seu enteado cada vez mais sem discernimento, quando se tratava da babá.
− Ela mentiu sobre o endereço. Ela não mora no
endereço do currículo.
− Não? – perguntou Humberto curioso.
− Ela me explicou que você implicou com ela
por isso, mas é porque ela deixou o endereço da
casa do pai, já que pretende voltar para lá...
− Ela vai à casa de uma mulher misteriosa às
sextas à noite e acendem uma luz azul lá... É bem
esquisito e ela não me diz o que é... é tudo um
grande segredo...
− Luz azul? – perguntou Humberto parecendo
se divertir com a teoria de conspiração do filho.
− E como você sabe o que ela faz sexta-feira à
noite, meu filho? Não é da sua ...
− Conta! Eu sei! É o que ela vive me dizendo!
Não é da minha conta! Mas custava me dizer, já
que eu dei carona pra ela até lá?
− Você levou ela na casa da luz azul? – Humberto perguntou segurando o riso.
− Será que vocês podem me levar a sério um
pouquinho? – falou já meio irritado. – É esquisito.
Ela fala maldições em latim, tem pesadelos quando
dorme...
− E aonde você quer chegar com isso? –
perguntou Analice, já irritada.
− Como você sabe que ela tem pesadelos
quando dorme? – perguntou Humberto ao mesmo
tempo brincalhão e malicioso, sendo ignorado.
− Até onde posso ver, ela pode ser perigosa
para a Ana Beatriz! Luz azul, maldições em latim e
aquela aparência medonha! Ela pode ser uma
bruxa! – falou, arrependendo-se logo em seguida,
pois até ele mesmo percebeu o quanto soava
ridículo, o quanto tudo o que dissera até o momento
era ridículo. Por que estava dizendo tudo aquilo?
Ele tinha medo sim, suspeitas, mas nada daquilo
fazia sentido ou poderia ser levado a sério. O olhar que recebeu de Analice e de seu pai confirmou o
que acabara de pensar, pois eles o olharam com
pena, como se ele devesse ser internado num
hospício ou algo assim...
Analice pegou a mão do enteado e lhe lançou
um olhar piedoso que o deixou arrasado. É, eles
definitivamente iam interná-lo.
− Pai, Analice... eu sei que parece loucura... –
começou a se defender.
− Parece? Jura? – Analice agora não conseguia
segurar o sarcasmo. – Você devia se ouvir, Enço!
Parece um maluco...
− Não estou dizendo que ela seja bruxa de
verdade... Mas existe gente que acredita que é e...
fazem coisas horríveis porque acreditam nessas
coisas...
− Enço, você disse que conversou com a moça.
Então, você já olhou nos olhos dela? Você
realmente acha que ela seria capaz...
Não, ele não achava. Mas ela o deixava
confuso. Muito confuso. Ele desconfiava, porque o
que sentia perto dela não dava para ser explicado.
Ele só sabia que era forte e ele só podia supor que
fosse algum sinal de alerta para perigo...
− Isso quer dizer que vocês confiam nela cem
por cento?
− Mocinho, eu não confio nem em você cem
por cento! – debochou Humberto.
− Não podemos confiar em ninguém cem por
cento, nem em nós mesmos! Então é claro que não!
Mas até o momento, a moça não fez nada que
justificasse sua demissão. Então, Lourenço, se você
tiver alguma coisa além de preconceito e
superstições para...
− Não − concluiu sua derrota. Eles não a
dispensariam e nem sabia por que tinha pedido
aquilo novamente. Bem, no fundo sabia. Queria
não precisar vê-la de novo. Talvez assim tivesse sua paz de volta. Era isso: ela havia lhe tirado a
paz.
− Então, que tal se dedicar aos seus estudos e
deixar a moça fazer o trabalho dela? –
contemporizou Analice, com um tom de autoridade
que ele não poderia contestar.
− Tudo bem. Não vou dizer mais nada... Mas...
− Ih... – soltou Humberto.
− Já que gostam tanto dela e querem que ela
fique até o final do ano, por que não a convidam
para ficar aí de vez no quartinho de empregada?
Danúzia não fica. E ela sai daqui muito tarde e
chega cedo. O bairro onde ela mora e a rua... é
muito perigoso lá. No dia que fui lá... Tem um
bando de...
Analice e Humberto estavam pasmos. De
colocá-la para fora para colocá-la de vez para
dentro ia uma grande diferença e o comportamento
do rapaz parecia inexplicável. Ele não gostava dela, mas se preocupava com ela?
− Querido, eu realmente não estou entendendo
você.
− Ora, se ela ficar mesmo... – Lourenço
percebia o quanto ele estava sendo contraditório,
mas nem ele podia se entender completamente.
Loucura. Pura loucura. – É uma questão de
praticidade e de caridade – justificou.
− O que é um peido pra quem já está cagado? –
resumiu Humberto com seu jeito debochado e
cômico de sempre – Concordo! Se a maluquinha já
está aqui em nossas vidas, por que não deixá-la de
vez aí...?
Analice riu. Não resistia ao humor escrachado
do marido. Lourenço fez cara de nojo, embora no
fundo também se divertisse com o jeito do pai.
− Eu sugeri no início para que ela dormisse
aqui, mas ela recusou. Disse que podia nos
incomodar por causa de seus pesadelos à noite.
Lourenço se sentiu um idiota. Então Analice
sabia sobre os pesadelos. O que mais Lucinda lhe
contara que não quisera contar a ele?
− Podemos fazer o convite amanhã novamente,
amor – sugeriu Humberto que parecia se divertir
muito com tudo aquilo, como se intuísse algo de
que Lourenço não podia suspeitar.
− Peraí! Amanhã é sábado! – Finalmente notou
Lourenço.
− Isso mesmo! – confirmou Analice. – Lucinda
vai ao zoológico conosco amanhã. Prometemos
levar a Ana Bia e ela fez pirraça até que
concordássemos em levar a babá.
− E ela concordou?
− Claro, Lourenço. Uma das coisas que me fez
contratar essa babá é que ela se colocou à
disposição em tempo integral. Sem reclamações,
sem limites de horário.
Outra coisa estranha, ele pensou. Mas já estava
derrotado. E mesmo parecendo muito estranho,
sentia-se muito animado com aquilo. Por quê?
− Mas vou falar com ela de novo. Se você diz
que onde ela está morando é muito perigoso, me
sinto até mal, pois a menina dificilmente sai daqui
antes das oito da noite e sempre está de volta às
sete.
CAPÍTULO 13
A IDA AO ZOOLÓGICO
animada e ansiosa pela visita ao zoológico. Ana Beatriz foi a primeira a acordar. Estava
Especialmente porque Lucinda iria também.
Acordou e encontrou a casa ainda na penumbra e
em completo silêncio. Percebeu que acordara muito
cedo. Quis ir ao quarto dos pais e se aninhar entre
os dois na cama. Mexeu na maçaneta da porta, mas
estava trancada. Os pais tinham aquela mania às
vezes. Chamou mamãe, papai. Chamou três vezes.
Mas não gritou como algumas vezes fazia, pois o silêncio do apartamento a inibiu.
Tentou o quarto do irmão. A porta estava aberta
dessa vez. Ele trancava algumas vezes. Entrou e viu
o irmão esparramado sobre a cama, só de short,
sem camisa, deitado de bruços, o travesseiro sobre
a cabeça, as pernas levemente flexionadas.
Cutucou-o com seu dedo indicador, mas o rapaz
nem dava sinal de vida.
− Enço... Acorda... – Ela chamou.
− Ah, Biaaa! Me deixa dormir! – gemeu ele
sem despertar de todo.
Ana Beatriz saiu do quarto do irmão desejando
saber ver horas para saber a que horas todos iriam
acordar! A que horas iriam para o zoológico?
Porque ela queria muito ver o hipopota-mo! Assim
ela dizia aquele nome de bicho que a fascinava,
com um intervalo de alguns segundos entre o
hipopota e o mo, que era a maneira encontrada para
não errar aquele nome tão difícil.
Foi para seu quarto e discou o número da babá
que estava na memória do telefone que ficava lá.
− Alô? Ana Bia? Algum problema? – Ela sabia
que aquele telefone era da menina, mas para ser
usado em casos de emergência.
− Eu quero ir logo pro zoológico... –
choramingou. – E todo mundo tá dormindo...
− Eu já estou indo, meu amor. Tia Lucinda está
a caminho!
− Verdade?
− Claro. Já estou no ônibus. Logo, logo chego
aí.
− Promete? Chega logo? Tá muito silêncio
aqui... Tô um pouco sozinha...
− Chego logo.
− Então, tá. Eu quero ver logo o hipopota-mo.
− Eu também. – Ela disse em meio a um sorriso
que podia ser sentido tanto quanto visto e, por isso
Ana Beatriz percebeu o carinho e o sorriso de sua babá, mesmo do outro lado do aparelho.
− É mesmo? Você nunca viu?
− Ah, já! Mas só quando era criança. Faz muito
tempo que não vou ao zoológico!
Lucinda percebeu que a menina tentaria mantê-
la na conversa ao telefone o quanto pudesse e era
preciso terminá-la de alguma forma.
− Meu amorzinho, eu tenho que desligar agora.
Você me faz um favor? Pega aquele bloquinho de
desenhar e faz uma listinha dos animais que você
quer ver lá, pois eles vão ser nossa prioridade. Pode
também escrever as coisas gostosas que vamos
comprar pra comer, tipo algodão doce, pipoca,
churros..., ou fazer um desenho da gente no
zoológico... – Pronto. Aquilo devia ser o suficiente
para que a menina se distraísse até que ela chegasse
ou que seus pais acordassem.
− Que ótima ideia, Lucinda! Vou fazer agora e
o desenho vai ficar lindo! Com papai, mamãe, você e Enço...
− Enço, quer dizer, seu irmão vai também? –
Aquilo parecia pouco provável.
− Se ele não for, eu choro!
− Não, Bia. Não vale fazer chantagem! Seu
irmão tem que estudar muito, não tem tempo pra...
− Eu vou fazer o desenho, lá, lá, lá... –
cantarolou e bateu o telefone sem cerimônia,
deixando Lucinda estarrecida.
Só faltava aquela! Lourenço ir ao zoológico
com eles! Não, não era possível!
Ana Beatriz foi para o quarto alegre e
cantarolando. Agora já tinha o que fazer. Pegou o
bloco de papel e escreveu: hipopótamo (sem
acento), macaco, leão, elefante. Depois cansou e
resolveu desenhar. Começou desenhando os
animais e depois a família. Desenhava com giz de
cera e tudo ficou muito colorido e rabiscado, sem
que as cores fizessem muita relação com a realidade, pois o macaco e o elefante, por exemplo,
eram cor-de-rosa. A empreitada com o bloquinho
foi suficiente para entretê-la durante meia hora.
Mas depois disso bufou e suspirou e foi até a janela
para ver a calçada pequenininha lá embaixo. Nada
de babá chegando!
Impacientou-se e foi novamente checar se
alguém acordava. Escutou barulho na suíte dos pais
e bateu à porta. Chamou e sua mãe respondeu que
já estava indo. Logo, logo estava na cozinha
tagarelando enquanto sua mãe preparava o café.
Seu pai colocava a mesa enquanto isso. Ela
mostrou os desenhos, disse que falou com a babá,
que ela já estava vindo, que Enço tinha que ir com
eles, que eles iam comer pipoca e algodão doce e
que ela queria ver muuuuuito bicho! Muuuuuuito
mesmo! Analice ia respondendo com a-hã, lutando
ainda contra o sono que costumava só se dissipar
depois de uma xícara de café.
Pouco tempo depois de tomarem café, Analice
arrumou uma bolsa, mudou a roupa para sair em
Ana Beatriz, penteou e arrumou a menina.
Humberto já estava pronto e teria apenas de esperar
a esposa se arrumar. Mãe sempre fica por último.
Nesse ínterim, a campainha tocou. Era Lucinda.
Como de costume, vestia preto. Camiseta da banda
AC/DC, bermuda jeans rasgada, tênis All Star
pretos de cano longo, suas correntes e braceletes e a
maquiagem gótica. Humberto abriu a porta e pediu
que ela esperasse, que só faltava Analice acabar de
se arrumar. Esta era a mais animada de todos, pois
por incrível que pudesse parecer, a analista de
sistemas nunca visitara a Quinta da Boa Vista
antes. Ela havia nascido e passado a infância em
Belo Horizonte. Nesse instante, Ana Beatriz correu
para a janela da sala e olhou lá para baixo. Só
depois foi abraçar Lucinda.
A moça sentou-se no sofá e já ia conversar com Ana Beatriz, para diminuir seu desconforto diante
daquela situação nova com aquela família, quando
a menina disparou em direção ao quarto do irmão
gritando: Só falta o Enço! E não adiantou seu pai
pedir-lhe que não acordasse o irmão.
Em alguns minutos Lourenço surgiu na sala
com cara de sono, mas já de jeans e camiseta,
segurando um par de tênis para calçar e com Ana
Beatriz sorridente ao seu lado.
− Vai a algum lugar, filho? – perguntou
Humberto, apesar de já suspeitar a verdade.
− Vou ao zoológico com vocês.
− Não tá meio grandinho pra zoológico? Não
tem que estudar?
− Diz isso pra Bia – disse com voz de
derrotado, embora por dentro estivesse feliz com a
chantagem da irmã como desculpa, porque por
alguma razão que ele próprio desconhecia, ele
queria muito ir ao zoológico com eles e, tinha até ficado meio chateado de não o terem chamado para
ir. Seu lado infantil? Ciúmes da irmã? Não, aquilo
provavelmente tinha mais a ver com o fato de a
bruxinha ir. Só de olhar para ela no canto do sofá,
quieta como se fizesse parte da mobília, sentiu em
si o mesmo efeito que a cafeína fazia. Estava
completamente acordado. Aceso. Estranhamente
animado.
− Bia, filha, deixa seu irmão em paz. Ele não é
criança para ir ao zoológico... – interferiu Analice.
− A Lucinda também não é e vai...
− Mas ele tem que estudar... – O pai se meteu.
− Tudo bem, pai. Já tô arrumado, só vou tomar
um café.
− Viu, pai? Ele quer ir! – disse Bia com ar de
vitória.
Humberto encolheu os ombros e Lourenço
olhou meio de lado para Lucinda para ver se
decifrava alguma reprovação ou aprovação a sua ida, mas a moça olhava para o chão com a cabeça
baixa. Parecia mesmo evitar olhar para ele.
Os movimentos que se seguiram foram
semelhantes à movimentação que há em qualquer
lar quando se vai sair com a família: burburinho,
correria. Pega celular daqui, colocam-se coisas na
bolsa dali, um lembra o outro o que deve levar ou
pergunta se vai levar, enquanto a criança da casa,
no caso, Ana Beatriz, fica inquieta, impaciente e
começa a choramingar vamo logo!
Ah, um passeio em família! Quando todos se
acomodaram no carro, eles realmente eram uma